Capítulo IV
Ao outro dia instalou-se no Hotel Universal. Arrumou a sua escassa roupa branca na cômoda, pôs na jardineira, que cobria um velho pano de pelúcia, o caderno de papel branco, e penas novas, — e junto da janela aberta, enterrado numa poltrona, de molas rangentes, saturou-se das sensações do luxo ambiente que lhe davam os reps azuis, o espelho grande, os cortinados da cama, — o Chiado em baixo, com o seu movimento de rua rica: e aqueles confortos, traziam-lhe, como um enobrecimento da sua personalidade. Tinha às vezes uns indefinidos remorsos, pensando na pobreza em que as tias viviam; mas, que diabo, não era com o dinheiro delas que ele se regalava de bons jantares e pagava aquele quarto caro. E depois, esse luxo era-lhe necessário para a sua profissão literária, como um meio de reclamo e de estudo social. Sentia-se, todavia, um pouco só. Meirinho fora para o Porto, Melchior não aparecia e Artur não tinha voltado à redacção, porque, julgando-se conhecido desde que fora publicada a local do «Século», não queria mostrar-se sem o seu fato novo. Ocupou-se então em completar os Esmaltes e Jóias: tinha um plano de poesias novas, suscitado pela impressão que lhe fizera Lisboa — a Nova Babilónia, e o Galeão, em que queria versificar os vagos entusiasmos do tempo das Viagens e das Descobertas, inspirados pela música da Africana. Mas estava «sem veia». As comidas davam-lhe um lânguido bemestar enfartado que lhe entorpecia a imaginação, e o rumor do Chiado, a vaga sussurração da cidade, traziam-no numa distracção enleada. Com a janela aberta ao dia esplêndido de um Inverno luminoso, fumava, cismando em passeios, soirées a que assistiria, futuras críticas dos Esmaltes e Jóias, aplausos de teatro, gravatas que ambicionava — e com preguiça de trabalhar no seu livro, ficava-se a contemplar, numa vaga e distante fulguração, a celebridade que ele lhe traria. Por esse tempo recebeu uma carta do Rabecaz que o exaltou: a notícia do «Século» — de que ele remetera para Oliveira seis exemplares — tinha feito sensação na vila. Ao que
parecia, aqueles mesmos que nunca lhe tinham falado, afirmavam agora ter-lhe sempre compreendido o gênio e antevisto os altos destinos. O Vasco da botica lia a local a todos os fregueses «para que soubessem que espécie de homem era o seu ajudante». O Carneiro gabara-se na Assembleia de que lhe administrava a fortuna. «E eu» — concluía o Rabecaz — «que conheço Lisboa e a rapaziada, todos os dias digo bem alto a esta cambada, que você, e é a minha convicção, vai a ministro!» Como se aquela glória parcial de Oliveira tivesse saciado por algum tempo a sua gula de celebridade, abandonou todo o trabalho. O Vitorino, muito instado, urgido, mandara o fato; tinha comprado uma boquilha de espuma que representava uma cabeça de cocotte, e, como um cavaleiro impaciente de usar as suas armas, envergou a sobrecasaca nova, e começou «a gozar a rua». A sua vida tinha agora grandes doçuras: o seu melhor momento era, depois do almoço, quando se encostava à janela, a fumar o seu charuto: os dias estavam muito claros, com um pó doirado de luz; no Chiado, os pregões cantavam, os trens rolavam, e ele, no indolente entorpecimento da omeleta e do bife, olhava do alto, com a pupila húmida de bemestar, a vida em baixo reinar, mover-se, e atirava para o céu luminoso baforadas brancas do charuto caro. Depois, vestia-se com cuidado, encharcava-se de água-de-colônia, e, de luvas claras, ficava um momento à porta do hotel, saboreando a entrada larga, o guarda-portão decorativo; em seguida, ia à Casa Havanesa florir-se com uma camélia, e de boquilha em riste, fazendo vergar a badine, descia o Chiado, errava pela Baixa, dava uma volta no Aterro, numa moleza de vadiagem, procurando encontrá-la, a Ela. Mas todas as mulheres novas lha faziam esquecer, voltar-se, com a esperança indefinida de que ia ser amado por esta ou por aquela, impressionadas pela sua figura, pela sua sobrecasaca azul e pela local do «Século». Dava um olhar distraído às vitrinas dos livreiros — sentindo sempre, por um momento, o desejo agudo de produzir, ver-se impresso: voltavam-lhe então vagos desejos de celebridade literária, mas o rodar de uma carruagem de libré, os cortes de seda numa montra, dispersavam-lhos subitamente — e abandonava-se às ambições indefinidas que o agitavam agora, de frequentações ilustres, amores fidalgos, assinatura em S. Carlos e uma carruagem da Companhia. Depois, vinha de novo estacionar à porta da Casa Havanesa; e sentia um deleite
indefinido em estar ali, imóvel, vendo em redor grupos de deputados, de janotas, de empregados, dilatando-se às emanações intelectuais e sociais que lhe pareciam sair das conversações, dos perfis, das atitudes. Era sempre com uma satisfação vaidosa que, ao ouvir, às seis horas, a sineta do jantar, ia descendo para o hotel: já a tarde caía e aquele crepúsculo de cidade, à hora que precede o gás, tinha para ele um tom rico, superior, interessante. Da escada do hotel até à mesa saboreava triunfozinhos — o cumprimento do guarda-livros, o pisar do tapete do corredor, o lustre aceso, os ramos de flores no meio das mesas, o sorriso polido do Padilhão, o adeusinho com dois dedos do Carvalhosa, o respeito dos criados de gravata branca. Comia com um apetite provinciano e os nomes franceses dos pratos, aumentavam-lhes o sabor. Depois, farto, pesado, com uma vaga voluptuosidade, descia ao Martinho, olhando intensamente as mulheres que passavam, recebendo do movimento do Chiado uma vaga excitação. No café, encontrava geralmente solitário, diante da sua chávena, o sujeito de cabeleira semelhante a estopa negra, o Jácome Nazareno — o malandro, como dizia Melchior. Artur olhava-o com insistência, imaginando-o chefe de sociedades secretas, temido do Rei, vigiado pela polícia; aquele homem, que julgava ser uma força social, cuja vida, decerto, se movia num perigo dramático incessante, atraía-o com uma simpatia crescente. Ia sentar-se a alguma mesa próxima e espreitava-o por trás de um jornal desdobrado. A sua atitude isolada, fria, muda, dava-lhe a ideia de planos secretos, de preparativos de revolta, que punham na vida de Lisboa um lado pitoresco, parisiense, de insurreição e de tragédia. À noite, ia a S. Carlos. Tinha comprado um binóculo, e para gozar o cumprimento dos porteiros que já começavam a conhecê-lo, tomava sempre o mesmo lugar, do lado do Rei. De resto, encontrava às vezes o Saavedra e gostava de lhe apertar a mão publicamente. Depois, procurava-a, a Ela, pelos camarotes. Não a tornara a ver, mas o canto, as decorações, consolavam-no; todas as mulheres o impressionavam e amaria qualquer outra de quem recebesse um olhar como aquele que recebera da senhora do vestido de xadrez, na estação de Ovar; às vezes, acontecia que alguma senhora, num camarote próximo, atraída pelo seu
binóculo insistente, reparava nele, fixando-o um momento com curiosidade: Artur exaltava-se logo, entrevendo encontros providenciais, uma paixão dramática, lágrimas, poemas; depois, não pensava mais nisso: ela não tornava a olhar — e ele refugiava-se de novo na preocupação da sua desconhecida, como se o amor fosse um complemento tão necessário à frequentação da ópera, como a casaca ou a flor na lapela. Quando entrava, à noite, no seu quarto, vinha-lhe uma tristeza mole: a música, as luzes, a presença das senhoras, excitavam-lhe os nervos; o rolar dos trens, as janelas alumiadas do restaurante Silva, davam-lhe ideias de ceias, de rendez-vous nocturnos, e desconsolava-se da sua vida estéril, desejando amores fidalgos e orgias sonoras. Se tivesse um título! Se ao menos fosse camarista do Rei! E passeava pelo quarto, de casaca, retardando o momento de a despir, como se ela representasse a encarnação da vida social que o cativava. Certa manhã, descendo tarde para o almoço, encontrou na sala de jantar o Meirinho, que de madrugada chegara do Porto. Viram-se com júbilo. Que tinha ele feito, o amigo Artur? Tinha visto o maganão do Melchior? Tinha-se divertido? Artur queixou-se vagamente «de ter estado um bocado só»... — Ah, mas agora estou eu! — exclamou Meirinho afectuosamente. Pareceu reparar com satisfação na toilette mais correcta de Artur. Afirmou-lhe «que estava um janota» — e julgando-o, decerto, bastante bem-vestido para se relacionar, aconselhou-lhe que se fizesse sócio do Grémio. E se ele quisesse levava-o a casa de D. Joana Coutinho! Ela teria muito gosto! Artur fez-se rubro de alegria. E reconhecido, interessou-se pela jornada de Meirinho. Muito fatigado, decerto?... — Derreado, amigo — disse Meirinho lamentosamente. Suspirou: — Já não estou para estes excessos! Já não estou! — Ficou um momento a olhar a parede, como se ali visse, num desenho claro, a representação das suas antigas forças, e disse, pousando delicadamente o talher: — Pois olhe que fui forte, menino! Contou, então, proezas de vitalidade, que personagens ilustres tinham admirado: andar cinco dias de caminho-de-ferro, passar três noites em claro... E com um risinho lúbrico:
— E pior! pior! Descreveu façanhas amorosas... Ah, bons tempos! — Uma sombra do que fui, meu caro senhor! — E com um tom mais grave: — Em todo o caso, para prestar serviço a um amigo, ainda sou homem para andar um dia e uma noite... Sorveu o fundo do café, limpou a barba e, erguendo-se, espreguiçou-se: mas pediu logo desculpa daquele abandono familiar — que enfim, entre amigos, entre patrícios... — Que eu sou do Porto, sou da província... Riu, sem motivo, com a pele em redor dos olhos muito franzida. Achou a Artur melhor cara. — E o nosso bom Padilhão? Belo rapaz, hem? Venha fumar um charutinho cá acima ao meu quarto... Estava alojado no segundo andar. O quarto, mais largo, melhor que o de Artur, tinha um arranjo minucioso. Havia, metido num vaso, um espanador de penas, com que ele mesmo perseguia o pó nas frinchas mais cerradas. Entalados no caixilho do espelho, tinha todos os cartões-de-visita das pessoas que o visitavam, como a exposição heráldica das suas relações, sobre a cômoda, dispostos em semicírculo, em passe-partouts de marfim, figurava a galeria dos seus entusiasmos: — a Rainha, sentada no peitoril de uma janela ornada de hera, a Imperatriz Eugénia, fazendo um rosto digno de viúva ilustre, Mademoiselle Theo, das Bouffes, com um sinal assassino, quase na ponta do seio esquerdo, Pio IX, com o seu sorriso quente de pontífice amável, Paulo de Kock, de peliça, Vítor Emanuel, com a sua face de buldogue heróico — e sobre o toucador, uma pregadeira bordada a matiz ostentava um rótulo, como um objecto de museu: — oferecido no meu dia natalício pela nobre Marquesa de Folhes. Meirinho tinha-se estendido languidamente na poltrona e olhava com satisfação os seus chinelos bordados a missanga. Pela vidraça aberta, uma aragem enfunava os reps das bambinelas; defronte, numa janela de peitoril, uma criada sacudia um tapete e os ruídos da rua tinham uma tonalidade alegre, na manhã muito luminosa. — Como estará o cãozinho! — disse Meirinho com um sorriso comovido. Pediu licença a Artur para se tornar a espreguiçar, e olhando-o, batendo as pálpebras: — Está-me a chegar a
soneca. Quem lhe fez a sobrecasaca? está bem boa. Artur mirou-se no espelho: parecia-lhe boa, hem? — Muito boa! — E fitando-o gravemente, como numa resolução profunda: — Mas rica obra vou-lhe eu mostrar! Levantou-se com esforço e foi tirar do guarda-roupa atulhado um paletot leve, cor de café, com bandas de seda. Expô-lo à luz da janela, e muito sério: — Que me diz a esta riqueza? Artur soprou o fumo do charuto para o lado: — Muito bonito! — Hem? Pois posso ceder-lho. Artur, embaraçado, disse: — Não, não... — Posso ceder-lho! Palavra! — insistiu Meirinho. — E pelo preço, com franqueza! Nunca o pus. Não me tenho atrevido, é muito claro para a minha idade! Vista-o, vista-o! Ele mesmo lho enfiou rapidamente, com uma destreza serviçal de criado fino, assentoulho nas costas, esticou-o — e levando-o diante de um espelho: — Parece um príncipe! Hem, que chic? Foi feito para si, com certeza! Fique com ele, com franqueza... Cinco libras. É de graça. É de Paris, de um grande estabelecimento. Aqui não lho faziam. Artur, tentado pelo paletot e para condescender com o Meirinho, aceitava, corando, quando ele, com um gesto da mão espalmada: — Perdão, podemos fazer outra coisa. Foi à cômoda e trouxe solenemente uma pequena caixa de marroquim verde; e com uma lentidão grave: — Meu caro senhor, vai ver uma preciosidade! Era um par de pistolas, muito reluzentes, num fundo de veludilho preto. — Hem? Um primor. Fez jogar os fechos, colocou-se em atitude de duelo, depois em posição de suicídio. —
Que era para rir, ele não se queria matar: o homem que atentava contra a própria vida, era um ateu! Já ouvira essa opinião a pessoas muito instruídas — era um ateu! Depois, fez pontaria aqui, além; explicou a justeza do tiro... Nenhum rapaz elegante podia estar sem um par de pistolas. Em Lisboa era mesmo malvisto! Dava chic num toucador. O conde de Lambertini, o Alonso, Paulo de Cassagnac, Espeleta, todos os grandes atiradores de Paris tinham daquelas pistolas! O preço era prodigioso: cinco libras! Talvez não acreditasse, bem lhe via nos olhos que não acreditava. Pois era verdade, e a coisa explicava-se... Mas não a explicou: pôs-lhe a caixa na mão, dizendo: — Não falemos mais nisso. O paletot, o par de pistolas — dez libras. Que achado, hem? Mas enfim, fomos companheiros de viagem, vivemos no mesmo hotel, somos patrícios... Ora aí está! Artur, corando, disse que não tinha ali no bolso... — Tolice! — interrompeu Meirinho, com um grande gesto. — Logo, amanhã, quando quiser... Espreguiçou-se: positivamente ia fazer a soneca, que a viagem fora maçadora. Ah, tinhase lembrado dele... — Quando nós trouxemos o cãozinho, porque o amigo ajudou-me: eu disse-o à Sra.ª Marquesa de Folhes. — Sorriu na sua bela barba clara. — Como estará ele, o amor! – Bocejou enormemente: — Pois positivamente vou à soneca. E Artur, saindo com o paletot no braço e a caixa de pistolas na mão, ouviu-o ainda do corredor cantarolando melancolicamente: Si tu em avais rien a me dire Pourquoi venir auprès de moi!... Aquela despesa inesperada contrariou Artur. Já por vezes lhe tinham vindo inquietações de dinheiro... As libras iam-se, iam-se! Estava em Lisboa havia quinze dias e já gastara cinquenta libras! Em quê, Santo Deus? Pôs-se a escrever as despesas que recordava — o fato, o chapéu, a boquilha! Mas quê! faltavam dezoito, vinte libras talvez. Aterrou-se, quis recordar
quantas cadeiras em S. Carlos, quantas luvas, quantas tipóias... Confundiu-se, atirou a pena, impaciente, irritado contra a brutal evidência dos números. Decidiu-se, então, a uma economia cautelosa... Mas apenas na rua, sentia-se logo fraco, sem resistência contra as tentaçõezinhas, as pequenas vaidades: comprava «mais» um par de luvas, tomava em S. Carlos uma «cadeira», em lugar de uma «geral», decidindo sempre que seria a última vez. Desde que fora com Melchior ao Mata comer ostras, tomara o hábito daquela ceia, e para não perder a consideração do criado, apesar dos seus remorsos bebia um Sauternes caro e dava dois tostões de gorjeta. Justificava-se vagamente, pensando que a publicação dos Esmaltes e Jóias, a representação dos Amores de Poeta, encheriam de novo os cartuchinhos de libras que tinha no fundo do baú, alguns já com o papel vazio e amarrotado. A conta do hotel que lhe foi apresentada por esses dias, decidiu-o a ir falar com Melchior para a impressão imediata do volume. Queria-se mesmo mal por aqueles remansos ociosos, gastos na rua: o drama, representado, dar-lhe-ia todas as noites seis ou sete libras e via já o seu retrato vendido nas lojas, os folhetins cheios da sua biografia. Já àquela hora poderia ter os seus recursos regularizados, ser conhecido de Ela! E numa súbita impaciência, foi à redacção do «Século». No começo da Rua do Correio, porém, encontrou Melchior. Vinha com um indivíduo baixo e cheio, de barba preta, fina, a carne mole e baça, as pálpebras inflamadas; a fita do chapéu era gordurosa e o colarinho parecia enxovalhado de roçar no pescoço gordinho; sobre o peito do jaquetão abotoado, pendia um pince-nez enorme de vidros defumados, preso por uma larga fita de moiré. Era o poeta Roma, autor estimado dos Idílios e Devaneios. Teve apenas para Artur um movimento seco de cabeça. E quando Melchior lhe disse que o amigo Artur estivera em Coimbra, teve um sorrisinho franzido, um pouco fungado, e em toda a sua pessoa roliça uma reserva mole. Parecia constipado e de vez em quando ajeitava as calças para cima, com um gesto torpe. — Ideias muito exaltadas cá o amigo! — disse Melchior, batendo no ombro de Artur. — Esperemos que não nos venha fuzilar! — acudiu o Roma. Quando falava, torcia
ligeiramente a boca. Artur fez-se escarlate. E constrangido pelo aspecto do Roma, disse a Melchior «que ia ali ao Correio», perguntando «quando se poderiam encontrar»? — Homem, não se incomode, vou jantar com você. Às seis, hem? Artur sentiu o Roma dar uma risadinha, ao travar o braço de Melchior. Voltou-se e o poeta, pelas costas, pareceu-lhe mais odioso ainda, com os quadris gordos, as calças esfiadas atrás, a cabeleira seca, cobrindo um cachaço espesso. Melchior foi pontual, e logo da porta, deitando o chapéu para a nuca: — Diga cá. Você teve alguma coisa com o Roma? — Não... Nada. Era a primeira vez que o via! — Pareceu-me — disse Melchior. E acrescentou, com palavras vagas, que a rapaziada devia ser unida. Questões literárias não serviam para nada... E atirando-se para a poltrona: — Então que me queria você dizer: Artur explicou: desejava fazer imprimir os Esmaltes e Jóias. Segundo Melchior, nada mais fácil: o Gonçalves, o revisor, o das barbas, um espertalhão, levava-os aos Castros, que lhe faziam um volume catita; depois, o Gonçalves se encarregaria de o pôr nos livreiros à comissão. Lá em editor nem pensar... Um editor para um livro de poesias — era mais fácil achar um diamante no Chiado. Que se fiasse nele! Artur concordou, e falou dos Amores de Poeta: desejava fazer uma leitura a um diretor de teatro. O melhor parecia-lhe o D. Maria... Melchior, fazendo beiços grossos, cofiava o bigode, calado. — Isso é mais sério — murmurou por fim. Artur olhava-o quase ansiosamente. — É mais sério — repetiu o outro, com um bamboleamento grave da cabeça. Mas a sineta do jantar tocou, e Melchior ergueu-se de um salto: — estava a cair de fome! E lavando ruidosamente as mãos: — Havemos de pensar nisso. Isso é mais sério!
Por timidez Artur não insistiu, e mesmo, tirando-lhe a escova das mãos, escovou- lhe nas costas o jaquetão claro. A extremidade da mesa, junto à porta, estava deserta: sentaram-se ali, e logo depois Meirinho apareceu, esfregando as mãos, jovial, refeito pela soneca; daí a pouco entrou o Padilhão, grave, e, como disse Melchior, «fizeram uma panelinha catita». Artur, no centro, dilatava-se de prazer. Logo depois da sopa, que era uma má purée de petits pois, e a propósito da nomenclatura francesa dos menus, Meirinho contou anedotas de Paris: era muito bonapartista. Segundo ele, «depois do Império, a França decaía a olhos vistos, Paris já não era Paris». Era também a opinião do Padilhão, que tinha ideias católicas e o amor da aristocracia. Lembrando o Império, Meirinho contou uma história, ligeiramente obscena, da Princesa Matilde, «que era de resto uma excelente senhora». Vieram anedotas sujas: Melchior disse a do padre surpreendido pelo marido, Meirinho acudiu com a do padeiro e o Padilhão, com a sua bela face pálida, contou, imitando as vozes, a da inglesa e do gendarme. A cada trecho mais torpe, torciam-se de hilaridade: às vezes ficavam sobre os pratos, fungando ainda um momento do sabor da indecência. Aquilo punha ali um canto privilegiado de alegria chula, e sujeitos graves, no fundo da mesa, mastigando, olhavam com inveja aquele grupo divertido, todo próspero de riso e de chalaça. Um indivíduo de óculos reclamou mesmo, do topo da mesa, que «contassem alto». — Isto é cá para nós — gritou Meirinho — isto é cá para a panelinha! Artur recostou-se com satisfação, feliz de ser «da panelinha». Ria exageradamente: contou também uma porcaria e ficou lisonjeado da gargalhada do Meirinho, do riso solene do Padilhão. Acharam-no engraçado. Então Meirinho lembrou que ele devia pagar a patente, com uma garrafinha de Champagne, mas acrescentou logo, batendo-lhe na perna, que estava a brincar, que era chalaça. Artur porém, insistia — queria pagar a patente — e Meirinho, imediatamente, pediu uma garrafa de Cliquot. Foi um momento muito cordial de simpatia expansiva. — Você calha-me, Artur — dizia-lhe Melchior; e como Meirinho e Padilhão falavam de relações, de soirées:
— Sabe você o que me parece? É que antes de levar o drama ao D. Maria, você devia conhecer a rapaziada. Mas como? Ele não podia ir em romaria, pelas casas dos poetas, dos folhetinistas, apertar mãos, travar amizades!... — Tem-me estado a lembrar — disse Melchior, pondo o cotovelo na mesa, falando-lhe muito intimamente — é necessário apanhá-los juntos. Sabe como? Num jantarinho. E muito prolixamente explicou que os literatos eram uns esquisitos. Necessitavam de considerações. Não havia como um jantar: — Você convida os principais, e antes da sopa, zás, lê-lhes as principais passagens do drama. Ao outro dia a imprensa fala, a coisa chega aos ouvidos dos empresários, já prevenidos: e como o drama é bom, traz! Logo em seguida, distribuiçãozinha dos papéis, etc., etc... Artur, radiante, via-se já no palco, cercado de actrizes lindas, distribuindo criações! — E depois, há o prazer do jantar — acrescentava Melchior. — Veja você o que nos temos divertido hoje. E então estando a rapaziada! São anedotas, chalaças, saúdes, uma pândega imperial. Que diabo, são oito ou dez libras! Artur encolheu desdenhosamente os ombros. — Pois não lhe parece, Meirinho? Meirinho, esclarecido, concordou com entusiasmo. Era como se fazia em Paris. Era chic, era de gentleman. Podia-se arranjar um jantarinho delicioso. Era deixar a coisa com ele... Artur calava-se. Via-se à cabeceira de uma mesa resplandecente e os literatos erguendo para ele, num toast frenético, os copos esguios do champagne! — Há uma dificuldade — disse Melchior. — É que aqui o amigo não conhece ninguém e não pode convidar... Convidar quem? Se ele não conhece ninguém. Aí é que está! Meirinho refletiu, passando a mão pela barba. — É contra a etiqueta — murmurou. Padilhão, consultado, afirmou que era «inteiramente fora dos hábitos». — É o diabo! — rosnou Melchior.
E calados, um instante, no embaraço daquela dificuldade, iam mastigando o pudim. De repente Melchior bateu na testa. Uma ideia! O meio era convidar ele! Ele conhecia toda a rapaziada, convidava, apresentava Artur, que era o herói da festa, lia o seu drama, etc... Hem? — E acrescentou baixo: — Você, já se sabe, paga o jantar; eu convido, e zás! Hem? Catita, não? Meirinho aprovou: era o melhor! E muito juntos, cochicharam, combinando a festa. — Que diabo estão vocês para aí a conspirar? — perguntou o sujeito de óculos, que decerto se aborrecia no topo da mesa e que aquela animação íntima, limitada aos da «panelinha», irritava. — Nada! Depois se verá! — disse Melchior. Meirinho, muito interessado, tinha agarrado na manga de Artur: — Uma coisa elegante — dizia — duas sopas, hors-de oeuvres, duas entradas, assado, caça, entremets, um jantarinho para quinze libras... Artur assustou-se com o preço... Mas os aplausos! A publicidade! Disse mesmo, para parecer largo: — Sim, quinze ou dezasseis libras... Meirinho chegou-se-lhe ao ouvido: — É necessário convidar o Padilhão, homem da sociedade. — E o Saavedra — acrescentou Melchior, do outro lado — pessoa de influência. — Com o menu impresso — lembrou Meirinho. — Para ir para os jornais — acudiu Melchior. E esfregou as mãos com grande júbilo. — O jantarinho de casaca — disse Meirinho. Melchior que tinha a casaca no prego, escandalizou-se: isso estragava tudo! Era um jantar de rapazes, sem espalhafato. Nada de poses! Esboçaram a lista dos convidados. Naturalmente os quatro, «a panelinha». Depois, Meirinho lembrou pessoas tão inúteis como o velho D. Frederico. Cada um queria trazer o seu íntimo. Enfim, Melchior, conciliador, disse:
— Você é quem dirige o jantar, Meirinho, mas eu sou quem convida. Eu é que sei que rapaziada se precisa. Divisão de trabalho! Cada um na sua repartição! — Há-de ter um jantarinho falado — afirmou Meirinho. — E uma sociedade!... — disse Melchior. E deu um assobio admirativo. Deslumbravam Artur. Iam aperfeiçoando o plano primitivo: além da leitura, poderia haver música; seria necessário convidar o Sarrotini; para fazer um brinde à imprensa, convidase o Carvalhosa! E Artur via elevar-se pouco a pouco aquela festa, como um grande troféu que se orna. Melchior acabou por afirmar que a coisa «havia de dar brado no país!» E combinaram com o guarda-livros, que o jantar seria na segunda-feira, às seis horas. Quando Artur e Melchior entraram no salão reservado, «para ver a mesa», Meirinho, atarefado, dispunha ele mesmo na abertura dos guardanapos raminhos de violetas, com botões de camélia. A luz abundante do lustre e das serpentinas, os grupos de copos, as lâminas das facas tinham uma faiscação alegre, atraente, sobre o linho branco da toalha. No pesado aparador de mogno, diante de duas filas escuras de garrafas, estavam dispostos os pratos de ostras. Havia um cheiro de creme queimado, em que errava subtilmente um fiozinho de limão. As duas velas do piano estavam acesas, porque Sarrotini prometera uma ária. Melchior, entusiasmado, pôs-se diante de Meirinho, batendo devagarinho as palmas, com a face banhada num largo sorriso: — Bravo! Bravo! Bravo! Meirinho curvou-se profundamente. — Muita experienciazinha — murmurou — muita experienciazinha! — E mostrou o menu, em cartão acetinado, tendo no alto, em letras douradas: Jantar Literário do dia 15 de Dezembro. — Real! — disse Melchior triunfante. Estava de sobrecasaca, com uma grande camélia branca na lapela. Chamava os criados, contava as garrafas de champagne, falava «nos seus convidados»: de resto, no hotel, dizia-se «o jantar do Melchior». Ele próprio afirmara num grupo, no corredor, que havia de mostrar «a esses senhores o que era dar um jantar chic» — e
mesmo perguntava-se baixo onde arranjaria Melchior o dinheiro para pagar aquela festa... Artur, no entanto, estava muito nervoso. Ensaiara-se toda a manhã, declamando cenas dos Amores de Poeta; certas frases sonoras davam-lhe a certeza dos aplausos, mas outras vezes tremia, pensando em faces desconhecidas, entreabrindo bocejos fatigados. Preparara alguns períodos literários para o brinde e só desejava que toda Oliveira de Azeméis pudesse estar, de longe, vendo-o no centro da mesa, entre flores e luzes, aclamado pela Capital! Quando o relógio deu as seis horas, o estômago contraiu-se-lhe de emoção. O primeiro que apareceu foi o folhetinista Xavier: debaixo de um nariz grosso, o bigode farto, muito horizontal, tinha a espessura de um rolo de crepe; de face escavada e as fontes reentrantes, usava lunetas defumadas, com o cordão passado atrás da orelha; debaixo do fato preto, adivinhava-se um esqueleto quase sem carne. Melchior apresentou-lhe logo Artur: — Tem um drama, cá o amigo, e vai-nos fazer logo uma leiturazinha... Interrompeu-se, correu a apertar a mão do actor Cordeiro, um moço galante, tímido, que, com a cabeça uru pouco de lado, torcia constantemente, num gesto maquinal, um pequeno buço castanho. — Drama histórico? — perguntou Xavier a Artur. — Moderno... — Em que gênero? Mas o Padilhão, que entrara solenemente, veio bater no ombro de Artur paternalmente; apresentava-se de casaca, com a pequena cruz de cavaleiro de Cristo. O Xavier reparou — e fazendo saltar com o dedo a cruzinha: — Graçazinha régia, hem? Padilhão escorregou pelo canto do olho um olhar satisfeito à condecoração, e grave:— Foi o Ministro do Reino, à força: que a havia de ter, que a havia de ter! Vá lá! Viu-me fazer imitações em casa de D. Joana Coutinho, gostou... Aceitei! — E como vai D. Joana, essa sílfide? — perguntou Xavier. Padilhão pareceu chocado daquela expressão familiar, fez-se sério, disse:
— Um pouco encatarroada! — girou sobre os calcanhares e afastou-se limpando os beiços a um lenço de monograma bordado. — Grande tipo! — disse Xavier a Artur. — Aí temos o ilustre Sarrotini. O cantor entrava com as bandas da sobrecasaca deitadas para trás, o arco do peito saliente no colete decotado, uma vermelhidão próspera na pele, o olho chamejante. Deu um abraço a Xavier, que lhe sacudiu todo o esqueleto, beijou, com escândalo de todos, a face bonita de Cordeiro, que corou como uma virgem, e com gestos de palco e voz dominante, ia dizendo para os lados: diletto amico! Caríssimo! Hijo mio! Levantou ao ar Meirinho, que gritou, perneando; riram, falaram de forças. O Sarrotini foi logo erguer pelo pé uma cadeira e conservou-a no ar, com o braço retesado, a face purpúrea. Depois, pediu vermouth e exclamou: Portucallo e Itália siamo fratelli! Achavam-no um maganão delicioso. No entanto, Artur reparara num indivíduo barrigudo e calvo, que de mãos atrás das costas e passinhos subtis, ia rodando em volta da mesa, das ostras, das garrafas, com um rosto farejante e desconfiado. Ia perguntar a Melchior quem era — quando Saavedra entrou. Rodearam-no logo. E ele, com a cabeça erecta, consciente da sua importância, o olhar protetor, dizia chalaceando: — Então, que lhes parece o meu Melchior? Que chic que deita! hem? Sarrotini passava-lhe a mão pelo ombro, apossava-se dele, dava-lhe nomes carinhosos: el gran periodista! diletto amico! Mas Cordeiro arrebatou-lho, levou-o para ao pé da janela, cochicharam: — Você percebe, Saavedra, a rapariguita tem talento, é necessário animá-la. Vai ter um papel na Princesa Juska... Saavedra prometeu, com bondade, a proteção do «Século». — É você quem lavra aquilo? — perguntou. Cordeiro negou languidamente. — Seu sultão! — disse Saavedra rindo. E com um movimento desdenhoso dos beiços:— É um feixezito de ossos: eu gosto de carne mais almofadada.
No entanto, junto do aparador, Meirinho e Melchior pareciam questionar vivamente. Artur, inquieto, aproximou-se. — Estão-se a estragar, estão-se a estragar! dizia Meirinho, excitado. E voltando-se para Artur: — Com o calor, com as luzes, estragam-se. É necessário começar já. Melchior insistia, mas frouxamente: enfim, primeiro a leitura do drama. Senão depois... — Depois, depois! — exclamou abafadamente o Meirinho. — O drama pode esperar. As ostras é que não podem esperar, amolecem... Artur ficou aterrado, pálido: tanta despesa e não fazer a leitura! Olhou para o jornalista tão suplicantemente, que Melchior, compadecido, teimou: primeiro o drama, as ostras que as leve o diabo. Meirinho recuou, olhou-os ambos com rancor. E com um grande gesto: — Bem! É um jantar perdido! Eu não me responsabilizo por mais coisa nenhuma! E ia sair, furioso, quando esbarrou com o Roma. O poeta entrava devagar, com o seu ar de vago despeito tão singular num homem nédio, descalçando as luvas pretas. Pareceu não reparar em Artur. Deu um olhar de Lado à mesa, e ajeitando um raminho de alecrim que trazia na lapela, aproximou-se de Xavier, puxando as calças para cima com o seu gesto torpe. — Ecco el eggregio oratore! — fez Sarrotini com uma voz possante que dominou o rumor. Era o Carvalhosa. Vinha abafado num cache-nez roxo e parecia descontente. Disse logo a Melchior que tinha vindo por grande favor, pois que apanhara uma constipação e precisava cautelas. E palpava a garganta, olhando em volta, desconfiado, procurando uma corrente de ar, uma fresta traiçoeira. — Isto é um órgão sério — disse para Sarrotini — com a diferença que para os senhores é questão de notas e para nós, de ideias... E depois de soltar a sua frase, veio para Artur, estendendo-lhe negligentemente a mão: — Como vai o amigo? Artur interessou-se servilmente pela sua garganta. Não era nada de cuidado, decerto... — Porque se espera? — perguntou-lhe Carvalhosa, baixo, franzindo o nariz.
Artur, corando, balbuciou: — Não sei. Melchior aproximava-se radiante e batendo uma palmada no ombro de Artur: — Cá o amigo vai-nos ler o seu drama! Carvalhosa pareceu interdito, fez: — Ah! E foi andando, com olhares para a mesa, para as garrafas, direito ao grupo ruidoso, onde Xavier gesticulava: — Então — disse Carvalhosa baixo, indignado — temos uma estopada de um drama? Os outros encolheram os ombros com uma resignação sombria. Roma achava aquilo uma partida indecente do Melchior. E era em cinco atos! O Xavier propunha que se fizesse um abaixo-assinado pedindo a sopa. Se se fizesse intervir a polícia?... Chamaram Melchior, cercaram-no, com olhares interpelantes, sacudiram-no. Que escândalo era aquele de lhes impingir um drama? Convidar pessoas inofensivas, desprevenidas... — Oh, rapazes, por quem sois! — suplicava Melchior. — Então, era uma fatalidade! O diabo do Artur viera-lhe recomendado, prometera-lhe. O rapaz tinha trazido o manuscrito. De resto eram só duas cenas. — Nem duas sílabas! — disse com furor o Carvalhosa. — Eu vou falar! Melchior, aflito, agarrou-lhe o braço. — Oh, filho, pelo amor de Deus! Que me comprometes! Ih, Jesus, que desgosto! É um instante, coitado do rapaz! E falava-lhe ao ouvido. Havia risinhos fungados. Artur, pálido, via de longe aquele grupo, e sentindo que ali se tramava alguma coisa de funesto para os Amores de Poeta e para a sua própria dignidade, errava pela sala com as faces abrasadas. Viu de repente Melchior desembaraçar-se do grupo, correr para a porta e abraçar um sujeito grosso e rubicundo, de xale-manta, o ar hílare e nédio... Era um tio de Melchior. Proprietário em Beja, exaltado pelas questões da política local, ardendo num ódio de
província pelo Governador Civil, fundara um jornal de oposição, A Voz do Distrito, e não tendo encontrado em Beja um escritor bastante eloquente para lhe pôr em períodos floridos os insultos à autoridade — vinha procurar a Lisboa um estilista. Oferecia trinta e seis mil-réis por mês e casa de habitação com hortaliça. Melchior convidara-o, para lhe fazer admirar o seu jantar, a sua posição social, relacioná-lo com literatos, e, enchendo-o de Champagne, dar-lhe uma disposição propícia às doze libras que lhe queria pedir. Foi logo apresentá-lo ao Xavier, ao Carvalhosa, ao Saavedra. — Meu tio António de Moura, chefe da oposição em Beja, muito conhecido... Desembaraçava-o com carinho do xale-manta, abraçava-o; e repetia arregalando os olhos para os lados: — Muita influência no Distrito... muita influência! Mas vendo entrar um oficial de lanceiros, de peito enchumaçado e bigodes ferozes, exclamou: — Viva o exército! Estamos todos! Está toda a bela rapaziada! No meio do grupo dos literatos, o tio António, muito à vontade, com um risinho fino, explicava as condições em que queria um escritor: destemido, com palavreado, e sem escrúpulos, para dar para baixo. E contava com prolixidade as suas queixas do Governador Civil, a questão da Junta de Paróquia, do muro do cemitério, do regedor de Reguengos. — Heide dar cabo deles — dizia, sacudindo a mãozinha gorda. Em redor chalaceavam, queriam «desfrutá-lo». Xavier aconselhava-o a que se dirigisse a Alexandre Herculano. Porque não escrevia a Vítor Hugo? Vítor Hugo era o sujeito que lhe estava a calhar! O tio António ria com bonomia, uma ponta de velhacaria nos olhinhos luzidios: — Qual, quer-se um rapazola como os senhores, que ladre, que ladre! E que morda! Eh! Eh! Eh! Artur ia de grupo em grupo: sentia, aflito, uma vaga brutalidade ambiente; batia-lhe o coração cada vez que via um olhar impaciente voltar-se para o relógio, ou uma boca abrir-se devagar num bocejo de debilidade. Aproximou-se um momento de Sarrotini, que, cercado,
muito admirado, entre risos, fazia a imitação de um moscardo perseguido: encolhia-se, como no susto de ser mordido, atirava a mão bruscamente para o agarrar, olhando para o ar, a face atenta; depois, de repente, dava uma palmada no joelho para o esmagar... mas o moscardo, escapo, punha sobre o grupo um zumbido acre, dormente, contínuo. Admiravam-no, riam. Padilhão, com a testa franzida num vinco de reflexão crítica, murmurou: — De artista, de artista! — E tirando o relógio, voltou-se para Artur: — O Melchior? Está-se a fazer tarde, que diabo! Artur, fingindo que ia buscar Melchior, afastou-se, rubro. Receava agora que não fosse possível fazer a leitura e vinha-lhe a amargura do desespero. Por uma curiosidade simpática, aproximou-se do sujeito calvo, de fato claro. Estabelecera-se entre eles, por olhares repetidos, uma afinidade: eram os mais obscuros, os mais isolados. — Muito bonito tempo — disse Artur, sorrindo. — Lindo — disse o calvo. — E logo mais baixo: — Diga-me cá, porque se espera? Ouvi falar que tínhamos leitura... Que estopada, hem? Artur fez-se escarlate. Mas nesse momento Melchior bateu as palmas: rostos voltaramse com curiosidade. — Meus senhores... — começou Melchior, junto da mesa, numa atitude grave. Mas vozes romperam, chalaceando: o Melchior deita fala! Ora adeus! Menos eloquência e mais sopa! Não seja tolo, seu Melchior! Melchior, irritado, bateu fortemente com uma faca na mesa. Roma disse alto: — Respeito ao grande orador! Todos riram. — Meus senhores — recomeçou Melchior — aqui o meu amigo Artur Corvelo, vai— nos ler o seu drama, isto é, duas ou três cenas do seu drama! Houve um silêncio côncavo, hostil. Meirinho, que falava baixo com o guarda-livros, ergueu a face para soltar um isolado: muito bem! apoiado! Tinham arredado dois talheres na mesa, e ao pé de um castiçal estava o manuscrito aberto. Artur sentou-se. Tremia todo. Receava que lhe faltasse a voz, que lágrimas nervosas
rompessem. Melchior ia de um a outro pedindo baixo, por caridade, que se sentassem, que tivessem paciência, era um instantinho... — Maldito! — murmurou Xavier com raiva. — Canalha! — fez o Roma, dando-lhe um canelão. Carvalhosa beliscou-o: — Hás-de-mas pagar, assassino! Ele torcia-se, tinha olhares ansiosamente suplicantes: — Oh, filhos, por quem sois! E um momento! Pelo amor de Deus! Sejam decentes! Artur, lívido, sentia a hostilidade. Mas não ler agora, poderia parecer uma desfeita... Depois contava dominá-los pela eloquência do drama. Fez um esforço e disse numa voz baixa, estrangulada: — Eu não leio tudo... — Sim — acudiram logo. — Uma ou duas cenas, para fazer ideia! Melchior, por trás da cadeira de Artur, revirava olhos imploradores. As cadeiras enfileiravam-se em semicírculo: o tio António, com as mãos nos joelhos muito separados, arregalava os olhos na sua face nédia; Sarrotini arqueava o busto forte, os braços soberbamente cruzados sobre o peito; Carvalhosa apalpava a garganta, com olhares desconfiados para a porta, para as janelas; Roma, com as pernas muito estendidas, os pés cruzados, conservava a mão sobre a boca, como para esconder bocejos prováveis; havia queixos melancolicamente descaídos sobre as gravatas; os olhares tinham uma resignação mole. E o guarda-livros, andando em bicos de pés, acabava de dispor uma nova, densa fileira de garrafas sobre o aparador. Para Artur, aqueles rostos em linha eram quase pavorosos. Tinha explicado, trêmulo, que os Amores de Poeta eram a luta entre o talento e os preconceitos sociais. — Álvaro, um poeta, ama a duquesa de S. Romualdo... Padilhão pulou: — Ora essa! E então o que há-de pensar a Sra.ª Condessa de S. Romualdo, uma senhora
respeitabilíssima! Artur, atarantado, balbuciou: — É duquesa... — Duquesa ou condessa. E um título da casa, um título antiquíssimo. Sou relação da família, pessoas da primeira sociedade... Concordaram, em redor, que era preciso mudar o título. Então todos falaram, numa balbúrdia, que era a desforra do silêncio forçado, lembrando títulos: duquesa de Val-Formoso — Não! Duquesa de Pedras-Negras — Qual! Duquesa da Casa -Santa... Enfim, decidiu-se que fosse simplesmente — a Duquesa! Aquele interesse pelo título, animou Artur. Prosseguiu, mais seguro: — O que lhes vou agora ler, é quando o Poeta fez, em casa da duquesa, o elogio da poesia... E, enfim, verão... E numa soirée: O CONDE DE S. SALVADOR Leu os «Céus Estrelados», marquesa? A MARQUESA de ALVARENGA (despeitada) Até acho impertinente que mo pergunte, conde! Uma pessoa do meu nascimento e da minha educação, não toca nem com luvas... O VISCONDE DE FREIXAL (gaguejando) A ma-arquesa e-em que-estões de es-es-trelados só-ó o-vos! Todos riram. Muito bem! muito bem! O Meirinho afectava torcer-se. Atiraram-lhe mesmo um chut severo! — Deixem-me saborear, deixem-me saborear — dizia sufocado, com as mãos nas ilhargas. — Magnífico! Artur, aquecendo, continuou já com inflexões teatrais:
O DUQUE A Marquesa tem razão. Platão excluía os poetas da sua república e Platão, a meu ver, era um homem de espírito e um estadista. De que servem os poetas? O POETA (que conversava baixo com a Duquesa, erguendo-se arrebatadamente) De que servem, Sr. Duque? A DUQUESA (baixo) Álvaro, por quem és, não o irrites que nos perdes! O POETA (sem a escutar) De que servem? Semeiam o Ideal! E o poeta, decerto de pé, com gestos nobres, fazia o elogio da Poesia. Amaldiçoava os Preconceitos, as Inscrições, os Fundos Públicos, os Bancos, todo o materialismo econômico. Acusava os fidalgos, seguramente cabisbaixos, de não compreenderem a alma da Natureza, o que dialogam as aves com as flores e o que diz o vento aos pinheirais. «De que vos servem os vossos castelos, o vosso ouro, as vossas librés?» — perguntava desgrenhado. «Que almas tendes consolado? Que lágrimas enxugado?» Artur, agora, levantado nas ondulações da retórica, tinha ênfases de voz, e o seu olhar, os seus gestos, dirigiam-se sobretudo ao poeta Roma, como para ganhar a simpatia do versificador, incensando-o com aquela glorificação da rima. Mas Roma tinha posto o seu enorme pince-nez e na sua posição estendida, fixava os vidros de reflexos sombrios, na ponta romba dos botins. Quando o Poeta invocava Deus, inclinou-se para o Carvalhosa e murmurou: — Que besta! Que burro! O Carvalhosa, que a cada momento apalpava o enfartamento das glândulas, encolheu os ombros com uma resignação sombria; todavia, secretamente, aquele estilo às empolas agradava-lhe como orador; e a Saavedra também, que, bamboleando a perna traçada, afectava uma distracção elevada, preocupações políticas. Só o Cordeiro admirava
francamente, mediante atitudes de actor, em concordância com a eloquência da prosa. Padilhão mexia-se na cadeira, indignado, vendo em cada frase insultos aos titulares das suas relações; e ao pé, o tio António, com os braços gordos e curtos cruzados, cerrava os olhos, como se a cadência dos períodos lhe desse a sonolência de um embalar soporífero de berço. Quando Artur, ofegante, terminou a cena, só Melchior e Meirinho tiveram bravos! Depois de uma pausa, Artur começou a ler o ato do Baile de Máscaras. Era longo: passava-se no palácio do Duque, num lugar indeterminado, na Baixa, com terraços sobre um rio desconhecido de balada. Pelas rubricas, parecia ser uma festa veneziana da Renascença: urna máscara vestida de trovador cantava uma serenata, dois napolitanos dançavam a tarantela, pajens circulavam com taças de vinho de Siracusa, um bobo roubava com destreza a bolsa aos cavaleiros, e no fundo passava um barco, em que flautas e rabecas alternavam com uma voz de mulher, cantando, na noite, versos de Petrarca. Xavier, experiente do teatro, comprimia o riso, roxo. Havia diálogos singulares: «Marquesa, dizia um dominó, não sente nesta festa errar um pressentimento de morte?» A Marquesa respondia, passando, a arrastar brocados: — «O amor é um goivo que floresce numa caveira! Dois fidalgos desciam à cena: 1º FIDALGO Como se portou contigo o destino, no sarau da Princesa? 2º FIDALGO Perdi seis mil cruzados aos dados! Quando Artur leu a apóstrofe do Duque, depois de atirar a luva ao Poeta: «Quem ousar erguer os olhos para a Duquesa de S. Romualdo, pode encomendar a mortalha!» — houve um rumor lento, lânguido de: muito bem! muito bonito! de muito efeito! — Os literatos estavam tranquilos, o ato era idiota, o Artur inofensivo, e gozavam com atitudes recostadas, faces risonhas, a evidência daquela mediocridade. Excelente drama para ser representado numa
Assembleia de província, por curiosos de uma filarmônica. Pobre tolo! O Roma cofiava a barba com deleite. Algumas cenas do quarto ato na casa do Poeta, na véspera do duelo, com uma mãe humilde, criatura sacrificada, fatigaram: Sarrotini torcia-se na cadeira, impaciente do silêncio, da imobilidade. O alferes bocejava sem pudor; puxavam-se os relógios às furtadelas; havia olhares desesperados para o aparador; Carvalhosa, com os cotovelos nos joelhos, enterrava a cabeça nas mãos; e Artur, sentindo o tédio ambiente descer-lhe sobre o cérebro como um pano gelado, apressou-se a dizer: — Agora vou ler o duelo! Houve uma respiração aliviada: com a morte do Poeta, chegava decerto o fim! Artur prosseguiu com uma voz lúgubre: — «Um cemitério. Cruzes, campas, ciprestes. Vem rompendo a madrugada. Um coveiro afasta-se com a enxada ao ombro, cantando». E ele mesmo cantou uma melodia singularmente triste, tocante: Nascem goivos a-a-ah! Nascem rosas nas sepulturas. Morte eterna, morte eterna, Vida que tão pouco duras! — Bravo! — gritou Sarrotini. A melodia impressionara. Artur explicou que realmente a ouvira a um coveiro, no cemitério de Oliveira. Extasiaram-se: ele repetiu-a. E aquela toada, de um vago melancólico, punha ali, na sala, sob o gás, um relance de cemitério de aldeia, num cair de tarde triste. Animado, Artur começou o monólogo do Poeta, que entrava envolvido numa capa e pousava sobre uma campa duas espadas. As fisionomias recaíram numa fadiga mole, havia uma prostração de fome: o Xavier que sofria do estômago, não se contivera, e, em bicos de pés, fora tirar da mesa passas e amêndoas, partilhando-as com Saavedra que se mexia na cadeira, desesperado; o oficial de lanceiros então foi buscar uma bucha de pão; o Meirinho
desaparecera. O grito do Poeta, ao ser atravessado pelo florete do Duque, espalhou nos rostos uma alegria agradecida. O Poeta expirava; a Duquesa corria, vestida de branco, de entre os ciprestes. Era a cena mais trabalhada, que lhe custara um mês de rascunhos, de vigílias. Leu-a, trêmulo; às últimas palavras do Poeta, estava pálido de emoção, e a vela de estearina, ao lado, fazia parecer a sua face mais macilenta — como se lhe espelhasse no rosto a agonia do personagem: O POETA Adeus, anjo! Deus te pague toda a felicidade que me deste na Terra. Tu foste a gota de água no deserto, a estrela de alva na cerração. Se alguma vez, nas festas do teu palácio, entre as valsas, os madrigais e os cortesãos, te vier à ideia o poeta que na campa fria é pasto dos vermes, chora e diz contigo: ninguém, como ele, ninguém sabia amar! Velo uma luz... E a pátria divina! Júlia, a tua mão! Oh, sofro! Adeus! Ah! (um grito, morre). A DUQUESA (caindo de joelhos) Oh, bem-amado, a minha alma vai contigo e este corpo miserável irá fenecer na solidão de um claustro! (CAI O PANO) Ergueram-se com ruído. Havia como que um reconhecimento pela «estopada finda». Artur muito pálido, de pé, com os olhos brilhantes; fitava uns e outros. — Muito bem! Muito bem! Mas Roma estava desesperado. No final, reconhecera emoção, ideal, estilo; e muito perfidamente: — A pilhéria dos ovos é uma obra-prima! Os outros imediatamente lançaram-se sobre aquele detalhe, exaltaram-no, esmagaram com ele o drama todo. Era divina a saída do gago. Repetiam-na: Estrelados, só ovos! Era soberba. Cercavam-no, pareciam admirá-lo por ter achado aquela facécia. Carvalhosa disse-lhe, muito sério: — O amigo deve escrever comédias! — E é que é um rico calembourg! — insistia Melchior.
Artur sentia-se constrangido daquela admiração exclusiva por uma pilhéria tão patusca no meio de um drama tão sombrio. Perguntou timidamente o que lhes parecia o final. — Sim, muito bem — disse o Saavedra. — Mas a dos ovos é esplêndida... não torna a fazer melhor! Então Melchior exclamou da porta: — Messieurs, le dîner est servi! Atrás, um dos criados entrava com a terrina. Houve uma aclamação, num ruído de cadeiras. Sentavam-se, falando alto, na aproximação gulosa do jantar tão esperado. Mas subitamente Roma ergueu-se, lívido, exclamando: — Somos treze! Contaram-se, inquietos. Sarrotini afastou-se com horror da mesa. O alferes refugiara-se, aterrado, ao pé do aparador. O tio António ria: — Ora nada de pieguices! Nada de enguiços! Era necessário chamar alguém; então Melchior agarrou o chapéu e saiu a correr. Contavam agora desgraças, mortes inesperadas, depois de jantares de treze; estavam de pé; os criados, imóveis, esperavam. Pouco depois, Melchior entrou com um sujeito de fato claro, despenteado, muito amarelo e que tinha costuras no pescoço. Apresentou-o como o Sr. Galinha, o seu amigo Galinha. Ninguém o conhecia — era o décimo quarto! E, tranquilos, atacaram alegremente as ostras — enquanto o Sr. Galinha, como que estremunhado, batendo as pálpebras à luz, voltava para os lados uma face avinhada e lívida de deboche! Na manhã seguinte, Artur correu ao café Tavares, na Rua de S. Roque, para ler no «Século» a notícia do jantar. Havia apenas uma curta local: «O nosso colaborador Melchior Cordeiro deu ontem um lauto jantar aos seus amigos políticos e literários no Hotel Universal. O adiantado da hora obriga-nos a reservar para amanhã a descrição desta notável festa.» Aquela apropriação que o Melchior fazia do jantar indignou-o. Mas, afinal, não havia
que estranhar, pensou: tinha-se combinado que aparentemente o Melchior lhe oferecia o jantar, a ele, Artur. Decerto, ao outro dia, uma notícia circunstanciada explicaria a intenção da festa e as sensações da leitura. Na manhã seguinte ergueu-se mais cedo e às nove horas entrava no Tavares, com o coração a bater-lhe alto. A notícia enchia duas colunas; dizia: O JANTAR LITERÁRIO DO UNIVERSAL «O banquete do nosso colaborador Melchior Cordeiro foi uma verdadeira festa da Inteligência. No esplêndido salão do Hotel Universal achava-se reunido o que a Literatura, a Política e o High-Life têm de mais eminente: um bouquet de celebridades. Vimos o inspirado orador Carvalhosa, o brilhante poeta Roma, o estimado barítono Sarrotini, o social Padilhão, o espirituoso folhetinista Xavier, esse Jules Janin da imprensa portuguesa, o estudioso actor Cordeiro e o nosso querido diretor, Sr. Saavedra. O menu do jantar, elegantemente impresso em cartão acetinado, continha o que a culinária francesa tem inventado de plus raffiné; dir-se-ia uma dessas festas do Segundo-Império em que o Café Inglês recebia, nos seus doirados salões, Imperadores e Reis que vinham curvar-se ante o poder de Napoleão o Pequeno, segundo a imortal expressão do vidente de Hauteville-House. Eis o menu: HUÎTRES HORS-de OUVRE POTAGES: Julienne, Tapioca Grécy POISSON: Turbot, sauce hollandaise ENTRÉES: Escalope, de veau à la Macédoine Suprême de volaille à la Melchior Jambons de York aux épinards Filets mignons à la Saavedrá GIBIER: Perdreaux rôtis à la crapaudine
ENTREMETS: Charlotte Russe Dartois doré GLACES, DESSERT VINS: Bucelas, Colares, St. Julien, Champagne, Porto CAFÉ — LIQUEURS «Como os leitores veem, havia dois pratos dedicados — um, ao simpático anfitrião, outro, ao nosso querido diretor Sr. Saavedra, que foi objecto das manifestações mais demonstrativas. «A ornamentação da mesa, bem como a composição do menu, foram feitas sob os conselhos inteligentes do popular João Meirinho, que uma longa residência, nas capitais da civilização, torna un artiste nestes episódios da vida elegante e boulevardière. «Os brindes foram numerosos e eloquentes: o do Sr. Carvalhosa, à literatura contemporânea, foi um dos improvisos mais brilhantes que temos ouvido e trouxe a todas as memórias a lembrança do gênio do imortal José Estêvão. O Sr. Roma, recebido entre um entusiasmo exuberante, recitou a sua mimosa elegia, O Adeus de Elvira: vimos lágrimas em muitos olhos. Sarrotini cantou, com a sua maestria habitual, uma deliciosa canção napolitana. O amigo Padilhão, sempre obsequiador, deu algumas das suas melhores imitações, que tantos aplausos lhe granjeiam nos salões do High-Life: foram notáveis as do Oboé, Emília das Neves, Perdiz e Partida de comboio. Cordeiro, o inspirado galã, recitou com prodigioso talento o monólogo de Hamlet, do grande bardo da fria Albion, tão primorosamente traduzido por uma pena real. Houve também a leitura de trechos de uma comédia, escrita por um mancebo de Oliveira de Azeméis, o Sr. Corvelo, se nos não falha a memória, que conseguiu fazer sorrir com alguns calembourgs. «A maior cordialidade, o espírito mais picante, as anedotas mais finas, as conversações mais espirituosas, ocuparam a noite. Todos se retiraram bendizendo o Sr.Melchior, que é uma das personalidades mais simpáticas da República das Letras, por ter proporcionado um tão notável meio de se provar que Lisboa não deve ter inveja a Paris, pela sumptuosidade dos hotéis, o talento dos escritores e as boas maneiras do High-Life. Estas festas elevam o espírito e fazem remontar a memória aos tempos de Garrett e de D. João de Azevedo, em que a vida elegante se unia em profícuo convívio à vida literária!
Artur desceu a Rua de S. Roque, até ao hotel, como uma pedra que rola, praguejando alto de indignação; galgou as escadas, soprando; no quarto, atirou o chapéu contra a parede: sentia por Melchior um ódio homicida; pensava tumultuosamente em vinganças vagas, batendo o soalho com passadas nervosas. Reparou então numa carta, que fora metida por baixo da porta. Uma explicação do Melchior, talvez? Propostas de rectificação?... Era a conta do jantar. Verificou a soma, trêmulo: vinte e duas libras! Deixou-se cair numa cadeira com o papel aberto na mão, lágrimas de raiva nas pálpebras, murmurando: — Canalhas!