Capítulo VI
— S’ocê tá cum medo eu falo cum sinhô e ele manda
Tibúrcio nu meu lugá. Tempo tá bom, tropa é sigura.
— Não, vai. Isso ainda não é pr’agora. Você não vai e volta em quinze dias?
— Uai! im antes.
— Então... Dá tempo. Vai, senhor pode ficar aborrecido. Você já tem faltado muito ao serviço por minha causa. Não quero. Se houver alguma coisa, tia Balbina está aí. Eu me arranjo com ela. Deus é grande?
— Oia lá?
Era em meados de dezembro. A acácia vergava opulenta ao peso dos cachos de ouro, e a mata, enfeitada para o Natal, reviçava em rebentos pintalgada de amarelo e roxo, com as claras folhas das embaúbas luzindo, como de alumínio, no escuro lustroso das ramagens.
Ainda esfiavam tênues fumos das últimas coivaras; brumas leves esgarçavam-se nos ares.
Macambira devia partir para a Corte com a primeira remessa de café: já as sacas estavam empilhadas nas tulhas, e a tropa apartada no pasto pequeno, tudo pronto. Mas o nervosismo de Lúcia, agravando-se a mais e mais, punha o negro em indecisão receosa.
A coitada não tinha descanso, não conseguia dormir uma hora a fio: eram logo ânsias, sufocações, peso no ventre. Levantava-se aflita andando pela casa, abrindo janelas numa angústia de asfixia. Balbina não tinha paciência – metia-se no quarto e, para deixar a esteira, era um trabalho. Saía de trombas, resmungando:
— Ah! ocê tamém é muito luxenta. Parece qu’ocê só é qui tem fio. I as otra? Oia Rosa, c’a barriga pra cada hora tá lá no duro puxand’inxada, i ocê é só rizingando, chorando. Ansim tamém não. Pricisa tê pacienç’a. – Enrolava estouvadamente a trunfa, acendia o cachimbo e ficava encorujada a um canto, cabeceando cochilos.
Lúcia fez-se forte, disfarçando o sofrimento para iludir Macambira, com intenção de afastá-lo. E ele, vendo-a andar pela casa mais desembaraçada, fazendo uma coisa e outra, decidiu partir. E animou-a:
— Ocê vai vê; eu vou i vorto e ind’ocê demora. E isso memo não custa: na hora é um instante... é mais u medo. – Ela encolhia os ombros, resignada:
— Assim como assim... tem de ser mesmo... que remédio! Quem me dera que fosse hoje, ao menos eu descansava.
Na véspera da partida, à tarde, arrumando a maleta, o negro chamou-a:
— Iscreve u qu’ocê qué...
— Não quero nada.
— Pr’ocê...
— Não quero nada.
Passaram a tarde no banco, sob a acácia que os cobria de flores. À meia-noite – havia luar – o negro levantou-se devagarinho, chamou Balbina para fazer-lhe o café e na cozinha, à luz da candeia, enquanto os gravetos crepitavam, recomendou carinhoso:
— Oia, véia, toma bem conta dela, não dexa ela. Ocê fica aqui: sinhô botô Thereza pra cuidá du chiquero. Istende istera na sala i dorme lá.
— Vai dicansado, fio di Deus. Lúcia não tem nada di maió. Ocê memo é qui bot’ela ansim.
O negro tornou ao quarto, entrou pé ante pé, esteve um momento parado diante da cama olhando enternecidamente. Lúcia sentiu-o, voltou-se, soergueu-se sobre o cotovelo e perguntou muito meiga:
— Você já vai?
— J’é hora.
Abraçaram-se em silêncio. Ela desprendeu-se-lhe dos braços, atirou-se nos travesseiros abafando o choro.
— Não chora, tola. Noss’Sinhô tá í. – Ainda beijou-a, acariciou-a:
— Adeu! Té a vorta. – Ela abandonou-lhe a mão inerte.
A lua velava muito alta. O terreiro parecia de cal. Toda a paisagem jazia sob uma nívea furfurina diáfana. Tiniam campainhas no silêncio.
• • •
Com a partida de Macambira encaminhou-se verdadeira romaria para o monte. A todo instante eram vozes no terreiro:
— Ó! de casa...?
— Mas quedê essa sumida?
— Então isso inda não deu de si?
— Como é que se mora num cafundó assim! Isso só memo di Macambira. Ciúme é o diabo?
Entravam: eram mucamas, crioulas, negras velhas e, vendo Lúcia, muito ancha, a barriga à boca, vergada, bambaleando-se em passos arrastados, eram gargalhadas, exclamações:
— Ih! como isso vem remando?
— Cê ansim memo é durona...
— Tá í nu qui dá casamento. Quedê cintura?
E riam. E a mulata, muito lânguida, confessava esfalfada: Que já não podia mais. Até estava com medo que fossem dois. E agradecia os presentes que lhe davam: esta, uma galinha gorda para o primeiro caldo; aquela, uma dúzia de ovos encamisados em palha de milho, um pouco de puba para mingau, e as devotas ofereciamlhe orações, bentinhos.
A casa burburinhava. Uma quis ver o enxoval da “criança”, e veio a lata para cima da mesa: abriam-na, e as peças passavam de mão em mão.
— Foi ocê qui fez tudo?
— Macambira comprou alguma coisa.
Foram ao quarto muito asseado, correram a casa toda espionando, farejando. Balbina deixava-se estar na cozinha resmungando com azedume e só aparecia para despedir as visitas:
— Bom, gente, ruma, chega di pagode; é hora di cuidá di casa. Cês não têm qui fazê lá imbaxo? Abri campo, bamo, bamo.
— Ah! tia Balbina, qui coisa! A gente não vem aqui pedi nada. Faz mal?
— Faz má, sim: muié quando tá ansim di tempo precisa dicanso. Visita é visita. Já viu, já falô... qu’é qui fica fazendo mais?
À tardinha, Lúcia estava sentada à soleira da porta olhando distraidamente, quando Vaca-Brava apareceu no alto do caminho, entre os espinheiros, rota, imunda, com um paletó esmolambado, aberto, deixando ver a camisa sórdida, em frangalhos, escorrida no peito esbagachado. A mulata, reconhecendo-a, não pôde disfarçar o espanto e fez menção de levantar-se, mas ficou tolhida.
— Deus teja nesta casa! Êh! êh! uhm! – esticou os grossos beiços relanceando em volta olhares coscuvilheiros.
— Antonce? – Lúcia olhava-a a fito, imóvel, como magnetizada. A cabrocha plantou-se diante dela, de mãos à cinta, e, depois de mirá-la, disse em tom arrogante:
— Fica im pé, dexa vê isso... – A mulata levantou-se como um autômato, de olhos parados, os braços caídos ao longo do corpo, expondo-se. Vaca-Brava examinou-a de beiço arregaçado: – Hum! Cê tá ruim, rapariga... – e arreganhava a cara em ricto. – Cê tá ruim. Senta! – Lúcia obedeceu passivamente, sempre de olhos nela. – Qui pança! – Coçou a grenha, escarfunchou o sovaco e, firmando o pé na soleira da porta, disse: – Oia, ocê não repare, eu tenho quirido vim aqui, ma ocê sabi qui seu marido tem giriza cumigo. Pra que buscá mais intica? Memo aqui tem gente qui não gosta di mim. Eu sabia d’ocê p’los otro. – Remirou-a mais: – Sê tá muito alargada das cadera; isso é macho. – Inclinou-se, meteu os olhos pela casa, devassando-a, e, virando-se, olhou em volta com desprezo, cuspilhando: – Cê não tá cum boa cara. Toma cuidado! Oia Antonica... Não brinca co’isso, não. Cê tá muito pesada. Faz uma promessa mod’isso vim dirêto i não dexa nó na saia, oia lá?
Mas Balbina, que fora levar restos de comida ao porco, apareceu com a cuité e, vendo a cabrocha, parou carrancuda, interpelando-a desabridamente:
— Qu’é qu’ocê vem cherá aqui im cima?
— Uai! vim vê Lúcia.
— Qui vê Lúcia, qui nada! Ocê veiu mas foi suntá. Ninguém qué sabe d’ocê aqui. Oia, si Macambira sabi qu’ocê veiu aqui cê tem qui vê.
— E eu tenho medo di Macambira?! Quem sabi si ele vai mi cumê...!?
— Vai t’imbora. Cê não passa duma enredadera. Um diabo d’azá qui ondi si mete é só pra fazê mexido. Vai t’imbora! Vai?
Lúcia, vendo a velha adiantar-se para a cabrocha, que a olhava do alto sacudindo a cabeça, ficou tão nervosa que se pôs a chorar, torcendo as mãos, frenética. Vaca-Brava silvou um risinho sarcástico.
— Gente! Tão vendo só! Ocê parece qui tá caducando, tia. – E, de supetão, intimou: – Oia, curumba, s’ocê dá mais um passo pra mim eu ti pego! Ah! tá muito concha co’ essa porcaria di casa... Cupim comi coisa mió. – E de punhos fechados:
— Toma sintido cumigu! Ocê anda querendu e eu, um dia, pego ocê dirêto. Pensa qui tudu mundu tem medu di mandinga? Vem pra cá. Mandado na minha porta não fica. Vem pra cá.
Os olhos de Balbina fuzilaram, rolou-lhe um rugido na garganta, e, crescendo, lançou mão de um pau de cerca e investiu contra a cabrocha, falando-lhe ombro a ombro, cara a cara.
— Repete u qu’ocê disse s’ocê si chama Donária. Repete...
— Tia Balbina... tia Balbina...
— Repete – e empurrava-a de esguelha, ameaçando-a com o pau. Lúcia interveio nervosa:
— Que é isso, gente! Deixa disso. Coisa feia. Deixa, tia Balbina. Vai, Donária. Pelo amor de Deus! – As duas mediam-se ferozes, mas a cabrocha cedeu e, vagarosamente, gingando, caminhou para a ladeira:
— Eu não te esfrego agora memo, sua bruaca, mod’ela. Não quero qu’ela bote o fio pra fora e diga depois qui foi por minha causa. Ma ocê não perde, burra véia. Ocê tá muito fiada im Macambira, pois vai ti fiando. – Chegara aos espinheiros, voltou-se e despejou um chorrilho de torpezas. A negra respondeu:
— É tua mãe, sua porca. – E, como a cabrocha insistisse, juntando o gesto às palavras, Balbina atirou-lhe o pau, que foi girando e caiu entre as folhas que farfalharam. Uma pedra bateu na parede da casa, outra tiniu no telhado. A velha correu e, apanhando torrões, calhaus, atirava-os furiosamente. A cabrocha respondia dentre os matos com uma gargalhada contínua. De repente a negra, que ficara à beira do caminho, cuspiu com asco, dizendo:
— É tua mãe, catinguda! É tua mãe.
Lúcia, de pé à porta, estava como petrificada.
• • •
Lúcia, que a cena do terreiro enervara, logo à noitinha sentiu-se mal: tremores ríspidos, uma ânsia que lhe subia à garganta em bolo, angustiando-a, dores errantes, peso nos quadris. Sentou-se debruçada à mesa, com a cabeça nos braços enrodilhados. Balbina, cuja fúria ainda se não abrandara, linguajava na cozinha. Chegando, porém, à sala e vendo a mulata naquela postura inerte, interrogou-a:
— Qu’é qu’ocê tem?
— Não sei. Estou me sentindo mole, tonta. De vez em quando, uma dor surda nas cadeiras.
— Toma u seu banho i vai detá.
Mas a mulata, apreensiva, encolhendo-se toda com arrepios, murmurou supersticiosa:
— Isto é mau-olhado de Donária.
— Qui nada! – E a negra assanhou-se: – Ocê foi si metê... Ocê divia tê dexado eu dá uma lição naquele diabo. Negra sem-vergonha! Aquilo inda acaba na ponta duma faca. Vai detá. Isso passa.
Lúcia, porém, tinha horror ao quarto – preferia sofrer ali sentada, olhando pela porta aberta o céu estrelado, as árvores que reluziam. As magnólias embalsamavam a noite, e os grilos faziam um estridor contínuo. Desabotoavam-lhe na alma leves reminiscências.
— Vai detá, criatura.
— Daqui a pouco.
Por onde andaria Macambira? Talvez já na cidade. A cidade...! e ela que tanto desejava vê-la com as suas lojas sortidas, as suas igrejas grandes, as ruas cheias de gente, o mar...
O ventre entrou a contrair-se-lhe em convulsões preguiçosas; a instantes, espaçadamente, eram torções, frêmitos, repuxamentos; depois aquietava-se e uma quebreira amolentava-a. As pernas iam-se-lhe entorpecendo, os pés formigavam-lhe dormentes.
Ocorreu-lhe a lembrança de uma festa a que fora, com outras na Barra. Que alegria! O carro de bois aos trancos pelos caminhos esbarrondados, adernando, empinando-se nas subidas, numa chiadeira que doía nos ouvidos. A vila aparecendo entre árvores, com o rio acachoado e turvo, e logo se lhe afigurou o circo armado num largo, gente apinhada em volta, tabuleiros de doces, música, um palhaço preto num palanque fazendo gatimonhas e na multidão basbaque uma gargalhada continuada. Depois o leilão de prendas e a igreja iluminada, cheirando a canela e a incenso, com a linda imagem de Nossa Senhora sorrindo no altar, entre círios e palmas de ouro.
Súbito, como se lhe houvesse rebentado o cós da saia afrouxando-lhe a cinta, sentiu-se aliviada de um peso, respirou mais livre, em hausto, e, instintivamente, levando a mão ao ventre, deu por uma depressão, um sulco fundo que a dividia como se fora golpeada. Pôs-se de pé alarmada, apalpando-se. Chamou a velha, fez-lhe ver aquilo.
— Foi de repente, tia Balbina.
A negra examinou-a sem dizer palavra; por fim aconselhou:
— Qué sabê, Lúcia? mió é ocê í pra cama. Cosa parece qui tá í. Barriga caiu, isso não faia. Mió é ocê detá.
— Mas é pra hoje!? – perguntou aterrada.
— Uai! – Forte compreensão nos flancos fê-la dobrar-se, logo um peso insuportável na bexiga, um vácuo no estômago, enjoo. Então ansiada, aflita e com medo, quis andar, mover-se, mas tinha as pernas como de chumbo. Uma dor fúlgura atravessou-lhe o ventre como se um estilete a varasse. Encostou-se à mesa, amparando a barriga a mãos ambas. Balbina insistiu:
— Bamo, fia. – Passou-lhe o braço pela cinta, levou-a devagarinho ao quarto; quis despi-la, ela opôs-se, consentindo apenas em deitar-se para ser examinada, e tremia arrepiadamente. A velha foi rápida.
— Cosa é pr’hoje memu – afirmou; – siná tá í. Agora é ocê dexá di moleza. Fica aí quieta enquanto eu vê tudo. Não tem medo, não. Cê ajudando um bocado é um instante.
A mulata atribuía a “sua desgraça” à Vaca-Brava. Desvaneceram-
— se-lhe as últimas esperanças, não tinha mais dúvida sobre a sua sorte: a cabrocha pusera-lhe mau-olhado, estava perdida. Sentou-
— se chorando e via o seu fim trágico: a vingança de Macambira.
Mas os fatos baralhavam-se, confundiam-se-lhe tumultuosamente no espírito: ora era a cena com Julinho, ora era a fúria do marido logo resolvida em ternura. Ouvia-lhe os passos, sentia-lhe o cheiro acre do corpo, tiniam-lhe aos ouvidos sons de campainhas – era a tropa, seguia-a através dos campos, Macambira à frente.
Dores apuavam-na, oprimiam-na. O quarto aterrava-a a mais e mais à medida que escurecia. Se pudesse ficar lá fora...! E olhava estarrecida. Numa dor mais forte, atirou-se à cama amarfanhando as cobertas, trincando os beiços. Quis cruzar as pernas, não pôde: estava sem ação, tolhida, paralisada pelo sofrimento. Nas têmporas as artérias túrgidas batiam-lhe às marteladas; o coração crescia-lhe harto e túmido. Balbina apareceu e ela ouvir bater uma bacia de encontro à cama.
— Antonce?
— Ah! tia Balbina... – arquejou.
— Deta... deta... Ocê vai vê... eu tô cuidando di tudo modi na hora não havê trapaiação. Pera aí. Tem pacienç’a. Cê u qui não deve é tá jugando corpo ansim, criança tá perto. Pera aí.
Saiu; logo, porém, tornou com o lampião, deixou-o na cômoda. Voltou à sala, e Lúcia ouviu ranger a porta, rascar a chave.
Sentiu-se atemorizada, opressa como se sobre ela houvesse caído a lápide de um túmulo. A porta fechada... por quê? para quê? Quis chamar a velha, pedir que deixasse a porta aberta, mas a dor cingiu-a: dobrou-se toda, em arco, atirou-se de flanco, mordendo os travesseiros. Um grito escapou-lhe em convulso tremor.
— Ah! minha Nossa Senhora!... – A negra acudiu e, vendo-a prostrada, animou-a:
— Antonce, fia... Pera aí... Dexa vê.
— Não posso mais! Eu morro, tia Balbina. Parece que estão me rasgando por dentro. Foi Donária, tia Balbina. Isso não era pra hoje. Foi ela.
— É... Ocê foi s’assustá. Ma dexa aquele diabo! Macambira há di sabê. Ma não tem nada. Deta. Agora é tê corage. Tem di vi. Deta. Noss’Sinhora tá í. Nôte cheia d’istrela, cê vai sê filiz.
— Me dá as minhas orações, tia Balbina: ali na cômoda, na gaveta de cá. – A negra rebuscou, trouxe um punhado de bugigangas: bentinhos, rosários, um coto de vela de cera. A mulata recebeu tudo desatinada, atafulhando debaixo do travesseiro.
— Ah! tia Balbina, nunca pensei...?
A negra foi-lhe tirando a roupa, deitou-a e sentou-se no chão com a lata do enxoval aberta, separando peças que ia ajuntando na tampa.
Volta e meia Lúcia levantava-se urgida e mole, lerda, debruçava-se ao respaldar da cama, encostava-se à cômoda ou deitava-se abandonadamente. As pálpebras pesavam-lhe:
— Estou caindo de sono! Se eu pudesse dormir...
— Drome...
Sossegou em modorra, mas uns sons absurdos: burundum de tambores, vozeada rouca, estrupido de passos sapateados puseram-na em sobressalto.
— Que é, tia Balbina!?
— U quê?
— Esse barulho...?
— Onde? Não tem baruio ninhum. Cê tá sonhando. Drome.
Nesse instante uma dor mais violenta assaltou-a, como que a envolveu. Sentou-se num espanto, de olhos muito abertos, a boca escancelada à falta de ar. De repente atirou-se de borco retorcendo-se, rebolcando-se, rangendo os dentes, debatendo-se a rugir, a arquejar aos arrancos. Balbina procurava contê-la:
— Não faz ansim. Cê si machuca.
— Ah! tia Balbina... – suspirou exausta, alagada em suor.
A noite passava vagarosa, a luz do lampião amortecia, lívida. O galo bateu asas, cantou.
Lúcia soergueu-se sobre os cotovelos com um gemido surdo, trêmulo, guaiado, que se prolongou em grito alucinante. A negra inclinou-se sobre ela, dizendo:
— Bom... agora é só tê corage. Mãe du céu tá í. Tem corage... lembra di Macambira. Bamo. Bamo. Tá í já... juda natureza... – E o grito de Lúcia repercutia esgargalhado, tornando-se rouco, estertoroso como se um punhal se lhe fosse cravando na garganta e a voz, a princípio livre e clara, saísse, por fim, rolando em borbotões de sangue.
• • •
— Uai! – exclamou a negra assombrada. Lúcia sentou-se de golpe, num impulso de mola. Balbina estava boquiaberta, com todo o rosto encarquilhado em feição de nojo. Curvara-se sobre a cama amparada às mãos e cacarejava horrorizada:
— Ê! ê! ê?
— Que é, tia Balbina? – Ágil, como se saísse de um sono bem dormido, a mulata pôs-se de gatinhas, inclinando-se para o filho que remexia mole, oleoso, garguiteando um gasnido gosmento. A negra olhava aparvalhada. Apanhou o recém-nascido, levantou-o nas mãos chegando-o à claridade amarela do lampião. Mirou-o e um ronquido trovejou-lhe no peito:
— Esse qui é?
— Tia Balbina! – exclamou a mulata estendendo os braços, súplice, como a implorar o filho que espernegava muito langanhento.
— Esse qui é? – a mulata embatucou. – Misericórdia? – Regougou a velha.
— Dá cá ele. Deixa eu ver. Dá cá, tia Balbina.
— Quá! – Depô-lo na cama e, cruzando os braços, a negra quedou de olhos fitos como alheada, meneando a espaços com a cabeça.
Lúcia ajoelhou-se, tomou o filho que escorregava nas mãos, víscido e flácido, cravou nele os olhos, onde já havia ternura, e logo os levantou para a velha. Encararam-se em silêncio.
— Esse qui é? Cê inganô Macambira.
Lúcia descaiu sobre os calcanhares e, faltando-lhe apoio, tombou de flanco. O pequenito esganiçava coleando como uma lesma. Ela tremia, arquejava, os lábios batiam-lhe em palpitações frementes. Sentia a vida escoar-se-lhe a jorros. A velha falava airada.
— Mode quê? Esse qui é? Fio di branco, vergonha. Cumu é? Cê não tem qui dizê. Cê inganô ele. – Ela quis falar, defender-se, mas desatou em pranto, e a negra olhava o infante, balançando a cabeça. E, triste, pôs-se a dizer o seu pensamento:
— É ansim memo. Cumu não? Nego é nego, branco é branco. É ansim memo. Tá í. Zêri quis... tá í. Agora tudo vai tomá pagode. Ê!... Fio di nego... oia só.
Espirrou-lhe um risinho navalhante. Lúcia caiu de costas prostrada, contendo os soluços.
No silêncio havia estalidos: era o pequeno que chuchava os punhos. A negra respirou desabafando e, aproximando-se da cama, ordenou severa:
— Deta dirêto... dexa mudá cama.
Lúcia encolheu-se com medo, apertando o filho no braço, muito chegado ao seio e, ora voltando-se, ora soerguendo-se enquanto a negra substituía os lençóis, não a deixava com o olhar espavorido.
— Tá í. – Fez uma trouxa da roupa que retirara. – Cê vê qui qué mais.
— Mais nada. – Deixou-a, saiu como se a abandonasse.
Os galos amiudavam. Um largo suspiro esvaziou-lhe o peito. E ali estava o filho. Ela bem o sentira no ventre durante todo aquele tempo. Ali o tinha?
E refez-se naquele ambiente de angústia, que tresandava a seiva humana, a tarde trágica da violação. Tudo eram ervas emaranhadas, árvores bravias, espinheiros e capins cortantes, urtigas cáusticas e estrepes, a terra ainda morna do sol e já em sombra noturna e Julinho na tocaia.
Via-o, sentia-o que lhe dilacerava as entranhas deixando-lhe no fundo aquela vergonha que crescia, rompia-lhe as carnes e ali estava: saíra-lhe do corpo como sai o punhal de uma ferida: em ondas de sangue. Ali estava. A cabeça doía-lhe como se lha apertasse um capacete de ferro, constringia-se-lhe a garganta num travo que lhe suspendia o hálito.
As sombras animavam-se despegando-se das paredes como papel solto, subindo do soalho em fumaradas, afetando formas bizarras, esguias, aladas, pairando, rastejando, esvoaçando.
Fez um esforço para voltar-se: lufou aos gorgolões a vida.
Balbina deixara-a só com a Morte, era ela que a rondava com um lúgubre cortejo. Mas a negra entrou com uma chaleira, arrastou a bacia, temperou o banho, tirou-lhe o pequeno do braço e, de cócoras, pôs-se a lavá-lo.
Ela tremia sem ânimo de falar. O silêncio da velha apavorava-a. Não era Balbina, era uma das sombras do quarto que se lhe apoderara do filho. Chegou-se mais para a beira da cama transida, arrepiada, sentindo que lhe arrancavam os cabelos, acompanhando, a fito, tudo que a velha fazia. Viu-a retirar o pequeno d’água, deitá-lo ao colo, contemplá-lo um momento, depois virá-lo, revirá-lo enfaixando-o.
Parecia-lhe, por vezes, que ela ia estrangulá-lo – ficava estarrecida, e foi com verdadeiro alívio, contente, que, de novo, o sentiu no braço, muito cheiroso, esfregando-se nela como se farejasse o leite.
A negra abria largamente a porta, saiu com a bacia. Tornou, instantes depois, com uma lata onde ardiam brasas, esfarelou por elas a mistura de alfazema, benjoim e açúcar e começou a defumar o quarto pelos cantos.
O ambiente nublou-se: rolos de fumo espesso subiam caracolando, condensavam-se em nuvem, rolavam, estendiam-se em véu denso.
Por fim, como se nada mais lhe cumprisse fazer, dando por finda a sua missão, Balbina perguntou:
— Cê qué qui fala cum sinhô ú cumu é? Macambira chega. Mió é sinhô sabê.
Falava numa voz estranha: não parecia a mesma vira-mexe rezinguenta – tinha uma serenidade de sentença.
Lúcia chamou-a, então, muito humilde, quis que se sentasse à beira da cama; ela deixou-se estar de pé, braços cruzados, rígida.
— Escuta, tia Balbina, vosmecê está com raiva de mim, eu não tive culpa. Foi nhô Julinho. Vosmecê sabe como ele é. Olhe... – e descreveu-lhe a cena entrecortadamente, estuando de fadiga, às rajadas de choro. A negra não a interrompeu: ouviu impassível, sem um gesto. – Eu devia ter dito... não devia ter casado. Foi medo... medo de nhô Julinho e de Macambira... e vergonha, tia Balbina.
A negra não disse palavra: apanhou a lata onde as brasas morriam e saiu.
• • •
O silêncio era terrífico, picado, a quando e quando, de sons vagos, como vaga-lumes na treva. Lúcia estremeceu num abalo irritado, pruído em aflição frenética, arrepanhando o lençol, estirando, encolhendo as pernas. Uma nuvem empanou-lhe os olhos, depois a vista purpureou-se-lhe: via tudo em rubro, enxameado de moscas lucilantes, vermiculado de estrias, num irisamento que deslumbrava.
As centelhas agregavam-se em brasido, esparziam-se em chuveiro; foi depois um fogaréu de onde subiam labaredas de bordas azuladas. De improviso a treva. Foi-se-lhe apagando a consciência, imobilizou-se com o braço estendido amparando o filho que adormecera.
• • •
A porta abriu-se. Um sopro de ar puro invadiu o quarto. Balbina entrou devagarinho, como quem espreita.
— Dia tá í. Cê qué qui fala cum sinhô ú cumu é?
O lampião morrinhava fuliginoso, e no silêncio morno, como se um animal andasse por ali a roer, havia, de instante a instante, um chuchurreio: era o pequeno que sugava os pulsos.
A negra repetiu mais perto:
— Dia tá í. Cê qué qui fala cum sinhô? – Sem resposta, ficou um instante indecisa – talvez fosse melhor deixá-la dormindo. Mas caminhou até a cama: – Eu vou vê Rosa modi m’ajudá. Cê qué qui fala? – Tocou-a de leve para despertá-la, balançou-a brandamente, chamando-a: – Lúcia...! – Então, com uma dúvida sombria: – Cê qué vê qu’é memo...?
Inclinou-se-lhe no rosto, chamando-a mais alto:
— Lúcia! Oia...! – Considerou um momento e insistiu: – Lúcia?
Apalpou-lhe o rosto macilento, o colo farto, e achou-a fria.
Então, ligeira, embaraçando-se em panos que se lhe enrolavam nos pés, foi abrir a janela.
Uma luz baça clareou o interior: na cama, revolta e empastada de máculas, a mulata, imóvel, a cabeça entalada entre travesseiros, de olhos semicerrados, os dentes à flor dos lábios lívidos, parecia de cera. O recém-nascido debatia-se ainda amparado pelo braço inerte.
A negra coçou a cabeça arrepeladamente, em atordoado desespero: “Oia só essa pobre coitada!” De mão ao queixo esteve a contemplar piedosamente o cadáver. Por fim, meneando com a cabeça, traçou no ar o sinal da cruz: “Deus Noss’Sinhô te perdoe.” O pequenito abria preguiçosamente os olhos, franzindo o rosto. A negra olhou-o sem pena:
— Cê ficô? Cê vai vê. Branco ansim memu cê vai vê vida. Não vê qui sinhô modi cô perdi escravo. Cê vai vê.
Tomou o lampião, levou-o à cozinha, limpou-o e, tornando com ele aceso, pô-lo sobre a cômoda.
Então fechou a janela e, sem mais olhar a cama, onde jazia a morta e o recém-nascido continuava a chupar os pulsos, traçou um pano à guisa de xale, fechou a casa e saiu.