As Entrevistas — O Rei Humberto e o Figaro — A Monarquia Italiana
Apesar de esta democracia crescente que tudo vulgarisa, ou antes (sejamos prudentes) que tudo egualisa, nem cada dia um jornalista consegue interviewar um rei.
(Este vocábulo interviewar é horrendo, e tem uma fisionomia tão grosseira, e tão intrusivamente yankee, como o deselegante abuso que exprime. O verbo entrevistar, forjado com o nosso substantivo entrevista, seria mais tolerável, de um tom mais suave e polido. Entrevista, de resto, é um antigo termo portuguez, um termo technico de alfaiate, que significa aquele bocado de estofo mais vistoso, ordinariamente escarlate ou amarelo, que surdia por entre os abertos nos velhos gibões golpeados dos séculos XVI e XVII. Termo excelente, portanto, para designar um ato em que as opiniões tufam, rebentam para fora, por entre as fendas da natural reserva, em cores efusivas e berrantes. Mas entrevistar tem um não sei que de surrateiro que desagrada--e só alguém com muita autoridade e muita audácia o poderia impôr. Interviewar, ao menos, é bruto mas franco. Temos pois de empregar resignadamente este feio americanismo--já que os nossos idiomas neo-latinos não estão preparados, na sua nobre pobreza, a acompanhar todas as ruidosas invenções do engenho anglo-saxônio. Vós aí no Brasil, amigos, possuis a arte subtil de cunhar vocábulos que são por vezes geniais. Fabricae um que substitua o interviewar e sereis bemditos).
E no entretanto iremos dizendo que, apesar da nossa egualisação democrática, nem todos os dias um jornalista interviewa um rei. Não parece de resto haver proveito na tentativa. Se os reis são de direito divino, as suas intenções devem permanecer tão impenetraveis como as de Deus, de quem emanam, e que os inspira. Quando alguém ousasse interrogar o imperador da Russia sobre os seus planos, ele, muito logicamente, apontaria silenciosamente para o céu. Os reis de esse transcendente tipo são agentes submissos, quase inconscientes, da Providência. Antes trepar ás nuvens e formular um interrogatório directo á Providência. Se os reis, porém, são constitucionais, então os seus desejos, como os seus atos, só têm valor quando confirmados pelo ministério, pelo parlamento, por todas as instituições tutelares de que os cercou, com que os peiou, a Constituição. Mais útil, rápido, e de melhor cortesia será interviewar o ministro ou o chefe de maioria. É por estes motivos certamente que os repórters, que, com a imprudencia dos pardais, se abatera e piam sobre as coisas mais veneraveis, nunca assaltam os tronos.
O caso, porém, é diferente com o rei de Itália. Humberto é um rei constitucional que diz sempre--«o meu povo... o meu exercito... a minha armada». Estas expressões, indicando um senhorio directo da nação, sancionado pelo direito divino, só o Czar, hoje, (além do Sultão) as póde empregar legitimamente. Por toda a parte, fora da Russia, da Turquia, (e de algumas republicas da America Central) os povos pertencem a si próprios, ou pelo menos conservam essa ilusão, que lhes é preciosa; e os exércitos pertencem ao Estado, que deixou de ser idêntico com o rei desde que Luiz XIV teve a fistula. Estas expressões, porém, de «meu povo», de «meu exercito», que considerariamos singularmente improprias na boca constitucional do rei dos Belgas, não destoam quando usadas pelo rei da Itália. Na realeza de Humberto, chefe da casa de Saboya, ha um não sei que de pessoal e absoluto, que se nos afigura legitimo. Para os italianos, em quem possa sobreviver o espirito municipal das velhas democracias, talvez ele seja apenas o primeiro magistrado da Itália:--para nós ele aparece, até certo ponto, como o senhor da Itália, porque na sua qualidade de segundo rei de Itália ele é ainda a razão e a força da unidade italiana.
Em todos os tempos foi a ambição dos reis que fez a unidade dos Estados. Esta ideia mesmo de unidade, e o amor da unidade, só nasce no povo desde que a vê realisada, e sente experimentalmente a sua grandeza material, ou a sua beleza histórica. A concepção abstracta de uma pátria una nunca póde surgir espontaneamente no povo, que só comprehende e ama a sua aldeia ou a sua cidade, e não pensa na cidade próxima e na aldeia vizinha senão para as desdenhar ou para as invejar. De certo a língua, o parentesco da raça, a identidade do caráter constituem fortes tendencias para a unidade: mas de nada servem, se não houver conjunctamente um rei ambicioso que as aproveite para sobre elas construir a união nacional. Sem esse príncipe ambicioso, ladeado por um ministro do gênero de Bismarck ou Cavour, e instigado por três ou quatro patriotas idealistas, as cidades continuavam a falar a mesma língua, a nutrir-se intelectualmente em uma literatura comum, a prestarem um culto irmão aos mesmos grandes homens, mas não sairiam nunca do seu municipalismo ou do seu provincialismo histórico.
Esta lei, que se póde observar em todos os Estados, é manifesta na historia da Itália. Tendo mantido sempre a unidade da sua civilisação, tão solida que se impoz a todas as raças que a conquistaram; tendo construido na Europa, pelo Papado, a unidade espiritual--a Itália todavia nunca realisou a sua unidade politica, e desde a meia edade permanece fragmentada em municípios e republicas, cuja existência, tempestuosamente agitada entre a anarchia e a tirania, é uma serie lacrimosa de martirológios.
O caráter social da Itália é então a divisão levada até á última molécula social. As cidades vivem isoladas, em um violento ciume mutuo, travando constantemente guerras e trahindo-se com uma perfídia que ficou proverbial. Dentro das cidades, os cidadãos vivem tão divididos como elas, armando todos os dias brigas de rua a rua, e de cada casa fazendo a cidadela de uma facção. E dentro das casas as famílias estão ainda sombriamente divididas, e pais, e filhos, e irmãos não se reunem na mesma sala sem trazerem cautelosamente debaixo dos gibões o seu punhal escondido. Todavia, todo este mundo mutuamente hostil se injúria na mesma língua, lê o mesmo Ariosto, reza á mesma Madona, celebra as mesmas festas cívicas, e sente o orgulho comum da grandeza passada. Mas o longo habito da vida local, do governo comunal, lançara raízes profundissimas, creára no italiano como um modo especial de pensar e de sentir, que o abandonava indefeso ás violências da demagogia, ao abuso da força e da intriga dos pequenos tiranetes, á ferocidade de todos os invasores. Acrescia que estes velhos instinctos municipais eram explorados machiavellicamente pelos papas, que se serviam de eles para esmagar em qualquer dos Estados a menor tendencia á hegemonia, e através de ela á formação de uma Itália unida. Soberano espiritual, o papa não podia sofrer ao seu lado um soberano temporal;--e para manter a sua independencia fomentava a desunião. A pobre Itália ia assim ficando repartida em republicasinhas anêmicas e despotismosinhos sangrentos, amolecendo-se em todas as suas qualidades, depravando-se em todos os seus costumes, sob o patrocínio da Tiara, que a impedia de se unir, sem ter a força de a proteger. A consequência é que a Itália foi assaltada, saqueada, espesinhada, retalhada, vendida ou doada, como um despojo de guerra. Cahiu em decadência, cahiu em servidão... Peior ainda, cahiu em ridículo! E a terra fecunda dos Genios e dos Santos não apareceu mais na Historia senão como um povo piolhento e somnolento, governado por cortes minusculas, que não passavam de uma coleção bufa de caturras, cortezãos, parasitas, jograis, monsenhores, sacristães, sigisbeos, tenores, castrados e bailarinas. E porque? Porque lhe faltara até aí o rei ambicioso e patriota, que, para ser rei da Itália, quebrasse as velhas tradições do municipalismo latino, e no meio das grandes monarchias militares desse á Itália um governo central, leis uniformes, um exercito permanente, as condições todas que a ela lhe consolidariam a unidade, e a ele a soberania. Este rei salvador surgiu finalmente em Turim. Todos nós fomos ainda seus contemporâneos, e o celebrámos como ré galantuomo. Victor Manuel foi o instrumento essencial da ressurreição da Itália. Á sua voz é que a grande Lazara, ligada e estendida no sepulchro bourbonico, ergueu-se e marchou. Outros de certo trabalharam habilmente e heroicamente na grande obra; mas foi ele que a assinou; e, para os olhos da multidão que nunca aprofunda, só ele ficou com a sua força representativa e a garantia da sua duração. Por maiores limitações que a Constituição impuzesse á sua autoridade, ela não podia deixar de ser, através das formulas parlamentares, suprema como a de todo o creador. Humberto, seu filho, continuador e consolidador da obra, herda ainda de esta prerogativa de chefe paternal. Nunca ele poderá ser um rei do puro tipo constitucional, como Leopoldo da Belgica, que, segundo a formula belga, não é senão o «primeiro dos seus administrados». Os futuros reis da Itália (se os houver) poderão ser reduzidos a esta subalternidade de funcionário irresponsável. Humberto não--e, para ele, reinar ainda há de ser governar. E quando ele fale do seu povo, do seu exercito, a Europa não lhe contestará a legitimidade de essas expressões autocraticas.
Além de isso, Humberto foi coroado em Roma. Ora, Roma é essencialmente cesariana, e comunica, imprime caráter cesariano àqueles que a governam. Ela mesma foi sempre cidade-soberana, ou no temporal ou no espiritual. Só ha cem anos é que deixou de vir de lá de entre as sete colinas, ou sob a forma de encíclica papal, a ordem suprema que se impunha a reis e povos, e regia os nossos bens ou as nossas almas. E o senhor da cidade de Romulo sempre partilhará de esta supremacia que lhe é inherente. Mas este ponto de vista é talvez mais estético do que politico.
Em todo o caso, por todos os motivos, Humberto é dos poucos reis interviewaveis. É um rei que quer e que póde. E não é todavia bastante de direito divino, para se considerar um emissário da Providência, e, como ela, esconder os seus desígnios, que só por ela pódem ser comprehendidos ou julgados. Ao rei Humberto é permitido dizer: «Eu farei isto, as minhas intenções são estas...» A sua autoridade na nação comporta estas afirmações pessoais e soberanas. Qualquer outro rei, strictamente constitucional, quando atacado por um repórter, só poderá encolher os hombros e murmurar: «Não sei, veremos o que faz o ministério...»
Ha, pois, aparentemente, utilidade para um repórter de alta reportagem, em sondar e puxar para fora o pensamento intimo do rei Humberto. A dificuldade única estaria na operação da sondagem--porque, apesar de se ter suprimido a hirta e encarceradora etiqueta do tempo de Carlos V, os reis ainda não são accessiveis a qualquer sujeito de chapéo côco que se apresente com uma carteira e um lápis, a «fazer perguntas». Mas o Figaro, barbeiro astuto, acostumado desde a sua mocidade a deslisar subtilmente pelas portas escusas e a penetrar no segreda dos Bartholos, realisou esta bela façanha--e interviewou o rei Humberto. E quando ele anunciou, rufando ufanamente o seu grosso tambor, que ia publicar as declarações do rei de Itália, a Europa, excitada, aguçou vorazmente as suas longas orelhas. Com efeito, que maravilhosa ocasião de conhecer emfim o segredo da Triplice Aliança! E ocasião única! Porque dois dos aliados, o imperador da Alemanha e o imperador da Áustria, sendo mandatários da Providência, têm de permanecer impenetraveis. O rei de Itália, porém, é apenas o mandatário de um povo, e de um povo ilustre nos fastos da loquacidade. E o rei da Itália ia falar... Falou. O Figaro, barbeiro ditoso, imprimiu com alarido as suas palavras. E desde então ainda não cessaram, em tomo de elas, controvérsias que me espantam, e devem espantar todos os simples pela sua ingenuidade.
Parece haver, com efeito, imensa ingenuidade em esperar com inquietação, e depois discutir com paixão as declarações publicas, oficiais, de governos ou de governantes. Por pouco que elas anunciem conducta, e constituam programa, tais declarações têm necessariamente de ser generalidades optimistas e virtuosas. Que póde, por exemplo, um governo novo prometer aos cidadãos, senão que todos os seus esforços tenderão energicamente a manter a ordem, favorecer a moralidade, e promover a economia? Não ha possibilidade de que um governo se apresente gravemente ante o paiz, e pondo a mão leal sobre o coração sincero declare que vai fomentar a desordem, animar o desperdício, e proteger a imoralidade! Os cidadãos não acreditariam:--e esse governo, talvez verídico, seria escandalosamente expulso como farçante.
Ha nos programas políticos uma convencionalidade, mutuamente consentida, que é comum a todas as manifestações publicas, e que corresponde á necessidade climatérica e moral, hoje tornada instincto, de cobrirmos a nossa nudez. É uma mera questão de decência, de respeito social, quase de etiqueta. O chefe de Estado, quando fala á nação, tem de exibir uma decorosa virtude nos seus intentos, pelos mesmos motivos porque tem de vestir a sua farda, e trazer o seu séquito, nos grandes cerimoniais. «Todas as minhas forças, caros concidadãos, serão votadas a alargar a prosperidade! etc., etc...» todas estas patrióticas, integras frases devem ondular em tons claros, como os penachos de gala. Os experientes sorriem, mas murmuram--«muito bem, muito bem!» E não tolerariam que o chefe de Estado, com honrosa sinceridade, declarasse que se preparava a fazer escândalos e prepotencias--como não permitiriam que ele em essa cerimônia, onde viera lançar o seu programa, se apresentasse nú ou simplesmente em ceroulas. É uma questão de decoro. Esta necessidade de pudor publico, perfeitamente a compreendo. O que sempre me pareceu incomprehensivel foi o ingenuo que arregala os olhos, sorve com delicias cada promessa do programa, como se elas cahissem do alto do Sinai, e vai exclamando, radiante:--«Emfim, temos um governo, temos um homem que quer implantar a moralidade, garantir a ordem, promover a economia, etc., etc., etc,» E ainda compreendo menos talvez os que se lançam sobre o programa e o analisam, o dissecam, tiram de ele, por entre as linhas, esperanças ou receios, e discutem apaixonadamente cada uma das suas palavras sacramentais como se fossem realidades vivas.
Que poderia dizer jamais o rei da Itália a um repórter que o interroga sobre as intenções da Itália? Que poderia dizer, justos céus! senão que ele e o seu povo amam todos os seus visinhos como irmãos, e só querem, só apetecem a paz? E foi justamente o que afirmou Humberto. Nem era humanamente verosímil que ele franzisse o sobr'olho, e exhalasse, em vocabulários troantes, o seu ódio á França, a sua sede de guerra... Qualquer declaração sua, destinada a um jornal, tinha de ser inevitavelmente fraternal, pacifica, optimista. Os scepticos podem sorrir, mas têm de murmurar: «muito bem, muito bem». O rei da Itália com efeito teve a atitude que pedia a decência. Recebendo um jornalista francês, vinha vestido, e afiançou a paz. Tão estranho seria que anunciasse a guerra,--como que aparecesse em mangas de camisa.
E todavia estas declarações previstas, obrigatórias e que não tem mais significação que a farda ou a sobrecasaca que o rei vestia, estão sendo escrutinadas, pesadas, filtradas, estudadas pelos analistas políticos, com ardor, como se contivessem no fundo das suas silabas os segredos do Destino. Uns, de aquém Reno, gritam: «O rei Humberto não é sincero. Que dê provas!...» Outros, de além Reno, clamam: «Haverá em estas palavras de Humberto intenções de desdenhar as alianças juradas?...» E o Times, ha três dias, em pesadas columnas está perguntando aos olhos leais do monarchismo, se é licito duvidar da afirmação de um rei!...
A um inocente, como eu, tudo isto parece funambulesco. Oh boas almas, ainda uma vez mais, que esperaveis vós que dissesse o rei da Itália? Que póde responder o diretor de um banco a quem lhe pergunte se ele é pela probidade ou se tende para a trapaça e roubo aos acionistas? Que póde responder um chefe de Estado a quem lhe pergunte se ele é pela paz--ou se pende para a guerra e mortandade dos povos?
De resto é inata no homem, esta tendencia a fazer perguntas, tão inúteis quão néscias, e a que ele sabe de antemão as respostas necessárias e coherentes. Não ha ninguém que, entrando em uma mercearia a comprar um kilo de queijo, não tivesse já papalvamente perguntado ao mercieiro: «É bom o seu queijo?» Como se jamais, desde que ha homens e queijos, um mercieiro tivesse respondido, com asco: «Não senhor, não presta!» E se ele desse esta resposta, por espirito sublime de veracidade intransigente, então é que nós começariamos a desconfiar do lojista, como de um ser anormal, extravagante e perigoso. Um amigo meu, viajando em Inglaterra, parou em um hotel, e depois de instalado e barbeado, desceu a almoçar. O dia era de junho, ele apeteceu um vinho fresco e leve, percorreu pensativamente a lista dos vinhos, e perguntou ao creado, com tradicional e humana ingenuidade:
--É bom este Chablis?
O criado, um velho de suissas brancas, grave e um pouco triste como um embaixador em disponibilidade, abanou a cabeça, e respondeu secamente:
--É uma peste.
O meu amigo considerou com espanto, e um espanto desagradável, aquele homem verídico. Depois repercorreu a lista.
--Bem, traga-me então de este Medoc... É bom, o Medoc?
O criado, muito serio, replicou:
--É horrível.
Perturbado, o meu amigo murmurou timidamente, em uma desconfiança vaga e escura que o invadia:
--Bem, beberei cerveja... Que tal é a cerveja?
O criado volveu, convencido e digno:
--Droga muito medíocre... Extremamente medíocre!
O meu amigo tremia já, em um positivo terror. Mas ainda balbuciou:
--Que hei de eu então beber?
--Beba água, ou beba chá... Ainda que o chá, que agora temos, é realmente detestsvel.
Então o meu amigo repeliu violentamente guardanapo e talher, galgou as escadas do seu quarto, reafivelou as correias da sua maleta, saltou para uma tipoia e fugiu.
Porque? Nem ele sabia. Tudo quanto me pôde explicar é que, perante tanta sinceridade, perante tanta veracidade, ele sentiu em torno de si, em aquele hotel, alguma coisa de anormal, de extravagante, de perigoso. E o ato do meu amigo, dado o nosso secular habito da mentira, da ficção, da convenção--é bem humano.