III - Primeiros passos de Brant e Gameiro
Primeiros passos de Brant e Gameiro
O primeiro passo dado em comum por Caldeira Brant et Gameiro, no desempenho da sua ardua missão diplomatica, foi procurarem o barão de Neumann, a pedir-lhe que encaminhasse para Lisboa a communicação da chegada a Londres dos plenipotenciarios brasileiros e solicitasse a nomeação de plenipotenciarios portugueses, que com aqueles se entendessem para firmar a paz. A Austria estava a começo — como por fim estaria de novo — em tão boas disposições para com o Imperio, que o seu encarregado de negocios na Inglaterra dissera ao banqueiro Rothschild que podia sem risco de desagradar à Santa Alliança contractar o emprestimo brasileiro de três milhões esterlinos, que os nossos enviados tinham instrucções para negociar sob hipotheca das rendas aduaneiras.
Carta ao marquez de Palmella
O mesmo Neumann questionou porem longamente a redacção da participação de Caldeira Brant e Gameiro ao marquez de Palmella, apenas recebendo-a, para endereçal-a ao destinatario, quando aprovada por George Canning a terceira e ultima minuta, e com o protesto de que esse seu acto não envolvia o reconhecimento do Imperio e do Imperador[7]. Para pouparem-se uma qualquer fin de non-recevoir, Caldeira Brant e Gameiro acquiesceram em não redigir a carta nos termos que lhes tinham primeiramente acudido, de que estavam auctorisados a chegar a qualquer arranjo que julgassem compativel com a independencia do Brasil; mas não deixaram de referir-se ao seu soberano como tal, achando o contrario em desaccordo com o teor mesmo das instrucções vindas do Rio. A este proposito escreveu Canning ao marquez de Palmella, aconselhando o Governo Português a que não compromettesse a boa vontade manifestada pelo Brasil em semelhante pormenor com meras questões de forma, pelas quaes não era atilado sacrificar-se a substancia. Na diplomacia é entretanto conhecido que as questões de forma não raro primam as de fundo: neste caso porem a forma traduzia essencialmente o fundo.
Resposta do Governo Português
O ministro português, conde de Villa Real, abstivera-se de entrar em relações formaes com os enviados do Governo Brasileiro até receber ordens positivas de Lisboa, para onde empurrára o negocio da abertura das proposições de paz e para onde Canning, o qual por ocasião da subida de Palmella ao poder sustára a discussão directa com o Brasil do seu reconhecimento, preferindo sondar a tal respeito o novo gabinete, escreveu tambem ao ministro inglez Tornton, que influisse no sentido de uma prompta solução no despacho da auctorisação. A 26 de Maio já Villa Real recebia os plenos poderes para negociar, tendo aliás sido feita a sua nomeação antes de chegada às mãos de Palmella a communicação de Caldeira Brant e Gameiro, a qual obteve a polida resposta que podia antecipar-se da penna do culto diplomata e perfeito homem do mundo[8].
Palmella no ministerio
O regimen monarchico-democratico uma vez varrido pela Villafrancada, o marquez de Palmella fora chamado por D. João VI para o ministerio de Estrangeiros afim de deslindar a embrulhada situação externa legada pelas Côrtes, cujas relações com os outros Governos estavam geralmente rotas. Como notorio, era Palmella um liberal moderado, que sinceramente pensava na outorga de uma Carta Constitucional pelo soberano, ainda que a lembrança despertasse uma grande opposição por parte dos gabinetes da Santa Alliança. Como acontece a todos os moderados em circumstancias apuradas e momentos criticos, foi negativo e impopular: accusavam-no a um tempo, os reaccionarios de pedreiro livre, e os liberaes de corcunda, e, hesitante entre os dous fogos, ele nada ousava de decisivo ou sequer de decidido. O regimen liberal carecia de ser implantado pelas armas para tornar-se fecunda a ação de Palmella.
Inclinações francezas de Subserra
Em 1824 a sua influencia, mais propensa à amizade ingleza, posto que sem a minima disposição de sacrificar os interesses do Reino com relação à separação da sua colonia americana, andava fortemente contrabalançada no seio do ministerio pela do seu collega Pamplona (conde de Subserra), o valido do monarcha, cuja demissão Canning acabaria por exigir quasi com ameaças, por consideral-o com justa razão partidario estrenuo e fautor principal do predominio francez. A dupla corrente tradicional na politica portugueza, a da alliança britannica contra a da amizade gauleza, recrudescêra no seu embate, depois da Villafrancada, com a accessão simultanea de Palmella e Subserra ao poder, concretisando-se não só numa emulação de interesses politicos e dinasticos, como até num desafio de honrarias reaes.
Desafio de honrarias: o Santo Espirito e a Jarreteira
Com effeito, ao tempo que desembarcava em Lisboa o embaixador extraordinario de Luiz XVIII que trazia ao rei de Portugal a ordem do Santo Espirito, singrava da Inglaterra num vaso de guerra o portador da ordem da Jarreteira, e contam as cartas de uma senhora ingleza, por esse tempo residente em Lisboa, que D. João VI só fazia ralhar com os fisicos da real camara para que lhe puzessem logo garbosa a perna engrossada pelas erisipelas, permittindo-a receber condignamente a liga simbolica com que Jorge IV queria mimosear o seu fiel alliado. Aquela rivalidade de estadistas e de vistas, estimulada pelos motivos de ocasião, revelar-se-hia fatalmente no andamento da nossa questão diplomatica, si bem que Palmella haja deixado escripto nos seus Apontamentos que as relações particulares e officiaes que entreteve com o conde de Subserra foram sempre excellentes, e que procurou o mais possivel defender o seu collega de gabinete contra o Infante e contra a Inglaterra.
Tergiversação da Côrte de Lisboa
A côrte de Lisboa aparentemente manifestava a melhor vontade de encetar as negociações com os representantes de D. Pedro, e a isso movia-a o interesse de pôr inabalavel cobro às hostilidades que Canning não cessava de pedir ao Imperio para sobrestar de vez, por seu turno reclamando os enviados brasileiros o exercicio da influencia britannica afim de pôr obstaculo às apregoadas expedições portuguezas. Afóra porem estarem Subserra e suas affeições continentaes em plena voga e achar-se D. João VI na lua de mel semi-absolutista que se seguio ao grosseiro regimen dos Pétions das Côrtes, Palmella planeava reforçar sua popularidade à custa do reino ultramarino, e andava pessoalmente muito despeitado com Canning, pela recusa do gabinete de St-James de mandar tropas inglezas a defenderem o rei de Portugal contra as facções extremas que o empuxavam em direcções oppostas, e garantirem o partido do juste milieu que Palmella encarnava.
Attitude do ministro Villa Real na troca dos plenos poderes
Reflectindo esses cumulativos estados de alma, o ministro português em Londres logo à primeira entrevista com os brasileiros levantou uma difficuldade, negando-se à troca dos plenos poderes por poder ser este acto erroneamente interpretado como um reconhecimento, posto que indirecto, do Imperador que delegára os seus. Caldeira Brant e Gameiro recorreram à auctoridade de Canning, citando o precedente de Mr Oswald, o plenipotenciario britannico que nos ajustes de paz com os Estados Unidos não tivera duvida em proceder, sobre a base da reciprocidade, às negociações com os representantes das colonias rebelladas, e o Secretario dos Negocios Estrangeiros, em resposta, lembrou com o seu costumado espirito que os reis da Grã Bretanha usaram por seculos do titulo de reis de França, sem que se entendesse, pelo facto da troca repetida de plenos poderes, que os Francezes reconheciam semelhante titulo. Villa Real acabaria por acceder à troca, mas acompanhando-a de um protesto seu ou declaração de resalva dos direitos do seu soberano, identico ao de Jorge III por ocasião da emancipação politica dos Estados Unidos.
A Abrilada
Os acontecimentos sobrevindos em Lisboa, onde entretanto o Infante commettêra a peor das suas travessuras, deviam naturalmente acirrar o desejo de Canning de ver logo ultimada a transacção entre Brasil e Portugal, antes que se complicasse mais a penosa situação do Reino, tornando impossivel qualquer accordo immediato. A insubordinação de seu filho, contagiando parte das tropas da guarnição da capital, obrigou D. João VI, por conselho e de combinação com Palmella, o embaixador de França e o ministro de Inglaterra, a refugiar-se a bordo da nau britannica Windsor Castle e daí fomentar a reacção contra a reacção, sendo preso D. Miguel e restabelecida a regia auctoridade.
Pressa da Inglaterra com relação ao reconhecimento
A Inglaterra tinha pressa de liquidar o assumpto, porque importantes interesses commerciaes de subditos britannicos se tinham creado no Brasil à sombra da amizade portugueza, augmentando de ano para ano o numero de casas inglezas nos portos e avolumando-se portanto o intercurso de mercadorias. O seu objectivo diplomatico era fazer seguir o tratado de reconhecimento do Imperio de outro para obtenção de favores mercantis e para completa abolição do trafico de escravos, no espirito das anteriores disposições entre Portugal e a Grã Bretanha e das conclusões do Congresso de Vienna, onde aquela abolição fora consagrada como principio.
A questão do trafico de escravos desde 1810
A Inglaterra que em 1807, certamente por filantropia e espirito liberal, extinguira o trafico nas proprias colonias, pretendia agora extirpal-o de vez em todo o mundo por espirito tambem de egoismo ou de conservação, não lhe convindo alimentar, mercê da barateza do trabalho servil, concorrentes temiveis aos seus estabelecimentos tropicaes. Conforme é sabido, a abolição do trafico fora consignada anteriormente, como promessa de gradual extincção, no tratado celebrado em 1810 com a côrte do Rio de Janeiro, e, fundada nele, entrou a marinha britannica a capturar nos mares de Africa navios portugueses com carregamentos de Africanos, pelo que a Inglaterra, em virtude dos energicos protestos do conde da Barca, teve de pagar em 1815 trezentas mil libras esterlinas de indemnização. No mesmo ano de 1815, a 8 de Fevereiro, as oito potencias signatarias do tratado de Pariz, as quaes prepararam os actos finaes do Congresso de Vienna e dirigiram os trabalhos desta celebre reunião de soberanos e ministros, assignaram uma declaração reprovando o trafico e manifestando collectivamente sua intenção de abolil-o[9]: entre essas potencias contava-se Portugal.
Como certas contemplações eram porem devidas a certos interesses, a certos habitos, a certas prevenções mesmo, não se estabeleceu um prazo fixo para a referida abolição: deixou-se em aberto afim de ser determinado de accordo com as conveniencias de cada potencia. nesta questão, como na da annexação da Saxonia à Prussia e da avassallação da Italia à Austria, Talleirand soube insinuar-se no espirito dos outros delegados e manobrar com tão consummada habilidade, que conseguio dar as cartas mais ou, pelo menos, tanto quanto Metternich. O diplomata francez ajudou muito o então conde de Palmella nos seus esforços para neutralizar os da Inglaterra, que queria arrancar à Hespanha e a Portugal a abolição immediata do trafico de escravos. Em vez desta, o tratado de 22 de Janeiro de 1815, assignado em Vienna por Lord Castlereagh e pelos plenipotenciarios portuguezes — Palmella, Saldanha da Gama e Lobo da Silveira — estipulava que ficaria vedado aos subditos portugueses traficarem em escravos em qualquer parte da costa de Africa ao norte do equador. Permanecia comtudo de pé a promessa geral de que as duas partes contractantes fixariam o periodo, em que o commercio de negros teria de cessar inteiramente para os dominios portugueses.
Na correspondencia de Talleirand, quando embaixador em Vienna, para Luiz XVIII, está escripto que a Hespanha e Portugal obtinham um prazo de oito anos para abolição (o prazo prescripto para a França no tratado de Pariz fora de cinco anos), o que leva a crer que esteve por tal modo assente esse ponto, ainda que logo ficasse abandonado. Em 1817, voltando a Grã Bretanha à carga, alcançou pela convenção de 28 de Julho que fosse adoptado e reconhecido o direito de visita e busca, pelos vasos de guerra britannicos, nas embarcações portuguezas suspeitas daquele trafico, e bem assim a creação de comissões mixtas para julgarem os navios aprezados[10]. Para Canning seria um motivo de verdadeiro jubilo dar nesta estimulante questão um passo adiante dos de Castlereagh e, conseguindo um prazo certo e irrevogavel para a cessação do trafico de negros entre a Africa e o Brasil, poder exclamar com o poeta seu compatriota:
Ti chains are broken, Africa, be free Tus saith te island — empress of te sea.
O Brasil e a escravidão
O empenho de Canning era tão forte que chegára antes a assegurar que reconheceria sem demora o Imperio e afiançaria sua integridade, si o trafico fosse completamente abolido. O Brasil constituia o grande mercado de escravos africanos, tendo-se a America Hespanhola liberado dessa peste, e, sem o seu encerramento, inutil seria insistir na extirpação do trafico. A opportunidade aparecia seguramente unica à filantropia e à diplomacia do Reino Unido, carecendo o Imperio tanto do apoio britannico e dando por isso mostras inequivocas de estar disposto a fazer concessões em tal terreno. Canning acreditou na logica dos factos e, por esta consideração mais do que por todas as outras, sem demora desanimára Portugal nas suas primeiras pretenções de angariar o auxilio inglez para reduzir à obediencia o reino ultramarino, declarando ao Defensor Perpétuo do Brasil que nada tinha a recear de hostil ou pouco amigavel da parte do governo de Jorge IV.
A missão Amherst ao Rio de Janeiro. O trafico e José Bonifacio
Mais do que isso, aproveitando a ida para a India, em Fevereiro de 1823, do governador geral Lord Amherst, Canning incumbira-o de, no decurso da escala do seu navio no Rio de Janeiro, tratar com o Imperador e o seu ministerio do assumpto vital do trafico, fazendo-lhes ver que uma nação independente não poderia decentemente preservar uma instituição que era sómente toleravel numa colonia, campo de cultivo e commercio, sem a dignidade de uma potencia soberana, nem as responsabilidades da defeza da sua integridade territorial. Além disso o Brasil permaneceria isolado, como uma vasta mancha negra, na America Latina livre, unico a sustentar um commercio odioso e universalmente reprovado. A justiça britannica ser-lhe-hia facultada, como o soe ser a qualquer país, mas a amizade britannica, essa tinha de ser conquistada mediante aquele sacrificio, que era uma depuração. Procedendo com tamanha urgencia quanto denunciava essa incumbencia, confiada áquelle que ia preencher o lugar acceito por Canning no momento do inopinado desapparecimento de Castlereagh, a Inglaterra não tencionava abandonar Portugal à sua sorte; antes exigia do Brasil que o reconhecimento fosse logo correspondido «com os ajustes necessarios ácerca do reino»: mas a obsessão da extincção do trafico imperava por forma tal na sua imaginação que dissipava os melindres das allianças.
Stapleton, o secretario particular, fiel amigo e historiografo de Canning, conta que Lord Amherst tratou do objecto da sua missão com José Bonifacio, cujas inclinações abolicionistas não padecem duvida, mas foram infelizmente platonicas. O ministro de D. Pedro recuou ante a perspectiva do descontentamento nacional, o qual podia até ameaçar a propria existencia do novo regimen, e somente concordou numa diminuição gradual e progressiva do numero de escravos importados, que daria em resultado a abolição completa do trafico dentro de muito poucos anos.
Instrucções secretas de Brant e Gameiro sobre o trafico
As instrucções secretas mandadas a Caldeira Brant e Gameiro no ano immediato prescreviam-lhes, porem, que obtivessem o reconhecimento sem essa condição julgada desairosa, cuja retirada não significava todavia que o Imperador não estivesse disposto, como firmemente estava, a abolir no futuro um tão deshumano commercio. A ultima concessão que, segundo as mencionadas instrucções secretas, o Brasil se inclinava a fazer afim de obter o almejado reconhecimento, o qual só muito contrariado o Governo Imperial prestar-se-hia a acceitar conjunctamente com a abolição do trafico, era a de estabelecer-se o prazo de oito anos, como se projectára em Vienna, ou mesmo o de quatro, mas com uma indemnização de 800 contos por ano nos quatro restantes, para compensar a falta dos direitos de importação sobre os negros e outros damnos. A ausencia de colonização estrangeira que suprisse o trabalho escravo, a necessidade de prover nos anos proximos uma mais avultada entrada de Africanos para habilitar a lavoura a fazer face à forçosa escassez ulterior, e os desarranjos agricolas e commerciaes que a terminação do trafico acarretaria, eram outras tantas razões ponderosas que aconselhavam a fixação de um prazo e excluiam por nociva a abolição immediata.
No fundo esta questão do trafico aproximava então os dous paizes mais do que os dividia. A Inglaterra estava ainda justamente persuadida de que muito melhor lhe iria em obter a extincção pela iniciativa do Governo Imperial, do que por meio de pressão exterior. O Brasil começava ligeiramente a convencer-se — e pena foi que não continuasse a pensar assim — de que o espirito do seculo não permittiria a preservação de condições sociaes em que fosse elemento o escravo, e que o dia chegaria no qual, não havendo formulado espontaneamente a concessão, teria de ceder violentado. Effectivamente, no despacho de 28 de Agosto de 1824, em vista da correspondencia recebida da Legação em Londres, mandava o Governo Imperial desistir até da citada indemnização pecuniaria, «no ultimo caso de se não poder conseguir de outra maneira o reconhecimento. »
É claro que o Governo Brasileiro mudava de resolução pela força das circumstancias, pois a auctorização facultada aos plenipotenciarios brasileiros, para liquidarem finalmente a divergencia de vistas das duas nações sobre o trafico, havia-lhes sido retirada dias antes, no Despacho de 18 de Agosto, por ter-se o Governo Imperial capacitado de que a Grã Bretanha não deixaria de reconhecer a independencia do Brasil pelo facto de não ajustar-se aquela divergencia. O Imperador sentia-se tambem desobrigado de quaesquer contemplações para com o gabinete de St-James, que traduzissem prejuizo para a economia nacional. É mister não esquecer que até alli a Inglaterra se não decidira inteiramente a pôr Portugal de lado e negociar directamente o tratado de reconhecimento, nem «quizera ser abertamente mediadora para com Portugal, tendo-se apenas mostrado officiosa», verdade é que pela simples razão que Portugal nunca solicitára formalmente a mediação para celebrar a paz com o Brasil.
A França e a Grã Bretanha na Peninsula Iberica
A Inglaterra no emtanto possuia, além dos commerciaes e humanitarios, motivos de natureza restrictamente politica para desejar não ser vencida por qualquer outra potencia do Velho Mundo nas boas graças do Brasil. A sua rivalidade com a França, rivalidade tradicional e caracteristica na história européa, encontrára na Peninsula. Iberica, mercê da localização do conflicto geral entre absolutismo e constitucionalismo, um campo de verdadeira cultura intensiva. Depois da guerra de Hespanha e das faceis victorias do duque de Angoulême, a influencia dos Bourbons de França tornára-se poderosissima na côrte parente de Madrid. Na côrte de Lisboa Hide de Neuville estava em alguns casos conseguindo mais do que Tornton, não só pela ligação pessoal com Subserra, como pelo facto de representar uma monarchia que, longe de permittir à inundação democratica fertilizar a administração publica, antepunha um dique de preconceitos à maré popular.
Partido tirado pelos politicos brasileiros das rivalidades internacionaes
Os politicos do Rio de Janeiro, para os quaes a amizade britannica, da nação senhora dos mares, era bem mais importante do que a franceza, com bastante tino pensaram em explorar essa conhecida rivalidade com o fito de mais facilmente obterem a classificação politica do Imperio, e tampouco se descuidaram de jogar outras cartas diplomaticas. Nas instrucções ostensivas de Caldeira Brant e Gameiro notava-se — um mês depois de proclamada a doutrina de Monroe, a qual Canning, ao suggeril-a indirectamente num momento de apuro, certamente não antevia quanto poderia de futuro tornar-se infensa à propria Inglaterra — que o estabelecimento de uma possante monarchia constitucional no hemisferio sul da America operaria como uma barreira opposta «à ambiciosa e democratica politica dos Estados Unidos, afim que para o futuro não prevaleça a politica americana à européa. » Esta razão não era futil para que a Inglaterra hesitasse em urgir Portugal. Era pelo contrario uma das mais convincentes para o estadista que geria as relações externas do Reino Unido.
Canning antevia e temia a concorrencia mercantil e sobretudo politica dos Estados Unidos, e o facto mesmo dele recear a preponderancia norte-americana no continente que se jactava de haver chamado à existencia autonoma, é um motivo para não acreditar-se que, como pretendem alguns, a declaração do Presidente Monroe tivesse sido o fruto do concerto do Secretario dos Negocios Estrangeiros de Jorge IV com John Quinci Adams.
Na verdade, mais do que a suggestão das palavras ao ministro Rush, aproveitou à Republica a indicação fornecida pela propria attitude de Canning para com a metropole hespanhola, si bem que não tivesse igualado a postura aggressiva de Pitt, reflectida na famosa proclamação de Sir Tomas Picton, convidando o povo venezuelano a «libertar-se do jugo oppressivo e tirannico que mantinha o monopolio do commercio». Formulando a sua doutrina internacional, cuidavam porem os Estados Unidos de combater a importancia que estava adquirindo sobre o Novo Mundo a protecção ingleza, e não em auxiliar quaesquer planos do estadista britannico. Monroe de facto oppoz o protectorado americano ao inglez quando ambas as potencias visavam o mesmo alvo, que era a conquista comercial e moral das novas nações fabricadas com os fragmentos do imperio colonial iberico.
Ação dos enviados brasileiros junto a Canning
Continuando entretanto Villa Real a demorar o seguimento das negociações, allegando não receber de Canning a formula, que lhe pedira, do protesto inglez por ocasião do tratado de paz com as colonias da America, e que lhe devia servir de modelo, os enviados brasileiros, impacientados, foram ter com o Secretario de Estado, a quem perguntaram desassombradamente si estava disposto a tratar isoladamente com eles, não dando Portugal mostras de querer reconciliar-se. Canning, por cuja individualidade Caldeira Brant e Gameiro professavam a maior admiração e estima, não se furtando a encarecer-lhe o genio e a sinceridade, e tratando-o repetidamente nos seus informes para o Rio de grande homem de Estado, fizera-os socegar e os aconselhára a de novo procurarem o conde de Villa Real, ajustando-se por fim a futura troca dos plenos poderes na forma já descripta, e realizando-se no Foreign Office, a 12 de Julho, a primeira conferencia sobre o negocio do Brasil, a que assistiram os cinco interessados: Caldeira Brant, Gameiro, Villa Real, Canning e Neumann[11].
Esboço de tratado formulado por Brant e Gameiro
Os plenipotenciarios brasileiros tinham previamente submettido a Canning, a pedido mesmo deste, um esboço do tratado pelo qual Portugal reconheceria a independencia do reino ultramarino. Era o unico accordo que tinham recebido instrucções para assignar immediata e definitivamente, devendo celebrar outro tratado ad referendum, em que fossem passadas em revista e assentadas todas as questões oriundas ou prendendo-se com a Independencia, taes como successão da corôa, indemnizações e outras.
Canning e a successão
Canning queria, pelo contrario, incluir logo no tratado de reconhecimento a regulação da herança do trono português, que visivelmente o preoccupava, presentimento do qual se pode colligir a agudeza da sua visão politica.
Exigencias previas de Villa Real na primeira conferencia do Foreign Office
Quanto a Villa Real, assignalou a entrevista pedindo, antes mesmo de fallar em reconhecimento, explicações sobre trez pontos, que correspondiam às condições portuguezas para a entrada em relações diplomaticas com a ex-colonia: a cessação das hostilidades; o restabelecimento das relações commerciaes, e a restituição das propriedades de Portugueses sequestradas e das embarcações aprezadas, ou a indemnização equivalente.
A suspensão das hostilidades
O ministro português, como cabia a um bom diplomata, não deixou de fazer valer — e a referencia produziu impressão nos circumstantes — que D. João VI, assim que reassumira a plenitude do seu poder, mandára espontanea e generosamente suspender as hostilidades. Habilmente porem acudiram Caldeira Brant e Gameiro que D. Pedro de facto havia feito o mesmo: de direito não ousaria fazel-o mais expressiva ou terminantemente, visto não ser, como seu Pai, monarcha absoluto. A evocação das limitações constitucionaes tinha o condão de agradar sempre a um ministro, como Canning, que luctava contra os restos do poder pessoal na monarchia britannica.
Expedição portugueza ao Rio de Janeiro
Tendo os enviados brasileiros aproveitado perfeitamente o ensejo oferecido pelo português para ocuparem-se da expedição de 10, 000 homens, com 5, 000 mercenarios hanoverianos, a qual ameaçava partir de Lisboa para o Brasil, ficou combinado que tal expedição quedaria em projecto (Villa Real prometteu-o com tanto menos ambages quanto Portugal não sentia grande confiança na praticabilidade do plano de ataque), si por parte do Brasil continuassem effectivamente suspensas as hostilidades. Por seu lado prometteram Caldeira Brant e Gameiro encaminhar para o Rio de Janeiro, a Luiz José de Carvalho e Mello[12], as proposições do plenipotenciario de S. M. Fidelissima.
Segunda conferencia no Foreign Office. Canning assume a tarefa de redigir um projecto de tratado
A 19 de Julho teve lugar no Foreign Office a segunda conferencia, à qual tambem assistiu o principe Esterhazi, já de regresso da Austria e removido para a embaixada de Pariz[13]. Deu-se nova e infructifera insistencia dos plenipotenciarios brasileiros para arrancarem ao conde de Villa Real o reconhecimento da Independencia, e como ele se recusasse, para levarem as côrtes medianeiras a obterem-no. Fazendo Caldeira Brant e Gameiro depender tudo mais daquele reconhecimento, e não indo as instrucções do plenipotenciario português, conforme declarou depois numa entrevista confidencial com os brasileiros realizada a 1^o de Agosto, além da auctorisação para o reconhecimento da autonomia, não da soberania do Brasil, a negociação teria entrado num becco sem saída si Canning, com sua habitual presença de espirito, não houvesse, para remover a difficuldade, tomado o expediente de avocar às potencias medianeiras a tarefa de redigirem e apresentarem o tratado de reconciliação. E como o principe Esterhazi advertisse que a côrte austriaca apenas queria conciliar ideias e não suggeril-as, o Inglez propoz-se assumir sozinho o trabalho e a responsabilidade. Por sua vez Villa Real observou, que não possuia poderes para mais do que para discutir as proposições brasileiras, podendo comtudo encaminhar para Lisboa qualquer projecto de Canning.
IV