Capítulo IX
Fim de tarde estival. Ocaso esplêndido. O sol fúlgido, engastado entre dois cimos, irradiava em leque sobre o redente da serra afogueada. Frondes coruscavam em lumaréus, colinas pareciam cobertas de velocinos. Lampejavam relumes na planície: placas rútilas de poças, discos, estrias d’água; um remanso liso do rio cintilava vítreo espelhando fulgurantemente o fogo vivo das nuvens. Tênue poeira solar esfumava em purpurina e ouro os longes da paisagem.
Cigarras cantavam assíduas, e, dentre as macegas esturricadas, subia o estrépito dos grilos. Trescalava acre um cheiro quente de terra seca e de ervaçais queimados. Névoas de fumo diáfano rolavam lentas, evoluindo acima das cabanas.
A noite subia vagarosa, serena, empalidecendo o céu onde apareciam, piscando, pequeninas estrelas. As saracuras cantavam nos banhados. Vago, misterioso murmúrio tremia no silêncio como surdina de reza. A espaços, alvoroçadamente, levantava-se o grasnar dos gansos.
Turmas de escravos desciam em filas lentas, coleando pelos caminhos sossegados onde já era escuro e bacuraus piavam.
Chegavam carros. Carneiros arrebanhados descendo resvaladiamente as rampas, muito unidos, como que rolavam, dando a impressão de surdos esbarrondamentos. Pontas de gado abeiravam-se das cercas. Por vezes um grito alegre repercutia.
Esbatia-se em violeta o cariz do horizonte, onde as nuvens como que se dissolviam e o perfil da serra e do arvoredo desenhava-se duro, em negror, no fundo do céu macio.
Começava, aqui, ali, o lúgubre coaxar dos sapos. Rolas gemiam quérulas; acendiam-se indecisos pirilampos.
Alumiou-se uma das janelas da casa. A sineta tiniu no quadrado. Ave-marias.
Justamente nesse instante a porteira guinchou estrídula no alto e logo uma récua sôfrega precipitou-se atropeladamente, ladeira abaixo, sacolejando seirões e fardos. Por último, lerdo, solavancando, um carretão com toldo de esteira.
Tropeiros, arremetendo aos gritos, lançavam os cavalos pelos barrocais ou riba acima procurando cortar a frente ao lote desabrido. Os animais, reconhecendo a “querência”, desembestavam desinsofridos, e era um aturdido tumulto como de comboio em destroço: gritos, pragas, galopes arrancados: um macho que tresmalhara espantado cabritando pela encosta; outro, empacado, de orelhas fitas, mirando, a medo, o valo; vários em magote espremendo-se aos apertões. Era a tropa de Macambira que regressava da Corte.
A fazenda alvoroçou-se com a tumultuosa entrada. Saiu gente ao terreiro; as mucamas afluíram à varanda em grazinada alegre, e no jardim estrondava a algazarra dos moleques.
Manuel Gandra apareceu à porta do escritório, a própria D. Clara, sempre ofegante, enorme no amplo roupão de chita, rebolou curiosa até a cadeira de verga. Era uma festa na monotonia banzeira da fazenda. Por fim Macambira assomou no alto, firme no macho árdego. Esteve um momento parado, destacando-se, a prumo, sobre o fundo do céu ainda claro, com a imobilidade de uma estátua. Vagarosamente, a passo cauteloso, o animal veio descendo, sondando o piso no caminho escalavrado, e o negro sempre direito, como uma figura de bronze, inflexível.
Um molecote, agachado entre os bambus, bradou-lhe: “Lúcia morreu, Macambira.” O negro passou indiferente e, abandonando as rédeas ao macho, olhava ao longe, a fito, como procurando na colina, entre as árvores escuras, a casa do seu enlevo.
A tropa ajuntou-se no terreiro e foi logo uma barafunda dos que haviam feito encomendas – crioulos, negras, mucamas em falario. E os tropeiros azafamados resmungavam repelindo os insofridos e iam desatando as cangalhas, soltando a mulada. Os animais, aliviados, sacudiam-se, deitavam-se espojando-se e, um a um, a passo, ou investindo aos pinotes, cabeça baixa, orelhas murchas, partiam em direção ao pasto.
Acenderam-se candeias, e, enquanto uma turma recolhia ao paiol seirões e fardos, Macambira, com a bolsa a tiracolo, adaga à ilharga e a garrucha no cinturão, subiu a prestar contas.
• • •
O negro caminhava de cabeça baixa, vergado, vencendo lentamente o aclive. Entrou na escuridão das casuarinas, atravessou a cerca de espinheiros e chegou ao caminho liso do jardim, que o luar parecia cobrir de areia, quando um vulto, que descia estabanado, estacou de golpe. Um muxoxo de nojo explodiu e o negro quedou firme, em atitude hostil, reconhecendo Vaca-Brava. A cabrocha desviou-se, atirou de repelão o xale aos ombros e, com uma rabanada, para evitar o encontro, meteu-se pelo gramado, resmungando por entre casquinadas irritantes. Macambira estremeceu e, ainda que tentasse prosseguir, não pôde: o sangue fervia-lhe em furor frenético. Voltou-se de ímpeto e, em voz surda, interpelou Donária.
— Qu’é qu’ocê tá rindo, sua vagabunda? – Uma gargalhada cascalhou.
— Quem não pode co’tempo não inventa moda. Pai di fio... ocê?! Pois sim!... – O negro atirou-lhe uma injúria e ela, já longe, esganiçou: – Tico-tico! Capão! Ocê vai achá a marca, muxiba. – E ria estridentemente. Ainda que não compreendesse a alusão da cabrocha, Macambira emperrou desconfiado. Instintivamente levou a mão à coronha da garrucha, voltou-se e ficou a olhar, airado, com os músculos da face em crispações de cólera.
— Cá! – rangeu na garganta, meneando com a cabeça. – Inquanto eu não dé uma lição nessa bicha ela não se disengana cumigo.
— E ocorreu-lhe, súbita, uma ideia. Cravou os olhos no chão claro conjecturando. – S’eu duvido! Um diabo desses é capaz di tudo.
— Pensava na morte de Lúcia, cuja notícia tivera logo ao chegar à Barra. Apertou as mandíbulas rilhando os dentes. “Ah! peste!...” E, caminhando devagar, parando de instante a instante, revia a cena daquela tarde.
O armazém do Narciso regurgitava como uma feira. Fora, a mulada junta e, presos aos esteios, machos de sela, cavalos, burros de cangalha; carretas com os bois amodorrados, uns de pé, imóveis, como adormecidos sob a canga, outros deitados, ruminando; porcos fossando o lodo, cabras, sujos carneiros abadalhocados de grumos imundos, galinhas ciscando em estrumeiras e uma moscaria zoante azucrinando os animais, que não cessavam de espanar as ancas com a cauda, de bater as orelhas, de patejar no enxurdo.
Ele entrou alegre, saudando o povaréu gárrulo: tropeiros, carreiros, trabalhadores da linha e o mulherio frascário que andava à gandaia, tudo bebericando, chasqueando num ambiente estonteante de fumo e álcool.
Uma sanfona zagunchava fanhosa. Abeirando-se do balcão, pediu um capilé e o pequeno trasfegava a beberagem em dois copázios quando Narciso, pondo-lhe a mão no ombro, disse, olhando-o de frente, com ar compungido:
— Então lá se foi a coitada, hein?
Ele voltou-se arrebatado:
— Qui coitada?
— Tua mulher. Pois então? Aquilo foi descuido ou, quem sabe lá!, maluquice. Essas raparigas não têm juízo, aí com a barriga à boca e abusam. Eu não me canso de dizer. O resultado é esse.
A fisionomia do negro assombreava-se.
— Mas qu’é qu’ocê tá parolando aí? Fala duma vez. Qui é?
— Pois que há de ser. – E olhou-o a fito. – Então não sabes? Não sabes que Lúcia morreu? – Macambira estremeceu dos pés à cabeça, baqueando, e, como se o negociante o houvesse ofendido, atirou-lhe pesadamente as mãos aos ombros e, falando-lhe no rosto, em voz arquejada e soturna, com os olhos esbugalhados, chispantes como brasas:
— Cumu é? Qu’é qu’ocê tá dizendo? Lúcia!? Ocê tá sonhando, Narciso?
O negociante apelou para um carreiro:
— Pergunta a Romão. – O nomeado, um mulataço bexigoso e vesgo, mal-encarado, virou o codório e, caramunhando, depois de passar o braço pelos beiços e cuspilhar de esguicho, acenou de cabeça, resmungando: “Hum! Hum!” Outros confirmaram acercando-se de Macambira, que ficou num círculo, relanceando em torno o olhar atônito, como animal acuado.
— Cês qué tomá pagode cumigo – disse com um risinho trágico.
— Pagode?! Uai! Morte é cosa di pagode?
Um velhote acrescentou:
— Lesbão tá í fora. Prigunta.
Macambira rompeu de arranque o ajuntamento e saiu ao alpendre. Efetivamente lá estava o coveiro sentado, pitando com enlevada pachorra. Aquilo, fora, tresandava nauseantemente a lama e a esterco, e o mosqueiro zoava enxameando o ar.
— Tio Lesbão, é verdade memo qu’ocê interrô Lúcia?
O coveiro, um cabra seco, ossudo, levantou a cabeça refoufinhada, tirou o cachimbo da boca e, ruminando um momento com as gengivas sem dentes, depois de olhar Macambira, encolheu molemente os ombros e, descaindo de busto, com os cotovelos nos joelhos, quedou alheado. “Fala!” intimou Macabira. “Ocê interrô Lúcia?” O velho respondeu de mau humor:
— Havia di dexá à toa, qui nem carniça, não é? Tá lá! – e atirou o braço num gesto vago. Macambira estarreceu-se hebetado, de boca aberta, os olhos lânguidos, mole. As pernas bambeavam-lhe frouxas, e o beiço penso, flácido, descobria-lhe os dentes claros. Esteve um momento a olhar o coveiro, mudo, numa idiotia pungente. Por fim, insistindo, perguntou:
— Morreu? – O outro arregaçou lentamente a calça e pôs-se a coçar a perna magra, escalavrando-a a unhadas.
— Morreu di quê, tio Lesbão? Di quê?
— A mode quê foi di parto.
— I criança? Ocê interrô criança tamém?
— Só si veiu junto. – E, acendendo o cachimbo, pôs-se a pitar tranquilo. Macambira tornou ao armazém, encostou-se ao balcão.
— Antonce? – perguntaram. Ele não respondeu, arvoado. De instante a instante arrancava-se-lhe um suspiro do peito. O coração crescia-lhe como uma esponja que se fosse encharcando, faltava-lhe o ar. Tomou um gole d’água, saiu, reuniu a tropa e pôs-se a caminho. Pensou em dar uma chegada ao cemitério, ver a cova, mas era tarde. E ele tão longe, sem saber... Se estivesse ali ela não teria morrido, mas só com a preta velha, coitada! O senhor... não vê que ele ia pagar médico para uma escrava...! nem para a mulher, quanto mais...?
Um raio de luz, batendo-lhe nos olhos, encandeou-o: estava diante da casa-grande. Caminhara sem sentir, distraído na lembrança daquela tarde magoada. As mucamas conversavam no alpendre aos cochichos, aos risinhos. Ele seguiu lento, cansado, até a porta do escritório. Gandra embalava-se na rede:
— Suns Cristo?
— Entra. – Olharam-se em silêncio, a fito. Macambira abriu a bolsa atochada e retirou a correspondência do senhor: cartas, notas de venda, faturas e um maço de dinheiro. Gandra levantou-
— se preguiçosamente, procurou os óculos, e, abancando-se, pôs-se a conferir o recebido. Contou o dinheiro, examinou as notas de compra e venda e, guardando os valores no cofre, espetou num gancho o resto da papelada. Então, tornando à rede, pediu notícias de Julinho: “Se estivera com ele? Como o deixara? E os correspondentes? Se trouxera todas as encomendas? Que novidades havia na Corte?” O negro respondia em termos breves, cerce, e a angústia crescia-lhe no peito, que arfava. De repente, ajuntando as mãos em súplica, avançou um passo e, curvando as pernas, em menção de ajoelhar-se, exclamou em voz surda e trêmula:
— I Lúcia, sinhô! – O fazendeiro encarou-o um momento interdito; deu de ombros e, pondo o charuto à beira da mesa, suspirou:
— É verdade! Quando Balbina procurou-me já ela estava morta. Uma pena! Rapariga moça, cheia de vida!... Também tu... Se me houvesses dito que ela estava a termo eu não te teria mandado à Corte, tinha aí o Tibúrcio. – Calou-se, logo, porém, olhando-o:
— Mas queres saber? isso quando tem de acontecer... só Deus! – O negro mantinha-se cabisbaixo, imóvel. – Agora é ter coragem. A vida é assim mesmo. Que se há de fazer? – Deixou a rede, pôs-se a andar pelo escritório, a esmo, mascando o charuto. – É assim – continuou em solilóquio – umas têm os filhos por aí, no mato, como animais, tomam-nos ao colo, descem com eles e três, quatro dias depois estão frescas, puxando enxada. Outras... é assim.
— E criança, sinhô?
— Nasceu morta.
— I sinhô viu? – perguntou o negro, como desconfiado. Gandra levantou a cabeça de golpe, encarou-o severo, afirmando em tom enérgico:
— Sim, vi! Como não!? Por quê? – O escravo deu de ombros; e houve um pesado, molestoso silêncio. O fazendeiro pôs-se a caminhar pensativo. De repente lembrou: – É melhor ficares cá embaixo. A casa, lá, tem estado fechada.
— Tia Balbina saiu?
— Isso com certeza. Ninguém gosta de ficar onde houve defunto. Arranja-te hoje por aqui e amanhã... – O negro interrompeu-o:
— Não, sinhô, eu vou. Tô co’a roupa suada e quero vê aquilo lá im cima.
— E não comes?
— Não tenho vontade. Sinhô não qué mais nada?
— Não. Amanhã.
— Então vancê dê licença. Bênção?
— Vai com Deus.
Macambira saiu lentamente, como vergado a um grande peso, e foi-se, preferindo a escuridão dos caminhos onde o arvoredo interceptava o luar.
As mucamas, no alpendre, chalravam às gargalhadas. Um cão latiu na escada. Sapos saltavam. Vaga-lumes, cruzando-se, acendiam brasas na espessura das moitas.
Chegando às casuarinas, pareceu-lhe que uma mulher de branco estava parada junto à cerca de espinheiros. Olhou a fito, pensando na morta, com a pávida certeza de que era ela que ali o esperava. Mas avançou e logo a aparição resolveu-se no que era: claridade do luar nos ramos.
Insensivelmente, foi apressando o andar. Os passos alargavam-
— se, aligeiravam-se-lhe a mais e mais, e, no frescor da folhagem, o seu hálito ofegante lufava.
Por vezes, num ramalhado mais denso, abaixava-se, e os galhos sacudidos, abrindo raros, deixavam passar filtrados clarões de lua. Uma cigarra cantou.
O negro começava a sentir a casa, reconhecia certas árvores, certos socalcos e depressões da ladeira. Para atalhar a subida, meteu sofregamente pelo mato agarrando-se a ervas rijas, a troncos, guindou-se por um barrocal a pique, entrando no pomar que rebrilhava no silêncio frio.
Sombras esgueiravam-se ariscas com um farfalho trépido de versas, um voo surdo estuou, houve um frolar de ramas e logo chirrio de ave. E a casa apareceu alva, fechada, alargando uma sombra negra pelo terreiro silente e alumiado. Ele saiu no limpo, parou relanceando o olhar em torno – a terra, embaixo, estendia-
— se clara, numa solidão melancólica, e a serra longínqua, escura, agarrada ao céu, tinha estrelas nos cimos. O negro esteve olhando, a recordar miudamente, numa espalhada saudade que abrangia céus e terras, o tempo e, em tudo, a morta. Lá estava a acácia do noivado, a árvore das confidências, toldo dos amores felizes. Um banquinho tosco jazia atirado junto à cancela do pomar. Era nele que Lúcia costumava sentar-se, à noite, à porta da casa, olhando, calada e triste, as estrelas do céu, como se pressentisse o seu acabamento trágico. Apanhou-o, pô-lo de pé devagarinho, carinhosamente, como apiedado de o ver em abandono. Caminhou direito à casa, bateu à porta, empurrou-a; bateu de novo, chamando: – Tia Balbina! Silêncio! Deu volta forçando as janelas, a porta do fundo.
— Tia Balbina! – Ninguém! Quedou roendo as unhas. A sombra do galinheiro atraiu-o como um ser vivo. Foi até lá, encostou-se às ripas, olhando. Deserto! E o cão? E o porco? Tudo que era vida sumira. As árvores frondejavam com a respiração da noite, subiam ruídos trêmulos dos matos, e o aroma dos lírios pairava suavíssimo. Por vezes uma estrela corria esfiada no ar.
O negro caminhou até a barreira, parou merencório. Uma voz humana, doce, falou docemente entre as árvores, chamou com meiguice: “Psiu!” Ele ficou hirto, à escuta, com o coração aos ímpetos. Era Lúcia! Olhou, certo de vê-la. Como que o luar alumiou mais claro, em palidez mortal; súbito cerrou-se em luto, mas logo branqueou, mais triste. Quem andaria assim abrindo e fechando a lua? E se a casa se abrisse de repente, iluminada, e Lúcia aparecesse à porta, com o filho nos braços, chamando-o? Teve medo. Um frio gélido arrepiou-o, entrou-lhe no sangue. Os cabelos aspavam-
— lhe o crânio, a pele arrufava-se-lhe. Coisas saltavam-lhe diante dos olhos: eram pontos negros revoluteando, discos de fogo. As ervas ondulavam estranhamente, árvores moviam-se como desenraizadas. Um penedo inclinou-se a pique ameaçando cair, logo, porém, apareceu a prumo, fixo. Houve um riso estrídulo. Ele olhava, e os olhos ardiam-lhe como a um vivo calor de chama. Instantaneamente uma cachoeira atoalhou o pendor da montanha. Foi um momento, e as árvores reassumiram o seu torrão; de novo, porém, a precipitosa alvura d’águas rebrilhou, escachoou para desaparecer subitânea sob o negror do arvoredo.
Que seria aquilo? aquelas fantasmagorias? aquelas vozes vagas? aquelas iterações de claridade e sombra, aqueles movimentos de terra e d’águas inexistentes?
Quedou-se atento, relanceando em volta olhares de assombrado, mas dominou-se, enérgico, e, vagarosamente, caminhou para o terreiro. Sentiu como a presença de seres invisíveis, que o rondavam aereamente roçando por ele brandas, finas plumas de asas. Diante da casa estacou, a olhar airado. No silêncio funéreo por vezes trepidava um estralejo. De longe, das águas adormecidas, das úmidas ervagens, lá embaixo, subia crebro, monótono o coaxo lúgubre dos sapos, e pelas sombras, incessantemente, era um tremeluzir de lumes que faiscavam e morriam.
O negro continha-se, mas o peito enchia-se-lhe de angústia, oprimia-o, abafava-o; a garganta apertava-se-lhe como em estrangulamento, e o coração, inchando, parecia prestes a rebentar. Parou diante da porta.
Era ali que os dois costumavam ficar, à tarde, ele fumando, ela sempre triste, suspirando presságios. Viu-a como em um relâmpago. De repente, rebentaram-lhe as lágrimas dos olhos, e de pé, hirto, impassível, deixou correr o pranto e, enrolando um cigarro, acendeu-o chupando-o aos haustos. De ímpeto, atirou longe o cigarro, ainda olhou saudosamente a casa, toda branca, o alumiado arredor, a acácia, o pomar reluzindo em brilho metálico aos reflexos da lua, e partiu resolutamente, a passos largos, até a vereda íngreme, esboroada em escaleiras e carcavões, entre silvas ásperas, deixando-se escorregar de resvalo em rastolhada estuante pela folharia.
Embaixo resfolegou cansado, limpou o rosto e atufou-se até a cintura no alto maçambará, atravessando a pinguela, oscilante sobre a água rasa do córrego, lenta e cintilando em tremulina argêntea.
Pegando o rumo da covanca, seguiu direito ao rancho de Balbina. Entrou no bananal chapinhando no esponjoso rebalso de lodo e folhas podres, que ressumavam. Desceu a barranca onde a calha gargarejava entre as pedras e, saindo no terreiro, viu luz através das fendas do rancho entaliscado.
Chegou à porta sem ruído, empurrou-a de leve e, sentindo-a ceder, passou de esguelha. Balbina, sentada de costas para a entrada, à beira de um lume de gravetos, cujo clarão alumiava bruxuleantemente os muros, tinha tão pendida a cabeça sobre o peito que, vista assim, por trás, parecia um busto de decapitada.
O negro ficou um momento parado, olhando a baiuca colgada de falripas de sapê, com os caibros negros de tisne luzindo como envernizados. Trapos fraldejavam em cordas; pelo chão espalhavam-se em cascalhada, entre burundangas, palhas, folhas secas, bagaços de cana. Fedia, e o fumo acre da lenha tornava o ambiente estítico, irritante.
Adiantava-se sutil, rente do catre, quando ouviu um rascar serrilhado. Parou atento, olhando; inclinou-se para ver de perto e distinguiu uma forma viva na trapalhagem sórdida. Afastou os molambos e descobriu o corpinho esquálido do infante, inerte, agitando-se, de longe em longe, em vibrações de espasmo. A espaços saíam-lhe da garganta, em gasnitos, borborismos de dispneia.
Os olhos do negro abriam-se desmesuradamente, pasmados, relumbrando, fitos naquela miséria humana que ia tristemente acabando. Teve um pressentimento. O coração bateu-lhe de golpe num afluxo de sangue, atordoou. As pernas afrouxaram-se-lhe, sentia-se como esvaído. Riscou um fósforo, debruçou-se sobre o jirau e, com a luz bem no rosto do pequenito, em halo, via-lhe a cor pálida, os olhos cerrados, a boca entreaberta e lívida, todo o corpinho frágil, o peito ripado de magreza, o ventre túmido, às upas. Tornou com a luz ao rosto e só via a cor, a cor branca. Aprumou-se ereto, sorvendo a haustos o ar, numa sufocação angusta. A criança nem abria os olhos, um como gemido humilde saía-lhe, a instantes, do peito.
— Véia! – bradou Macambira. A negra estremeceu, voltou-se estremunhada e, dando com o negro, sem reconhecê-lo de pronto, pôs-se de pé.
— Cê quem é?
— Macambira. – Ela estatelou estarrecida, com um olhar idiota, a boca aberta. Súbito soprou a candeia que ardia em cima do caixote. Fios de luar zebraram os muros, e o clarão da fogueirinha fez-se ainda mais vermelho.
— Cê apagô a candeia mod’eu?
— Foi vento...
— Vento!?...
— I pra quê luz? Fica assim memo. Lua tá í. Cê quando chegô?
— Que criança é essa? – perguntou o negro de improviso.
Aturdida, a velha não deu resposta, enrolando a trunfa sem atrever-se a levantar os olhos para Macambira, que se conservava imóvel, encarado nela, com o braço duramente estendido, apontando a criança, que agonizava.
— Esse é fio di Lúcia, não é? Fala verdade! Esse é fio di Lúcia? – A velha regougou atônita. Macambira bateu com o pé, rugindo:
— Fala verdade?
— Uai! Cê inda qué zangá cumigo? – Tomou a candeia, acendeu-
— a ao lume dos gravetos e, colocando-a, de novo, sobre o caixote, falou serena: – Dexa, fio: dexa. Morte tá í. Cê não tá vendo? Morte tá í.
Macambira acompanhava com olhar sobrecenho a velha que remancheava tomando e logo deixando objetos.
— Esse é fio di Lúcia, não é? – A criança abriu a boca com um estalido seco de descolamento. Balbina cobriu-a, traçou-lhe sobre o corpo o sinal da cruz. O chirrio da coruja arrepiou asperamente o silêncio. – Oia – disse a velha –, morte tá passando.
— Fala! – insistiu o negro, e ela, sempre macia:
— Dexa, rapaz. Noss’Sinhô tá lá im cima oiando. Má qu’a genti faz é aqui memo qui paga. Dexa. Qué qu’ocê vai fazê agora? – Bateu as mãos uma no outra como a alijar culpa e, esticando o pescoço, com o queixo apontado em esporão, disse: – Qui vai fazê? Tá nu céu, penô di mais. Cê lembra tristeza dela? tá í. Senta, Macambira. Não teve curpa, não. Foi nhô Julinho... – O negro vibrou eletrizado, sapateou de furor, e um urro rouco trovejou-lhe na garganta. A velha prosseguiu mansamente:
— Nhô Julinho rondava ela... moça, bonita... Ela sempre de cara fechada, dando pra trás. Mas uma vez, di tardinha, quasi na véspera du casamentu, ali junto da figuera, nu caminho do açude, ele armô ispera. Lugá deserto, ela só, cumu vai fazê? Ele garrô ela, fez u qui quis i foi s’imbora. Ela pudia contá sinhô, mas pra quê? Cê não lembra Lucinda? Sinhá ficô qui nem jararaca, inda mandô surrá rapariga, largô dipois à toa até Mangalô fazê u qui fez. Quexá pra quê? A ocê sim, a ocê ela divia tê contado, ma ocê sabe: medo, vergonha. Escravidão é assim memo. Genti não vali nada, anda nu mundu à toa, qui nem foia n’água. Qui vai fazê? Sinhô manda. Cê memo, cê vira contra sinhô? Ele manda, ocê faz; cê memo, fio di Munza. Cê não tá í, cativo, quanto mais ela coitada! – O negro resfolegou alto. – Lúcia era boa di coração, Macambira; quiria bem ocê; rapariga séria. Eu vi. Foi mardadi di nhô Julinho. Cê não magina quand’ela mi contô – tava já nas úrtima: sangui correndo, ela sem sinti, chorando e falando, chorando e falando; i jurou. Tamém não disse mais nada, foi qui nem cunfissão.
O negro abateu à beira do jirau, sentado, inclinou-se com os cotovelos nos joelhos, a cabeça nas mãos, e ficou imóvel, apenas as pontas dos pés batiam nervosamente.
— Dexa, Macambira, Noss’Sinhô tá oiando. – Chegou com a candeia ao rosto da criança, viu-lhe os olhos entreabertos, encostou-lhe a mão ao peito, apalpou-lhe as faces, roçou os dedos pela fronte onde os fios penugentos de cabelo punham um reflexo dourado e afastou-se vagarosa. – Oia, Macambira, sai d’aí, criança cabô. – O negro levantou-se, lançou um olhar ao pequenino cadáver e foi sentar-se perto da fogueirinha.
Aproximando o caixote do jirau, Balbina pôs-lhe em cima a candeia para alumiar o defunto, e suspirou como aliviada. Macambira raspava lentamente a fronte com a mão espalmada, os olhos pasmados no lume. As mandíbulas, duramente aperradas, esmoíam cólera; por vezes, fechando os punhos, metia-os pela barba, a finco. A sua respiração era lenta, espaçada, e lufava. De repente, pôs-se de pé, dobrou-se para trás, retesando os braços, e, sem uma palavra, paulatino, seguiu para a porta. Abriu-a largamente fazendo-a estalejar, e todo o rancho estremeceu, frágil, como a um abalo da terra.
— Ond’ocê vai?
Saiu sem responder. Fora, o ar da noite, puro e frio, envolveu-o como em umidade. Levantou os olhos para o céu e ficou como enlevado no luar. A água da calha cantava na sombra, e tudo mais era quiete. Raro, de longe em longe, um soído na erva e trépido, como um latir longínquo, que era o grasnar das rãs e das pererecas nos aguaçais. Relanceou a vista em torno como à procura de um ser vivo naquela imensa inércia que o luar alvo amortalhava. Caminhou.
— Ond’ocê vai, fio di Deus? – perguntou Balbina aparecendo à porta do rancho. Mas o negro já ia longe. Entrou no capinzal, surgiu adiante, num chão liso, desapareceu por fim no coqueiral cujo palmar, muito unido, rebrilhava cintilantemente como um aqueduto abundante corrido sobre colunas.
• • •
Sentado no patamar do escritório, ainda lerdo de sono, um moleque segurava as rédeas do Pampa quando Macambira apareceu em tal desalinho, tão demudado de feições que parecia ter vindo de esforçado trabalho ou de luta renhida. O pequeno levantou estremunhadamente os olhos ramelosos e, estendendo a mão engelhada, murmurou: “Bênção!”
O negro não deu resposta e entrou. Uma mulatinha, que arrumava a secretária, suspendeu o serviço espantada da arrogância do parceiro que olhava do alto, carrancudo, relanceando a sala:
— Quedê sinhô?
— Tá lá dentro. – No mesmo instante, porém, houve um tinir de esporas e Gandra assomou à porta interior, de branco, botas de couro cru, relho ao punho e o largo chapéu de palha com que saía à roça. Dando com o escravo, parou, vagarosamente acendeu o charuto, e, lento, mirando o negro de olhos cerrados, perguntou secamente:
— Que há?
Macambira encarou-o altivo, e o fazendeiro, sentindo o furor que lhe acendia chamas no olhar, logo o atribuiu ao caso de Lúcia. Despedindo a mucama: – Vai-te embora! – Encostou-se à secretária, cruzou a perna e encarou o negro. – Que há? – Macambira não tinha sossego, virando, revirando a cabeça, retorcendo as mãos, mordendo os braços, mascando como animal árdego que tasca desensofridamente o freio, Gandra, impassível, esperava a explosão. De golpe, num jato, em voz surda, o negro perguntou:
— Sinhô viu fio di Lúcia? – Gandra franziu o sobrolho, trincou o charuto sem, contudo, denunciar irritação e serena, pausadamente, respondeu:
— Vi.
— I antonce? – Cruzou violentamente os braços, com um ruído cavo de peito largo. E encararam-se mudos. Gandra tirou o charuto da boca, sacudiu-lhe a cinza e disse em tom macio:
— Olha, eu podia responder-te como costumo... – Fez uma pausa, olhando do alto, a fito, e ordenou em tom seco: – Tira o chapéu. – Só então Macambira se apercebeu da falta de respeito e, humildemente, vexado, descobriu-se. – Eu podia mandar-te embora – continuou o fazendeiro –, não o faço porque vejo que não estás em ti e porque, até hoje, tens sido um bom rapaz. Se eu soubesse do que tinha havido com Julinho, teria sido o primeiro a prevenir-te. Quis que te casasses com a rapariga porque sempre a tive em boa conta: quieta, direita, trabalhadora, a mulher que te convinha. Mas eu não ando aí pelos matos, não me meto com essa súcia, e isso de mulheres quando se desencaminham nem Deus as guarda.
— Mas foi nhô Julinho, sinhô.
— Qual nhô Julinho! Quando a mulher não quer não há homem que a vença. Metem-se na calaçaria e, se apanham barriga, aqui d’El-Rei, botam a boca no mundo! que fulano fez e aconteceu. Ninguém força mulheres. Ou vão por gosto ou ninguém as leva. Esta é que é a verdade, e tu sabes.
— Ela contô tudo a Balbina, antes di morrê, sinhô. Foi nhô Julinho. Sinhô sabe: nhô Julinho não gosta di mim, vive sempre cum pirraça, inticando. Não foi tanto por ela, foi mais mode mi fazê má, tanto qu’ele esperô u pedido di casamento i só depois dela noiva foi que ele abusô.
— E ela? Por que não te disse? Quer dizer que, se não houvesse ficado grávida, teria abafado a pouca-vergonha, não é? Quem a denunciou?
— Noss’Sinhô... – murmurou o negro.
— Qual história! Enganou-te, pagou. Está morta, que mais?
— E eu, meu sinhô? Nhô Julinho não gosta di mim, tem ojiriza cumigo, vancê sabe. Ele fez isso só pra mi fazê má. Tanta muié aí à toa i havia di sê Lúcia, depois di noiva? Vancê não tá vendo tenção? Mode quê?
— E ela! – explodiu Gandra. – E ela, por que não te disse antes? Então a desonra foi o filho, não a patifaria? História: são todas da mesma laia. Uma canalha! Só mesmo a chicote. – E, lembrando-se da ordem que dera a Balbina, e que não fora cumprida, rugiu entre dentes: – Aquela burra vai ver! Vai ver! – O negro remoeu fulo, meteu a mão pelos cabelos, repuxou a barba em estuo de cólera. Gandra passeava: – Tudo uma corja! Piores que porcas!
— É, meu sinhô, é assim memo. Branco é branco, eu já sabia; negro não tem nada, muié di negro é di tudu mundo. Nhô Julinho fez bem. – Ficou cabisbaixo, ruminando. De repente, em voz decidida, impôs: – Então vancê vê minha carta, diz quanto é, eu pago e vou-me embora.
Gandra aprumou a cabeça e, de ímpeto, o olhar faiscante, os lábios lívidos, atirando uma relhada à secretária, rugiu, batendo as palavras entre os dentes cerrados:
— Vais-te embora! – e avançava contra o negro encolhido, ameaçando investida. – Vais-te embora! Então isto aqui é rancho ou que é? Eu estou aqui para ouvir intimações ou para dar ordens? Com quem estás falando?
— Eu não tô intimando, meu sinhô... Mas meu sinhô sabe...
— tartamudeou o negro. Gandra ainda repetiu no estuo da cólera:
— Com quem estás falando?
O negro explicou-se humilhado:
— Meu sinhô sabe... essa gente toda não gosta di mim porque meu sinhô mi trata bem, tem confiança im mim. Agora, com isso, meu sinhô vai vê: toda a gente vai tomá pagode, i um homem tem sangue. Eu não quero fazê uma disgraça, respeito meu sinhô i a casa, mas a gente tem sangue.
— Quem é que te falta com o respeito? Quem é? Se alguém te disser ou fizer alguma coisa, eu estou aqui. E acabemos com isso. O que passou passou. – De novo lembrou-lhe a velha Balbina, culpada de tudo, por não haver enjeitado a criança, como lhe fora ordenado. Aquela burra! Voltou-se para Macambira: – E onde está a criança? Onde a viste?
— Criança morreu. Tá lá nu rancho di Balbina.
— Está lá, hein?
— Tá sim, sinhô.
— Pois sim. – Rilhou os dentes. – Pois está tudo acabado. Vai tomar conta do serviço e, se alguém bulir contigo, vem dizer-me.
— Macambira retirou-se de cabeça baixa, e Gandra pôs-se a medir o escritório a lentas passadas, sacudindo nervosamente o relho. Súbito, numa resolução, saiu, montou a cavalo partindo a galope direito às casuarinas.
• • •
Macambira caminhava a passo, abstraído, deixava-se ir como um sonâmbulo, seguindo instintivamente os volteados caminhos, por entre ramos que gotejavam. A manhã reluzia, fresca e balsâmica, e pelo ar luminoso, de uma transparência de espelho, eram voos felizes e sons de trabalho: rinchos de carros, rangidos ásperos de serra, marteladas e soturno, monótono o bater de um pilão sob o telheiro, na aba da cozinha.
O negro descia resmoneando, gesticulando. Por vezes parava cabisbaixo repuxando um galho de árvore, arrancava folhas e ficava a enrolá-las sorrindo ou de cenho fechado.
Vozes, risos partindo do bambual tiraram-no do pensamento ferrenho. Levantou a cabeça – era um rancho de mucamas, toalha às costas, cabelos soltos ou refoufinhados, brilhando d’água. Vinham em pagode, aos empurrões, à risota. Sentindo-se, porém, observadas, retraíram-se, sérias, cochichando, às cotoveladas umas às outras. Mas uma voz rouquejou entre elas:
— Ah! Já ocês começa co’medo. Medo di quê? Antonce a gente não podi ri? Uai! Quem mandô? Cês já viram cajuero dá banana? Antonce? – E um muxoxo explodiu. Macambira estacou reconhecendo Vaca-Brava. Era a cabrocha que fanfarronava no meio das mucamas.
Como para afrontar o negro, adiantou-se ao bando, apanhou no chão um galho seco e, agachando-se, de mãos nos joelhos, desatou a rir. As outras não se contiveram e espocaram à gargalhada, correndo, ladeira acima, com as toalhas palpitando ao vento que nem asas. Vaca-Brava ficou isolada e, vendo as companheiras longe, bradou-lhes:
— Cês fugiu pra ri? Uai! Sinhô não se importa qu’a gente ria quanto mais... – O negro arfava seguindo, com o olhar em fogo, os movimentos da cabrocha. De repente, arrancando-se de onde estava, a passo largo e decidido, enfrentou-a interpelando-a com desabrimento:
— Cê qué tomá pagode cumigo? Qué? Cê tá mangando? Diz! Cê não s’imenda memo, sua porquera? Qu’é qu’ocê tem di ri?
A negra encarou-o, mediu-o dos pés à cabeça retorcendo os beiços com desprezo:
— Qui é? Qu’é qu’ocê tem qu’a gente ria? É da tua conta? Ora...!
— e deu de ombros.
— Cê tá rindo di mim, cê i essas biraias da tua iguala. Diz: é di mim?
— Sá gente ri é purqui tem di quê.
— Cumu é? – indagou em tom de fúria, corcoveado e, sem mais, abotoando-a pela camisa, sacudiu-a aos sacalões, rasgando-a, e a cabrocha, aos boléus, injuriava-o, cuspia-o, mas, atingida por uma bofetada, atordoou, perdeu o equilíbrio, rolando sobre um canteiro. Macambira levantou o pé, e tê-la-ia açacanhado se ela, coleando com ligeireza de cobra, não escapasse ágil insinuando-
— se no bambual. Então, acovardada diante da cólera, cada vez mais incendida, do parceiro, ameaçou-o:
— Cê bati eu grito sinhô. Cê não bati... – E encolhia-se, escudando o rosto com o braço, a recuar de rasto. O negro mirou-a com desprezo e, chegando-se-lhe muito perto, curvou-se e disse-lhe com a voz em silvo, um dedo hirto, quase a espetar-lhe a cara:
— Oia, cê vai inchendo, vai inchendo até um dia. Tanto faz cadeia cumu senzala, tá uvindo? Assunta bem no qu’eu tô dizendo. Eu t’estripo! Eu t’acabo c’a raça! Vai rindo! Porquera!
A cabrocha levantou-se e, compondo a roupa estraçalhada, meteu-se por entre os bambus. O negro rilhava os dentes vendo-a seguir. E ela resmungava:
— Já viu m’a cosa ansim? Gente vem seu caminho sussegado e um perrengue desses, purque tá di calundu, implica dessa manera. Diabo du tripa murcha! Quem mandô? – E, já longe, voltando-se arremangada: – Cê tá azedo? Pois oia, quem fez cama não fui eu. Qué batê? Bati ni nhô Julinho, ni mim não, que nem tenho nada co’ peixe. Diabo do muxiba! Pelanca só i qué fazê di genti.
O negro atirou uma patada ao solo, bramindo, de punhos cerrados:
— Cê cala essa boca, vagabunda. Oia qu’eu ti pego?
— Pega nada! Bati ni nhô Julinho. Quem mandô cumê resto? Cê n’é valentão? Bati ni nhô Julinho. – E foi-se, gingando, a apartar os ramos às braçadas. Ele não se tirou do lugar, olhando, como encandeado. Então pareceu-lhe que tudo, em torno, entrava na assuada aviltante: a aguazinha do rego, serpeando em meandros, estribilhava hílare; as folhas pareciam convulsionadas de riso, tremendo nos ramos à aragem; e eram aves que remontavam, desciam, descrevendo círculos, chilreando como se o apupassem, borboletas em voos zombeteiros roçando-lhe quase o rosto; um beija-flor pairou tão perto, com um ruflo de troça, que ele, instintivamente, desviou a cabeça e enxotou-o; calangos fugiam ágeis, rastolheiros, como se também o houvessem chasqueado e, medrosos da sua fúria, corressem a entaliscar-se; um bem-te-
— vi troteava no topo de uma palmeira; o próprio sol, lá em cima, rútilo, tinha esgares sarcásticos. Era tudo. Ele relanceava olhares esgazeados, remoendo ideias de vingança, pensamentos de ódio. Sentia o peito túmido, harto, o sangue pulsando a estos; um fogo incendiava-lhe o rosto, queimava-lhe os olhos; os ouvidos atroavam zoeira. Voltou-se para a casa dos senhores, clara ao sol: lá estavam as mucamas na varanda, rindo. Biraias! Meneou com a cabeça e, cruzando os braços, vencido, desceu vagarosamente, pensando:
“Ah! reino d’África, gente negra, guerreiros dos palmares...! Fosse lá! Como aquilo tudo ficaria, duma hora para outra, com os devastadores de aringas! Um mundo de gente desapoderada, arrojando-se aos tropelões pelos caminhos, saindo de ímpeto dos matos, resvalando pela encosta das barreiras, gente de guerra, com cocares na grenha, brandindo armas, mulheres aos ganidos, correndo em fúria, com os filhos enganchados à cinta e azagaias em punho, feras fremindo e nuvens de frechas silvando; a casa cercada, assaltada, invadida de roldão, com estrondo; portas fendidas a machado, paredes derrubadas, e a turba, em sanha frenética, apinhando-se no delírio do excídio, patejando em sangue e escombros; e o fogo, por fim, labaredas altas, rubras, envolvendo a casa, lambendo o ar, expluindo de rolos de fumo espesso; e a grita triunfal dos negros nus, o som rouco das buzinas, o tripúdio selvagem em volta do incêndio onde estralejavam caibros e estouravam corpos como lenha verde nas fogueiras de S. João. E ele, senhor de tudo, dono da terra, rei! espalhando gente por campo e monte, pondo guardas nas estradas, sentinelas nos coqueiros e arrasando, incendiando, vingando a raça, o seu reino, Munza, o seu ódio e o sofrimento secular d’África.”
Enlevado no sonho sorria transfigurado e o sol punha-lhe no rosto rebrilhos como de bronze. Sacudiu nervosamente os braços acima da cabeça num gesto de triunfo, aclamando o seu povo. Ficou extático; pouco a pouco, porém, reentrando na realidade, deixou pender a cabeça, quedando imóvel. Logo, porém, reagindo, pôs-se firme, com um ricto bravio; cravou os olhos na casa senhorial, depois, numa volta rápida, lançou a vista para a colina. Lá estava a sua casinha deserta, branca como uma nuvem, entre o arvoredo lustroso. Pôs-se a caminho.
Passou pelas casuarinas, entrou no campo. Um cavaleiro apontou ao longe: era Manuel Gandra. Reconhecendo-o, o negro meteu-se no mato acocorado, à espreita, o ouvido atento. O sangue afluiu-lhe à cabeça: teve ímpeto de saltar ao caminho, agarrar o freio do cavalo, derrubar o senhor, estrangulá-lo ali mesmo; mas o animal passou muito faceiro na marcha esquipada, com o fazendeiro direito na sela, segurando o relho fincado na coxa. Levantou-se e saiu e, repuxando lentamente a barba áspera, arrependeu-se de não haver ousado o assalto.
O campo estava deserto e cheirava a calor. Longe, à beira do córrego, um velho boi pastava. Anuns piavam voejando de galho em galho. Seguiu direito à covanca.
O rancho era ainda mais miserável à luz do dia – viam-se-lhe toda a arruinada pobreza e a imundície. A porta estava aberta. Entrou. Dentro, a penumbra tinha rasgões de sol e um cheiro azedo e úmido. Pouco a pouco, os objetos foram ressaindo como se surgissem do escuro, a sombra tornava-se transparente: lá estava tudo; o jirau, o caixote, as prateleiras, panos em cordas, o brasido morto, em cinza. Um ofego, quase gemido, arquejava angustioso. Ele olhou buscando em torno.
— Véia?
— É ocê, fio? – A voz saiu de uma trouxa que jazia a um canto.
— É ocê, Macambira?
— Qu’é qu’ocê tem? Tá gemendo?
— Foi sinhô. Sinhô veio aqui, bateu eu, pisô. Tá cega, fio. Mode quê vasô vista. – Macambira pôs-se de cócoras perto da negra, toda enrolada em molambos, e, tateando, tocou-a. Ela tomou-lhe a mão, levando-a à fronte. O negro teve um arrepio, sentindo uma protuberância úmida.
— Esse é sangui?
— É.
— Cê não vê?
— Não vê, não. Sinhô rumô modi criança; mandô interrá. Cê foi dizê... – O negro teve pena e, esquecido de si, pela piedade que lhe inspirava a velha, que era a sua raça, a história viva do seu reino, levantou-a e, quase nos braços, foi levando-a devagarinho para o terreiro. À luz do sol, a negra encolheu-se, baixou a cabeça, tapando os olhos com as mãos.
— Dexa vê.
— Dói, fio. – Docemente, porém, ele afastou-lhe as mãos e descobriu-lhe a fronte em sangue tumefacta, encalombada e, sobre os olhos, em pasta, sangue e terra. Guiou-a até a calha, sentou-a em uma pedra:
— Oia, lava aí. – A velha curvou-se e, estendendo à água as mãos em concha, pôs-se a banhar a testa, os olhos. Levantou, por fim, o rosto deformado e, forçando as pálpebras inchadas, entreabriu-as pesadamente.
— Tá vendo?
— Tá. – E voltava a cabeça de um lado para outro, afirmando a vista. – Vê, sim.
Houve um silêncio.
— Criança morreu memo?
— Morrê.
— I antonce?
— Sinhô mandô interrá lá im cima, ni cafezá véio. Cê qué í pra mim, Macambira?
— Vou.
— Antonce junta tudo. Leva já. Sinhô achando ele aí... uhm! – O sangue expluiu de novo, escorrendo para os olhos. Inclinou-se à calha e, lavando a ferida, recomendava: – Imbruia num pano i vai.
— Macambira entrou no rancho, apanhou o cadáver frio, embrulhou-o em trapos e saiu.
— Onde tá inxada?
— Oia aí perto da porta. – Lá estava. Tomou-a, sobraçando o fardo fúnebre, enxada ao ombro, onde recomendou à negra:
— Vai lavando firida i depois botá vum-vum-vum. Foi só na testa. Eu vou indo.
— Vai cum Noss’Sinhô.
— Té logo.
— Té logo.
• • •
O cafezal velho esmarria num lançante de morro de terra seca, exausta, afofada pelas formigas. As árvores excídias, de galhos avaretados, pareciam raízes invertidas; aqui, ali resistia ainda uma folhagem verde, mas enredada de ervas parasitas; e o mato exúbere alastrava afogando os troncos. Altas gramíneas penachudas esfiavam paina ao vento, e o sapê cerrado, denunciando a anemia do solo fatigado, flexuava crepitando como a um fogo latente.
O negro metia-se pela coivara viva evitando os claros para que o não descobrissem, e procurava um sítio escuso onde fizesse a cova quando, voltando-se, avistou, na colina fronteira, a sua casinha. Ficou a olhar enternecido, com o coração aos embates, recordando o que passara, os dias de ventura na traição.
O sol queimava, e, embaixo, toda a campina rasa como que expirava um fluido trêmulo através do qual tudo vibrava, como em paroxismo.
Árvores, floridas de amarelo e roxo, manchavam alegremente a mata, e, ao longo do córrego cintilante, os lírios lânguidos estendiam duas orlas alvacentas.
Os caminhos reticulavam a campina, subiam pelos outeiros em fitas coleantes, e ele reconhecia-os, sabia-lhes o rumo e entrava por eles em pensamento até ranchinhos de parceiros, tejupares de roça, fontes entre inhames e samambaias, grotas e culturas.
Lá longe, no azulado da distância, era a Barra, e além, alta no horizonte, a serrania dos mocambeiros. Subiu mais.
A terra mole, solta, corria-lhe esfarelada sob os passos ou os pés se lhe afundavam em cômoros balofos de onde saíam aos borbotões formigas assanhadas. Bojudas casas de maribondos formavam negros tumores em galhos, ninhos pendiam em corbelhas ou entalavam-se em forquilhas de ramos. Por vezes, fugitivamente, um lagarto restolhava arisco ou era um rápido esfiar de cobra insinuando-se no capinzal. Por fim, num limpo, escondido por um cerco de árvores, pousou o fardo e pôs-se a cavar.
A terra cedia, friável como areia seca, e, em pouco, com esforço fácil, a cova estava aberta, larga e funda bastante para o pequeno corpo.
Então desembrulhou o cadáver, descobriu-o e, de cócoras, ficou-se a mirá-lo. Parecia de cera, engelhadinho, com a face manchada de roxo, as mãozinhas enrugadas como de frio. Cheirava a azedo, e da boca entreaberta esputava, em fio, um muco diáfano. O negro lembrou-se de Lúcia e recompôs lascivamente o crime do senhor moço, a infâmia contra a sua honra, a vilta covarde, lá embaixo, na sapopemba da figueira-brava. Assim se fizera aquele corpo que ali estava. E os olhos abriram-se-lhe fitos no cadáver, como à espera de um prodígio.
As formigas chegavam metendo-se pelos trapos úmidos e fétidos, já percorriam o corpo inerte, explorando-o. Ele enxotou-as; voltaram em maior número, entrando pela boca exsudante, pelos ouvidos, fervilhando em volta dos olhos vítreos do defunto. O negro irritou-se e, com um molambo, sacudiu os insetos contumazes. Tomou, então, o cadáver, depô-lo no fundo da cova e, com as mãos, empurrou a terra, cobrindo-o.
Aplainada a cova, bateu-a com a enxada, depois, para que não ficasse vestígio, puxou folhas secas e galhos, espalhou-os em cima e levantou-se. Doía-lhe o dorso, e o sol, dando-lhe em cheio, fazia-
— lhe reluzir o rosto suado.
Olhou em torno assegurando-se da solidão, depois plantando-
— se sobre a cova, pôs-se a sapatear em cima, calcando-a, para que os tatus não a profanassem. Concluída a tarefa, raspou o suor da fronte, tomou a enxada e desceu.