O 14 de Julho — Festas Oficiais — O Sião
Paris está amuado com a República. E, para mostrar bem visivelmente o seu despeito, não embandeirou, não iluminou, não dançou e não berrou, na festa nacional de 14 de julho. Nunca tivemos, com efeito, um 14 de julho mais silencioso, mais apagado, mais vazio, mais descontente:--acrescendo que o sol também amuou e o horizonte todo apareceu colgado de longas e fuscas nuvens de crépe. Nas ruas, desertas, com a sua poeira imperturbada, só aqui e além alguma bandeira tricolor pendia, esmorecida, da varanda das repartições ou dos cafés. Nenhuma guela entusiasmada rouquejava a Marselheza. As filas de fiacres dormiam pelas esquinas. E o préstito do Sr.. Carnot e da revista de Longchamps pelos Campos Elysios, entre esquadrões de couraceiros, trazia a lentidão e a gravidade enfastiada de um enterro cívico.
Nem um Vive Carnot! Nem uma palma ao velho Saussier, governador militar de Paris, e ao seu muito emplumado estado-maior! E quando Paris não aplaude os penachos--é que Paris está realmente macambuzio.
Uma tal taciturnidade, uma tal apatia não provém só dos parizienses estarem despeitados, porque a policia republicana e o governo republicano os acutilaram consideravelmente. É certo que em cada bairro se formou uma comissão para desorganisar a festa e promover uma melancolia de protesto:--mas essas comissões só impediram luminárias que já estavam decididas a não iluminar, e só fecharam nas gavetas bandeiras que realmente nunca tinham tencionado tremular. A verdade é que Paris e a França cada vez se desinteressam mais da festa de 14 de julho. Ela nunca foi essencialmente popular. Se o povo dançava, é porque o Estado lhe estabelecia uma orchestra nas praças, entre lanternas chinezas:--e onde quer que haja uma flauta e uma rebeca, com luzes entre verdura, imediatamente raparigas e rapazes se enlaçarão para uma polka. Mas espontaneamente, se o Estado não fornecer a orchestra (como sucede desde os últimos anos) não ha povo que a alugue e que dance só porque em certo dia, ha cem anos, se derrubou uma certa fortaleza. Em que póde a tomada da Bastilha entusiasmar o povo? Querem dizer que ela era a suma e o simbolo do despotismo monarchico e do direito divino. Mas esse despotismo, na Bastilha, só se exercia sobre os fidalgos. A plebe não gozava a honra de ser encarcerada na Bastilha. Se a sua destruição deve regosijar uma classe, será a classe nobre, a aristocracia do bairro Saint Germain. A essa competia alugar a orchestra e polkar no dia 14 de julho. Em vez de isso, a aristocracia, em essa data ilustre, volta a face com tédio, cerra as vidraças, foge para o campo, a esconder-se nos parques. Lamenta portanto a perda da Bastilha. Quereria ainda, no meio de Paris, as quatro grossas torres onde pudesse ser sepultada pro vita ao bel-prazer de El-rei. Ora, se a aristocracia, que é a interessada, não se regosija com o dia que a libertou--porque se há de regosijar o povo de Paris?
Além de isso, festas decretadas, impostas por lei, nunca se tornam populares, nem duram, porque são horrivelmente fictícias. É o que sucede com os aniversários de Constituições. Nos primeiros tempos, quando ainda vivem os homens que fizeram a Constituição, lá se vão pondo pelas janelas alguns molhos de bandeiras, e lá se acendem algumas centenas de lanternas, que fazem sair á noite para a rua as famílias, a «gozar a iluminação». Depois os anos passam, pouco a pouco se vai esquecendo o facto mesmo de que existe uma Constituição, a municipalidade diminue as lamparinas, já ninguém sáe á rua, e a data gloriosa só fica interessando os estudantes que têm feriado. Em Lisboa, a festa da proclamação da Carta Constitucional está reduzida a quatro lampeões muito baços e muito tristes, que se penduram no alto do Castelo de S. Jorge. Já ninguém sabe mesmo que ha uma festa. Na verdade, já ninguém sabe que ha uma Carta Constitucional.
Festas nacionais, festas para celebrar uma ideia ou um facto histórico, nunca causarão no povo entusiasmo, nem o tornarão festivo, porque o povo não se importa, nem com ideias, nem com a historia, é por natureza simplista, só se move por sentimentos simples e individuais, e assim como só se afeiçoa a individuos, só comprehende festas celebradas em honra de individuos. Por isso, as únicas festas que profundamente animam o povo, são as religiosas, as dos santos. Para o povo, os santos, os santos populares e democratas, como S. João, S. Pedro, Santo Antônio, são individuos que ele conhece, com quem conversa nas orações, com quem convive, que tem dentro de casa sobre o altarinho domestico e de quem recebe constantemente serviços e patrocínio. A vida de esses santos, as suas façanhas, a sua face barbada ou rapada, as suas vestes, os seus atributos, tudo lhe é familiar--e eles são como verdadeiras pessoas de família, ligadas a toda a histoira domestica, e por isso profundamente amadas. Quando chega o dia da sua festa, os «seus anos», é com genuíno fervor que se arranjam ramos de flores, e se cozinha um prato de dôce, e se acendem á noite luminárias, e se dança no terreiro, e se atiram alegres foguetes. A folgança de cada lar faz o festival de toda a cidade;--e é o doce amigo, o padroeiro que está no céu, que se celebra com carinho, na certeza que ele vê a festa, e se mistura a ela do alto das nuvens, e sorri de reconhecimento e ternura aos seus amigos da terra. Mas se, em vez de S. João ou de S. Pedro, fosse imposto ao povo o dever de celebrar um grande acontecimento da Egreja, como a conversão de Constantino ou os artigos do concilio de Nicéa, não haveria nem uma luminária, nem um foguete. E o povo diria com razão:--«S. João é um amigo meu, muito intimo, cuja imagem eu tenho á cabeceira, a quem devo favores e que festejo com imenso prazer; mas essa Nicéa que eu não sei onde é, e esse Constantino com quem nunca travei relações, não valem para mim o preço de uma lamparina.»
É o que sucede com as festas nacionais por acontecimentos públicos. Pertencem muito ao domínio dos princípios e aos movimentos sociais para que o povo, que é todo individualista, sinta por eles a menor migalha de entusiasmo ou carinho. Para que a República pudesse ter uma grande festa, devia organisal-a em favor de um grande republicano. Mas aí é que está a dificuldade. Qual grande republicano? Nenhum reune a admiração unanime.
Se se decretasse a festa de Robespierre, todos os liberais-girondinos protestariam com furor e haveria sangue.
Se se decretasse a festa de Danton, todos os jacobinos auctoritarios desceriam á rua com cacetes. Em verdade vos digo, só o céu nos envolve a todos, e só S. João póde ser festejado sem descontentar a ninguém.
Ha, ao que parece, uma grave, muito grave novidade internacional.
A França e a Inglaterra estão arrufadas. Mais: estão franzindo terrivelmente, uma para a outra, o sobr'olho e falando com azedume de casus belli. Este latim, que significava outr'ora caso de guerra, quer apenas dizer hoje, na moderna linguagem internacional, que dois amigos se zangam, se tratam de pulhas e malcreados, se mostram mutuamente o punho, e mutuamente se voltam as costas.
Este rompimento de relações entre a França e a Inglaterra, tem por motivo o Sião. O Sião é um reino do Extremo Oriente, muito rico, e portanto muito apetecível. Tem um rei bastante curioso, segundo se deprehende da sua fotografia, porque da cinta para cima anda vestido á chineza, e da cinta para baixo á Luiz XV! E todo o reino, ao que dizem, participa assim da Asia e da Europa. As suas fortalezas oferecem uma architectura fantasista de magica--e estão armadas de canhões Krupp. Além do seu rei, Sião possui toda a sorte de riquezas naturais, em plantações e em minas. É portanto um delicioso e proveitoso paiz para possuir. Se eu tivesse meios de me apoderar de Sião, já esse reino seria meu, e eu exerceria lá os meus direitos de conquistador com doçura e magnanimidade. Mas não tenho meios de me apoderar de Sião. A França tem. A Inglaterra também. E ambas, muito naturalmente, se encontram ha anos em esses confins do Oriente, lado a lado, com o olho guloso cravado sobre Sião. E não as censuro. Eu próprio, como disse, se possuisse exércitos e frotas, teria já empolgado Sião. O animal inconsciente foi posto sobre a terra para nutrir o animal pensante--e por isso com bois se fazem bifes. Os paizes orientais são feitas para enriquecer os paizes ocidentais--e por isso com os Egyptos, os Tunis, os Tonkins, as Cochinchinas, os Siãos (ou Siões?) se fazem para a Inglaterra e para a França boas e pingues colonias. Eu sou civilisado, tu és bárbaro--logo, dá cá primeiramente o teu curo, e depois trabalha para mim. A questão toda está em definir bem o que é ser civilisado. Antigamente, pensava-se que era conceber de um modo superior uma arte, uma filosofia e uma religião. Mas, como os povos orientais têm uma religião, uma filosofia e uma arte, melhores ou tão boas como as dos ocidentais, nós alteramos a definição e dizemos agora que ser civilisado é possuir muitos navios couraçados e muitos canhões Krupp. Tu não tens canhões, nem couraçados, logo és bárbaro, estás maduro para vassalo e eu vou sobre ti! E este, meu Deus, tem sido na realidade o verdadeiro direita internacional, desde Ramézes e o velho Egypto! Que digo eu? Desde Cain e Abel.
Em virtude, porém, de um respeito inato pelas exterioridades (que data da folha de vinha) os homens crearam ao lado de este descarado direito internacional um outro, o direito ceremonial, todo cheio de fórmulas e de mesuras, e segundo o qual não é permitido a qualquer nação apoderar-se de outra com a simplicidade com que em uma estrada uma criança colhe um fructo. Hoje está estabelecido, entre os povos civilisados, que para que o forte ataque e roube o fraco, é necessário ter um pretexto. Tal é o grande progresso adquirido.
Ora a França acaba de achar, com jubilo imenso, o pretexto para cahir sobre Sião. O pretexto é múltiplo e complicado: ha uma vaga questão de fronteira em uma região chamada Mekongo; ha uma canhoneira que ia subindo um rio e que apanhou um tiro siamez; ha um marinheiro que foi preso, ou que cahiu á água; e ha uns siamezes que berraram hu! hu! Tudo isto é gravissimo. Parece também (e isso infelizmente é doloroso) que houve em tempos um negociante francês assassinado. E sobretudo sucedeu que uns oficiais siamezes arvoraram a bandeira de Sião por cima da bandeira da França. Se não foram eles--foram seus pais, como disse o lobo ao cordeiro. Emfim, o que é certo é que o povo francês necessita, para sua honra, vingar a afronta feita ao pavilhão tricolor. E não ha dúvida que os dias de Sião acabaram. A França tem o seu pretexto. Adeus meu bom rei de Sião, vestido da cintura para cima á chineza e da cintura para baixo á Luiz XV!
Calculem, pois, o furor da Inglaterra! Havia longos tempos que ela se instalara ao pé de Sião, á espera de um pretexto para devorar aquele belo bocado do Oriente--e é a França, a nação entre todas rival, que apanha o pretexto! É contra a França, não contra ela, que os siamezes berraram hu! hu! É sobre a bandeira da França, não sobre a de ela, que os oficiais siamezes hastearam imprudentemente a bandeira de Sião! É a França emfim que está na deliciosa posse de estas afrontas, que saboreia a preciosa felicidade de ser insultada--e que portanto tem o rendoso direito de se vingar! Tanta fortuna não deve ser tolerada--e a Inglaterra não a tolera. E já o declarou, através dos seus jornais, através do seu parlamento:--«Uma vez que em esta ocasião Sião não pôde ser para mim, também não será para ti! Que a França faça o que julgar necessário á sua honra, mas que não toque, nem com uma flôr, na independencia de Sião! A autonomia de Sião é coisa sagrada. O mundo, para permanecer em equilíbrio, precisa que Sião seja livre. Sião só para Sião (desde que não póde ser para a Inglaterra). E se a França atentar contra a independencia de Sião, ás armas!» Eis o que diz, em um dizer mais diplomático e solene, aquele excelente John Bull.
E aqui está como, de repente, por causa de um pedaço de terra e de um pouco de minério, duas grandes nações, guardas fieis da civilisação e da paz, se assanham, ladram, investem, como dois simples cães vadios diante de um velho osso.
O que mais uma vez prova a suprema unidade do Universo, pois que nações, homens e cães, todos têm o mesmo instincto, o mesmo pecado de gula, e, diante do osso, o mesmo esquecimento de toda a justiça.