X - Falecimento de Canning História Diplomática do Brasil: O Reconhecimento do Império · Capítulo 11 de 13
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X - Falecimento de Canning

Fallecimento de Canning. Sua indivídualidade

O prematuro desapparecimento de Canning, em Agosto de 1827, poupou-lhe amargas decepções, porque, das nações latino-americanas por ele introduzidas na vida politica, nenhuma, com excepção do Brasil, se mostrou immediatamente digna da honra que lhes fora dispensada. Nem commercialmente a America Latina, e ahi não se exceptua o Brasil, tornou-se o fertilissimo campo de actividade, exploração e lucro que Canning devaneava, de harmonia com a maioria dos seus compatriotas. Tambem às novas nações foi muito sensivel a falta de Canning, porque nele perderam um conselheiro interessado, zeloso e seguro, que lhes não furtaria animação, assim como lhes não regatearia admoestações, segundo pode deprehender-se do seguinte periodo de uma carta sua a Granville[75]: «Rejubilou-me erguer esses povos à condição de Estados, mas não os deixarei imaginarem-se muita cousa (fanci temselves too fine fellows), como certamente aconteceria si não fossem tratados de alto quando o merecem (as tei would be apt to do if not snubbed when tei deserve it).

Não foi menos sensivel a sua falta à Grã Bretanha, cuja evolução no sentido democratico, poderosa ainda que indirectamente orientada nesse sentido pelo espirito aberto e progressivo de Canning, não poude ficar suspensa pelos esforços do duque de Wellington e dos high tories, durante o curto ministerio que serviu de transição para o gabinete reformista de Lord Grei. Canning, si tivesse vivido, teria precedido Gladstone na sua famosa passagem do campo conservador para o campo liberal: teria certamente sido o organizador da nova Inglaterra, creada pela Reforma de 1832. Um escriptor do valor de Sir George Lewis, o auctor do classico livro sobre as administrações inglezas de 1783 a 1830, e intelligencia cuja sagaz observação é realçada por um profundo conhecimento dos factos de que se ocupa, não vacilla em affirmar que nenhum estadista britannico dos tempos modernos deixou no continente da Europa um nome tão identificado com uma politica larga e generosa.

Canning foi nada menos do que o agente dissolvente da Santa Alliança dos Reis contra os Povos, ou melhor, o energico reagente que produziu o precipitado de coroas absolutas, depositadas para sempre como sedimento no liquido purificado da corrente popular. A Independencia do Novo Mundo latino-americano, ele a consummou contra a opposição da Europa Continental, ainda mais adversa, si possivel, ao engrandecimento comercial e moral da Grã Bretanha do que ao alastramento das ideias republicanas. E para pôr um remate adequado a tão nobre vida, contribuio mais do que ninguem, mais mesmo do que os Czares russos, empenhados de corpo e alma na absorpção da Turquia, para a final libertação da Grécia, a parte das artes e da filosofia, a sua patria intellectual, porque ele foi um apaixonado da Forma, ou da expressão real, e um cultor das Ideias, ou do fundamento abstracto. O seu estilo plastico — vibrante de ironia e de affeição nas cartas intimas, tumido de originalidade e de força pratica nos papeis officiaes, directo, incisivo e ao mesmo tempo cheio de dignidade nas orações parlamentares — era a expressão de uma intellectualidade facetada e luminosa como um diamante. De qualquer lado que a encaremos, para qualquer lado que a voltemos, ela sempre esparge luz e chama a nossa vista.

Canning, fallecido aos 57 anos e tendo tido que dominar condições e circumstancias contrarias, não poude chegar ao zenith da sua influencia politica, mas a sua attracção tanto sobre as massas como sobre a classe directora, e naquele momento ainda quasi exclusivamente directora, foi, não obstante os dissidentes amigos da reacção, verdadeiramente magnetica. O Times, o jornal que neste seculo melhor há traduzido a media do pensamento inglez, e cuja independencia de linguagem foi sempre tão completa que, no dia immediato ao da morte de Jorge IV, pronunciou com absoluta franqueza no seu editorial que «nunca existira um individuo menos lamentado pelos homens do que o defuncto Rei, » escrevia a 7 de Agosto de 1827, quando Canning agonisava em Chiswick, que nunca a solicitude na Inglaterra fora mais intensa ou universal pela vida de um homem publico. Esta homenagem da opinião é tão espontanea e foi tão singelamente manifestada, que nenhum outro elogio a poderia encarecer.

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