Capítulo II Rei Negro · Capítulo 2 de 10
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Capítulo II

Macambira era um belo tipo de raça. Trinta anos

sadios, alto, entroncado, ereto como uma coluna, tinha, no porte esbelto, desembaraçado, a elegância viril e airosa de um atleta.

A cor retinta luzia-lhe no rosto como um verniz lustroso. Pouca barba, dois laivos em cada face. A boca forte cerrava-se-lhe em lábios grossos, os olhos grandes, severos, de um brilho fixo, explodiam domínio.

A austeridade das maneiras, o ar taciturno e altivo impunhamno aos companheiros, que o respeitavam e temiam, conhecendolhe a bravura desabrida, provada em recontros na serra e numa tocaia que lhe armaram negros de uma fazenda vizinha.

Eram quatro latagões de fama. Macambira levava o cavalo a passo pela sombra fresca quando, no cotovelo do caminho, subitamente o assaltaram. Foices luziram, tiniram; vozes surdas injuriaram-no.

Relanceando um olhar rápido, reconheceu a matula e, sem perturbar-se, picou o animal de esporas, levantou-o nas rédeas e, atirando-o sobre o grupo, atropelou dois negros, derrubando o terceiro morto, com uma brecha na fronte por onde os miolos espocaram. O último afundou no mato espavorido.

E Macambira serviu-se apenas do cabo do relho, sem valer-se da garrucha que levava à cinta. Ganhou fama.

Filho de minas, falava correntemente a língua e praticava em segredo a religião dos seus maiores, confundindo no mesmo culto Jesus, a Virgem, os santos e um ídolo monstruoso falquejado num toro.

Entre os da sua raça era tido por “mujique”, e todos saudavamno, reverentemente, zumbridos em vassalagem, vendo nele o príncipe, herdeiro de herói que sucumbira humilhado nas terras dos brancos.

Balbina, velha negra havida por mandingueira, sempre andrajosa e suja, com a grenha refoufinhada em tufos, tresandando a pocilga e a suarda, era a sua única intimidade. Encarregada do chiqueiro, vivia atolada na lama entre os lerdos cevados, enchendo os cochos de inhame ou metida com os carneiros sórdidos no aprisco. Mal se lhe viam os olhos radiados de sangue, sempre de rojo, espreitando com desconfiança, e, se alguém lhe falava, encolhia os ombros resmungando, a varrer o chão com o olhar variado, gesticulando repulsas, e seguia rinchavelhando um risinho de escárnio ou esganiçando cantarolas zombeteiras.

Os moleques, se a apanhavam longe da casa, juntavam-se para enfezá-la. Agachados nos matos, gritavam-lhe injúrias, apedrejavam-na.

A negra parava no caminho bramindo maldições, fazendo esconjuros, e enquanto as pedras zuniam daqui, dali, de joelhos, com as pelancas das mamas a badalhocarem, esticava retesamente os braços na direção da floresta. De ímpeto, em arranque, encolhia-os ao peito espalmando as mãos. Duramente aduncava os dedos e, com esforço, arremessando o busto, remoendo com as mandíbulas aperradas, repuxava, atraía um quer que fosse que a sua visão sobrenatural parecia lobrigar e, de golpe, infletindo para o lado de onde partiam as pedras, atirava as mãos e ficava um momento hirta, retraindo, arreganhando os dedos como se aspergisse fluidos.

Às vezes, sentando-se num socalco, ensanguentada, quedava ao sol resmungando, cuspilhando a mascagem grossa e escura, e esquecia-se, indiferente às pedras que lhe caíam perto, levantando poeira, farfalhando nas folhas. De repente assanhava-se e, furiosa, brandindo um pau, investia tronando obscenidades.

Essa era a confidente de Macambira.

Distraía-o relembrando, com saudade, os palmares copados da sua aringa.

Fora da cabilda do Rei Munza, guerreiro temido desde as terras altas até as dunas da costa, e dizia a Macambira, tocando-lhe o corpo:

— Ocê é zêri memu; é zêri túru, ocê. Quem oia ocê vê Munza, rê di nós...

E referia, com entusiasmo épico, episódios de guerras, cenas festivas e religiosas, caçadas nas florestas densas a azagaia ou fimbo, idílios nos palmeirais, e quase sempre, em meio da narrativa, erguia-se como inspirada, punha-se a cantar baixinho, aos pinchos, bambaleando o corpo ossudo em coleios rebolidos.

E lágrimas rolavam-lhe dos olhos, a quatro e quatro, pelo rosto esquálido, em contraste com os ganidos do canto bárbaro, com as caramunhas, com os ademanes com que acompanhava o tripúdio.

E Macambira, enlevado naquele batuque, repetia, a meia-voz, a toada lúgubre, sonhando com a terra que não conhecera por haver nascido, de estirpe de reis, no exílio da escravidão.

Triste, concentrado, mal terminava o serviço, recebendo as ordens do senhor, recolhia vagarosamente à sua cabana solitária, apadrinhada com o monte, num verde laranjal, e ali recebia preito e homenagem da gente da sua raça, e Balbina que, todas as noites, pisando, de leve, as folhas, sorrateira como a onça, atravessava os matos, ia vê-lo, falar-lhe da pátria perdida, dos reis mortos e dos deuses vingativos.

Ficavam os dois horas e horas à luz fumarenta da candeia ou à porta, diante do terreiro onde os bacuraus piavam, resmoneando, cantando soturnamente, quando não em silêncio pensativo: ela a mascar, ele puxando lentas baforadas do cachimbo.

A negra tinha sempre um caso novo, uma recordação trazida do fundo da memória triste, e, ouvindo-a, Macambira devaneava, de olhos muito abertos, fitos na extensão rasa das várzeas abrumadas, onde lhe parecia ver estendido o grande, invencível reino das malocas, e, formigando, com relumbros de armas, um povo numeroso e forte, o seu povo negro, a gente heroica e temida da sua nação guerreira.

O que mais impressionava em Macambira era a sua irredutível antipatia a mulher.

Não se lhe conhecia um apego amoroso.

Na vasta e tenebrosa cozinha tisnada de felugem, com sanefas de picumã panejando nos caibros, no quadrado, na roça ou à beira do córrego onde batiam roupa, as negras comentavam, com despeitada malícia, aquela aversão, atribuindo-a a bruxarias de Balbina.

Em verdade o negro, sempre casmurro, evitava as raparigas tratando-as do alto, a distância, como enojado.

Se encontrava alguma no caminho, fechava a cara, respondendo com um resmungo mal-humorado à saudação ou à pergunta que lhe fizesse.

No seu coração impermeável pruía, por vezes, um remorso fugaz, principalmente quando margeava o córrego, na volta sombria do bambual. É que só ele conhecia o romance triste de uma crioula que dali se deitara a afogar, bradando o seu nome num arranque supremo de paixão.

O caso foi explicado de vários modos, qual mais trágico: ataque, quando a pobrezinha se banhava; maldade de algum perverso que abusara da desgraçada matando-a, em seguida, para que o não denunciasse; cobra mandada que a mordera por vingança de alguém... Quanta coisa! E a verdade jazia no segredo do negro.

Lina era uma bonita rapariga de vinte anos, sempre amolecida em dengue voluptuoso. Pele fina, cor de azeitona, olhos negros, grandes e pestanudos, cabelos assedados, boca carnuda e vermelha, desabotoada sobre dentes brancos e miudinhos, postos com a perfeição de pérolas em joia.

Alegre e trêfega como um passarinho, rindo de tudo e a todos, uma flor nos cabelos, no corpo ondulante o cheiro agreste da erva-de-são-joão com que perfumava a roupa, outra não havia na fazenda tão engraçada para contar casos nem tão graciosa no reboleio elétrico, nas empinadas upas, no sapateado lépido do samba.

Rondavam-na, enlevados na sua leda mocidade, rapazes da fazenda e muitos das vizinhanças. Ela olhava-os de viés, retraindo o lábio em momo desprezível e, aos muxoxos, dando um jeito de través ao corpo, passava com pouco caso, batendo morosamente as chinelas de bico.

Mas o coração abriu-se-lhe como flor ao sol, e Macambira entrou nele para matá-la.

De viva que era e buliçosa tornou-se macambúzia, evitando as companheiras, e isolando-se, com a almofada de crivo ao colo, jogando maquinalmente os bilros, cantarolava baixinho, com tristeza, entrecortando o canto de suspiros, ou parava e iam-se-lhe aguando os olhos, tomavam-na soluços e, debruçando-se sobre a almofada, ficava a chorar dorida.

Fora vista diversas vezes, à noite, nas proximidades da cabana do negro, e rapazes, curiosos ou ciumentos, seguindo-lhe o passo esquivo, contavam que ela ficava horas acocorada entre as laranjeiras a espreitar a habitação do apaixonado ou, indo e vindo, trepe trepe, sarapantada, arisca, cavando aqui ali ao longo da trilha que levava à cabana.

Um molecote, para descobrir o segredo, empoleirou-se em uma árvore, de onde acompanhou todos os movimentos da crioula, e, ao vê-la partir, saltou ao chão, recavou o terreno nos pontos que ela revolvera, achando feixinhos de ervas, mechas de cabelos, um saquitel de feitiço, amavio africano em que se juntavam, em mixórdia, raízes, búzios, bagas partidas, um trapo sanguinolento envolvendo um pedacinho de zuarte, tudo enterrado com intenção manifesta de prender pelos passos o indiferente.

Descorçoada dos sortilégios, Lina decidiu tentá-lo, vencê-lo com a própria carne.

Sabendo, uma noite, no serão, que ele devia ir à Barra na manhã seguinte, mal dormiu e, de madrugada, saiu de casa, indo postarse à beira do córrego, na volta do bambual, de onde partiam, em esgalho, dois caminhos – um direito ao monte, outro para a vila, costeando a barranca, e, metendo-se entre os bambus, despiu-se.

O frio picava, pondo-lhe arrepios na carne luzidia. Amontoou a roupa nas pedras e, encolhendo-se no verde rechego, ficou à espera, num antegosto voluptuoso.

Arrulhos de pombas, cantos de sabiás entristeciam o retiro. Ouvindo passos, estremeceu e, atenta, o olhar em riste, reluzindo febril, esperou arfando.

Para ficar em evidência, subiu a uma pedra em torno da qual a água, já precipitosa, rolando para a cachoeira, borbulhava, escachoava em espuma, e nua, pôs-se firme, ereta, à espreita, numa traição lasciva, remordendo os beiços, com os peitos rijos a prumo, o ventre redondo aflando em estuo.

Os ramos farfalharam, rolas voaram com estrépito e Macambira apareceu.

Para excitá-lo mais, a crioula fingiu-se surpreendida e, com um gritinho de susto, denunciou-se, aninhando dengosamente os peitos entre os braços roliços, cerrando as coxas, baixando a cabeça, e ficou imóvel, estatelada, em atitude escultural de pudor que a faria ainda mais apetecida a outro que não o negro.

Macambira relanceou um olhar soberbo e, rindo escarninho, sem de leve vibrar à sedução formidável, prosseguiu impassível.

A rapariga estonteou atordoada, sacudiu os braços e, saltando da pedra sobre as folhas úmidas, correu, arranhando-se nos espinhos, e ainda viu o negro longe, no cotovelo da trilha que o sol começava a dourar.

Remordeu-se de raiva, mas, num desespero de inflamada volúpia, meteu-se-lhe na peugada, lançando, em voz lancinante, um apelo de ódio e ânsia: “Macambira!” O negro nem voltou a cabeça. Rosnou uma insolência e foi-se.

Dias depois o cadáver de Lina apareceu boiando no açude, túmido, roído dos peixes, em nudez desconforme e asquerosa.

As próprias mucamas, mulatas claras, quase brancas, essas mesmas, apesar das faceirices, dos requebros ondulados dos quadris, dos suspirinhos trêmulos lançados entrecortadamente, não logravam dobrar a inflexibilidade do crioulo.

Se alguma, cruzando com ele nos corredores ou nas imediações da casa, olhava-o de esguardo, provocando-o, ele sorria desdenhoso ou amarrava a cara, investindo irado: “Deixa de sê ofricida, rapariga. Tem vergonha na cara. Mais respeito com quem não ti dá cunfiança. Eu não gosto di dirritimento cumigo.”

Solidário com a gente negra, sempre e em tudo por ela, só não lhe sofria as imundícies da luxúria. Revoltava-se contra a raivação danada que a bestializava, vituperando, com ódio frenético, quantos apanhava em contubérnios ou conchavos concupiscentes. Se surpreendia casais esgueirando-se pelos matos, à sorrelfa, tomava-lhes a frente e apartava-os.

Ouvindo assobios no macegal, seguia pelo som como caçador matreiro guiando-se pelo pio da ave, e, topando moleques em rabissaca, aos reclamos a negrinhas, corria-os a pontapés e a pedra.

À beira do córrego, no bando impudente das lavadeiras, de saias colhidas entre as pernas, não continha o furor e desbocava impropérios, provocando represálias coléricas, descomposturas e alusões obscenas.

Uma cabrocha, Donária, de alcunha “Vaca-Brava”, antipática, atrevida e rixenta, virago no todo e nos vícios, desmazelada até a sordícia, sempre rota, esbagachada, mascando talos de tamarindo, a cuspilhar, em pincho, por entre os dentes podres, certo dia, tomando a si um palavrão do negro, para afrontá-lo subiu a uma pedra, levantou a saia de repelão e, despudorada, pôs-se a bater palmadas no ventre flácido, dobrando em refegos, oferecendo-o:

— Oia, muxiba! Oia, já qu’ocê não cunhece. Tá vendo? É carne, muxiba.

Foi uma cascalhada de troça ao longo da margem. Macambira sentiu o sangue subir-lhe à cabeça, a vista turvou-se-lhe, um tremor crispante fê-lo vibrar em choque. E a cabrocha, para desfeiteá-lo, agachou-se e, num gesto torpe, como se arrancasse alguma coisa de si, fez menção de atirar-lhe em rosto:

— Toma, muxiba?

O negro arremeteu fulo, punhos cerrados, rangendo os dentes. Espavoridas, as negras meteram-se tumultuosamente n’água. A cabrocha esperou-o impávida, de olhos chamejantes, o nariz franzido, fungando, de raiva, aos sorvos. Quando o viu perto, lançou-se de investida, com as mãos em garras, ameaçando agatafunhá-lo. Antes, porém, que lhe chegasse, uma bofetada desequilibrou-a.

Tonta, cambaleando, escorregou na pedra, afocinhou, e caindo de borco, o negro pisou-a, atirando-lhe pontapés ao peito, aos flancos, rugindo num furor de loucura. Vaca-Brava, espumando, com um regougo de fera, debatia-se procurando lançar-lhe as mãos e rebolcava-se aos bufos, mas resvalou de um lajedo e foi n’água em mergulho. Lesta, porém, agarrando-se às ervas, surgiu com a carapinha encharcada e pôs-se a atirar mancheias de lama, soprando a água que lhe escorria da grenha ao longo da caraça hedionda, a injuriá-lo em voz rouca, esfalfada:

— Negro perrengue! Não tem valia pra nada. Vai criá pinto, capão.

Ele deu-lhe as costas e meteu pela trilha, deixando a negrada em alvoroço, a açular a cabrocha que vociferava, jurando que no dia em que o apanhasse a jeito – só se Deus não quisesse! – havia de tirar uma desforra direita:

— Oia, pamonha... – E, como Macambira se voltasse, cerrando os dentes, ela fez com a mão esquerda um esforçado gesto de torção e com a direita em lâmina talhou o ar num golpe rápido, concluindo: – Assim, muxiba... pros porcos? – E atirou um aceno desprezível.

E à beira d’água, no meio do córrego toldado de espuma, entre os matos, estrondou a gargalhada das negras.

Macambira sentia-se melindrado com a bruteza libidinosa daquele cio infrene. Era a sua gente, os da sua raça que se depravavam em lascívia rolando, rebolcando-se em todos os cantos com o cinismo alvar de cães. Via-os a cada passo em conluios libertinos; no estalar da folhagem adivinhava conúbios torpes e batia o mato, aos berros injuriosos, enxotando casais que se atropelavam em fuga.

Eram os negros da roça que, iludindo a vigilância do feitor, esgueiravam-se agachadamente para lugares escusos, numa ardência lúbrica que os tornava ferozes; eram mucamas que desciam disfarçadamente indo ao encontro de amantes nos socavãos das tulhas; era à beira do córrego, na umidade das ervas; era nos pedregais, nos grotões, nos pastos, entre os animais, entre os toros de lenha. Mas o que o enfurecia sobretudo era ver negrinhas metidas nos baixos do engenho, à risota, desnudando o corpo esquálido à cúpida sensualidade dos moleques, aos rebolos com eles, inconscientes do mal, brincando com a infâmia com a mesma travessa indiferença com que se penduravam dos ramos altos, vergados sobre o abismo, arriscando-se à morte por um ninho vazio ou por um fruto verde.

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A intimidade com que Manuel Gandra tratava Macambira

— recebendo-o no escritório, conversando com ele, confiando-lhe todos os seus negócios: pagamentos, cobranças, ouvindo-o sobre assuntos da fazenda, tornava-o suspeito aos negros, que não cessavam de rosnar contra a empáfia do “emproado”, augurandolhe “a vez de sentir o peso da escravidão”. “Tá muito inchado... Caminhando é qu’a genti vê: raio di roda tá im cima i desce. Dexa tá, Deus é grande!”

Quando, por falta grave, algum escravo era castigado, toda a gentalha assanhava-se atribuindo a pena a Macambira: “Quem havia di sê sinão ele?!” E rogavam-lhe pragas, amaldiçoavam-no, jurando vingança.

O boquejo não o incomodava, mas se algum negro, mais atrevido, passando por ele, mirava-o de esguelha, parava altivo em atitude de desafio e, encarando-o, fazia-o baixar os olhos, seguir humilde. Então ameaçava em voz surda:

— Porquera! Mexe cumigo i dipois t’arrepende. Calado, calado até u sangue fervê, dipois... ahn?

Com a vida de trabalho e de economia ajuntara um pecúlio nas mãos de certo negociante da Barra, conhecido como receptador de furtos de café e amigo dos quilombolas, aos quais trazia sempre ao corrente dos planos dos senhores, prevenindo-os das batidas projetadas, das ofertas aos “capitães de mato” ou das diligências policiais requeridas pelos fazendeiros. Os negros exageravam as posses de Macambira orçando-as em muitos contos de réis.

A notícia dessa vaga fortuna começou a preocupar Manuel Gandra com o receio de que o negro lhe falasse em liberdade, propondo-lhe o resgate. Firme no propósito de recusar, pensava, entretanto, nas consequências: a fuga ou a intervenção da justiça, como acontecera no caso do pajem de um fazendeiro vizinho que tomara advogado, ganhara a causa e saíra livre por uma bagatela e rindo.

Foi para evitar um de tais desenlaces que, depois de muito pensar, decidiu-se astuciosamente pelo casamento do negro, prendendo-o pelo coração. Ainda que lhe conhecesse o gênio retraído, avesso a amores, desconfiava da sua inclinação por uma das mucamas, Lúcia, por havê-los, mais de uma vez, surpreendido em conversa no jardim – ela, dengosa; ele, de boa sombra. Rapariga de estimação, criada recatadamente à beira da senhora, quase como filha, era de natural tímido e meigo. Esmerada no alinho das vestes, muito composta nas maneiras, calada e modesta, afigurava-se a Macambira um ser de exceção, destacando-se limpidamente, em realce gentil, da horda que fervilhava no imenso enxurdeiro.

Alta, fina e airosa, pele cetínea, cor de jambo, corada nas faces em rosas de saúde, olhos grandes, pestanudos, de um verde líquido, longos cabelos lisos tirando ao castanho, com reflexos de ouro ao sol, falando em voz submissa, de uma quebreira dolente, Lúcia impressionava pela doçura e pela originalidade do tipo.

Filha de uma mulata com um alemão que trabalhara nas obras do engenho, crescera sempre mimosa, instruindo-se com uma senhora portuguesa, viúva, que se aboletara na fazenda pagando o agasalho com ensinar às mucamas. Lúcia, desde logo, revelou-se a mais inteligente e aplicada, tornando-se a preferida da mestra, que não se fartava de a louvar lastimando-lhe o destino:

— Há por aí muita filha de fazendeiro que daria uma perna ao diabo se tivesse aqueles olhos, aqueles cabelos e aquelas mãos de fada. Só não faz o que não quer. – E a pequena apurava-se com a idade.

Lia e escrevia com desembaraço e era exímia em trabalhos de agulha. Lavradeira perita, bordava a branco, a matiz e a ouro; talhava e cosia os seus e os vestidos da senhora, e, quando trabalhava na varanda, à sombra dos ramos pendidos do jasmineiro, era um encanto ouvi-la cantar modinhas.

Macambira não descia à Corte com o comboio sem procurá-la e pedir ordens e os olhos acendiam-se-lhe em lume alegre quando Lúcia lhe apresentava a nota das suas encomendas numa letrinha miúda e fina.

Dobrava-a carinhosamente e guardava-a na bolsa com o mesmo venerado respeito com que guardaria uma oração de virtude provada contra males e inimigos.

No regresso, entregando-lhe as compras que fizera, recusava o dinheiro e ainda ajuntava um mimo delicado da sua lembrança: vidro de cheiro, caixa de sabonetes, colar ou enfeite para o cabelo, oferecendo com vexame, trêmulo, de olhos baixos, logo fugindo para forrar-se ao agradecimento. Se ela, porém, insistia em fazê-lo aceitar o dinheiro, recusava-se ressentido:

— Qu’é isso, Lúcia? Pois eu vou recebê pagamento da sua mão? Deixa de história. Uma coisa à toa...

— Então... muito obrigada. – E, com um riso vexado: – Mas olhe que eu assim não encomendo mais nada.

E olhavam-se um momento enleados. Encardiam-se mais as rosas nas faces da morena, e Macambira, com o coração aos esbarros, sentindo o rosto em fogo, tartamudeava afastando-se para que ela não lhe notasse a perturbação comprometedora.

Mas o prazer de sentir, passando por ela, o aroma da essência que lhe dera ou de ver, ornando-lhe os cabelos, o enfeite que lhe ofertara era tão intenso que ele parava e ficava sorrindo a respirar o perfume ou olhando embevecidamente a cabecinha airosa onde refulgia, entre o brilho dourado das madeixas, o grampo de plaquê. Nos serões era Lúcia quem lia para os senhores.

As mucamas, sentadas em roda, costurando, ouviam-lhe a doce voz dizendo as aventuras dos romances ou os casos maravilhosos dos contos orientais.

Não raro, no silêncio atento e comovido, arquejava um soluço, lágrimas rolavam nas finas cambraias quando, no desenlace de um capítulo, fuzilava um punhal cravando-se em peito frágil ou um recém-nascido, arrebatado de recâmara fidalga, e levado às ocultas, em noite áspera de inverno, por pinheirais lugentes, era abandonado à neve para que, com ele, desaparecesse o vestígio ultrajante de um crime de amor.

De uma feita Manuel Gandra, retirando-se da sala em meio da leitura, deu com Macambira no corredor, imóvel, colado à porta, à escuta.

— Que fazes aí, rapaz? Se queres ouvir, entra. – Mas o negro recusou-se vexado e foi-se, levando na alma o som da voz suave, que não era interesse pela narrativa o que ali o prendia, mas o encanto da voz de Lúcia, sempre harmoniosa, variando entre a doçura nas descrições poéticas e a plangência nos lances sentimentais.

Uma tarde, nos princípios de março, Manuel Gandra repousava no escritório ouvindo a parolagem do filho, então em férias do 3º ano do curso médico, que lhe descrevia, com arrevesados termos, a carnagem anatômica no anfiteatro, quando Macambira, de volta da vila, onde fora a cobrança, pediu licença à porta.

— Entra – disse o fazendeiro refestelado na rede.

O escravo entrou respeitoso, pediu a bênção e, abrindo a bolsa de couro, passou ao senhor um maço de notas. Depois de estalar o queixo num bocejo largo, Manuel Gandra perguntou:

— Contaste?

— Sim, meu sinhô; mas é bom vancê cunfiri.

Gandra remirou o dinheiro sem, ao menos, desatar o nastro que o apertava e, atafulhando-o no bolso, pôs-se de recovo, fitando no escravo um demorado olhar.

— Que diabo tens tu, rapaz? Andas triste. Sentes alguma coisa?

— Nada não, sinhô, graças a Deus.

— Não, tu não estás em ti... Também, com a vida que levas... Queres ser santo? – O negro sorriu, e Gandra perguntou de improviso: – Homem, por que não te casas?

Macambira aprumou a cabeça sobressaltado com a intempestiva pergunta e, de sobrolho carregado, como se houvesse recebido uma afronta, tartamudeou encarado no senhor:

— Uai! meu sinhô... – Os dentes alvos reluziram em sorriso instantâneo, logo se lhe fechou severamente o rosto.

— Macambira tem medo de mulher – chasqueou Julinho. O negro voltou vagarosa e arrogantemente a cabeça e demorou o olhar atrevido no estudante. O rosto tremia-lhe em frêmitos, um ricto rasgou-lhe a boca franzindo-a em comissuras de ira. O fazendeiro insistiu:

— Pois não, os molengas andam por aí presos a rabos de saias, e tu, um rapaz novo, forte... Não, senhor! Não está direito. Precisamos ver isso. Nem os bichos do mato vivem desse modo, eles lá se arranjam. Tens casa, uma roça regular, dinheiro junto.

— O negro ia contestar, mas o fazendeiro atalhou-o: – Não negues. Essas coisas sabem-se. – E aprovou: – Fazes bem: quem ajunta encontra quando precisa. Mas arranja uma rapariga, coisa que sirva, que dê com o teu gênio e casa-te.

Macambira baixou os olhos e murmurou:

— Casá pra quê, meu sinhô?

— Ora, é boa! pra quê! Para teres família, o teu cantinho alegre, pois então?

— A gente vive bem sozinho. – E, sorrindo tristemente: – Onde vai leva tudo que é seu, não deixa o pensamento em roda da casa, nem anda com o ciúme no coração. Iscravo é iscravo. Casamento é pra quem pode, pra quem si governa.

— E tu não tens liberdade? Que te falta? – O negro fez lentamente um aceno negativo, recusando a proposta. – Que te falta?

— Eu sei, meu sinhô!? – Depois de meditado silêncio, ponderou:

— Iscravo não casa. Branco oia, iscoie, tira o que o coração pede; negro, não: casa cumu trabaia – onde o sinhô manda. – E, de novo, meneou com a cabeça negativamente, concluindo em voz baixa:

— Quero vivê nu meu sussego, cumu até aqui.

— Sossego! – irrompeu o fazendeiro; – o teu sossego bem sei eu qual é. – Atirou as pernas, sentou-se na rede e, espalmando as mãos nos joelhos, de olhos fitos no escravo, afirmou com segurança: – É Lúcia! Com ela casas, hein? que dizes? – Julinho, que baquetava na secretária com uma espátula de osso, pôs-se vivamente de pé, surpreso. O negro ficou atônito, piscando airadamente os olhos, num aturdimento de estuporado. – Acertei, hein? Com ela é negócio feito, hein? – E sorria. – Anda lá que não tens mau gosto.

— Eu sou tolo, meu sinhô! Penso lá em Lúcia, uma rapariga quase branca...

— Branca! E que fosse! Brancos são os dentes e ninguém os tem mais alvos do que tu. – Julinho franziu a boca irônica, levantou-se assobiando e saiu para o jardim bambaleando o corpo. Macambira, que não lhe perdera os movimentos, arfava, remordia os beiços, estrincava os dedos e, relanceando à porta um olhar desconfiado, disse ao senhor, entre repreensivo e tímido:

— Vancê foi falá isso na vista di nhô Julinho não tarda nada i tá na boca di tudu mundo. Vancê vai vê a caçoada qui vão fazê.

— Caçoada? Por quê?

— Vancê vai vê.

— Qual! Eles sabem com quem se metem e conhecem-me. – E tornou ao assunto. – Por ser clara? Que tem isso? Quantas há por aí, até estrangeiras. E eu não vou forçá-la, ela há de ir por sua vontade, e contente.

— Lúcia!?

— Pois então? Pensas que não sei o que se passa aqui? Sei tudo, e ela não esconde, nem ela nem tu. Pois se hás de andar aos cochichos pelos cantos, é melhor tratar disso quanto antes. Entendo-me com o vigário e arranjamos a coisa na primeira missa de abril. Estamos em começo de março, tens tempo de sobra para arranjar tudo. É andar.

O negro sentia a garganta ressecada, o peito aperrava-se-lhe em constrição de angústia, uma zoeira estrondava-lhe aos ouvidos. Espalmou a mão à borda da secretária e pôs-se a tamborilar com os dedos, nervoso. Por fim sussurrou em voz estrangulada:

— Não sei... há por aí muito moço branco que gosta dela. Contra a vontade, não; isso não. Vem o arrependimento mais tarde... e depois... Eu gosto dela, gosto, digo a verdade, mas não é por ela ser branca. Gosto porque ela é boa, tem prepósito, não anda por aí desmandada cum’as outras. Mas a gente deve pensar muito antes di dá um passo ansim. É a vida inteira, meu sinhô sabe.

— Qual pensar! Pensar quando não se conhece a mulher. Lúcia é uma rapariga direita. Que marido melhor do que tu pode ela querer? Bonifrates não faltam, mas isso...

Macambira quedou cabisbaixo, com o rosto a arrepiar-se em crispações fulgurantes. Por fim levantou a cabeça e pediu com submissão:

— E meu sinhô fala co’ela?

— Falo, falo. – Pondo-se, então, de pé, Gandra caminhou lentamente até a porta, esteve um momento a olhar o céu sob a doçura da tarde triste; e disse: – Falo hoje mesmo. – Voltou-se. O negro mantinha a mesma atitude estatelada.

— Vai. E, olha: vê se mandas limpar, amanhã cedo, aquele rego lá em cima que a água está com um gosto de lodo que não se pode.

— Mas o negro parecia de pedra, imóvel, com o rosto a enrugarse em ricto como se suportasse dores lancinantes. O fazendeiro insistiu: – Vai. – Então moveu-se, resfolegou desafogado e saiu em passo vagaroso.

— Bênção?

— Adeus. – Atravessou o jardim como um sonâmbulo, desceu ao terreiro onde os cães, em atropelada corrida brincalhona, abocanhavam-se rolando aos rebolos.

A tarde declinava suave, estrídula de cigarras. Diluíam-se as últimas cores do sol e a sombra enevoada começava a arminhar a paisagem. O ar cheirava. Bois mugiam a espaços, longamente, e a voz eterna das águas, escachoando no “inferno” do moinho, rolava merencória e profunda.

Macambira sentou-se à borda do terreiro, acendeu um cigarro e, descaindo o busto, inclinando a cabeça, pôs-se a estalar as unhas, alheio a tudo, no enlevo de um pensamento feliz, sem sentir a noite que o envolvia, cheia de estrelas no céu, misteriosamente múrmura de rumores que subiam da terra em vários tons acordes na melancolia.

Súbito, levantou-se de ímpeto, firmou-se em entono arrogante, cabeça alta, olhos fitos. Cruzou os braços e impondo-se em atitude augusta, logo, porém, em frenesi, metendo as mãos à gaforinha e avançando um passo, estacou encarado numa visão heroica e de amor que lhe corria ante os olhos maravilhados: as suas núpcias de rei na aringa pátria.

As descrições que Balbina lhe fizera do reino perdido, sem omitir uma árvore à paisagem, um objeto de uso, o nome de um ídolo ou de um herói, um verso aos cantos de guerra ou de amor, tão fundo se lhe gravaram no espírito que, por vezes, se lhe representavam objetivamente.

Sentia-se como transportado à cabilda e, num instante fugaz, era o rei moço.

Naquele momento, com a imaginação excitada, uma nuvem escureceu-lhe a vista, amoucaram-se-lhes os ouvidos aos rumores da realidade – logo, porém, estendeu-se-lhe ante os olhos, numa transfiguração, o espetáculo maravilhoso do pensamento evocado.

Viu-se em África e rei, entre a sua gente: os sobas gineteando, cercados de lanças que se emaranhavam nos meneios em que eram destros os guerreiros robustos, vistosos sob os mantos de peles e os cocares de plumas; os feiticeiros sarapintados, brandindo punhais em torno de manipanços; músicos aos pinchos cascavelando chocalhos, tangendo atabales, soprando possantes tubas ou flautas finas de cana, mulheres desnalgando-se em saracoteios lúbricos, com um guizalhar estrepitoso de búzios e seixos que formavam tangas e ornavam-lhes o peito e, entre virgens seminuas, que empunhavam flores de haste longa, balouçando-as ao ritmo do passo lânguido, Lúcia, numas andas de ramos floridos, sob flabelos e palmas, levada aos ombros de chefes, aclamada por milhares de vozes estrondosas.

Mas as estrelas reabriram-se à cintilação, subiram, de novo, no silêncio, as vozes várias da terra, e a visão desvaneceu-se.

Os sapos gargarejavam alto. “Eta!” explodiu o negro num arranque. “Fosse lá! Minha terra!...”

Sacudiu nervosamente a cabeça e, em passo moroso, foi-se, morro acima, direito à cabana, sem ver os bacuraus que esvoaçavam em surtos breves e, na escuridão dos matos, faiscando, os piscos vaga-lumes.

E nessa noite Balbina encontrou a cabana fechada e apagada.

Rondou-a, bateu à porta, forçou a janela; por fim sentou-se no tronco que formava degrau à porta, mascando, de olhos perdidos no luar, à espera do seu rei moço.

Macambira, contando com ela, mas querendo estar só, trancara-se e, sem acender a candeia, deitara-se no catre, quieto, antegozando o inesperado bem que lhe fora prometido, e, no enlevo de amor, fantasiava.

Um clarão de luar, que alumiava a parede de reboco, pareceulhe um vestido de noivado, e logo a imaginação pôs nele o corpo da morena com a sua graça ingênua.

Era ela, ali estava, já dele! Alta, esbelta, flexível, com a pele fina e dourada, os lindos cabelos lisos, os olhos grandes, verdes como algas, o doce sorriso, toda ela, dele e para o sempre?

O clarão escorria da parede, lento; já uma parte alumiava o chão, chegava-se timidamente ao catre com feminino pudor, e ele esperava-o sorrindo como se nele, em verdade, fosse o corpo amado.

Quebrado de fadiga, tentava resistir ao sono embevecido no idílio imaginário.

Fora havia rumores iterativos, folhas estralejavam. Por vezes a porta trepidava de encontro à tranca, a janela rangia e a voz de Balbina rosnava impaciente.

Por fim ficou o silêncio – só as folhas das árvores sussurrando punham na quietude um frêmito de vida.

O negro bocejou largamente, com estrépito das mandíbulas, distendeu os braços, dobrou-os por baixo da cabeça e, estirado, imóvel, de olhos ardidos, com o espírito já abrumado, mas ainda girando em torno da ideia fixa, ouvia os vagos murmúrios noturnos, a mais e mais sutis e longínquos até que se lhe fecharam as pálpebras e mergulhou no sono.

E o clarão do luar, subindo ao catre, deitou-se com o escravo, cobriu-o como um lençol diáfano e só o deixou quando os galos começaram a amiudar nos poleiros, nas árvores, como sentinelas em postos anunciando o dia que vinha através da névoa apagando as estrelas, despertando os ninhos.

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