IV. O Princípio do Fim
IV. O Princípio do Fim
APESAR de suas extravagâncias, a vida levada pelo Sultão era muito simples. Levantava-se cedo e, depois das orações ao amanhecer, deixava a parte privada do palácio e seguia para os edifícios onde realizava sua Corte. Ali tomava assento, geralmente em um canapé ou divã, em uma sala particular, um pouco afastada do grande pátio no qual seus vizires conduziam seus negócios. Esse pátio era cercado por uma colunata para a qual se abriam várias salas pequenas. Nelas estavam sentados os diversos vizires e seus secretários, enquanto, do lado de fora, à sombra da colunata, permaneciam aqueles que procuravam entrevistas com os diferentes Secretários de Estado. Um portão, sempre vigiado por porteiros, conduzia desse pátio aos escritórios particulares do Sultão, e mensagens e cartas iam e vinham. De tempos em tempos, ele convocava à sua presença um ou outro dos vizires para tratar de assuntos de Estado e discutia com eles qual seria o melhor caminho a seguir. Pode-se compreender, por esse leve contato que Sua Majestade mantinha com o mundo exterior, pois raramente tinha mais do que isso, como era fácil para as pessoas de seu séquito ocultarem-lhe todas as informações confiáveis e pintarem a situação existente nas cores que melhor servissem a suas próprias opiniões ou, mais frequentemente, a seus próprios bolsos.
A “Corte”, que começava no início da manhã, encerrava-se ao meio-dia, e o Sultão recolhia-se ao palácio, onde almoçava. Comia sempre sozinho e, como é costume em todo o Marrocos, com os dedos. Esse hábito, que parece quase repugnante aos europeus, não é de modo algum anti-higiênico, pois as mãos são lavadas em água morna antes e depois da refeição, e os alimentos são sempre preparados de modo que possam ser facilmente partidos. Um hábito nosso, que consideramos muito mais higiênico que comer com os dedos, é visto pelos mouros como imundo, isto é, lavar as mãos ou o rosto em uma bacia e, ainda mais, tomar banho em água que não esteja correndo. Quanto mais limpos ficamos, dizem eles, mais suja necessariamente deve ficar a água em que nos lavamos, e por fim saímos limpos de uma água que já não está limpa. Para lavar as mãos, um mouro faz despejar sobre elas a água de uma vasilha e jamais, em hipótese alguma, as mergulha na água suja. O mesmo ocorre em seus banhos: a água é lançada sobre o corpo com brilhantes tigelas de bronze e escoa por orifícios no chão de mármore ou ladrilhos.
Terminada a refeição do meio-dia, o Sultão descansava por algum tempo e geralmente saía do palácio por volta das três horas. Não havia “Corte” à tarde e, por essa razão, Mulai Abdul Aziz ficava livre para passar o restante do dia como desejasse, o que geralmente fazia na companhia de seus empregados e amigos europeus. Polo de bicicleta, críquete e tênis estavam na ordem do dia.
Certa noite, depois de uma partida de tênis mais longa que o habitual, começamos a recolher a rede, pois parecia provável que chovesse. Sua Majestade acabara de recolher-se ao palácio, mas deixara o lenço de bolso amarrado ao alto da rede, onde o fixara porque a luz diminuía e se tornava difícil distinguir a altura da rede. Desamarrei o lenço, mas, sentindo algo grande preso em um dos cantos, examinei-o com maior atenção. Era um diamante lapidado, aproximadamente do tamanho de uma noz pequena, que Sua Majestade comprara recentemente. Guardando cuidadosamente no bolso o lenço e seu valioso conteúdo, pois não há meio de chegar até o Sultão depois que ele entra nos recessos do palácio, onde apenas mulheres têm permissão de entrar, comecei a deixar os recintos pela saída habitual. Já atravessara um pátio e estava perto do portão exterior quando percebi que alguém me perseguia. Compreendi a situação e corri; mas não podia competir com o Sultão, que, estimulado a uma atividade maior que a habitual pela perda de sua joia valiosa, caiu sobre mim como um furacão. Quase antes de compreender que fora alcançado, fui erguido do chão e atirado ao solo, enquanto Mulai Abdul Aziz, prendendo meus cotovelos com os joelhos, vasculhava meus bolsos. Logo encontrou seu diamante, ainda amarrado no lenço; mas, não satisfeito com isso, privou-me de uma carteira, de um anel que eu usava na corrente do relógio, de um alfinete de gravata e de uma cigarreira. Por fim, deixou-me levantar, rindo da aventura, mas jamais tornei a ver meus pertences.
Em outra ocasião, eu estava presente quando um dos funcionários da Corte veio apresentar suas homenagens ao Sultão por ter recebido uma alta nomeação. Esse homem era o hoje famoso Haj Omar Tazzi, atual vizir dos domínios governamentais.
Eu estava de pé, conversando a sós com Sua Majestade em um pátio ao longo de um dos lados do qual ficavam as jaulas dos animais selvagens do Sultão, quando Haj Omar entrou. Prostrando-se descalço sobre o piso de mármore, tocou o chão com a testa. O Sultão, mal lhe prestando atenção, fez algumas observações formais e então, voltando-se para mim, perguntou bruscamente: “Conhece este homem?”
Eu quase não o conhecia, mas, ciente do amor de Sua Majestade pelo humor, julguei perceber a oportunidade de pregar uma peça em Haj Omar, que, por ser um mouro da cidade de Fez, supus corretamente ser covarde.
“Conheço-o bem”, respondi. “Hoje mesmo ele esteve em minha casa, implorando-me que pedisse um favor a Vossa Majestade em seu nome.”
Haj Omar, que ainda permanecia prostrado no chão, olhou inquieto em minha direção, sem compreender o que se passava.
“Seu favor está concedido”, respondeu o Sultão, a quem eu fizera um discreto sinal para que me permitisse continuar.
“Ele pediu”, prossegui, “que esta tarde, ao ser convocado pela primeira vez à presença de Vossa Majestade em seu novo cargo, lhe fosse permitido oferecer alguma prova de fidelidade.”
“Certamente”, respondeu Mulai Abdul Aziz.
“Ele propôs”, continuei, “com a permissão de Vossa Majestade, para que sua fidelidade e coragem fossem postas à prova, passar meia hora na jaula dos leões.”
Haj Omar, ainda prostrado diante do Sultão, contorceu-se inquieto e ergueu em direção ao Sultão e a mim um rosto gordo e pastoso.
“Certamente”, respondeu o Sultão.
“Se Vossa Majestade me ordenar que morra, estou pronto para fazê-lo”, disse do chão uma voz fraca, trêmula de emoção.
“Chamem o escravo que possui as chaves da jaula dos leões”, respondeu o Sultão e, ao mesmo tempo, começou a caminhar na direção dos animais selvagens, seguido por Haj Omar de quatro.
O escravo chegou; mas o terror de Haj Omar era agora tão evidente que já não era possível prolongar a brincadeira. Agarrando-me pela mão, o Sultão levou-me dali, e Haj Omar fugiu.
Pregamos outra peça em Haj Omar antes de eu deixar Fez e, nessa ocasião, Menebhi foi meu cúmplice, quando não o instigador.
Haj Omar mostrava ao Sultão a disposição de um novo jardim de flores então em construção. Sua Majestade estava um pouco à frente, e o pequeno cortesão, bastante corpulento e pomposo, um pouco atrás, à sua direita. Menebhi e eu, que havíamos caminhado a pequena distância em outra direção, logo fizemos uma descoberta: uma bomba e uma longa mangueira! Colocando a bomba no reservatório de água, avancei com a mangueira até alcançar Haj Omar e, no momento exato em que introduzi o bocal pela parte de trás de seu pescoço, Menebhi começou a bombear. Os mouros ricos jamais se lavam com água fria, e o caudal volumoso que começou a escorrer pelas costas de Haj Omar quase lhe provocou um ataque. A água saía de suas calças largas e enchia os chinelos amarelos, mas ele não ousava dizer uma palavra, pois Sua Majestade lhe dirigia a palavra. “Será feito como Vossa Majestade ordena”, respondeu quando o Sultão terminou de falar; mas sua voz estava tão trêmula, tão verdadeiramente lastimável, que Mulai Abdul Aziz voltou-se depressa para ver o que acontecera. Era uma figura triste a que encontrou diante dos olhos: Haj Omar Tazzi de pé, tremendo e pingando no meio de uma poça. A etiqueta proíbe o Sultão de rir em público, mas a etiqueta não pôde impedi-lo de cobrir o rosto com a longa manga de sua jelab para esconder o divertimento e afastar-se depressa em outra direção.
A menção à etiqueta traz-me à memória uma ou duas das “tradições” da Corte mourisca. Em comparação com o esplendor bárbaro das aparições públicas do Sultão em ocasiões de Estado, quando, sob a sombra do guarda-sol de veludo carmesim e verde, recebe os membros das tribos, sua vida privada é simples. Talvez não exista no mundo espetáculo mais pitoresco que uma dessas procissões marroquinas. As tropas esfarrapadas em azul e vermelho, que, tendo ao fundo muralhas amarelas em ruínas, ladeiam as praças do palácio; o céu azul acima; os cavalos conduzidos à mão em seus magníficos arreios de sedas coloridas; os funcionários da Corte vestidos de branco e a pé; o esplendor dos estandartes bordados a ouro; e, no centro de tudo, o próprio Sultão, envolto em esvoaçantes vestes brancas, a única figura montada, tudo contribui para formar uma imagem que, depois de vista, jamais pode ser esquecida. Então, de repente, um grande brado rasga o ar: “Que Deus abençoe a vida de nosso Senhor, o Sultão!”, e a companhia heterogênea curva-se profundamente enquanto Sua Majestade, ainda protegido pelo grande guarda-sol de Estado, cavalga para o meio deles. Comparadas em pitoresco com esse magnífico espetáculo, as cerimônias de Estado europeias são realmente pobres. Em sua vida privada, porém, o Sultão é bastante simples. Naturalmente, nenhum homem atravessa os recintos do palácio interior, onde apenas mulheres têm permissão de entrar; mas Mulai Abdul Aziz falou-me em várias ocasiões do tédio de sua vida doméstica. Relatou um ou dois fatos que demonstram que, embora seja um monarca autocrático, seus atos são muito limitados pelos precedentes. Um deles dizia respeito a seu quarto de dormir, que deve ser mobiliado com a maior simplicidade, e somente uma cor pode ser utilizada, um profundo e belo azul-índigo. As cortinas de seda são confeccionadas e tingidas no Marrocos, e nenhum material europeu pode ser empregado. Cortinas, colchas, tapetes e revestimentos das paredes devem ser todos dessa única cor e fabricação. Além disso, quando se encontra no acampamento, sua tenda de dormir deve conter apenas três tapetes, e ele deve dormir em um colchão no chão, não em uma cama. Seus vizires e cortesãos cobrem o piso das tendas com palha, sobre a qual estendem esteiras e pilhas de ricos tapetes; mas o Sultão não pode ter nada além da terra nua e dos três pequenos tapetes tradicionais. Em tempo chuvoso, é obrigado a caminhar com lama até os tornozelos, enquanto escravos aguardam para lavar-lhe os pés quando pisa no tapete sobre o qual o colchão está estendido. Sem dúvida, essa simples tenda de dormir teve origem nos dias em que perigos constantes ameaçavam os Sultões em suas expedições de acampamento e eles podiam ser chamados durante a noite para conduzir suas tropas à batalha; mas, qualquer que tenha sido sua origem, o costume, particularmente desconfortável, permanece inalterado até hoje. Durante o dia, o Sultão pode passar o tempo em outras tendas, nas quais nenhuma restrição é imposta a seus luxos e confortos.
Há certa sala no palácio de Fez à qual se liga uma tradição reconhecida. A construção data de época remota e supõe-se que exista, em algum ponto incorporado a suas paredes, determinado talismã. O significado desse talismã é que, enquanto essa câmara específica do palácio permanecer intacta, nenhum Sultão morrerá em Fez e, curiosamente, nenhum Sultão morreu em Fez desde que a sala foi construída. Sua Majestade descreveu-me a câmara, pois ela se encontra no interior do palácio, onde nenhum homem pode entrar. É um grande salão, ricamente mobiliado com seus tapetes e divãs originais, e todas as noites escravos especiais, encarregados dessa tarefa, acendem as muitas velas sustentadas pelos candelabros. Duas velas enormes, trazidas de Meca uma vez por ano, são as únicas acesas mais de uma vez; todas as demais são substituídas todas as noites. Tampouco podem ser usadas velas europeias, pois devem ser fabricadas em Fez.
O teto, rico em entalhes, ainda existe, mas o telhado acima foi substituído repetidas vezes, uma camada sobre a outra, sem jamais retirar as inferiores, por receio de que o “talismã” fosse destruído. Da mesma forma, as paredes foram reforçadas pelo lado exterior, até atingirem espessura imensa. Essa sala foi preservada tão exatamente em seu estado original que, em um de seus cantos, permanece uma escada que jamais foi removida, enquanto odres para guardar água continuam pendurados nas paredes, pouco restando deles além dos bicos de ouro e das taças suspensas.
Mulai Abdul Aziz era um ciclista exímio, e à tarde realizavam-se frequentemente grandes partidas de polo de bicicleta em um dos pátios do palácio. O único outro mouro que jogava era Menebhi, então no auge de seu poder e influência. O Sultão era um ciclista corajoso, porém cuidadoso, raramente sofria acidentes e conduzia sua máquina com o mais perfeito discernimento. Menebhi era igualmente corajoso, mas muito mais excitável, e eu o vi, perseguindo a bola, avançar em velocidade máxima contra a muralha do palácio, para ser resgatado um minuto depois daquilo que parecia uma porção de guarda-chuvas quebrados, enquanto gritava freneticamente por uma bicicleta nova. Como o Sultão sempre recebia os artigos mais caros que se podiam comprar, a maioria de suas bicicletas era de alumínio e, portanto, inadequada ao polo de bicicleta; mas, quanto mais se quebravam, mais eram necessárias, e seus agentes comissionados colhiam a recompensa. Creio que o recorde pertenceu a um jovem secretário da Legação britânica, que conseguiu destruir seis em uma única tarde! Mulai Abdul Aziz, porém, não era habilidoso apenas no polo, pois conseguia executar vários truques que quase fariam honra a um profissional. Eu próprio o vi subir pedalando por uma tábua íngreme apoiada contra uma caixa de embalagem, depois seguir por outra tábua que formava uma ponte até uma segunda caixa e descer por uma rampa na extremidade. Em uma dessas ocasiões, caiu e aterrissou sobre a cabeça; mas, depois de permanecer atordoado por um ou dois minutos, tornou a montar na bicicleta e cumpriu com êxito seu objetivo.
Vi-o irritado apenas uma vez, e foi comigo. Estávamos de pé no alto de uma antiga muralha exterior do palácio. Imediatamente abaixo de nós, à sombra da parede, encontravam-se cerca de uma dúzia de membros malvestidos e meio mortos de fome daquilo que inadequadamente se chamava Exército mouro. Muitos do pequeno grupo sofriam evidentemente de febre, muito comum em Fez no verão, e, em conjunto, formavam um espetáculo lamentável.
Falei, talvez, com calor excessivo sobre o abandono em que os soldados eram mantidos, sobre o soldo que lhes era roubado, sobre sua miséria abjeta, e não percebi que o Sultão não estava naquele momento disposto a escutar minha queixa.
“Não é culpa minha”, disse com irritação.
“É, sim”, respondi. “Vossa Majestade não se dá ao trabalho de verificar se suas ordens são cumpridas.”
O sangue subiu ao rosto do Sultão, e ele se aprumou. “Lembre-se”, disse, “de que está falando com o ‘Comandante dos Fiéis’”, referindo-se ao título que mais prezava.
“Eu me lembro”, respondi. “É Vossa Majestade quem se esquece de que estes homens são ‘os Fiéis’.”
Ai! No que dizia respeito a ele, poucos deles ainda eram fiéis.
Não guardou rancor pelo que eu disse, e sua expressão de raiva transformou-se em profunda tristeza. Durante algum tempo, permaneceu olhando para a grande planície que se estendia diante de nós; depois voltou-se e disse, com grande suavidade: “Você não sabe como estou cansado de ser Sultão”, e havia lágrimas em seus olhos.
Em certa ocasião, enquanto visitava Meknes com o Sultão, aproveitei a oportunidade para ir ao bairro judeu da cidade e visitar uma família israelita que muitas vezes me recebera hospitaleiramente em banquetes durante visitas anteriores. A senhora da casa era extremamente corpulenta, poder-se-ia quase dizer de proporções gigantescas, mas tinha um coração tão bondoso quanto era grande. Fui recebido de braços abertos por meu anfitrião e minha anfitriã, seus filhos e netos e, depois das saudações habituais, começaram a despejar suas aflições. O bairro judeu fora atacado por membros de tribos berberes, e a casa e os estábulos de meus amigos haviam sido invadidos e roubados. Eu poderia conseguir justiça para eles? Ora, apesar das boas intenções do Sultão, a justiça era praticamente a única coisa impossível de obter no Marrocos. Eu sabia que o Sultão ordenaria às autoridades responsáveis que pagassem os prejuízos, mas meus amigos certamente receberiam apenas uma pequena parte daquilo que haviam perdido; o restante desapareceria no caminho. Decidi, portanto, obter justiça do Sultão por meio de um pequeno estratagema. Disse à corpulenta senhora que Sua Majestade faria sua entrada de Estado na cidade no dia seguinte e ordenei-lhe que subisse ao pedestal de uma das grandes colunas de mármore do famoso portão de Mansour el-Alj e ali aguardasse sua passagem. Assim que visse o Sultão aparecer sob o portão, deveria gritar: “Meu Senhor, o Sultão, permitirá que eu morra na miséria? Meu Senhor, o Sultão, não me protegerá?” Disse-lhe que procurasse parecer o mais fascinante possível, ela já se aproximava dos sessenta anos, e que vestisse todos os adornos de renda dourada e veludo de que tanto gostam as senhoras israelitas das cidades marroquinas e que constituem seu traje nacional de gala.
Ela prometeu cumprir minhas instruções, e preparei meus planos de acordo com isso. Uma ou duas horas depois, fui recebido pelo Sultão e aventurei-me a observar que tivera um sonho curioso na noite anterior. O Sultão pediu-me que o relatasse, e respondi que sonhara que acompanhava Sua Majestade em sua entrada de Estado na cidade e que, no momento exato em que passávamos sob o famoso portão, uma judia enormemente gorda, em traje de gala e agarrada a uma das colunas de mármore, gritava: “Meu Senhor, o Sultão, permitirá que eu morra na miséria? Meu Senhor, o Sultão, não me protegerá?” O Sultão era supersticioso por natureza e perguntou-se qual poderia ser o significado de meu sonho. Nem é preciso dizer que não o informei.
Tudo ocorreu como eu planejara, com um acréscimo ridículo. O Sultão saiu pelo portão e ali, no alto pedestal da coluna, abraçada ao pilar de mármore, estava minha corpulenta amiga, gritando sua petição. Impressionado com a coincidência, o Sultão voltou-se para ver se conseguia encontrar meu olhar, e naturalmente pareci tão espantado quanto ele. Mas a ansiedade da senhora por ser ouvida fez com que se inclinasse demais para a frente; suas mãos afrouxaram-se ao redor do pilar de mármore, e a última visão que tive dela foi mergulhando de cabeça no meio dos soldados escarlates e azuis que ladeavam o portão. Uma hora depois, mensageiros conduziram-me às pressas à presença do Sultão. Encontrei Sua Majestade inteiramente agitado pelo incidente e expliquei que, sem dúvida, meu sonho extraordinário fora uma revelação para que aquela mulher recebesse justiça. O Sultão perguntou-me se eu sabia quem ela era.
“Já a vi mais de uma vez”, respondi.
“Vá imediatamente”, disse Sua Majestade, “e descubra o que ela deseja.”
Pode-se imaginar o júbilo de meus amigos quando entrei em sua casa e, em nome do Sultão, pedi uma “declaração de reivindicação”. Relatei o assunto por completo, e Mulai Abdul Aziz mandou chamar um de seus próprios parentes, o Xerife Amrani, ordenando-lhe que providenciasse o reembolso imediato à família de tudo o que haviam perdido e que sua casa fosse guardada dali em diante. Desse modo, eu sabia que receberiam o dinheiro, o que certamente não teria acontecido se o assunto houvesse passado, pelo curso habitual, pelas mãos dos vizires. No dia seguinte, foram pagos, e no outro confessei meu estratagema ao Sultão, que se divertiu com ele.
No ano da Conferência de Algeciras, 1906, eu estava novamente em Fez, depois de uma ausência de três anos. Tudo havia mudado, pois os dias da prosperidade e das “caixas de embalagem” tinham terminado, e o Maghzen caíra em tempos difíceis. Tribo após tribo rejeitara sua lealdade. O roubo, a pilhagem e a corrupção estavam piores que nunca. A fome reinava na cidade.
A “campanha” que eu, como correspondente do Times, conduzira naquele jornal durante o ano ou os dois anos anteriores tornara-me persona non grata para o Sultão e sua Corte, e até mesmo alojamento me foi recusado, enquanto os portões do palácio foram hermeticamente fechados. Permaneci durante alguns meses e desfrutei, como nunca antes nem depois, da boa vontade do povo de Fez. Eles sabiam o que acontecera. Sabiam que o Times chamara a atenção do mundo para a situação de seus correligionários e compatriotas no Marrocos e, em meio a seu sofrimento e sua miséria, demonstraram um reconhecimento ao mesmo tempo muito evidente e muito valioso. Sabiam que o Sultão se recusara a receber-me e que as portas dos palácios dos vizires estavam fechadas para mim; e sabiam também a razão, que eu representava um grande jornal cujas colunas sempre estiveram abertas aos gritos de aflição dos povos maltratados e abandonados, e que suas queixas já haviam chegado ao público britânico, e ao público mundial, por esses meios. Jamais esquecerei a solidariedade e a bondade demonstradas para comigo pela massa dos habitantes de Fez naquela época. E qual era essa mudança tão evidente?
Era a fome, apenas isso! Pão a sete pence por unidade, e cada pão do tamanho de um pequeno pãozinho de estação ferroviária. Fome porque alguns vizires e funcionários haviam aproveitado as más colheitas do ano anterior para “monopolizar” o trigo, comprando-o antes que entrasse na cidade e vendendo-o pelo lucro que desejassem; fome porque a mesma pequena camarilha regulava até mesmo o preço pelo qual a carne podia ser vendida e roubava alternadamente os pobres e os açougueiros; fome porque todos os artigos necessários à vida precisavam passar por suas mãos antes de chegar ao público; fome porque até o carvão vegetal, sem o qual nada podia ser cozido, fora “monopolizado”. E as caravanas de camelos que deveriam trazer cereais da costa para alimentar o povo faminto eram requisitadas para transportar mármore destinado aos pisos dos palácios dos vizires, construídos com os recursos dos empréstimos estrangeiros e da fome.
Sim, três anos haviam provocado uma mudança em Fez, e não era uma mudança para melhor. A vida e a energia pareciam ter desaparecido. Os soldados famintos, abatidos e vestidos em farrapos, naturalmente, pagos, quando recebiam alguma coisa, o bastante para comprar metade de um pequeno pão por dia, rondavam de um lado para outro pelas ruas, ao menos os poucos que restavam, pois a maior parte desertara muito tempo antes para o Pretendente, que alimentava seus homens, ou vendera os rifles ao comprador mais próximo e voltara para espalhar a sedição entre as tribos. Na verdade, ninguém pode culpá-los, e aqueles que permaneciam também teriam partido, sacudindo dos sapatos a poeira de Fez, mas não tinham sapatos, e a maioria não possuía forças para percorrer a distância. As ruas estavam cheias de pessoas famintas ou meio famintas, muitas das quais mendigavam apenas com os olhos, dolorosas demais para que se pudesse contemplá-las sem comoção. Durante pouco tempo, os recursos de uma subscrição pública fizeram alguma coisa para aliviar esses sofredores, mas os fundos desapareceram, segundo se dizia, nos tijolos e na argamassa dos palácios, e, talvez por mais que simples coincidência, a data da conclusão da Conferência de Algeciras foi também aquela em que o Maghzen deixou de tentar alimentar os pobres. Poderia ser porque os olhos da Europa já não estavam fixos no Marrocos e, portanto, os pobres podiam voltar a morrer de fome? As longas fileiras de seres humanos sofredores encolhiam-se contra as paredes das ruas estreitas para dar passagem aos camelos, mulas e jumentos carregados de mármore e mosaicos destinados aos palácios que os favoritos da Corte construíam, com o dinheiro do povo, com os recursos da fome. Antes, o povo suportava seus sofrimentos, pois mesmo então sofria bastante com as exações do Maghzen, mas consolava-se dizendo: “Nosso Senhor, o Sultão, não sabe.” Agora era diferente. A fome tornara-os um pouco, muito pouco, mais corajosos, e diziam: “Nosso Senhor, o Sultão, não se importa.” Afinal, há apenas a diferença de uma palavra. Nas regiões rurais, foram um pouco, apenas um pouco, mais longe e disseram: “Não há Sultão.” Isso naturalmente não era verdade, pois, dentro das ameias em ruínas da imensidão do palácio, Mulai Abdul Aziz, entediado com tudo, mas ainda bondoso, ainda dotado das melhores intenções, vagava de pátio em pátio e de jardim em jardim, dando ordens que sabia que jamais seriam cumpridas, cansado de tentar fazer coisas melhores e contente em esperar uma mudança, qualquer mudança, das circunstâncias, com confiança absoluta em Deus e uma desconfiança oculta da Europa. Ele também perdera a energia. Talvez a culpa não fosse inteiramente sua, pois em certa época realmente tentara, e as circunstâncias haviam sido contrárias a ele. Bondade excessiva e determinação insuficiente conduziram-no ao fracasso, até que entregou tudo a homens muito menos capazes e muito menos bem-intencionados que ele próprio e permitiu que o roubassem à vontade. Não recebia ninguém nem ia a lugar algum, provavelmente porque, com sua natureza, não podia deixar de sentir a ignomínia de sua situação e a degradação de seu país. O próprio palácio se assemelhava ao palácio de um sonho, assombrado por fantasmas. Mesmo assim, era mais apropriado como residência de um Sultão mouro que o palácio de três anos antes, quando os pátios estavam cobertos de mercadorias europeias inúteis, em sua maioria invendáveis na própria Europa, empilhados de caixas de embalagem, vazias e cheias, e espalhados de palha. Provavelmente, a maior parte desse entulho ainda permanecia ali, uma recompensa pobre, afinal, por tudo o que se gastara com ele.
A cena no grande pátio, cercado por colunas e arcos, no qual o Maghzen realizava diariamente sua Corte, também mudara. Sob suas respectivas arcadas, os vizires permaneciam sentados, tratando sonolentamente daquilo que chamavam de negócios, isto é, adiando para o dia seguinte, ou ainda mais, tudo o que deveriam ter feito naquele dia. Já não havia vida nem movimento naquela Corte. Onde estavam os soldados, que, por mais desleixados que fossem, acrescentavam um toque de cor à cena? Onde estavam os Governadores do interior, os Kaids e suas escoltas? Onde estavam os oficiais da Corte, em suas vestes brancas e fezes de pontas vermelhas, onde estavam todos? E onde estava aquela figura ativa e ágil, cujo passo rápido e movimentos enérgicos, cujos olhos atentos mantinham unida toda a estrutura, El Menebhi, onde estava ele? Haviam partido, desvanecido como fantasmas, deixando a um punhado de homens incapazes e interesseiros, cujas vozes eram ridicularizadas quase diante deles próprios, o mau governo de seu país. Que admiração poderia causar que o povo de todo o Marrocos dissesse: “Não temos Sultão”? Que admiração poderia causar que desobedecessem e ridicularizassem as ordens xerifianas? Que admiração poderia causar que o Pretendente, Raisuli e dezenas de outros surgissem por todo o país? Não, a única coisa admirável é que a população não houvesse se rebelado em massa. Mas não precisavam fazê-lo. Não pagavam impostos e não reconheciam governo algum. Quanto aos habitantes das cidades, anos de extorsão e sofrimento haviam esmagado seu ânimo, embora soubessem que tudo o que o regime atual lhes oferecia era fome.
E Mulai Abdul Aziz, sabendo alguma coisa de tudo isso, sabendo, de qualquer forma, o suficiente para não desejar saber mais, ainda falava do que pretendia fazer por seu povo, ainda despejava planos para sua melhoria nos ouvidos de homens cujo único objetivo era frustrá-los e vagava sem rumo de pátio em pátio e de jardim em jardim dentro dos recintos do palácio, um cavalheiro bondoso e inteligente, bom demais em muitos aspectos e fraco demais em muitos outros para a árdua posição que fora chamado a ocupar. Se o Papa era prisioneiro no Vaticano, o Sultão do Marrocos era duas vezes prisioneiro no palácio de Fez.
Ainda assim, essas mudanças, tais como eram, só podiam ser percebidas por quem conhecesse muito bem a Fez de outros tempos. Para todos os demais, a cidade devia parecer a mesma de sempre, com suas ruas estreitas e tortuosas, encobertas pelas altas casas salientes e abertas em túneis sob elas; cheia de penumbra e mistério; oferecendo aqui um vislumbre de laranjeiras que espiavam por cima de um muro alto; ali, de minaretes revestidos de azulejos e dos telhados verdes de mesquitas e túmulos, uma cidade que não se estende uma única jarda além das muralhas que a cercam. Dentro delas, um labirinto sinuoso; fora, milha após milha de campo aberto, salpicado pelas cabanas de palha e aldeias de tendas das tribos. Contudo, junto às muralhas, ao longo das margens do rio que corre em tantos canais através da cidade e ao redor dela, surgiram jardins de laranjeiras e oliveiras, amoreiras, damasqueiros e videiras, formando uma moldura de verde mais intenso para a cidade branco-acinzentada, que serpenteia da planície ao vale do Sebou, acompanhando em todo o percurso a forma da depressão em que se encontra.
Quase não existe vista de Fez que não seja bela, quase não existe vislumbre que não seja triste. Sua própria coloração, ou talvez a ausência de coloração; seus becos espantosos, nos quais o sol jamais penetra; suas mesquitas arruinadas, ricas em mosaicos e entalhes de madeira que rapidamente desabam, em arabescos apodrecidos e telhados cobertos de relva; suas fontes de água potável danificadas, de cujos azulejos quebrados a água ainda espirra até o lugar onde antes uma bacia a recolhia, mas agora apenas para formar um canal de lama na passagem estreita; seus majestosos caravançarás, com galerias de arcos e treliças de madeira que adquiriram tons púrpura e cinzento com a idade; seu bairro de jardins, do qual se erguem os modernos palácios dos vizires, construídos com o dinheiro e a comida do povo, tudo acrescenta um encanto misterioso a uma cidade que permanece única como exemplo intacto da antiga prosperidade e da decadência presente.
Assim também era com o povo. Traziam no rosto a expressão abatida e triste que nascera de anos de opressão, sem esperança no futuro, esquecidos do passado e, contudo, ainda com um consolo, e apenas um: Deus assim o determinara. Nada abalaria sua crença de que tudo estava predestinado, imutavelmente predestinado e previamente inscrito em seu livro da vida. “Está escrito”, e para eles isso bastava.
Enquanto as Potências da Europa estiveram quase à beira da guerra por causa do Marrocos, enquanto os olhos do público mundial estiveram fixos na Conferência de Algeciras, enquanto ainda se estendia diante do país um futuro desconhecido, enquanto um quinto do território estava nas mãos do Pretendente, enquanto a autoridade do Sultão mal se estendia para além de algumas cidades muradas, Fez permanecera imóvel. Fatalistas sem exceção, o Sultão e seus vizires, os habitantes da cidade e os pobres famintos mal haviam dedicado um pensamento sério ao futuro, à crise pela qual seu país passara e ainda passava. Mulai Abdul Aziz vagava de jardim em jardim e de pátio em pátio dentro das muralhas do palácio. Seus vizires continuavam a frustrar as boas intenções de Sua Majestade, embora restasse pouca majestade além do nome, e o povo continuava a morrer de fome; e todos, firmes em sua crença inabalável, diziam: “Está escrito.”
Os resultados da Conferência de Algeciras e do “Acte” que promulgou suas decisões foram os que se poderiam esperar. Toda a Europa enviou seus delegados à agradável cidadezinha espanhola situada a poucas milhas de Gibraltar, e cada
Governo tinha interesses próprios a defender. Despejaram vinho novo, em sua maior parte vinagre, em odres velhos, e o resultado foi inevitável. Enquanto os embaixadores especiais, cujos títulos ocupam duas páginas impressas no minúsculo volume que contém o Acte, discutiam Obras Públicas, Polícia Internacional, Banco do Estado e as diferenças entre “fusils rayés et non-rayés”, além de uma infinidade de outras coisas, o Marrocos afundava cada vez mais em um estado de anarquia, tornado ainda mais desesperador pelos rumores que circulavam entre as tribos a respeito do que ocorria do outro lado do estreito de Gibraltar. Das colinas acima de Algeciras, pelo menos em uma ocasião, podia-se ver claramente a fumaça de aldeias incendiadas no distrito de Tânger, resultado daquela anarquia. Raisuli era supremo no norte, enquanto, a leste de Fez, o Pretendente Bou Hamara ainda mantinha sua posição.
4 Bou Hamara era natural da tribo Zarhoun e, em certa época, fora empregado como escriba por um alto funcionário nativo de Meknes. Sua conduta, contudo, tornara-o inteiramente inadequado para continuar como secretário, pois, segundo os rumores, não apenas falsificara a assinatura do patrão, como também mandara fazer uma réplica do Selo Imperial, por meio da qual obteve uma considerável soma em dinheiro. Em seus momentos livres, aprendera também alguns truques simples de prestidigitação. Já conhecido como estudioso e muçulmano devoto, essas outras habilidades foram-lhe muito úteis. Mas foi descoberto e deixou Meknes às pressas.
Vivendo da própria astúcia, dirigiu-se aos distritos de Taza, situados entre Fez e a fronteira argelina, e ali adquiriu, graças a seus conhecimentos e a sua prestidigitação, prestígio muito considerável. Quase sem perceber, foi aceito como “líder” e, por fim, declarou ser Mulai Mohamed, filho mais velho do falecido Sultão Mulai Hassen e, portanto, irmão mais velho do monarca reinante, Mulai Abdul Aziz. Mandou cunhar um grande Selo de Estado e foi proclamado Sultão. Já se mencionou a derrota sofrida pelas tropas de Mulai Abdul Aziz diante dele, em dezembro de 1902. Seu prestígio atingira então o apogeu e causava a maior ansiedade à Corte mourisca. Governou o leste do Marrocos durante vários anos, com êxito quase constante. É verdade que, em certas ocasiões, foi repelido para as montanhas do Rif, quando Taza foi capturada por um exército mouro comandado por El-Menebhi, o ativo e jovem ministro da Guerra; mas Bou Hamara sempre conseguia reafirmar sua autoridade e recuperar os territórios perdidos. Apesar de todos os esforços de El-Menebhi para manter uma força adequada, a corrupção e a incapacidade da Corte eram tamanhas que nem mesmo sua energia podia produzir resultado. O soldo dos soldados deixou de ser pago, e as tropas do Sultão se dissolveram. Somente depois que Mulai Hafid subiu ao trono em 1912, após a abdicação de Mulai Abdul Aziz, Bou Hamara foi capturado e levado a Fez. Encerrado em uma gaiola transportada sobre o lombo de um camelo, o famoso Pretendente foi conduzido à
presença do Sultão. A entrevista prolongou-se. Durante vários dias, Bou Hamara, agachado no pequeno espaço de sua gaiola, ficou exposto à vista do público no grande pátio do palácio onde o Sultão realizava suas recepções, e o Soberano que ocupava o trono e o Pretendente que por tanto tempo o ameaçara ficaram frente a frente. Por fim, o prisioneiro de Estado foi colocado na jaula dos leões diante do Sultão, enquanto as senhoras da Corte se alinhavam no telhado do palácio para assistir à execução. Os leões, contudo, bem alimentados demais, recusaram-se a devorá-lo, embora tenham dilacerado um de seus braços. Depois de esperar mais algum tempo para verificar se os reis dos animais mudariam de ideia, o Sultão ordenou que o Pretendente fosse fuzilado, e os escravos o executaram. Seu corpo foi depois queimado, para privá-lo de qualquer possibilidade, pois os mouros acreditam na ressurreição corporal, de ir para o céu. Por terrível que tenha sido seu fim, o próprio Bou Hamara fora culpado de toda espécie de atrocidade e queimava regularmente, depois de aspergi-los com petróleo, os soldados do Sultão que conseguia capturar durante suas campanhas.
A proximidade entre a jurisdição do Pretendente e o porto espanhol de Melilla, na costa do Rif, causara sérios transtornos às autoridades e aos habitantes espanhóis da cidade; por fim, para obter mantimentos para a população, os espanhóis foram obrigados a negociar e estabelecer relações diretas com ele. Um engenheiro de minas contou-me que certa vez acompanhara alguns capitalistas espanhóis em uma visita ao quartel-general de Bou Hamara em Selouan. Todos foram com certo medo e tremor, mas o que estava em jogo era muito valioso. Desejavam obter uma concessão para explorar algumas ricas minas de ferro nas proximidades. O Pretendente recebeu-os com bastante cordialidade e convidou-os a sentar-se com ele sobre um grande tapete estendido à sombra de uma árvore. A discussão dos termos da concessão prosseguiu, e as exigências de Bou Hamara tornaram-se cada vez maiores. Os capitalistas hesitaram e protestaram, mas foram levados a aceitá-las pelo fato de que, enquanto a conversa ainda transcorria, vários soldados do Pretendente chegaram carregando as cabeças recentemente decepadas de cerca de uma dúzia de inimigos, que dispuseram ao redor da borda do tapete. Ao fim da entrevista, os três ou quatro capitalistas muito pálidos haviam aceitado integralmente as propostas do Pretendente e agradeciam-lhe pela recepção cordial, cercados pela exibição medonha que influenciara em boa medida sua decisão.
As cabeças dos inimigos eram, até o fim do reinado de Mulai Hafid, comumente expostas nos portões das cidades do interior do Marrocos. Em 1909, durante a Missão oficial do falecido Sir Reginald Lister a Fez, o Bab Mharouk estava coberto de cabeças de rebeldes. Um desses monumentos macabros caiu com um baque ressonante quando o ministro britânico e alguns membros de seu grupo passavam por baixo. A maneira de fixá-las consistia em passar um arame pela orelha e prendê-lo a um prego na muralha. Repetidas vezes, durante minha longa residência no Marrocos, vi os portões e outros edifícios das capitais mouriscas decorados com esses horríveis troféus.
Um rival mais sério do Sultão Abdul Aziz surgiu quando Mulai Hafid, seu meio-irmão, ergueu a bandeira da revolta no sul do Marrocos em 1908 e proclamou-se Sultão. O momento era oportuno. No ano anterior, 1907, os franceses haviam bombardeado Casablanca, depois do massacre de vários trabalhadores europeus pelos nativos. Esses trabalhadores, italianos e franceses, estavam empenhados na extração e no transporte de pedras destinadas à construção do
porto. A pequena ferrovia utilizada para esse fim atravessava um cemitério muçulmano ou passava muito perto dele. A opinião nativa, instigada por agitadores religiosos, rompeu todos os limites da contenção, e os mouros atacaram o trem. Os trabalhadores que regressavam do serviço foram assassinados. Um navio de guerra francês chegou ao local, e um destacamento armado desembarcou para proteger a população europeia da cidade. Ao mesmo tempo, os fortes e os alojamentos dos funcionários nativos foram bombardeados. Seguiram-se cenas da mais desenfreada confusão, pois não apenas a cidade estava sob o fogo dos canhões do navio de guerra, como as tribos do interior haviam aproveitado o pânico para invadir e saquear o lugar. Toda espécie de atrocidade e horror foi cometida, e Casablanca tornou-se presa da pilhagem e de todo tipo de crime. A força europeia foi suficiente para proteger os Consulados, e a maior parte da população cristã escapou ao assassinato. Quando a ordem foi restabelecida, a cidade apresentava aspecto lastimável. Vi-a poucos dias depois do bombardeio, e a cena era indescritível, uma confusão de cadáveres humanos e de cavalos, enquanto o conteúdo de quase todas as casas parecia ter sido lançado às ruas e destruído. A pilhagem estava incompleta: pilhas de tecidos de algodão, caixas de alimentos, na verdade, mercadorias de todas as espécies, ainda permaneciam espalhadas pelas ruas. Muitas casas haviam sido queimadas e destruídas por dentro. De porões escuros, mouros e judeus, escondidos desde o primeiro dia do bombardeio, muitos deles feridos, saíam rastejando, pálidos e aterrorizados. Alguns precisaram ser desenterrados das ruínas de suas casas. Sobre toda aquela massa de destruição, cavalos e homens haviam galopado e combatido. Havia sangue por toda parte. Naquilo que antes fora o bairro mais pobre da cidade, onde as casas, em sua maioria cobertas de palha, tinham sido queimadas, encontrei apenas uma alma viva, uma mulher louca, desgrenhada, suja, porém sorridente, que continuava a chamar: “Ayesha, minha filhinha; meu filhinho Ahmed, onde estão vocês? Estou chamando.” Voltando-se para mim, perguntou: “O senhor não viu meus filhinhos, viu? Uma menina e um menino pequenino, quase um bebê.” Não esperou resposta, mas seguiu adiante, ainda chamando Ayesha e Ahmed.
Havia muitas pessoas completamente enlouquecidas pelo medo. Os judeus e judias talvez tenham sido os que mais sofreram. Uma judia, resgatada de um porão, foi levada a Tânger em um navio de socorro, atordoada de terror. Somente depois de desembarcar se lembrou de que escondera o bebê, para salvá-lo da morte, em um canto do porão onde estivera oculta, três dias antes.
O bombardeio de Casablanca e aqueles dias de horror tornaram necessária uma campanha para limpar a região circundante das tribos perversas que rondavam por ali, aguardando outra oportunidade para assassinar, violar e pilhar. Foi o início da ocupação francesa do Marrocos e o fim definitivo de séculos de crueldade, corrupção e extorsão.