O Salon
O mez de maio, em Paris, é dedicado á Esthetica.
Então se abre com uma certa solemnidade, em que colabora mesmo o chefe do Estado, a exposição de Belas-Artes, a que os franceses chamam o Salão, sem dúvida por causa da graça, da polidez e da sociabilidade da sua arte. Todas as classes de Paris (com excepção dos operários, que só se apaixonam pela politica) tomam um interesse, senão intelectual pelo menos social, em esta abertura do Salão, mesmo aquelas que no resto do ano vivem tão indiferentes e separadas das coisas de arte como das coisas da teologia Hindú. Ha assim, em todas as cidades, um dia tradicionalmente consagrado, ou ao Espirito, ou ao Sport, ou á Devoção, que tem o dom de reunir no mesmo entusiasmo, ou pelo menos na mesma disposição festiva, todos os cidadãos. Em Londres, milhares de pessoas que nunca pegaram em um remo, nem comprehendem que honra ou proveito se tire de remar com pericia, mostram, e realmente experimentam, a mais excitada simpatia pela regata clássica entre as universidades de Oxford e de Cambridge. E em Lisboa, mesmo os impios, pelo ar de festa que tomam, concorrem, no devoto 13 de junho, a festejar Santo Antônio. As almas dos homens, andando hoje tão dispersas, necessitam fundir-se, ao menos uma vez por ano, em um sentimento comum.
Acresce que o Salão, no dia ceremonioso da sua abertura, oferece dois grandes atrativos além dos quadros e das estatuas. em esse dia os artistas expõem, não só as suas obras, mas as suas pessoas:--e contemplar um artista, o córte da barba e a fórma do chapéo do artista, é um precioso regalo para o pariziense, como já era para o grego, que vinha da Grande-Grecia e das Ilhas a Atenas, não para escutar Platão, mas para vêr Platão. No Salão, tal que apenas lança um olhar indolente ás telas de Bonnat, segue através das salas, durante uma hora, o próprio Bonnat, repastando-se com delicias na admiração do homem cuja obra lhe foi indiferente. É que para esses, a quem o bom Flaubert chamava com tão truculento rancor «os burguezes», todo o artista é um sêr excepcional, vivendo uma vida excepcional, feita de invejaveis aventuras, de estranhas festas e de voluptuosidades magnificas. Um tão grande privilegiado excita uma insaciável curiosidade--como tudo o que, no bem ou no mal, pelo brilho ou pela força, se ergue acima do cinzento e medíocre nível humano. E mal sabem os «burguezes» que o artista quase sempre (a começar pelo próprio Flaubert) é também um burguez pacifico, sóbrio, cordato e estreito.
Mas no Salão ha ainda, no dia da sua abertura, uma outra vistosa atração que por certos lados se prende ás Belas-Artes--a das toilettes. Com efeito, está na antiga tradição pariziense que as mulheres de luxo, aquelas para quem o luxo é um instrumento de profissão, e aquelas para quem a luxo é um habito natural, que lhes vem da riqueza, da posição, ou do gosto inato, arvorem então as modas novas de primavera, as creações mais delicadas e mais artísticas das grandes costureiras de arte. São outros tantos quadros que circulam aparatosamente pelas salas, e que a multidão olha e admira, com muito mais curiosidade do que os outros, pregados em redor nas paredes, dentro dos seus caixilhos. E ao lado das elegantes enxameam as próprias costureiras, que vêm, exactamente como os artistas, observar com ansiedade o «efeito» produzido pela composição, pelo colorido, pelo vigor ou pela finura das suas obras.
de estas obras especiais apenas entrevi duas com alguma fantasia e audácia. Em ambas a figura das senhoras, a sua «plástica» concorria a dar um relêvo picante e divertido á toilette e aos acessórios da ornamentação. Uma, muito delgada, bem lançada, com uma gracilidade serpentina, trazia uma saia curta, de seda murmurosa e lustrosa, recoberta de falbalás Pompadour: os cabelos fulvos, pintados com o louro do Ticiano, cahiam em cascatas e ondas ricas sobre colo e hombros, como uma juba superiormente frisada e bem empomadada por Lentheric (o mais ilustre cabeleireiro do século); as abas do seu chapéo eram tão vastas que sob elas se poderia abrigar do sol ou da chuva um grupo de viajantes, com os seus cavalos e com as suas bagagens, e estavam ainda encimadas por uma triunfal montanha, fôfa e tremente, de plumas multicores: a sua mão, calçada de luva negra, bordada a ouro, e que subia amarrotada até o hombro, apoiava-se no castão de ônix de uma bengala de marfim, mais alta que um baculo ou que uma lança: a cada passo que dava, as sedas crepitavam e lampejavam, a massa alterosa de plumas tremia e fluctuava, o conto do bengalão resoava magestosamente, e um sorriso fugia dos lábios da dama, tão vermelhos que pareciam uma ferida em carne viva e sangrenta. Assim ia entre a multidão--e eu não a comento. Arredae-vos, amigos, e deixae-a passar.
A outra senhora, ainda mais pitoresca, era enorme, transbordante, construida de rôlos e bolas, com uma pele escabrosa, a que, mesmo sob o pó de arroz aplicado sem economia, se sentia a cor de açafrão. As suas tremendas massas de carne bamboleante vinham apenas envoltas em uma túnica diáfana, de um amarelo ardente e brilhante, como as florinhas do campo de Portugal chamadas botões de ouro, e feita certamente de aquele antigo tecido que se fabricava na ilha de Cós, e que pela sua transparência e leveza aérea os poetas da Grecia diziam ser feito de luz e vento.
Como chapéo tinha apenas alguns amores perfeitos, em grinalda, também amarelos. Era uma ninfa, e assim montanhosa, sobrancelhuda, beiçuda, de venta larga, com um saracoteio que lhe colava a túnica e lha enrodilhava nos vastos membros de elefante ameno, fendia soberbamente a turba, meneando um imenso leque, ainda amarelo, furiosamente amarelo. Tais eram estas duas parizienses, as duas obras vivas do parizianismo que mais me impressionaram em estas festas de Santa Esthetica. Dizem que Paris continua a impôr ao mundo a regra do gosto e do bem-vestir, e que, tendo perdido todo o predominio em matéria de filosofia e de sciencia positiva, exerce ainda uma influencia intensa através das suas costureiras. Por isso traslado fielmente, para uso das raças menos inventivas, estes dois figurinos que se me afiguram consideraveis.
Enquanto ás outras obras expostas no Salão, os quadros e as estatuas, a primeira lição que lhes tirei foi meramente sociologica; e por via de elas (mirábile dicta!) mais uma vez reconheci quanto é fácil governar as Democracias. O grande obstaculo, que os teóricos de temperamento tímido têm antevisto á estabilidade dos agrupamentos democráticos, é a independencia da razão individual e o seu livre exercício, garantidos por leis, tornados mesmo alicerces primordiais da estructura publica.
Desde que não exista uma regra, como a velha regra católico-monarchica, que obrigue todos os espíritos a ter a mesma opinião e a regularem por ela a sua conducta, não parece possível (afirmam esses pálidos teóricos) manter em harmonia alguns milhões de cidadãos, todos eles possuidores de uma ideia original e própria, e determinados, por interesse ou por convicção, a que só ela prevaleça.
A servidão intelectual, entendida á boa e rija maneira dos Jesuitas, aparece assim como a condição suprema de toda a harmonia social.
Mas como a Democracia, de colaboração com a filosofia, tem justamente por fim abolir esta servidão, dar uma ilimitada alforria aos entendimentos, ela cria desde logo e sem remedio esse estado, previsto tão melancolicamente pelo nosso velho proverbio, em que «cada cabeça dá a sua sentença». E (concluem emfim os teóricos) como não ha melhor gozo para uma cabeça humana do que conceber e impôr uma sentença, resulta que, apenas se quebra o jugo salutar da Regra, todas as cabeças se sacodem desafogadamente, atiram para o ar com impeto a sua sentença e fazem uma de essas horripilantes desafinações sociais só comparaveis ás de uma orchestra, sem regente e sem batuta, em que cada instrumento geme, silva, tilinta, ou rebumba uma musica diversa e contraria. Tudo isto é um erro--e os teóricos que a sustentam nunca foram, como eu, ao Salão, no dia da sua abertura, quando em matéria de Arte cada cabeça, depois de ter pago a entrada, póde liberrimamente proclamar a sua sentença. Se tivessem feito essa peregrinação instructiva, verificariam que o servilismo intelectual é no homem um vicio irreductivel, e que por mais que se lhe facilite o largo e livre exercício da razão, e que se lhe ensine a sacudir o despotismo dos Oraculos, sempre ele por instincto, por covardia, por indolencia, por desconfiança de si próprio, abdicará o direito de pensar originalmente e se submeterá com prazer, com alivio, a toda a Autoridade, que, á maneira de um pastor entre um rebanho, se erga, toque a buzina e lhe aponte um caminho com o cajado. Realmente a humanidade é gado--e o primeiro movimento de toda a cabeça livre é pender para o sulco aberto, enfiar para debaixo da canga.
Estas reflexões, de resto pouco novas, (miraculoso seria que ao fim de tantos séculos ainda se pudessem desenterrar novidades do fundo da índole humana) as fiz eu, com alguma tristeza misturada de muita alacridade, notando para que quadros e para que estatuas se dirigiam, no Salão, a curiosidade e a admiração do publico.
Como uma fila submissa, de bons carneiros, todos estes milhares de seres pensantes, e únicos donos do seu pensamento, marchavam arrebanhadamente para aquelas obras que, na véspera, o Estudo Critico, ou antes o Guia Critico, do Salão, publicado pelo Jornal, lhes indicava, ou melhor lhes impuzera, como as únicas diante das quais deviam parar, e fazer ah! e sentir uma emoção e depôr um louvor. Não só o jornal previdentemente lhes apontava a obra, mas lhes ensinara mesmo a emoção que deviam experimentar, e até lhes redigira a formula laudatória que deviam balbuciar. E os milhares de seres pensantes (muitos com o jornal na mão) lá se apinhavam, em densos magotes, diante da tela, recebendo obedientemente a emoção ensinada, recitando, sem omitir um adjectivo, a formula do louvor decretado. Um padre da Companhia de Jesus teria saboreado deliciosamente este salutar espectaculo de disciplina mental.
Todavia este povo fez, com intensa paixão, três revoluções sangrentas para alcançar o direito de livre-exame e de livre-juízo. Essa conquista, symbolisada sempre na clássica tomada da clássica Bastilha, é com razão um dos seus altos orgulhos e foi ela que o auctorisou a revestir-se entre as nações do caráter messiânico, e a intitular-se «redemptor dos Povos», o que tanto fazia rir o amargo Carlyle. Com efeito, a liberdade de ter uma opinião, não só em matéria politica, mas mesmo em matéria filosófica e estética, nem sempre foi garantida aos parizienses, e houve tempos (talvez ditosos) em que ele, tal qual como o habitante de Damasco ou de Bagdad, não podia, sem perigo do carcere e da tortura, divergir das opiniões dogmáticas dos seus doutores.
Quando a Faculdade de Paris (que, segundo diz Voltaire, tão poucas faculdades possuía) lançou um decreto negando a existência das «ideias inatas», todos os espíritos foram obrigados a repelir com nojo a abominável noção das «ideias inatas»; e quando, anos depois, fazendo uma pirueta metafísica, a mesma Faculdade atirou outro decreto afirmando a existência das «ideias inatas», todos os mesmos espíritos, piruetando também, tiveram de proclamar com reverencia a certeza das «ideias inatas». A memoria de essa afrontosa escravidão intelectual ainda hoje amargura o francês que em principio, teoricamente, considera a vida sem valor, logo que ela não seja acompanhada e enobrecida pela liberdade do pensamento.
É essa liberdade, alcançada emfim tão penosamente, que constitue a sua melhor superioridade sobre o pobre homem de Bagdad ou de Ispahan, a quem ainda não é permitido raciocinar de um modo diferente do que raciocina o Cadi ou o Ulema. Ele, francês, graças ás suas três revoluções, póde pensar como lhe aprouver sobre todas as coisas da terra e do céu. É o seu mais augusto direito. E esta certeza de o haver conquistado lhe basta largamente. Porque, de resto, para ter uma opinião, espera sempre que o seu Cadi ou o seu Ulema, dogmatisando no jornal, lhe indique a opinião que ele deve adoptar e a maneira porque a deve exprimir, ou se trate de um ministério e o Cadi seja Magnard, do Figaro, ou se trate de um vaudevile e o Ulema seja Sarcey, do Temps.
de onde se poderia concluir, alargando o conceito, que o homem verdadeiramente não apetece ser livre e apenas deseja que lhe não chamem escravo. Comtanto que a sua liberdade esteja consignada em letra redonda, algures, em uma Constituição ou nas paredes dos edifícios, ele está contente e não exige que essa liberdade se traduza realmente em factos. O dístico lhe basta. Qualquer República se póde converter no mais rígido despotismo, comtanto que se continue a denominar «República». Nero, intolerável sob o nome de Imperador, é popularmente consentido sob o nome de presidente. Em matéria social é o rotulo impresso na garrafa que determina a qualidade e o sabor do vinho. O governo das sociedades parece, portanto, ser essencialmente uma questão de léxico. O melhor meio de dirigir os homens será talvez gritar-lhes com entusiasmo: «Vós sois livres!»--e depois com um tremendo azorrague, á maneira de Xerxes, obrigal-os a marchar. E marcham contentes, sob o estalido do açoite, sem pensar mais e sem mais querer, porque a palavra essencial foi dita, eles são livres, e lá está Xerxes, no seu carro de ouro, para querer e para pensar por eles.
De resto, talvez toda esta gente ande bem avisadamente em admirar, sem iniciativa própria, as obras de arte, que os criticos lhe mandam admirar. Ha aqui uma reserva e economia de força pensante, que bem póde ser louvável. em esta nossa atulhada civilisação, em que tão contínuos esforços são exigidos de cada homem para que lhe possa caber a sua fatia de pão no famoso «banquete da vida», parece realmente excessivo que ele se sobrecarregue ainda com o trabalho de conceber e formular opiniões estéticas. Um amanuense das finanças, que nascera com espirito, dizia outr'ora a Voltaire:--«É para mim uma grande infelicidade, mas nunca me sobrou tempo para ter bom gosto!» Palavra triste e profunda:--e que, se já era verdadeira no século XVIII, quanto mais exacta é no século XIX! Para ter um gosto próprio e julgar com alguma finura das coisas de arte, é necessária uma preparação, uma cultura adequada. E onde tem o homem de trabalho, no nosso tempo, vagares para essa complicada educação, que exige viagens, mil leituras e longa frequentação dos museus, todo um afinamento particular do espirito? Os próprios ociosos não têm tempo--porque, como se sabe, não ha profissão mais absorvente do que a vadiagem. Os interesses, os negócios, a loja, a repartição, a família, a profissão liberal, os prazeres não deixam um momento para as exigências de uma iniciação artística:--e em uma cidade de dois milhões de almas, como Paris, ha por fim apenas meia duzia de almas, que possam sentir com verdade e profundidade a beleza ou a grandeza de uma obra, e que, diante de um quadro de Velasquez e de um quadro de Bonguereau, saibam qual pertence á Arte e qual pertence ao Artificio. Por isso a oleografia triunfa, e Ohmet e outros tiram a cem mil exemplares, e as comedias mais desprezivelmente idiotas congregam as multidões. E não é culpa da multidão. Ela póde dizer como o amanuense a Voltaire; «Não me sobra tempo para ter bom gosto!»
Por outro lado, porém, hoje, todo o homem civilisado, ou que vive em um meio civilisado, está sob o dever de se interessar ou de parecer que se interessa pelas grandes expressões da civilisação. Sem essa manifestação de cultura, ele é considerado pelos seus visinhos como um selvagem. O desdem, ou simples indiferença pela literatura ou pela arte, já não é permitido ao habitante de uma capital: e os tempos vão longe em que os senhores feudais se gabavam com orgulho de não saber lêr. Hoje, em todas as classes que estão para cima do lavrador e do carrejão, é tão indispensável mostrar um certo gosto pelas coisas do espirito, como usar, pelo menos ao domingo, camisa engomada. É um preceito de decência e respeitabilidade. Por mais bacalhoeiro que se seja, e enfronhado no bacalhau, e indiferente a tudo, fora o arrátel e o meio arrátel, não se ousa desprezar publicamente (ainda que se desprezem em particular) as letras e as artes, como não se ousa ir ao passeio em chinelos e sem gravata. Tudo em este nosso século é toilette, dizia o velho Carlyle.
O apreço exterior pela arte é a sobrecasaca da inteligência. Quem se quererá apresentar diante dos seus amigos com uma inteligência núa?
em uma cidade como Paris, e perante um acontecimento tão artístico como é todos os anos a abertura do Salão, cada bom burguez (para usar o termo querido de Flaubert) se vê forçado pelo decôro a ter sobre três ou quatro quadros uma opinião, uma frase, para trocar com as suas relações no café. Mas construir essa opinião, redigir essa frase é um trabalho que pede reflexão, tempo, um dicionário. E para quem passa o seu cançado dia no escriptorio, no armazém, na repartição, no bilhar ou na atarefada ociosidade mundana, isto desde logo se torna uma sobrecarga impraticável. O expediente natural, portanto, é recorrer àqueles que têm por profissão e especialidade fornecer, sobre coisas de arte, opiniões e frases. Estes são os criticos e têm a sua loja de retalho no jornal. Nada mais comodo, mais rápido, pois, do que comprar ao critico, pela tolerável soma de dez réis, três ou quatro opiniões, como se compram no luveiro três ou quatro pares de luvas, escuras ou claras. Enverga-se a opinião como se calça a luva, e desde logo se fica apto a aparecer na sociedade com o ar e a elegância moral de um sêr culto. Esta é a grande vantagem de viver nas cidades, onde tudo se fabrica e tudo se retalha. Um qualquer póde estar de manhã completamente nú, de corpo e de espirito, sem um trapo e sem uma ideia. de aí a um momento, dispondo de algum dinheiro, e graças ao armazém de fato feito, e ao armazém de ideias feitas (que se chama o jornal), póde estar todo e dignamente vestido, por dentro e por fora, e sair á rua, e ser um senhor.
Esta gente, pois, que aqui anda, com o seu jornal na mão, consultando em ele as obras que há de admirar e as frases em que há de moldar a sua admiração, não é talvez o rebanho humilde que marcha sob a férula da autoridade. É antes uma turba de amanuenses, que, como o outro do tempo de Voltaire, não tiveram vagares para adquirir bom gosto. Quando Voltaire escreveu, não havia quase jornais, o único critico de arte era Diderot e ainda se andava compilando a Encydopedia. Aquele amanuense estava realmente muito desajudado. Hoje, com tantos e tão baratos jornais e uma tal legião de grandes e verbosos criticos, não ha desculpa para que um amanuense, mesmo sem ter relações com Voltaire, se não forneça de dois ou três kilos de bom gosto. E fornece, porque sabe as vantagens de ter alguma estética e alguma poética, quando se vai á noite tomar chá com senhoras. Aí os vejo todos, trazendo o jornal cheio de opiniões, como um cartucho--e, diante da estatua de Dubois ou do quadro de Bonnat, dizendo com segurança, depois de meter a mão no cartucho, o que este ano se deve decentemente dizer sobre Bonnat ou Dubois.
E aqui está como, divagando com o costumado vicio latino, através de um pórtico de considerações gerais, eu vos retive, amigos, todo este tempo, á entrada do Salão, sem vos mostrar sequer um bocado de cor sobre um bocado de tela. Mas quando eu vos tivesse contado do Cavaleiro das Flores, de Rochegrosse, ou do Papa e o Imperador, de Laurens, ou da Brunehilde, de Luminais, vós apenas ganharieis algumas linhas de prosa desbotada e fugaz.
Estes quadros estão em França, vós estais no Brasil, e de permeio ha três mil léguas de longo e sonoro mar. É difícil sentir uma obra de arte a três mil léguas, através de um mero fio de retórica. A pintura é, segundo todos os fortes definidores, uma imitação da Natureza. Portanto eu só vos poderia oferecer a descripção de uma imitação da Natureza. Mas como eu próprio só conheço quase todos estes quadros, que são três mil, pelo que de eles li em uma revista, realmente, de boa fé, só vos poderia fornecer uma reproducção de uma descripção de uma imitação da Natureza. E como desconfio, além de isso, que o estudo de esta revista era já compilado sobre as notas de jornais, eu, na verdade e sinceramente, só vos dava a transcripção de uma reproducção de uma descripção de uma imitação da Natureza. O que seria petulante.