Capítulo VIII Rei Negro · Capítulo 8 de 10
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Capítulo VIII

O vento morno, pesado, lufando a lentas bafagens, espalhava um cheiro adusto de terras ressequidas. Túmidas nuvens plúmbeas sotopunham-se, a espaços fúseis estriavam-nas. Rolos de pó, remoinhando em espiras terebrantes, corriam à flor do solo revoluteando folhas secas, até esgarçarem-se em polvorada, ao vento.

Os ruídos vibravam claros, repercutindo como em caverna. Relampejava em frêmitos. Escurecia rápido. Chegavam pombos em fuga; andorinhas volteavam atordoadas; soavam pios tímidos nos ramos.

Longínquos, com reboante fragor, tronavam trovões soturnos. E o calor subia da terra seca como em borralho.

Balbina chegou à porta, considerou o céu escuro e baixo, que parecia rolar na fumarada espessa dos nimbos, e, ao relumbrar de um relâmpago, persignou-se.

Ao longe revolviam-se turbilhões de poeira abrumando a paisagem. Gente corria nas veredas do campo; bois amotinados galopavam aos magotes, a cauda alçada; bezerros trasmalhavam aos galões, escornando a esmo, e tornavam à manada, aos pinchos.

E todo o arvoredo estortegava-se, debatia-se desgrenhado, em angústia, como se lutasse desesperadamente para arrancar-se da terra e fugir ante a catástrofe iminente.

Afigurava-se um cataclismo a pino. Detonações explodiam no pávido silêncio. Uivos cresciam, passavam no esfuzio do vento, perdiam-se ao longe como no desapoderado investir de matilhas hidrófobas. Nevoeiros ralos rompiam-se nos ramos.

A negra olhava pensando em Lúcia. Fechou as janelas – a casa ficou em noite escura e o cheiro da morta reapareceu ácido, enjoativo, impregnando o ambiente. Moscas esvoaçavam assanhadas como em carniça.

A negra imaginava a caminhada longa com a criança, à noite, por aquele tempo ríspido. “Cumu vai sê?!” Eram barrocais, bibocas pedrentas, matos enredados, depois a várzea rasa e nua, com os cupins a prumo, como vultos tocaiados na sombra, servindo de poleiro ao saci nas noites aziagas. “Cumu é? Vai saí ansim?”

Cresceu a aflição das árvores: os bambuais vergavam-se em mesuras, e o estrondo ribombava à fulguração sulfúrea dos relâmpagos. Mas um estampido seco estalou ríspido, violenta rajada arrepiou a paisagem e a chuva áspera, grossa, chegou estrepitosa, tão densa que fechou a vista a tudo, como um muro de aço. Acre e morno subiu da terra um bafio de barro virgem.

E a chuva jorrou torrencial. Os relâmpagos sucediam-se em deflagrações fosfóreas, e, como num despenhar de fragas, aos esbarros, raios estrepitavam.

Balbina acendeu o lampião da sala e, alumiando-se com a candeia, dirigiu-se ao quarto onde deixara o recém-nascido. Encontrou-o dormindo.

A alma áspera da negra enterneceu-se diante da criança: “Tão pequenina, um dia só e sem mãe...!” Longe dela tinha assomos de revolta, rebentinas de ódio, ameaçando abandoná-la: “Cê vai vê!” Contemplando-a, porém, na inocência do sono ou de olhos abertos remexendo-se nos trapos, o coração fundia-se-lhe em ternura. Ia logo buscar a xícara d’água com açúcar e, às colherinhas, pacientemente, desalterava-a, comentando-lhe a gula, quando ouvia os estalidos do lábios ávidos, sorvendo. “Sê é ‘sganado memo... uhm! Cê pensa qu’eu tá aqui mod’inchê barriga d’ocê? Poi sim...” E a criança chuchurreava sôfrega.

Sentada no chão, junto da esteira onde jazia o infante, a negra imaginava tristonha: “Caminho da Barra. Lá ia, com ele ao colo. Já avistava a igreja... Justamente chegava ao adro quando o quarto alumiou-se súbito como numa explosão e toda a casa tremeu a um estrondo. O pequeno sobressaltou-se.

Supersticiosa, a negra imediatamente ligou o seu pensamento ao fenômeno concluindo que era Deus que protegia a criança com a tempestade, talvez por intercessão da finada, espalhando raios e inundando os caminhos para que ela não pudesse sair. Então, arrepiada de medo ante a ameaça divina, como para ser ouvida no céu, falou alto à criança que despertara.

— É, ocê tá oiando. Quem mandô foi sinhô memo. Nego faz qui sinhô manda. Cê fica aqui... I dipoi? cumu é? Quem vai cria ocê? preta véia? uai! porco tá lá. I Macambira? Macambira vem aí. Cê tá nu bem-bom, preta véia é qui vai vê. – Mas a resolução estava assentada: a tempestade era ordem do céu, e o seu coração obedecia contente.

Acendeu o cachimbo e, encolhendo as pernas, com o queixo fincado nos joelhos, o olhar parado, pôs-se a pitar, mazomba.

Que fazer? E se fugisse com ele? Havia tantos mocambos por aqueles cafundós da serra... Melquior lá estava, Barnabé, Felício, Chico Bexiga, Tito... Este até tinha casa, roça, criação e gente armada para defendê-lo. Era um rei pequeno lá em cima. Uma vez por outra aparecia na Barra, à noite, para fazer sortimento no armazém. E seu Narciso... nem como coisa! Não vê?

Tito, além de cutuba, era fechado. Quando deram em cima dele, a tiro, no Rodeio, foi o mesmo que nada. Três turunas da escolta ficaram estendidos e ele ganhou o mato, muito fresco, com os seus macambas. Podia ir para lá, mas Tito tinha tanta gana aos brancos que era capaz de fazer alguma ao inocente. Meneou com a cabeça. Não lhe ocorria uma ideia.

A chuva escachoava nas telhas e o vento esfuziava, lúgubre. O pequeno pôs-se a choramingar. Preparou-lhe a beberagem e, ministrando-a com solicitude maternal, pensava no que seria dali por diante. Como havia de criá-lo? Leite não faltava: era só ir ao pasto onde as vacas andavam soltas ou então lá embaixo, na pedreira, cercar uma cabra e ordenhá-la. Mas se vissem!? Teve um frenesi, arrepelando-se; desenrolou a trunfa, refoufinhou a carapinha. Enfim... Nosso Senhor estava lá em cima. E, escutando as bátegas da chuva, tranquilizou-se, certa de que, no momento do perigo, a Providência seria por ela.

Amanheceu chovendo. Choveu todo o dia, miudinho, até a tarde. À noite estiou com estrelas. Ela receava a chegada de Macambira. O negro podia aparecer de repente... e então?! Resolveu transferir-se de madrugada para o seu rancho, com o pequeno.

Deitou-se junto da esteira. Lá para as tantas acordou. Que horas seriam? O relógio parara à falta de corda. Abriu a porta: fazia frio, mas o céu era um crivo de estrelas. Devia andar por meia-noite.

A espaços o cão gemia uivos, os sapos barulhavam em grasnada. Correu a casa examinando portas e janelas e, apanhando a criança, atabafou-a, apagou o lampião e a candeia, fechou a porta por fora e foi-se.

Descia devagar na treva múrmura das frondes, sondando o caminho resvaloso. Por vezes atolava-se em poças, escorregava em lameiros. Os matos apegavam-se-lhe às roupas, os galhos batiam-lhe no rosto, ainda gotejantes. Havia sussurros misteriosos. Embaixo, o córrego, muito cheio, rolava rumorejando. A negra procurou passagem. A pinguela mergulhara e as alpondras desapareciam alagadas. Sapos, jias enormes saltavam chapinhando, e a água fosca por vezes tremeluzia como ao alumiar de um fósforo.

A negra meteu-se afoita pelo capinzal, chafurdou estarrecendo à friagem, com água até as coxas, mas seguiu e, alcançando a margem oposta, toda em lama, meteu pelo vassoural direita ao carreiro que levava ao rancho, num socavão de pedras lutulentas.

• • •

Na tristeza do sítio áspero, escalavrado das enxurradas do morro, onde explodia uma vegetação agreste, aos tufos híspidos e emaranhados, ora em borbotões de ramas, ora hirta e dura, em feixes espatulados, ermava o rancho. Era um mundéu bambeando aos rangidos nos esteios podres, mal escorados, descaindo sobre as bananeiras que se apinhavam em touceiral, ao fundo, num terreno escuro, sempre atascado em lameiro do transbordo perene de uma mina que brotava entre pedras.

Os muros, em parte destorroados do reboco, eram um xadrez de ripas tisnadas como tições por entre as quais o sol luzia e o vento zargunchava. O sapê, esfiapado, esvoaçava em falripas franjando o beiral do teto, e, por entre a palha cinzenta, pelas taliscas das paredes, o fumo esgarçava-se como saindo de uma fogueira morta. Em volta era mato bravo, com pitangueiras e limoeiros cobertos de erva-de-passarinho.

Joás espinhentos, cocurutos verdes de melão-de-são-caetano, piteiras espalmadas e o folhedo escuro e largo dos inhames davam à lúgubre covanca um aspecto hirsuto de abandonada miséria.

O maçambará crescia por ali fora ondulando; um aboboral alastrava viçoso, cobria lombas de rochas, subia tufado pelos muros da choça espalhando-se em cima, como em latada. Uma telha, entalada em pedrouço, jorrava água límpida numa tina que transbordava em atascal; ao lado a moenda e o galinheiro, cercado de bambus, com um jacá suspenso de um cepo para os pintos.

No interior a penúria era sórdida. Chão de pocilga, esburacado; molambos sujos trapejando em cordas, teias de aranhas em colgaduras. Um jirau baixo forrado de palha de milho, com um estraçalhado cobertor azul; um pote d’água bojudo, manchado como de lepra, prateleiras amarradas às ripas, um caixote servindo de mesa atulhado de bugigangas: cuités, latas, cumbucas, vidros.

Minhocas colubreavam pelos cantos na terra fofa, baratas fervilhavam e correções de formigas filetavam o solo em traços iterativos.

À noite, à luz baça da candeia ou ao livor dos tições do borralho, eram correrias e chiar de ratos, estrídulos de grilos, zoar de besouros; sapos pulavam ou, esparrimando-se, de olhos esbugalhados, acompanhavam as viravoltas da negra macambúzia que, umas vezes, evitava pisá-los, desviando-se, outras vezes, rezinguenta, repelia-os a pontapés: “Sai, diabo!”

Quem passasse, à noite, pelo labrusco, ouviria a voz da solitária: conversas longas, discussões, risos, ameaças. Era ela a falar com o lume das achas, com a fumaça borralheira, com as sevandijas fimícolas que verminavam na sombra com o vento, com os discos de luar, com os rumores vagos do arvoredo.

Mugidos longínquos provocaram-lhe comentários:

“Cê tá chamando muié? Essa é hora? Dia não chega? Vai drumi, seu bandaio!” Ou então: “Uai! Quem sabi s’ocê é mió qu’a genti? Fio de genti, memo passa noite sozinho, bizerro não podi passá... Dexa di luxo! Qu’ê qu’ocê tá berrando? Ocê tamém não é escrava? Guenta. Mundu é ansim. Noss’Sinhô deu lete ocê mod’ocê criá fio, branco bebe. I nóss? Uai! Nóss é genti i lete di nego onde é qui vai? Prugunta! I nego berra? Chora calado i vai criando sinhô...”

Outras vezes cantava sapateando, rebolando o corpo esquálido em saracoteios peneirados.

Tais colóquios misteriosos, surpreendidos por alguém, criaram à negra a fama sinistra de feiticeira. Da narrativa sarapantada do primeiro informante saiu e desenvolveu-se a lenda que a tornou temida, e o seu antro, já desviado das trilhas frequentadas, isolouse ainda mais no terror que inspirava.

E o que se dizia na roça e nas senzalas era de arrepiar.

Negros referiam encontros assombrados com aventesmas e animais disformes: mulas sem cabeça, caititus monstruosos, de cerdas faiscantes, que passavam a galope taramelando os colmilhos, montados por anões negros que eram sacis; esqueletos arrastando sudários, sapos, corujas, morcegos.

Outros juravam ter ouvido gritos lancinantes, guaiados angustiosos à beira do açude, vendo surgir das águas vultos de neblina que se retorciam no ar gemendo nomes de afogados.

Marciano campeiro, crioulo afoito, entrando com a boiada uma tarde, deu por falta do touro inglês. Fechou o curral e tocouse mato dentro, à procura do bicho.

Foi anoitecendo. Era um poder de vaga-lumes que iluminava os ramos. Entra aqui, sai ali, sobe morro, desce morro, nada! O bicho era mocambeiro e, ganhando o cerrado, nem Santo Antônio descobria.

No capoeirão era escuro que nem breu e parecia que havia gente chamando: “Psiu! Psiu!” Nossa Senhora d’Ajuda?

Saiu no limpo. O céu estava todo estrelado, uma lua grande boiava lá em cima.

De repente tudo escureceu, começou a roncar trovoada, cada relâmpago que cegava, raio caía que nem chuva. Nossa Senhora! Olhou. O coração ia ficando pequenino, tremia das pernas a ponto de cambalear.

Que seria aquilo?! Lá longe, o céu cheio de estrelas, a lua clara e ali aquele inferno de trovoadas e raios.

Foi, então, que reconheceu o lugar: estava na grota, pertinho do rancho de Balbina, perdido! Virgem dos Aflitos! Quis fazer uma oração, não pôde. O braço duro não se dobrava para o sinal da cruz. Estava perdido de uma vez?

De repente um estrondo por ali fora como numa derrubada, e as árvores arrancaram-se da terra, crescendo, sacudindo-se, e saíram aos pulos, pedras saltavam batendo umas nas outras, fogo rabeando nos matos, a água dos atoleiros fervendo aos borbotões, que nem calda em tacha; e cada bicho!... Almas com as mortalhas soltas, suindárias guinchando, jias barrigudas em pé, que nem gente, cada uma do tamanho de uma criança, tudo dançando, e a trovoada batucando que nem caxambu e coriscos fuzilando.

De supetão, com um tiro, a porta do rancho abriu-se, bufando uma lufada de fogo, e Balbina apareceu, nua, com uma cobra enrolada na cintura, dois ossos de defunto nas mãos, um cururu pendurado em cada maminha, os dentes grandes alumiando, os olhos lançando chispas, e atirou-se, aos gritos, no meio da sarabanda.

O medo deu com ele em terra, desacordado.

Despertou de madrugada, com o canto do galo. Deus Nosso Senhor não o deixasse sair de onde estava se mentia. Achou-se no meio do pasto, perto de um cupim, e o touro inglês junto dele, deitado, ruminando. A lua dobrava a serra, lá embaixo. Nossa Senhora dos Aflitos! que noite! À negra pouco se lhe dava o que diziam. Não bulissem com ela, o mais... falar? Cada um diz o que quer.

• • •

A chuva alagara o terreno côncavo da grota. As veredas eram caneiros aglutinantes onde a erva atascava-se acamada, espojando lama ao piso. Um grosso, pastoso tijuco amolecia o terreiro.

A noite parecia mais negra e lúgubre naquele recanto. Piques de lume espetavam a sombra entre as densas folhagens. Contínuo estrilar de grilos, roncarejo monótono de sapos faziam estranho estridor no silêncio.

Por vezes o vento arrufava os ramos; estalidos crebros trepidavam, corriam murmúrios a quando e quando: o mato como que se arrepiava com um sussurro trêmulo. A negra seguia devagarinho, sondando o terreno, receosa de atolar-se. Aqui, ali no lameiro estriavam-se fisgas de claridade ou era um brilho de estrela tremeluzindo na lisura espelhada do atascal.

Junto do rancho era tão profundo o lamarão que a negra, sentindo afundar-se, recuou, deu volta por cima das pedras, agarrando-se às piteiras.

A água do bicame acachoava em enxurrada. Bananeiras caídas formavam tapumes altos.

A choça sofrera com os embates do vento que levara a porta dentro.

Balbina passou de esguelha e, no interior, sentiu o solo espapaçado, chapinhou em poças, escorregando esparridamente em pastas víscidas. Foi, pelo tino, ao jirau, apalpou-o: estava encharcado. Os panos que pendiam das cordas roçavam-lhe umidamente pelo rosto; os muros tressuavam. Hesitou. “Esse moiado ansim...” Envolveu a criança, deitou-a no jirau, riscou um fósforo e acendeu a candeia. Uma luz triste desnudou a miséria do pouso assolado: o chão lúrido reluzia, e um frio, mais áspero do que lá fora, regelava ali dentro. “Esse não tá bom, não. Criança ansim não vai lá...” Relanceou o olhar em volta com esgares aborrecidos de nojo. Ajuntou gravetos, um pouco de palha seca, e fez fogo. As paredes vermelhejaram, a fumaça espalhou-se rasteira, ondulou mais cheia, subiu em rolo esgarçando-se ao alto.

A criança choramingou. “Ê! Cê agora é qui qué chorá? Tem pacienç’a. Pera um poco. Chuva istragô tudo. Qu’é qu’ocê qué? Tá frio, tá memo, ma tem pacienç’a. Qu’um poco calô vem, dexa fogo pegá.”

Pôs uma lata com água ao lume e, sentindo-a morna, adoçou-a e deu-a ao pequeno, aconchegando-o depois ao colo até adormecê-lo. Deitou-o e, ajuntando molambos, que tirou de um caixote, acolchoou-lhe um leito agasalhado. “Tá í. Agora drome.”

Então, acendendo o cachimbo, sentou-se encolhida à beira do fogo, imóvel, olhando agudamente a chama, como em fascinação.

Revia a cena dolorosa lá de cima: a confissão, a agonia da mulata, o corpo em sangue, o enterro, Manuel Gandra ordenando o abandono da criança e Deus falando na trovoada. De repente sentiu o sapê estralejar, a porta ringiu, tremeu como empurrada. Voos surdos circulavam, vozes em cochichos, um choro triste que ia e vinha e um frio, um frio...! Aprumou a cabeça à escuta. A criança tossiu, choramingou agitada. E, lá fora, trissos, rastejar de passos frouxos, soídos vagos, estalos de asas.

A negra estremeceu, voltou-se de golpe, ferrenha, como irritada com os rumores da noite. Um momento, de olhar duro, fitou a porta; vagarosamente relanceou a vista pelo teto, por todos os cantos. Soergueu-se, deixou o cachimbo no caixote e, de cócoras, quedou atenta.

Houve um barulho acachoado como da queda de uma árvore. A negra desvariou assombrada. Um frio de neve gelou-a, arrepiaram-se-lhe as carnes e os cabelos, eriçando-se, como que lhe cresciam aos ímpetos. Encolheu-se resvalando olhares desconfiados. De repente, porém, como arrancada, levantou-se e, ereta, hirta, remoendo as mandíbulas, os olhos alumiando, fitou a porta como à espera da aparição.

Avançou um passo duro e bradou em voz rouca: “Cê tá í?” Tiritava, as mãos iam-se-lhe engelhando, aduncas; o coração batia-lhe precípite. Faltava-lhe o ar. “Cê tá í?”

Esperou resposta, ouvindo hiperestesicamente os mais leves ruídos no silêncio.

“É ocê, rapariga? Qu’é qu’ocê qué? Cê tá rondando fio mod’eu? Sussega, eu não fá má criança. S’é pra levá, leva; é mió. Qu’é qu’ele fica fazendo sem ocê? Mundo é mundo, cê sabi; cativeiro tá í.” De novo, mais áspera, a tosse sacudiu o pequeno. “Oia só. Esse é frio. Frio já intrô nele.”

Agasalhou-o mais, encostou a porta, forçou o loquete e traçou uma cruz no ar como para defender a entrada do rancho, ameaçado pela morta. Esteve um momento parada a escarafunchar a carapinha, pensando. Por fim sentou-se no caixote, tomou o cachimbo, mas os olhos cerraram-se-lhe; bocejou alto, as mãos caíram-lhe nas coxas e, inclinando a cabeça, adormeceu.

No rancho, em silêncio, ao luciluzir mortiço do braseiro, surdiram sorrateiramente gordas ratazanas.

• • •

De madrugada Balbina saiu do rancho encostando a porta e foi-se pelos matos a caminho do curral, no outeiro. Seguia cabisbaixa, casmurra, evitando os lameiros, indiferente à beleza da manhã que alumiava de ouro a fresca e lustrosa paisagem.

A covanca erma, em silêncio, começava a aclarar-se: as pedras róridas luziam, as folhas largas dos inhames ganhavam uns tons cinabrinos, e a erva, esmaltada de orvalho, fulgia em cintilações faiscantes.

A água cantava perene, em fio claro, entre pedras. Arrufos de voos, pios denunciavam aves. O céu, de um azul fino e brilhante, transluzia, o arvoredo brilhava, e, longe, na orla da serra, flocos de névoa rala esgarçavam-se esfumadamente.

Súbito um ruído esfrolou o bananal cerrado, sucederam-se golpes regulares e, logo, fragoroso, o estardalhaço de uma derrubada. Pombos voaram prófugos e, pouco depois, uma negra, com uma penca de bananas verdes, surgiu na vereda atolada em folhagens podres. Esteve um momento parada, como à espreita; por fim desceu, beirando o caneiro, até o bicame. Pôs-se de cócoras e, concheando as mãos, bebeu largamente, a sorvos chuchurreados, lavando a cara, bochechando e metendo os dedos de esfregão na boca. Era Vaca-Brava.

Sabendo que Balbina vivia lá em cima tomando conta da casa de Macambira, dava-lhe no bananal levando-lhe o fruto melhor e, ainda, por maldade, devastava o plantio golpeando troncos, detorando folhas, espezinhando rebentos com fúria destruidora. “Ah! Gente pranta, cuida, sua im cima i nem cumu cosa; essa peste dexa tudu nu mato i oia só: bananera nem podi, cada cacho qui faz gosto. Diabo da curumba!”

E cuspilhava, lanhando a faca os troncos, que ficavam a sangrar seiva.

Refrescada, levantou-se, sacudiu os braços, golfou da boca um jorro d’água que ruflou nas folhas e ia tomar a carga às costas quando se pôs de recacho, a cabeça a prumo, o olhar duro e fito, atenta:

— Uai! Choro di criança... A mode quê é. Cê qué vê?! – Ficou à escuta: – É memo. Tem criança chorando aqui. – Caminhou direita ao rancho e encostou-se à porta, meio curvada, imóvel: – É memo. Ê! Tia danada! Isso é mandinga qu’el’anda fazendo, mandinga braba. – Experimentou a porta e, sentindo-a solta, empurrou-a, levando-a de raspão no lodo onde emperrava.

O bafio de umidade e sujeira fê-la franzir o nariz: “Uhm! Fede qui nem chiquero. Cruz!” Abocou para dentro: “Ó de casa!” Silêncio. Então atreveu-se, certa de que a negra não estava.

Um raio de sol insinuou-se pela abertura lustrando o lodo. Dentro a terra úmida, arregoada, tinha soalhas de luz.

Hesitou, inteiriçada de pavor supersticioso. Balbina podia estar por ali em algum canto com os seus feitiços.

A escuridão parecia-lhe verminada de taturanas, estriada de cobras flamíneas: eram clarões coados das frinchas do teto, das taliscas das paredes que reluziam no solo lutulento. Uma vara de fogo atravessava-se ao fundo, e dela pendia larga teia de aranha trêmula brilhando radiosamente como um sol. Chapinhava em visco.

Pouco a pouco, porém, habituando-se à sombra, foi distinguindo o que a cercava no desmantelo relaxado e imundo da baiuca: panos, caixotes, pilhas de gravetos, ramas e, como a criança choramingava rezingando, guiando-se-lhe pela voz, foi descobri-la no jirau embrulhada em trapos úmidos. Tomou-a atabalhoadamente numa pressa de ladra, saiu com ela à porta, mirou-a ao sol, com espanto. A criança remexia-se mole, de olhos fechados, no encadeamento da claridade.

— Uai! Branco...! Cumu é, genti? Ond’é qu’ela foi achá isso?

— Descobriu o corpinho envolto em panos sórdidos que tresandavam. É macho. Ficou-se a considerá-lo, pensativa: magro, lívido, lânguido. Qui langonha! De repente, exclamou: Cê qué vê! Foi-se-lhe acendendo o olhar e escancelou a boca desdentada num hiato de triunfo: – Ah! Ess’embelêgo é fio di Lúcia, é memo. Tá ixplicado. É fio di Lúcia. – Repentinamente, embrulhando a criança na traparia fétida, estalou uma gargalhada cruel! – Toma, canaia! Fio di nhô Julinho. Paga, muxiba! Paga, safado! – E rugiu:

— Mata u fio agora, mata u fio, curumba, cum’ocê matô a mãe, modi ninguém sabê. Canaia! Canaia! Oia só: branquinho qui nem leite. Abri os oio, dexa vê. – Forçou a pálpebra da criança: – Oio azú... Tá dirêto. – O pequeno esganiçou, mas a negra, frenética, levantando-o nos braços, esfregou-lhe o rosto pelo corpo como a farejá-lo gulosa. – Cê tá í... Cê tá í. Agora quero vê muxiba contá prosa. Agora sim. Tá qui! – E, triunfante, levantou a criança nas mãos, como para mostrá-la ao sol, aos montes, ao arvoredo, à natureza toda numa necessidade perversa de testemunhas para a sua vingança: – Tá qui, tá qui, fio di nhô Julinho. Agora sim, canaia! Agora é qui bamo vê?

E, na alegria feroz, rinchavelhava, sapateava, tripudiando na lama com o pequeno aos bailões nos braços.

Contente da descoberta, antegozando o escândalo, a cabrocha reentrou com a criança e depô-la no jirau refungando de nojo ao cheiro que se desabafava do corpinho lânguido.

Levando a pontapés a trapalhagem espalhada no chão, coscuvilhava afuroando nos cantos, emborcando vasilhas, revirando caixotes, sacudindo molambos. Baratas saíam aos enxames, algumas em voo aturdido, minhocas espichavam-se, coleavam lúbricas, uma férvida sevandijada debandava, e a cabrocha, aos muxoxos e resmungos, saracoteava, sapateava com repugnância asquerosa vendo remexer molemente a sórdida vérmina.

Ao choramingar da criança plantou-se diante do jirau, de mãos à ilharga, olhando. Tinha vontade de arrebatar o pequeno, sair com ele por ali fora, mostrando-o a toda a negrada, só para tirar vingança do muxiba. Esganiçou uma gargalhada imaginando a cara de Macambira quando soubesse da coisa. Tanta empáfia, tanta fidúcia com a mulata e estava ali a “poia” do outro. Deu um safanão à saia, sungou a camisa que lhe escorria dos ombros e aprumou-se arrogante:

— Agora sim, quero vê. – Cuspilhou de esguicho e deu volta, de rabanada. À porta, porém, estacou, vendo Balbina que chegava mui de passo, com uma lata à cabeça, um feixe de ervas debaixo do braço. Quis recuar, esconder-se, mas a negra descobriu-a e, reconhecendo-a, rugiu assanhada:

— Cê! Cê aqui, sô diabo! Qu’é qu’ocê tá cherando ni casa dos otro, muafa? É cachaça qu’ocê tá caçando, vagabunda? Sai já! Sai já pra fora! Ruma! – Encararam-se em atitude de desafio. – Bamo! Bamo! Ruma d’aí, sua ladrona. Ruma! – e agarrou-lhe o braço. A cabrocha livrou-se de repelão, fugiu com o corpo e, investindo de arranque, sem dar tempo à negra de defender-se, atirou-lhe as mãos ao peito derrubando-a. A lata rolou na lama caleando-a de leite, e a velha, escabujando, com um garguitear de raiva, forcejava para levantar-se quando Vaca-Brava, em fúria, atirando-se-lhe em cima, pôs-se a espezinhá-la às patadas, dizendo ofegantemente, em voz surda:

— Cê qui pensa?! Eu ti acabo, burra véia! Eu ti acabo! Quem sabi s’eu sô Lúcia, qu’ocê mato mod’u fio? Cumigu cê tá inganada, sô diabo! – E açacanhava-a. A negra gania espantada em lodo, aos reboleios, com os braços pela cabeça defendendo o rosto. E a cabrocha encarniçava-se a mais e mais, e, como se lhe não bastasse maltratá-la aos pés, agachou-se e, ajoelhando-se-lhe no peito magro, pôs-se a esbofeteá-la, a esmurrá-la às punhadas. Por fim, satisfeita, impando de orgulho, deixou-a como morta e meteu-se pelos matos, a rir, gingando, a arrepanhar a roupa esfrangalhada.

Balbina ficou atirada, sem poder mover-se, até que, lentamente, estendeu um braço como quem desperta, virou-se, sentou-se a custo e ficou largo tempo imóvel, airada, volvendo olhares vagos.

O leite derramado fazia um coalho branco no lameiro. A velha mirou-o com pena e sacudiu a cabeça resignada murmurando: “Tá bom...” Pôs-se de joelhos, ergueu-se dorida e, de pé, com o pano da trunfa desenrolado, estirou os braços magros, dizendo lamurienta: “Noss’Sinhô ajud’ocê. U qu’ocê fez numa preta véia, qui pudia sê sua mãe, Deus Noss’Sinhô tá oiando. Vai, sombra d’ocê memo há di vingá eu.” E traçou uma cruz no ar. E manca, coxeando, a amparar-se, entrou no rancho e, lá dentro, de repente, como se os ossos se lhe houvessem derretido, desabou no chão em trouxa, e, estorcendo-se, pôs-se a gemer baixinho.

A criança vagia. De quando em quando, como se a espetassem, esgoelava um grito lancinante, debatendo-se, com a cabeça aos boléus, e recaía no anseio crebro, em ritmo cansado. A negra arrastou-se até o jirau, soergueu-se, apalpou o corpo flácido do pequenito:

— Ê! Ê! Cê memo não vai lá... E esse diabo, inda mai, foi derramá o lete. E agora? Qu’é qu’eu vai dá ocê? – Cobriu-o, e sentou-se à beira do jirau, acendeu o pito e ficou banzando. De repente, como em resposta a um pensamento, deu de ombros. Seguia Vaca-Brava, via-a a palrar à beira do córrego, no quadrado, à porta dos ranchos, na roça, ajuntando gente para contar o caso, e a notícia espalhavase pela fazenda e a cabrocha, fanfarronando, diria como a deixara caída na lama, moída a pontapés e murros. Pôs-se de pé, a tremer de ódio, numa necessidade de desforço, mas, ouvindo o grito da criança, revoltou-se e, estabanadamente, tirou-a dos panos:

— Ah! cê tamém... Qu’é qu’ocê qué?

Pôs-se a niná-la; mas sentiu uma esfrolada no sapê do rancho: levantou a cabeça e os olhos encheram-se-lhe de moinha de palha como se o teto se fosse pulverizando. As pancadas sucediam-se em cima no colmado, nas paredes; torrões de barro desprendiamse. Ela compreendeu: era a molecada que lhe apedrejava a casa. Deixou a criança e, aos trancos, mal se podendo ter nas pernas, saiu à porta vociferando:

— Oia, canaia, cês não bole cum quem tá quieto. – Mas as pedras esfuziavam, batiam no palhiço, frouxas, destorroavam o adobe das paredes, farfalhavam no bananal, e a velha, para não ser alcançada, recolheu-se, fechou a porta, e, na penumbra estriada de sol, junto do jirau onde a criança arquejava, ficou a ouvir o estrondar das pedras e a grita da molecagem que atacava o rancho.

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