Capítulo VII Rei Negro · Capítulo 7 de 10
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Capítulo VII

Abandonando o caminho trilhado, Balbina enveredou

por um atalho no mato intonso, tão atupido de ramas que só pela ondulação das ervas se lhe podiam seguir as voltas. Era um antigo carreiro tortuoso, rolando em escalões, com a irregularidade das terras aluviais, até uma rechã coberta de penugem parda, findando abruptamente em arriba sobre a estrada.

A negra, chegando à borda da escarpa, sentou-se e, agarrandose aos arbustos, deixou-se escorregar de raspão, firmando os pés aqui, ali em tocos e em relevos, que destorroavam esboroando-se.

Topando na estrada sacudiu a saia, enrolou a trunfa e partiu ligeira, por vezes impelida em corridinhas nas rampas mais derribadas. O sol, ainda brando, anuviava de ouro as copas úmidas, as folhas trêmulas brilhavam, e os brejais distantes, cobertos de lírios, eram como rastros de névoa entre o verde tenro dos capins flexuosos.

Raso, transparente arroio fluía silencioso sobre seixos claros. A negra atravessou-o arrepiando a linha da corrente e ganhou um alto acogulado de cupins.

Parou no meio do sapê alongando o olhar preocupado – lá ia a negrada, caminho da roça. A instantes, fulcito, lampejava um ferro e a chusma coleava, sumia entre as árvores, aparecia adiante, lenta, ora em fila, ora em grupos, dispersando-se no cafezal.

Um carro descia chiando, e nos terreiros andavam negros amontoando café que outros rodavam, espalhavam em estendal, à seca.

Pássaros esvoaçavam aos chilros numa alegria brincalhona, perseguindo-se às voltas, mergulhando nas frondes. Por vezes um cão ladrava, um mugido prolongava-se em ecos pelas quebradas.

Balbina pôs-se a caminho dobrando o cômoro pelo lançante suave todo espalhado de ramas de mandioca. A terra frouxa guardava-lhe as palmilhas, por vezes era um formigueiro balofo onde se afundavam os pés, como em lodo.

E a casa-grande surgiu além, na eminência, com a sua ampla varanda onde havia gente, o jardim em retalhos verdes debruados pelos caminhos alvos, os densos caramanchéis, o bambual nemoroso, espelhos-d’água, e alta, solene, a linha das casuarinas esfarrapadas franjando o azul de plumas balouçantes.

Só então a negra como que teve consciência da gravidade da sua missão. Parou hesitante, pensando: “Essa é hora di sinhô tá lá...” Fitou no além o olhar de ave. “Cumu é? Zêri tá lá... fio tá lá... Antonce?” E, cruzando estabanadamente os braços, empinando a cabeça em gesto altivo de interrogação: “Qui vai fazê?” Demorou na atitude como à espera de uma resposta. “Uai!” deu de ombros e prosseguiu em passo moderado para estacar adiante, de olhos baixos, pensando: O senhor ia interrogá-la. Já o via sobrecenho, atribuindo-lhe a morte da mulata, ameaçando-a com o bacalhau e o tronco, mandando agarrá-la. E falou alvoroçada de medo: “Qui vai fazê, sinhô? Zêri teve criança, criança tá í, vivo. Gente fez tudo módi sangui pará, sangui tá í. Cumu é? Genti morri ni mão di dotô quanto mai... Tava lá sozinho, mai zêri. Dô vem di repente. Cumo é? Muié di nhô Bentu, antonce? Dotô não tava lá? I ele não morrê? Qui vai fazê? Sinhô podi mandá castigá, genti não podi mai di qui Deus. Genti fez tudo, morte chegô. Qui vai fazê?” Bateu as mãos uma à outra, como a sacudir de si a responsabilidade, e retomou o andar, alheada de tudo, dentro do pensamento sombrio, naquela preocupação do desastre, resmungando, gesticulando como se ensaiasse a própria defesa.

Uma negra engelhadinha, corcovada, a cabeça toda em flocos brancos, o rosto murcho, escaveirado, subia a custo a ladeira abordoada a um pau. Cruzando com Balbina, levantou a cabeça, encarou-a franzindo os olhos e, reconhecendo-a, sorriu encarquilhada:

— É ocê, tia? Donde vai?

— Vê sinhô. Cê tá boa?

— Ansim. I lá im cima? – e, cruzando as mãos sobre o cajado, firmou-se disposta a trela; mas Balbina passou sem resposta, fechando a cara, e, adiante, estalou um muxoxo enfezado: – Ah?

A fazenda rumorejava agitada na faina rude: era um reboliço nos terreiros – gente a ir e vir, moleques à solta barafustando aos tropelões, burburinho de vozes, ruído de engenhos. Pelas trilhas do campo lentos bois caminhavam livres demandando as pastagens, e no ar luzidio os pássaros multiplicavam-se surdindo de todos os pontos como em profusa soltada.

Passando pelo moinho, apesar do estrondoso escachoo d’água, Balbina ouviu uma cantoria alegre. Era Mariano, um que não podia vê-la que não a provocasse, troçando, só pelo prazer de assanhá-la. Como se o canto do rapaz a ofendesse, injuriou-o:

— Canta, sanhado! Cê tanto há di cantá qu’inda acaba rebentado n’istrada, qui nem cigarra. Boca di cumua...! – Um bando de gansos apareceu-lhe à frente, lentos, orgulhosos, o pescoço esticado, olhando como vedetes. Ajuntaram-se amotinados e, empinando-se, romperam em grasnada. Ela passou indiferente. Alguém chamou-a de longe, houve um farfalho de folhas, logo respondido:

— Juga! juga pedra, cachorro. Cê há d’achá... – Não se voltou, dura no andar, aos resmungos, acenando gestos vagos, com a obsessão da cena lúgubre que deixara em casa. À beira do vale, defronte das casuarinas, procurou um passo mais fácil. Desceu a barranca, galgou adiante e, apoiando-se às coxas, vagarosa, vergada, suando em bicas, chegou ao jardim. Andava uma mucama com uma cesta colhendo flores.

— Ondi tá sinhô, Filomena?

— Estava lá em cima, nos bambus. Como vai Lúcia, tia Balbina?

Deu de ombros e continuou na direção indicada.

Num banco, sob um toldo de trepadeiras floridas, D. Clara, com as mãos cruzadas no ventre enorme e flácido, morrinhava achaparrada. A negra passou sem vê-la, com o olhar nos bambus cerrados.

Entrou na alameda sombria e logo avistou o senhor fiscalizando a limpeza do solo acamado de folhas secas e de tubos palhiços que estalejavam. Dois negros passavam o ancinho ajuntando as versas em cúmulos. Aproximando-se do senhor, que lhe dava as costas, estendeu a mão:

— Bênção...

Gandra voltou-se e, vendo-a, fez um gesto indiferente e rápido como se a despedisse. Ela não se moveu e, para chamar-lhe a atenção, tossiu.

— Que é? Que queres aqui?

— Qué falá cum sinhô.

— Comigo? Pois fala. Que é? – e encarou-a aborrecido.

Ela chegou-se misteriosa, coçando o peito, e repetiu:

— Qué falá cum sinhô só.

Gandra ficou surpreendido da confidência e, depois de uma breve hesitação:

— Comigo só! E eu não estou só? Fala. Que é?

Os negros raspavam a folhagem, mas de quando em quando um deles levantava a cabeça e relanceava um olhar curioso. A negra sussurrou matreira:

— Zêri tá oiando...

Gandra intimou-a irritado:

— Homem, fala! Que é? Anda, tenho que fazer.

Balbina, como em alcovitice, curvando-se, muito chegada ao fazendeiro, cochichou:

— Lúcia teve criança, sinhô.

— E então?

— Sinhô pricisa í lá. Zêri morrê...

Gandra teve um sobressalto:

— Como! Morreu??

— Modi choque. Sangui não parô mai... – E, baixinho, em voz cava: – Sinhô vai lá vê criança. Criança é branco, é fio di nhô Julinho, zêri disse.

— Hein! Filho de Júlio? – Piscando os olhos atarantado, entre espanto e furor, o fazendeiro avançou um passo para a negra:

— Que história...?

— Sinhô vai vê.

Gandra franziu o rosto num ricto frenético, repuxou a barba atufando-a na boca; um momento remordeu-a, mascou-a. De repente, em voz surda:

— E quem está lá?

— Tem ninguém. Casa tá fechada. Zêri só: mãe i fio. – Remexeu na cinta, tirou uma chave. – Eu vim modi sinhô vê qui faz. Macambira chega aí. Cumu é? – Gandra balançava a cabeça; mediu lentos passos engalfinhando os dedos na barba. De improviso, numa resolução, bradou:

— Chico! – Num pronto, pondo-se a prumo, um dos negros respondeu:

— Nhô?

— Vai lá embaixo, correndo, manda encilhar o Pampa e trá-lo aqui. Depressa! – O negro encostou o ancinho e abalou como um gamo. – Dá cá a chave. Vai-te embora. – A negra deu volta. – Olha

— e ameaçando-a com o indicador: – nem palavra, estás ouvindo? Se me constar que andas por aí a bater boca é tronco; estás ouvindo? – A negra mantinha-se cabisbaixa, em silêncio humilde.

— Vai-te embora!

— Bênção... – Foi-se. Deixando o bambual, respirou desafogadamente, e, vendo o rego por onde a água descia límpida, traquinando nas pedras, agachou-se, pôs-se de bruços e, inclinando a cabeça, bebeu aos sorvos. Desceu ágil, atravessou o valo evitando os caminhos frequentados e, ganhando a árdua subida, ia por ela, lenta, cansadamente, quando ouviu estropeada. Voltou-se: lá ia o senhor no Pampa. Ela cortou a estrada, embrenhou-se no mato afuroando atalhos nas macegas ásperas.

Quando a negra chegou ao alto, Gandra, que prendera o animal à cerca, caminhava vagarosamente no terreiro, cabisbaixo, as mãos para as costas. Aos latidos do cão voltou-se carrancudo. Balbina, escorrendo em suor, parara a distância, perto da acácia, coçando lentamente a testa que reluzia. O silêncio era como um muro entre os dois, e foi ela que o vingou, perguntando timidamente, com ar de espanto:

— Sinhô viu?

O fazendeiro mascava nervoso e, de ímpeto, arremessando um gesto de cólera, bramiu:

— Bandalheiras! São todas as mesmas. Por essa eu poria a mão no fogo... e está aí.

A negra atreveu-se:

— Ê! Sinhô nhô Julinho forçô ela.

— Qual forçou, nem meio forçou. Assanhamentos. – E, estendendo o braço na direção da casa, num gesto duro e cruel: – E essa criança é levá-la, tirá-la daqui. Morreu, morreu, está acabado. Macambira não tem que saber. – Sem levantar os olhos, a negra meneava com a cabeça, caramunhando esgares. – Um rapaz direito... mas não, é o diabo do pagode, a calaçaria. – Foi até a beira do barranco e parou com o olhar ao longe, pensando.

— Sinhô qué botá criança fora? – Ele voltou-se, encarou a negra ferrenho:

— Sei lá! O que não quero é que Macambira saiba disso. Estou farto de porcarias! Pouca-vergonha! – Então, revoltado contra o filho, murmurou: – É demais! Um dia encontra... – E atirando uma patada à terra: – Nem cães! – Balbina continuava imóvel. – Vai arranjar aquilo, que está um nojo. Veste-a. Enterra-se hoje mesmo.

— Uma ideia sinistra roçou-lhe o espírito: levantou a cabeça de golpe, o olhar alto, mas deu de ombros: – Enfim... – e continuando o pensamento, que a piedade atenuara, disse à negra: – É tirá-lo daqui, não o quero ver.

A negra enleada, na indecisão do que faria, raspava molemente o braço arremangando. Levantou um olhar repassado em ternura, chegou a mexer com os beiços num aceno de fala, mas mudamente, curvada, caminhou para a casa, entrou vagarosa, desaparecendo na penumbra onde o silêncio era de morte.

As sombras começavam a sair das árvores. O terreiro, onde rastejavam folhas, estava todo em sol. Uma aragem lenta, a sopros regulares, balançava levemente os ramos. E, em cima, o azul nítido, fino, sem mancha de nuvem, tinha a lustrosa transparência d’água.

Gandra recomeçou o passeio indo e vindo entre a acácia e a barranca penseroso, remoendo uma cólera surda, com o olhar ora apagado, ora afuzilando áscuas. Fechava rijamente os punhos, atirava murros, comia furiosamente a barba atochada aos molhos na boca, e, num assomo mais vivo, berrou para o espaço uma exclamação obscena.

Logo, como se aquele arranque o desafogasse, rebuscou nos bolsos, tirou um charuto, trincou-o e, acendendo-o, caminhou para onde o Pampa a largos, apressados passos, como na ânsia de uma resolução.

Desprendeu o animal que, ressentido do sol e acossado das moscas, batia nervosamente as patas, tascava o freio; montou-o e, guiando para a casa, berrou à porta pela negra. Balbina apareceu logo, açodada:

— Eu vou ver isso. Tu não me sais daqui... E a porta fechada, estás ouvindo? Eu virei com os negros. E venha quem vier, seja quem for, não entra. Veste o corpo, arranja tudo, e logo à tardinha faz-se o enterro. Quanto ao pequeno... – voltou-se na sela coçando nervosamente o pescoço, um momento concentrou-se, irritado; por fim, como para repelir o pensamento cruel que o rondava, disse adiando: – Mais tarde. Temos tempo. Vê-se depois. É escondê-lo por enquanto... Mas olha lá, tu...?

— Uai, sinhô?

— Bom. É isso. – Tocou o animal. Ainda junto dos espinheiros, conteve-o, ficou a considerar meneando a cabeça. Por fim estugou-o.

Balbina, à porta, ouviu o tropel, o frolar dos ramos durante algum tempo.

O arvoredo brilhava, o calor subia na fulguração do sol. Como se a terra se fosse inflamando em centelhas, granitos micantes alumiavam. Rumores vagos, confusos, rolavam na viração.

A negra persignou-se com a mão aberta e falou para a profundeza:

— Cê mode quê não faz? uai! Cê não é dono? Mode quê não faz? Mode quê? Nego é qu’há di matá modi caí n’inferno? Mata ocê memo, zêri tá í. Mata ocê memo – e fez um gesto largo como para convidar alguém a entrar. – Mata ocê. Cê n’é bobo! Só tá í alumiando, Noss’Sinhô tá nu só, oiando tudu. Furmiga é tistimunha, i furmiga tá í junto ni coreção. Cê qué matá, mata. Criança tem curpa? Matá modi quê? Mata ocê.

Sentou-se muito encolhida, com os cotovelos nos joelhos, o rosto encravado nas mãos, e quedou sorumbática.

Terra da África! Palmares. A areia mole, acendrada, ondula em rugas, avulta em dunas. A cacimba esgargala-se à sombra de uma árvore de tronco imenso e larga, escura, espalhada folhagem

— cercam-na em círculo os colmados cônicos, como formigueiros enormes.

Búfalos e camelos repousam deitados, ruminando em modorra. Guerreiros, com plumas na grenha, exercitam-se aos pinchos desengonçados, crianças arrastam palmas, guindam-se aos coqueiros, rolam na terra, formigam em bolo à volta de uma gamela; mulheres, à beira da cacimba, preguiçam inertes. Aves gralham. Uma cegonha passa esticada no ar rútilo em voo esfuziante. Ardem fogueiras sem chama em turbilhões de fumo. O sol vibra, escalda.

A choça de Munza, mais alta, mais ampla, tem um lança fincada à entrada.

Ah! tempo... Um suspiro levantou-lhe o peito. Pôs-se a resmungar um canto triste. Os olhos viam muito longe, no passado. Ê! Macambira... Fosse lá!! Quem ousaria afrontá-lo daquele modo? Quem!?

E passou-lhe pela visão o grande feito de Munza: a destruição de um kraal a ferro e fogo e a morte do chefe inimigo, um soba agigantado e ferocíssimo cuja voz atroava mais forte do que as buzinas de corno e no reboliço da peleja vencia o fragor das armas e o barbarizo dos combatentes. Via-o cair às mãos de Munza, via-o amarrado ao tronco de um coqueiro e, em torno, em tripúdio, a gente negra brandindo os fimbos, fazendo estrondar os escudos às pranchadas das azagaias. Via-o sangrar talhado pelo ferro real, ouvia-o bramir à injúria de um escarro, golfar sangue do flanco a um pontaço de lança, por fim desaparecer no tumulto acirrado, e, um momento, fimbos, zargunchas, azagaias ouriçando-se alanharem-no, alancearem-no, atassalharem-no, e a dança cada vez mais confusa e frenética ao estridor bárbaro da grita canibalesca. Ê?

Um grito cainhado, esganido, tirou-a do êxtase: “Uhm! Uhm!” Voltou-se atenta ao choro do recém-nascido:

— Cê tá divinhando? Divinha. É branco memo qui manda. Cê não quis sê branco? Guenta. Não é nego qui qué dá sumiço a ocê, é branco memo, sangui d’ocê. Grita, bota boca nu mundu. Pai d’ocê é dono di tudu; grita, chama zêri mod’ele vim toma conta d’ocê. Cê não tá í? Grita.

Mas teve pena: tão pequenino, inocente, sem mãe.

— É, cês faz as cosa, nego é qui paga. – Levantou-se, parou um momento à porta do quarto – a criança gritava estranguladamente como se a esganassem. – Grita... Cê é bom! – E, tirando da prateleira uma xícara, foi à cozinha temperar água com açúcar.

• • •

Nuvens brancas, ralas como espuma em água de lavadouro, flutuavam espalhadamente toldando o céu, intercadências de claridade e sombra anunciavam mudança de tempo. O mormaço era sufocante. O ar, parado e denso, abafava como as fumaradas de agosto. Quando o sol aparecia, amarelo e fusco, acendia-se um calor de febre.

Insetos rechinavam nos matos secos e um cheiro morno, acre, de macega tostada, picava. Cigarras chiavam como em fritura e, a espaços, frouxo, aborrido, um sopro de aragem levantava o calor.

Balbina, que amortalhara Lúcia num lençol, tornando-a esguia como uma múmia, deixando o pequeno no quarto do fundo, remanchava relambória quando ouviu tropel no terreiro e logo a voz do senhor chamando-a. Abriu a porta. Manuel Gandra, no Pampa, vermelho e suado da estafa ao sol, disse sem apear:

— Trouxe a gente mais cedo. Vai chover à tarde e não vale a pena esperar. Onde está o pequeno? – A negra fez um gesto, ia responder, mas ele continuou: – Eu vou até a Barra, acompanho ao cemitério. À noite, se não chover, podes levar o pequeno. Não o deixes por aqui perto. – A negra murmurou baixinho: “Sim, sinhô...” – Olha – lembrou Gandra –, o melhor é levá-lo para a Barra, deixá-lo na porta da igreja. – A negra afirmou de cabeça, sem levantar os olhos. – E amanhã lavas a casa, pões tudo em ordem e está acabado. Veio aqui alguém?

— Não, sinhô.

— Bom... É isso... – Falava como atordoado. Com um largo lenço vermelho limpou o rosto afogueado e, atafulhando-o nas mangas, enxugou os pulsos. Então apeou e, levando o cavalo para a sombra, laçou as rédeas num galho. Instantes depois dois reforçados negros apareceram com uma rede.

Gandra precedeu-os na casa, entrou no quarto, abriu largamente as janelas. Os negros estenderam a rede no chão e, em pontas de pés, com supersticioso respeito, chegaram à cama e, um ao tronco outro aos pés, levantaram o corpo, que amolecia, depuseram-no na rede, cruzaram as varandas, e, enfiando o pau, ergueram-no, tomaram-no aos ombros, saindo vagarosos, com os chapéus enrolados, metidos na cinta. Gandra montou.

— Vamos pelo caminho da estiva. – E guiou para a ladeira. Os negros seguiram-no em passo acertado. Balbina acompanhou-os de longe até o pomar. Gandra rompia a marcha curvando-se na sela para passar sob os ramos, e a negra, parando entre as laranjeiras, abençoou a morta:

— Deus te dê o céu!

As cigarras romperam em chirriada alegre, o sol abriu-se vívido, um momento fulgurou intenso, mas a luz foi abrandando, amortecendo, sombras rápidas varreram a terra e escureceu lugubremente como se anoitecesse.

A negra, enclavinhando as mãos e balançando a cabeça, ficou de olhos baixos pensando no desenlace daquele amor, tão suave e tão curto, que ela vira nascer, crescer no coração de Macambira como explui, vinga e floresce uma planta num vão de rocha onde os ventos depositaram um pouco de terra fértil. E a desgraça levara tudo! Ele, sem saber nada, longe, apressando a volta... ela, coitada! lá ia. E lembrou-lhe Julinho:

— Esse memo não acaba bem... Quá! – E subia a passos vagarosos, parando por vezes. As abelhas enxameavam zumbindo na florescência aromal das laranjeiras. – Esse memo não acaba bem.

— Um lagarto fugiu farfalhando nas folhas. A negra ficou a olhar o ponto onde o animal desaparecera, arisco. – Antonce Deus não tá lá im cima? Nhô Julinho tem birra di Macambira, mode quê? Prugunta. Macambira é dirêto, não vai co’ele. – Estacou aprumada: – Zêri é branco, fio di branco... – e, com orgulho, enchendo a voz: – Macambira é fio di Munza! Fazenda tá í, reino tá lá. Modi cô?! Cô qui é? Antonce só modi cô zêri podi fazê tudu? Uhm! Terra tá í, osso tá í: tudu é u memo.

Chegou à porta da casa e lembrou-se do recém-nascido que lá estava sozinho, numa esteira, dormindo talvez, talvez esperto, olhando na sombra. Respirou largamente e, recordando a recomendação do senhor, levantou os olhos para o céu onde pesadas nuvens carregadas d’água rolavam escuras na direção dos montes azulados.

— Esse memo não vai hoje. Chuva tá í.

E, numa piedade enternecida, apertou-se-lhe o coração à ideia do abandono da criança à porta da igreja, na praça deserta por onde, à noite, andavam animais soltos farejando, fossando famintos. Os porcos...! E estremeceu num arrepio de horror benzendo-se com o sinal da cruz.

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