Capítulo IV
Pronto desde cedo – porque de madrugada, antes das cores abrirem-se, fora ao banho na cachoeirinha do grotão –, vestido de ponto em branco, gravata, botinas de couro cru, Macambira aforçurava-se nos arranjos da casa, empenhado em agradar à noiva.
Tudo varrido, espanado, portas e janelas abertas, estendeu a toalha na mesa, pôs o boião de compota, a lata de biscoitos, uma garrafa de vinho fino. E cantarolava indo e vindo, com estrepitoso rinchar das botinas, a reparar, a corrigir, removendo objetos, compondo melhor um ramo, ora na sala, ora no quarto ou saindo ao terreiro, tão exigente no asseio que até apanhava do chão as flores murchas, as folhas secas e ia lançá-las à grota.
Era outro – alegre, expandido, fisionomia aberta, sem a espinhenta desconfiança, a irritadiça suscetibilidade que o tornava ferrenho e antipático.
Quanto mais corria o tempo, mais se lhe abrandava em ternura o coração empedernido. Vendo, porém, as franças do arvoredo reluzirem ao sol, impacientou-se.
Foi ao pequenino relógio de madeira recortada que, sobre a cômoda, batia um tique-taque lesto. Oito e meia! E ela que prometera ir cedo, de manhãzinha...?
E entrou a conjecturar: “Uhm...!” Dava-a por arrependida. Talvez vergonha das mucamas que a traziam num cortado, sempre com indiretas, rindo-lhe na cara ou cantarolando a toada da cantiga impudente. Ou seria medo de que ele, apanhando-a sozinha lá em cima, tentasse violentá-la??
Tal ideia assomou-o, acendeu-lhe na alma uma cólera frenética, e, revoltado como diante do fato real, prorrompeu em impropérios, repelindo, em voz surda, a afrontosa, imaginária suspeita: “Eu!? Ocê tá inganada! Eu não sou da laia desses qu’ocê conhece. Ocê tá inganada! Quem sabe!” E media a sala a passos largos, arrepelando-se, gesticulando desabridamente.
Arrugou-se-lhe a fronte em catadura feroz, os olhos, adoidados, lampejavam áscuas, retorcia as mãos, dobrava-as enclavinhadas estrincando os dedos. Súbito, atirando uma patada ao soalho, expluiu fremente: “Diabo!” Os beiços tremiam-lhe, o peito ia-se-lhe constrangendo em angústia. Sorveu ar.
Fora, no esplendor da manhã radiosa, era um sonoro guizalhar de cigarras. Caminhou até a cozinha, saiu, deu volta, foi ter ao pomar, e um tumulto de ideias revolvia-se-lhe no pensamento. Avistando-o, o cão pôs-se a ganir agachado, a arrastar-se humilde, batendo a cauda; vendo-o passar indiferente, arremeteu num salto e, um momento de pé, sustido pela corrente, ladrou, rosnou, voltando, por fim, a enroscar-se na palha.
O negro raspava a fronte a unhadas, refranzia o rosto. Tornou à casa.
Foi, de novo, ao relógio: “Nove horas...” Sorriu sardônico, resmungando injúrias.
Mas estatelou-se à escuta, agarrado aos punhos da rede, a olhar atento. Era, sim. Era a voz de Lúcia, perto, no caminho. Saiu à porta e, abrindo os braços entre os umbrais, esperou. Era ela, sim. Era ela e dizia:
— Benfeito! Quem te mandou? Eu não disse que não viesses pelo mato? Tu não tomas emenda... – E apareceu entre as árvores, de branco. Uma negrinha seguia-a manquejando.
Macambira sentia-se como à beira de um brasido: intenso calor afogueava-lhe o rosto, urticava-lhe os olhos, dando-lhe sensação igual à que sofria nas queimadas de agosto quando, em lufada adusta, o vento passava rolando bulcões de fumo. O coração pulsava aos ímpetos solapando-lhe o peito; corriam-lhe arrepios pelo rosto. Parecia medo o que sentia vendo vir a mucama, passo a passo, meio curvada, sacudindo o lenço, a espantar as abelhas.
Custou a arrancar-se de onde estava, descer o patamar para recebê-la.
Sentia-se atraído, num fogoso desejo de precipitar-se, a correr, tomá-la nos braços, mas conteve-se disfarçando a emoção na compostura grave com que a esperou junto à acácia, que pingava flores.
Dando por ele, a mucama, com as cores muito vivas nas faces, exclamou risonha e ofegando:
— Hum! Parece que não é nada e estou aqui botando a alma pela boca.
— Quem não tá costumado cansa. – Estendeu-lhe a mão e ficaram um momento encarados, sorrindo.
— E como isto está de flores! – Embelezada de tudo, não se fartava de olhar, elogiando: – Muito bonito! E eu que nunca tinha vindo aqui! Não, minto: vim, uma vez, em pequena, com mamãe, no tempo de ti Pedro. Mas não vê que era assim...! Tudo mato e ali, bem na beira do barranco, um ranchinho à toa. Agora sim.
E iam-lhe os olhos a tudo: à mata, muito densa, pintalgada de flores, rolando em verdes vários pela encosta do monte, num ou noutro ponto escalvado – pedra a reluzir úmida ou costão de barranca escavacada; ao pomar, onde já as laranjeiras tinham os frutos amarelos; à acácia toda em flor – “Como está linda! Parece de ouro!” não se conteve que não dissesse; à casa muito branca, já com um laivo de sol à frente e pombos no telhado: “Como é fresco! E que bom cheiro!”
Um som d’água adormentava, e a chilreada dos pássaros ia bem na alegria daquele sol, no viço daquele verdor lustroso.
Lá em baixo, longe, até as montanhas, a várzea ora plana, ora ondulando em coles suaves, cortada pelo rio sereno, sombreado de árvores ou faiscando ao sol; roças, convales ainda abrumados de névoas ralas. E choupanas à beira das trilhas, com o terreiro à frente, claro, liso como assoalho; outras que se adivinham pelos rolos de fumo ondulando entre as árvores; e aveludadas colinas de um verde fresco, tosadas, sem sombra de árvore. Para os lados da lavoura grande os cafezais a eito nos outeiros. Altas no céu fugiam nuvenzinhas brancas.
Lúcia voltava-se para um lado e outro, olhando enternecida.
— Bonito! – E depois de um silêncio: – Mas à noite deve ser muito triste...
— Quando há lua nem dá vontade da gente drumi. Tudo isso fica alumiando e lá embaixo parece o mar. – Ela mirou-o maravilhada. E os dois, no mesmo enlevo, ficaram olhando os horizontes fundos, empoeirados de ouro. A crioulinha sentara-se na soleira da porta examinando a perna escoriada.
— Tá doendo? Esfrega um bocado de cachaça.
— Qual! – contrariou Lúcia.
A pequena contrafez um sorriso, repuxou a saia curta de zuarte, escondendo a perna escanifrada.
— Bamo entrá? – convidou Macambira.
E Lúcia, muito mimosa, sacudindo a barra do vestido:
— Vamos. – Na sala, diante da mesa servida, a mulata exagerou a surpresa: – Nossa Senhora! mas que é isto!? – E riram. Relanceando os olhos, ia vendo tudo com ar satisfeito. Ao dar com a Ceia, mudou-se-lhe a expressão do rosto numa serenidade beata. Recolheuse contrita, como se rezasse, e o negro contemplava-a em êxtase, adorando-a com um olhar que a envolvia à maneira de um clarão no qual, em surtos, relumbrava a flama do desejo.
Ela suspirou docemente, persignou-se e, olhando-o:
— Vamos?
A casa ainda cheirava a tinta, e Macambira recomendou: que não se encostasse nas portas. Ela colheu o vestido, retraindo-se. Entraram no quarto.
Três janelas arejavam-no – uma à frente, outra ao lado olhando o costão do barranco e a terceira ao fundo, sobre o monte, ensombrada por uma magnólia de tronco rugoso e negro, como tostado, mas florida e alegre de voos e de chilreio de aves.
Macambira deixou-se estar à porta enquanto Lúcia examinava o aposento e os móveis: a cama, o lavatório de ferro, com bacia, jarro e saboneteira de louça, a cômoda, uma canastra encourada e um cabide de parede.
As gavetas aperravam rangendo, e um cheiro de madeira nova enchia o quarto agradavelmente.
Na cama, o colchão alto, estalejando à pressão, travesseiros sem fronhas, uma esteira enrolada aos pés.
— Está a seu gosto?
— Que pergunta! – Saíram encaminhando-se vagarosamente para os fundos e, diante do quartinho, Macambira explicou:
— Isto é um achegozinho pra guardá uma coisa e outra.
— Pois então? Serve bem. – Foram à cozinha. Lá estava Balbina encorujada junto ao fogão de tijolo, toda de novo: saia e casaco de riscado, lenço vermelho à cabeça. A alegria de Lúcia, até então contida em vexame, explodiu ruidosa:
— Tia Balbina aqui... tão caladinha! E toda bonita?
A negra encarquilhou um sorriso, resmungando:
— Caçua, caçua... Casa ta í. Boa vida vai cabá.
— Boa vida!... – disse a mulata superciliando. – Pois sim...?
Ficou um momento alheada, de olhos vagos, como perdidos num pensamento. A negra ruminava engrolando o fumo que lhe rolava na boca.
Lúcia acompanhava com o olhar triste uma andorinha que entrara pelo vão do telhado e saltava nas vigas, trissando. Um raio de sol polvilhado de átomos descia em diagonal sobre o fogão.
Macambira mandou servir o café. Passaram à sala.
Lúcia mal debicou um caju de compota e só a muita instância do noivo aceitou um biscoito. Cabisbaixa, mexia distraidamente o café quando Macambira percebeu que ela chorava. Surpreso, perguntou:
— Ocê tá chorando? – Balbina, que ficara à porta, amuou aborrecida.
— Não é nada. – Levantou a cabeça sorrindo, com as lágrimas em fio pelo rosto. De repente, afastando a cadeira, saiu da mesa, foi ficar à porta limpando os olhos. A pequena, alheia a tudo, empanzinava-se gulosamente. Reentrado na desconfiança, Macambira encostou-se à cômoda enrolando infindavelmente um cigarro.
Lúcia tornou à sala e, vendo-o casmurro, perguntou muito meiga:
— Está zangado? Não se zangue, não. Eu sou assim esquisita. Às vezes choro sem saber por quê. Uma nuvem de tristeza, um aperto de coração. Passa logo.
Balbina interveio enfezada:
— Ocês parece criança: chora à toa, zanga à toa... Ah?
— É gênio, tia Balbina. Sou triste mesmo, que hei de fazer? – e espreitava o negro timidamente, buscando-lhe os olhos com o olhar lavado em ternura. Sentou-se na rede balançando-se de leve. Balbina, para deixá-los à vontade, passou à cozinha chamando a pequena:
— Rosa?
— Nora?
— Vai trazendo esses prato...
• • •
No silêncio da sala, ferido apenas pelo crispante e rítmico ranger da rede, os dois sentiram-se muito sós, como abandonados, e esquivavam-se evitando olhar-se, num vexame pudico que os atarantava e tolhia. Lúcia ia dando mais impulso ao balanço até que roçou na cômoda. Logo pôs os pés de rasto, em trava, e parou buscando, como em consulta, os olhos de Macambira.
— Pode balançá sem susto.
— Estará bem segura? Não vá despencar comigo. – Ele deu de ombros superiormente:
— Não tem perigo.
— Quando eu era pequena, levei um tombo de rede que não sei como não morri. Tenho medo disso que me pelo.
— Esta tá firme... – garantiu o negro e, de improviso, abarcando, a mãos ambas, os punhos da rede, a um lado, encolheu as pernas, deixando-se cair suspenso. Lúcia, rechaçada de golpe, tombou de flanco com um gritinho:
— Ui! – Ele riu firmando-se de pé e a rede, frouxa, bambeou entrando, de novo, em balanço, impelida docemente pelo negro.
Durante um sereno momento, conservaram-se calados. Lúcia, por fim, animou-se corando:
— Está de pé por gosto? – E acomodou-se aninhando-se, a fazer lugar. Ele sorriu:
— Nós dois?
— Que tem?
— Uai! já não tem medo?
— Agora não.
— Oia lá! – Sentou-se devagarinho numa das cabeças da rede, mas o seu peso levantou a mulata, ele mesmo resvalou, e os dois juntaram-se, aprofundaram-se no côncavo com um rir travesso de crianças. Ela encolhia-se, fazia-se pequenina e, como Macambira recomeçasse o balanço, estirou as pernas e apareceram-lhe as botinas bronzeadas. Ele pasmou:
— Ocê inda tem essa botina...?
— Então?
— Têm durado! Mais di ano.
— Mais! – Vexada do olhar demorado do noivo, sumiu os pés, inclinando-se a pretexto de tirar uns carrapichos da barra do vestido. E a rede rangia morosa e pesada.
— Que mundo de abelhas aí fora?
— Tá cheio?
— E você não tem medo?
— Medo di quê? Abeia cunhece o dono.
— Pois sim... eu é que não me fio. – Estremeceu sentindo o braço do negro que se lhe insinuava sorrateiro por trás das costas. Disfarçando, afastou-se, facilitando o enlace. Ele cingiu-a, abraçou-a por fim, e aconchegaram-se ombro a ombro, mantendo-se imóveis, em silêncio, como distraídos. Repentinamente, porém, voltando-se atarantada, Lúcia exclamou:
— Onde andará Rosa!? – Num sacalão o negro retirou o braço, aprumou-se e, como se despertasse, respondeu estremunhado:
— Rosa? tá lá pra dentro. Qué ela?
— Não... – Fez-se novo silêncio. Ele então, baixinho, brincando com as franjas da rede:
— A mode qu’ocê tem medo de mim...?
— Eu? – Ele acenou de cabeça e, pousando as palavras:
— Ocê não mi cunhece, Lúcia. Ocê não mi cunhece, não...
— Medo! eu? por quê?
— Então pra vi aqui ocê pricisava dessa nigrinha...? – Lúcia tornou-se séria:
— Eu logo vi... – E serena, sisuda: – Não foi por medo que eu trouxe Rosa comigo, foi por causa dessa gente que põe maldade em tudo. Se eu não viesse acompanhada, ora...?
— Ocê tem razão – concordou Macambira. – Tem razão...
— Pois não é?
— Tem razão.
— Eu vivo lá em casa e sei. Basta Donária, com aquela boca peçonhenta, para espalhar uma porção de coisas. E ela estava no engenho quando eu passei. Deus me livre.
— Aquilo é uma peste.
— Só não fala de Nossa Senhora... nem sei mesmo por quê. – A rede ia parando. Olharam-se. Ela sorria. Perturbou-se, baixando os olhos, de novo ergueu-os pálida, os lábios entreabertos, como em fadiga. Instantaneamente encardiram-se-lhe as faces. Inclinou-se um tanto à frente e, sem levantar a cabeça:
— Pode botar o braço, não me incomoda. – Ele cintou-a de novo, vencido, mas ficou pensativo, preocupado, o olhar suspenso, como atento a alguma coisa. Súbito levantou-se, dando atrás com a cabeça em gesto repulsivo.
— Que é? – perguntou a mulata surpreendida.
— Nada não. – Pôs-se a caminhar a passos largos, as mãos atafulhadas nos bolsos das calças. Lúcia, brincando com a varanda da rede, ainda embalou-se um momento, muito vermelha. Uma rosa escapou-se-lhe dos cabelos, caiu-lhe aos pés. Macambira apanhou-a:
— Oia! – Ela recebeu-a, sempre cabisbaixa, conservando-a na mão, esquecida. Por fim levantou-se, foi à porta do corredor e chamou a pequena:
— Rosa! Anda! Vamos... – Macambira voltou-se surpreso:
— Uai! Ocê já qué i?
— Já. É tarde. Sinhá pode precisar de mim. Hoje tem gente lá pr’almoçar.
O negro não achou palavra para dizer, envergonhado da sua fraqueza e arrependido da desfeita que fizera à noiva. Encostado à mesa, com a perna trançada, escabichava as unhas, boleando a cabeça, carrancudo. Balbina veio da cozinha com a pequena e, como a mulata se despedisse, suspeitando arrufo, resmungou aborrecida:
— Ocês... quá! Isso ansim não tá bom. S’ocês cumeça ansim cumu vai cabá? Antonce dia di visita é procês tá ansim trumbudu?
Lúcia sorriu:
— Que é, tia Balbina?
— Qui é, hein? Ocê pensa qu’eu sô boba...
— Pois eu hei de ficar aqui o dia todo...?
— Fala, fala... Eu tô suntando só. Fala... – Lúcia estendeu a mão a Macambira:
— Té quando...?
— Até quando quiser. – Sorriram. – Adeus, tia Balbina. – E, inclinando-se-lhe ao ouvido, segredou: – Cuidadinho com a minha casa.
Foram saindo. Balbina acompanhou-os. Ainda estiveram um momento parados junto à acácia.
— Então, adeus! – e olhou-o muito terna.
O negro comoveu-se com a mansidão da mucama e, largandolhe a mão, entrou em casa, tomou o chapéu:
— Eu levo ocê até lá imbaixo.
— Vai di braçu, genti. Huê! Ocês não vai casá? Antonce...
Riram alto e foram descendo devagar, seguindo as voltas do caminho, ora à sombra, sob a copa dos ramos buliçosos, ora à lumieira do sol, pelos escalões da ladeira entre ervaçais ressequidos.
O casamento foi em meados de março, domingo, depois da missa.
O sol, de um brilho intenso, rasgava a névoa da terra. Desnublavam-se os cerros, os vales aprofundavam-se limpos da fumarada fria. Nesgas de bruma desprendiam-se dos cabeços, esfarrapavam-se nos matos penugentas, quase fluidas, um momento paravam soltas, esgarçando-se, solvendo-se no ar. A paisagem emergia verde, orvalhada, faiscante e dourava-se, deslumbrando.
A capela, a um dos extremos da casa senhorial, enfeitada de flores e folhagem, ficou atupida de gente, e ainda densa turba marulhava no corredor, e muitos, que não haviam conseguido lugar, rondavam fora, apinhando-se às janelas que abriam sobre o jardim.
Vaca-Brava lá estava, sempre desmazelada, a carapinha em tufos, o casaco aberto, rosnando rabugenta, a repelir os que tentavam tomar-lhe a frente.
Grupos juntavam-se em volta dos canteiros, sentavam-se na relva cavaqueando. Pares de botinas, emparelhados à sombra, com as meias dobradas sobre o cano, eram vigiados pelos donos, que, de calças arregaçadas, iam e vinham, descalços, refrescando os pés, doridos da caminhada que haviam feito.
E chegavam famílias – as negras, de xale à cabeça, com trouxinhas; algumas traziam crianças pela mão ou enganchadas no quadril; os negros muito risonhos, empavonados, estadeando a roupa de brim de Angola, a distribuírem apertos de mão aos parceiros e bênçãos à molecada.
Cães magros, gafentos, cainhavam coçando-se, arrastando-se pela terra, ou enrodilhados mordicando-se frenéticos.
Crioulinhos brincavam às cabriolas; outros, ariscos, chuchando o dedo, pasmavam a tudo, muito zelosos da roupa que vestiam, virando, revirando o chapéu novo.
E o jardim rumorejava como uma feira.
Era festa grande.
A tarde da véspera fora trabalhosa e sangrenta – abatera-se um boi gordo e lá estava o sangue, em negra abafeira, às moscas, perto do engenho; matara-se um porco; cabritos, galinhas foram à faca, e até tarde da noite, à luz de candeias, a cozinha refervera em alegre azáfama com o preparo das carnes.
Um décimo de cachaça saíra do paiol e lá estava, sob o tendal, com torneira de chave para a distribuição.
Negros traziam às costas grandes tambores, experimentavamnos aos burunduns à soalha num precipitado rebater de mãos; outros sobraçavam violas enastradas, ponteavam cavaquinhos. E, já excitados com a ideia do batuque, à noite, saltavam corcoveando, sapateavam batendo os pés ligeiros. Cantos tristes, guaiados, partiam de pontos vários, às vezes interrompidos por um riso em guincho que ia crescendo comunicativamente e estrondava em gargalhada como uma centelha alegre que, levada de palhal a restolho, fosse pegando, acendendo chamas, levantando labaredas e expluísse em incêndio. Dois negros moços, robustos, empenharam-se em luta de agilidade e, destros, aos pulos, trocavam golpes de mãos, atiravam-se cambapés rasteiros.
Um abalou em fuga, o adversário pôs-se-lhe na peugada, alcançou-o. Rolaram ambos, a rir, e a cainçada, espertando com a alegria, lançou-se por ali fora de corrida, engalfinhando-se, travandose em bolo, a estrafegar-se rosnando. Um cão partia, outro, e logo todos, em fila, correndo desapoderados, fazendo voltas e negaças por entre os canteiros floridos.
A um canto, junto aos bambus, arrancharam-se negros e negras, de pé, sentados ou de cócoras, pondo cerco maravilhado a um mulato de fama que fora da Barra.
— Era um bichão nu instrumento. Prum baile não havia outro?
De branco, chapéu mole à banda, embutido na grenha, amassava e sacava a harmônica com ar soberbo, grazinando polcas, chulas e toadas fanhosas de modinhas.
E gente de fora...! era um mundo, convidados das fazendas próximas e muitos que haviam ido fiados na hospitalidade “querendo tomar parte no pagode, beber um gole à saúde deste ou daquele”. Festa grande?
É que, além de Macambira e Lúcia, outros casais recebiam-se e inúmeras crianças batizavam-se.
Os senhores lá estavam, menos Julinho, que já havia descido para os estudos.
As mucamas, que dirigiam a festa, num farfalhar de saias engomadas, com laçarotes esvoaçantes, recendendo a essências, afanavam-se acomodando crianças, fazendo lugar para os convidados e para os mais velhos, sobremodo solícitas com o padre que, na sacristia, esmoncava-se resmungando, enfezado com a demora.
Ao entrar a missa, a sineta bimbalhou na forca um alegre repique e o sacrifício iniciou-se num murmúrio de vozes surdas.
Por vezes uma criança choramingava, um cajado caía com estrépito e o padre, indo e vindo ante o altar coberto de flores, resplandecente de ouro e luzes, zumbrindo-se em mesuras, genufletindo ou demorando em êxtase, braços abertos, o olhar suspenso, resmoneava passagens dos Evangelhos na atenção devota do auditório rústico que se atrapalhava, por vezes, ajoelhando-se uns quando outros se levantavam.
Na elevação da hóstia um negro tirou o “Bendito” e foi um clamor estridente, de uma plangência agoniada, logo rolando soturno para, subitamente, abrir-se em allegro triunfal, e a campainha do acólito vibrava a espaços, em ritmo, como escandindo o cântico. Terminada a missa, enquanto o padre se revestia para os sacramentos, as mucamas formaram os nubentes.
Macambira e Lúcia foram os primeiros colocados. A mulata, tímida, mas airosa num vestido branco de nanzuque, véu, capela e ramo de flores de laranjeira, ajoelhou-se, muito recolhida, em frente do negro, que vestia costume claro, feito na Corte.
Seguiam-se os outros, em duas filas, homens a um lado, mulheres a outro – eles enjorcados em anchos paletós, equilibrando-se em botinas novas, ora num, ora noutro pé, a gravata moxinifada, o lenço a despontar do bolso, corrente de prata ou de plaquê anunciando relógio; elas numa variedade de trajos estapafúrdios, vestidos de cassa, com basquine, ou de morim, trufados, com recamos de fitas, um pedaço de filó trapejando à cabeça sob coroas malpostas, flores ao peito, à cinta; outras, achamboadas em tafularias, já com filhos taludos à ilharga. Uma grávida, para cada hora, muito humilde, de olhos baixos, conservava as mãos cruzadas sobre o ventre túmido, como a esconder o vexame.
Cochichava-se em volta, espirravam risinhos, logo abafados. Por vezes uma cachinada fazia escândalo, negros voltavam-se resmungando insolências.
E um cheiro morno, almiscarado, de suor e de brim novo, impregnava o ambiente. Mas a brisa entrava bojando as cortinas da janela fronteira ao altar, desfazia o fumo do turíbulo espalhando o aroma de incenso, como um fluido místico que purificasse o ar e penetrasse os corações.
O padre apareceu e logo o burburinho cessou. Mas com a ânsia de ver houve empurrões e repulsas, vozes cresceram em disputa, um rebojo tumultuoso agitou a multidão.
Gandra pôs-se de pé no estrado do altar, severo, varreu a turba com o olhar repreensivo e o silêncio restabeleceu-se.
Ele e a senhora apadrinharam Macambira e Lúcia, e o padre, em atenção aos fazendeiros, foi lento no latim, grave nos gestos enquanto esteve diante deles; continuando, porém, mal se lhe entendia o araviado. Juntava os casais, unia-lhes as mãos sob a estola, se havia “alianças” indigitava-as, se não prosseguia engrolando as palavras, numa pressa de seareiro que fosse perlongando o sulco de um alfobre lançando ao acaso a sementeira sagrada.
Celebrado o último casamento, o padre, postando-se entre os casais, fez uma breve prédica em tom severo e, falando do amor, da virtude, dos deveres entre cônjuges, da obediência aos senhores e dos benefícios da religião de Cristo era tal a aspereza da sua voz, tal o seu aspecto carrancudo que os noivos curvavam-se estarrecidos como sob a violência de anátemas. Findando esbofado, despediu-os “com Deus” como se os enxotasse.
E começou a retirada dos casados aos apertões através da turba. Os maridos, no atropelo, trocavam as mulheres e riam-se, faziam chalaça: “Uai! Ocê ficô atrás... Cum poco eu ia co’Cathirina... Caminha, criatura.” E iam indo, de esguelha, esbaforidos. Os parceiros cumprimentavam-nos, desejavam-lhes felicidade e eles sorriam, davam de cabeça, faziam convites para a cabana: “Aparece logo mais... Vai lá...”
E a capela ficou mais folgada. Já as mucamas providenciavam os batizados – uma com a bacia de prata, toalha de crivo ao braço; outra com a salva onde iam os Santos Óleos e o sal. Ardiam círios, e, na barafunda, as crianças choravam assustadas.
Moleques, já crescidos, faziam caramunhas, refugando com medo; outros, ao colo das mães, escancelavam-se aos berros, esperneando, emaranhados em fitas; e pequeninos, muito aconchegados ao seio materno, uns dormindo, outros em espertina curiosa, chuchando o dedo, a olharem tudo.
As madrinhas, em círculo, apresentavam os afilhados, diziam-
— lhes o nome e o padre ia de um a outro abreviando mascavadamente o latinório e as cerimônias sacramentais.
Por ocasião do batismo foi um reboliço – à medida que o padre despejava uma cuia d’água à cabeça da criança inclinada sobre a bacia, a choradeira, comunicando-se, crescia atroadora.
Os pequeninos estremeciam, ainda deglutindo o sal, agitavam-
— se, rompiam aos guinchos debatendo-se. Os molecotes barafustavam escabreados, esfregando a cabeça.
E ao alarido das crianças juntava-se o vozeio das mulheres, umas acalentando, outras repreendendo os filhos; as madrinhas ciciavam ninando os afilhados, e eram mimalhices ou repelões, carinhos ou ameaças – essa a afagar um pequerrucho, aquela a sacudir um crioulinho pelo braço para que não cuspisse o sal nem passasse a manga do paletó pela testa limpando os Santos Óleos.
E as mães sorriam desvanecidas com a gritaria dos filhos – bom sinal, presságio feliz – e, intimamente, pediam a Deus por eles, que lhes desse uma boa sorte, satisfeitas por verem-nos cristãos, isentos de culpa, recebidos na Graça celestial; e levavam-nos com mais ternura, como se naquela hora mística os houvessem recebido de Deus, das suas próprias mãos divinas, para o amor, para auxílio e consolo na vida.
Fora a sineta repicava com frenesi, pipocavam foguetes e, como em aleluia, ria-se, cantava-se e os instrumentos iam-se pondo acordes em músicas de folgança.
• • •
A mesa de Manuel Gandra, mais estirada nesse dia e opípara, ficou de ponta a ponta apertadamente cheia.
A baixela das grandes ocasiões lá estava ostentando riqueza; lá estava o numeroso aparelho de porcelana da Índia, e toda a louça comum andava em serviço. O aspecto da mesa vasta, abarrotada, dava abastosa impressão de enfarte.
Havia de tudo abarrisco – pratarrazes à ufa: o sarrabulho em monte a reluzir gorduroso, travessas atestadas de costeletas, cogulos de arroz de forno esturrado em tom louro, com embutidos de azeitonas e rodelas de paio, terrinas de ensopados, rolos de linguiça; o lombo de porco, o leitão, o peru, fritadas, postas imensas de assado e compoteiras de doces, pirâmides de balas, ladrilhos de coco e de leite, bolos, pudins, tortas, forminhas, cremes, geleias, queijos frescos, de casa e do reino.
A vinhaça corria copiosa, aos copázios, e, alegrando pomposamente a mesa, entre as abundantes vitualhas, jarrões de porcelana antiga frondejavam em flores.
A sala regurgitava. Pessoas, sem lugar à mesa, enchiam um prato e, descerimoniosas, rindo, iam comer à varanda.
Era um atropelo, uma lufa-lufa de negras e de moleques trazendo terrinas, frigideiras que ainda chiavam, bandejas de copos, levando rimas de pratos, abarcando feixes de talheres.
Pisava-se comida.
As mucamas faziam prodígios atendendo a um e a outro, e rindo, faceiras, propunham um passeio à roça, depois do almoço, visita às cabanas festivas e, à noite, cateretê e danças francesas no salão do engenho, já preparado.
Contemplando a comezaina, Gandra sentia-se bem; impava de orgulho à cabeceira da mesa, entre o padre e a esposa que ofegava, esparrimada na cadeira, com uma negrinha ao lado, muito lerda, sacudindo maquinalmente um ramo verde para espantar as moscas.
E era um zunzum de cortiço nos corredores, gente que se juntava para ver, velhas negras, crioulos e negrinhas.
Cães metiam-se debaixo da mesa farejando migalhas, rosnavam; por vezes abocanhavam-se raivosos.
Um berro rolou em lamento, outro logo e vários, soturnos, de uma tristeza agourenta. Alguém explicou: “É o gado que está chorando no sangue do boi morto.” E ria-se da saudade dos animais que, em ronda melancólica, bufando, escarvavam a terra escura onde fora sacrificado o companheiro.
Mas o grande jubileu, esse era celebrado pelos recantos da fazenda, nos palhiços dos escravos.
Mal se dispersou a gente, despedindo-se à porta da capela, seguindo cada qual a seu rumo pelas trilhas da roça, começou a festança. Cabana de onde houvesse saído casamento ou batizado barulhava em pagode.
No ranchinho mais pobre havia, pelo menos, uma galinha, uma garrafa de cachaça e laranjas. Em alguns, porém, afogados em milharal ou com a roça de mandioca em volta, a fartura transbordava em rega-bofe no terreiro por não comportar a sala, escura de felugem, a afluência de convidados.
Comia-se em esteiras, à sombra das árvores; pedras, caixotes, toros, tudo era assento. A feijoada era servida no próprio caldeirão em que fora feita, o sarrabulho atupia a frigideira de barro, o arroz adunava-se, louro, em alguidar novo; e eram panelas de barro, latas, tudo cheio e cheirando.
À falta de talheres arrancavam-se, à unha, nacos de leitão, com a côdea encoscorada, estalavam-se carcaças de galinhas; alguns desembainhavam facas de ponta, abriam canivetes de mola e espetavam costeletas ou espostejavam o assado. Havia-os a comer em testos, em tampas de latas, sentados no chão, com o codório ao lado numa tigela e laranjas que chupavam às talhadas chuchurreando lambuzadamente.
Levantavam-se com as mão lustrosas de gordura, iam à aguazinha, perto, num bicame de telha, lavavam-se, bochechavam atirando borrifos às folhas e, metendo-se à sombra, entouridos, estiravam-se ressupinos gozando a frescura em sonolenta, empanturrada preguiça.
Outros vira-mexiam irrequietos – iam à moenda, entalavam canas – e o caldo gorgolejava espumante – ou varejavam o pomar trazendo laranjas, bananas, o que encontravam à mão.
Era já desperdício, pretexto para graçolas, necessidade trêfega de fazer alguma coisa.
O café cheirava saboroso escoando no saco numa terrina, cada qual chegava com a sua tigela, bebia ali mesmo.
Ao fogo, na trempe de pedras, a chaleira fervia aos gorgolhões fazendo trepidar a tampa, e na cinza era a batata-doce a assar, eram estouros de castanhas de caju rechinando oleosas.
A lenha seca lá estava, em estância, a um canto, para a fogueira, à noite.
Ainda havia gente comendo e já os músicos, de lenço ao pescoço, o cigarro pendurado dos beiços, afinavam os instrumentos.
Palreiros, excitados, propunham brindes, cantavam-nos tilintando nos copos, levantavam hurras! Os noivos agradeciam rindo ou era a criançada que, reclamada aos berros, vinha nos braços do pai ou ao colo materno receber os cumprimentos da rapaziada.
A ebriez acendia-se, manifestando-se em alegria descompassada – um a pinotear, outro a pendurar-se dos ramos, balançando-se; esse às cabriolas, aquele saracoteando com um galho no peito, à guisa de viola, zangarreando de boca. E mais cana! Ê! gente, não dexa esfriá... Manda, mãe preta, manda! c’a sua filhinha branca. Manda!” “E pai João barrigudo!”, acrescentavam. “Dexa de miséria, gente. Bota pra fora!”, e o garrafão apareceu e foi recebido com palmas.
Mas as violas romperam álacres, entraram os violões, os cavaquinhos repinicaram. “Junta, povo! Guenta!” Era o samba.
Saltaram dançadores castanholando, picando, repicando o passo, a pedir damas, e, em pouco, fechou-se a roda e o zagaralhar dos instrumentos esmorecia no frenesi atroante do sapateado, ao barbarizo do canto e das risadas.
A poeira subia, flutuava no ar. Pagode.
E o dia, maravilhoso! Céu azul, sol brando, aragem macia, tocada de aromas murmurando nos ramos.
E por ali fora, alhures, estouravam roqueiras, estrugiam brados, toda a fazenda rejubilava como a uma bênção do céu.
Tão intenso era o prestígio da luz, o filtro do azul inebriava tanto que um negro, já velho, seguindo, mais o cão, através da campina, parou ouvindo os vários sons dispersos.
O gado pastava livre, afogado na erva.
Esteve um momento imóvel, cabisbaixo, o rosto em sorriso; súbito, eletrizado, saltou num pincho, voltando o pau que levava atravessado ao ombro, e, aos corcoveios, pôs-se a bater os pés grunhindo um canto.
O cão estacou, mirando-o, investiu latindo, aos pulos, e corria em volta, rosnava festivamente; de ímpeto meteu-se ao pasto, ladrando aos bois que olhavam, mansos, considerando a estranha figura do negro a bailar com a própria sombra, na poeira fina e loura, ao sol.
Macambira e Lúcia, desde que subiram, não tiveram um minuto de descanso, sempre com a casa cheia: mucamas no quarto, em pagodeira, à risota, apalpando a cama, os travesseiros de fronhas de renda, com intenção maliciosa, aos segredinhos; negros pelos cantos pitando. Negras abandonadas grunhiam, cirandavam curiosas, afuroando, bisbilhotando tudo.
A sala, nublada de fumaça, tresandava a catinga, a bafios de álcool e a sarro.
Ria-se às gargalhadas, e o falario cacarejado atroava num confuso tumulto de feira. E havia muafas delambidas, carraspanas lânguidas – uns aos boléus cantando, outros de olhos amortecidos, babosos, caramunhando piegas com as negras que os esconjuravam e repeliam aos empurrões.
Os noivos, achando graça em tudo, iam de um a outro insistindo para que petiscassem alguma coisa do que havia à mesa: pastéis, fatias de carne, sequilhos, bolos, cocadas. Havia aluá. Volta e meia, Rosa aparecia com a bandeja de café; o garrafão de aguardente andava de mão em mão. Lambiscava-se, bebericava-se a rir.
Moleques cabritavam no terreiro, varejavam o pomar sacudindo as árvores que farfalhavam derrubando frutos.
Um negro, alambazado e bêbedo, passou horas junto da acácia foleando a sanfona e tanto enternecia-se com o som fanho que se dobrava voluptuosamente, com a cabeça sobre o instrumento, a ouvi-lo, gozando a música, acompanhando-a com um resmungo enfadonho.
O cão ladrava bravio, prolongava uivos, e o rumor crescia com a monotonia zoante da sanfona.
Só à tarde esvaziou-se a casa, cessou o rumorejo no caminho e os noivos puderam repousar um pouco, mudar a roupa, cada um por sua vez, enquanto Rosa varria e Balbina arrumava a casa.
Jantaram ainda com sol.
Anoitecia palidamente num silêncio de êxtase quando deixaram a mesa saindo ao terreiro.
A paisagem empastava-se em manchas brosladas de sol. O ocaso era uma crosta de ouro, e no redente dos montes sombrios as árvores destacavam-se negras em traços fortes como embutidas no céu.
Lentos, diáfanos frouxéis de fumo enrolavam-se nos matos, subiam em espiras tênues esfrolando-se na melancolia do crepúsculo.
Pouco a pouco, o cariz das nuvens foi descorando exangue, esbatendo-se em violeta, diluindo-se em pérola e a noite espalhouse sem trevas, de uma transparência cerúlea, como um clarão de luar coado por um vitral. Abriram-se limpidamente estrelas infinitas, e o misticismo dos serenos astros como que se estendeu a tudo, de uma doçura beata.
Os matos amarelejaram lançando faíscas, atassalhando a sombra de labaredas fulvas; dentre as frondes douradas espirravam faíscas, e Macambira, de pé à beira da barranca, orientando-se pelo clarão das fogueiras, que abria flabelos no ar, designava as cabanas pelos nomes dos seus moradores.
— Oia Chico... ali é Valentim. Naquele claro é Zé Carreiro. Lá em cima, o Combe; tá fervendo no samba. – E ria expansivo. Um coqueiro fez-se todo escarlate, esbraseado; o mato fusco, em volta, reluziu; parte da cabana ressaltou da sombra em mancha sanguínea e no terreiro aceso vultos negros, esguios, como carvões pulando em labaredas, tisnavam a fulguração em frêmitos macabros.
Lúcia, de pé, olhava indiferente, como distraída. Sentia-se muito só, e aquela grandeza nunca avistada, o mistério da noite, o homem ali perto, a casa onde devia cumprir-se o seu destino, tudo era novo e amedrontava a sua alma timorata. O coração, cheio de presságios, batia-lhe no peito sôfrego, subiam-lhe angústias à garganta; a imagem de Julinho passava-lhe na mente como um remorso.
Instintivamente levou a mão ao ventre. Arrependia-se de não haver recusado a proposta do senhor, estaria livre do negro cuja ferocidade não lhe era desconhecida. E ali estava sem defesa, longe de todo socorro, só e Deus. Um farfalho nas folhas fê-la estremecer de susto; voltou-se de golpe. Balbina saracoteava no terreiro empunhando um facho.
— Macambira, zêri vem aí, fio! – disse alvoroçada. – O negro respondeu numa língua rude, áspera, e os dois, como escondendo pensamentos, combinando planos cruéis, conversaram sem que ela percebesse uma só palavra – o negro falava com arrogância, e a velha trêfega, bambaleando como ébria, a sacudir o facho, que crepitava, respondia aos ganidos, com o rosto encarquilhado em esgares, brilhando ao reflexo da chama.
Cantos melancólicos subiam da redondeza em sons vagos, ora brandos, ora fortes: era o tarambote, e logo estrondou o tarantantã dos tambores, e ressoante, bárbara, a grita do batuque atroou o silêncio azulado.
De um e de outro ponto, num sulco de fogo, foguetes frechavam e o tumulto redobrava soturno, constante como escachoo de águas.
Rosa acendeu o lampião na sala. A brisa soprava sacudindo brandamente os ramos.
Lúcia, queixando-se de frio, ia recolher-se quando Balbina tomou-lhe o passo. Não parecia a mesma corumba lerda e sorumbática, sempre de cabeça baixa – estava transfigurada: os olhos ardiam-lhe como brasas, a boca escavada crispava-se-lhe em ricto hediondo, e ágil, tigrina, volteava casquinando um risinho silvante:
— Ocê já qué detá? Ispera genti qui vem aí, povo di Munza. Uai?
Lúcia deteve-se medrosa, sorrindo humildemente.
— Não vou me deitar, não, tia Balbina. Vou pra dentro, ando com tosse e a noite está fria.
— É, não deta, não. Povo vem aí, genti di Munza; vem tudo, té da Barra. Tudo qui sôbe vem aí. Ocê vai vê.
Vendo a perplexidade da mulata, Macambira explicou carinhoso, sem, todavia, esconder o orgulho:
— É genti di meu pai, genti qui foi du reino. Ocê querendo, fica; não querendo, vai.
A mucama respondeu resignada:
— Fico. Por que não hei de ficar? Não estou com sono.
E Macambira falou do seu povo, da sua raça, do seu reino, de Munza, repetindo o que lhe contara Balbina. E ajuntou vaidoso:
— Ocê é rainha.
Ela sorriu. Mas a descrição da majestade bárbara aterrou-a ainda mais. O negro afigurou-se-lhe maior, mais poderoso, mais cruel com o prestígio de rei. Olhava-o estarrecida, contendo lágrimas, a tremer toda e gelada.
Por entre os matos passava fulgurando o archote de Balbina. Os atabaques ressoavam profundamente ao longe, e as fogueiras, mais vivas, manchavam a noite de clarões vermelhos.
Súbito um grito vibrou longo e agudo. Macambira pôs-se firme, atento.
Um som rascante, estralejado, vinha crescendo estrídulo como um rolar de pedrouços, vozes confusas, guias em coro, trons de tambores, rechuchado de chocalhos, soídos ríspidos e, sobretudo, perene, um rouco e lúgubre grugrulho.
Balbina saltou no terreiro energúmena, desapoderada, e pôs-se a zaranzar em volta, riscando com o facho um círculo de claridade. O seu corpo esquelético pinchava elástico, e ouvia-se-lhe o arfar do peito cavernoso. E o rumor, mais perto, ora cavo, ora estridente, suplantava os demais ruídos.
Por trás da casa fulgurou um relume, estalidos de lenha rechinaram, subiram faíscas – era a fogueira que Balbina acendera para receber os malungos.
E o caminho aclarou-se vermelhejante, um canto heroico, de notas graves e prolongadas, encheu-o de solenidade trágica.
E ribombaram tambores, o som arranhado do gazá ringiu, cascavelaram trépidos chocalhos, e, entre archotes de palma, a farândola surgiu em zanguizarra – negros e negras aos pulos reboleados, uns com plumas à cabeça, colares de cocos, manilhas e pulseiras de penas, esgrimindo paus à maneira de zargunchos, atirando, aparando golpes em duelos; outros corcoveando aos arremessos felinos, rugindo roucos; velhos, em passos arrastados, altivos, com entorno senhoril de chefes; mulheres bracejando aos guinchos, e, retroando, puitos, marimbas, urucungos e as vozes estrugindo em burburinho horríssono que, por vezes, descaía em dolência fúnebre como um canto de morte.
De pé, ereto no limiar da casa, o vulto robusto de Macambira destacava-se soberano entre a moldura dos umbrais.
O rancho negro desenvolveu-se em hemiciclo, com os músicos ao centro zangarreando, as mulheres aos guinchos, num saracoteio lúbrico, os guerreiros aos pulos, terçando fimbos, e os velhos, sempre solenes, bambaleando com um canto monótono.
Balbina delirava em frenesi correndo com o archote de resvalo pela terra, batendo-o num turbilhão de faíscas, e o vozeiro tonitruava e mais estrondou quando a turba, apinhando-se, avançou em corrida, arremetendo à casa, como para assaltá-la. Mas Balbina prostrou-se de bruços, grulhando, e todos rojaram-se de borco, com a fronte no solo, rugindo.
Um instrumento soou, todos, em grita, levantaram-se tumultuosamente, baralhando-se numa confusão de fogos fumarentos, puseram-se a um de fundo e desfilaram ante Macambira, que acenava agradecendo os brados estridentes com que o aclamavam.
Lúcia, retransida, olhava o estranho espetáculo, sem compreender-lhe a significação.
À claridade rubra que alumiava o terreiro, as figuras dos negros tinham expressões sinistras; e havia gente de fora, desconhecida, escravos de outras fazendas próximas, todos súditos que haviam sido do rei Munza, que Balbina convidara para a festa nupcial daquele que representava na terra do cativeiro a estirpe dos fortes reis do deserto, caçadores de leões.
Havia-os moços, pegados pequeninos e trazidos na corrente, a maioria, porém, era de velhos, grisalhos, todos com lanhos nas faces e verrugas na fronte, assinalados no berço.
E o bando envolveu em marcha batendo sonoramente os pés ao ritmo dos instrumentos precedidos pela negra, e flanqueou a casa indo estanciar no terreno, ao fundo, onde a fogueira flamejava em labaredas altas, clareando os arredores até a encosta do monte.
Macambira ficou estatelado à porta, em arroubo, cabeça a prumo, sugestionado pelo estupendo cenário onde se realizava o seu sonho.
De todos os desvãos subia o burundum dos atabaques, cantos ecoavam em sons vagos enchendo a noite de um perene ressoo, e ali perto fremia na terra o tripúdio da sua gente.
Era bem o que lhe descrevera Balbina nas evocações nostálgicas com que, desde pequeno, o mantivera na pátria e na raça. Era bem aquilo... e a negra lá estava.
E lembrou-se de Munza, seu pai, o mísero rei, exilado no opróbrio, grande, possante, altivo, mas sempre taciturno, trabalhando de enxada entre antigos vassalos, no mesmo carreiro, sob a vigilância de um feitor que o humilhava, a ele, rei de uma nação de valentes e vencedor de reis.
A dança barulhava estrupidante. O negro sentia-se atraído – o sangue estuava-lhe no peito em fervor heroico, e lá embaixo, por aquelas terras além, tudo era festa de negros: cabanas acesas, fogueiras ardendo, a barafunda estrondosa do batuque, do samba, a grita febricitada – era bem a cabilda vasta, o seu reino alvoroçado em alegria de triunfo como depois de uma guerra devastadora. E por aquelas sombras, longe, adivinhava monstros.
Voltou-se de improviso: Lúcia estava sentada junto à mesa, imóvel. Encarou-a um momento, como surpreendido de vê-la, adiantou-se, estendeu-lhe a mão num gesto inconsciente, aturdido com o reclamo da orgia bárbara, e, sem poder dominar-se, disse-lhe aos ofegos:
— Oia, Lúcia, eu vou lá fora um bocado. Ocê não zanga? Parece feio dexá eles sozinho, ocê não acha? – Ela sorriu submissa. – Ocê não acha?
— É.
— Ocê não fica zangada?
— Zangada? Por quê?
— Ocê qué ví?
— Não. A noite está fria. Tenho medo do sereno.
— Entonce é um instantinho. Ocê querendo detá. Encosta a porta mod’u frio.
— Sim.
— Entonce até já.
— Até já. – Foi-se. No terreiro parou um momento olhando soberanamente os halos das fogueiras dispersas, ouvindo o retumbar dos tambores longínquos. Mas o seu povo lá estava.
Lúcia chegou à porta. A noite era linda, suave no céu todo em brilhos de estrelas. Encostou-se ao umbral. O vozerio cresceu estriduloso ao fundo como num bradar de catástrofe.
A mulata estremeceu, lágrimas rebentaram-lhe dos olhos, um grande medo apoderou-se dela: sentiu a morte e, fraca, como uma vítima ante os sacrificadores, vendo em torno canibais em fúria, recuou e, deixando-se cair em uma cadeira, inclinou-se à mesa, rompendo em pranto, certa de que, dentro em pouco, acabaria às mãos do negro, e, horrorizada, levantou a cabeça, relanceando assombradamente o olhar em torno como à procura do próprio cadáver.
Era tarde quando Macambira empurrou a porta que ficara encostada. Apesar da luz do lampião, esbarrou em uma cadeira, derrubando-a. A mulata, que o barulho despertara, sentou-se na cama estarrecida, à escuta.
Troavam, ao longe, soturnos, os últimos rumores. O negro pigarreou. De repente fez-se escuro.
Lúcia sentiu-se como soterrada: a treva pesou-lhe, abafou-a. Deitou-se devagarinho, encolhida, contendo a respiração, a tremer, toda fria.
A porta do quarto estalou e, sentindo os passos do negro, vagarosos, sorrateiros como os de um assassino, a mulata arquejava arrepiada, contendo lágrimas, transida num pavor de morte.