Capítulo III
Na fulgurante e tórrida estiagem que fendia a terra em
lanhos, desentaliscava os calangos e assanhava as moscas silvestres, que ziniam relumbrando em cores ao clarão fulvo do sol, com a barafunda e o babaréu das negras, o aceitoso sítio regadio aparentava o tumultuoso aspecto de uma aringa.
O córrego dividia-o em duas bandas díspares.
À esquerda, era um areinho sáfaro, pedrento, espetado de áspero silvedo, com um ou outro arbusto esmarrido.
À claridade vívida, que faiscava na terra aridamente calva ou espinhada em híspida macega, incrustada, em pontos, de lascas de malacacheta que expluíam centelhas, reluziam, aqui, ali, espelhentas poças d’água. Coqueiros, de palmas arrepeladas, derreavam-se como em delíquio farfalhando molemente a sopros mornos.
Ao longo da margem, em estendal de um branco ofuscante, a roupa corava ao sol.
Contínuas, em chirriada monótona, por vezes como chiar de carros, as cigarras mantinham o rechino enfadonho e tórpido do estio e, a espaços, de um e de outro ponto, saltavam gafanhotos com um crepitar metálico de élitros.
Nas barrancas amarelas, sulcadas em lesins e oureladas de mato intonso, lagartos papejavam abochornados. A imobilidade dizia com o silêncio, e os raros ruídos do vento soavam frouxos, sinistros como lufadas de incêndio. E, para agravar o escaldo, encandeando a vista, a pedreira, escalavrada em laivo escandecido, destacava-se branca, reticulada de veios, como a nuca de um gigante encovado no areal cuja cabeça fosse a colina redonda, coberta de silvas, como encarapinhada em grenha hirsuta. O azul, alto e translúcido, tinha diafaneidades de cristal e branduras macias de cetim.
Na banda direita, em contraste, tudo era viço e frescura, desde a relva, muito verde e úmida, até as franças das árvores copadas que abriam largas sombras mosqueadas de soalhas e estrias de sol.
O córrego sonolento, ilhado de espumas vitrificadas em bolhas rútilas, descia vagaroso sob o voo irrequieto das libélulas, rebalsando frocos ao longo das margens ou condensando-os em torno das lavadeiras, brancos, rendados como folhos da camisa que lhes houvesse escorrido dos ombros amontoando-se-lhes em volta da cintura.
Eram em bando, tipos vários, negras, cabrochas e mulatas.
Rapariguinhas franzinas, ainda impúberes, mulheraças fornidas e desenvoltas, velhas macilentas, saias sungadas, enrodilhadas à cinta, em camisa ou com uma simples tanga; peitos ainda em botão, mamas fartas bamboando gelatinosas ou chatas, flácidas, dependuradas em línguas moles.
Às upas de ancas, no esforço arrancado de esfregarem a roupa, algazarravam ou guinchavam cantigas em falsete.
Negrinhos nus, em alarido alegre, chapinhavam no lodo, rebolcavam-se, trambolhavam nas peças de roupa suja, espadanavam às pernadas n’água mergulhando, surgindo aos bufidos nos borbulhões de espuma com a carapinha como polvilhada. E pequenos engatinhavam choramingando, agarravam-se aos ramos, amparavam-se às pedras tenteando passos, equilibrandose; outros, papo para o ar, pernas abertas, dormiam em trapos ao abrigo das moitas.
Às vezes, ao choro de um, uma negra saía d’água com as saias apegadas ao corpo, esfregando os braços enluvados de espuma, sentava-se na relva, tomava o filho ao colo e, chegando-lhe o peito à boca, ficava distraída, numa felicidade doce, vendo-o sugar golfadas cheias aos goles lentos e gorgolejantes.
Bem-te-vis, das grimpas dos coqueiros, respondiam chocarreiramente, à surriada dos sanhaços. Anuns voejavam nos ramos baixos e, de pausa em pausa, com a regularidade rítmica de um pêndulo, soturno gemido de ave partia da capoeira, lúgubre.
O ar abafadiço, impregnado da urente evaporação da terra, cheirava a coivara. Os matos ressequidos estralejavam. Refegas de vento revolviam folhas, bojavam roupas suspensas dos ramos, levantavam terebrantes torvelins de poeira, salteando aos repiquetes, ora num chão vazio, suflando a terra solta, ora ondulando os capins esturricados ou agitando as franças que reboliam com farfalhoso barulho.
As roças de milho, secas, com as folhas encoscoradas ou rotas em fiapagens, sujas, pareciam cobertas de cinzas.
A quando e quando, no árdego silêncio, vibrava metálico o canto marcial de um galo. Mas a quietação recaía lassa, modorrenta, aborrida. Longe, nas montanhas de um azul esfumado, a luz parecia pulverizada e as várzeas, retalhadas em caminhos tortuosos, tremiam num arrepio lúcido e contínuo como se as refletisse um espelho vibratório. Abafava-se.
As próprias negras seminuas, metidas n’água ou patinhando no lameiro, suspendiam, a intervalos, a labuta, ofegando exaustas.
— Ufa! Nossa Senhora! Parece fogo! Isso é trovoada que vem aí.
E o clarão acendia-se mais, de um amarelo lívido, cintilando nas folhas, crestando a terra, resplandecendo afogueadamente no azul imaculado.
• • •
O lavadouro atroava no auge da balbúrdia quando Vaca-Brava apareceu arremangada, suada, com os molambos esvoaçando. Viam-se-lhe, pelos rasgões da saia, trapos da camisa sórdida e negrores da carne magra.
— Uai! Donária... ocê pur aqui. – O mourejo cessou de golpe com a presença da cabrocha.
As negras aproveitaram o incidente para um repouso garrulo. Umas, subindo à margem, acenderam o cachimbo, outras meteram na boca um naco de fumo mascando saboridamente. Tal espapou-se de borco, fincando os cotovelos na erva úmida, com o rosto enforquilhado nas mãos; qual refestelou-se ressupina, braços abertos, arfando.
— Ocê aqui é. I a modi qu’ocê andô rolando nu barro.
— Qui cara injuada, iche! Cara di quem cumeu i não gostô. Pois oia, s’é bom manda pra cá, qu’ocê memu já não aguenta báqui di marruá. – A gargalhada explodiu. A cabrocha voltou carrancuda, mediu do alto a mulata que a tropeçara, uma fula, esquelética, braços muito compridos, cara ossuda, picada de bexigas.
— Cala a boca, fedentina. Ocê não cria vergonha nessa cara?
— E, frenética, roufenha, arremetendo: – Ocê não toma pagode cumigo, não; oia, lá! Eu já ti dei cunfiança, pixilim? Toma sintido, bruaca. Dipois, dipois... – E gingava, viro-virava, a alisar os braços másculos como em desafio.
A mulata embatucou ante a fúria da cabrocha e ria vexada, esfuracando a terra com um graveto. Mas como as injúrias continuassem levantou-se, e de repelão, sungando a saia encharcada:
— Ah! tamém... a gente não pode brincá. Ocê tem dirêto di dizê tudo i os otro... Quem sabi?! tão bom cumu tão bom.
Meteu-se n’água e, atafulhando as saias entre as pernas, pôs-se a lavar resmungando. Donária, olhando-a de esguelha, escarrou alto e cuspiu com asco e, sem lhe dar mais atenção, acenou a uma das negras.
— Oia aqui, Damiana.
— Eu?
— Ocê memu. Escuta aí uma cosa.
Esfregando os braços roliços a nomeada saiu do córrego com a saia colada ao corpo, modelando-lhe as coxas gordas, o ventre ancho e redondo.
Era uma negra moça, atarracada, retinta, com a gaforinha trançada rente, em malhas imbricadas, parecendo mais uma calote de retrós. Plantando-se diante de Vaca-Brava, mãos nos quadris, com as formas anafadas muito em relevo, indagou:
— Qui é? – a cabrocha rosnou.
— Bamo saí daqui. Tá tudo d’oio im cima di nós.
Afastaram-se. As lavadeiras, vendo-as ir muito juntas, cochichando, davam de cabeça, espichando o beiço maliciosamente.
— Patifaria...
— Uhm! – As duas entraram no balsedo, sentaram-se à sombra das pitangueiras, e Donária, encolhendo as pernas, com os cotovelos nos joelhos, o busto descaído, disse em tom de mistério, encarada na companheira:
— Ocê já sabi?
— U quê?
— Casamentu di Lúcia cum Macambira...?
— Huê, gente! – exclamou Damiana em sobressalto. E depois de um silêncio de pasmo: – História... – contestou abotoando os beiços em momo de incredulidade.
— Ora! s’eu tô dizendo... Mercedes soube di nhô Julinho.
Damiana escancelava a boca, os olhos espocavam-lhe das órbitas. Cruzou os braços premindo os peitos, que rebojaram transbordando.
— Mas qu’é qu’ocê tá dizendo, criatura...!?
— É procê vê. Casamentu ficou cumbinado onte. Foi sinhô memu qui falô cum Lúcia.
— Ocê qué vê qui véio já passô rodo nela i agora qué remendá u má??
— Sinhô? Quá! U qu’ele qué é prendê u muxiba i botá muié nele.
— Mas Lúcia...! – pasmou Damiana, enclavinhando as mãos, olhos em alvo, abobada.
— É procê vê. Aquela songamonga. Ocê s’ispanta... Eu é qui nunca m’inganei c’aquilo. Mulata di cabelu ruivo, oio nela. A mim ela nunca inganô. Muito luxu, muita fidúcia pra s’istrepá nu muxiba. Porquera?
— Ambição. Foi só modi dinhero. Macambira tem gimbo, sinhô faz tudu qu’ele qué. – E cuspinhou: – Mandiguero safado! Dexa ela, Barbina tá lá im cima.
E falaram do negro e da mulata com maledicências torpes, rindo escarninhas.
Vaca-Brava, atirando um murro à coxa, jurou que Macambira havia de pagar-lhe, e rouca, com expressão feroz:
— Só s’eu não cunhici a mãe daquela bicha, mais rasa du que bassora. Aquilu, mais hoje, mais amenhã injoa a catinga du tio i vai co’ primero qu’aparecê, cumu cachorra d’istrada. Ocê há di vê.
A outra, com um rebrilho de dentes claros:
— Eu só quiria fica nu quartu dele na noiti du casamentu modi vê o pagode – e riu esganiçadamente.
Donária atirou um muxoxo.
— Pois sim...! Qu’é qu’ocê pensa? Trambecando memu ele há di lá. Mulata tem fogo, há d’arranjá jeito.
— Sem-vergonha! Este mundo... uhm! – Levantaram-se. – Té logo! Roupa tá í. – Donária enveredou mato a dentro e, já longe, oculta pelas árvores:
— Oia, amenhã tem zorô lá im casa. Ocê querendu levá boca...
— Brigada. – Damiana tornou ao córrego, e instantes depois a farandola, sabedora do caso, rinchavelhava às escâncaras, comentando impudentemente a sem-vergonhice da mulata. E uma negra cantou de improviso:
Eu quero vê pra contá
Eu quero vê modi crê
Fogu pegá dentru d’áua
I u muxiba cum muié.
O compadrio delirou com a trova, repetindo-a por entre risadas cascalhantes. Negras mais desabridas sambaram ao som das vozes, corcoveando aos reboleios. À noite, na cozinha, as velhas negras cachimbando, mascando acamaradadas, gozaram as micagens das mucamas e dos crioulos.
Um deles, macaqueando Macambira, empinado em recacho pimpão, abarcando a cinta de uma cafuza, que fingia de Lúcia, deu volta à cozinha, através do riso e dos ditérios canalhas da assistência. Súbito, atracando-se com a rapariga, forcejando por derrubá-la, a farejar-lhe o colo, pôs-se a fungar em cio, fossando grunhindo. As velhas dobraram-se em guinchadeira largada, aos empurrões umas às outras; e uma cantou, batendo as palmas:
Eu quero vê pra contá
Eu quero vê modi crê...
E o crioulo e a mucama tripudiavam desconjuntando-se num rebolir obsceno, agachando-se peneiradamente; mas de ímpeto, a um grito, pondo-se os dois a prumo, chocaram-se em umbigada. E foi um reboliço alegre e estrondoso de aplausos.
E o quadrado, ainda depois do toque de silêncio, com os negros sentados no limiar das portas, muito tempo rumorejou sarcástico com o zumbido da cantarola zombeteira:
Eu quero vê pra contá
Eu quero vê modi crê
Foi no escritório, à tarde, que os noivos tiveram o primeiro encontro. Macambira dava conta do serviço que fizera na mata com três negros, limpando a fonte e o rego de onde desalagara todo o balseiro de folhas e ervas mortas, amotando as margens para canalizar a água, quando Lúcia apareceu à porta, parando no limiar.
— Senhor me chamou?
— Entra! – ordenou o fazendeiro. O negro perturbou-se. Fez uma atordoada volta olhando airadamente em torno, a remexer nos bolsos. Tirou o lenço, limpou o rosto e, atarantado, ia pondo o chapéu quando deu com o olhar em Manuel Gandra. Retraiu-se vexado, como surpreendido em falta.
O fazendeiro continha, a custo, o riso ante o ar canhestro dos dois. Mirou-os tranquilamente e disse, em tom de galhofa:
— Homem, vocês parecem crianças. Que diabo! – Lúcia encostara-se ao umbral e retorcia, acanhada, a ponta do casaco. – Entra de uma vez, rapariga. Que estás fazendo aí fora?
A mulata adiantou-se tímida. Gandra sentou-se na rede, acendeu um charuto e, vagarosamente, como se desse uma ordem de serviço:
— Vocês já sabem do que se trata, não é? Pois entendam-se lá, marquem o dia e avenham-se. Eu estou por tudo. – E pôs-se a balançar-se fumando.
Macambira sentia-se como colhido em cilada, sem ver saída, e abafava; ouvia-se-lhe a respiração angustiada. Relanceando olhares rápidos a Lúcia, via-lhe o colo alto arfar opresso. Acenou um gesto vago, sem significação, manteve um momento o olhar fito, mas não via – era como se estivesse muito longe, isolado numa prisão de altos muros, sem ar, sem luz, a morrer.
Ante o silêncio obstinado, Gandra exclamou nervoso:
— Então que é isto? Vocês perderam a fala? E tu, rapariga...?
A mulata deu de ombros molemente, com um sorriso contrafeito.
— Eu sei... O que o meu senhor fizer está benfeito. Meu senhor manda.
O negro atesou-se hostil, punhos cerrados, mandíbulas aperradas, o olhar fulmíneo. Gandra acenou de cabeça em negativa e falou vagarosamente, como se ditasse as palavras.
— Não, senhora: eu não mando. Aqui não há senhor. O caso é entre vocês dois. Não disseste que querias? – Lúcia, retorcendose, boleando o corpo, revirando a cabeça, sorria, tornava ao sério numa indecisão envergonhada. Gandra insistiu com serenidade:
— Fala: queres ou não? Se queres, muito bem; se não...
— É... – confirmou Macambira em voz cava. De novo o silêncio cobriu a cena. O negro aprumava-se tanto que parecia crescer, dilatar-se como uma sombra. E quedou silencioso, hirto, encostado à parede, o olhar morto. A mulata fez menção de falar, não se atreveu, retraindo-se com um encolher de ombros; por fim decidiu-se:
— Então só eu é que hei de falar? O que eu tinha a dizer já disse, meu senhor sabe.
— Sim, eu sei; mas Macambira quer ouvir de ti, da tua boca.
— Lúcia encostou-se à secretária, de olhos baixos, resmungando em tom dengoso. – Fala! – tornou o fazendeiro. – Ela levou o braço ao rosto escondendo os olhos, como se chorasse. – Fala, rapariga. Pareces boba.
— Então a gente não tem vergonha? Assim também não...
— Vergonha de quê?
O negro olhava casmurro. De improviso, desmanchando-se em gestos desengonçados, gago, com o olhar desvairado, rompeu:
— Ocê não qué, diz; é mió. Ninguém tá forçando ocê, não é, sinhô? Ninguém tá forçando. Não qué, fala duma vez. Pra que a gente há de ficá ansim um diante do outro perdendo tempo? Não qué, diz. Ninguém ubriga.
A mulata, surpreendida com a rebentina do negro, encarou-o pasmada. Gandra fechou a cara, atirou fora o charuto e, levantando-se da rede, bradou:
— Qual não quer?
— Mas eu disse alguma coisa, gente?! – choramingou a mulata. Remordeu o lábio e, de cabeça baixa, pôs-se a bater nervosamente com o pé calçado em chinela de bico. Gandra voltou-se para Macambira. O negro era uma estátua. Lúcia deu de ombros, resignada. Suspirou sorrindo e, caminhando para o negro de olhar fito, estendeu-lhe a mão, inclinando a cabeça num jeito de graciosa humildade:
— Tá í – sussurrou infantilmente. Macambira, alvoroçado, correspondeu ao gesto e, em voz branda, com uma desusada ternura a atravessar-lhe a aspereza das maneiras, como um límpido fio d’água jorrando dentre pedras, interrogou docemente:
— Mas é do seu gosto, Lúcia?
— Huê! Então?
— Oia lá! Pensa bem! Casamento é cum’a morte, Lúcia – e os dentes reluziram-lhe num sorriso estranho.
A mulata abotoou os lábios em muxoxo e, envolvendo o negro na languidez de um olhar adormecido, redarguiu sorridente:
— Pensar o quê? O que eu tinha de pensar já pensei. – E animada, encarando-o: – Mas por que é que você fala em morte?
Ele embatucou arvoado, com um largo sorriso alvar no rosto luzidio, a errar com os olhos muito abertos:
— Uai! porque sim. Casamento e morte é uma vez só – e, insensivelmente, apertava-lhe a mão, triturando-a. Ela trincava o lábio, encolhia-se com uma expressão meiga de sofrimento, olhando-o de olhos semicerrados no gozo dorido daquela tortura de amor. Gandra interrompeu o colóquio:
— Bem, estamos entendidos. Agora é tratarem disso quanto antes. Casamento e jantar não se deixam esfriar.
E foram assim os esponsais de Macambira e Lúcia.
Uma manhã, como de costume, Gandra passeava no jardim e parara junto do viveiro das avencas, na umidade sombria de uma gruta de pedras limosas por onde e donde a água corria em filetes, pingava em lentejo estagnando no tanque cheio de algas, quando ouviu passos crepitarem na areia. Voltou-se e viu Macambira.
— Olá! – O negro sorriu canhestro. – Queres falar comigo?
— Sim, sinhô. Queria dizê uma cosa, meu sinhô não leve a má...
— Que é? – Então o negro, vexado, propôs tomar a jornal alguns parceiros, oficiais de obra, para fazer um puxado, rebocar umas paredes no seu rancho. Gandra encarou-o sobrecenho, como ofendido, mas logo, desanuviando o rosto, disse em tom pausado:
— Guarda o teu dinheiro, rapaz. – Pôs-se a alisar a barba, meditando; repuxando o lábio em dois dedos, esteve um momento de olhos altos, semicerrados, como a calcular. Por fim perguntou:
— O Félix já acabou o que estava fazendo no engenho?
— Cabô sim, sinhô.
— Para vocês uma casa com dois quartos, sala, cozinha é quanto basta...?
— Uai?
— Pois eu falo com o Félix. Há aí tudo: telha, madeira, tijolos. Que mais? Umas ferragens, cal, um pouco de tinta, isso custa-te uma ninharia. Nada de remendos. Vida nova, casa nova. – E voltou-se para o tanque a olhar as algas. – Pois é: o que há em casa eu dou; o resto compras. Não é assim?
O negro sorriu agradecido.
— Três ou quatro homens arranjam-te isso em dois tempos e ficas com uma moradia decente.
O negro, ainda que o conhecesse como homem de rasgos, generoso, mãos rotas, coração grande, ficou sem termos para agradecer. Retorcia o chapéu nas mãos sorrindo abertamente.
Despediu-se contente e, como tinha de ir à Barra, desceu ao pasto a apanhar um animal; e assobiava radiante à ideia de ter, lá em cima, em vez da cabana palhiça, esburacada e enegrecida de fuligem, uma casinha de telha, caiada, com um alpendre, que era o seu sonho.
E, três dias depois, começaram alegremente as obras.
Conhecendo o gênio franco de Macambira, os parceiros atiraram-se de boa cara ao trabalho.
Eram cinco rapagões destorcidos, três pedreiros e dois carapinas e Félix, o mestre, gordalhufo, alma alegre, um pagodista de marca, sempre de cara n’água, vozeirando ordens, às pernadas por cima das pilhas de sarrafos, pelos montes de tijolos, pelas rimas de telhas côncavas. Moleques cruzavam-se no carreiro, uns subindo com materiais, outros descendo, a correr, em tropelias, labutando por gosto.
No amassadouro eram eles que revolviam o barro, eram eles que o levavam no cocho aos pedreiros. Marinhavam pelas escadas com telhas, subiam a ladeira com tábuas que estalavam matraqueando umas nas outras.
E, no recanto agreste, dantes tristonho, silencioso, era um bulício alegre desde o amanhecer até a tardinha: marteladas, rascar de serra, troar de vigotes atirados, vozes, gritos, cantigas, assobios. Nas paredes ia entrando o emboço, e Félix impava orgulhoso atafulhando-se nas maravalhas ou levantando poeira do chão pronto para receber soalho nos aposentos da frente – quarto e sala, que os outros, um quartinho para despensa e depósito e a cozinha ficavam bem ladrilhados a tijolos e de telha vã.
À frente da casa um alpendrezinho sobre vigas de cedro oferecia o agradável repouso de um poial.
Macambira tratava os operários com largueza – era o café com bolacha, o gole de cana, o fumo e, aos domingos, uns dois mil-réis a cada um.
O levantamento da cumieira foi pretexto para um rega-bofe de feijoada e caninha, à sombra das laranjeiras.
Pronta a casa, alvejando entre as árvores, com o telhado vermelho, as portadas verdes e, lá para o fundo, no lançante do monte, o galinheiro de ripas, o chiqueiro de tábuas, uma moenda nova, Macambira abraçou os rapazes, gratificando-os generosamente. Félix teve maior maquia.
Quando o negro comunicou que a casa estava pronta, Manuel Gandra quis vê-la e lá foi a cavalo.
Andou por ela examinando tudo minuciosamente, abrindo e fechando portas e janelas; correu o terreiro, o pomar e achou que aquilo “estava digno de um lorde”. Uma casa de gosto. O negro sorria desvanecido.
— Pois olha, ficou melhor do que eu esperava. Estás muito bem. Lúcia vai gostar. Agora é conservá-la. E a tua roça está viçosa. Podes levá-la pelo monte até a beira da mata; ali em cima a mandioca deve dar bem. Para milho e cana tens a baixada, de boa rega. Estás muito bem. E que vista! É um paraíso. Bom... Deus te ajude.
— Montou e partiu.
Nas clareiras parava o animal olhando do alto o seu vasto senhorio, terras de semeadura e mata, campo e monte, tudo farto por ali fora a perder de vista.
Um carro de bois subiu da Barra carregado: mobília nova e louça, trem de cozinha, fazendas, de um tudo.
Era noite alta quando passou a porteira sem ruído, com muita graxa nos eixos, e, apesar do ladrar dos cães, ninguém acordou na fazenda. Macambira, Balbina e os carreiros transportaram a carga para a casa nova e o carro regressou antes de amanhecer.
O terreno foi todo capinado em volta da casa e o caminho alisado tão a capricho que não ficou pedra em ressalto nem depressão sensível. E era um gosto aquilo lá em cima, tudo lustroso, cheirando a verniz, louça de passarinho no armário, quatro cadeiras, cama francesa de casal, cômoda de vinhático, boa mesa, sem contar a mala que Macambira comprara na Corte, o relógio, uma cantoneira com uma figura de gesso.
E o negro, armando na sala a rede do Norte, de varandas largas, em franjas, tomou a atitude orgulhosa de um ras que contemplasse soberanamente os seus domínios vastos.
Então resolveu convidar Lúcia para ir um domingo lá em cima, ver se estava a seu gosto.
Balbina arranjou o interior com tão apurado esmero que até flores havia em vasos de barro e em copos, sobre a mesa, na cômoda, nas prateleiras forradas a papel de cores.
Nas paredes alvas figuravam ilustrações de revistas, cromos, registros, um feixe de palhas secas benzidas e uma oleografia representando a Ceia. Na porta, por dentro, havia um signo-salomão que o Félix pintara a capricho.
No terreiro, muito varrido, choviam as flores de ouro de uma acácia. Pássaros faziam giros largos, iam ao fundo escabroso das grotas, tornavam aos ramos, de novo partiam de arremetida, aos trilos. Da mata saíam revoadas com um chilreio de riso.
Por vezes um grasnido rascante talhava o ar – todas as asas colhiam-se, o espaço esvaziava-se e, alto, solitário, um lento caracará batia o voo perscrutando, súbito infletindo ríspido, direito a um ponto, à preá.
Em volta de caixões, que Macambira suspendera sob a aba do telhado, zumbiam enxames. Galinhas ciscavam cacarejando aos pintos, galos cucuritavam nos matos; uma porca, entre bacorinhos, grunhia fossando o lodo, e, preso a uma árvore, o cão ladrava, gania aos arrancos à corrente.
Da velha choupana não havia vestígio, só as árvores que a cercavam dantes mantinham-se de pé, mais vivas e airosas, como se houvessem remoçado, dando sombra mais larga e aroma mais doce.
E Macambira, ainda só, mas sabendo-se amado, contava os dias, muito perto da felicidade, como se fosse pelas extremas de denso bosque e já avistasse, através das abertas, ao longe, azul de céu e alvuras da cidade feliz onde devia habitar agasalhado e para o sempre no puro amor do seu sonho.