Os Anarquistas — Vaillant
Desde que nos não vimos, caros colegas e amigos, este velho mundo foi de novo abalado por uma bomba anarchista, a bomba de Vaillant.
Esta, porém, não causou os estragos, em pedra e cal, da bomba já clássica e quase simbólica de Ravachol; nem fez também a devastação mortal da bomba espanhola do teatro de Barcelona.
A bomba de Vaillant apenas deteriorou alguns veludos de poltronas e pedaços de estuque dourado; e o único ferimento perigoso que causou (e hoje curado) foi o de um primo intelectual do anarchismo, de um socialista neo-christão, o doce abbade Lemire. Mas espalhou um terror mais intenso que as de Ravachol ou a dos espanhóis, porque, pela primeira vez, a sociedade sentiu a temerosa dinamite arremessada contra um dos seus grandes órgãos vitais, contra o centro regulador das suas funções, contra o parlamento! As outras bombas só pretenderam destruir prédios ricos, como sendo as formas mais materialmente palpaveis do capitalismo; ou então burguezes abastados, no ato de gosarem um luxo que ofende especialmente a miséria--o da Opera. A bomba de Vaillant porém estoura com imprevista audácia sobre o «seio augusto da Representação Nacional». em uma república parlamentar, o parlamento é o rei. Portanto Vaillant verdadeiramente cometeu um regicídio. E não ha crime que impressione mais do que o regicídio, porque em uma sociedade onde se não eliminou inteiramente a ideia de que o chefe é pai, ele participa da natureza do parricídio.
De certo sabem, pelo telégrafo, pelos jornais, a historia do feito. No Palais-Bourbon, estando a camara em sessão e um deputado na tribuna, Vaillant atira a sua bomba, composta de pregos e polvora verde, dentro de uma caixa de lata, que bale em uma coluna, estala no ar antes de cahir. Densa fumarada, gritos, terror, tumulto--e immediamente, também, entre os deputados, aquela serenidade corajosa, ainda que um pouco affectada, que é uma tradição das assembleias francesas, acostumadas desde 1789 a ser invadidas, assaltadas e mesmo espingardeadas pelas plebes em revolta. Todas as portas do Palais-Bourbon se fecham--e as salas das comissões são convertidas em ambulâncias, onde, sobre colchões trazidos á pressa de um quartel, os feridos recebem curativos sumários. Entre esses feridos ha um, com pregos espetados nas pernas, que hesita ao dar o seu nome e o seu endereço, e que desperta portanto o faro embotado da policia. É conduzido ao hospital por dois agentes que se estabelecem ao lado da cama, e começam com ele, amigavelmente, uma conversa hábil sobre anarchistas e fabricação de bombas. O ferido, por um de esses impulsos de vaidade bem francesa, bem humana (e que Balzac se deleitaria em notar) alardeia logo o seu conhecimento intimo com os chefes do anarchismo e com os processos empregados na composição das bombas. Os outros encolhem os hombros, negam a sua competência. E o homem irritado com a contradição termina por gritar:
--Pois bem, fui eu! Fui eu que deitei a bomba! Viva a anarchia! E agora não me massem mais, que quero dormir.
Era Vaillant. E sabem, de certo, também que foi condemnado á morte--por um juri que se mostrou feroz, para que em Paris, e sobretudo no seu bairro, não o suppuzessem medroso. O que é ainda bem francês e bem humano.
A bomba de Vaillant e a sentença que condemna Vaillant á morte, sendo dois atos no fundo idênticos, porque ambos procuram aniquilar um principio pela violência--são também dois atos absolutamente inúteis.
em um crime como o de Vaillant entram, em resumo, três impulsos ou motivos determinantes. Primeiramente ha um desejo de vingança, todo pessoal, por misérias longamente padecidas na obscuridade e na indigência. Ha depois o apetite mórbido da celebridade--como o prova o facto de Vaillant, nas vésperas de lançar a bomba, se ter fotografado, em uma atitude arrogante, voltado para a posteridade. E emfim ha o propósito de aplicar a doutrina da seita, que, tendo condemnado a sociedade burgueza e capitalista, como único impedimento á definitiva felicidade dos proletários, decretou a destruição de essa sociedade. Só este lado sectário do crime particularmente nos interessa quanto á sua inutilidade. (Porque, pelos outros dois lados, o ato não foi inutil, visto ter Vaillant realisado a sua vingança e alcançado a sua celebridade).
Aqui temos pois Vaillant, como anarchista, com a sua bomba na mão, preparado a demolir, para vantagem do proletariado oprimido, um bocado da sociedade que o oprime, alguns dos seus membros mais activos e potentes, e portanto, para ele, mais opressores. Lança a sua bomba--e suponhamos que, causando um máximo inverosimil de destruição, ela mata os seis ministros, aniquila os quinhentos deputados, e arrasa o edifício do parlamento! Que sucederia? Que vantagens traria este feito estupendo ao proletariado escravisado, e que prejuízos causaria á sociedade escravisadora? Primeiramente espalhar-se-ia por toda a Europa um terror, uma comoção maiores (porque hoje somos mais sensíveis, e o telégrafo e a reportagem dão um alimento mais pronto e mais abundante a essa sensibilidade) que a comoção e o terror causados pelo terramoto de Lisboa em 1755. Depois, imediatamente, o poder executivo, que não fora demolido, nomearia um ministério em substituição do ministério assassinado; e esse novo ministério, mesmo assumindo provisoriamente a dictadura, fixaria uma data para que a nação elegesse uma camara nova em substituição da camara desbaratada. Em seguida a França faria aos mortos funerais magníficos. Vaillant seria guilhotinado, visto não existir, mesmo para crime tão prodigioso, pena mais completa que a guilhotina.
O governo decretaria terríveis leis de repressão e, com o apoio entusiasta do paiz todo, os anarchistas seriam perseguidos, em montarias, como lobos. O Estado reedificaria o edifício do parlamento em condições mais seguras, e com linhas de certo mais belas. E finalmente de novo a camara se reuniria no seu novo edifício, e o tempo, que é um grande apagador, iria apagando a impressão pungente da catástrofe, e os pobres sofreriam as mesmas necessidades, e Rothschild gozaria os mesmos milhões, e a sociedade burgueza e capitalista continuaria o seu movimento sem ter perdido um átomo do seu capital e do seu burguezismo. Do feito horrendo, só restariam, pelos cemitérios do Père-Lachaise ou de Montmartre, algumas viúvas chorando. E o proletariado anarchista que teria conseguido? O ódio insaciável dos egoístas, a desconfiança dos próprios humanitários. E teria ainda logrado criar, para sua confusão e maior humilhação, ao lado da classe já desagradável dos martyres da liberdade, a classe, ainda mais desagradável, dos martyres da autoridade. De sorte que estas bombas arremessadas contra a sociedade, mesmo quando tivessem meios destructivos que são hoje ainda inconseguiveis com a nossa limitada sciencia, nunca passariam, relativamente á força e estabilidade de essa sociedade, de atos impotentes e tão inúteis como bolhas de sabão lançadas contra uma muralha.
A isto replicam os anarchistas:--«Assim é, mas nós não pretendemos destruir, desejamos só aterrar!» Raciocínio vão. O que significa, em este caso, aterrar? Significa provar, pela experiencia de uma pequena destruição, a possibilidade de uma destruição imensa? Significa inspirar á burguezia, demolindo-lhe um prédio e matando-lhe três membros, o temor de que lhe possa ser arrasado um bairro e desfeitos em estilhas três mil dos seus representantes? Mas está comprovado que, por maiores que sejam essas devastações pela dinamite, mesmo quando subitamente por uma de elas pudesse desaparecer todo o poder executivo e todo o poder legislativo, os milhões de burguezes que governam e que conservariam intactos o seu exercito, o seu ouro, todas as suas forças, não consentiriam em abdicar de direitos que eles consideram como quase divinos e os únicos capazes de manter ordem e segurança nos agrupamentos humanos. É a eterna inutilidade do regicídio, que, matando o homem, não mata o sistema.
O nihilismo russo experimentou essa inanidade da violência: um czar era assassinado, logo outro era coroado, que do próprio crime cometido sobre o pai parecia tirar um acréscimo de força e como uma nova sancção. Por isso Proudhon, que o anarchismo venera como um de seus santos-padres, prégou constantemente contra o tiranicídio, contra as tendencias tiranicidas dos jacobinos do segundo império (hoje homens de poder e auctoritarios) como prégaria, se vivesse, contra a bomba dos anarchistas, por constituir uma outra fórma de tirania, e ser sobretudo um tão lamentável desperdício de energia heroica.
Mas, por outro lado, se a bomba de Vaillant e de muitos Vaillants, é impotente para arrasar, ou mesmo aterrar eficazmente a sociedade burgueza--a sentença que condemna á morte os Vaillants é impotente para suprimir ou sequer assustar o anarchismo. Com estas sentenças, inspiradas por um dever e por uma esperança, o dever fica de certo cumprido porque o criminoso fica castigado; mas a esperança não se realisa, porque nem os anarchistas diminuem, nem se tornam mais raros ou mais tímidos os seus assaltos contra a sociedade. Pelo contrario! Está demonstrado, e pela própria policia, que, desde as primeiras bombas e portanto desde as primeiras repressões, o numero dos anarchistas tem crescido na proporção formidável de um para mil; e enquanto que a primeira bomba foi lançada contra um simples prédio, a última é já arremessada contra o próprio parlamento em sessão, exercendo soberania. O que era um bando está organisado em seita.
E ódios dispersos, operando sem método e sem dogma, fundiram-se em uma religião (ou, se quiserem, em uma heresia) em que o ódio de certo é ainda um factor, mas em que é um factor maior o amor, o amor dos miseráveis e dos oprimidos, e que portanto por este lado tem uma grande força de propaganda e uma segura condição de vitalidade. Sobre esta seita, a que bem podemos chamar religiosa (ou, se querem, herética) as sentenças de morte não têm acção, porque não fazem mais que vibrar um golpe unicamente material sobre o que é imaterial, a crença, e assemelham-se portanto a cutiladas atiradas ao vento. A guilhotina decepa uma cabeça, mas não atinge a ideia que dentro residia. Durante um momento, é certo, á força de buscas, de prisões, que são acompanhamento usual da sentença, a seita fica desorganisada, desconjuntada:--mas para imediatamente se reorganisar além, mais numerosa, mais fanatisada, por isso que vem de padecer uma perseguição. Tais sentenças não têm senão o efeito desastroso de criar martyres. Ora não ha semente mais fecunda que uma gota de sangue de mártir, sobretudo quando cai em um solo tão preparado para que ela fructifique, como é a alma especial dos humanitários que chegaram á exacerbação do humanitarismo, não por teoria, mas através de realidades dolorosas e de uma experiencia constante das misérias servis. Pense-se o que será (quando um Vaillant é guilhotinado) uma reunião secreta de anarchistas, dos verdadeiros, os puros, de esses milhares de operários de coração generoso e exaltado, para quem o anarchismo é a verdadeira redempção da humanidade, e que admiram no homem que se sacrificou por essa ideia santa um mártir do amor dos homens! O juri só viu o bruto que quis matar: eles só veem o justo que quis libertar. em uma tal reunião, onde cada um traz a sua cólera e a sua maldição, é inevitável que alguma alma mais violenta se inflame, apeteça também o martírio, e corra de ali a fabricar a nova bomba, que na sua ilusão quase mistica concorrerá a remir o proletariado. Aqueles que não podem morrer pela causa querem ao menos sofrer de algum modo por ela, e pela sua justiça. Entre os anarchistas presos recentemente havia um que se fizera gerente responsável de um jornal anarchista, só para ter gloria, o prazer espiritual de sofrer os meses de prisão em que os redactores incorressem pela violência das suas imprecações. Por isso o anarchismo, como a primitiva seita christã, tem já os seus «Atos dos Martyres». A vida e suplicio de Ravachol andam escritos, e são meditados como mais puro exemplo da fé e da confissão anarchista. Todos os objectos que pertenceram a Ravachol ganharam o caráter augusto de relíquias. Ha um cântico a Ravachol--a Ravachole. E cada coração anarchista lhe é um altar.
As perseguições, as execuções, em logar de diminuirem a seita, só lhe comunicam uma vehemencia mais devota e portanto mais perigosa. E quando a sociedade mata os anarchistas--é a sociedade que fabrica as bombas.
A violência não cura--e o anarchismo é uma doença. O anarchismo é uma exacerbação mórbida do socialismo.
O gérmen e os desenvolvimentos de esta doença não são difficeis de precisar. No antigo regímen, o proletariado, mantido em servidão dentro de uma organisação social muito forte, colocara sua esperança de felicidade, não já em esta vida e ele via irremediavelmente votada á pena, mas a outra vida, para além da campa, como lho recomendava a Egreja, sua mãe e sua educadora, dando-lhe como garantia a promessa de Jesus que reservava para os pobres o reino do céo.
em este nosso século porém o proletário, doutrinado pela classe media que se tornara desde 1789, em substituição á Egreja, a sua nova educadora, começou a acreditar que, sendo homem, e tendo portanto todos os direitos do homem, poderia realizar a sua felicidade ainda em vida, em este mundo, e sob a garantia de leis. Para isso, segundo lhe afirmava a classe media, bastava que ele demolisse o velho edifício social, a monarchia e as instituições monarchicas, que constituiam o único obstaculo á «felicidade das massas». O proletário, convencido, saiu em tamancos dos seus vehos covis, e começou a destruir. Fez três revoluções, ergueu barricadas inumeráveis, exilou reis, incendiou castelos, aboliu privilégios--e expeliu em gritos, e com as armas na mão, todas as formas e liberdades politicas que a classe media lhe indicava ao ouvido e que deveriam realizar essa felicidade terrestre tão largamente anunciada. Emfim, ao cabo de setenta anos de luctas, o povo, tendo arrasado o velho edifício da monarchia, construiu o novo edifício da república, cheio dos confortos e invenções novas da civilisação politica, a liberdade de reunião, de associação, de imprensa, e todas as outras, entre as quais, bem agasalhado e bem provido, senhor seu, ele começaria emfim a conhecer a ventura de viver. Assim soberbamente instalado, esperou. Os anos passaram. A felicidade anunciada não veio. Apesar de todos aqueles confortos políticos (liberdade de isto, liberdade de aquilo) continuava, como no antigo edifício feudal, a ter fome e a ter frio. Quando chegava a neve, o direito de voto não o aquecia--e á hora de jantar, a liberdade de imprensa não lhe punha carne na panela vazia. Pelo contrario, reconheceu que, apesar do nome de «soberano» que lhe tinham dado, continuava na realidade a ser servo--e que o seu novo amo, o burguez capitalista, era muito mais exigente e duro que o antigo amo que ele guilhotinara, o fidalgo perdulario. Todas as suas barricadas, pois, e todas as suas revoluções tinham sido feitas em proveito da classe-media, que lhe metera as armas na mão, o impelira ao assalto do velho regímen! O seu sangrento esforço só servira para entregar o poder á classe média, que se aproveitava de esse poder, não para dar ao proletário dentro do novo regímen a sua legitima parte de bem estar, mas para lhe explorar o trabalho como lhe explorava a cólera, e fazel-o esfalfar para o seu enriquecimento material, como o fizera combater para o seu engrandecimento politico!
A decepção foi tremenda--e tremendos o ódio e desejo de vingança contra o traiçoeiro burguez. A parte mais inteligente, mais pacifica, ou mais legal do proletariado concebeu logo a necessidade de fazer uma outra e derradeira revolução, não contra a estructura politica da sociedade nova, mas contra a sua organisação econômica, porque não era agora, por causa do regímen politico que o proletariado sofria, mas por causa do regímen econômico, nascido das invenções mecânicas, das descobertas chimicas, dos excessos de producção, da concorrência de todos os progressos do século, realisadas só em beneficio da classe media, e cada vez mais tendentes a separar as duas velhas «nações» de Aristóteles, os pobres e os ricos, atribuindo a uma todos os proveitos, e impondo á outra todas as fadigas. Desde esse momento nascera, ou aparecera, organisado na República, o socialismo.
Uma outra parte, porém, do proletariado, a mais inculta ou a mais violenta, ou simplesmente a mais naturalista, concebeu uma outra ideia, e estranha. Para essa, a revolução econômica prégada pelo socialismo e concebida ainda dentro de um funesto espirito jurídico é ineficaz, quase pueril, porque não atinge o mal! Associações, trade unions, barateamento do capital, seguros de velhice, reclamação para o domínio social dos serviços colectivos, regularisação da concorrência, etc., etc., todas essas reformas revolucionarias, tentadas pelo socialismo, são tigelas de água morna, deitadas sobre uma gangrena. São ainda subterfúgios traiçoeiros do horrendo burguez. O mal, o verdadeiro mal, que é necessário extirpar, é a própria ideia de direito, de lei, de autoridade, de Estado.
O homem nasceu livre como nasceu bom e próprio para ser feliz: e todavia por toda a parte está escravisado, e pena sob essa escravidão. Mas quem o escravisa, quem o faz penar? A sociedade com toda a sorte de peias, de estorvos, que se opõem á livre expansão da natureza humana, que é fundamentalmente e inatamente boa, e que não poderia nunca ser senão um radiante progresso do homem no sentido do bem. Esses impecilhos odiosos são as leis, a autoridade, o Estado. A própria moral é, como o direito, fictícia, e um outro jugo imposto ao homem. Tudo isso, pois, tem de ser destruido, para que a nova humanidade realise, na absoluta liberdade, a absoluta felicidade. Mas como a sociedade está irremediavelmente impregnada de esses funestos conceitos, que são a sua alma, e o seu principio de cohesão, é inutil fazer revoluções para a transformar ou melhorar; porque, qualquer que seja fórma que se dá á sociedade, ela conterá sempre em si o vírus horrível:--o principio do direito, do Estado, da autoridade!
A única solução portanto é arrasar completamente a sociedade, matando e sepultando para sempre sob os seus destroços esses princípios fatais que até agora a têm governado, e depois recomeçar de novo a historia desde Adão. E a sociedadetem de ser destruida, em bloco, toda ela, sem se empurrarem para um lado os culpados, e sem se resguardarem para outro lado os inocentes. No mundo actual não ha inocentes. De certo existe uma classe mais especial e odiosamente criminosa--a classe dos ricos, que foi quem concebeu, para seu proveito e contra os pobres, esses estorvos Morais e sociais, que se chamam direito, autoridade, Estado, e que são a causa de todo o mal humano. Mas a sociedade inteira é solidaria e responsável do mal. Todo aquele que pacificamente se aproveita da proteção das leis é tão culpado como o monstro que inventou as leis. E uma costureira que se priva de apanhar uma flôr em um jardim publico é já uma cúmplice da sociedade, porque, pelo seu consentimento tácito, ela concorre para que se perpetue o despotismo do regulamento. É pois necessário destruir tudo,--e atirar indiscriminadamente a bomba redemptora contra as classes exploradoras, contra as classes voluntariamente exploradas, contra a cidade onde se realisa a exploração, contra as próprias creanças que nascem, porque elas já trazem em si o vírus da submissão explorável.
Tal é em resumo, muito em resumo, a teoria do anarchismo.
Basta que ela seja enunciada para que se lhe reconheçam logo todos os symptomas de uma alucinação mórbida. Não ha em ela proposição que não seja chimerica. Uma só é exacta: aquela pela qual o anarchismo se prende ao socialismo, e que estabelece, com razão, que a presente organisação social, em que uma classe possui todos os gozos e outra sofre todas as misérias, é iníqua.
Partindo do facto de esta grande e atroz injustiça, o anarchista começa, logo que de ele se afasta, para lhe procurar a causa e a cura, a delirar. Delira quando, ao procurar a causa do mal, a encontra no principio do direito: e delira ainda mais quando, ao procurar a cura do mal, a entrevê ou, antes, claramente a vê, na destruição da humanidade pela dinamite. O anarchista é pois, no fundo, um socialista que caminhou seguramente, por um caminho racional, enquanto foi, como socialista, acusando a organisação da sociedade--mas que depois, ou impaciente de esse lento caminho jurídico, ou cedendo aos impulsos de uma natureza desequilibrada, deu um grande salto para fora da realidade, rolou no absurdo, e cabriolando através de uma metafísica insensata, veio cahir miseravelmente em praticas de uma ferocidade selvagem.
Ha pois razão para dizer que o anarchismo é uma doença, uma exacerbação mórbida do socialismo.
Mas como é que esta seita de doentes tão disparatada na sua doutrina, e tão impotente nos seus meios de acção (o que obsta sempre á eficacia de qualquer propaganda), se mantém e alastra na proporção de um para mil? O anarchismo decerto se desenvolve, como todas as epidemias, por ter achado em torno uma atmosfera propicia e mesmo simpática. A verdade é que toda a sociedade que eles desejam arrasar, é tacitamente cúmplice dos anarchistas.
Esta cumplicidade, que mal percebemos, mas que é real e activa, tem dois motivos:--um extremamente nobre e honroso, que é a nossa filantropia, a nossa crescente piedade pelos que sofrem, e outro, extremamente baixo e vergonhoso, que é o nosso doentio entusiasmo por tudo quanto é extravagante, monstruoso, histérico, fora da calma razão e do equilibro da vida. No anarchista nós vemos dois homens, com quem secretamente e sinceramente sympathisamos:--um é o desgraçado, que padeceu frio e fome; outro é o alucinado que se ergue da sombra, com a sua bomba na mão, para fazer de todo este mundo, de todas as suas glorias e de todas as suas riquezas, um montão de negros destroços sem fórma e sem nome! E tão pervertidos estamos, que eu não sei realmente por qual de estes dois homens nos interessamos mais--se por aquele que sensibilisa o nosso coração, se por aquele que excita a nossa imaginação. Francamente, qual nos emociona mais--o infeliz ou o monstro? Desconfio que é o monstro.
Em todo caso, nós estamos tacitamente, pelo coração e pela imaginação, em simpatia com o archista. E quase se póde dizer que, exceptuando a porção mais egoísta e espessa da burguezia, alguns homens de estado a quem por profissão são vedadas a sensibilidade e a fantasia, todas as classes mundanas, intelectuais, artísticas, ociosas, se estão abandonando com voluptuosidade ás emoções novas do anarchismo. Desde já existe, muito contagioso, o diletantismo anarchista. Duquezas moças, cobertas de diamantes, condenam a má organisação da sociedade, comendo codornizes trufadas em pratos de Sèvres. Nos cenáculos decadistas e simbolistas, a destruição das instituições pela dinamite aparece como uma catástrofe cheia de grandeza, de uma poesia áspera e rara, e quase necessária para que o século finde com originalidade. E nada caracterisa mais estes estados de espirito, onde alguma sinceridade se mistura a muita affectação, do que a frase já histórica do poeta Tailhade. Ao saber, em uma cervejaria literária, que Vaillant acabava de atirar a sua bomba na camara dos deputados, este simbolista exclama languidamente e quase era em êxtase:
--Já vai pois desabando o velho mundo!... O gesto de Vaillant é belo!
«O gesto é belo!». Todo Paris repetiu, com mal escondida admiração, esta frase que revelava aos profanos a beleza estética do crime anarchista. «O gesto é belo!». E muito honesto moço, incapaz de pisar voluntariamente o pé do seu semelhante, reconheceu, sentiu a beleza do gesto de Vaillant--a beleza de aquele braço magro que se ergue lentamente, solenemente, e deixa cahir a morte sobre um mundo condemnado. Os anarchistas, eles próprios, já falam na beleza do seu gesto. em uma sociedade tão culta como a nossa, e tão saturada de arte, uma revolta social deveria necessariamente ter, além da justiça, a elegância plástica, a graça magestosa mesmo, no seu furor. O anarchismo já se sentia justo. Os poetas mais entendidos em harmonia e ritmo acabam de lhe assegurar que ele é também esteticamente belo.
Mas é sobretudo na imprensa que o anarchismo encontra um mais vivo estimulo ao seu desenvolvimento. Todos os jornais de Paris, quer sejam ferozmente hostis aos anarchistas, quer nutram por eles uma mal disfarçada benevolência, são unanimes em um ponto:--em os cercar da mais prodiga e resoante celebridade. Um general victorioso, um grande homem de estado, um poeta como Hugo, um sábio como Pasteur, nunca tiveram na imprensa de Paris um reclamo tão minucioso como tem qualquer aprendiz de anarchista, que atire contra um velho muro uma bombasinha tímida.
Se é anarchista, se lançou a bomba--é de ele a fama universal, que nem sempre conseguem os santos e os gênios.
Mal se póde imaginar a que excessos se abandonou a reportagem de Paris a respeito de Vaillant. Os menores atos da sua vida, a golã de astrakan do seu casaco, o seu modo de enrolar o cigarro, o que comeu, o que disse, o sobr'olho que franziu--tudo foi miudamente e clamorosamente contado ao mundo com um calor em que a própria indignação tinha não sei que de laudativa. De sorte que hoje em Paris para se ter uma verdadeira celebridade, é melhor atirar uma bomba a qualquer corpo do Estado, do que escrever a Lenda dos Séculos.
Assim fanaticamente convencido da justiça superior da sua ideia e tomado mais fanaticamente desesperado pelas brutais leis de excepção que contra ele decreta o Estado; cercado das simpatias dos humanitários; declarado esteticamente belo pelos poetas; apreciado como uma novidade picante pelo diletantismo mundano e magnificamente popularisado pela imprensa--como não há de o anarchismo alastrar em essa proporção temerosa de um para mil?
Para que não crescesse, como planta bem regada, e ao contrario se estiolasse, seria necessário que ele próprio se persuadisse, se não já da falsidade da sua ideia, ao menos da inutilidade das suas praticas; que o Estado não suscitasse contra ele leis de excepção, odiosas e intoleraveis ao espirito de equidade; que os humanitários o reprovassem pela sua indiscriminada condemnação de inocentes e culpados; que os poetas e os artistas descobrissem que o gesto é meramente bestial; que o diletantismo se desinteressasse de ele como de um banal partido politico; e que a imprensa o envolvesse em um silencio regelador.
Então sim! Talvez eliminadas estas condições que a favorecem, a febre que produz o anarchismo se calmasse, e o anarchista, restituido á saúde intelectual, reentrasse no largo e fecundo partido socialista, de que ele se separa em um momento de delírio.
Assim possa ser! As guerras servis (e o anarchismo é uma guerra servil) nunca conseguiram senão desenvolver nas classes opressoras os instinctos de tirania, e retardar funestamente a emancipação dos servos. Cada bomba anarchista, com efeito, só addia, e por muitos anos, a emancipação definitiva do trabalhador. Além de isso os anarchistas que até agora têm lançado a bomba, não são puros; têm todos no seu passado um crime, e um crime feio, de malfeitor. De sorte que não se sabe bem se a bomba é em eles um primeiro ato de justiça, se um derradeiro ato de perversidade. Para que a bomba pudesse ter uma alta significação social, seria necessário que fosse lançada por um justo, ou por um santo. Até que surja esse santo para santificar o anarchismo, o melhor que se póde dizer de ele, quando se não seja um capitalista apavorado e enfurecido pelo pavor--é que o anarchismo é uma epidemia moral e intelectual.
Ora o dever da sociedade, perante uma epidemia, é circumscrevel-a, isolal-a--não criar em torno de ela, por curiosidade depravada de um mal original e raro, uma vaga atmosfera de simpatia, de admiração literária, de piedades estéticas, e de delicioso terror que goza a novidade do seu arrepio.
Toda esta larga aragem de favor é um crime--porque animando indirectamente a obra abominável do anarchismo, retarda diretamente a obra útil do socialismo, e concorre para que se prolongue, mais revigorada pela reação, esta ordem social, que é tão cheia de desordem.
Mas demais falamos de bombas! Bem vos basta, caros colegas e amigos, as que aí vos cahem em casa (e que de certo também não comprehendeis bem) sem terdes ainda de vos preocupar, por dever critico, de aquelas que aqui estouram sobre o nosso velho mundo. Todas estas bombas, com efeito, são bem difficeis de explicar, de deslindar... Rebentam, matam, ha mulheres que choram, e a desordem social cresce. Todavia elas são arremessadas com convicção e por um amor ardente do bem publico. Emfim, o que podemos afirmar sinceramente é que--cá e lá más bombas ha.