VI. O Sultão em Casa O Marrocos de Antigamente · Capítulo 7 de 11
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VI. O Sultão em Casa

VI. O Sultão em Casa

EM 1912-1913, o moderno palácio que o mais recente dos Sultões abdicados, Mulai Hafid, mandara construir para si em Tânger, e que ocupa vários acres com seus imensos blocos de edifícios e seus pátios, ainda se erguia do nível do solo, e Sua Majestade estava temporariamente alojado, com todo o seu séquito, na antiga Kasbah, no alto da cidade. Trata-se de um castelo antigo, espaçoso, desconfortável, antiquado e malconservado, e não constituía de modo algum residência satisfatória, pois não era fácil instalar 168 pessoas dentro de suas muralhas em ruínas com qualquer conforto ou prazer. Quando se leva ainda em conta que muitas dessas 168 pessoas eram damas reais, com prerrogativas reais quanto a seus aposentos, sem falar em suas pretensões ao tratamento de “damas mais favorecidas”, pode-se compreender que a solução não era fácil. Diz-se que, mesmo nos alojamentos mais luxuosos, as damas do palácio causam consideráveis dificuldades, pois o ciúme é intenso; e, se uma delas recebe mais atenções, pessoais ou em presentes, que as demais, ocorrem com frequência cenas perturbadoras, e os rumores afirmam que as “Arifas”, as governantas idosas encarregadas de manter a ordem, não raro empregam o equivalente à vara de castigo, um cordão cheio de nós.

As damas reais ocuparam por completo todos os alojamentos disponíveis na Kasbah, e o Sultão só conseguiu reservar para uso próprio dois aposentos muito malcuidados acima da entrada. Ali recebia os convidados, desculpando-se, até que a compra do grande jardim no qual construiu seu novo palácio lhe proporcionou acomodações mais convenientes; pois no jardim havia uma vila erguida pelo antigo proprietário, um israelita rico e respeitado que durante anos ocupara o cargo de Vice-Cônsul da Bélgica. Essa vila, que ainda existe, é um exemplo espantoso de gosto extraordinário, uma cópia pseudomourisca de uma casa de brinquedo sobre a qual se despejaram, em profusão surpreendente, gesso e tinta de todas as cores. Leões de gesso guardam sua entrada, mais semelhantes a grandes cães pug doentes que ao rei dos animais e, para aumentar seus atrativos, estavam então inteiramente pintados com manchas vermelhas. Um arco recortado coroava a porta da frente, e o antigo proprietário certa vez ressaltou ao autor que cada uma das trinta e duas reentrâncias era pintada de uma cor diferente, o que era bastante evidente. No interior, a decoração correra desenfreada da forma mais extravagante. Os tetos gotejavam protuberâncias de gesso em vermelho e ouro. Molduras percorriam caminhos estranhos pelas paredes multicoloridas, cercando painéis de formatos irregulares pintados com vistas de lagos, montanhas e barcos de pesca impossíveis, projetados e executados por algum gênio local. Lustres de vidro colorido pendiam dos tetos, e as janelas estavam equipadas com vidraças verdes e púrpura. O Sultão ficou em êxtase e mobiliou esses aposentos espantosos com cadeiras e sofás revestidos de pelúcia vermelha, guarnecidos com franjas azuis e amarelas e cravejados de botões azuis e amarelos. Nas paredes, pendurou indiscriminadamente cerca de vinte relógios de todos os tamanhos e formatos; cobriu as mesas de brinquedos mecânicos; empilhou caixas de música em todos os cantos; pendurou gaiolas de canários em todas as janelas e adornou a lareira com cestos de flores de papel. Depois, sentou-se, feliz, para desfrutar a civilização.

Entre os muitos brinquedos mecânicos de Mulai Hafid havia um que, em seu absurdo, superava qualquer brinquedo que eu já vira. Era, ou fora, um papagaio em tamanho natural, sentado sobre um alto suporte de bronze que continha música. As traças e a ferrugem o haviam corrompido, e pouco restava da magnífica ave além de um corpo de camurça com a forma de uma linguiça inflada, com os dois olhos negros de contas ainda mais ou menos no lugar e um bico torto e aparentemente paralisado. As pernas haviam cedido, e a almofada que lhe servia de corpo afundara melancolicamente sobre o poleiro de bronze. Uma longa pena vermelha da cauda projetava-se em ângulo e, ao redor do pescoço e esparsamente distribuídos pelo corpo, estavam os restos de outras plumas, das quais pouco permanecia além das hastes. De cada lado encontravam-se as bases do que outrora haviam sido suas asas, formadas por mecanismos de madeira e arame. Seria impossível imaginar algo mais lamentável que aquela relíquia de papagaio.

De vez em quando, aparentemente sem razão alguma, aquele estranho brinquedo ganhava vida. O corpo em forma de linguiça contorcia-se, o bico quebrado se abria, a pena da cauda projetava-se em um novo ângulo, e a armação das asas se estendia e tornava a fechar-se com um estalo; então, depois de um esforço tremendo, que dava a impressão de que o fantasma de uma ave estava prestes a enjoar, os tubos assobiantes escondidos no suporte de bronze começavam a tocar. A música estava à altura do pássaro: faltavam notas, e toda a escala descera ou subira para tons e semitons de composição inimaginável. Reconhecer a melodia era impossível, mas a emoção da apresentação era inegável. Parecia haver uma corrida entre a ave e os tubos para ver qual deles alcançaria primeiro o clímax. Ambos ficavam cada vez mais excitados, até que de repente surgia um longo arquejo, seguido por uma escala cromática ainda mais longa, do agudo ao grave, e, com um comovente tremor de sua cabeça paralítica, o papagaio tornava a desabar em seu estado de desespero petrificado.

Mulai Hafid estava inteiramente satisfeito. Percebia que, por fim, depois da pompa sombria do palácio de Fez, instalara-se na vida moderna e no refinamento e alcançara o “bom gosto”. Era seu costume chegar cedo pela manhã e passar ali os dias, descendo da Kasbah montado em uma gorda mula de sela ajaezada de púrpura, azul-claro ou amarelo, acompanhado por homens a cavalo e com seus escravos negros correndo a seu lado. Duas velhas, uma negra e a outra uma mulher berbere branca, quase sempre o acompanhavam, equilibradas sobre belas mulas de sela e cuidadosamente veladas. A negra era sua antiga ama; a berbere, uma vidente já mencionada. Ao chegarem ao jardim, começava a costumeira série de contratempos. Uma das velhas senhoras caía de sua mula inquieta, ou a chave da casa vazia havia desaparecido, e era necessário forçar uma janela para entrar, depois que todos passavam cerca de meia hora agitando-se e fingindo procurar a chave. Mandava-se então chamar um carpinteiro para consertar a janela quebrada, e um escravo de repente recordava que, por medo de perder a chave, a amarrara ao redor do pescoço com um cordão, onde ainda pendia pesadamente sobre seu peito. Depois chegava o desjejum, trazido da Kasbah sobre a cabeça dos escravos negros: grandes bandejas de pão fresco, tigelas de leite, bolos empapados e ainda mornos, cobertos de manteiga e mel, excelentes bolinhos nativos e uma multidão de pratos de frutas, massas, doces, chá e café sobre imensas bandejas de prata. Era uma espécie de refeição indiscriminada, consumida primeiro pelo Sultão e seus amigos particulares, depois passada aos “cortesãos” e, por fim, entregue pelas janelas aos escravos, jardineiros e servidores, que acabavam inteiramente com o que restava, por maior que fosse a quantidade.

A essa altura, os operários já haviam iniciado a construção do grande palácio, a cerca de cem jardas dali, e o ex-Sultão visitava o local, demonstrando interesse muito inteligente por todos os detalhes. Depois regressava à vila, onde recebia visitantes nativos e discutia questões literárias e religiosas. O próprio Mulai Hafid não é autor desprezível, e seus versos árabes, se publicados naquela época, lhe teriam rendido muitos elogios e muitos inimigos. Hoje não há razão para permanecer em silêncio. As circunstâncias mudaram. Não foi ele quem escreveu a respeito de Tânger?

“No último dia, o povo de Tânger compareceu perante o tribunal de Deus; e o Juiz Supremo disse: ‘Certamente sois os menores e os piores de todos os povos. Sob que circunstâncias vivestes?’

“E eles responderam: ‘Pecamos; pecamos; mas nosso Governo era internacional: éramos governados pelos representantes da Europa.’

“E o Juiz Supremo disse: ‘Certamente já fostes suficientemente castigados: entrai no Paraíso.’”

Esses versos não podem deixar de ser apreciados por quem conheceu e experimentou o Governo internacional de Tânger.

Não escreveu ele também o seguinte, durante seus dias de conflito com o Governo francês?

“Não se manifesta a sabedoria de Deus? Não concedeu Ele inteligência até mesmo ao cão? Um pouco menos, é verdade, que ao elefante, mas um pouco mais do que concedeu à Administração francesa.”

Quando Mulai Hafid comprou a propriedade de Ravensrock, em Tânger, que durante muitos anos fora a residência de campo do falecido Sir John Drummond-Hay, começou imediatamente a derrubar as belas árvores pelas quais o lugar era famoso. A maioria das pessoas de raça árabe nutre aversão às árvores, o que sem dúvida é uma das razões pelas quais o Marrocos tem tão poucas. Um após outro, os grandes pinheiros e eucaliptos desapareceram; mas, embora numerosos homens fossem empregados, o trabalho não avançava com rapidez suficiente para satisfazer sua ex-Majestade.

Certo dia, alguém lhe sugeriu que dinamite realizaria o trabalho mais depressa, e ele imediatamente enviou um operário à cidade para comprar cartuchos de dinamite dos pescadores espanhóis, que os utilizavam para matar peixes no mar. Eu estava com o ex-Sultão quando o mensageiro regressou. Ele ficou diante de nós e, virando do avesso o capuz de sua jelab, deixou cair no chão, a nossos pés, cerca de duas dúzias daqueles cartuchos altamente explosivos. Felizmente, nenhum explodiu. Poucos minutos depois, o trabalho havia começado. Abriram-se rapidamente buracos nas árvores, perto das raízes, e os cartuchos foram colocados em posição. Acenderam-se os estopins, e viam-se grupos de homens correrem apressadamente para fora de alcance. Então vinha um estrondo, e algum gigante da montanha desabava sobre a terra, para imenso deleite de Mulai Hafid. Era a destruição imprudente daquilo que exigira anos de cuidado e atenção para ser criado, mas nada persuadiria o ex-Sultão a permitir que aquelas belas matas permanecessem. Por meio de súplicas muito especiais, algumas das árvores mais belas foram poupadas, mas apenas algumas. Essa destruição em massa foi realizada principalmente porque Mulai Hafid temia ser assassinado e desejava eliminar dos arredores qualquer abrigo no qual um possível assassino pudesse esconder-se.

O ex-Sultão dedicou-se assiduamente ao bridge e jogava sempre que tinha oportunidade. Uma dessas oportunidades surgiu com seu dentista. Como suas relações com seu dentista espanhol particular haviam ficado muito tensas por causa do preço de um leão vivo, foi obrigado a procurar em outro lugar os reparos dentários de que necessitava de tempos em tempos; e a sorte o favoreceu, pois descobriu um excelente dentista americano que chegara recentemente. Surgiu uma amizade íntima entre o ex-Sultão e o dentista e, com frequência, o bridge ocupava o lugar da odontologia. O americano chegava com sua tímida assistente e todos os instrumentos de tortura, apenas para ser convidado a sentar-se à mesa e jogar cartas. A assistente era muito jovem e muito tímida e estava mais acostumada a brincar com jogos infantis que a jogar bridge. Encontrava-se um quarto jogador, e o grupo malcombinado ficava completo. O ex-Sultão divertia-se imensamente. Geralmente vencia, talvez em parte porque jamais permitia que a trêmula assistente fosse sua parceira. Desse modo, passava-se toda a tarde, e à noite Mulai Hafid exibia com grande alegria os poucos francos que ganhara. Os pontos valiam um franco por cem, de modo que não se podia causar prejuízo muito grave; mas, por mais rico que fosse o Sultão, alegrava-se mais com seus modestos ganhos no bridge que com seus muitos milhares nos bancos. Boa parte desse prazer devia-se ao fato de sentir que estava “levando vantagem” sobre o dentista. “Ele vem”, dizia o ex-Sultão, “para consertar meus dentes e levar meu ouro e, no fim, eu ganho seus francos.” Passaram-se semanas. De vez em quando, havia uma tarde de verdadeira odontologia, mas havia muito mais tardes de bridge e, a cada vez, o Sultão ganhava. Um dia, porém, chegou o desfecho. Os dentes estavam excelentemente restaurados, o trabalho era da melhor qualidade, e nada mais restava a fazer além de pagar a conta; e a conta, muito natural e corretamente, incluía todas as horas de bridge, a determinada quantia por hora. Foi o bridge mais caro que Mulai Hafid jogou na vida.

O bridge do ex-Sultão era peculiar. Não se insinuaria por um instante que as irregularidades ocorridas no jogo se devessem a outra coisa que não acidentes, mas esses pequenos acidentes eram muito frequentes. O ex-Sultão, que durante toda a vida estivera acostumado a sentar-se de pernas cruzadas em um divã, logo se cansava de permanecer ereto em uma cadeira. Ficava inquieto e enfiava as pernas sob o corpo. Ora, cadeiras comuns não foram feitas para que se sente nelas de pernas cruzadas, sobretudo pessoas corpulentas; e, como geralmente se colocava uma poltrona para Sua Majestade, ele mudava constantemente de posição, contorcendo-se para ficar mais confortável e encontrar mais espaço para suas pernas volumosas. Esses movimentos às vezes ocasionavam um deslocamento evidente para a direita ou a esquerda, e, se os jogadores não mantinham as cartas bem erguidas, a culpa era deles. Às vezes, ele deixava as cartas cair, e sua longa manga ao mesmo tempo varria para o chão as vazas já ganhas, causando confusão na hora de separá-las. Uma ou duas vezes, um ás apareceu inesperadamente pela segunda vez na partida, sem dúvida apanhado por engano do chão, e, quanto às renúncias... com voz lamentosa, ele dizia: “Sou apenas um principiante.” Quando ganhava, ficava no melhor dos humores; quando perdia, amuava-se, mas não perdia com muita frequência.

É uma característica dos mouros detestarem perder um jogo, não importa qual estejam jogando. Vi partidas de xadrez extremamente emocionantes, jogadas com habilidade e rapidez, nas quais o perdedor insistia em continuar partida após partida até que, às vezes, por puro desespero, o adversário lhe permitia vencer. Mulai Abdul Aziz, antecessor de Mulai Hafid no trono, tinha uma maneira singular de registrar os pontos no críquete. Quando era Sultão, costumávamos jogar críquete no palácio de Fez, geralmente quatro de cada lado. O placar era cuidadosamente anotado, mas nenhum nome era inscrito. Quando terminava a partida, o próprio Sultão colocava os nomes ao lado dos pontos, sempre, naturalmente, pondo o seu diante do maior total. Depois, o nome do jogador de quem mais gostava naquela tarde recebia o segundo melhor placar, e assim por diante, reservando-se o menor ao indivíduo mais desfavorecido. O livro de resultados era religiosamente conservado e frequentemente consultado pelo Sultão, que dizia: “Aquela foi uma grande tarde. Fiz 61 corridas, e Harris fez 48. X. jogou de maneira abominável e fez apenas 2.” Na verdade, Sua Majestade fizera 2, e Harris talvez nenhuma; enquanto o infeliz registrado no livro com 2 pontos provavelmente era o excelente rebatedor que fizera os 61 reivindicados pelo Sultão. Quando se é monarca autocrático, pode-se fazer qualquer coisa, até mesmo apropriar-se do placar de críquete do vizinho. Recordo muito bem a primeira partida de bridge que joguei com Mulai Abdul Aziz. Foi em minha casa, depois de um jantar, o primeiro jantar europeu a que o Sultão compareceu. Estavam presentes os ministros britânico e francês e os funcionários das duas Legações. Tudo era bastante formal. O Sultão sentou-se à cabeceira da mesa e comeu muito pouco; naquela época, ainda não se sentia à vontade com facas e garfos. Depois do jantar, sentamo-nos para jogar bridge. O Sultão e Sir Reginald Lister, que então representava a Grã-Bretanha no Marrocos, jogaram contra um membro da Legação francesa e eu. Tiramos cartas para decidir quem distribuiria, e eu tirei a menor. O Sultão estava sentado à minha esquerda. Distribuí as cartas e declarei “copas”. “Não posso jogar copas”, explodiu Sua Majestade, irritado. “Não tenho nenhuma. Você deve dar-me suas cartas”; e fui obrigado a entregar-lhe a excelente mão de “copas” com a qual fizera a declaração, recebendo em troca suas treze cartas inúteis, contendo apenas um pequeno trunfo. Mas tivemos de jogar “copas”, e jogamos, e meu parceiro e eu perdemos por cinco vazas, para grande alegria do Sultão. Felizmente, não jogávamos por dinheiro.

Esse não foi o único episódio divertido ocorrido naquele jantar. Houve uma longa discussão diplomática sobre a etiqueta que deveria ser observada com o ex-Sultão, pois era o primeiro jantar europeu a que ele comparecia e isso estabeleceria um precedente. Decidiu-se que os convidados chegariam pontualmente a minha casa às oito horas, e o Sultão, às oito e quinze. Eu deveria encontrar o Sultão à porta e conduzi-lo à sala de visitas, onde lhe apresentaria os ministros da Grã-Bretanha e da França, que, por sua vez, apresentariam seus séquitos. Tudo isso funcionava muito bem no papel, mas Mulai Abdul Aziz, demonstrando inteligente interesse pelas festas de jantar, pensou que gostaria de ver o que acontecia antes da chegada dos convidados e, em vez de chegar às oito e quinze, veio às cinco da tarde. Desculpou-se por chegar um pouco antes da hora e manifestou o desejo de ver os preparativos. Dois minutos depois, estava na cozinha, onde sua augusta e santíssima pessoa, pois era descendente direto do Profeta e, para seus compatriotas, o “Comandante dos Fiéis”, perturbou um tanto a tranquilidade de meus cozinheiros e criados nativos. Foi necessário abrir fornos, destampar panelas, introduzir colheres nelas e exibir o conteúdo; explicar completamente a máquina de gelo e responder a mil e uma perguntas. Depois, a despensa ocupou durante algum tempo a atenção de Sua Majestade. Ele não demonstrou menor interesse pela decoração floral da mesa e pela disposição das peças de prata. Enquanto eu me vestia para o jantar, permaneceu sentado conversando com meus criados nativos, sem que o Sultão jamais perdesse a dignidade nem meus homens o respeito, e todos os envolvidos estavam inteiramente à vontade. O mouro quase sempre possui as maneiras perfeitas de um cavalheiro, qualquer que seja sua posição, e o sentimento do país é essencialmente democrático. Tornou-se incidente comum, nos muitos jantares que posteriormente ofereci aos dois ex-Sultões, eles apelarem aos homens que serviam à mesa para confirmar alguma afirmação ou indicar a opinião geralmente aceita pelo povo mouro sobre determinado assunto em discussão.

Às oito horas, chegaram os convidados, e Mulai Abdul Aziz, por já estar na casa, em vez de chegar às oito e quinze, como deveria segundo o programa, precisou ser escondido em uma sala no andar superior. Pontualmente às oito e quinze, desceu as escadas, atravessou o vestíbulo e entrou na sala de visitas. Vestia suas belas, longas e esvoaçantes roupas brancas, e todos os meus convidados manifestaram-me depois sua admiração pela dignidade e imponência com que fez a entrada formal e participou da apresentação dos convidados. Não ficaram menos impressionados com o encanto indiscutível de suas maneiras, a suavidade de sua voz e sua inteligência, que fazem de Mulai Abdul Aziz talvez a figura mais atraente do Marrocos atual.

Quando chegou o momento de o ex-Sultão partir, chamou-me de lado e disse que possuía um fogão em seu palácio, mas jamais o utilizara. Teve a bondade de dizer que a excelência de meu jantar o convencera de que seu próprio fogão deveria ser posto imediatamente em funcionamento e perguntou se eu tinha um saco de carvão, pois ele não possuía nenhum, já que em suas cozinhas só se queimavam lenha e carvão vegetal. Poucos minutos depois, meus criados, usando suas librés mais elegantes, enchiam um saco de carvão nos fundos da casa. Quando ficou pronto, o Sultão partiu. Os convidados levantaram-se, o Sultão apertou a mão de todos, e eu o conduzi à porta. Uma mula de montaria magnificamente ajaezada o aguardava, e escravos montados estavam junto ao portão. Sobre uma segunda mula encontrava-se um oficial de sua casa, belamente vestido de branco, lutando para equilibrar diante da sela carmesim o saco de carvão quase arrebentando.

Sempre tive o grande desejo de promover uma reconciliação entre os dois ex-Sultões, Mulai Abdul Aziz e Mulai Hafid, mas jamais consegui. Mulai Hafid expulsara o irmão, Mulai Abdul Aziz, do trono e, naturalmente, este não tinha motivos para sentir gratidão por ele. Ao mesmo tempo, Mulai Hafid sempre culpava Mulai Abdul Aziz por ter arruinado o Marrocos e lançado a semente da perda da independência marroquina. Havia também a questão da precedência. Mulai Abdul Aziz fora Sultão primeiro e reivindicava o primeiro lugar. Mulai Hafid também o reivindicava, pois fora Sultão por último. Depois de muitas tentativas fracassadas, convenci ambos a concordar que, se se encontrassem por acaso na estrada, saudariam um ao outro e se abraçariam. Durante meses não se encontraram, mas um dia, ao contornarem repentinamente uma esquina, suas mulas de montaria colidiram. Suas duas Majestades ficaram tão desconcertadas que esqueceram completamente o acordo e partiram em direções opostas tão depressa quanto suas mulas conseguiam levá-las.

Imediatamente depois da reconciliação, caso assim pudesse ser chamada, entre Mulai Hafid e as autoridades francesas, o ex-Sultão ofereceu um jantar aos membros da Legação francesa e a vários outros funcionários franceses, em uma encantadora vila que nesse meio-tempo alugara no Marshan, em Tânger. Sem saber ao certo quem deveria convidar para aquela refeição solene, Mulai Hafid deixara a escolha dos convidados ao encarregado de negócios francês, que enviara uma lista. Chegou a hora do jantar, e chegaram também os convidados, entre os quais estava o muito capaz e excelente “Commissaire” da polícia local francesa, que Sua Majestade ainda não conhecia. Realizaram-se as apresentações, e o Sultão chamou-me de lado, pois eu o acompanhava, e perguntou quem eram certos convidados que ele não conhecia de vista. Quando lhe informei que um deles era o Commissaire de Police francês, ficou um pouco inquieto, e uma sombra atravessou-lhe o rosto. “Para que acha que ele veio?”, perguntou nervosamente o ex-Sultão.

Percebendo uma oportunidade de brincar à custa de Sua Majestade, hesitei por um momento e então, com muitos pedidos de desculpa, informei ao Sultão que circulavam histórias a respeito de sua maneira de jogar bridge. Ninguém, disse eu, acreditava nelas, mas naturalmente as autoridades francesas desejavam muito pôr fim àquele falso rumor e, por isso, haviam decidido, de maneira muito discreta, é claro, trazer o “Commissaire de Police” para observar seu jogo naquela noite. Assim que estivessem convencidas de que a conduta de Sua Majestade estava acima de qualquer suspeita, seria possível emitir um desmentido oficial daqueles rumores perturbadores. O rosto de Mulai Hafid conservou uma expressão de gravidade incomum durante o longo e suntuoso jantar.

Depois que os convidados passaram à sala de visitas, sentamo-nos para jogar bridge. O “Commissaire”, que não era jogador, foi deliberadamente convidado, sem o conhecimento do Sultão, a sentar-se ao lado de Mulai Hafid. O jogo começou. Sua Majestade estava terrivelmente nervoso. Toda vez que se contorcia na cadeira ou se inclinava para a direita ou para a esquerda, recompunha-se e fixava os olhos nas próprias cartas. Nem uma vez deixou sua “mão” cair no chão. Nem uma vez suas longas mangas varreram as vazas da mesa. Nem uma vez cometeu uma renúncia. Perdeu partida após partida, e sua aflição tornou-se dolorosamente evidente.

Entre duas distribuições, um convidado aproximou-se e perguntou educadamente: “Vossa Majestade está ganhando?”

“Ganhando!”, exclamou o monarca, já inteiramente perturbado. “Ganhando! Como poderia ganhar com este horror de policial observando cada carta que jogo?” E o autor precisou explicar à companhia reunida todo o estratagema.

Mulai Hafid era excelente anfitrião e nunca estava mais feliz que quando recebia convidados. Seus jantares eram bem servidos e sempre divertidos, e os convidados, europeus e nativos, escolhidos de modo apropriado. Em certa ocasião, algumas encantadoras e aristocráticas senhoras francesas visitavam o Marrocos. Entre uma série de festas oferecidas pelo Corpo Diplomático e por outras pessoas para entretê-las, houve um banquete na residência do antigo ministro da Guerra mouro, Sid Mehdi el-Menebhi, G.C.M.G. Nesse banquete, o ex-Sultão presidiu. As distintas convidadas haviam comprado trajes mouros, e combinou-se que compareceriam à festa vestidas com toda a magnificência adquirida recentemente. O resultado foi encantador, tão encantador que se decidiu mandar chamar um fotógrafo para registrar o grupo. Quando ele chegou, os convidados foram colocados em posição, Mulai Hafid sentado em um divã cheio de almofadas, cercado pelas senhoras em seus vestidos mouros. Os homens ficaram de pé atrás.

A fotografia foi um grande êxito, mas seus resultados indiretos quase constituíram uma tragédia, pois Mulai Hafid colocou uma grande cópia do grupo sobre a lareira da sala de visitas de sua vila. As senhoras de sua casa jamais deixavam a Kasbah, mas em certa ocasião ele enviou à vila a velha berbere já mencionada e uma escrava idosa que fora sua ama, e os olhos de águia dessa venerável senhora descobriram a fotografia. Em suas mentes, não se poderia imaginar prova mais clara da perversidade de Mulai Hafid, pois ali estava o ex-Sultão sentado em meio a um grupo de senhoras nativas aparentemente muito atraentes, cercado por homens europeus. Nenhuma combinação de fatos poderia parecer mais escandalosa a seus olhos. Não apenas estava claro que Mulai Hafid desfrutara a companhia de senhoras que não eram suas mulheres, como também não hesitara em fazê-lo diante de homens “cristãos”. Assim, a fotografia foi transportada dentro de suas volumosas vestes até a Kasbah, onde foi apresentada aos olhos das indignadas mulheres do Sultão. Mulai Hafid saíra para caçar naquele dia, e foi ele próprio quem relatou ao autor o que ocorreu quando regressou. Nenhuma das senhoras estava no pátio para recebê-lo; ninguém, exceto um ou dois escravos, era visível. Nenhuma palavra de boas-vindas, nenhuma pergunta a respeito do sucesso da caçada! Ao procurar os aposentos de uma das mulheres reais, o Sultão teve a mortificação de vê-la sair por uma porta enquanto ele entrava por outra. Chamou-a, mas ela não lhe deu atenção. Procurou consolo em outro lugar, sem melhores resultados. Era evitado e estava no exílio, nenhuma das senhoras lhe dirigia a palavra. Naturalmente, não sabia a razão e não conseguia obter explicação alguma. Dormiu em sua pequena sala de recepção acima da entrada da Kasbah e esperou que a situação estivesse melhor pela manhã, mas nada havia melhorado.

Então as duas velhas que haviam encontrado a fotografia e a entregado às mulheres do Sultão ficaram alarmadas e confessaram, mas era difícil convencer as muitas esposas, e somente quando o autor foi chamado e explicou a situação a algumas pessoas invisíveis, escondidas atrás de uma espessa cortina estendida diante de um arco, a paz e a tranquilidade foram restabelecidas no harém xerifiano. Como o Sultão disse depois: “Há algumas instituições na Europa que, de certo modo, são preferíveis às nossas. A monogamia tem sua vantagem. Quando um homem briga, tem apenas uma mulher com quem brigar, enquanto nós!”

O ex-Sultão tinha uma família muito numerosa de filhos pequenos, aos quais era verdadeiramente dedicado e com alguns dos quais brincava durante muitas horas. Eram, e ainda são hoje, extremamente bem-educados, de boas maneiras e belamente vestidos e, agora que estão um pouco mais velhos, recebem boa instrução. Às vezes, eu era levado para vê-los em um jardim da Kasbah. Havia algumas escravas negras e entre dez e vinte crianças, provavelmente todas com menos de sete anos, variando na cor da pele desde muito escura até muito clara. Certa vez, mencionei a Mulai Hafid que pareciam numerosas. Ele riu e respondeu que não estavam todas ali: nenhuma das menores estava presente e, ao todo, havia vinte e seis com menos de seis ou sete anos. Era certamente um pai dedicado a sua numerosa descendência. Durante todo o período da Guerra, esteve separado delas. Em 1914, foi para a Espanha, onde suas relações com a Embaixada alemã fizeram com que fosse suspeito de fomentar intrigas no Marrocos. Sua pensão foi cancelada, e ele continua até hoje no exílio. Quem o conheceu em sua vida familiar e testemunhou sua dedicação aos filhos não pode deixar de desejar, caso suas ações na Espanha não tenham passado de loucuras, que lhe seja permitido regressar mais uma vez a seu lar.

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