O Sr. Barthou — A Antígona de Sófocles — Les Rois de Jules Lemaître
Houve em França subitamente uma queda, ou antes um desconjunctamento de ministério. Os ministros, que eram uns de substancia radical e outros de substancia conservadora, estavam mal grudados. O calor das primeiras discussões, na camara nova, descolou estes pedaços heterogêneos de poder executivo. Imediatamente porém se manufacturou outro governo. E a única feição de esta crise, digna de ficar nas chronicas, foi o ter aparecido de repente, e por motivo de ela, um homem de Plutarcho.
Este homem é o Sr.. Barthou.
É necessário reter este nome--Barthou--porque ele representa um justo. A Biblia diria «vaso de eleição»; mas esta imagem é arriscada e dá logar a equívocos lamentaveis, quando se trata de homens e de coisas parlamentares.
Quem é o Sr.. Barthou?
Um politico, e portanto um ambicioso. Além de isso um inteligente e um ardente.
E que fez o Sr.. Barthou?
O Sr.. Barthou realisou um feito sem precedentes na historia constitucional:--convidado, em esta nova organisação de ministério, para secretario de Estado das colonias, recusou.
E recusou por um motivo que o eleva justamente a essas alturas Morais em que Plutarcho se começa a entusiasmar. O Sr.. Barthou recusou, porque (segundo disse) «não estava habilitado, nem pelos seus estudos anteriores, nem pela experiencia, a tomar conta de essas funções». Conhecem alguma resolução mais heroica? Eu não conheço. Um politico de profissão, um ambicioso que se nega a entrar em um ministério por não se considerar competente, nem teórica, nem experimentalmente, para gerir um certo ramo da administração--é verdadeiramente prodigioso! E nós todos os que nascemos sob o regímen das cartas constitucionais, não podiamos realmente supôr que existisse algures, em esta Europa politica e parlamentar, um bacharel que sinceramente se julgasse inapto para governar, do fundo do seu gabinete, fumando a cigarette do poder, as colonias do seu paiz!
No antigo regímen de direito divino, frequentemente se viu ser chamado um cabeleireiro para salvar as finanças do reino. Mas, em esses tempos deliciosos, tudo dependia do bel-prazer de El-Rei. Ás vezes o cabeleireiro, mostrando os seus pentes, confessava aterrado a sua incompetencia. El-Rei porém mandava--e o cabeleireiro, com as mãos ainda gordurentas das pomadas, tomava conta do tesouro real. Quando Filipe II de Espanha deu ao duque de Medina-Sidonia o comando da Grande Armada, que partia a conquistar a Inglaterra--o pobre duque escreveu ao seu rei e senhor uma carta desolada, em que lhe dizia que estava velho e cheio de achaques, que enjoava horrivelmente no mar, e que não sabia comandar uma frota!... Filipe II franziu o sobr'olho e ordenou ao duque que embarcasse. O desgraçado lá embarcou, já enjoado--e todos sabem a boa conta que ele deu da Grande Armada. Para evitar esta deplorável confusão das profissões--se fez a revolução de 89. E de ela surgiu então essa classe de políticos, possuidores de aptidões universais e de sciencia universal. Todo aquele que, por gosto ou necessidade, se incorporava em essa classe, parecia receber logo do Espirito Santo o dom de tudo conhecer e de tudo poder. O medico largava as suas lancetas e ia, absolutamente seguro da própria capacidade, confeccionar códigos. O folhetinista arrojava a pena, empolgava a espada, e lá partia, com uma soberba confiança, para o ministério da guerra a reorganisar os exércitos. Nenhum jamais hesitara. E tal que duvidaria, por causa da sua inexperiencia, aceitar a administração de uma horta de couves--estava pronto, soberbamente pronto, a dirigir um ministério da agricultura e comércio.
Esta confiança dos políticos em si próprios terminava por se comunicar ao publico. E todos nós, desde que Fulano era eleito deputado, ficavamos certos de que, tocado de uma luz divina, da língua de fogo, como os apóstolos, ele poderia, senão falar todos os idiomas, pelo menos dirigir, sob todas as formas, os grandes serviços públicos da sua terra, e indiferentemente, segundo as circunstâncias, salvar as finanças ou comandar frotas.
A estranha confissão do Sr.. Barthou vem desmanchar esta confortável confiança. O quê! Ha pois políticos que não conhecem, nem por estudos anteriores, nem por experiencia adquirida, os negócios coloniais? Diabo! como tem sido então o mundo, até agora, governado? Será possível que tenhamos tido por ministros e governantes outros Barthous, que, ao contrario de este, cuidadosamente esconderam a sua incompetencia?
Não sei. Mas certamente a declaração do Sr.. Barthou, singularmente honrosa para ele, é altamente nociva para a sua classe. Cria uma larga suspeita entre nós outros, os governados.
Se ha um politico a quem o Espirito Santo não concedeu o dom do universal saber--é bem possível que outros muitos tenham encontrado da parte do Espirito Santo a mesma resistência em lhes outorgar o dom divino. E já não podemos ver um bacharel subindo de cabeça alta e luneta faiscante os clássicos degráos do poder, sem murmurar dentro de nós mesmos, olhando de revez o galhardo moço na sua ascenção:--«Diabo! será este maganão um Barthou--que se calou?»
Desinteressante pelo lado da politica, Paris está, ao que párece, interessante pelo lado dos teatros. Para começar, temos Sófocles no Teatro Francês, com a sua velha Antigone. Invejavel destino o de este Sófocles! Ha já mais de dois mil e trezentos anos que ele gosou o seu primeiro «sucesso», em Atenas, no dia em que Cimon derrotava os Persas nas margens do Eurymedon:--e aí o temos ainda, depois de estes vinte e três séculos, fazendo derramar em Paris as mesmas lagrimas que fazia correr pelos belos olhos das atenienses, quando Antigone, cobrindo a face com o véu, marchava para a morte. Quantos impérios, quantas raças, quantas civilisações têm passado? Ouando ele em Colona, em casa de seu pai, que era um simples fabricante de armas, desenrolava verso a verso, nas taboinhas enceradas, á sombra de alguma oliveira, os queixumes d'Œdipo, Paris não era mais que uma escura floresta, onde de noite uivavam os lobos, vindo beber ás lagôas. E no sitio de essa vetusta mata, convertida ela, por seu turno, em uma Atenas infinitamente mais complicada, todas as noites milhares de vozes tremulas de emoção continuam a gritar: Bravo, Sófocles! e de certo devotos do seu gênio iriam, como os soldados de Lysandro, coroar de flôres o seu tumulo, se ainda fosse possível saber onde se encontra o seu tumulo. Dizem que era na Dacelia--e que quando já não existia lá o tumulo, nem mesmo já havia Dacelia, ainda os pastores notavam que constantemente ali zumbiam abelhas em grandes enxames dourados. E que as abelhas, desde séculos, eram atraídas para aquela colina pela doçura e pelo aroma que exhalavam os restos de Sófocles.
Esta Antigone, que agora se representa no Teatro Francês, foi para Sófocles a peça mais rendosa--porque valeu ao poeta ser nomeado general ou stratege, como os gregos diziam, em uma expedição a Samos. Singulares direitos de auctor! E singular povo que recompensava a beleza de uma tragedia com o comando de uma esquadra! Mas servir a cidade, ganhar a Atenas uma batalha, era, em esses tempos de civismo heroico, a mais esplendida, a mais nobre das tarefas humanas;--e não se podia dar melhor recompensa a um grande porta do que fornecer-lhe a possibilidade de se tornar um grande cidadão. De resto Sófocles era soldado: já se batera em Salamina, onde também combatera o velho Eschylo.
Assim os dois trágicos concorreram pela «pena e pela espada» a assegurar o predominio da civilisação helênica, e da civilisação ocidental.
E não foi só como combatente que Sófocles cooperou em Salamina--mas como poeta: porque, pela sua beleza e pelo seu gênio lirico foi escolhido para corifeu dos coros de mancebos, que, com cantos e danças, celebraram durante três dias essa magnifica Vitória, que nos salvou a todos nós, homens de raça ariana, de sermos ainda hoje orientais, e talvez persas!
Pois a Antigone continua a ser rendosa. Nem Sófocles, nem os seus herdeiros, aproveitam dos cinco ou seis mil francos que ela lança todas as noites ao cofre do Teatro Francês. Mas não é menos rendoso para a sua gloria imortal, que, ao fim de vinte e três séculos, este dramaturgo de Atenas continue a enriquecer os outros.
Deixemos porém a Antigone e Sófocles--porque, das peças representadas em Paris, a que mais interessará de certo no Brasil é Os Reis (Les Rois) de Jules Lamaitre.
Este drama, tão esperado, tão louvado, começa com efeito por uma historia da revolução do Brasil. Exactamente como lhes conto! Por uma historia da revolução do Brasil--da outra, da antiga, da que derrubou o Império.
Quando o pano se levanta, vêmos diante de nós a sala do trono do palácio real da Alfania. A Alfania é um grande reino, uma monarchia absoluta, com 38 milhões de vassalos:--mas esta sala não apresenta mais luxo ou majestade que a da camara municipal de uma vila democrática. A primeira impressão é que, na Alfania, as artes decorativas e sumptuárias estão em deplorável decadência:--mas dentro em breve se descobre que as colgaduras de seda e brocado, que deviam revestir esta sala real, foram arrancadas das paredes para se fazerem com elas as toilettes de Mme Sarah Bernhardt, que é a princeza real da Alfania.
Pela porta nobre de esta sala desguarnecida entram dois senhores, de casaca e calção de côrte, com gran-cruzes que me pareceram ser da Ordem da Conceição. Um, o mais gordo, é o bibliotecário do rei de Alfania, Christiano XVI. O outro, um moço louro e alegre, é o ministro dos Estados Unidos do Brasil. Exactamente como lhes conto! ministro do Brasil,--que aqui na peça e na Alfania tem o nome de República das Cordilheiras. O ministro, esse, dá pelo nome cavalheiresco e hespanholesco de Alvarez! Muito jovialmente e não sem malicia, este ministro Alvarez começa a contar ao bibliotecário (de quem foi condiscípulo no colégio Stanislas em Paris) as suas atribulações diplomáticas.
Ha dois meses que ele foi nomeado ministro para Alfania, ha dois meses que reside na côrte da Alfania, e ainda não conseguiu que o velho rei Christiano reconhecesse a República do Brasil! Bem comprehensivel, de resto, esta resistência de Christiano XVI, que tem oitenta anos, é um autocrata de direito divino, vive no santo horror de todo o liberalismo e de toda a democracia, e não póde comprehender que o povo da Cordilheira expulsasse um velho imperador tão magnânimo e tão paternal.
E todavia (como Alvarez explica, parte para o bibliotecário e parte para o publico) nunca houvera no mundo uma revolução republicana mais repassada de bons sentimentos monarchicos!
O povo da Cordilheira não detestava, antes amava o seu imperador. Mas quê! Esse imperador nunca residia no seu império--e constantemente percorria a Europa, cercado de eruditos, robustecendo a sua sciencia das línguas mortas e lendo manuscritos no seio das academias. Ora um povo que não se ocupa de filologia não gosta de ser governado por um filólogo. Sobretudo por um filólogo, que parece preferir ao seu trono o seu banco do Instituto de França O trono estava sempre vazio, a cobrir-se de pó--e o imperador sempre em França, no Instituto a esmiuçar raízes hebraicas. Além de isso, aquele império da Cordilheira desmanchava a harmonia republicana da America do Sul. O quê! todos os paizes em redor usufruindo as venturas da república--e só a Cordilheira sobrecarregada com uma monarchia e uma côrte! Era discordante.
De sorte que o povo decidiu despedir o seu imperador. Mas este ato de bom senso politico fora feito com toda a delicadeza, todo o respeito, toda a bonhomia. A República surgiu uma madrugada serenamente, e naturalmente, como o sol. O Governo Provisorio fretou logo um vapor (um vapor muito confortável, acrescenta Alvarez), meteu dentro o seu velho imperador com todas as cautelas, saudou e mandou largar para a Europa. Nem uma palavra, nem um gesto que revelassem azedume ou cólera em esta separação.
Pelo contrario! O povo tinha os olhos enevoados de lagrimas--o imperador também. E durante muito tempo um na praia, outro no convez do vapor confortável se acenaram em um longo, eterno adeus, ambos cheios de simpatia e cheios de saudade. E realmente não havia motivo para que o velho Christiano XVI se recusasse a reconhecer uma república tão cortez, tão amável--e no fundo tão monarchica!
Assim narra o ministro Alvarez, no primeiro ato dos Reis, esta risonha revolução que o fez ministro. E com que ironia a conta! Não dou muito pela felicidade de este funcionário. Mas apenas ele terminara a historia da tão bela aventura em que se lançara o seu paiz--entra toda a côrte de Alfania.
É que estamos em um considerável momento histórico. O velho rei de Alfania vai abdicar. Não é só por velhice, por doença, por fadiga de aquela corôa secular. É que já não comprehende o seu povo--e receia que o seu povo já não comprehenda o seu rei. Até aí ele fora simplesmente o pastor muito solicito de um rebanho muito manso. Agora, porém, sob o seu cajado, via, não carneiros, mas homens. E esta nova sciencia de governar homens, e não carneiros, ele, rei de outras eras, não a possuía. Por isso passa o cajado a seu filho, o príncipe Hermann. Esse não só é novo pelos anos--mas é novo pelas ideias. Príncipe de direito divino, foi todavia educado em outros tempos, por outros livros--e conhece os direitos humanos. Todas essas liberdades estranhas que o povo da Alfania reclama (liberdade de voto, de imprensa, de associação, de reunião, etc.) e que ao velho Christiano parecem horrendos atentados contra a sua autoridade real, são para este bom príncipe Hermann aspirações legitimas, que deverão ser satisfeitas com uma generosidade prudente. De sorte que, com este novo povo da Alfania, tão diferente do velho rebanho gótico, e já hoje cheio de teorias, e meio revolucionado, melhor se entenderá o príncipe novo do que o rei velho. E Christiano XVI abdica.
Lá está ele na sua poltrona real, todo vestido de verde, com a sua branca cabeça pendida ao peso dos presentimentos tristes--enquanto o chanceler do reino lê o rescripto que entrega a regência do reino da Alfania ao democrático e humanitário Hermann. Este pobre príncipe também não parece feliz, tomado já pelo terror das suas responsabilidades. Quem resplandece é a princeza, Mme Sarah Bernhardt, uma archi-duqueza do seco e puro tipo feudal, sôfrega de majestade e poder. Mas, emfim, eis Hermann regente da Alfania, recebendo as homenagens dos grandes dignitários. E sabem qual é o seu primeira ato de regente? O reconhecimento da República do Brasil! Exactamente como lhes conto. Quando o ministro do Brasil, por seu turno, o vai saudar e render-lhe preito, o príncipe Hermann diz com ar grave e decidido de quem faz a sua primeira afirmação democrática:
--Sr.. Alvarez, apresente-me amanhã as suas credenciais!
Nem mais, nem menos. Está reconhecido o novo Brasil pelo novo rei de Alfania. O pobre Christiano suspira--e Alvarez parece bem contente.
Obtido este esplendido resultado, nada mais nos resta senão sair do teatro e da Alfania, esfregando as mãos. Mas não! Devemos ficar para vêr no segundo ato uma situação verdadeiramente bela, de um patético novo, e mais coramovente e profundo que os que resultam dos conflictos da paixão. É aqui uma verdadeira tragedia intelectual.
O pobre príncipe Hermann, mais que democrata, realmente socialista, já deu ao seu povo todas as liberdades politicas, e até um parlamento e uma carta constitucional.
O velho reino da Alfania está todo transformado e arranjado á moderna, no melhor estilo Luiz Filipe. O primeiro ministro é um jacobino que como ele mesmo confessa, passou a sua mocidade a fazer revoltas contra o antigo Christiano, e a ser preso como cabecilha irreconciliável. Mas o povo todavia permanece descontente. Ha uma crise industrial em toda a Alfania, uma intensa miséria trazida pelas gréves, e os operários da capital, obedecendo á velha ilusão de que o exercício de mais direitos políticos lhes trará mais salários, preparam uma tremenda manifestação nas ruas para reclamar o sufrágio universal. O príncipe Hermann permite alegremente a manifestação--porque (como ele diz) se o sufrágio universal não cura os males do proletariado, ao menos serve-lhe de consolação, põe-lhe na alma uma esperança; e o proletário sofre tanto, e está sob o peso de tão fatais injustiças, que por todos os modos deve ser consolado e atendido nas suas exigências reais ou fictícias. O que o bom Hermann quereria (como ele também declara) era distribuir pelos pobres o supérfluo dos ricos:--mas como essa liquidação social não é possível imediatamente, e como se não póde dar ao proletário todo o pão que ele necessita, dê-se-lhe ao menos todo o voto que ele reclame. E a manifestação aos vinte mil operários já vem na rua, imensa e clamorosa.
No palácio reina o terror.
Esses milhares de operários, soltos na capital, permanecerão ordeiros e disciplinados? Os próprios ministros, antigos jacobinos, duvidam--tanto mais quanto a manifestação é capitaneada por anarchistas que estavam presos, e a quem Hermann, apenas regente, logo amnistiou com entusiasmo. E com efeito não tardam as más noticias. Os manifestantes arvoraram a bandeira negra. Já aqui e além houve conflictos--e as tropas foram apedrejadas. E eis que agora a enorme massa popular avança sobre o palácio! Mas Hermann sorri tranquilamente. Que póde receiar, ele, que ama tão ardentemente os pobres, e que é na verdade o rei dos pobres? O povo avança sobre o palácio? Pois que se escancarem, bem largas, todas as grades dos jardins, que o povo entre, porque o seu rei ali está que lhe estende com amor os braços. E ele mesmo abre as janelas--por onde penetra um longo, sombrio e suspeito tumulto de brados.
Mas eis um ajudante de campo anunciando que a turba está em plena revolta, assalta os postos da guarda, e começa a saquear as lojas. Que espanto para o pobre Hermann! O quê! Pois o povo não comprehende que ele o ama, e que trabalha para a sua felicidade, e que vai ele próprio, socialista coroado, fazer lentamente e de alto, a revolução social?
Não, o povo não parece comprehender, porque rompeu justamente a apedrejar as janelas do palácio. Já uma pedra ia matando o principesinho real, uma pobre criança doente, nos braços da sua governante. Hermann afflicto corre a uma varanda, para gritar ao povo toda a verdade. Cae sobre ele uma saraivada de calhaus. E não são já somente calhaus--são tiros. Outro ajudante, esgazeado, corre a contar que a guarda real está sendo desarmada pelo povo. É a revolução! Que fazer? Madame Sarah Bernhardt (que é aqui magnifica) arrasta-se aos pés de Hermann, suplicando-lhe que salve a corôa, que salve o reino! Ainda é tempo! As tropas, absolutamente fieis, estão nas ruas, só esperam uma ordem para carregar, varrer a populaça!... Mas Hermann hesita, livido, em uma agonia, gritando somente:--«Oh! os brutos, os brutos, que não comprehendem!»
Outro ajudante. A revolução triunfa! Vai acabar o reino secular da Alfania! Já o povo quebra as portas do palácio. Em pouco aquela rica cidade será saqueada por uma plebe feroz. E o general governador manda intimar o rei a que lhe diga claramente o que deve fazer, como general! Hermann, em uma voz de moribundo, murmura:
--O seu dever de soldado!
E cae em uma cadeira, aniquilado. Fora ha um lento rufar de tambores. É o primeiro e lúgubre aviso para que a multidão disperse, antes que sobre ela rompa o fogo. Hermann ainda se precipita á janela, grita:--«Não! Não!»--É tarde. Uma descarga, outra descarga... E logo após o horrendo clamor dos gritos. São os que morrem!
Um silencio sinistro. Está salva a ordem, com ela a corôa. Um oficial aparece, todo pálido, com o uniforme em desalinho. A princeza, que cahiu debruços para cima de uma mesa, ergue lentamente a face, pergunta por entre lagrimas:
--Mulheres mortas?
O oficial murmura:
--Muitas.
Creancinhas?
--Também...
Hermann, esse ficou como petrificado, sem voz, sem vida, com os olhos cravados no tapete. É que está vendo em ele, cobertos de sangue, os pedaços do seu belo sonho humanitsrio, que se despedaçou. Ele é o primeiro rei democrata da Alfania; e eis que, por muito amar o povo e o encher de grandes esperanças e o lançar largamente no caminho de todas as satisfações sociais, se vê forçado pela logica terrível das coisas a erguer-se diante do seu povo como um repressor violento, e a metralhar o seu povo--o que nunca sucedera na velha Alfania, quando o povo era um rebanho pastando mansamente a sua ração de herva, sob o cajado dos seus velhos reis. O seu socialismo naufragara em sangue.
A scena é verdadeiramente bela--e pela aparição da Fatalidade, esse grande factor de toda a tragedia, mas uma Fatalidade nova, tirada das leis sociais, dá uma tão forte emoção como a podem dar Eschylo ou Sófocles. Depois o drama acaba mediocremente em um desastre de amor, que é ao mesmo tempo vulgar e complicado, e cheio de ironia. E não tornamos a ver Alvarez.
Ligeiro e jovial, como me pareceu, estou receiando que ele se dedicasse a galantear com as damas gentis da corte de Alfania em logar de compor e mandar ao seu governo um relatório instructivo mostrando, pelo exemplo Alfanico, o perigo que se corre em destruir, por amor das teorias, um regímen cheio de paz, de ordem, de prosperidade e de credito, para lançar a nação em um caminho incerto e escuro onde ela vai cambaleando através do descredito, da desordem, da ruína e da guerra.
Mas Alvarez não é homem para comprehender as lições da historia.