As Eleições — A Itália e a França Ecos de Paris · Capítulo 8 de 18
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As Eleições — A Itália e a França

As eleições em França, celebradas no último domingo, foram talvez o mais solido e completo triunfo que a democracia tem obtido em estes vinte anos: pelo menos foram a sua mais franca, mais positiva e mais corajosa afirmação.

em essa abrazada manhã de missa, com efeito, o sufrágio universal consultado (esse sufrágio universal que ainda ha pouco, em departamentos remotos, os homens de campo consideravam como um personagem vivo, vestido, condecorado, cheio de poder, de quem particularmente dependiam as leis do imposto e do serviço militar) começou por eliminar da Representação Nacional todos aqueles que, nos derradeiros tempos, se tinham erigido como paladinos da moralidade publica e limpadores valentes de cavalariças de Augias:--e assim os que, durante a legislatura passada, se ergueram, na tribuna e no jornal, contra a corrupção parlamentar e financeira, como Drumont, Andrieux, Delahaye, etc., foram derrotados em todos os círculos, com um entusiasmo esmagador e jovial.

Feita esta primeira eliminação, o sufrágio universal passou a riscar cuidadosamente do parlamento todos os políticos profissionais e militantes, que, na direita ou na esquerda, faziam essa politica negativa, só diluidora e desmanchadora, ocupada apaixonadamente, e com uma arte subtil, a embaraçar ministros e desorganisar ministérios.

E assim homens como Clemenceau e Cassagnac, que entravam na camara com unanimidades triunfais, estão, senão já derrotados, pelo menos humilhantemente empatados, e prestes no próximo domingo a voltar àquela ocupação tão justamente louvada pela sapiência antiga, e que consiste em cada um plantar as suas couves dentro do seu quintal.

Terminada esta segunda limpeza, o sufrágio universal passou a expulsar da representação nacional todos os ideólogos, todos aqueles que procuram fazer a remodelação das formas sociais por meio de uma revolução nas ideias Morais. E assim um nobre homem como o conde de Mun, o cavaleiro andante do socialismo christão, é vencido na Bretanha, sua pátria espiritual, por um pequeno advogado bretão que, em vez de anunciar aos eleitores o próximo advento do céu sobre a terra, lhes promete, muito comesinhamente, uma reforma do imposto rural.

Realisada esta terceira expurgação, o sufrágio universal passou a banir das câmaras, enojado, os artistas, os cinzeladores da palavra, os mestres inspiradores da oratoria. Basta de lira! gritavam em 1848 os operários famintos a Lamartine, uma tarde em que ele, na cadeira do Hotel de Ville, estava arengando e sendo sublime. Toda a França industrial e agrícola repete agora o mesmo grito positivo. Basta de lira! Abaixo a eloquência! Fora a retorica e a sua rijada ardente!

E assim todos os grandes oradores contemporâneos da tribuna francesa ficam de repente sem tribuna e sem profissão, porque (caso único na historia) a democracia rejeita definitivamente a eloquência como factor do seu progresso.

Tendo realisado estas sucessivas depurações, e repelido para longe, para os seus elementos naturais, os Catões, os obstructores, os ideólogos e os artistas, o sufrágio universal passou a eleger com cuidado e amor uma camara bem mediana, bem ordeira, bem pratica, bem positiva, toda experiente em cifras, superiormente conhecedora dos interesses regionais, capaz de trabalhar quatorze horas nas comissões, e feita á imagem e para o útil serviço de esta França nova, que é simultaneamente um banco, um armazém e uma fazenda. Depois o sufrágio universal descançou--e viu que a sua obra era boa.

Com efeito é uma boa obra de democracia. Em primeiro logar, todas as superioridades que podiam desmanchar e desnivelar a egualdade intelectual da camara (e a egualdade deve ser o cuidado sumo de toda a democracia) foram eliminadas com aquela decidida franqueza com que o bom Tarquinio outr'ora cortava, no seu horto, as cabeças purpúreas e brilhantes das papoulas mais altas.

Na camara não haverá senão espíritos médios e planos--e toda ela será realmente como uma longa planície, productiva e chata, sem uma eminencia, uma linha que se eleve para as alturas, moinho torneando ao vento ou torre airosa de onde vôem aves.

Depois todos os moralistas de moralidade rígida, e quase abstracta, foram suprimidos como incompativeis com a realidade social, com os costumes financeiros de uma democracia industrial, com o regular e fecundo funcionamento dos negócios. O sufrágio universal entendeu que, para bem da democracia, de que ele é o motor inicial, o logar de estes homens, desarranjadores estereis de todos os arranjos uteis, era não nos bancos de um parlamento, mas nas Celas de um mosteiro, ou no deserto entre os santos que, como S. João, lá pregam por gosto e profissão.

Depois todos os ideólogos, os filósofos, os homens de altos sistemas sociais, que constantemente tentam introduzir nas coisas publicas Deus, a alma, o infinito, a bondade progressiva e outras entidades que lhes são inteiramente estranhas e prejudiciais, foram escorraçados como perturbadores impertinentes da boa ordem democrática, onde as massas disciplinadas, com os olhos praticamente postos em terra e na ferramenta, se devem ocupar unicamente de produzir bem e de vender bem.

E finalmente os oradores, os artistas, os poetas foram, por este sufrágio universal e segundo o prudente preceito de Platão, ignominiosamente expulsos da República.

Estas eleições, pois, foram incontestavelmente uma boa obra de democracia. E por isso os jornais afirmam que a França purificada emfim, e livre dos elementos mórbidos que a agitavam e debilitavam, vai entrar em um período ditoso de estabilidade e de força fecunda. Amen.

Enquanto o sufrágio universal estava assim tonificando a República, um conflito entre operários franceses e italianos, em um departamento do sul (em Aiguesmortes) veio avivar e exacerbar esta inimizade, mais politica que nacional, que ha anos vem crescendo entre a Itália e a França.

Foi a antiga historia dos salários. O italiano emigra para a França, como emigra para a America, a buscar o trabalho cada vez mais difícil na Itália que, aparte um bocado suculento da Sicilia, e um pingue bocado da Lombardia, é toda ossos e montanhas. Ou por ser de uma raça mais sóbria, ou de uma raça mais indigente, o italiano aceita salários muito inferiores aos do operário francês. Como ao mesmo tempo tem muita inteligência e muita destreza, é naturalmente preferido pelos patrões,--porque o capital é cosmopolita. de aqui despeito, rancor do operário francês, ameaçado no seu pão--e constantes rixas, em que o italiano, naturalmente, puxa a faca, essa faca meridional que enche de horror e de asco os povos do norte.

Foi o que aconteceu em Aiguesmortes, com a aggravante lamentável de que um bando de italianos que, depois de uma tremenda baralha, se tinham refugiado em uma malta, foram aí perseguidos pelos franceses, monteados como lobos, e dizimados a tiro, um a um.

Indignação imensa em toda a Itália. Manifestações em Roma, em Genova, em Nápoles. Assaltos aos consulados de França, ultrajes á bandeira da França. E, como nas Vesperas Sicilianas, o velho grito de Morra o francês! acompanhado agora, para maior ofensa, do grito novo de Viva a Alemanha!

Os franceses ainda podem tolerar magnanimamente que a Itália, que eles consideram como obra sua, feita pelas suas armas e com o cimento do seu sangue, berre: Abaixo a França! Ha aí apenas, para eles, esquecimento e ingratidão. Mas não podem suportar que a Itália grite: Viva a Alemanha! Aí já ha um desafio, e como que uma afronta á dignidade da nação. De sorte que se os italianos assassinados em França indignaram a Itália--a indignação da Itália, sob esta fórma oblíqua e quase irônica de entusiasmo pela Alemanha, indignou muito mais profundamente a França. E as duas nações estavam já assim, ha duas semanas, em face uma da outra, quietas, mas penetradas de mutua hostilidade, tanto maior da parte da França quanto tem de ser, por prudencia, silenciosa. Mas eis que agora, em estes últimos dias, a Itália praticou, para com o sentimento francês, um outro e supremo ultraje.

O imperador da Alemanha vem este ano dirigir as grandes manobras militares nas províncias francesas conquistadas, Alsacia e Lorena. E quem acompanha o imperador da Alemanha, como seu hospede e aliado? O príncipe real de Itália. Ora, para os franceses, esta presença do príncipe italiano na terra alsaciana é uma ofensa monstruosa. E é realmente uma ofensa?

Ha aqui uma susceptibilidade muito delicada, que é difícil criticar. Em boa verdade, hoje a Alsacia e a Lorena são, geograficamente e administrativamente, províncias alemãs como a Pomerania ou o Brandeburgo: e não parece que, no facto do príncipe da Itália ir a Strasburgo, haja maior injúria do que ir a Berlim ou a Leipzig. Além de isso, a sua presença não vai consagrar a conquista que é um facto consumado ha mais de vinte anos, e não precisa consagração. Acresce ainda que o imperador da Alemanha não vem á Alsacia e Lorena com intenções arrogantes de desafio: e o príncipe de Itália não está, portanto, colaborando tacitamente em uma provocação alemã. Depois ele foi solenemente convidado a assistir ás manobras alemãs, que se realisam por acaso nas províncias anexadas: e se o aceitar um convite para essa região é ofender a França, o recusar o convite seria, pelos mesmos motivos, insultar a Alemanha. Tudo isto é indiscutivel. Mas o patriotismo, como o amor, não se raciocina, quando ferido. Para os franceses, a Alsacia e a Lorena são duas terras francesas que gemem sob a opressão. E o facto do príncipe de Itália vir caracolar sobre esse solo vencido e dorido, ao lado do opressor, é, para os franceses, uma afronta incomparável. De sorte que uma reconciliação entre a França e a Itália é hoje quase impossível, tanto mais que ás questões de politica se juntam questões de dinheiro (sempre irritantes) e a estas ainda uma outra questão sentimental de gratidão, mais irritante que a de pecúnia.

Com efeito, a França pretende que a Itália esteja para com ela em um perpetuo e enternecido estado de gratidão. E esta exigência da França tem o condão de enervar a Itália--de a enervar até ao desespero. É um facto psychologico bem conhecido (e Labiche superiormente o pintou em uma das suas comedias geniais) que o libertado sente sempre um secreto tédio pelo libertador. Mas quando o libertador constantemente e garrulamente cita, lembra e celebra o beneficio da libertação--não é tédio então, é intenso e vivo ódio que o libertado começa a nutrir pelo herói que o libertou. É bem natural--porque o fraco não póde esquecer que o apoio trazido pelo forte foi uma demonstração publica e aparatosa da sua fraqueza. Todos aqueles que Hercules outr'ora veio salvar, com grande alarido e grande farofia, ficaram detestando Hercules.

Ora a Itália realmente tem sido libertada de mais pela França, desde Carlos VII! E todas estas intervenções libertadoras lhe foram horrendamente caras, além de algumas de elas lhe serem desoladoramente inúteis.

A de Nápoles I quase a arruinou, além de a anarchisar. E Napoleão III, que concorreu efetivamente para fazer o reino de Itália, voltou de lá bem pago em boas terras, com Nice e com a Saboia. Mas além de isso a França tomou o habito arrogante e humilhador de afirmar que ela e só ela criou o reino da Itália, pela força das suas armas e do seu dinheiro: quando realmente a Itália pretende, e com razão, que ela sobretudo concorreu grandemente para esse resultado magnifico com o seu dinheiro, as suas armas, o seu patriotismo e a habilidade suprema dos seus homens de estado. em estas condições, é fácil comprehender a irritação dos italianos quando os franceses os acusam de ingratidão, e lhes lembram altivamente que se a Itália hoje é uma nação é porque assim o quis a França na sua magnanimidade.

Tudo isto vai levando a uma guerra. E é uma dor que duas nações como a Itália e a França se venham a dilacerar. Ha aí o que quer que seja de semelhante a um parricídio. A Itália, é certo, nos seus velhos dias, tem sido ajudada:--mas foi ela, na sua soberba mocidade, que nos fez a nós todos, povos da Europa Ocidental, e nos civilisou e nos modelou á sua imagem. Ela é e permanecerá a Itália-mater, a mãe venerável das nações. Todos nós somos ainda religiosamente, e juridicamente, e intelectualmente, províncias de Roma. Quando a sua tutela politica findou, nós ficámos ainda, e para nossa grandeza, sob a sua tutela espiritual. Ainda não ha duzentos anos que, como derradeiro presente, ela nos deu a musica.

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