A Espanha — O Heroísmo Espanhol — A Questão das Carolinas — Os Acontecimentos de Marrocos
O «Teatro clos Acontecimentos» (como outr'ora se dizia) que é de certo um teatro ambulante, atravessou os Pyreneus--e é agora de Espanha que nos chegam esses echos com que se faz historia. Isto desde logo garante que eles devem ser interessantes--porque de Espanha nada póde vir que seja mesquinho ou banal, a não ser por vezes versos e discursos.
A Espanha é hoje, na Europa, a última nação heroica;--pelo menos é a última onde os homens, publicamente, e nas coisas publicas, se comportam com aquela arrogância, e bravura estridente, e magnifica imprudencia, e soberba indiferença pela vida, e desdem idealista de todos os interesses, e promptidão no sacrifício, que constituem, ou nos parecem constituir, o tipo heroico (porque nem os dicionários nem as psychologias estão bem de acordo sobre o que é um herói).
Assim, eu não creio, por exemplo, que haja nada mais espanhol, e que se nos afigure mais heroico, do que o atentado contra o marechal Martinez Campos. O velho general está passando uma revista em uma praça de Barcelona, cercado de oficiais e de populares, que em Espanha se misturam sempre familiarmente aos estados-maiores. De repente um rapazola de vinte anos, um anarchista, atravessa o grupo, desata tranquilamente, e de cigarro na boca, as pontas de uma pequena trouxa, e atira sobre o marechal uma bomba de dinamite. Ha uma horrenda explosão, uma nuvem de pó e de estilhas, gritos, todo a tropel e tumulto de uma catástrofe. Mas uma grande voz resôa, uma voz de comando, serena e quase risonha. É Martinez Campos, de pé, coberto de sangue, que brada com a mão no ar:--No és nada, no és nada!! O seu cavalo jazia despedaçado em uma poça de sangue. Em torno, no chão escavado pela bomba, estão cahidos uns poucos de oficiais e de populares, mortos ou terrivelmente feridos e gemendo. O marechal tem a farda em farrapos, de onde pinga sangue. E, todavia, indignado que se erga tanto alarido por causa de uma bomba, continua a encolher os hombros, a gritar:--Pero si no és nada, hombre, si no és nada!
Mais adiante sôa outro grito ainda mais alto. É o do rapazola, do anarchista, que agita o bonnet, berra em triunfo:--Fui eu! Fui eu! Tem vinte anos, acaba de cometer um crime que o levará á forca, e está ancioso por que todos saibam que foi ele, só ele! Não vá outro ser preso, roubar-lhe ali diante do povo, diante de todas aquelas mulheres, a gloria do seu feito anarchista! Através do terror, da confusão, podia fugir. Mas quê! perder todo o prestigio que lhe cabe pela sua façanha? Não! Por isso bate no peito, chama os gendarmes, brada: Fui eu! Fui eu! E quando o prendem, vai pelas ruas, já de mãos amarradas, clamando ainda com orgulho para as janelas cheias de gente que fora ele, só ele!
Ao mesmo tempo, por outra rua, vai o velho marechal, em braços, meio desmaiado, continuando a sorrir e a afirmar que no és nada, que no és nada!
O quadro é admiravelmente espanhol--e só póde ser espanhol.
O espanhol é heroicamente bravo; mas outras raças, o inglez, o russo, o francês, possuem esse heroísmo especial que consiste em soltar um grito, florear a espada, e correr soberbamente para a morte. Onde o espanhol se mostra único, é no desprendimento com que sacrifica todos os interesses, desde que se trate da honra da Espanha, ou do que ele pensa momentaneamente ser a honra da Espanha. Aí invariavelmente reaparece o sublime D. Quixote.
E tanto mais heroicamente que ao espanhol não faltam o raciocínio, e a prudencia, e o claro sentimento da realidade, e o amor dos bens acumulados, e mesmo um certo egoismo pachorrento--como superiormente o prova Sancho Pança. Mas conhecendo e pesando bem o que vai perder--marcha jovialmente e tudo perde com entusiasmo, porque se trata da sua pátria.
Não ha na alma espanhola sentimento mais poderoso que este de pátria. Os cafés de Madrid, ou de Sevilha, estão atulhados todas as noites de descontentes, que maldizem da coisa publica, e berram, emborcando largos copos de água e aniz, que em Espanha tudo vai mal e que a Espanha está perdida! Mas que alguém de fora passe e atire uma pedra á terra de Espanha, ou finja simplesmente que atira a pedra--e todo esse povaréo se ergue, e ruge, e quer matar, e quer morrer, para vingar não só a pedrada, mas o gesto.
O espanhol, com efeito, apesar de que tanto resmunga nos botequins, tem uma ideia imensa da sua terra. Basta testemunhar a maneira ardente e ovante como ele pronuncia mi terra! Para ele a Espanha é a maior das nações--pela força e pelo gênio.
Ha aqui certamente um orgulho tradicional, hereditário, vindo dos séculos de dominação e de verdadeira superioridade. Muito bom espanhol vive ainda, por uma ilusão magnifica, na Espanha do passado, e não se compenetrou da decadência, e ainda pensa que os regimentos de Madrid são os velhos e temerosos terços de Carlos V, e que qualquer piloto do Ferrol ou de Cartagena poderia redescobrir as Indias, e que cada novo romancista continua Cervantes, e cada pintor sevilhano ressuscita Murillo. Mas além de este habito de se sentir grande, natural de resto em uma raça que chegou a dominar o mundo e que deu a humanidade algumas das suas almas mais fortes e dos seus gênios mais profundos, ha ainda no espanhol um amor prodigioso pela terra de Espanha, pelo torrão que os seus pés calcam pelo monte e pela planície, pelas cidades ou pelas aldeias que aí se erguem, por cada tufo de cardo que brota entre cada rocha. O inglez, outro grande patriota, ama ardentemente e exclusivamente a civilisação que criou na sua ilha, e as suas instituições, e os seus costumes:--mas não tem nenhum entusiasmo pela ilha, ela própria, que abandona mesmo com facilidade e prazer. E comtanto que leve para a Itália, ou para outro clima doce, a sua cosinha, os seus sports, os seus jornais, as suas distincções sociais e o seu club, prefere sempre a suavidade de um ar luminoso aos ásperos nevoeiros do seu sombrio Norte. Por isso emigra, e vai fundando em solos mais amenos que o seu uma correnteza infinita de pequenas Inglaterras. Para o inglez a pátria é uma entidade social e moral. Para o espanhol a pátria é o bocado de terra que os seus olhos abrangem, e que ele ama como se ama uma mulher, com um amor ciumento e carnal. Esse amor cria em ele naturalmente a ilusão:--e o manchego e o navarro, que habitam duas das mais feias e tristes regiões da terra, não as trocariam pelo Paraíso, porque nada lhes parece realmente tão formoso e radiante como a Mancha ou a Navarra. Eu já vi um homem, e muito inteligente, que era de Merida (um dos mais lúgubres buracos do mundo), declarar, muito seriamente e convicto, que Paris, como monumentos, e interesse, e brilho, no valia Merida! De resto, quem não tem ouvido espanhóis, muito cultos, muito viajados, preferirem candidamente qualquer Merida sua a Roma ou a Londres, e considerar tal politiquete da sua província maior que Gladstone e Bismarck, e achar em certo folhetim publicado em um jornal de Andaluzia mais gênio que em toda a obra de Hugo? A isto se chama ordinariamente a exageração espanhola. Não! É apenas a Cândida ilusão de um patriotismo transcendente.
Considerando assim a sua pátria, tão formosa, tão grande, tão forte, tão genial, e prestando-lhe um culto como á verdadeira e única divindade, como não há de o espanhol exaltar-se até ao tresloucamento, quando a supõe ultrajada? Para ele uma ofensa á Espanha é um sacrilégio, e tem então o santo furor de um devoto que visse alguém cuspir em um crucifixo. Para castigar a profanação abominável, fará com entusiasmo todos os sacrifícios, e logo imediatamente o da vida.
Todos se lembram ainda da famosa «questão das Carolinas». Uma manhã, Madrid sabe que, muito longe, em mares remotos, um oficial alemão plantara em umas certas ilhas vagamente hespanholas, e chamadas Carolinas, a bandeira alemã. Ninguém em Madrid conhecia a existência das Carolinas, nem a geografia das Carolinas. Mas os jornais contavam que a Espanha fora ofendida:--e Madrid inteiro, todas as classes e todas as edades, fidalgos, carreteiros, toureiros, padres, magistrados, velhos, creanças de escola, senhoras e servas, tudo correu para praticar o ato mais imediato e mais urgente: ultrajar a bandeira alemã, matar o embaixador alemão, arrasar o edifício da embaixada da Alemanha. E depois a guerra! Uma guerra implacavel, toda a Espanha em armas, caindo sobre a Alemanha! Não havia tropas? cada homem seria um soldado! Não havia armas? cada um tomaria o seu cajado ou a sua navalha! Não havia dinheiro? as mulheres empenhariam até a cruz do pescoço. E através de este delírio, ninguém ainda percebia onde eram as Carolinas. Também, na primeira Cruzada, quando as multidões, povos inteiros, partiam a vingar a ofensa feita pelo turco ao sepulchro do Senhor, ninguém sabia onde era Jerusalem...
Foram dois dias sublimes, esses de Madrid. O velho Bismarck, atônito e aturdido, recuou, mandou retirar a bandeira alemã das Carolinas, apelou para o papa... A Alemanha realmente, perante aquela explosão magnifica da velha alma castelhana, empalidecera. E a Espanha saiu da aventura mais engrandecida, mais consciente da sua grandeza, e cercada das admirações do mundo. É que nada se impõe aos homens como a afirmação heroica de um sentimento justo.
Pois agora vai talvez suceder uma egual aventura. A Espanha foi ferida no seu patriotismo e no seu orgulho. A ofensa não veio de europeus, mas de africanos. É, porém, indiferente para a Espanha que o sacrílego seja forte ou fraco, civilisado ou bárbaro. Houve o sacrilégio, isto é, houve um ultraje á bandeira da Espanha, e, portanto, ás armas e guerra implacavel!
A Espanha possui no norte da Africa, além de Tetuan, de Ceuta e de outros pontos fortificados, uma pequena cidade pouco maior que uma cidadela, que se chama Melilla. Em torno ha, como em todas as outras possessões, uma zona de cultura, defendida por trincheiras e fortes. E para além são serranias povoadas por tribus mouriscas, a que se dá o nome genérico de mouros do Riff, ou Riffenhos.
Os mouros naturalmente odeiam os espanhóis, seus inimigos hereditários, com o ódio de raça e com o ódio de religião:--e os espanhóis estão ali portanto em um permanente estado de defeza. Ultimamente, depois de vagas questões que tinham surgido entre espanhóis e mouros na feira vizinha de Frejana, as tribus rifenhas mostraram uma agitação tão visivelmente hostil, que o governador de Melilla, general Margallo, mandou reforçar as obras de defeza em torno da zona cultivada, e construir, em um certo ponto mais aberto, um forte.
Ora, justamente em esse sitio, existia um antigo cemitério mourisco. Nada ha mais sagrado para o mussulmano do que um cemitério, porque não só aí repousam os mortos, mas aí vêm orar e meditar, estudar e celebrar assembleias, e mesmo celebrar festas, os vivos. O cemitério, no mundo mahometano, constitue o verdadeiro centro de piedade e de convivência.
Os mouros do Riff representaram pois ao general Margallo que aquele forte, em aquele sitio, vinha dominar e devassar o seu cemitério--e constituia portanto uma invasão material e moral do seu território. Foi por um motivo idêntico, por causa da famosa torre Antonia, que sobrepujava e devassava o templo de Jerusalem, que os judeus tantas vezes se sublevaram sob a dominação romana. O general espanhol respondeu, (como costumava responder o proconsul romano) que, dentro da sua zona, ele tinha o absoluto direito de erguer todos os fortes que julgasse necessários á sua segurança. E mandou construir a obra. Os mouros de noite desceram das alturas e destruiram a obra. Com a costumada teima espanhola, em logar de conciliar, de escutar razões que eram attendiveis, porque nasciam de um sentimento religioso, o general Margallo ordenou a reconstrucção do forte. Os rifenhos desceram mais numerosos e redestruiram o forte. Diabo! não se podia continuar assim, em plena mourama, esta teia de Penelope tecida ao sol, desmanchada ao luar. O general Margallo recomeçou as obras e colocou-as sob a proteção de um destacamento de sessenta soldados. Os mouros imediatamente soaram o alarme através dos aduares, baixaram e desmantelaram as obras e atacaram o destacamento. Tinha corrido sangue: era a guerra.
O que depois ocorreu, não está ainda bem aclarado. O general Margallo, sem esperar reforços, fez, com a sua pequena guarnição de recrutas, para castigar as tribus, uma sortida temerária--que resultou numa tremenda derrota dos espanhóis (apesar da bravura esplendida com que se bateram) e na morte do próprio general Margallo, varado, logo no começo da acção, por três balas. Entre os oficiais gravemente feridos havia um infante de Bourbon. Os mouros tinham capturado dois canhões e uma bandeira--que os espanhóis retomaram.
Quando o desastre se soube em Madrid, foi outro «dia das Carolinas». Madrid inteiro correu ao palácio, aos ministérios, gritando por vingança e guerra. Todo o homem valido se quis alistar como voluntario. Para que não faltasse dinheiro (e o governo não o tem), o banco de Espanha ofereceu oitenta milhões, as grandes casas fidalgas prometeram largos donativos, as próprias egrejas desejavam dar as suas alfaias. A Espanha toda rompeu em uma outra das suas sublimes explosões de patriotismo. O reisinho, que tem sete anos, cercado no passeio do Prado por uma imensa multidão que o aclamava, ergueu-se de pé, no assento da carruagem, largou a gritar: Vamos todos a matar los moros! Foi um delírio. E a Espanha, entusiasmada, lá vai para a guerra!
E em que momento ela vem! Quando a Espanha, muito pacientemente, com um esforço em que também havia heroísmo, estava reconstruindo, dia a dia, migalha a migalha, as suas finanças arrasadas. A guerra é a ruína--porque as tribus do Riff podem pôr em armas sessenta mil homens aguerridos, de incomparável bravura, com espingardas Remington, e tendo por couto as suas serranias inacessíveis. Para vencer esta formidável guerrilha--é necessário uma expedição pelo menos de trinta mil homens, que têm de ser alimentados de Espanha, porque no Riff só ha areais. São as finanças hespanholas desorganisadas por infinitos anos. É ainda o perigo de complicações europêas, porque a Espanha será forçada a penetrar no território de Marrocos (os mouros do Riff são súbditos do sultão de Marrocos), e aí encontra a oposição da Inglaterra, da França, da Itália, que têm todas três pretensões, por motivos de fronteiras coloniais, ou por motivos de dominação estratégica no Mediterraneo, a esse vasto e rico sultanato. A questão de Marrocos substituiu hoje na Europa, pelos seus perigos, a antiga e clássica questão do Oriente.
Lord Salisbury afirmava ainda ha pouco que, se a paz do mundo viesse a ser quebrada, seria de certo por causa de esse terrível Marrocos. E a Inglaterra já tem em Gibraltar, diante das costas da Africa, á cautela, uma grossa esquadra de couraçados. Assim a Espanha arrasa as suas finanças, e arrisca uma medonha guerra europêa. Mas que lhe importa? Foram mortos oficiais espanhóis, foi ultrajada a bandeira de Espanha--e ela vende as alfaias dos seus templos, e marcha sublimemente.
Eu pelo menos acho sublime este patriotismo veemente, todo este nobre arranque. Heroica Espanha! Deus lhe dê ventura! Ainda que os mouros do Riff, com o seu piedoso amor pelo seu velho cemitério, não deixam de ser interessantes...
E assim, em pleno século XIX, temos de novo, como no Romancero, a Cruz contra o Crescente, e a Espanha na sua antiga e laboriosa ocupação de matar los moros.