Capítulo X
A notícia do “filho branco” espalhara-se rapidamente
levada pelos negros da Cachoeira, e nas vendas das estradas, nos negócios, desde a Barra até Vassouras, o caso fez rumor. No armazém do Narciso, durante muito tempo, constituiu o assunto das conversas. Uns riam, outros revoltavam-se: “Que se Macambira era negro de vergonha aquilo que não ficava assim. Patifarias tais precisavam de um exemplo que servisse de emenda.” E vinham à baila outros escândalos:
— Mas que é pior? Isso ou o que se deu na Varginha? Lá foi a sinhá moça que tisnou o filho.
— Pois sim, mas o negro acabou no tronco e castrado.
— Ora! Mas comeu do bom... Mais vale um gosto, meu amigo...
E cada qual, sabedor dos segredos daquelas terras, referia um fato de remate trágico: infanticídios, casamentos arranjados à pressa, a peso de ouro, mortes súbitas de senhores e desaparecimentos de pajens, torturas de mulatas, como a Claudina, de Santa Fé, a quem a senhora mandara arrancar todos os dentes a torquês só porque o senhor os achara lindos; a paixão desvairada e cínica de certa fazendeira viúva, já murcha, que se amasiara com o cocheiro, mandando matar a vergalho um chinota por havê-la encontrado em colóquio com o crioulo.
Na fazenda comentava-se o caso à boca cheia: na roça, no quadrado, na cozinha, nos ranchos, de dia e de noite, à risota ou surdamente, com ódio ao branco.
— I criança?
— Uai! Não vê qu’havia di ficá aí! Prugunta Barbina, cumedera di genti.
D. Clara, no meio das mucamas que costuravam, defendia o filho:
— Tudo é Julinho. Julinho é pai de curral. Vão ver que foi algum desses porcarias de mascates que andam por aí e atiram a culpa pra cima de meu filho, coitado! Umas sonsas! Pensam que não sei? Por uma peça de fita à toa ou por um maço de grampos estão aí se metendo com o primeiro carcamano.
— Ah! sinhá... vancê também.
— Ah! o quê!? Pois se foi ele fez muito bem. Agora um negro daqueles casar com uma rapariga que podia ser sua senhora... Onde já se viu isso?! Era mesmo para ela ter nojo – e cuspilhava com esgar de enjoo.
— Pra que casô?
— Casou porque Manuel quis. Eu nunca vi Lúcia mostrar inclinação por Macambira, nem por ninguém. Era aqui em casa, metida com as suas costuras, de noite lendo pra gente, brincando. Nunca foi rapariga de pagode.
— Isso é verdade – confirmavam as mucamas.
— Pois então? Mas também obrigarem uma rapariga limpa a emporcalhar-se com um negro era mesmo para uma coisa assim. Não foi por meu gosto que ela casou, isso não foi... Enfim...
Vaca-Brava trazia a negrada em alvoroço espalhando novidades sobre o negro:
— Muxiba anda di crista caída qui nem piru di gogo. Perdeu a proa. Barba, oia, tá ansim – e apinhava os dedos –; cabelo qui nem bassora. Deus não dorme. Tá í nu qui deu impáfia di rei. Eu só quero vê o pimpão quando nhô Julinho chegá. Sinhô memo a mode quê já virô candeia co’ele. Bicho anda jururu i sirviço tá í parado. Tibúrcio agora é qui tá di cima. Eu não jurei à toa, uai! Inda hei di vê aquele cascão ali nu duro, puxand’inxada nu cafezá. Só si não há Deus no céu. Ora! – E ria com sarcasmo cruel.
Efetivamente Macambira andava arredio, sempre pelos matos, banzando nos caminhos. Raro em raro aparecia em casa para falar ao senhor, ficava à porta do escritório, cabisbaixo, à espera, e, ao ver Manuel Gandra, adiantava-se estendendo a mão, com um murmúrio humilde. O fazendeiro respondia carrancudo e passava deixando-o esquecido.
Uma manhã Tibúrcio, chamado ao escritório, saiu a correr, vestiu-se, encilhou um animal e partiu para a Barra. Logo se soube que o crioulo fora levar cartas e fazer pagamentos. Era a destituição de Macambira. As mucamas, instigadas por Vaca-Brava, interrogaram a senhora: “Se era verdade que Tibúrcio estava em lugar de Macambira?” D. Clara pasmou boquiaberta, as gordas mãos espalmadas no ventre:
— Não sei, gente. Quem disse?
— Uai! Pois quem faz agora os recados de senhor é Tibúrcio.
D. Clara perguntou ao marido, e Gandra deu de ombros, respondeu azedo:
— Sim, o negro anda apatetado, a falar só, não me aparece, sempre metido nos matos, muito relaxado. Deixá-lo! Parece até que deu em beber. São todos assim. Muito bons até certo tempo, de repente desandam e acabou. Se não endireitar, passo-o adiante. Depois, chega de aborrecimentos, não quero histórias aqui em casa: mexem com ele, Donária principalmente, e pode haver alguma coisa. Chega!
À noite toda a fazenda repetia as palavras de Manuel Gandra, e Vaca-Brava exultava com a resolução do senhor.
— Isso memo é qui sinhô devi di fazê. Negro é pra trabaiá i não pr’andá malucando pur aí, assombrando a genti di noite.
Deu-se, porém, uma reviravolta na fazenda: as velhas africanas tomaram o partido de Macambira, e uma noite, como a cabrocha entrasse na cozinha, dizendo que topara com o muxiba perto do engenho, falando só, Joana Benguela, uma giganta, de gênio arrebatado e força de homem, saiu-lhe à frente ameaçadora:
— Cala essa boca! Cê divia tê vergonha i não falá tanto. Cê acha dirêto u qui nhô Julinho fez? Cum’ocê é di tudu mundo pensa qu’us otro é cum’ocê. Aduladera! S’ocê tivesse vergonha na cara nem tocava ni nome di Macambira.
As velhas concordaram, e a cabrocha, surpreendida da rebentina, relanceava os olhos pela cozinha escura, alumiada ao centro por um fuliginoso lampião de azeite, com o fogão vermelhejando ao fundo como uma forja.
— Antonce faz má falá?
— Faz, sim! – rugiu a Benguela. – Cê é negra, dexa d’andá punindo pr’us branco... Não podi falá, cala a boca, faz cumu nós... S’ocê tivesse fia, ocê havia di sabê, mas barriga di burra é ansim memo: ronca só. – A cabrocha voltou-se de safanão, atirando o xale aos ombros, e saiu resmungando; e Joana, dirigindo-se lentamente para o fogão, a escorvar o cachimbo, concluiu: – Negra ruim! – e atitou com a língua no céu da boca.
— É ansim memo – concordaram as outras. – Cê é qui diz verdade.
E assim se foi fazendo, entre os malungos, uma forte corrente de simpatia por Macambira, e os que dantes riam e troçavam o companheiro entraram a lamentá-lo, com ódio aos brancos e às mulatas da “panelinha” deles.
O negro, porém, amazorrado, evitava os parceiros, retraía-se se encontrava algum no seu caminho. Magro, fulo, a grenha inculta, a roupa em desalinho e suja, pouco andava de dia, e os que o descobriam, a distância, logo o perdiam de vista porque ele afundava nos matos ou sumia-se nas grotas, arisco como quilombola.
Às vezes, à noite, aparecia luz na casa da colina, espalhava-se a notícia, saía gente a ver, negros ajuntavam-se no terreiro olhando, conjecturando:
— Macambira tá lá im cima.
— Não vá ele tá matutando a’guma cosa...
— Quá nada, coitado! É saudade. Vai oiá seu canto, lembra di Lúcia. Coração... uhm! cê sabi lá! esses memo qui não fala são us qui sente mais. Cê não vê cum’ele ficô? Dex’ele, coitado! Tá penando.
• • •
A mata era o asilo de Macambira. Retraindo-se, a princípio, desconfiando de todos, passava os dias errante, batendo estradas, picando veredas, sempre longe dos ranchos, refugindo à gente. Quando o sol queimava, metia-se à sombra, estirado, fumando para afugentar as mutucas, o olhar perdido, banzeiro. Comia qualquer coisa dissaboridamente, e, com o fresco da tarde, à hora melancólica das cigarras, recolhia-se a um tajupar, na roça de milho, ou punha-se a caminho, direito à Barra, onde chegava à noite.
No armazém do Narciso, ponto de conversa, mangalaça e jogo, era sempre certo o ajuntamento: bebia-se com algazarra, e eram sanfonas e violas no alpendre, sambas de pagode, gandaieiras ébrias aos reboleios entre os madraços, muito obscenas e sórdidas, filando cigarros, pedindo goles, e, lá dentro, o carimbo e o truco, aos berros.
O negro, para não ser visto, entrava pelos fundos, fazia compras descontando no seu pecúlio, e regressava carregado de víveres, chumbo e pólvora, o necessário para viver no mato. Ainda, por vezes, apresentou-se na fazenda, postando-se à porta do escritório, à espera de ordens, mas, diante do desprezo de Manuel Gandra e sabendo que Tibúrcio fora chamado para substituí-lo, nunca mais apareceu.
— Macambira ganhô mundo – diziam na roça.
— Quá nada. Tá í memo. Sinhô é qui não qué pegá ele, sabe qui tá maluco, i pra quê? Ind’otro dia topei co’ ele ali na baixinha.
— I antonce?
— Ê! tá memo qui só visto: guenzo, fuvero. Esse memo, coitado! esse memo não vai longe, cês vai vê. Mais hoje, mais amenhã urubu ta í rondando carniça. Cês vai vê. Si sinhô quisesse panhá ele era só fazê uma tucaia lá im cima ou botá gente, di noite, nu rancho di Barbina. Sinhô não qué.
E era verdade. Gandra, convencido de que o negro ensandecera, desistira de persegui-lo, e, se falavam nisso, dava de ombros, resignado com o prejuízo. E Macambira vivia como mocambeiro. Refugiado na mata, varejando profundamente os labirintos da solidão, conhecia-a de ponta a ponta, desde as samambaias da orla até a lagoa taciturna, coberta de taboas, em cujas margens apauladas saracuras e ererês cantavam e lentos jacarés, rastejando no lodo, de vez em vez empinavam-se, engalfinhando-se com um latido rouco.
Afeiçoando-se ao seu homizio vasto, amava enternecidamente as árvores, afagava-as, detinha-se a mirá-las parado diante dos troncos que subiam lisos, eretos, em colunas ou torcicolosos, escalavrados, derreando-se como ao peso das frondes bastas.
O sol entrava a custo, escasso, as migas de ouro palhetando o chão mole, alfombrado de versas úmidas. Em certos pontos de espessura, sob a ramagem densa e negra, a sombra era noturna e orvalhava a lentejos, sem descontinuar.
O negro atolava-se em aguaçais, esparrinhando os pés em lodo. Grossos cipós, retorcidos à maneira de cordoalhas, pendiam dos ramos cabeludos, outros cruzavam-se em redouças, outros coleavam em estiras pelo chão ou enrolados, vincando os troncos, apertavam-nos estrangulando-os. Sapopembas formavam parapeitos verdinhentos e eram clareiras alcatifadas de finas relvas e arbustos delicados de folhas rendilhadas, palmeirinhas fléxeis, fetos em para-sóis e refolhudos maciços de ervas subindo aos galhos das árvores e despejando-se de cima em colgaduras floridas.
Abafeiras luziam em pútrido rebalso, e um mundo de insetos pululava à flor da vaza, em torno dos caniçais, por entre os ramos encoscorados e penugentos, desde as moscas rebrilhando em cores maravilhosas e as libélulas céleres, de asas vítreas, até negros besouros luzidios, tudo voando em confuso girovagar, crepitando, esfuziando, a zumbir, a zoinar, a uivos súbitos passando rápidos em infletida de dardos.
Teias de aranhas tremeluziam entre ramas, e, pelo raso, aos corcoveios, eram sevandijas lânguidas, viscosas, expluindo da fermentação umente.
Por vezes, nas grimpas, soava, breve, um pio de ave, ou era uma chalrada hílare que irrompia e logo, marulhoso, o frulhar da abalada de um bando de periquitos; e profundo, soturno, a espaços, surdia, lento e lúgubre, um gemido de rola.
Em contraste com a tristeza que pairava um sagui saltava de um galho a outro, marinhava pelos cipós, ágil e trêfego, ou era então um serelepe arteiro, a cauda alçada que, num pincho, agarrando-se a um ramo, oscilava funambulesco, formava o pulo e, lépido, escalava o tronco, e logo começava uma saraivada de sementes.
Voos surdos ruflavam na altura, e pelo chão pastoso, através de fitas de sol, gordas formigas trilhavam carreando achegas, insetos pernilongos, de um verde tenro de novedio, caminhavam morosos, ou grandes borboletas, de um azul lustroso, saíam das ramas como flores aladas.
O negro, familiarizado com aquela vida fantasmagórica, olhava indiferente. Reminiscências súbitas detinham-no: concentrava-se. Súbito, episódios trágicos ou de ventura atravessavam-lhe a memória, e a solidão animava-se: era uma cena meiga, sob a acácia: Lúcia e ele, juntinhos; era uma manhã em que ele a deixara no alto do caminho rindo de um escorregão em que resvalara; era a figura antipática de Vaca-Brava ou então o crime, o rebolco dos corpos debaixo da árvore, a nudez de Lúcia, a luta, por fim os dois unidos, colando as bocas estremecidamente, de olhos cerrados, a respiração suspensa.
O peito arfava-lhe opresso, acendiam-se-lhe os olhos, estralavam-se os dentes.
Mas a selva tirava-o do sofrimento com o seu prestígio – um reclamo de ave, lá em cima, ou o rastolhar arisco de animal rasteiro.
Tinha na mata as suas preferências: uma nascente tão ensombrada de arvoredo que a água, sob os pendidos ramos, emaranhados de filandras, parecia negra. Nascia em grota toda encrespada de vegetação, entre pedras cobertas de limo espesso, e filtrava-se em fios caindo com cristalino e trebelhado som entre pedras, em torno das quais fervia em espuma até derivar correntia, saindo viva e alegre na clareira onde rebrilhava límpida sobre um fundo raso de areias claras.
Outra preferência: certa árvore grossa, retorsa, com o tronco avergoado à maneira de um feixe de sarmentos, como um corpo escorchado a que se vissem, em ressalto, e nus, os músculos e os nervos. Fios dourados desgrenhavam-se-lhe da ramaria versuda.
Era debaixo da árvore ou à beira da nascente que o negro gostava de ficar esquecidas horas, raspando a terra, esmagando folhas ou fazendo com a mão comporta à correnteza fria.
Isolado, vivia como em domínio próprio; ali só ele, senhor na solidão. Tendo sempre vivas na mente as descrições que lhe fizera Balbina do reino selvagem de Munza, se ouvia estralejar um galho logo se punha em guarda, adaga em punho, o olhar agudo e atento ao bote de fera imaginária ou à traição de alguém. Relanceava a vista em torno, perscrutando, batia os matos, sacudia os ramos, agachava-se para espiar pelos interstícios dos galhos, por entre os troncos, acuando em desafio. Eôô! Rolavam ecos cavernosos e o silêncio restabelecia-se cortado apenas, de quando em quando, por um sussurro farfalhante que era como o resfôlego da floresta, e de longe, marulhante, quérula, surdinava a bulha perene d’água.
Então caminhava decidido, afoito, como para afrontar-se com o inimigo, num desejo de lutar, de ferir, de ver sangue. Tudo era cerrado, denso, num intrincamento impenetrável. Para avançar ia talhando a facão as enrediças, abatendo ramagens, detorando cipós, e o mato, úmido e frio, chegava-lhe ao peito, ramos fustigavam-no, raízes, liames embaraçavam-lhe os pés. Sentia insetos ásperos andarem-lhe no pescoço, sacudia-os sem repugnância ou tomava-os entre os dedos devolvendo-os ao mato para que vivessem. E não encontrava sombra hostil.
Quando sentia fome, fazia um foguinho, assava um pedaço de carne-seca, amassava um pirão d’água e comia à beira da nascente ou junto da árvore e ficava em torpor de preguiça, fumando airado; às vezes cochilava com o facão nas pernas, pronto para investir.
À tarde era um rumor confuso no recesso frondoso: aves que se aninhavam, correrias no folhedo, fugas precípites pelos galhos, guinchos, silvos, chalreios, trissos, e o uru, com o seu canto funéreo, anunciando a noite.
Um tom cerúleo abrumava a selva resfriada, o solo esponjava, como encharcado, e o aroma silvestre espalhava-se em hálito balsâmico. O ar fino tornava-se mais sensível ao som – ouviam-se o cair lento, esfrolado das folhas, o murmúrio d’água, o papeio dos ninhos adormidos.
Corridinhas sutis rastoalhavam nas folhas. Súbito, estrondando nas copas, uma palma de coqueiro rolava do alto.
Escurecia aos poucos tristemente; aqui, ali um gasnir de perereca, um grasnar de rã, grulhos de cururu, e começavam a aparecer centelhas, a mata enxameava-se de vaga-lumes. Fantástico fogueio punha efervescências no âmbito obscuro: eram pelo chão, nos troncos, nos ramos, aereamente, luzes efêmeras, indo e vindo, girogirando, lívidas; lagartas acesas golpeando a treva, insinuando-se na folharia, e mariposas pesadas passando em voo lento, fugindo à sombra, na atração magnética do luar.
O negro estirava-se sem sono, a escutar os ruídos vagos, e sonhava, de olhos abertos, o seu sonho augusto, o seu sonho de rei.
A floresta adormecia. No silêncio misterioso as águas circulavam ligeiras, com um som leve, e a brisa, lá em cima, nas copas, fazia um sussurro brando de respiração.
A terra esfervia baixinho em pruir de porejo, e um cheiro forte, seminal, de seiva exalava-se dos vegetais. Crebro, aos estalidos, pingava o estilicídio das folhas róridas; pipilos denunciavam o sonho dos ninhos, e, alumiando a treva ferrugínea, em ronda, os pirilampos multiplicavam-se.
Abriam-se clarões pálidos, escorriam lumieiras como um leite translúcido das árvores e a mata transfigurava-se, povoava-se encantada, acordando para uma vida fantástica: eram vultos afilados, de alvas e longas túnicas, movendo-se em meneios espectrais, por vezes, em alor sereno, como se subissem em ascensão de fumo: eram profundezas merencórias de capelas, com um vasto altar de mármore, nichos, imagens; eram grutas denticuladas de estalactites; eram ruínas colossais, edifícios inacabados de arquitetura estranha e, por ali dentro, através das árvores desfiguradas, construções de um fastígio maravilhoso, estruturas bizarras, formas caprichosas de um mundo de encantamento e, como se a gente sutil que por ali andava surdamente, calada, fosse deixando pegadas pelo chão, palmilhas claras iam aparecendo e brilhavam sobre as folhas mortas.
Ramos reluziam prateados, troncos envolviam-se em faixas argênteas e a claridade brincava luzindo, desaparecendo iterativa, em fantasmagoria deslumbrante.
Era o luar que penetrava o interior da espessura coando-se pelos raros, descendo em cheio pelas abertas, aqui em fita, além alagando a jorros, ou amiudado em nimbos e em estrias que amedalhavam, reticulavam o ândito tenebroso.
Frêmitos voluptuosos agitavam o arvoredo, e o negro, como hipnotizado, ficava a olhar as aparições e, por elas, entrava no delírio da grandeza extinta, na majestade perdida, tomando as visualidades pela representação da própria vida, a selva pelo reino, os aspectos de sombra e luz pelos edifícios da sua corte e os ruídos pelo burburinho do seu povo.
Então lembrava-se de Balbina, desejando-a ali para que lhe fosse explicando tudo, mostrando: o palácio real entre palmeiras, as cubatas dos guerreiros numa caiçara de lanças, o templo dos deuses com as velhas sacrificadoras, e lhe dissesse o nome dos heróis evocando-os da sombra, fazendo-os vir até ele, com as peles dos mantos de rasto, as armas agudas rebrilhando.
E pensava em Lúcia, trazia-a da morte, linda como no tempo do noivado, com o corpo fino, flexível, o boleio gracioso nos quadris, o sorriso meigo, a doçura dos olhos tristes, a tremer de pudor nos seus braços. E aspirava-lhe o aroma sensual do colo, sentia-lhe o hálito suave, afagava-a, ouvia-lhe a voz, baixinho, de improviso, porém, eram os dois que lhe apareciam em espasmo infame, ela e Julinho.
Punha-se de pé, violento, ofegando, com um gosto de sangue na boca, os punhos cerrados, num frenesi de furor. E logo se lhe afigurava o “filho branco”: via-o morto, tal qual o achara no rancho, deitado numa esteira de luz de onde se levantava devagarinho, pairando, remontando até desaparecer.
Arrancava o facão da bainha e atirava golpes a esmo combatendo essas e outras alucinações e descia da mata apressado, ora por veredas escuras, esbarrando em toros, barafustando em ervagens, ora em plena claridade, com o céu à vista, a resmungar ameaças.
De todos os vãos vozes sutis diziam, com sarcasmo, o seu nome e o de Lúcia, chamavam-no chasqueando, riam às cascalhadas.
Macambira parava atento, agressivo, à escuta: as vozes calavam-se, mas, ao longe, no trebelho d’água corrente, outra vez a ironia, outra vez a assuada, depois, comunicando-se, era de toda a parte e de tudo, daqui, de alhures, “psius, risos, Macambira! Julinho...” a troça irrisória e, diante dele, as luzes dos pirilampos faiscavam como se lhe fossem alumiando o caminho, levando-o para a vingança.
Era em noites dessas que aparecia luz na casa da colina.
— Ê! curumba anda agora trambecando qui nem cobra qui perdeu veneno – dizia Vaca-Brava falando de Balbina.
A velha, com o sumiço de Macambira, tornou-se de uma irritabilidade frenética. Desconfiada de todos, mais retraída que nunca, vivia aos resmungos, em solilóquio arvoado. Se, ao passar por alguém, surpreendia um sorriso, um olhar, estacava assanhada explodindo em injúrias. Mal avistava um moleque, apanhava pedras, ameaçando-o. Parecia bêbeda no andar airado, aos cambaleios, parando estatelada, agachando-se a bater na terra aos murros desesperados.
No chiqueiro espancava os porcos, desalagava do lodo os cevados dorminhocos atirando-lhes pontapés odientos, e, errando pelos caminhos, trombuda, trapejando os molambos enlameados, com um pau na mão e pedras no papo da camisa sórdida, gesticulava, falava às árvores, aos matos ou, postando-se à beira d’água, conversava com a própria sombra, lançando perguntas e respondendo-as, em diálogo singular:
— Antonce cê fugiu memo? Cê fugiu...? Uai! i havia di ficá? Cumu não? I cê tá ni mato, não é? Amenhã sinhô vem aí di calundu i véia é qui paga. É ansim memo. I ocê mode quê não vem? caminho não tá í? Mode quê não vem... mode quê não vem... Quedê perna? cê não tá vendo? – e arregaçava a saia esfrangalhada expondo os cambitos, que reluziam como envernizados. – É co’esses qu’eu vá fugí?
Anuns piavam perto, bambaleando-se em arbustos; lambaris deslizavam n’água. Tinha, então furores: – Qui é? cês tamém qué pagode, sôs porquera? Pera í qu’o já insino ocês. – Ia de pedras sobre as aves, que abalavam em voo raso, aos pios agourentos, apedrejava a água afugentando os peixinhos, e rabeando assustados negros cardumes de girinos desapareciam na madrigueiras ou sob as raízes ribeirinhas.
À noite, no rancho, acocorada diante do lume, interrogava, de olhos fitos na fumaça ardida que subia dos gravetos: “Má ondi é qui tá Macambira!? Ondi! Antonce é ansim?” E enfezada, sacudindo, de repelão, os trapos, com a boca atupida de fumo, resmungava abafas contra o negro que se fora sem preveni-la, abandonando-a, como aos outros. “Quá! Esse é ansim memo. É ansim memo...” Se se encostava no jirau, era para cogitações.
A noite passava vagarosa, e ela ruminava, ora de recovo, ora sentada, cabeceando, sempre com o pensamento no negro, cria do seu amor, seu príncipe. E sofria, irritada, uma saudade pungente e resmungava, arrepelava-se, maldizia-se com as lágrimas correndo em fio pelo rosto escaveirado.
Às vezes, no correr da noite, saía para o terreiro, ficava a olhar os vultos das árvores, os lençóis do luar no campo, as estrelas lá em cima. Sob o bafejo da brisa tépida embalsamada do aroma das açucenas, e contemplando a sombra alta e profunda da serrania, ao longe, dizia tristemente:
— Cê foi. Cê tá í. Mió! Véia é qui vai pagá. – Abria o casaco, arregaçava as mangas e, apalpando-se, apertando, sob a pele encoscorada, as arcas do peito, os braços mirrados, os maxilares, dizia: – É osso só, carne, quedê? – e resignada: – Mió memo: cabá duma vez. Qu’é qui fica fazendo aqui? Mió memo. – Os morcegos esvoaçavam aos trissos: – Cês tá rondando? Qué eu? Uai! Leva! Qu’é qui tá esperando? Leva! – E apelava para a morte, esperava-a, ouvia-lhe o andar sutil nas folhas róridas, via-lhe a sombra esguia e tiritava como de frio. – É mió memo. – A água gorgolejava perene, e, esfriando, apesar de janeiro, as estrelas como que adormeciam e uma quietude grande pairava em sono sobre a terra escura.
As bananeiras preguiçavam com um lento marulho, grilos cantavam estrídulos, às vezes, trágico, um ríspido rascar raspava a altura e um som contínuo, fino, como de tímpanos abafados, subia no silêncio.
A negra deixava-se ficar ao relento, sentada numa pedra, mascando, e cochilava.
Longe um galo desferia o canto da madrugada, outros amiudavam; o cheiro balsâmico das silvas tornava-se mais forte.
O nascente listrava-se das primeiras barras; clareava baço, e as névoas, como se acordassem, levantavam-se preguiçosas, estremunhando, indecisas, em finos retalhos que afumavam as moitas, em cúmulos que enchiam os convales, como pedaços de céu caídos.
Cruzavam-se voos, trilos, arrulhos, pios de reclamo soavam ali por fora. Douravam-se os redentes, acendiam-se os visos e a paisagem ressaía da sombra fresca e álacre, repousada, vívida, luzindo de orvalho.
Mugiam gados, folhas começavam a cintilar. Eram inúmeras e alegres as vozes dos galos por aqueles matos. Aqui, ali, acima das copas, um fumo ralo subia. A espaços, lento, o sino soava despertando a fazenda. O céu ia ficando azul.
Então a negra levantava-se alquebrada, gemendo, arrastava os passos para o rancho, bamba, com as pernas doridas, ainda voltava-se contemplando enlevadamente o céu:
— Hum! Dia tá í. – Persignava-se: – Lovado seja Noss’Sinhô Suns Cristo...! – E, olhando a serrania, resplandecente de ouro e prata, sol e névoas, pensava nos que viviam naquelas brenhas, livres entre escarpas e matos ínvios: Tito, Barnabé, Melquior e tantos mais... E quedava, encarada no remonte, como querendo descobrir o vulto agigantado de Macambira no mais alto da serra, na glória fúlgura do sol, como um rei no seu trono, entre escudos e lanças.
• • •
De manhãzinha, com uma trouxa à cabeça, Joana subia vagarosamente a ladeira, caminho do lavadouro, quando avistou Balbina curvada junto de um cupim, arrancando ervas.
— Ê! tia... – A velha ergueu-se hostil, mas reconhecendo a Benguela serenou, sacudindo as mãos terrosas, e adiantou-se a passo. – Qu’é qu’ocê tá bongando aí?
— Tanchage... – Olharam-se um momento, e Joana interrogou-a sobre Macambira. A velha deu de ombros; a outra sorriu incrédula. “Cê não sabe?” Balbina acenou de cabeça negando. “Ah! dexa di parte cumigo. Tão cê não sabe di Macambira? Cê memo qui tá í? Cê...! Cê não tá co’ ele lá im cima?
— Lá im cima, donde?
— Lá! – e Joana mostrou a colina.
A velha exclamou surpresa:
— Lá?
— Antonce? Home, a modi qu’ocê discunfia di mim. Oia qu’o não sou Donária.
— Não é discunfiá, ma ocê tá falando aí cosa di brinquedo.
— Brinquedo?... Antonce cê não sabe qui Macambira parece lá im cima di noite? Cê não vê luz?
A velha pasmava para a malunga:
— Cê tá falando sér’o?
— Antonce...?
— Pur essa luz qui tá lumiando... dês qui Macambira foi s’imbora nunca mais. I cê vê luz?
— Uai! Tudu vê.
— I sinhô?
— Sinhô diz qu’ele tá gira. Pra quê?
A velha sacudiu a cabeça doída da ingratidão de Gandra.
— Não sabi dele, não, Juana. Jur’ocê. Vivi lá mitida nu meu canto... – E ficou pensando, de olhos no chão. – I qu’é qu’ele vem fazê?
— Uai! Oiá casa. Cê assunta, vigia di noite qu’ocê vê. Luz vem, luz vai, some. Mode qu’ele corre tudu, oiando. Bom. Té logo, si Deus quisé. – E foi-se.
Balbina ficou atordoada, esquecida do que fazia. Desceu a passo; a meio caminho, porém, lembrando-se, tornou ao cupim, ajuntou a tanchagem em molho e, metendo-se pelos matos, enveredou guiando para a covanca. Parava pensativa, conjecturando: “Mode quê? Sinhô péga i dipoi...?” Quando chegou ao rancho, desabafou: “Esse memo! Tá gira... Gira mode quê? Esse memo. Nego é qui nem cana; mói, mói i bota bagaço fora. Esse memo. Otro já tá í. Vai vê tempo quenti.”
Aludia a Julinho, que chegara da Corte e já andava a rastrear as rapariguinhas, numa ostentação de costumes claros e gravatas esvoaçantes.
Aprovado nos exames, entrara na fazenda como um triunfador.
Quase médico, narrava os labores da vida estudiosa: autópsias no anfiteatro, vigílias nas enfermarias, operações difíceis que praticara com elogios dos mestres e admiração dos colegas e, à mesa, entre o baboso desvanecimento dos pais e a curiosidade basbaque das mucamas que serviam, descrevia os horrores do hospital: mortes agoniadas, epidemias pútridas, amputações, partos e monstruosidades que apareciam: uma Cafarnaum de misérias e aberrações, e ele, abnegado por amor da ciência, verdadeira religião, entre sangue e pus, curando e consolando como o próprio Cristo. E, cortando o bife, fazia-o a capricho, com a perícia atenta com que um operador requintasse num complicado caso de alta cirurgia.
Gandra impava de orgulho, D. Clara escutava-o embevecida, de olhos lânguidos e úmidos, arfando comovida, a imaginar o “pobrezinho” naquele horror, com risco de apanhar uma moléstia daquelas. E os carinhos redobravam solícitos compensando-o do ano de árdua fadiga.
— Bom, agora descansa – dizia Manuel Gandra. – Trata de comer, de passear. – Achavam-no pálido, abatido e enchiam-lhe os bolsos, empurravam-no para a calaçaria. O cavalo, de arreios novos, passeava-o pela redondeza: ia às fazendas onde havia moças, à Barra, então em festivo alvoroço com uma companhia de cavalinhos e por aquelas bibocas da roça. E onde quer que aparecesse era uma alegria barulhenta: “Está aí o Dr. Julinho!”, e eram correrias de moças, barafunda de mucamas.
Negros paravam na estrada para vê-lo passar, pediam-lhe remédios queixando-se de achaques, outros mostravam-lhe úlceras ou pernas monstruosas em refolhos de elefantíase. E ele lá ia, pimpão, fariscando mulatas, à caça de colos púberes, num desejo árdego de mulher. A negralhada comentava à surdina: “Agora memo é qu’isso vai pegá fogo. Bicho tá í, zarro!” E riam.
Balbina, alheia aos escândalos da fazenda, sempre solitária no seu antro, só começou a preocupar-se com o senhor moço depois que ouviu Joana: “Cê tá muito ancho! Vai inchendo barriga, vai! Mato tá í, dono di mato tá ispiand’ocê. Vai inchendo barriga, vai!” Mal anoitecia, deixava o rancho, girovagando inquieta, aflita, de olhos na colina, à espreita. Era aqui, era ali nos matos rasteiros ou trepada numa pedra, a olhar a fito enfezando-se com tudo: com o crepitar dos ramos, com o estrídulo dos grilos, com o coaxo dos sapos, com o murmúrio d’água. Duvidava de Joana: “Esse memo... Vai vê qu’é mintira. Onde tá luz? Onde?”
Amanhecia ao tempo, tiritando, com os úmidos farrapos apegados ao corpo, e, quando o sol luzia, fazendo brilhar a mata florida, às manchas roxas e amarelas das quaresmas e dos ipês, e a campina cintilante de orvalho picada de boninas de ouro, a negra recolhia-se desanimada, tomava um gole de café, metia o fumo na boca e, saindo para o chiqueiro, a cuidar dos porcos, resmungava contra a Benguela: “Dex’ocê... Ocê tomô pagode cumigo? Cê há d’achá, buzumuca. Cê há d’achá.”
Às vezes vaga-lumes iludiam-na. Punha-se alerta, de olhos esgazeados, trêmula: “Mode qu’é luz...” Mas desenganava-se. Uma noite, tarde – a lua brilhava no meio do céu, límpida –, a negra, que estava de ronda, estremeceu vendo luz na casa da colina: toda uma janela iluminada, como dantes.
— Ê! ê! – exclamou. – Esse é memo. – E riu esganiçadamente em alvoroçada alegria. – Esse é memo. – Convencida, atirou-se pelos matos, às tontas, sem sentir as aspas dos gravetos que se lhe agarravam aos molambos, arranhando-a. Corria a trechos, de arremetida. Atravessou a pinguela, ganhou a ladeira.
A trilha estava encoivarada: mato, ramos enredados em tapigo. Foi subindo esbaforida, afundando em caldeirões, escorregando em lisuras úmidas. Agarrava-se a ramos, a troncos, cravava as unhas na terra, e, quando chegou acima, sôfrega, tudo era maninho.
A terra, abandonada, explodira em vassoural bravio. A casa estava sitiada de ervagem, e a cerca do pomar era uma sebe folhuda: o aboboral, alastrando livre, espalhara rama sobre tudo, acima da macega, pelos troncos das árvores até a copa, numa exuberância assoladora. “Ê! ê! Mato tá cumendu tudu.”
Pela janela aberta, despejando luz na braveza triste, via-se a sala, outrora alegre. A negra estacou indecisa. Havia gente, mas seria mesmo Macambira? Quis chamar. Hesitou. Foi avançando no ervaçal sorrateira e atenta, contendo o hálito. Uma sombra apareceu na parede interior da casa, e, logo em seguida, o vulto do negro. A velha levantou-se de golpe, a tremer; um grito escapou-
— se-lhe do peito: – Fio! – Escureceu súbito. – Macambira! Fio! Oia eu! – e rompia o mato.
— Véia! – bradou o negro.
— É eu, fio?
— É ocê?
— É eu! – E Macambira surgiu à janela. – É eu! Oia! – E estendia-
— lhe duramente os braços. – Ocê, Macambira... Cê? – E chorava, nervosa, forcejando no peitoril para galgar a janela na ânsia daquele desejado encontro. Mas a porta abriu-se rangendo, raspando emperradamente o soalho terroso, e a velha precipitou-se atirando-se de joelhos e abraçando-se às pernas do negro. – É ocê memo, fio! É memo! É memo!... – e beijava-lhe os joelhos, afagando-o carinhosamente. – É memo! É memo! Cende luz! Dexa vê ocê. Cende! – E volubilizava num falario tartareado, rindo por entre arranques de soluços.
O negro riscou um fósforo, acendeu o lampião, e a velha, pondo-
— se-lhe à frente, estarreceu comovida, mirando-o, de olhos apertados, mãos postas: – Ah! Fio... cê...! – E o pranto despejava-se-lhe pelo rosto, a jorros.
Magro, com os ossos à flor da pele fula, a grenha alta, revolta, híspida como piaçava, a barba arrepiada e dura, olhos no fundo, em brasas, Macambira parecia mais alto e envelhecido.
Um capote de baeta descia-lhe enrugado dos ombros, e, abrindo-se-lhe as abas, aparecia o cinto de couro com uma garrucha atravessada ao meio e adaga ao flanco.
— Cê cumu sobe? – perguntou Macambira.
— Quê?
— Qu’eu tava aqui?
— Foi Juana qui disse. Tudu mundo sabi qu’ocê vem, sinhô, tudu sabi. Cê acendi luz, zêri vê.
— Sinhô sabi?
— Cumu não? – O negro sorriu tristemente, medindo a sala a lentas passadas.
— I ond’é qu’ocê vivi, fio? Ond’é?
Macambira deu de ombros.
— Cê não come – disse com piedosa ternura. – Magrém ansim é di não cumê. Cê tá duente, Macambira, cê tá s’acabando mod’us otro, pra quê? Oia, cê tá ansim, nhô Julinho... nem cumu cosa.
— Tá í!? – exclamou o negro pondo-se, de um salto, diante da velha.
— Chegô faz dia. Tá í. Cê não magina: mema cosa di sempre: rapariguinha anda qui nem caça qui senti cachorro.
O negro arquejava de olhos fuzilantes.
— Cê viu ele?
— Uai! Tá lá memo... Di dia anda pur aí sapecando criança, pegando muié. Diz qui tá rondando fia di Coroné Moreira, du Areá. Otros diz qui anda cuma moça dos cavalinho, vai di noite pra Barra.
— Sozinho? – perguntou o negro.
— Antonce! Munta cavalo di tardinha i vais’imbora.
— Ê! – rosnou Macabira com um sorriso sinistro, apertando nervosamente os punhos, rilhando estalejadamente os dentes. Retesou os braços, a tremer de ira, e, avançando, como de assalto, curvou-se diante de Balbina, falando-lhe em rosto, de olhos fitos:
— Cê qué fazê uma cosa? Qué? Vida cabô pra mim. Cê tá vendo magrém? Tá vendo? – E com uma voz surda, que a cólera fatigava:
— Cê qué vê? Oia! – abriu, de ímpeto, o capote, esbagachou a camisa, mostrando o peito largo, ripado pelas costelas. – Tá ansim. Vida pra quê? – Fez uma pausa triste. Súbito, agarrando-a por um braço: – Cê qué fazê uma cosa? Qué? – Baixou a voz, em segredo: – Oia, eu fico aqui di noite, cê, lá imbaxo, bota tenção ni nhô Julinho, vê ele. Quando ele fô na Barra, mode muié, tá uvindu?, cê acende fogo im cima da pedra, perto di bananera, mod’eu vê.
— Pra quê, fio?
— Cê qué u não? Diz! Fala! – A velha, hesitante, coçava arrepeladamente a cabeça. – Cê acende fogo...
— I ocê?
— Dexa eu. Qué? – Irritou-se frenético: – Ê! Cê tá mole...! – Deu uma volta pela sala torcendo a barba dura.
— Bamo. Fala. Diz qu’é qu’ocê qué.
— Cê acende fogo na pedra.
— Cê qué pegá nhô Julinho...?
O negro atitou com a língua, e ríspido:
— Cê qué u não?
— Qué. Fala. Mas oia lá! Cê vê bem, Macambira; lembra di Marcelino...
— Dexa! Vida, pra quê? Cê não tá vendo mata? Quem vai lá? Tito não tá siguro? Quem vai lá? – E explodiu arremessando inteiriçadamente os braços num impulso de força vingativa, com um ricto que o desfigurava: – Ê! véia... – Caminhou rugindo; sentou-
— se cabisbaixo, pensando. De repente, pondo-se de pé, enérgico, falou pausado: – Oia, véia, cabeça and’ansim – e descrevia círculos no ar com o indicador. – Sangui tá fervendo, sangui di Munza.
— Os olhos da velha relumbraram, passou-lhe um arrepio pelo corpo. – Não tá dirêto, não. Di noite vê genti, iscuta falá, mata fic’ansim – e apinhou os dedos. – Não tá dirêto, não. Sangui tá fervendo. – E os dois, compreendendo-se, encararam-se mudos, em conivência sinistra. E a velha aconselhou em voz prudente:
— Paga essa luz, Macambira. Paga! Genti tá lá imbaxo, oiando. N’abusa, não; paga. – Ela própria soprou o lampião. O luar rastreou a sala escura e os dois caminharam. A velha saiu. Macambira fechou a porta e, saltando a janela, puxou-a a si.
A noite resplandecia. Estiveram, um instante, parados no meio da macega. Macambira adiantou-se até a acácia, sentou-se no banco. A árvore vergava ao peso dos corimbos de ouro, como no tempo do noivado. E era tudo que restava da felicidade antiga, o mais era miséria e devastação.
A própria casa fendia-se, brechas zebravam os muros, a erva crescia em tufos no telhado, ramos trepavam pelas paredes, os cortiços, desmantelados, pensos, ermavam sob o telheiro.
No pomar acendiam-se lumes prófugos. Por entre as árvores, lá embaixo, viam-se muros alvos, terreiros claros, como de mármore, e a campina enfarinhada de luar. Os dois contemplavam a solidão em silêncio.
— Antonce... – disse, por fim, Macambira, levantando-se e estendendo a mão à velha.
— Cê já vai?
— É hora.
— Adeu! I oia lá cum’ocê faz...?
— Dexa! Não tem medo. Oia, véia – anunciou, em tom misterioso, apontando o céu límpido e estrelado: – Zêri tá lá im cima oiando. Cê memo não fala? Zêri tá lá im cima. – A velha acenou de cabeça e quedou em êxtase religioso, relanceando um olhar medroso à lua e às estrelas brilhantes.
— Tá bom, fio! Vai! Adeu! Noss’Sinhô cumpanh’ocê. – Apertaram-se demoradamente as mãos. Balbina foi-se pelo vassoural intonso, ganhou a vereda matejada. Agarrando-se a um tronco vagarosa, cuidadosa, resvalou ao primeiro socalco. Firmada, então, voltou-se olhando enternecida: Macambira lá estava, alto, a prumo, no meio do matagal.
— Adeu, fio.
— Adeu?
— Vai cum Noss’Sinhora.
— Oia lá! Não isquece?
— Adeu! – E perderam-se de vista.
• • •
De volta à mata, logo a penetrá-la, no obscuro das folhas densas, começou para Macambira um lento, aflitivo suplício. Apesar de cansado, bocejando em quebreira, não conseguiu pregar olho, azoado por acusma bárbara, ouvindo gritos que atroavam a profundeza, estrondos de esbarrondamentos. Olhava em torno, adiantando-se tripetrepe para examinar de perto albores estranhos; punha-se à escuta distinguindo palavras, vozes várias em conversa. Achou-se entre os juncais, à beira da lagoa, sem consciência de haver caminhado tanto.
Trabalhado pela ideia fixa esperava, com ânsia, a madrugada, e mal clareou, com o barulho da vida, pôs-se a imaginar a vingança, com requintes de ferocidade que ensaiava talhando troncos a golpes vivos de adaga, detorando ramos, escorchando caules, esfuracando estipes de coqueiros.
Errava à toa abrindo veredas nas silvas, roçando mato, distraindo-se em esforço inútil para não sentir o tempo vagaroso. E era na espessura um contínuo farfalho de galharias decepadas.
Encarniçava-se em furores, arremetendo com a adaga a mãos ambas, saltando, agachando-se, aos urros, em arremedo de luta, injuriando os vegetais aos palavrões, lembrando-lhes o crime infame, e a folhagem caía, acumulava-se, exalando um cheiro acre de resina e seiva.
Saía de tais cenas exausto, alagado em suor, e contemplava, orgulhoso, a destruição tripudiando sobre a ramaria em monte. Limpava ao capote a larga lâmina da adaga, experimentava-lhe o fio na palma da mão e, contente, satisfeito, saciado de excídio, prosseguia embrenhando-se. Adiante, porém, reacendia-se-lhe a ira: parava carrancudo, pé atrás, brandia o ferro e investia aos golpes que estrondavam no silêncio sombrio.
Volta e meia lançava olhares por entre os escassilhos das frondes a ver a altura do sol e arrepelava-se frenético, revoltado contra a morosidade do astro.
Sentia o vagar em tudo: a brisa arfava lânguida, mal balançando as folhas, as águas, sempre ligeiras, desciam preguiçosas, remansando-se em rebalsos; os próprios animais como que se ressentiam da marcha das horas tardas. Acompanhava-os no voo lerdo, no andar negligente: falava-lhes irritado: “Cês a mode qui tá drumindo...” E o sol a coar-se vivido pelos raros das franças.
Deitou-se recostado a um tronco, estirou as pernas, fechou os olhos provocando o sono.
Uma cigarra chiou. Era a tarde. Pôs-se de pé, rápido, reuniu, à pressa, os apetrechos: uma corda de linho, que enrolou à cinta, a adaga, a garrucha, e atirou-se a caminho, com alegria selvagem.
Saiu numa clareira. Lá estava, em cima o céu azul, ainda radioso e quente, as copas das árvores luzindo em pleno sol e, no esplendor, o voo numeroso e alegre de aves e de borboletas. “Mode qu’esse dia não caba mais!...”
Enfezado, encantoou-se encolhido, tirou da bolsa um pedaço de carne-seca e, crua, desfibrando-a, pôs-se a comer distraído, atirando, de vez em vez, à boca punhados de farinha.
Mal, porém, começou a empalidecer a tarde, a ânsia tornou-se-
— lhe em delírio: pôs-se a andar inquieto, resmungando, exercitava os braços vergando ramos, atirando golpes, arrancando arbustos com as raízes. E sorria, contente de si, dos músculos que lhe retesavam ampolados, rijos como de ferro: “Cê vai vê logo mais...!”
Por voltas desviadas seguiu, aberrando-se, a prolongar o caminho para chegar com a noite à orla da floresta.
De olhos afeitos à treva, caminhava no labirinto com a segurança fácil de animal notívago. Descia rampas, subia alcandores, ladeava marnotas, seguro, firme no piso, indiferente ao rumorejo noturno vago, sutil no ambiente misterioso.
Quando sentiu perto a saída, o coração bateu-lhe sôfrego, ressecou-se-lhe asperamente a boca, e os cabelos eriçavam-se-lhe com uma sensação evulsiva, como se lhos fossem arrancando do couro.
Passou as últimas árvores, chegando ao mato ralo na vertente do monte, onde começava a lavoura.
Foram-se-lhe os olhos na direção da covanca. Escuro. Cerrou os punhos de ódio e ficou olhando, a ranger os dentes. Lá estava a casa-grande iluminada, lá estava o quadrado com a lanterna no poste, e, por ali fora, entre o mato denso, luzinhas piscavam.
Sentou-se. Era cedo, talvez. Falavam, lá embaixo. Cães latiam. Pancadas regulares caíam túmidas no silêncio. Por vezes era um grito como de vaqueiro aboiando.
À claridade amarela da varanda distinguia vultos. “Ê!” Os olhos fitos enchiam-se-lhe de visões: umas que passavam perto, fluindo serenamente no ar, em alor de brumas; cavaleiros ao longe, formas translúcidas, esguias, colubreando na sombra, lumes.
E Balbina? Estaria doente? Teria o senhor sabido de seu encontro com ele na colina? Lembrou-se de Vaca-Brava e estremeceu de cólera: “Ah! negra...!” Procurou, com o olhar, a casa do tronco, perto do moinho. Podia ser. Mas não: estava escura. Que haveria? Teve ímpetos de gritar, de descer à covanca.
Levantou-se, pôs-se a andar desesperado. Entrou no mato, acendeu o cigarro e ficou lá dentro, pensando. De novo saiu à orilha, desceu por entre o cafezal, à espreita. Nada! E ali passou a noite em vigília, com sede sicária, uma vontade frenética de retalhar carne, espostejar, deventrar, revolver entranhas moles, atolando-
— se em sangueira, ouvindo o rouquejo gargarejado do estertor e respondendo, a rir, com afrontas e golpes fundos.
Amanhecia. Os campos alongavam-se, verdes, com estriados brilhos d’água na claridade brumosa. A serra recortava-se muito azul estampada no céu onde estendiam-se, em laivos fulvos, os primeiros estratos de ouro e púrpura. O sino tiniu lento.
Macambira ainda relanceou o olhar em volta como à procura de alguma coisa e quedou abstraído, encarado no além. Por fim, abarroado, estremecendo em frêmito de raiva, atirou um murro ao espaço e remergulhou na mata.
• • •
No ar cerúleo da tarde, sob o voo errático dos morcegos, aqui, ali, esgarçando-se das moitas, fluíam fumos diáfanos fundindo-se no espaço enevoado. Já o céu tinha estrelas, lumes piscavam entre as árvores e, junto à sebe, na orla escura das casuarinas, branqueava um trecho de muro, solitário, funéreo como um túmulo.
Longo estendal níveo marcava com açucenas os meandros do córrego, o aroma enchia o ar e, perene, tristonha, começava em ressoo a surdina noturna.
Embaixo, na pedra da covanca, perto do bananal, crescia um fogacho, resplandecendo em chamas, que abriam em volta largo clarão dourado.
A instantes um vulto esgueirava-se sorrateiro, lançava ao fogo ramos secos, folhas. A claridade apagava-se afogada em grossa e negra fumarada, que rolava, alastrava aos bulcões, subia, ondulando em nuvem. Súbito explodiam labaredas altas, com salpicos de faíscas, relumbrando, cada vez mais vivas, à medida que a noite escurecia.
Lá em cima, à beira da mata, espiando entre as ramas, dois olhos cervais luziam fitos na fogueira de pedra.
Súbito Macambira surgiu no roçado, desceu ligeiro até as primeiras árvores do cafezal, onde estacou, olhando, a certificar-se se era mesmo na pedra da covanca que ardia a fogueira. Era lá?
No clarão trêmulo das chamas o rancho vermelhejava, oscilando como abalado; as folhas largas das bananeiras fulguravam, e na poça, sob a calha, a água incendiava-se radiosa aos reflexos do relume.
O negro sorriu e, sem desviar a vista da mira resplandecente, correu a mão pela cintura onde trazia enrolada a corda de linho, apalpou a adaga, tateou a garrucha.
Os nervos vibravam-lhe a choques súbitos, o sangue fervia-lhe a estos, esturricava-se-lhe a boca em febre, a pele arrepiava-se-lhe em crispações irritadas. Por vezes como que lhe faltavam as pernas, amolecia frouxo.
A “casa-grande” iluminou-se, luziu solitário o lampião do quadrado.
— Bom! – disse o negro; – cê agora vai vê. – E lentamente, curvado, com o dorso a doer-lhe como ao peso de um fardo insuportável, regressou à mata.
Já havia escolhido o ponto para a tocaia: lá embaixo, na porteira do sino, raleiro de aspereza agreste, lúrido, escavacado, pedrento, apertado entre rochas e barrancas a pique. Tinham-no por mal-assombrado: que, em noites de sexta-feira, às tantas, um sino dobrava às badaladas lúgubres e almas surdiam voejando ou correndo, sem ruído, pela terra seca e nua, atrás de gados esqueléticos que galopavam com um chocalhar sinistro.
Dali nem estrondo de arma de fogo chegaria à casa, quanto mais voz de gente. E que chegasse! Quem ousaria descer a tal paragem antes do cantar do galo! Ali, sim!
E era o caminho do moço, por ser atalho breve que evitava os alagadiços da baixada. A mata, nessa noite sem lua, parecia mais enxameada de vaga-lumes: era um fagulhar contínuo na escuridão, e, através do negrume faiscante, Macambira seguia cansado, aborrido, suando, a tresandar catinga como fera ao cio.
Os olhos ardiam-lhe cinzados das longas vigílias, e flácido, extenuado, a cabeça oca, uma zoada enfezante nos ouvidos, como de mosqueiro em lixo, arfava a haustos, apoiando-se aos troncos. Às súbitas, porém, assomos de ira revigoravam-no: partia desabrido, a correr, apartando furiosamente os ramos entravados, e, com farfalho estrondoso, abalsava-se aos galões tigrinos, quebrando galhos, arrancando da ramaria, a empuxões raivosos, longos, emaranhados fios de cipós. Fez alto à escuta, como se ouvisse algo.
Um barulho atroava soturnamente a brenha. Batuque ao longe... Seria? E logo lembrou-lhe o reino bárbaro.
Era a sua gente que chegava em som de guerra, prestes para a vingança longamente esperada. Vinham todos: os sobas, os feiticeiros, a horda ferina, o mulherio frenético, toda a cabilda em tumulto.
Estremeceu espavorido. Firmando-se a uma árvore, sentiu o tronco mover-se, pulsar como corpo humano. Retirou a mão amedrontado.
As ervas ziniam. Um estampido estrondou na espessura trevosa, asas estalaram; houve um instantâneo esfuziar na altura das copas.
Ê! E o negro, de olhos esbugalhados, o coração aos baques, desembainhou a adaga, pondo-se em guarda. O silêncio caiu, mais atra tornou-se a escuridão, apenas, de quando em quando, sibilava um ziado, acendia-se um halo na treva, um galho estralejava.
Pôs-se a caminho sarapantado, e, na incerteza das horas, receoso de perder aquela ocasião, precipitou-se por veredas tortuosas, saltando buraras, varando mataria cerrada, vadeando águas, descendo resvaladouros e corcovas eriçadas da macega ríspida.
Saiu no claro. A lua, tórpida, em unha, cortava o céu profundo.
Embaixo era o negror; pouco a pouco, porém, seus olhos conhecedores foram desvendando o caminho engasgado entre barrancas e penhas, como o leito seco de uma torrente, sinuoso, ondulado, subindo, precipitando-se em íngremes declives beirado de mato, para remontar adiante e, no alto, como uma cerca, a porteira do sino.
Desceu cauteloso o lançante do morro firmando-se em arestas, agarrando-se a raízes: a terra corria-lhe sob os pés, rolava atorroada em blocos, refervilhando e batendo embaixo, balofa. Quando pôs pé no caminho, respirou largo, a peito cheio. Uma coruja abalou em voo surdo. O negro teve um arrepio de pavor esconjurando a ave, que se entranhou na mata com um chirrio de agouro.
Parado, a pensar, de olhos muito abertos, viu aspas hirtas em feixe, um tufo eriçado de puas – era uma touça de piteiras altas formando como uma sebe acúlea. Bom lugar! Ali sim?
Olhava atento o abrigo alanceado quando lhe ocorreu uma ideia. Estacou imóvel, o olhar alto. E sorriu. “Quero vê! Tem di pará memo. Quero vê!” Desenrolou a corda que o cingia e, levando-a de rasto, meteu-se a caminho, ladeira acima, ao longo das piteiras híspidas.
Chegando à porteira escancarada, empurrou-a de leve, lento, para que não rinchasse, fechou-a, passou-lhe a corda, amarrou-a ao mourão a fortes, retesadas voltas, e, assim como fazia uma rija laçada, resmungava contente, antegozando a vingança traiçoeira. “Cê topa aqui i para memo... Oh! si para! Quero vê só!” E arfava aos ahns! repuxando a corda aos sacalões e descaindo no esforço. “Para memo!” Deu mais uma laçada e, firmando aos mãos na porteira, puxou-a a si, de arranque. “Agora sim, tá dirêto. Agora sim... bamo vê. Cê é home, passa.”
Resfolegou satisfeito, correu o braço pela fronte limpando o suor e dirigiu-se vagarosamente para o piteiral.
Ia sentar-se quando ouviu estropeada, como de galope próximo. O sangue fugiu-lhe, ficou suspenso, sem fôlego. Agachou-se e, de quatro, espiando por entre as espatas, esperou em ânsia.
O ruído morreu no silêncio apenas interrompido pela algazarra estrídula dos sapos no açude. Sentou-se com a adaga sobre as pernas, pronta. Tirou um cigarro do bolso, logo o esmagou, estraçalhou nervoso. E ficou pensando, revendo tudo: os dias de outrora, a sua doce vida, a casa feliz e, linda, lânguida, cheirando a flor, a que morrera traindo-o. Aperrou duramente as mandíbulas estalejando os dentes, vergou uma das folhas das piteiras quebrando-a, rasgando-a a fibras, e pôs-se, de ímpeto, de pé, sôfrego, desejando desesperadamente o moço.
Longe era a escuridão silente, e largo, luzindo lôbrego, com um talho de lua ao meio, o açude morto.
Pensava: Ter-se-ia enganado tomando um foguinho de campo pela fogueira combinada? Mas não, vira bem.
Olhou o céu. Devia ser tarde. Com certeza Julinho ficara na Barra, de pagode com a moça dos cavalinhos. Impaciente, imaginando hipóteses absurdas, escarapelava-se irritado e mais lhe acirravam o ódio à imobilidade, o silêncio daquele imenso vazio.
Tudo dormia calmo – a terra escura e as estrelas, lá em cima. Leve, a instantes, ao sopro lento da aragem, corria um frêmito nos ramos.
O ouvido fino e atento não perdia o ruído mais brando; os olhos alongados devassavam profundamente – nada mais que o negrume, e rasos, coriscando no açude, arrepiados lampejos fuscos.
De repente o coração pôs-se-lhe a bater, crebro. Firmou-se a prumo, hirto, erguendo-se nas pontas dos pés, avisado por um pressentimento.
Seria?! Águas não as havia ali que escachoassem, o ar estava parado, não bulia folha, entretanto um rumor aproximava-se, ora surdo, frouxo, ora trépido, como de galope. Estatelou-se, de borco, as mãos espalmadas, o ouvido no chão, à escuta. O coração batia-lhe tão forte que ressoava. Soerguendo-se, e, de cabeça alta, sorveu um largo fôlego como se farejasse gulosamente e, de novo, estirou-se imóvel. Não havia dúvida.
Com alegria canibal, raivando, a rilhar os dentes, ria surdo, aos bufidos. Ergueu-se lesto, de um salto achou-se junto da porteira, e, agarrando-a a mãos ambas, sacudiu-a de sacalão, assegurando-se da resistência. Serenando, olhou o terreno em volta, arregaçando lentamente as mangas da camisa e, de ímpeto, curvando os braços em rija flexão, oprimiu-os duramente ao peito; súbito esticou-os de arremesso forcejando, a estalar os dentes, com um meneio feroz da cabeça e rugindo. Bufou cansado. Despiu o capote, lançou-o na touceira e, arrancando a adaga, mirou-a, repassou-a no bíceps, brandiu-a nervosamente.
O ruído ressoava perto, cascalhando nas pedras. Houve um resfôlego e, no mesmo instante, na volta do caminho, branqueou um vulto neblinando a sombra. Era Julinho, no ruço, marchador garboso, mas passarinheiro como ele só.
O negro acocorou-se contendo o fôlego, encolheu-se entre as espatas, a um passo da porteira. Fosse por sentir a casa perto ou porque o moço o estugasse, o animal arrancou a galope esperto, ladeira acima, com um ranger de correame novo.
O negro via-o chegar e agachava-se renteando com a terra, a tremer nas pernas, o coração aos baques, falta de ar, a vista airada.
O ruço fincava as patas, investia aos galões vencendo o aclive. Passou por ele, arfando. Junto à porteira cabeou árdego, ladeou de flanco, a sacudir a cabeça com um tinir fino de metais.
Julinho descaiu no estribo, agarrou a porteira, puxou-a e, com a inesperada resistência, desequilibrou-se, pendeu, quase tombou da sela. Firmou-se, puxou de novo, e sacudia-a frenético quando descobriu a corda cruzando-se entre as travessas e o grosso mourão de braúna. “Que estupidez! Quem será a besta que amarrou isto?!” Lentamente apeou com as rédeas no braço, remexeu nos bolsos, resmungando. Mas o animal arrifou arisco, recuou escorregando na rampa. O moço voltou-se para contê-lo e estacou assombrado, tremendo, a boca em hiato, os olhos muito abertos: o negro estava diante dele, impassível. A voz gargarejou-lhe rouca em constrição de terror.
— Quem é!?
Macambira encarava-o quieto.
— Cê não cunhece? Oia bem. Tamo aqui. – Julinho recuava estarrecido, com um choro trêmulo, agitando as mãos tíbias. O negro deixava-o ir gozando-lhe o terror misérrimo. Onde qu’ocê vai? Quando o viu encostado à porteira, que rangia abalada, avançou decidido, lançou-lhe a mão à garganta, e houve um rebrilho pálido, um grito longo de angústia, e o sangue jorrou a golfos. De novo o ferro fuzilou, embebeu-se no corpo, fundo, ainda saiu, tornou a esmo.
O corpo pendeu flácido, resvalou, descaiu, e o negro, atirando-se-lhe em cima, crivou-o a pontaços. Ajoelhou-se-lhe sobre o peito sentindo-o escabujar e, empunhando a adaga a mãos ambas, pôs-se a atirar golpes de talho num furor de chacina, aos ahns esfalfados, como um lenhador a fender tronco. Depois ergueu-se, contemplou o cadáver, ainda o picou nas pernas, alanhou-lhe o rosto e, espetando-lhe a adaga no peito, pesou com todo o corpo sobre o punho da arma, a rugir.
Pôs-se, então, de pé, orgulhoso, levantou os olhos para o céu. Uma estria lívida coriscou na escuridão, a mata densa, ferrugínea, sacudia-se desabaladamente, desarreigava-se como se descesse do morro em massa; vozes roucas, lúgubres, barbarizavam na espessura, retiniam sons de guerra, e o negro, alucinado, brandindo a adaga sangrenta, regougou heroico proclamando a vitória, a vingança da cabilda, o feito maior na raça.
Pôs-se a girogirar tonto, sapateou em tripúdio, bradando para a fazenda adormecida, ao longe: “Ê! véia... vem vê!” E atirou-se, ladeira abaixo, em desapoderada corrida. Os matos rastolharam estrepitosos, e o ruço irrompeu desabrido, passou em fuga diante do negro, desaparecendo no macegal. Macambira estacou atônito, olhou em torno, sarapantado, e, numa dúvida, subiu a barranca até a porteira, acocorou-se junto ao cadáver, riscou um fósforo, alumiou-lhe o rosto e, vendo-o desfigurado a talhos, mascarrado a sangue, rugiu surdo, com a face contraída em ricto:
— Ehn! Ehn! I agora?! Agora tá í. Vai vê lá im cima s’ocê topa co’ela. Vai vê... – E sacudiu o cadáver, que rebolou molemente.
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Barras sanguíneas broslavam o horizonte, a paisagem emergia, úmida, da sombra, e começava alegremente o ruído do ressurgimento diurno.
O negro sentou-se na barranca e, escarvando a terra, olhava ao longe, perdidamente, murmurando palavras vagas, acenando gestos de frenesi. De improviso, a uma ideia, levantou-se, apanhou à pressa o capote, ganhou a vereda íngreme e subiu a correr.
Do alto, entre as árvores, espalhou um lento olhar de devassa. De repente, com um grito, levantou a adaga, que alumiou fúlgura, brandiu-a desfolhando ramos.
O céu encardia-se, os cimos clareavam, fina moinha de ouro polvilhava os cerros. Voltou-se encarado na serrania dos quilombolas e esteve a olhar longamente, imóvel como uma estátua. Estrondos atroaram a mata: alarido, grita bárbara, sons estranhos, ululos. As ervas ondulavam como a um grande vento, e a luz era purpúrea: céus e terras vermelhejavam sangrentos.
O negro respirava forte, olhando, maravilhado, o espetáculo grandioso: era a carnificina anunciada, a guerra alta dos deuses e a guerra dos mártires que ressurgiam da terra, Munza à frente, glorioso. Era nas nuvens, era na montanha e no raso – sangue e fogo por tudo.
Lá vinham, em manadas, os cirros e os estratos, e pelos campos, pelos morros corriam sobas, guerreiros ferozes, velhas, crianças; plumejavam cocares, reluziam ferros, troavam buzinas; era a devastação, a vingança dos ídolos e dos negros, a vitória da religião e da raça.
E Macambira, vibrando de entusiasmo heroico, agitou a adaga, que rebrilhava ao sol, e, rápido, como investindo em assalto, galgou os escalões do morro desaparecendo na brenha, aos brados, no delírio do sangue, na alucinação do excídio.