Capítulo V
Lúcia despertou em sobressalto. Sentou-se na cama assustada, nervosa, o coração precípite, relanceando airadamente o olhar. Mas na quieta penumbra reconheceu o quarto, os móveis e, num relâmpago, recordou todas as cenas da véspera, desde o casamento na tumultuosa capela até o decisivo, angustioso instante em que se achou nos braços do negro entre o amor e a morte.
Respirou largamente, a sorvo, como se voltasse à vida, e esteve um momento cabisbaixa, esfiando maquinalmente as franjas da colcha; por fim imobilizou-se, de olhar fito, numa inércia de anestesiada.
Um inseto voejava zumbindo, aos baques pelas paredes. Uma fita de sol, polvilhada de ouro, estampava um disco no mármore do lavatório.
De repente a mulata voltou-se para o travesseiro em que dormira o marido, mirou-o, apalpou-o premindo-o maciamente. Onde estaria ele? Por que saíra? Teria dado pelo mal? Então arrojando as cobertas, examinou a camisa desde a fímbria. Não! Não dera! Sentia ainda na boca a impressão dos seus beijos sôfregos, ouvia-lhe ainda, no hálito morno e ácido, as entrecortadas palavras que prometiam e exigiam promessas, doía-lhe ainda o corpo da lasciva tortura daquela noite. Não...! Se ele houvesse sentido... deu de ombros arregalando os olhos, estirando o beiço.
Que horas seriam? Andavam lá fora, na sala; falavam. Pôs-se atenta, à escuta. Muito longe, nas terras baixas, chiavam carros. Devia ser tarde.
Levantou-se descalça pisando na esteira, depois na friagem do soalho. Tornou arrepiada à cama, envolveu-se na colcha, muito aconchegada e contente. Enfim...! Súbito representouse-lhe ao vivo a traição de que fora vítima poucos dias antes do casamento.
Julinho, que andara pelos ranchos e no quadrado troçando o casamento, preparou-lhe a tocaia numa volta de mato, caminho do rancho de Maria Luiza, aonde ela fora por umas costuras.
Distraíra-se com a companheira, que era alegre e sabedora de casos, e, quando se despediu, já a tarde escurecia. Os sapos engrolavam no açude, morcegos esvoaçavam, luciluziam pirilampos.
Desceu pelo carreiro, atalhou por uma vereda no meio do massambará.
Ao sair no caminho, deu com o senhor moço sentado na sapopema de uma figueira. Bateu-lhe o coração pressago. Estacou indecisa, encarada no moço que sorria cinicamente vergastando o mato com uma vara de goiabeira.
Olharam-se um momento, e ela, sem pinga de sangue, trêmula, desamparada num ermo como aquele, hesitou. O estudante assobiava como distraído, flagelando lentamente os ramos com a vara.
— Eu quero passar, nhô Julinho. – Ele levantou o olhar.
— Passa. Quem te pega?
— O senhor não veio ficar aqui à toa. Eu quero passar. Podem ver o senhor aqui comigo e eu não quero. – Ele levantou-se de ímpeto, colérico, encolhido como para um bote. Atirou longe a vara e investiu afrontando-a injuriosamente:
— Que é, sua porca? Não queres que te vejam comigo por causa de Macambira? – E desprezível, com asco: – Não tem vergonha... Uma rapariga quase branca casar com um negro...
— Que é que o senhor tem com isso?
— Que tenho! Tenho muita coisa. Não quero?
Ela acenou superiormente:
— Isso agora... – Mas o rapaz avançou, agarrou-a e, falando-lhe no rosto: – Que é que você está dizendo? Diz! – Ela sacudiu-lhe a mão, desvencilhou-se e, numa rabanada, retrocedeu. Julinho tomou-lhe a frente, deu um safanão ao casaco, sacou da cava um punhal e, cerrando os dentes, ameaçou-a em voz surda, apontando-lhe a arma ao peito: “Olha Inácia...! Olha Inácia!”
Ela recuava espavorida, a boca aberta em hiato, batendo as mãos num frenesi de medo, gaguejando um choro de criança. Por fim atirou-se desatinadamente ao mato, mas os vestidos prenderam-lhe nas ervas, nos carrapichos, a galharia embaraçou-a e Julinho agarrou-a.
Voltou-se lesta, afogueada, em atitude de defesa, mas estarreceu vendo luzir a lâmina; tremia nas pernas bambas, com a vista turva, o corpo fervilhando em formigamento.
De improviso Julinho atracou-se com ela apertando-a como se a quisesse esmagar; levou-a de encontro à árvore, suspendeu-a nos braços, deu com ela em terra, forcejando para derrubá-la; dobrou
— a pela cinta e ofegavam, rugiam:
— Deixa! Deixa, seu diabo! Nhô Julinho...?
— Que é que você pensa?... – Ela curvava-se como a quebrar-se, debatia-se, procurava mordê-lo. Caíram abarcados e foi um rebolcar frenético, uma luta de feras nas ervas altas. Por fim, raivoso, subjugando-a, Julinho pôs-lhe um joelho no ventre, apertou-lhe a garganta com furor homicida. As lágrimas, então, saltaram-lhe dos olhos; debateu-se em escabujamentos evitando-lhe os beijos, cuspindo-lhe à face, ameaçando mordê-lo, mas a vista turvou-se-
— lhe nublada, o coração cresceu-lhe no peito, sentiu uma angústia mortal...
Quando tornou a si, estava só. Era noite negra.
Os grilos faziam estrépito, cruzavam-se vaga-lumes. Como o respirar da aragem era suave, harmonioso o sussurro dos ramos.
Sentou-se espavorida, gelada. Sem forças para levantar-se, deixou-se ficar em lassidão dorida, chorando silenciosas lágrimas. Aterrava-a a ideia de ser encontrada ali por alguém que fosse espalhar a sua desgraça, denunciá-la ao noivo como uma perdida igual às outras, da mesma laia infame.
Levantou-se a custo, alquebrada, amparando-se a um tronco: É verdade!... Ficou um momento pensativa, num atordoamento. Por fim caminhou passo a passo, apoiando-se às árvores, agarrando-se às ervas, cortada de dores. Deu volta pelos fundos da casa.
À porta da cozinha, sob o alpendre, uma negra socava café no pilão. Passou ligeira, entrou em casa, atravessou o corredor deserto, meteu-se no quarto e, trancando-se por dentro, atirou-se na cama em soluços.
Pensou em dar parte aos senhores, dizer tudo, tudo! mas para quê? E as outras, Lucinda, Florentina, Inácia, Maria da Glória... Que lucraram elas contando? Troçaram-nas, e, ainda por cima, a senhora descompô-las, ameaçou-as com o tronco.
Lucinda, essa então, coitada! mais leviana, perdida de uma vez, dando-se a um e a outro, acabou na ponta da faca de Mangalô, por ciúme, numa noite de samba. Contar...! Morreria com o segredo ou só o diria na hora extrema...
• • •
E respirou – acenderam-se-lhe de alegria os olhos, abriu-se-lhe um sorriso. Estava livre! Passara o perigo! Agora era de esquecer o passado, ser dele só, de Macambira, só dele! Ceder, nunca mais! E não teria sofrido o ultraje se não houvesse perdido os sentidos com medo da morte.
Contava com a perseguição de Julinho, isso era certo! mas não cederia, nunca mais! Nem que tivesse de morrer. Sacudiu a cabeça e os cabelos soltaram-se-lhe frouxos pelos ombros, envolveramlhe o busto. Os olhos fitos reluziam, as narinas batiam-lhe. Nunca mais?
E tinha pena do negro, tão crédulo, coitado! Nhô Julinho só por gabolice seria capaz de espalhar o que fizera. Detestava Macambira, e a sua vaidade era possuir todas as mulheres, ter filhos de todas, ser o “garanhão”, como dizia Tibúrcio.
Uma ideia atravessou-lhe o espírito. Aprumou-se hirta, lábios entreabertos, olhos dilatados, levou a mão ao ventre alisando-o, apalpou os quadris. Pôs-se de pé e, levantando a camisa, mirou-se longamente procurando no corpo os vestígios do que temia.
E se estivesse?! O sangue fugia-lhe do coração, entibiava-se amolecidamente. Caiu sentada na cama. Não, não era tempo. Só lá para o fim da semana. E esteve... esteve!... alisando as coxas, perdida no pensamento lúgubre. Levantou-se, foi à janela do fundo, forçou o loquete – estava emperrado, colado a tinta, mas girou e a janela abriu-se de estalo.
Um jorro de luz entrou explosivamente no quarto e com ele o ar e os frescos murmúrios da manhã alegre. A magnólia reluzia ao sol, e o monte estava todo dourado. Era dia alto.
Cerrou a janela e ficou a olhar distraída. Um vulto esgueirouse entre as ervas, galinhas correram em debandada.
Bateram à porta. Voltou-se sarapantada, correu a refugiar-se na cama; cobriu-se, muito encolhida.
— Ocê inda não cordô? – Era Balbina. A negra empurrou a porta e apareceu, muito esguia, na fresta luminosa. – Ocê inda tá drumindo?
— Não.
— Uai! É mai di dez hora. Só’ vai longi. Ond’é qu’ocê qué í co’essa lombera? Casa tá í pr’arrumá, home tá lá fora esperandu, i ocê aí nu bem bom. Pensa qu’é só casá, infiá ané nu dedu? Poi sim! Vida custa. – E entrando vagarosa, mais meiga, chegou-se à cama, apanhou a colcha que arrastava e, com a mão no queixo, interrogou de cabeça, maliciosamente: – Entonce? – A mulata escondeu o rosto, vexada. – Hum! ocês...
— Vou levantar já, tia Balbina.
— Livantá... Livantá... Fica, tá brincandu. Qu’é qu’ocê tem qui fazê? Fica, pruveta cama. Si qué livantá, levanta; sinão dexa. Sirviçu tá fêto. Esta sumana eu tô aí, dipoi ocê qui s’arrumi. Té logo. Pruveta. Qué café?
— Não, tia Balbina; eu vou lá fora. Levanto já. – A velha sorriu, atirou-lhe uma palmada ao flanco roliço e repetiu:
— Entonce!? – E, acocorando-se, perguntou em segredo: – Ocê qué banhu aqui?
— Não senhora. Eu vou lá.
— Não custa.
— Não senhora.
— Bom. – Foi-se, encostando a porta. Lúcia passou os braços pela cabeça, em arco, estirou-se, cruzou as pernas e esteve ainda um momento pensando como quem se inclina sobre um abismo medindo o fundo, notando as arestas de rocha de que escapou por milagre.
• • •
Lúcia enxugou uma lágrima. Macambira deu de ombros, nervoso, respirou forte e pôs-se firme, cabeça alta, carrancudo. Logo, porém, passando-lhe um braço pela cinta, atraiu-a a si e, amparando-lhe o queixo, levantou-lhe carinhosamente o rosto e, encarando-a a fito, perguntou baixinho:
— Qu’é qu’ocê tem? – Ela coleou-lhe esquiva no braço como para escapar-lhe. – Qu’é qu’ocê tem? Ocê não tá no seu naturá. Diz qui é...?
— Nada – e debruçou-se sobre os joelhos.
— Não, ocê não anda boa... Ocê não come, não dorme dirêto, é só incafuada nus canto, chorando. Mode quê? Ocê sente á’guma cosa? Sente? – Olhou-a muito meigo, sorrindo. – Ocê qué a gente sai amenhã di madrugada – eu tenho d’í na Barra, ocê pruveta u carro di lenha i damo uma chegada no seu doto Custód’o. Ele teve aqui na semana passada... visita agora só pru mez. Mió é a gente í lá. Ele vê ocê i tá cabado. Qué?
Ela acenou negativamente.
Estavam sentados no banco, sob a acácia. Um momento o silêncio enleou-os. Por fim o negro humildemente aventurou:
— Quem sabi s’ocê tá rependida, Lúcia?
Ela aprumou-se de golpe, muito direita e altiva, olhou-o remordendo o lábio, com duas compridas lágrimas nas faces, e sorriu docemente, resignada. De novo inclinou-se, apanhou uma folha no chão, pôs-se a mordicá-la, de olhos fitos no céu que entristecia no desmaio da tarde.
A aragem fresca espalhava o aroma citrino das magnólias, e o sussurro moroso das folhas tinha a doçura misteriosa de vozes que se distanciam. Toda a várzea esfumava-se em bruma diáfana.
Poças d’água entre as ervas brilhavam como cacos de vidro. O brejo alastrava lustroso, sumia-se no açucenal em flor, reaparecia além irradiado em veios reluzentes; o rio estava como coalhado, e o açude, largo e sereno, reproduzia profundamente o céu esmaecido.
Os montes, de um azul sombrio, tinham os rebordos frisados de ouro, e longe, no cariz do horizonte, o alto recorte da serra ardia em lumaréu com as árvores em filigramas negras aplicadas em renda sobre o fundo cinábrico do ocaso.
Cigarras chiavam ziantes, outras cacarejavam, e na mata zoava um perene zumbido.
Pela estrada da várzea, desenrolada em voltas brancacentas, recolhiam vagarosos bois; um, por vezes, detinha-se, estendia o pescoço e, pouco depois, rolava o mugido tristonho. Negros cruzavam-se nos carreiros, cães latiam, e, dentre os matos densos, como de coivaras que começassem a arder, subiam fumos ralos.
O céu, nos redentes longínquos, ficou marchetado, como de nácar; mas as nuvens foram descorando e esbateram-se em violeta pálido. Uma estrela luziu solitária. Os grilos cantaram mais alto.
Lenta, no silêncio, a sineta da capela soou ave-marias. Os dois ergueram-se, persignaram-se. Uma voz, lá embaixo, aboiou, e houve como um êxtase beato.
— Suns Cristo... – Era Balbina. Rompeu do mato no alto do caminho com uma moganga e um feixe de ervas. Parou resfolegando, deixando cair a saia que levava arrepanhada, e suspirou: – Ui! Essa subida mata. – Adiantou-se vagarosa e, encarando Macambira, perguntou, ainda ofegante: – Cê falô co’ sinhô? Zêri andava caçando ocê lá imbaxo...
— Sinhô?
— Quem havera di sê? I ocês não cançã di dirritimento? Esse é vida? Oia só... hum... hum! – e espocou um muxoxo. Olhou o chão em torno como o cão antes de deitar-se e, entregando a moganga à mulata, disse: – É di roça d’Inácio. – Deixou as ervas no banco:
— Esse é cambuquira.
Então agachando-se, a gemer, apoiou-se no banco e sentou-se no chão, toda encarangada. Macambira pôs-se de pé, acendeu um cigarro e disse:
— Vou vê sinhô. Isso é cosa pra seu Zeca... Home tá duro.
— Ocê vai na Barra?
— Amenhã di madrugada, si Deus quisé. – E voltou-se para a mulata: – Entonce? Bamo? Ocê vê duma vez qui tem, dá um passeio... Ma’precisa livantá cedo: carro sai ante das quatro. Qué?
— Não. – Balbina fez-se de enfezada:
— Já ocê qué levá Lúcia pru pagode. Dexa muié im casa, vai ocê só. Ninguém comi ele, não.
— Lúcia tá duente, pricisa í no dotô.
— Ah! nada... Duente? Duente di quê? só s’é di barriga cheia. Cumeça, cumeça cum muita cosa dipoi, dipoi...! Esses buzumuca u qui qué é isso memo. Cumeça... – Ele ainda esteve um momento parado, a fumar, como à espera de que a mulata se decidisse; por fim resolveu-se: – Bom, té já. – E foi-se, ladeira abaixo.
Balbina bateu com o cachimbo na palma da mão, atulhou-o de fumo, acendeu-o e pôs-se a pitar a fumaçadas lentas, distraída. Lúcia inclinou-se com os cotovelos nos joelhos, o rosto nas mãos, e ficou a olhar perdidamente.
Escurecia, já a várzea desaparecera na sombra; as montanhas como que se aproximavam e cresciam, abafando; a mata parecia estuar mais perto – ouvia-se-lhe o estrondoso marulho das frondes, o rechino do bambual, o esfrolar preguiçoso das palmas dos coqueiros.
Uma suindara passou no ar em voo frouxo, chirriando; morcegos descreviam voltas, e, lá embaixo, a faiscação dos pirilampos fazia pensar nos duendes que assombram a gente nas encruzilhadas.
Mas o céu foi-se tornando mais claro, semeado de estrelas. Luzes brilhavam nos matos. A instantes um mugido atroava, um cão latia. Lúcia levantou-se molemente, preguiçando:
— Ond’ocê vai?
— Acender o lampião. – Foi-se. Pouco depois uma claridade explodiu na sala, logo extinguiu-se. Por fim a luz firmou-se, aclarando as paredes, chegando ao limiar.
— Vem pra cá, tia Balbina.
— Aqui tá bom, tá fresco. – A mulata desceu a soleira, sentou-se no degrau.
A noite enchia-se de vozes estranhas: os sapos coaxavam, gargarejavam, malhavam; eram trissos, zizios sutis, estrilos, pios crebros, e, de quando em quando, numa lufada mais forte, o farfalho das ramas escachoava como um rebojo d’águas.
— Sabe, tia Balbina? Parece que estou pegada.
— Ocê?
— É verdade?
— Ma divera?
— Ora... até hoje, nada. E ando que só Deus sabe.
— Isso, às vez, é fraqueza.
— Qual?
— Antonce, rapariga, é guentá. Qui vai fazê? Ocê não casô? guenta. Agora é tê cuidado, não fazê maluquice i dexá vi. Fio é Noss’Sinhô qui manda.
— É... mas a gente sofre.
— Uai! – Calaram-se. Lúcia pensou em Macambira, logo, porém, lembrou-lhe Julinho, e a figura do senhor moço impôs-se à do negro. E se fosse dele!? Podia ser... Balbina escarrou, silvou uma cusparada e, resmungando, levantou-se. Caminhou para a casa arrastando pesadamente os pés inchados. A mulata suspirou preocupada:
— É verdade, tia Balbina...! – Mas a negra falou com autoridade:
— Natureza às vez discansa. Podi sê qui não seja. Ixp’rimenta um chá d’erva cidrera. – Meditou um momento. – Ocês já tem um mez di casado?
— Quase... e eu esperava no fim da primeira semana.
— É... I ocê tá triste mod’isso?
— Medo, tia Balbina. É brincadeira!?
— Ah! medo... Medo di quê? E as outra?... Oia Joana... nem peito pra dá di mamá... não tá í cum molecão daqueles...? Qu’é qui teve? Ant’isso du qu’uma febre. Não faz maluquice i dexa tá. Eu tenho parado muito moleque, paro o d’ocê tamém. Medo... Quando a gente meno pensa bicho tá í, berrando. I Macambira já sabi?
— Não. Pra quê?
— Uai! Cumu pra quê? Antonce ele não é u pai?
— Não, quando eu tiver certeza. Por ora não. Pode ser outra coisa, pra quê? Eu tomei água de coco, suada. Pode ser.
— Ocê é qui sabi. Pera aí, dexa eu passá. – Apoiou-se ao umbral e entrou em casa.
O segredo pesava a Balbina – tinha-o na língua a pruí-la e, no primeiro ensejo, ainda que sem propósito, comunicou-o a Macambira, asperamente, no tom enfezado com que sempre falava, até quando queria agradar. Era assim com os íntimos – rude, seca, arrebatada, resmungona, sempre de trombas, aos repelões, engrolando ditados e metáforas de mau agouro.
Era meio-dia e abrasava. À beira de um aguaçal, onde as taboas altas espanejavam penachos, andavam porcos fossando, bácoros atolavam-se na lama morna, sob o voo perseguidor das moscas. Macambira subia do engenho a caminho da roça quando, ao passar perto de uma grota, a negra, que apanhava inhame, bradou por ele dentre as largas folhas metálicas que reluziam ao sol. O negro estacou atarantado relanceando o olhar – viu os porcos, mas não descobriu a velha, e buscava-a quando ela o chamou de novo em tom ríspido, como se o repreendesse:
— Ê! Macambira, cê tá tonto?
— Uai! – A cabeça da negra, sempre refoufinhada, emergia do inhamal.
— Oia, vai preparando gimbo qui fio vem aí, tá iscutando? Fio vem aí. – Ele não percebeu a alusão e ficou a olhar arvoado. Ela insistiu caramunhando e acenando gestos expressivos. – Ocê tá oiando sarapantado? Não tem qu’oiá. Fio vem aí memo. – Subiu do carcavão agarrando-se às ervas e, em cima, com a caraça luzindo ao sol, sacudiu as mão enlameadas, limpou-as nos molambos e, chegando-se muito ao negro, esclareceu o mistério: – É Lúcia qui tá di barriga.
Macambira fechou a cara, sobrecenho; mas como a negra asseverasse, arredondando os braços ante o ventre, onde a saia sungada formava uma rodilha, soltou uma gargalhada:
— Quá?
— Quá?! Ocê vai vê. Zêri memo falô lá im cima, zêri memo. – E de mãos nos quadris, empinada em recacho: – Antonce? I ocês não tá casado? Cumu é? Zêri tá di mez. É juntá gimbo, fazê ropa. Ocês pensa qu’é só casá? pecado vem logo. – Guenta?
Ainda incrédulo, de olhos fitos nela, ele duvidou:
— Caçuada...
— Caçuada?! Ocê vai vê. – Deu uma volta e, espalmando a mão no ar, em promessa: – Ocê vai vê! – De repente, em tom brusco:
— Agora não vai correndo lá im cima dizê qu’eu disse. Sunta ocê memo.
O negro quedou suspenso, numa emoção que o transfigurava. Os olhos acenderam-se-lhe em lume alegre, o sorriso ficou-lhe estampado no rosto. Os porcos vinham chegando um a um afocinhando a terra; juntaram-se perto de um cupim; de repente, assustados ou como se fariscassem alguma coisa, arremeteram a correr, desaparecendo no mato.
— Mecê tá falando sério, tia Balbina?
A negra franziu os olhos, abotoou os beiços encarada nele e resmungou numa rabanada:
— Hum! tá falando, sér’o, tá. Foi zêri memo qui disse.
— Tá bom... – Ficou pensativo, de olhos baixos, raspando a terra com a ponta do pé. – Há di si criá, co’a graça di Deus. Té logo!
— despediu-se pondo-se a caminho, com o sorriso sempre no rosto.
— Oia lá ocê...! – bradou a negra ameaçando-o com o dedo.
— Não conto, não...
— Oia lá...?
— Não tem pirigo. – Foi-se contente, orgulhoso daquela notícia, sentindo-se mais homem, triunfante no amor, pai, enfim. O sol ardia intenso. A estrada, de areia, tinha cintilações de mica. As folhas reluziam. Sentia-se a secura, a sede das plantas. O capinzal, de um amarelo dourado e seco, era como um mar de chamas. Gafanhotos estalejavam ao saltos.
A negra ficou na estrada olhando o seu príncipe com orgulho, e a ternura traduzia-se-lhe em gestos vagos: meneios da cabeça, acenos das mãos. Pensava no que ele seria entre os seus no reino da África com aquela figura esbelta, aquele ar, aquele todo viril e a força do seu braço. Grande rei! Fazia-lhe pena vê-lo ali escravo e, por causa dele, odiava a terra, odiava a gente. Quisera ver tudo em ruína, perecendo na mesma catástrofe, tudo?
Macambira ia longe, e a velha, para vê-lo ainda, saltou, ágil como uma pantera, subiu à barranca, com a mão em pala ante os olhos, e, quando o perdeu de vista, atirou um murro à coxa numa surda revolta contra o destino do seu príncipe, filho de Munza, rei grande.
Vagarosamente tornou à grota e lá no fundo, encoberta pela folhagem larga, pôs-se a cantarolar soturnamente uma toada bárbara.
Macambira ia longe, quase no morro.
Uma aguazinha escorria num rego tomado pela solidônia; adiante era o brejo. O negro atravessou a pinguela, meteu pelo capinzal e, estugando o passo, banhado em suor, ganhou a ladeira e subiu pela sombra fresca das árvores pensando naquele filho anunciado, sentindo-o na vida, quase certo de encontrá-lo lá em cima, muito gordo, engatinhando no terreiro, a tartarear e, acompanhando-o, protegendo-o Lúcia, ainda mais linda naquele êxtase de amor.
Chegou à casa, foi manso e manso até a porta, espiou: ninguém. Entrou pé ante pé, como um ladrão. A porta do quarto estava encostada, empurrou-a de leve. Houve um estalido e logo um grito lancinante. Ele arremessou-se.
Lúcia, em mangas de camisa, saltara da cama refugiando-se perto da cômoda, desalinhada, de olhos muito abertos, numa estagnação de pavor. Reconhecendo o negro, como que ainda mais se lhe agravou a emoção: encolhia-se tiritando, encarada nele, descaindo numa flacidez como para acocorar-se, a bater os dentes, a agitar em desatino as mãos.
Macambira, atônito, adiantou-se para serená-la:
— Uai, Lúcia, ocê não tá mi cunhecendo? Qu’é isso? – Ela olhava-o a fito com o rosto ora a contrair-se em terror, ora a abrir-se em sorriso alvar. Por fim, em jorro, as lágrimas rebentaram-lhe dos olhos afogueados. Levou as mãos ao rosto e rompeu em soluçado pranto debruçada sobre a cômoda que estremecia. O negro adiantou-se, solícito e carinhoso, abraçou-a afagando-a:
— Qu’é isso? Tava brincando. Qui medo é esse? Passei perto, dei uma chegada aqui mode vê ocê. Dexa d’isso. – Fê-la sentar-se, deu-lhe água, arrependido do que fizera. Foi-se-lhe remitindo a agitação e, em voz repassada em choro, trêmula, sussurrou:
— Que susto! Não brinca mais assim, isso faz mal.
— I ocê não me cunheceu, criatura?
— Sei lá! Assim de repente... nem sei que pensei. A gente aqui sozinha... Eu estava descansando um bocado. Nossa Senhora! Nem é bom pensar!
Sentaram-se na cama, muito juntos e, como ela apanhasse o casaco, ele, sorrindo, ajudou-a a vesti-lo. Então perguntou-lhe baixinho:
— Agora diz: ocê tá memo?
— O quê?
Ele riu. Ela compreendeu que fora traída no seu segredo, baixou os olhos e murmurou:
— Candongueira! – E, com simulado despeito: – Tia Balbina é um saco roto. Se eu soubesse não dizia.
— Mas é verdade?
— Não sei; desconfio. – Ele abraçou-a num paroxismo, beijou-a grato. Ela aninhou-se-lhe nos braços, mimosa, e, olhando-o de muito perto, face a face, disse-lhe: – Agora vai bater boca por aí.
— Uai! I é vergonha?
— Olha o meu coração como está. – Tomou-lhe a mão, impô-la ao peito. – Está sentindo?
• • •
Grávida! Para Macambira era a suprema ventura, para Lúcia a certeza era uma angústia. Desde então, nunca mais teve sossego de espírito. Acompanhava aterrada a marcha da gravidez. O ventre crescia, arredondavam-se-lhe os flancos: era como se inchasse. Sentia dores, opressões, estalos de ossos.
Às vezes, costurando ou na cozinha mexendo as panelas, a suspeita fuzilava-lhe na alma: corria ao quarto, trancava-se e, levantando a roupa, examinava o ventre.
Que estaria ali dentro? O coração batia-lhe em ânsia, tinha alucinações: toda a casa enchia-se de vozes, ouvia passos, sentia gente. “Minha Mãe do céu! Que será de mim...” E, de mãos postas, airada, imobilizava-se no terror pressago, certa do seu fim trágico, naquele mesmo quarto, entre aqueles móveis, ali?
Conhecia todas as armas de Macambira, pensava em escondê-las: a garrucha, a faca pernambucana, de lâmina comprida e aguda, a navalha de mola. E, como se aqueles ferros mortais se animassem e, por impulso próprio, investissem com ela, tapava os olhos com as mãos, arrepiada, com um frio metálico irritandolhe a carne, num frenesi de gritar, de fugir, de lançar-se da barranca às pedras, acabando de uma vez com aquilo. Em uma crise mais forte mirando, com ódio, o ventre túmido, detestou-o como inimigo, certa de que nele estava a gerar-se, a crescer, o denunciante da violência infame de Julinho. Então no ímpeto do desvario, fechou a mão, atirou-lhe um murro. Logo, porém, arrependeu-se tocada de piedosa ternura pelo filho: talvez o tivesse machucado, matado até, coitadinho! E passou o dia em tortura, imaginando o filho morto e o castigo do céu.
E a vergonha? Ainda morta, na terra, parecia-lhe que havia de ver e ouvir as companheiras, com Vaca-Brava à frente, injuriando-a, lançando-lhe em rosto a traição torpe. E via-se na cova, e em torno, à galhofa, todo o mulherio da fazenda com a depravada cabrocha desbocando palavrões. Escureciam-se-lhe os olhos como em vertigem, reabria-os à luz – era a realidade serena, a indiferença das coisas impassíveis.
E se abortasse? Era tão comum, sabia de tantos casos. Claudina tomara um cozimento de “orelha de sapo” e movera, mas Julia fizera o mesmo, mais até, ficando entre a vida e a morte, toda inchada, quase louca, e o filho lá andava, coitado! um langanho, sempre ranhoso, com os olhos cheios de sapiranga e em pus, o corpo aberto em feridas, os dentes podres, uma cabeça enorme, idiota, com uma carinha enrugada de velho, rindo à toa, chorando à toa, vergonha da mãe, desprezo de todos.
Havia outras coisas: casca de romã, remédios de botica, rezas, mandingas. Egídio tinha um segredo, mas obtê-lo é que era. Falar a Balbina? Não, era o mesmo que dizer a Macambira. Enfim!... havia de ser o que Deus quisesse: entregava-se nas suas mãos. Ele bem sabia que ela não tinha culpa – era uma infeliz, uma desgraçada. Ele bem sabia. Obsessa de tal cuidado, sempre apreensiva, o seu gosto era estar só, sem ver gente. Queria o silêncio. Raro descia à casa-grande para evitar as graçolas das companheiras, os olhos de Vaca-Brava e, a pretexto de “ânsias, aflições, dor no corpo”, deixava-se ficar lá em cima com o seu terror, tirando augúrios de tudo.
Se, de manhã, descobria uma falena de asas espalmadas no teto, eram lágrimas, arrepelamentos de desespero; se ouvia a coruja à noite, contrariava o agouro com esconjuros, ia espevitar a lamparina, rezar um credo diante dos santos. As próprias abelhas domésticas, sempre laboriosas, alegrando a residência com o zumbido perene, ela tomava-as como anunciadoras sinistras e revoltava-se rezingando: “Que mania de Macambira...! Este cheiro de cortiço já enjoa e a gente sempre com a casa cheia dessas porcarias, em risco de ser mordida.”
Com o cair da tarde os seus temores cresciam, tomavam vulto as superstições. A casa parecia-lhe assombrada, sempre com avisos: era a madeira aos estalos, portas que se abriam por si mesmas, em silêncio, estrépitos nas telhas e, lá fora, correrias, vozes cochichadas, ais! lamentosos, luzes lívidas cruzando-se, bailando no ar.
Estremecia, toda arrepiada, balbuciando exorcismos, a apalpar nervosamente os bentinhos que trazia ao pescoço.
Às vezes, suspendendo o serão, ia, pé ante pé, sacudir Macambira, que dormitava na rede. Forçava-o a sair armado, rondar os arredores da casa. O cão ia-lhe no rastro farejando, latindo. O negro recolhia paciente:
— Não tem nada. Isso é bicho que anda por aí. Ocê tem medo à toa. Quem vem aqui? Ladrão? – ria com superioridade. – Alma dotro mundo? Dexa d’isso... Alma é d’aqui memo. Quem morre morre.
Se o cão ladrava, punha-se logo atenta.
Às vezes era um uivo que atravessava doridamente o silêncio. Ela irritava-se, frenética: “Vai agourar o diabo!” e, descalçando-se, batia com a chinela três vezes no soalho e deixava-a virada de borco para fazer calar o animal. A cama causava-lhe horror. Desde cedo, ainda com o sol fora, começava a bocejar, lânguida de sono. No meio da costura a cabeça pendia-lhe – dobrava-se, com os braços sobre a mesa, e dormia. Balbina lidava com ela sacudindo-a:
— Vai detá na cama, criatura. Ocê ansim não dorme dirêto. Tá cum sono, vai detá duma vez. – Ela levantava-se, estendia os braços, retorcendo-se, mole, mas ficava como uma sonâmbula, amparando-se aos móveis, encostando-se às paredes, de olhos fechados, mastigando resmungos. A negra insistia, teimosa, Macambira levava-a abraçada.
Atirava-se na cama vestida e adormecia logo num sono de pedra. Alta noite despertava espantada, sentava-se na cama e, na penumbra tremente do quarto, alumiado pela lamparina de azeite, tinha visões delirantes: eram os móveis que cambaleavam deslocandose, erguendo-se do chão em silêncio, eram sombras deslizando pelas paredes, eram águas que se despejavam de enxurro, gemidos, círculos de fogo retraindo-se em discos, dilatando-se em halos, voos surdos pelo quarto, pancadas à janela, sopros. Pensava em despertar o marido, mas o medo paralisava-a. Despia-se devagarinho e fria, gélida, com os dentes cerrados, o hálito escasso, examinava o homem.
Ele ali estava, enorme! o seu assassino. Parecia-lhe um gigante como os das histórias do Oriente que ela ouvira contar e lera nos serões de casa: a cabeça desconforme, de grenha hirsuta, os braços nus, possantíssimos, peito largo coberto de um velo crespo, arfando robusto na respiração cheia e ronquida.
Sentia-lhe o cheiro caprino de mistura com um aroma morno de campina, ao sol, e tremia transida, pensando na hora em que ele, no furor do ultraje, fechando-se com ela, de olhos flamejantes, rugindo rouco, com a faca em punho, alumiando, agarrando-a pela garganta, levasse-a de encontro à cama, rojasse-a e, subjugando-a sob os joelhos, rasgando-lhe as roupas, abafando-lhe a boca, fosse-lhe cravando fundamente a faca no colo, retalhando os peitos, depois fundo, bem fundo no ventre, revolvendo o ponto em que se gerara o filho infame, chegando com as mãos nas profundas das entranhas, ensopando-as no sangue até senti-la morta, ao lado dos tassalhos do filho, no mesmo charco.
Abria a boca para gritar, estendia os braços implorativos chorando em silêncio e, escorregando devagarinho, deitava-se muito encolhida, com as cobertas puxadas até o queixo, batendo os dentes num tiritar de medo.
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Uma noite, deitada de costas, com o ouvido muito apurado aos rumores de fora e aos soídos do silêncio, sentiu que o ventre se lhe contraía e revirava, depois tremores, em seguida um choque como de murro. Sentou-se com medo. Que seria?
O ventre túrgido, liso, parecia bojado como enorme bexiga, e os peitos duros, encaroçados, referviam-lhe refertos em apojadura instantânea.
Quis levantar-se, tirou as pernas da cama e ficou sentada, imóvel, atenta à espera de que se repetisse o fenômeno. Reiteraram-se os baques, reapareceram os tremores em vibrações fulgurantes e em escabujamentos como se o filho lhe estivesse estrebuchando nas entranhas em angústia de morte. Chamou o marido:
— Macambira, meu velho... tem paciência... olha aqui.
O negro sentou-se estremunhado:
— Qui é? Qu’é qu’ocê tem?
— Não sei... Estou sentindo uma coisa muito esquisita. Não sei que é. – E ofegava, agitava-se aflita, opressa, sem ar. Descaiu sobre os cotovelos, e a sua fecundidade ressaltou. – Dá cá a mão...
Tomou-a, rolou-a por todo o ventre, e o negro, sentindo as convulsões, ficou boquiaberto, extático, mas logo sorriu compreendendo que era a vida ainda empolhada que buscava expandir-se: era o ímpeto do seu sangue, a força da sua carne, a energia dos seus nervos, o surto do seu amor triunfante. Tranquilizou-a:
— Não tem medo, tola; isso é criança qui tá virando. – E ria, achava graça na “travessura” do filho, augurando com orgulho, de boca cheia: – Ê! Esse vai sê bom! Oia só, inda bem não nasceu já tá pinoteando qui nem cabrito. Esse memu vai sê bom. Cê tem qui vê co’ele. Não tem medo, não.
E afagou-a, fê-la deitar-se acariciando-a, batendo-lhe de leve no ombro, alisando-lhe os cabelos, amaciando-lhe os quadris redondos, sem sentir no contato daquele corpo fecundo outra emoção mais que a de piedade pelo sofrimento e o respeito sagrado que infunde o mistério.
E mais se lhe acendrou o amor reforçado pela ânsia augusta daquela vida que ele sentia abotoada na carne da mulher, já reclamando a luz, o ar livre, o mundo.
— Ah! Macambira, custa muito ser mãe! Como a gente sofre...?
Ele fazia-a andar.
À tarde, depois do jantar, iam lentamente até à orilha da mata, paravam para ver as galinhas, o porco espapaçado nas palhas úmidas, roncando; chegavam à beira da barranca alongando a vista pela paisagem vasta, entravam no pomar e, entre as laranjeiras carregadas, conversavam sobre o que havia a fazer – ele contente, ela sorumbática, sempre suspeitosa, preocupada com aquele filho que a denunciaria logo ao nascer. Queixava-se do frio, da umidade. Entravam.
A pedido de Macambira Balbina deixou o seu “mocambo”, lá embaixo, para acompanhar Lúcia.
Dormia no quarto perto da cozinha e, sempre pronta, ainda que resmungando, animava a mulata contando-lhe fatos extraordinários:
— Ocê inda não viu nada! I quando criança chora ni barriga? Esse é qui é! Isso qu’ocê tá sintindo todo mundo sente. É bom siná, siná di criança forte. Choro é qui é... Diz qui criança qui chora ni barriga nasce divinhado. Dexa di medo. – E examinava-a: – Cê não tem nada... – Recomendava-lhe banhos de ervas, repouso e sono.
— Ocê u qui precisa é cumê; ocê ansim niquenta não serve: fruta só não sustenta – comi carne, angu, bebi leite qui dá sustança. Ocê tá magra, varada qui nem cachorro sem dono. Dexa di medo, comi i quando botá cabeça ni travissero não tem qui ficá variando: dorme.
Lúcia emagrecia a olhos vistos – as faces cavavam-se-lhe e os olhos encovados acaveiravam-lhe o rosto manchado de panos. O colo e o ventre impavam cada vez mais. Macambira preocupavase, pedia conselhos a Balbina, queria levar a mulher ao médico, na Barra.
— Ocê parece bobo... Dexa Lúcia. Lúcia não tem nada. Isso é ansim memo. Magreza é do estado dela. Não come, não dorme... uai! corpo sente, corpo não é di ferro. Dexa ela intrá nos seis mês i isso tudo passa.
Sempre que descia à Barra o negro trazia uma lambarice: biscoitos, chocolate, maizena, figos, e não esquecia o filho com uma coisa ou outra para o enxoval: um par de sapatinhos de lã, uma peça de morim, rendinhas, entremeios, fitas.
À noite, com toda a casa fechada por causa do frio, Macambira, esticado na rede, fumando, acompanhava, com interesse, as discussões de Balbina e Lúcia diante da lata, perfumada a alfazema, onde se iam ajuntando as pequeninas peças do enxoval, e intervinha opinando pela cor de rosa para os bordados da manta e dos cueiros e para as fitas das toucas e das camisinhas contra a azul, que Lúcia propunha por ser a cor do manto de Nossa Senhora.
E no céu, de uma pureza nítida, as estrelas cintilavam límpidas, e a névoa, alvejando perdidamente em prainos e em relevos, dava à paisagem muda o álgido e merencório aspecto das solitárias regiões polares.