As Festas Russas — A Toilette de um Presidente da República — Notícias do Brasil Ecos de Paris · Capítulo 10 de 18
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As Festas Russas — A Toilette de um Presidente da República — Notícias do Brasil

Estamos, emfim, no redemoinho e brilho e estridor das festas. O almirante Avelane e os oficiais da fróta russa desceram sobre Paris. Digo desceram, como se se tratasse de sêres chegados das brancas esferas celestes, porque o próprio almirante classificou esta visita de sobrenatural, e o Sr.. Hervé, diretor do Soleil, um acadêmico, um moderado, um sceptico, não hesitou em lhe atribuir um caráter miraculoso. Deve haver aqui, pois, o quer que seja de transcendente. E Paris está em delírio;--mas um delírio cheio de bonhomia, e mesmo cheio de diplomacia.

Louvemos sem reserva este povo eminentemente racional. Todos os seus amigos estavam receando (e todos os seus inimigos esperando) que Paris, na alegria do seu grande sonho emfim realisado, e no orgulho da sua nova força, se exaltasse desmedidamente, deixasse escapar, em tumulto e sem escolha, todos os sentimentos que o agitam, e no meio das aclamações aos seus amigos lançasse, aqui e além, alguma grossa injúria aos seus velhos inimigos. Receios infundados, esperanças indiscretas! Paris está mostrando a prudencia de um diplomata encanecido na carreira--e os próprios garotos se comportam como Metternichs.

Nunca de certo, como hoje, Paris pensou tanto na Alemanha; e no fundo, todas estas bandeiras se desfraldam, e todas estas luminárias se acendem, e todo este champagne estala, tanto pela Russia como contra a Alemanha. Mas esse pensamento fica cautelosamente aferrolhado nos mais fundos recantos de alma--e o que transborda é apenas o clamor do entusiasmo e da fraternidade. É como se não existisse Alemanha, nem a ingrata Itália, nem Triplices Allianças. Ha só dois povos, o francês e o russo--e, como eles se abraçam, o mundo todo se converte em um amável santuário de paz.

Oito dias são passados desde que os russos estonteiam Paris. A cidade toda está na rua. O tempo vai quente e abafadiço. Por toda a parte a cerveja e o vinho transbordam, como em umas colossais bodas de Gamacho. E todavia, em nenhum bairro, mesmo nos mais ruidosos e excitaveis, houve ainda um grito, uma pilheria em um café, uma alusão, que desmanchasse a harmonia pacifica do soberbo festival.

Isto prova, uma vez mais, que Paris não é como se pensa a cidade que entre todas se embriaga e se dementa. E prova ainda que nenhuma outra ha em que a inteligência geral seja tão aberta, acessível e pronta--isto é, em que uma ideia, considerada justa ou necessária, penetre tão claramente e tão unanimemente nas multidões. Em Londres é fácil, extremamente fácil, fazer sentir ás classes cultas, mesmo á pequena burguezia, a beleza ou a vantagem de tomar e conservar, em um grande momento publico, uma certa atitude, mesmo contraria a sentimentos legítimos;--mas como fazê-la sentir àquela turba obtusa e rude, que os ingleses chamam os roughs, os «ásperos»? Para esses não ha interesse publico que lhes refreie ou modifique o instincto ou a paixão. E não seriam eles, se Londres tivesse sido durante seis meses cercado e brutalisado pelos alemães, que se privariam, em uma festa egual, de desabafar o velho rancor e de lançar por entre o muito alto grito de viva a Russia! brados ainda mais altos de morra a Alemanha! Ainda ha pouco o provaram (por ocasião do curto resentimento entre a França e a Inglaterra, a propósito do Sião) quando uma platéa de rapazes de comércio, no teatro da Alhambra, ao aparecer, não sei em que bailado, a bandeira francesa, rompeu em urros de furor, e se arremessou sobre o palco para despedaçar e espesinhar a tricolor. Foi apenas um momento, uma brusca ebulição do forte sangue saxônio. O bailado continuou--e cada um recomeçou serenamente a rir e a emborcar bocks.

No fundo, é tudo talvez uma questão de polidez e doçura. Matthew Arnold, o mais fino critico que tem tido a Inglaterra, sustentou sempre que estas duas inapreciaveis qualidades faltam inteiramente ao inglez. Era de certo uma generalisação excessiva, que provinha de esse delicado espirito se ter nutrido e enlevado demasiadamente na literatura francesa do século XVIII. Mas é certo que, pelo menos, a polidez e a doçura, em Inglaterra, faltam á populaça. Em França, nem a essa faltam.

em estas festas russas, com efeito, a coisa para mim mais interessante e tocante tem sido a multidão. Ha dias que dois milhões de parizienses vivem em permanência apinhados em três ruas: o boulevard dos Italianos, a Avenida da Opera e a rua da Paz. A clássica sardinha na sua clássica lata, um maço de cigarros densamente apertado, grãos de café dentro do saco pançudo que quase estoura--são frouxas imagens materiais para exprimir esta massa compacta de creaturas de Deus, que se move com a espessura e lentidão de um metal mal fundido. É a innumeravel multidão do tempo de Boulanger, o derradeiro creador de multidões. Mas não ha agora a vivacidade, a vibração petulante e batalhadora de esses dias de cesarismo. Esta multidão é enternecida e grave. É sobretudo doce. Não ha uma brutalidade, uma impaciência, um empurrão. As mulheres vieram confiadamente trazendo filhinhos ao colo. Tanto é o decoro e o recolhimento, que lembra uma turba devota dentro dos muros de um templo.

Toda esta parte de Paris, com efeito, em redor do Club Militar onde se hospedaram os russos, se tornou como um vago templo de fraternidade e de paz.

Esse espirito pacifico e fraternal que aqui erra, esparsamente, até se comunica aos animais.

Na Avenida da Opera um grande mail-coach, tirado por quatro puros cavalos, fica encravado, atolado na densa massa viva. No tempo de Boulanger seria um escândalo de berros e couces, porque, para homens e bichos, os tempos eram aggressivos. Agora, o cocheiro lá no alto, puxou risonhamente a charuteira e acendeu um paciente charuto. Os cavalos não se moveram, discretos e cortezes. A gente que se achava colada a eles, terminou por se encostar, familiarmente, descançando, ás garupas fumegantes. Os animais, por seu turno, também derreados, descançavam os focinhos sobre o hombro do cidadão. Por cima, as janelas embandeiradas estão cheias de mulheres, que atiram flores, atiram mesmo beijos, por entre as pregas amarelas do pavilhão do Czar. O próprio céu se enfeita--e toma agora sempre, ao fim da tarde, um tom de ouro e apoteose.

Por vezes, entre couraceiros que cercam um landeau, alvejam ao longe os bonnets brancos dos oficiais russos. Uma aclamação rompe logo de viva o Czar, viva a Russia! Toda a mássica multidão arremete em uma ansiosa ondulação; os chapéos tremulam freneticamente entre o esvoaçar dos lenços. É uma curta explosão de amor. De novo o decoro, a compostura risonha se estabelecem, mais largos. Nem sequer se levantou um pó importuno. Ninguém sua. Toda esta turba cheira agradavelmente a água de colonia e a violetas do outomno. Até o ar se aveludou. As vidraças dos prédios dardejam lampejos de alegria. Os cidadãos trocam o lume dos charutos com um sorriso de gratidão e concórdia. Tudo é harmônico, suave, polido, amável e fino. No fundo toda este ordem é simplesmente o resultado precioso de uma muito velha civilisação. E é em dias de estes, no meio de dois milhões de populares apinhados pelo entusiasmo em três ruas estreitas, que se apreciam os benefícios de uma antiga cultura, que através dos tempos tem afinado o animal humano. Eu, por mim, durante toda uma hora que levei a atravessar a praça da Opera, sem que ninguém me empurrasse, me pisasse, me empecesse, me contrariasse--não cessei de louvar Julio Cesar, por ter, tão cedo, e tão antes do meu tempo, feito a conquista das Gálias.

Enquanto ás festas propriamente, creio que foram medíocres--sobretudo as festas exteriores e de rua. O francês nunca teve o gênio decorativo--nem soube a arte sumptuosa de organisar uma gala. Esse dom pertence ao italiano. O francês só é hábil em ornamentar um salão--ainda que ultimamente o classicismo, que é um dos feitios da sua inteligência, o tenha imobilizado em dois gêneros que repete monotonamente, infinitamente: o Luis XV e Henrique II. Em todo o caso, possui grandemente a sciencia das luzes e das flores. E todas estas festas realisadas em salão, os banquetes, os bailes, a gala da Opera (que é um salão) tiveram muito requinte e muito brilho. Nas ruas o esforço inventivo não passou de algumas bandeiras tricolores, fixadas nas varandas, ao lado do pavilhão amarelo com a aguia negra de duas cabeças.

A rua da Paz oferecia uma decoração de mastros de navios, com vergas, o velame apanhido, e flamulas no topo, que a assemelhava a uma linda doca de opera cômica. A rua Quatro de Setembro, com o seu lango toldo de lanternas chinezas, lembrava uma rua de Cantão, em noite de devoção buddhista.

As festas, além de isso, foram muito acumuladas. Todas as instituições, corporações, associações, clubs, armazens, queriam anciosemente honrar os russos;--e houve tal dia pavoroso em que o almirante Avelane e os seus oficiais foram forçados a partilhar de três almoços, quatro lunchs, dois jantares e cinco ceias! Apenas acabavam aqui de engulir o café, tinham de saltar á pressa para dentro das carruagens para ir além recomeçar a sopa. É grave pensar que estes homens inocentes tiveram de comer oito e dez vezes, por dia, salmão á russa ou codorniz trufada. E como em estas ágapes de aliança o ato importante eram os toasts, as saudações de confraternidade e de reverencia pelo Czar, não é menos grave considerar que a cada um de esses marinheiros fortes, coube, durante o seu dia, esgotar de setenta a oitenta copos de champagne.

Emfim, se já no tempo de Henrique IV Paris valia uma missa, não ha dúvida que agora, com todos os progressos de três séculos, vale bem uma dispepsia.

Mas as festas foram talvez menos deslumbrantes, por causa das casacas pretas do governo. O Estado em França, como republicano que é, não, tem uniforme, e nas grandes festas oficiais é obrigado a aparecer de casaca e gravata branca como os escudeiros que servem o punch. Este inconveniente, tão considerável em um paiz habituado ha oito séculos ao esplendor sumptuário da monarchia, nunca resaltou tanto, nem se tornou tão patente, como agora em estas festas, que eram sobretudo militares. Em meio das fardas, dos penachos, dos bordados, das couraças, dos ouros, das amas ricas--alguns sujeitos circulavam, encafuacos, mesmo de dia, sob o esplendor do sol, em sinistras casacas negras. Quem eram? Os ministros, o governo, o Estado, a França. Aí está a que chegara a seda branca recamada a pérolas dos Valois, o veludo bordado, e os laços floridos, e os diamantes, e os altos empoados dos Bourbons, e as fardas faiscantes dos Napoleões: a uma casaca de pano preto, quase sempre mal feita, como a de um creado de copa ou de um servente de enterro!

Todo Paris sentiu e sofreu a humilhação de esta pelintrice oficial. E jornais sérios, em artigos sérios, lembram a necessidade de que se estabeleça para os presidentes das câmaras, para os ministros (os três poderes do Estado) um uniforme, nobre e severo, que lhes dê prestigio--esse prestigio material e exterior, que para um povo amigo da arte e da beleza das formas, é talvez o mais persuasivo e durável. Isto é extremamente sensato. É necessário que o poder inspire sempre o sumo respeito. Ora, entre dois chefes de Estado--um revestido de uma couraça rutilante, com um capacete emplumado, o outro metido dentro de um paletot negro, com um chapéo côco--o respeito instinctivo da multidão impressionável vai para o guerreiro da bela couraça, e não para o sujeito do côco triste. Pelo menos para ele vão os olhares das mulheres--e logo portanto atraz, por uma lei natural, a consideraçãodos homens. Os filósofos, está claro não regulam a força moral e o valor por estas exterioridades. A pompa toda de Alexandre não conseguiu impressionar Diogenes. Mas a turba não se compõe de filósofos--e para ela perpetuamente a magnificência solene será a prova real do poder.

Mas que uniforme se deverá impôr ao Sr.. Carnot? Não sei. Evidentemente não deverá ser o fato de Luiz XV, de setim branco, e o manto de papo de tucano, que o imperador do Brasil por vezes revestia--e de que ele próprio se ria tão alegremente. Mas é bom que não continue a ser essa lamentável casaca civil, envergada logo de manhã á luz irônica do sol, de que o imperador tanto gostava e que tanto o prejudicou.

E já que, através de fardas e casacas, vim a recordar o Brasil, como não aludir discretamente ao grande silencio que subitamente se fez em França sobre a revolta que o agita? Apesar de atulhados com as narrações das festas, e com a Russia (que é volumosa), os jornais de Paris ainda assim reservam sempre algumas linhas, vinte ou trinta, aos casos curiosos do mundo.

Debalde, porém, se procura agora uma noticia, mesmo falsa, sobre o Brasil. Nada! É como se o almirante Melo e os seus couraçados se tivessem sumido para sempre nas brumas atlânticas. Que digo? É como se o Brasil tivesse desaparecido--ou antes tivesse entrado em aquela era de felicidade, classicamente conhecida, em que os povos deixam de ter historia. E assim parece ser, pois que o único rastro do Brasil se encontra em algum boletim financeiro, onde se dizem os sacos de café vendido, e a indicação dos câmbios. E até este mesmo cambio, outr'ora tão agitado, nos aparece agora cheio de quietação e repouso...

Un silence parfait régne dans cette histoire--como diz Musset. É de bom prenuncio este silencio, é de mau prenuncio? Em todo caso, é único na historia das revoluções. Havia tiros, sangue, cólera, tumulto. De repente tudo se cala, tudo se some--e aqui ficamos na Europa boquiabertos, diante de uma forte revolta que se esvaiu no ar, como uma visão de magica. Onde estão os couraçados? onde estão os fortes? onde estão os regimentos? Não ha nada--não se entrevê um vulto, não se escuta um rumor.

De certo aí, no Rio, se estimaria saber a impressão que se tem aqui em Paris de essa lucta desoladora. Pois a impressão é esta, não outra, ha uma longa, vagarosa semana. O pasmo diante de uma coisa real e terrível, que troava e flamejava, e que de repente desaparece, se funde na mudez e na sombra. E aqui estamos espantados, arregalando os olhos para o Brasil--tendo apenas a vaga consciência de que lá se contínua pacificamente a vender café.

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