A Questão Buloz — A Revista dos Dois Mundos — Paris no Verão Ecos de Paris · Capítulo 7 de 18
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A Questão Buloz — A Revista dos Dois Mundos — Paris no Verão

Por fim o Sião cedeu:--e, muito avisadamente, para evitar a imensa maçada de se bater (o que é extremamente penoso, no verão, para um oriental de hábitos dôces e languidos), para evitar também a horrível séca de ser vencido, e talvez destronado, o rei de Sião entregou á França, incondicionalmente, todos os milhões e todas as províncias que ela reclamava para «vingar a sua honra.»

Póde pois esse excelente e ameno monarcha continuar placidamente a educar nas ideias da civilisação ocidental (de que ele acaba de ter uma tão directa experiencia) os seus cento e oitenta filhos. E o Sião desaparece das preocupações do mundo. Era tempo: havia semanas que se desleixavam os grandes assumptos, os que verdadeiramente interessam a humanidade, como o caso do Sr.. Buloz.

Não sei se conhecem aí a questão Buloz. Pois é uma questão tremenda. Basta ver como diariamente os jornais a retomam, a sondam em todos os seus escaninhos, lhe anunciam a evolução, lhe prophetisam soluções, fazem depender de ela os destinos das boas letras francesas. Não ha ninguém que não conheça Buloz. Pelo menos ninguém deve ignorar o seu nome em esses dois mundos que ele, todos os quinze dias, esclarece, educa e entretem, por meio da sua ilustre e famosa Revista. Porque é de ele que se trata, de Buloz, do único Buloz, de Buloz diretor da Revista dos Dois Mundos!

Que memorias este nome de Buloz nos traz da nossa mocidade! Nenhum havia então que nós pronunciassemos com mais alegre horror--porque ele representava, para o nosso grupo revolucionário e entusiasta das formas novas e audazes, tudo quanto na literatura havia de mais conservador e burguez. Toda aquela sua séria e ponderosa Revista dos Dois Mundos nos parecia então exhalar um cheiro horrendo a bafio e a letras mortas.

E escrever na Revista, pertencer á Revista era para nós uma maneira especial de ser fóssil.

Quantas alcunhas pitorescas postas a essa magestosa Revista! Quantas fantasias edificadas sobre a sua faculdade de adormecer e de embrutecer! Um amigo nosso compuzera um conto em que o herói, trahido em um amor sincero, e apetecendo a morte, escolhia, em vez de um frasco de láudano, um numero da Revista dos Dois Mundos:--e ao chegar ás últimas paginas, á «Crônica da Politica Estrangeira», mergulhava com efeito no sono eterno. Ainda me lembro de uma definição da Revista, dada por um de nós:--«Uma publicação cor de tijolo, que tem dois leitores no Havre!»

Tudo isto era excessivo e injusto. A Revista, de facto, tinha leitores por todo o mundo:--e, como se sabe, e já tem sido dito, Todo-o-Mundo é um sujeito que tem muito mais espirito que Voltaire. Com os seus trinta anos de valente existência, ela era já então uma larga e fecunda remexedora de ideias e de factos:--e não houvera de resto nenhum grande francês, desde Alfred de Musset, que não tivesse cometido esse ato, para nós tão vergonhoso: «escrever na Revista». Todos tinham escrito--mesmo Murger, o bohemio. Nós, porém, só começámos a desarmar do nosso rancor, quando ela publicou versos dos dois grandes ídolos de essa geração--Lecomte de Lisle e Beaudelaire. É verdade que os versos de Beaudelaire, tirados das Flores do Mal, apresentou-os ao publico, por assim dizer, na ponta de tenazes, e com imensas precauções sanitárias. Havia por baixo dos versos uma nota da direcção, toda enojada, em que ela repelia qualquer solidariedade com semelhante infecção, e jurava que só a exhibia como uma lição moral, para mostrar a que excessos e a que desordens póde rolar a literatura, quando sacode audazmente a salutar disciplina e as boas regras de Boileau. Mas, emfim, publicava Beaudelaire (mesmo alguns dos versos mais temerários)--e esta concessão, este começo de homenagem prestada ao Satanismo (o Satanismo era então uma escola, e todos nós nos consideravamos Satanicos) adoçou um pouco as nossas relações intelectuais com a Revista. Modificámos mesmo a definição irrespeitosa. Era então uma «publicação cor de salmão, que tinha já dois leitores no inferno!»

Tão persistentes são as impressões da mocidade, que ainda hoje eu não vejo a Revista dos Dois Mundos sem um sentimento vago e inexplicável de tédio. Sei perfeitamente que ela é cheia de bom senso e de saber especial, possui uma língua sóbria e pura, tem muita elegância e finura acadêmica, e por vezes se lhe encontra, aqui e além, um sopro de forte originalidade. Mas quê! A sua presença é para mim como a de uma grave matrona, pesada, rica, bem colocada no mundo, cujos lábios descorados, faltos de sangue vivo, só deixam cahir, com uma arte discreta, o que está absolutamente dentro do decoro e da tradição. Não duvido que a convivência com essa matrona seja salutar, proveitosa, e conducente a boas vantagens sociais; mas prefiro ainda assim uma musa alegre do Quarter Latin. É talvez para fingir a mim próprio que ainda sou moço.

Foi por isso com certa alegria maliciosa que eu li nas gazetas que o Sr.. Buloz e, com ele, a pudibunda Revista dos Dois Mundos se achavam envolvidos em um escândalo de amores e de intrigas. O quê! Ela, a Revista, que com tão austera altivez denunciara durante tantos anos Zola á execração publica, eil-a agora atolada, e até ao pescoço, em uma aventura escabrosa! Como assim? Buloz, o próprio Buloz, que fazia uma tão severa policia dentro da sua Revista, que esquadrinhava todos os romances com terror de que lá estalasse em algum canto algum beijo mais voraz, que perseguia rancorosamente, com a férula da honestidade, e em nome do «pudor domestico», toda a literatura de observação, sincera e livre, eil-o agora por terra, enrodilhado em saias ligeiras e ilegitimas!! Como assim? E tudo isto, pelo contraste eterno entre o que frei Tomás prega e o que frei Tomás faz, me parecia divertido.

Depois, mais informado, lamentei sinceramente o excelente Buloz e a excelente Revista. Porque não havia aqui realmente um romance de esses que o próprio Buloz condemnava sombriamente como «infectos»--mas um roubo, um longo e abjecto roubo, organisado contra Buloz, e portanto contra a Revista de que ele é a encarnação viva--por dois de esses horriveis personagens a que Balzac chamava impropriamente os tubarões de Paris. Tubarões, sim, no sentido de nadarem anciosamente no oceano pariziense á cata da presa. Mas isso mesmo fazem todos os peixes, no mar e em Paris.

Os tubarões, porém, e é essa a sua feição característica, engolem indiferentemente e com egual apetite uma velha garrafa vazia, ou uma gorda e suculenta pescada; e estes tubarões de Paris, de que fala Balzac, escolhem com cuidado a presa, e só arremetem contra ela, quando ela é tão suculenta e gorda como Buloz.

O caso, tal como transparece, através de tantas versões e mesmo de tantas ficções, é lamentável. Buloz ha anos, no meio do caminho da sua vida (como diz o Dante, que tinha um modo incomparavelmente magnifico de contar estes casos) encontrou uma rapariga. Não era uma Beatriz, mas uma fulana qualquer, que nem ao menos tinha beleza justificativa. Mas, quando se tem vivido, durante vinte anos, dentro da Revista dos Dois Mundos, toda a face moça, com um pouco de lume no olho, parece uma visão de alto esplendor. Buloz, apesar de diretor de revista, era homem e sensível. Teve em uma hora nefasta (talvez entre dois artigos de Charles de Mazade!) uma de aquelas tentações que, a acreditarmos Santo Agostinho, nenhuma alma, nem mesmo robustecida na constante convivência dos Broglie e dos Remusat, evita ou vence.

Buloz cedeu--ou, antes, a rapariga cedeu. (E o ingrato Buloz agora pretende, em confidencias que fez a um repórter do Gaulois, que «foi uma semsaboria».) Semsaboria ou delicia, desde esse momento supremo ele passou a ser o homem mais explorado de toda a christandade e mesmo de toda a mourama. Pagou, naturalissimamente, as toilettes da menina e da família da menina; mobilou para a menina casa no campo e casa na cidade; e para a tornar mais respeitável, e robustecer a sua posição na sociedade, deu um dote e um marido á menina.

Educado no idealismo incorrigivel dos romances da Revista, imaginava Buloz que, tendo fornecido o dote e o marido, liquidara para sempre o erro sentimental da sua vida. Buloz ignorava a realidade humana, e sobretudo pariziense. Desde esse instante, ao contrario, a menina e o marido tomaram posse definitiva de Buloz. Ameaçando o desventuroso homem de revelarem a sua «infâmia de sedutor» a Mme Buloz e á Revista dos Dois Mundos, o horrendo casal passou a saquear Buloz, como se saqueia uma cidade conquistada.

Ao principio com método, com ordem, mensalmente. No primeiro do mez, os dois bandidos apresentavam a conta do seu silencio--e Buloz pagava pontualmente o silencio dos dois bandidos. Depois as exigências foram mais urgentes e tumultuosas. É o comer que faz a fome. O abominável par queria reunir rapidamente uma fortuna--e cada dia, agora, ás vezes mesmo duas vezes por dia, Buloz recebia a reclamação de novas somas a pagar. E pagava--para manter intacta no mundo, com a sua posição domestica, a sua situação social de diretor grave de uma revista grave. Estava quase arruinado--e a menina e o marido não estavam saciados. Ao contrario, fartos das pequenas somas «que não luzem», queriam a grossa soma--e, com ameaças mais ferozes, forçaram o infeliz homem a assignar uma letra promissoria de perto de setecentos mil francos.

Buloz, todavia, já tinha dado mais de um milhão!

Segundo ele afirma, Buloz queixou-se á policia. Mas, ao que parece, os dois bandidos, por isso mesmo que estavam ricos, tinham já adquirido respeitabilidade e amigos. Havia grossas influencias que os protegiam contra as queixas de Buloz--influencias pagas talvez com o dinheiro sacado a Buloz. Aliança de «tubarões»--como diria Balzac. O facto é que a policia se conservou em uma magistral indiferença. Então, estonteado, desesperado, Buloz, um dia, foi contar tudo á sua mulher e á sua Revista. Imediatamente, implacavelmente, Mme Buloz se separou do seu marido, e a Revista dos Dois Mundos se separou do seu diretor. E o grosso escândalo domestico e literário estalou sobre Paris.

Que fará em definitiva Mme Buloz? Sobretudo, que fará em definitiva a Revista dos Dois Mundos? Era esta, durante semanas, a interrogação ansiosa de Paris, que, mais que nenhuma outra cidade da Europa, se compõe de comadres mexeriqueiras. A solução não tardou--e cruel.

Uma sentença do tribunal dos divórcios pronunciou secamente o divorcio entre Buloz e Mme Buloz. E uma assembléa dos acionistas da Revista pronunciou egualmente divorcio entre a casta Revista dos Dois Mundos e o seu galante diretor Buloz. Assim Buloz, ao fim da vida, perde a sua mulher e a sua revista. E porquê? Por ter sido abjectamente roubado, durante anos, por dois odiosos bandidos. Esses é que não perderam nada, os bandidos, nem mesmo a consideração do seu bairro, porque durante todo o escândalo os seus nomes não foram sequer pronunciados, á maneira de nomes sagrados. Tal é Paris.

Sobre a resolução de Mme Buloz não é permissível fazer comentários. Mas a resolução dos acionistas da Revista parece-me excessivamente austera e illogica.

Durante esta sua amarga aventura, Buloz não fez senão adquirir noções exactas sobre as realidades da vida--e o seu pecúlio de conhecimentos sobre o homem e a mulher deve-se ter singularmente enriquecido. Está pois, mais que nunca, nas condições experimentais de dirigir uma revista, sobretudo aquela secção de revista de que ele com mais particular amor se ocupava, a do romance. Agora realmente é que a opinião de Buloz sobre enredos, caracteres tortuosos de heroínas e misérias finais de todo o sentimento teria valor e autoridade. E agora justamente é que o afastam de essa cadeira directorial de alta critica, para a qual as suas desventuras o tinham, emfim, tornado idôneo! Ha aqui evidentemente um erro de critério, além de uma falta de misericórdia.

Em todo o caso, assim acaba na Revista dos Dois Mundos a grande dinastia dos Buloz. Este, se não me engano, era Buloz III. Que diria Buloz I, o fundador, se soubesse que a sua raça fora destronada da Revista por um escândalo de coração? Tal é a ironia das coisas! A mais austera, solene, pudica, de todas as publicações européas, tendo chegado aos sessenta anos, sem que nunca uma realidade ardente das coisas de amor houvesse maculado as suas paginas, tem de repente de se separar do seu diretor, do homem que a symbolisava, por motivos de patuscada em alcovas ilegitimas! Habent sua fata Revistœ.

Paris fugiu de Paris. Com este calor de fenômeno, (40 graus á sombra) em que se póde torrar o café dentro das casas só com estendel-o simplesmente sobre o chão, a população abandonou a cidade, em um verdadeiro êxodo, e maior que o de Moysés, porque esse foi só de quarenta mil hebreus, e de aqui, segundo afirmam os jornais, abalaram ontem, em centenas de comboios, cerca de cento e trinta mil pessoas.

Só ficaram os empregados públicos. E ainda assim, havia ha dias uma administração de bairro, em que todos os empregados, desde o chefe ao contínuo, se achavam no campo ou no mar.

Era um visinho da repartição, um logista, que fazia o serviço, por dedicação cívica.

Em todos os Campos Elysios, só raramente se avista alguma carruagem arquejante. Toda a folhagem das árvores secou.

Aqui e além, nas ruas desertas, passa por vezes, fugindo á pressa, um guarda-sol: é um dos derradeiras parizienses, que corre do café onde se atestou de cerveja para outro café onde se vai inundar de limonada. Os cavalos das carroças trazem chapéo; e a acreditar os jornais já se pensa em lhes fazer usar, por causa da grande reverberação da luz, lunetas defumadas.

Todavia Londres está mais ardente. Aí o calor produz quase uma crise nos costumes. Ontem os membros do parlamento celebraram a sessão, na Camara dos Comuns, em mangas de camisa.

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