VIII. Raisuli O Marrocos de Antigamente · Capítulo 9 de 11
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VIII. Raisuli

VIII. Raisuli

I

MULAI AHMED BEN MOHAMMED ER-RAISULI é hoje um homem de cerca de cinquenta anos. Por nascimento, descende de uma das famílias mais aristocráticas do Marrocos e é Xerife, ou descendente direto do Profeta, por intermédio de Mulai Idris, que fundou o Império Maometano do Marrocos e foi o primeiro soberano da Dinastia Idríssida. Os filhos de Mulai Idris estabeleceram-se em várias partes do país, e é de Mulai Abd es-Salam, cujo túmulo na tribo Beni Aros é lugar de grande santidade, que o famoso bandido descende diretamente, enquanto sua família, e ele próprio, ainda conservam participação nas terras, nos direitos e nos privilégios desfrutados por seu célebre ancestral. Um ramo da família estabeleceu-se em Tetuan, onde uma bela mesquita constitui mausoléu de seus antepassados mais recentes e é venerada como lugar de peregrinação.

Talvez tenha sido essa ascendência sagrada que desviou Raisuli dos caminhos da virtude, pois, depois de receber em Tetuan excelente educação em religião e direito religioso, entregou-se à aventureira e lucrativa profissão de ladrão de gado, de modo algum desprezada no Marrocos. É uma atividade arriscada e exige coragem. É tão provável que alguém seja alvejado quanto alveje outra pessoa; mas o prestígio favorece o chefe do bando, e seguiu-se um reinado de terror do jovem Raisuli. Tornou-se célebre. Era um jovem de grande coragem, aparência extremamente atraente, e ele e seus seguidores ganhavam dinheiro com facilidade e rapidez, e o gastavam ainda mais depressa. Mas os roubos de gado conduziram a outros crimes. Seguiram-se assassinatos, e é preciso confessar que as mãos de Raisuli não estão muito limpas nesse aspecto; mas o assassinato no Marrocos não pode ser classificado da mesma maneira que o assassinato na Inglaterra. A vida é barata, e os mortos logo são esquecidos. Por natureza, ele era, e ainda é, cruel, e a profissão escolhida oferecia-lhe campo ilimitado para demonstrar sua crueldade. Em certa ocasião, um Xerife casado com sua irmã propôs-se, conforme o costume muçulmano, a tomar uma segunda esposa. Enfurecida, a irmã de Raisuli fugiu para junto do irmão e queixou-se. Nada aconteceu até a noite do novo casamento, quando, no auge das festividades, Raisuli e seus homens entraram na casa do cunhado e mataram a jovem noiva e a mãe dela.

Por fim, seus atos tornaram-se insuportáveis. Toda a região vivia aterrorizada por suas incursões. O falecido Sultão ordenou sua prisão. Seu maior amigo o traiu; foi capturado e enviado às temidas masmorras de Mogador. Quando, em 1903, fui prisioneiro de Raisuli em Zinat, ele me narrou mais de uma vez a história daqueles quatro ou cinco anos passados na prisão. Mostrou-me as marcas das correntes nos tornozelos, pulsos e pescoço; contou-me sobre a sujeira e o frio; sobre a introdução de uma lima dentro de um pão; sobre cinco meses de paciente trabalho noturno; e sobre uma fuga tardia. Escapou, mas por pouquíssimas horas. Não conhecia o caminho pela cidade e esquecera que as correntes quase o impediriam de andar. Entrou em uma rua sem saída e foi recapturado. Novas correntes foram amontoadas sobre ele, e somente dois anos depois foi libertado mediante petição de Haj Mohammed Torres, representante do Sultão em Tânger. Regressou a sua casa, pretendendo levar vida calma e pacífica, mas descobriu que o amigo que o traíra se tornara Governador de Tânger e confiscara todos os seus bens. Pediu que fossem devolvidos, mas não conseguiu recuperá-los. Ameaçou, mas riram dele, e então retomou sua antiga profissão e tornou-se bandido.

Foi nesse período que o encontrei pela primeira vez. Eu acampava em uma expedição de caça perto de Arzeila quando ele e seus homens me fizeram uma visita e passaram a noite em meu acampamento. Confesso que sua personalidade era quase fascinante. Alto, extraordinariamente bonito, com a pele muito branca, barba e bigode curtos e escuros e olhos negros, perfil mais grego que semítico e sobrancelhas que formavam uma linha reta sobre a testa, Mulai Ahmed er-Raisuli era um bandido típico e ideal.

Suas maneiras eram tranquilas, sua voz, suave e baixa, e sua expressão, particularmente triste. Às vezes sorria, mas raramente, e, mesmo quando passei a conhecê-lo muito melhor, jamais o ouvi rir. Com seus seguidores era frio e altivo, e eles o tratavam com todo o respeito devido a seu nascimento.

Quando o vi novamente, eu era seu prisioneiro em sua fortaleza de Zinat, situada a cerca de doze milhas de Tânger, em junho de 1903. Ele mudara um pouco. O rosto se tornara mais cheio, a boca, mais dura e um pouco mais cruel, mas ainda era extraordinariamente bonito. Não mudara para melhor. Apenas alguns meses antes de minha captura, vendera um de seus prisioneiros a um inimigo por 1.500 dólares e permanecera presente para observar o comprador cortar a garganta da vítima. Enquanto limitara suas energias ao roubo de gado e aos ataques contra nativos, ninguém lhe prestara atenção muito séria, embora o Maghzen tentasse conseguir sua captura. Em 16 de junho de 1903, as tropas xerifianas atacaram e incendiaram Zinat; naquela mesma tarde, fui capturado.

Ao saber que ocorrera uma batalha naquele lugar, situado a cerca de oito ou nove milhas de distância, saí a cavalo por volta do meio-dia naquela direção, acompanhado por meu cavalariço nativo, cujos pais viviam em Zinat e que estava muito ansioso quanto à segurança dos parentes. O alarme já se espalhara pelas aldeias vizinhas, e encontramos toda a região completamente deserta, pois a população fugira para as montanhas dos Anjera com todo o gado e tantos bens quantos conseguira transportar. Embora o ataque das tropas governamentais tivesse como objetivo capturar Raisuli, a cavalaria nativa se dispersara por grandes distâncias em busca de saque, e considerável número de animais fora levado de aldeias inocentes de qualquer intenção rebelde e de modo algum cúmplices das depredações de Raisuli.

Por essa razão, achei difícil obter informações exatas sobre o que ocorrera, e o desejo de consegui-las, combinado com a ansiedade de meu cavalariço, persuadiu-me a aproximar-me mais do que talvez fosse aconselhável do cenário da ação daquela manhã. Contornando a colina pedregosa onde Zinat está situada, entrei na planície cortada por pequenas ravinas que se estende ao sul das aldeias e, até chegar a duas milhas do lugar, não encontrei incidente digno de registro. Toda a região estava absolutamente deserta. Não se via uma única pessoa nem uma cabeça de gado.

Foi quando atravessávamos essa planície que, de repente, uma salva foi disparada contra nós por homens escondidos no matagal e entre as rochas de uma pequena colina próxima. A distância era grande e, embora pudéssemos ouvir as balas assobiando sobre nossas cabeças, não creio que alguma tenha passado muito perto. Esporeando os cavalos, afastamo-nos a galope para fora do alcance e puxamos as rédeas sobre uma elevação da planície, no meio de um campo de trigo. Voltando-me para ver o que acontecia, percebi três ou quatro nativos a considerável distância, que haviam tirado os mantos e turbantes e os agitavam, sinalizando para que eu regressasse. Agitar turbantes é sempre, no Marrocos, sinal de “aman”, ou segurança, e portanto esperei pelos homens, que avançavam depressa em nossa direção. Apenas dois se aproximaram, ambos muito conhecidos por mim; quando chegaram ao lugar em que estávamos, desculparam-se abundantemente pelo engano de seus homens ao disparar e imploraram-me que regressasse com eles a Zinat para discutir a situação. Eram homens Anjera das colinas romanas vizinhas, que não estiveram presentes na batalha, mas desceram a Zinat porque a cavalaria irregular levara considerável quantidade de seu gado. Declararam desejar conhecer as intenções do Governo mouro em relação à tribo. Se, disseram, era intenção do Governo atacá-los, estavam prontos para resistir; mas, se as forças mouriscas haviam recebido ordens apenas para capturar Raisuli e haviam saqueado seus bens sem autorização, exigiam a devolução do gado, exigência muito razoável. Acrescentaram que tinham medo de seguir até Tânger para entrevistar as autoridades, receando ser capturados e presos ali, e por isso pediram-me que levasse sua mensagem aos funcionários nativos, como eu fizera muitas vezes antes em ocasiões semelhantes. Sob uma promessa de segurança, prossegui com eles na direção de Zinat, depois de concordar que iria até um lugar próximo das colinas onde três ou quatro chefes da tribo me encontrariam. Foi enquanto seguíamos naquela direção que fui capturado. Atravessávamos uma pequena ravina, coberta de oleandros de flores carmesins, quando de repente descobri que caíra em uma emboscada. Fugir era impossível e, como eu estava desarmado, resistir estava fora de questão. De todos os lados saltaram homens das tribos e, em um ou dois segundos, eu era prisioneiro, cercado por trinta ou quarenta homens, todos armados com rifles europeus. Não recebi tratamento brutal de suas mãos, mas disseram-me que era prisioneiro deles e deveria seguir para Zinat. Ao chegar às matas que cercam as várias aldeias espalhadas pelas colinas de Zinat, mensageiros foram enviados para informar Raisuli de minha captura e, pouco depois, fui levado até ele. Estava sentado sob algumas oliveiras em uma pequena ravina, cercado por seus homens e pelos chefes das tribos vizinhas, que haviam-se reunido ao saber do ocorrido. Raisuli recebeu-me de maneira bastante agradável. Ainda era jovem, de bela aparência, traços e maneiras refinados e voz agradável. Vestia o traje das tribos montanhesas, um manto curto e marrom que cobria suas roupas brancas de linho e descia apenas até os joelhos, com turbante de tecido azul-escuro. Tinha as pernas nuas e usava os chinelos amarelos habituais do país. Depois de uma breve conversa com Raisuli, que me relatou tudo o que ocorrera, ele conduziu-me ao que restava de sua casa, cuja maior parte fora incendiada pelas tropas. Até aquele momento, eu não tinha do que me queixar na atitude dos membros das tribos, mas um grande número deles se reunira nas proximidades, todos ansiosos por vislumbrar o prisioneiro cristão, e não poucos inclinados a exercer sobre mim vingança sumária pela devastação cometida pelas tropas governamentais no lugar. Houve muitas vaias e maldições, mas a influência de Raisuli foi suficiente para que ele conseguisse conduzir-me depressa por entre a multidão, agora muito ameaçadora, enquanto seus próprios seguidores se fechavam ao meu redor e me protegiam dos montanheses. Foi um momento desagradável, pois logo percebi que não existia autoridade alguma sobre aquela reunião de membros das tribos, que naquela época somavam talvez dois mil, embora ao cair da noite esse número provavelmente tivesse duplicado, e que não haveria possibilidade de proteção caso levassem as coisas a extremos. Foi com grande alívio que vi abrir-se a porta de uma pequena sala na parte restante da casa de Raisuli, pela qual fui empurrado. Um instante depois, foi novamente fechada, mas parecia que a multidão do lado de fora a derrubaria. Raisuli, seus homens e cerca de vinte amigos pessoais entre os membros das tribos, contudo, formaram uma barreira diante da porta e conseguiram dissuadir a ralé da intenção de arrastar-me para fora.

A sala em que me encontrei era muito escura, pois a luz entrava apenas por uma pequena janela perto do teto, e levou algum tempo para meus olhos se acostumarem à penumbra. Quando consegui enxergar com maior clareza, o primeiro objeto que atraiu meus olhos foi um corpo deitado no meio da sala. Era o cadáver de um homem morto ali naquela manhã pelas tropas e constituía um espetáculo medonho. Despojado de todas as roupas e horrivelmente mutilado, o corpo jazia com os braços estendidos. A cabeça fora decepada grosseiramente, e o chão ao redor nadava em sangue. Os soldados haviam levado a cabeça em triunfo como troféu de guerra e limpado os dedos ensanguentados nas paredes caiadas, deixando manchas de sangue por toda parte. Contudo, eu não sofreria por muito tempo a companhia do cadáver, pois meia dúzia de homens entrou, lavou o corpo, costurou-o na mortalha e levou-o para o sepultamento; pouco depois, o chão foi lavado, embora não se fizesse tentativa alguma de remover da parede as marcas dos dedos ensanguentados.

Ali permaneci sozinho durante algumas horas, e foi certamente um período de ansiedade. Examinei calmamente a situação e concluí que, apesar do perigo cuja existência eu conhecia, havia muito a meu favor. O fato de a língua do povo me ser quase tão familiar quanto minha língua materna constituía grande auxílio e, entre aquelas tribos montanhesas, eu possuía grande número de amigos pessoais que, acreditava, e corretamente, me protegeriam na medida de suas possibilidades. Infelizmente, poucos de meus conhecidos influentes entre os montanheses haviam chegado, embora, para minha alegria, eu soubesse, pelas conversas dos guardas do lado de fora da porta, que eram esperados durante a noite seguinte. Nesse meio-tempo, decidi fingir ignorância absoluta de qualquer perigo e falar de minha situação como apenas mais uma de uma série de aventuras que vivera no Marrocos e em outros lugares.

Ao pôr do sol, Raisuli e alguns de seus homens trouxeram-me comida, e mantive longa conversa com eles. Raisuli foi cortês e não fez segredo de que pretendia utilizar-me, embora ainda não tivesse decidido de que maneira. Contudo, teve a bondade de informar-me que, caso o ataque das tropas fosse renovado, eu seria imediatamente morto. Sua carreira, disse, estava praticamente terminada, e seu único desejo era causar ao Governo mouro tantos transtornos e tanta humilhação quanto possível; sustentava que não haveria maneira mais fácil de fazê-lo que provocar minha morte. Ao mesmo tempo, porém, prometeu-me que, desde que não se realizasse novo ataque ao lugar, faria o possível para proteger-me. Foi-me permitido comunicar-me com a Legação britânica, mas só soube mais tarde que aquela carta jamais chegou ao destino, embora, na manhã seguinte, eu estivesse em comunicação direta com o ministro de Sua Majestade e, durante todo o cativeiro, nenhuma dificuldade tenha sido colocada em meu caminho para corresponder-me com a Legação britânica.

Durante a noite, chegou um grande contingente da tribo Anjera, entre eles vários homens influentes em cuja amizade eu sentia poder confiar implicitamente; de fato, devo minha libertação, e provavelmente minha vida, em grande parte a esses homens.

Não há necessidade de apresentar os detalhes dos nove dias que passei em Zinat; basta dizer que sofri privações muito consideráveis. Embora nunca tenha sido realmente maltratado, exceto por alguns golpes insultuosos com chinelos e coisas semelhantes, meu desconforto era extremo. Durante aqueles nove dias, jamais pude lavar-me; jamais tirei as roupas, com o resultado de que fiquei coberto de vermes. Certa vez, passei trinta e seis horas sem alimento algum, pois não era possível obtê-lo, já que a aldeia fora incendiada, e durante todo o tempo minha vida esteve ameaçada. Meus amigos fizeram o que puderam por mim, mas pouco podiam fazer. Devia haver cerca de quatro mil membros das tribos presentes, e eles não obedeciam a ninguém, e ninguém exercia autoridade sobre eles. Foi um período difícil, mas minha única possibilidade estava em fingir depositar neles confiança absoluta e, assim, ganhar tempo enquanto prosseguiam as negociações para minha libertação.

Nenhuma palavra de elogio seria suficiente para o grande tato demonstrado por Sir Arthur Nicolson, o ministro britânico, ao conduzir essas negociações. Desde o início, compreendeu as dificuldades para alcançar o êxito e, em todas as relações que manteve com os membros das tribos, demonstrou o maior tato e habilidade. Desde o primeiro momento, advertiu o Governo mouro a não tomar nenhuma providência para negociar com os montanheses e conduziu pessoalmente todo o processo, servindo Mulai Ahmed, o jovem Xerife de Wazzan, de meio de comunicação entre o Governo britânico e os membros das tribos. Essas negociações eram duplamente difíceis porque os montanheses não possuíam chefes reconhecidos e várias tribos estavam envolvidas. Ainda assim, foram conduzidas de tal maneira que, durante todo o processo, os ignorantes e fanáticos membros das tribos depositaram confiança completa na palavra do ministro e, embora tenham ocorrido atrasos, como sempre acontece no Marrocos, jamais houve contratempo grave.

A primeira exigência que me fizeram para minha libertação foi a retirada de todos os ingleses da Corte do Sultão. Naturalmente, tratei-a como absurda e convenci os membros das tribos de que era pura loucura mencioná-la. Seguiram-se outras condições igualmente impossíveis, que também foram abandonadas; e, quando a Legação britânica entrou em comunicação com os membros das tribos, eles haviam reduzido suas exigências à libertação de certo número de prisioneiros tribais encarcerados nas prisões de Tânger e Laraiche.

Em nenhum momento se exigiu resgate em dinheiro, e nisso minha captura diferiu inteiramente das do sr. Perdicaris e do Kaid Maclean, ocorridas posteriormente. Devo essa imunidade a um resgate pecuniário a um traço admirável do caráter daqueles selvagens membros das tribos montanhesas. Minha casa de campo em Tânger ficava a cerca de duas milhas e meia da cidade, na costa marítima, junto à trilha principal que passa entre a tribo Anjera e Tânger. Logo além de meus terrenos, no lado voltado para a cidade, há um rio sujeito às marés, que então, assim como agora, não possuía ponte, mas podia ser atravessado a vau durante a maré baixa. Muitas vezes, os membros das tribos encontravam a maré alta demais para atravessar e eram obrigados a esperar durante longas e fatigantes horas, no inverno às vezes sob escuridão e chuva. Grande número deles eram mulheres e moças que levavam cargas de carvão vegetal ao mercado. Eu sempre estabelecera como regra oferecer abrigo a todos os que o pedissem e construíra um ou dois aposentos para essa finalidade; no inverno, raramente deixava de haver alguns camponeses surpreendidos pela noite dormindo ali. Quando estava frio e chovia, tinham uma fogueira e, com frequência, uma pequena ceia. Pouquíssimo tempo depois de minha captura, surgiu em Tânger a proposta de pagar uma soma muito considerável para minha libertação imediata. Os membros das tribos discutiram-na e recusaram. Decidiram que, no caso de alguém que demonstrara tamanha hospitalidade para com suas mulheres e crianças, e muitas vezes para com eles próprios, não deveria haver questão de dinheiro, e não houve.

Houve um contratempo que ameaçou fazer fracassar nossas negociações e causou algum atraso em minha libertação.

Ficara combinado que doze prisioneiros das tribos, detidos em diversas prisões do Governo mouro, seriam libertados em troca de mim; mas, depois de uma reunião muito concorrida, à qual chegou grande número de novos montanheses, exigiu-se a libertação de mais de cinquenta. A Legação britânica foi notificada e, com toda a razão, opôs-se a esse acréscimo súbito e muito grande. Sir Arthur Nicolson escreveu-me nesse sentido. Antes, porém, de revelar o conteúdo de sua carta, obtive os nomes de todos os cinquenta membros das tribos cuja libertação era exigida e enviei a lista a Tânger, fingindo que ela seria submetida às autoridades para que, caso fosse aceita, se pudessem dar ordens de libertação. Depois que essa carta já estava bem a caminho, comuniquei aos membros das tribos que, em hipótese alguma, seriam libertados mais que os doze prisioneiros originalmente combinados. A princípio tentaram persuadir-me e depois recorreram a ameaças, mas eu estava seguro de minha posição. “Vocês propõem”, disse, “matar-me. Talvez o façam, mas tiveram a bondade de fornecer-me uma lista de todos os parentes que possuem nas prisões mouriscas, cinquenta e seis ao todo, creio. Essa lista está agora em Tânger. Terão a satisfação de matar-me, mas lembrem-se disto: durante cinquenta e seis dias consecutivos, um de seus filhos, irmãos ou sobrinhos será executado, um a cada manhã; e mais, seus corpos serão queimados, e as cinzas, dispersas ao vento. Vocês verão daqui a fumaça”, pois Tânger era visível do lugar onde estávamos. Ora, os mouros acreditam na ressurreição corporal, e queimar um corpo significa privar a alma da ressurreição. Era um blefe magnífico, e senti o maior prazer em utilizá-lo. Eu estava ali sozinho, sentado no centro de um grande círculo de membros das tribos, que praguejavam, amaldiçoavam e ameaçavam, mas sem resultado. Cheguei a explicar que, na religião cristã, não tinha importância alguma o destino dado a um corpo, e ressaltei a consequente perda de cinquenta e seis boas almas muçulmanas, privadas de ir para o céu. Obtive êxito. Os membros das tribos voltaram à exigência original.

Em todas as minhas relações com os mouros, constatei que o europeu inteligente, desde que possua conhecimento completo e absoluto da língua, desfruta vantagem muito evidente sobre o mouro. Possui, na verdade, duas vantagens: a formação hereditária do pensamento e a educação. Em geral, por causa do ambiente e do isolamento, o mouro pensa devagar e, nas muitas situações difíceis em que por vezes me encontrei, sempre confiei em minha superioridade mental sobre o nativo médio. Consegui transformar ameaças em ridículo, provocar risos ou persuadir pela mera superioridade da capacidade de pensar e de expressar os próprios pensamentos. O mouro é muito sensível ao sarcasmo e ao ridículo, e muitas vezes transformei aquilo que parecia prestes a tornar-se um incidente tempestuoso na mais agradável das situações. Quase sem exceção, não portei armas, que frequentemente constituem mais fonte de perigo que de segurança.

A única vez em que deixei meus aposentos em Zinat por mais de alguns minutos foi, poucos dias depois de minha chegada, quando me levaram a uma ravina abaixo da aldeia para mostrar-me o cadáver de um soldado da cavalaria mourisca morto durante o combate. Em vingança pela decapitação do homem de Zinat que fora morto, os membros das tribos haviam mutilado o corpo do soldado. Era um espetáculo medonho. O calor do verão já fizera o cadáver mudar de cor e inchar. Uma maçã fora enfiada na boca do homem, e ambos os olhos haviam sido arrancados.

O corpo nu estava horrivelmente mutilado, e as pontas dos dedos haviam sido cortadas para serem usadas, disseram-me os membros das tribos, como amuletos por suas mulheres. As mãos estavam pregadas ao chão por estacas de cerca de uma jarda de comprimento, atravessadas pelas palmas e encimadas por pequenas bandeiras. Uma coroa de flores silvestres fora entrelaçada ao redor da cabeça do infeliz, e os cães da aldeia já haviam roído parte da carne de uma das pernas. Disseram-me, em tom de brincadeira, que provavelmente eu teria aquela aparência durante os dias seguintes.

Durante todos os nove dias em que permaneci em Zinat, sem dúvida estive sempre em perigo e certamente sempre em grande desconforto; mas aproveitara todas as oportunidades para conquistar para meu lado a amistosa tribo Anjera e, na noite do nono dia, meus amigos estiveram nobremente à altura da ocasião. Cercaram a casa e a aldeia de Raisuli com talvez mil homens, todos armados e preparados, e exigiram que eu lhes fosse entregue, ameaçando que, se isso não fosse feito imediatamente, atirariam em Raisuli ou o prenderiam. Foi um pequeno coup d’état, e teve êxito. No meio da noite, fui arrancado às pressas da pequena sala que dividia com uma dúzia de guardas, colocado sobre o lombo de uma mula e levado por meus amigos daquela tribo para as montanhas dos Anjera. Durante seis horas, seguimos por desfiladeiros e matagal espesso, chegando pouco depois do nascer do sol à aldeia do xeque Duas, um dos mais influentes membros da tribo Anjera. Foi uma jornada que jamais esquecerei: a escuridão da noite sem lua, as ásperas trilhas das montanhas, o silêncio das centenas de homens armados que me acompanhavam e o intenso alívio de saber que, mesmo que meu cativeiro se prolongasse muito, eu estava entre homens que, de qualquer forma, protegeriam minha vida. Eu estava cansado e fraco. Nove dias de tensão constante, sob grande calor, alimentando-me de pão seco de qualidade inferior e água, e tendo durante todo o tempo de fingir que apreciava a situação em vez de demonstrar o contrário, haviam-me exaurido. Mas da amistosa tribo Anjera recebi apenas bondade: cada palavra, cada ato deles era animador e atencioso; e, embora a vida entre eles fosse bastante rude à sua maneira, tenho para com eles uma dívida de gratidão que será difícil algum dia retribuir. Permaneci doze dias na aldeia do xeque Duas, nas montanhas dos Anjera, e durante todo esse período jamais sofri indignidade ou insulto de sua parte ou de seu povo. Uma pequena sala de sua casa foi colocada a minha disposição, e tomaram-se infinitos cuidados para torná-la limpa e habitável. Deram-me o melhor dos alimentos que se podiam obter: leite, queijo cremoso e um mingau rústico de leite azedo e painço. Seus seguidores, pois Duas não está acima de ser um ladrão de gado em grande escala, ajudaram-me a passar o tempo de maneira bastante agradável e, com eles, explorei as montanhas vizinhas e sentei-me à sombra das árvores frutíferas de seus pequenos jardins, ouvindo os músicos locais ou observando os movimentos pouco graciosos de suas dançarinas. Fiz ali amigos cuja amizade sempre valorizarei. Fui tratado como um membro da tribo. Usei suas roupas, raspei a cabeça e adaptei-me a todos os seus costumes; mas, acima de tudo, minha ansiedade terminara, pois eu sabia que estava fora de grave perigo.

Enquanto isso, o ministro britânico, competentemente auxiliado pelo Xerife de Wazzan, conduzia as negociações. Embora eu estivesse agora entre amigos, essas negociações eram delicadas e difíceis, pois a tribo Anjera dera sua palavra às outras tribos envolvidas de que não me libertaria enquanto seus prisioneiros não fossem soltos, e essas outras tribos desejavam constantemente alterar as condições, o que, em razão das distâncias que as separavam, necessariamente significava atraso. O simples fato de eu estar agora a cerca de vinte e sete milhas, uma jornada de um dia, de Tânger prolongava as negociações. Várias vezes pareci estar prestes a ser libertado, mas surgia algum pequeno obstáculo, sem importância, é verdade, e ocorria novo atraso.

Exceto por isso, o tempo passou agradavelmente; a paisagem era encantadora e, embora estivéssemos em pleno verão, o ar era fresco naquela altitude. Pequenos cursos de água corriam em todas as direções, e pude banhar-me e tornar a ficar limpo. Para todos os efeitos, eu tinha liberdade de ir aonde quisesse e, embora estivesse sempre acompanhado por guardas, eles eram tão atenciosos e bondosos que se esquecia de que estavam ali para impedir minha fuga, e todos nos tornamos os melhores amigos. Enquanto isso, o Xerife de Wazzan não poupava esforços. Nenhum sol era quente demais para que viajasse, nenhuma jornada era cansativa demais para que a empreendesse. Comparecia às reuniões tribais e comunicava ao chefe as intenções do ministro britânico quanto aos prisioneiros das tribos, cuja libertação já fora ordenada pelo Sultão. A prontidão de Sua Majestade em atender ao pedido de Sir Arthur Nicolson merecia todos os elogios, pois é preciso recordar que a ação dos rebeldes durante todo o episódio destinava-se a humilhar o Sultão e seu Governo. O que tornava a situação durante meu cativeiro, sobretudo em sua primeira parte, duplamente insegura era o fato de as tribos estarem em comunicação ativa com o Pretendente ao Trono mouro, o líder da rebelião no Rif, e repetidas vezes se propôs que eu fosse enviado a ele como refém útil; e, não fosse minha amizade com a tribo Anjera, amizade de longa data, não tenho dúvida de que essa proposta teria sido executada.

No sábado, 4 de julho, realizou-se uma grande reunião tribal perto da aldeia do xeque Duas e, durante a costumeira discussão que ocorria nessas ocasiões, chegou o Xerife de Wazzan, que naquele dia percorrera as vinte e sete milhas desde Tânger, apesar do calor do sol de julho. Sua chegada oportuna decidiu meu destino, e as negociações foram concluídas, não sem considerável oposição. No dia seguinte, um grande contingente de membros das tribos, o Xerife e eu partimos para Tânger, passando a noite a cerca de doze milhas dali. Mesmo ali se fez uma última tentativa, que quase levou ao derramamento de sangue, para impedir minha libertação, mas felizmente fracassou. Na manhã seguinte, descemos em direção a minha própria casa, que se ergue isolada a cerca de duas milhas e meia da cidade. Em um forte em ruínas, a um quarto de milha de minha vila, fizemos uma parada, e mensageiros foram enviados à cidade com cartas para que o ministro britânico libertasse os prisioneiros das tribos, que durante aproximadamente a última semana estiveram confortavelmente alojados no porão do Consulado britânico, depois de serem trazidos de Laraiche em navios a vapor especialmente fretados. Dentro de uma hora, vimos chegar os dezesseis prisioneiros e, muito pouco depois, eram recebidos pelos amigos. Lord Cranley, o sr. Wyldbore-Smith, o sr. Kirby Green e o sr. Carleton acompanharam os prisioneiros em nome da Legação britânica, mas não houve troca formal. No momento em que os prisioneiros chegaram, eu estava livre para partir, embora as muitas despedidas que precisei fazer de meus amigos montanheses tenham levado algum tempo. Separamo-nos nas melhores relações e, por mais selvagens e ferozes que parecessem os duzentos membros das tribos, não pude deixar de sentir como era grande a dívida de gratidão que lhes devia por me terem libertado dos perigos e desconfortos de meus primeiros dias de cativeiro.

Durante um ano depois dessa aventura, Raisuli permaneceu razoavelmente quieto, mas na primavera seguinte realizou um golpe ainda mais ousado. Cercou durante a noite a vila do sr. Perdicaris e levou consigo tanto o proprietário quanto seu genro. O Governo americano enviou uma frota a Tânger, e o mundo inteiro acompanhou as negociações subsequentes. O sr. Perdicaris e o sr. Varley foram devolvidos à liberdade, mas por que preço! Raisuli exigiu e obteve do Sultão as seguintes condições: que fosse nomeado Governador de todos os distritos nas proximidades de Tânger; que o Governador existente, seu antigo amigo que o traíra, fosse destituído; um resgate de 70.000 dólares; a prisão de todos os seus inimigos e a libertação de todos os seus amigos encarcerados, além de outras concessões de menor importância. O Sultão cedeu, e as condições foram cumpridas. Raisuli viu-se todo-poderoso, herói aos olhos dos mouros e ameaça aos olhos da Europa.

Seus primeiros atos foram bons. Reprimiu a agitação causada pela rebelião de Bou Hamara nas proximidades e abriu as estradas ao tráfego das caravanas; desde que fora nomeado Governador, nenhuma caravana fora roubada dentro dos limites de sua jurisdição. Produziu, de fato, um período de maior segurança que o existente no ano ou nos dois anos anteriores, mas uma segurança dependente de Raisuli era naturalmente duvidosa.

À medida que sua influência aumentava, tornou-se déspota. Espremia o povo submetido a ele e extorquia dinheiro até dos mais pobres entre os pobres. O Maghzen vivia aterrorizado por ele e deixava que percebesse isso, com o resultado de que ele ignorava suas ordens e determinações, e até mesmo os tratados com a Europa. Ameaçava e chantageava até as

autoridades do Maghzen, que reconheciam abertamente sua incapacidade de lidar com ele, e tornou-se ao mesmo tempo o protetor e o flagelo de Tânger e dos distritos vizinhos. Impunha sua autoridade até os próprios portões da cidade, e seus seguidores armados chegavam a entrar na prisão e arrastar para fora homens que não estavam sob sua jurisdição. Seus representantes administravam justiça (!) na praça do mercado e espancavam pessoas até a morte a poucas jardas das Legações francesa e alemã. Em 1906, Raisuli alcançara o apogeu do poder. Em Zinat, bastava dizer a um homem que era prisioneiro, e ele jamais tentava escapar. Não havia necessidade de trancá-lo: sabia que o braço do mestre era longo o bastante para alcançá-lo onde quer que fugisse, e podia-se ver ali todos os dias o estranho espetáculo de dezenas de prisioneiros em liberdade. Raisuli demonstrava todas as qualidades exigidas de um Governador forte no Marrocos, mas infelizmente exagerava. Para ele, não existiam tratados. Os atos dele e de seus representantes nesse período são bem conhecidos. O açoitamento de nativos protegidos, o corte da iluminação elétrica, a chantagem de europeus, a destruição de propriedades, uma longa lista de atos de tirania insuportável.

Por fim, os representantes das Potências europeias já não puderam suportar. Dirigiram uma Nota coletiva ao ministro mouro das Relações Exteriores em Fez, exigindo que se pusesse fim ao estado de coisas impossível existente nos distritos de Tânger. Era quase um ultimato, pois a baía estava cheia de navios de guerra da França e da Espanha, ali para proteger os interesses europeus até a introdução da nova polícia. O Sultão e seus vizires não podiam interpretar mal o significado da Nota. O ministro da Guerra recebeu ordens de seguir para Tânger com todas as forças disponíveis.

No início de janeiro de 1907, as tropas que haviam chegado de Fez estavam acampadas a poucas milhas da fortaleza de Raisuli, aguardando ordens para atacar. Chegou-me a notícia de que esse ataque ocorreria dois dias depois, no sábado, 6 de janeiro; e ainda estava escuro quando, muito cedo naquela manhã, deixei Tânger a cavalo com três mouros de confiança para ver o que pudesse da ação. Eu me vestira com as roupas esvoaçantes de um soldado da cavalaria irregular mourisca, pois sabia que se haviam dado ordens para impedir a aproximação de europeus e também para poder deslocar-me pelo cenário da batalha sem chamar atenção. Antes mesmo de emergirmos para o campo aberto, passamos por nada menos que seis postos avançados, cada qual com cerca de vinte e cinco homens, pois as autoridades do Maghzen haviam tomado grandes precauções para proteger a cidade; mas nem mesmo o ruído dos cascos de nossos cavalos sobre as estradas pavimentadas conseguiu despertar um único homem do sono profundo em que estavam mergulhados dentro das tendas. Ao amanhecer, já estávamos a muitas milhas de distância, mas tínhamos tempo de sobra e cavalgamos devagar, conscientes de que um longo dia nos aguardava; e somente às sete horas, do alto de uma colina baixa, o acampamento das tropas xerifianas tornou-se visível na planície abaixo. A uma milha a nossa esquerda ficava a famosa colina de Zinat, com seus cumes rochosos e precipícios e suas íngremes encostas inferiores descendo até a planície, em alguns lugares salpicadas de olivais. No meio desse cenário erguia-se a fortaleza de Raisuli, um grande edifício irregular, metade forte, metade casa, com janelas distribuídas de maneira desigual pela fachada e, aqui e ali, uma torre ameada erguendo-se acima do restante do telhado, uma construção forte em posição muito forte. Ao longe, atrás de Zinat e diante de nós, erguiam-se os picos mais altos das montanhas Beni Msaour, cadeia após cadeia, até que, delimitando o horizonte oriental, eram superados pelos cumes cobertos de neve de Beni Hassan. Naquele momento, não havia sinais da luta que se aproximava. O gado pastava perto das pequenas aldeias da planície, e uma fina fumaça branca, suspensa pesadamente no ar luminoso, saía dos telhados de palha e das tendas dos habitantes da planície enquanto preparavam o desjejum. Havia algum movimento no acampamento xerifiano e, perto da fortaleza de Raisuli, podiam-se ver seus seguidores caminhando de um lado para outro, enquanto as chaminés fumegantes da casa anunciavam que eles também preparavam o desjejum.

Somente às nove horas a cena mudou. No ar imóvel, ouviu-se claramente uma corneta no acampamento. Devem tê-la ouvido em Zinat, pois de repente, do alto das rochas acima da fortaleza de Raisuli, ergueu-se uma coluna longa e fina de fumaça branca, depois outra e outra e, então, de pico em pico, até onde a vista alcançava, os fogos receberam resposta. Os montanheses sinalizavam uns aos outros que a grande batalha era iminente. No acampamento abaixo de nós, a infantaria formava fileiras, e os cavaleiros montavam; poucos minutos depois, em meio ao rufar de tambores e ao som de cornetas, aos relinchos dos cavalos e ao tremular de estandartes e bandeiras coloridas, as tropas xerifianas marcharam para a planície. Um grito rouco ergueu-se de todas as gargantas: “Ah! salih en-Nebi, Rasoul Allah!”, uma invocação ao Profeta repetida várias vezes e respondida por um brado distante e mais fraco das mesmas palavras, vindo da fortaleza e das rochas de Zinat.

Quando todas as tropas estavam na planície, foram dispostas em formação para o ataque. À direita ficava a artilharia, dois canhões de campanha e duas metralhadoras Maxim, transportados por mulas. Perto deles, em meio a uma profusão de estandartes, cavalgavam o Comandante-em-Chefe e seu Estado-Maior, um grupo de cerca de cem pessoas bem montadas e alegremente vestidas, cujas selas brilhantes, feitas de tecidos e sedas de todas as cores, acrescentavam ainda mais brilho a uma cena já extraordinariamente pitoresca. No centro estavam cerca de oitocentos soldados de infantaria, fortemente apoiados por cavalaria tribal, enquanto à esquerda uma força um pouco menor formava o flanco. O contingente de montanheses leais, usando seus mantos negros curtos, já podia ser visto escalando algumas colinas baixas na extrema direita. Então, lentamente, todo o exército avançou.

Foi um momento de emoção eletrizante. Da colina rochosa onde eu ocupara meu ponto de observação, toda a cena transcorria praticamente a meus pés. À esquerda, a fortaleza e as rochas; à direita, as forças que avançavam lentamente, com o flanco esquerdo a cerca de cem jardas do lugar onde eu estava. Em Zinat não havia sinal de vida, embora, com meus binóculos, eu pudesse ver o brilho dos canos dos rifles nas seteiras da casa e, de vez em quando, entre os precipícios e rochas acima dela. As tropas estavam agora a mil e duzentas jardas, em terreno aberto, mas continuavam avançando lentamente, em sua maioria em formação compacta, oferecendo mesmo àquela distância, grande para os mouros, que são proverbialmente maus atiradores, um alvo excelente. O ar banhado pelo sol estava tão imóvel que cada pequeno som subia intacto da planície abaixo: aqui uma palavra de comando, ali um toque de corneta. Então, de repente, começaram os disparos de Zinat, os rápidos e nervosos estampidos dos rifles Mauser, ainda mais impressionantes porque nada se via, pois não havia um único homem ali que não usasse pólvora sem fumaça. Alguns Askaris foram vistos caindo, mortos ou feridos, e o avanço cessou. Todo o exército respondeu, disparando a uma distância impossível contra um forte sólido e um precipício ainda mais sólido, com rifles que só haviam chegado ao Marrocos muito depois de serem descartados como inúteis na Europa e com pólvora que saía dos canos com aspecto e cheiro desagradáveis. Afinal, pouco importava para onde disparavam, pois poucos ou nenhum jamais haviam manuseado um rifle e nada havia contra o que atirar. Enquanto isso, a cavalaria galopava em todas as direções, exceto para a frente, agitando bandeiras e disparando os rifles, aparentemente contra os abibes-verdes que passavam em bandos, perturbados pelo ruído incomum.

Guerra inepta e impotente, conduzida por homens indisciplinados e sem coragem, cujos uniformes eram a única coisa que os identificava como soldados.

Uma espiral de fina fumaça amarela, alargando-se à medida que subia, ergueu-se das rochas muito acima da casa, o primeiro projétil disparado pela artilharia, seguido por outro e outro, que, embora apontados para a própria casa, caíram em direções muito diferentes, mais de uma vez mais perto das tropas do Maghzen que do inimigo. Durante toda a ação daquele sábado, embora a distância fosse de apenas cerca de mil metros, a casa foi atingida somente duas vezes, e nem mesmo a explosão desses dois projéteis obrigou os defensores a abandonar o telhado plano e as janelas, embora não possam ter deixado de produzir efeito. Enquanto isso, as tropas à esquerda, protegidas pelas rochas, haviam entrado em uma aldeia fora da linha de tiro de Raisuli e a incendiado, e regressavam ao acampamento carregadas de saque, com a impressão de que seu dever do dia terminara. Ninguém tentou persuadi-las a reentrar na luta, e observei-as desaparecer cambaleando sob colchões enormes, baús de madeira pintada, o dote de toda noiva mourisca, e uma infinidade de outros utensílios domésticos. Ao fundo, a aldeia em chamas, cujas labaredas subiam lívidas e rugidoras no ar imóvel antes de se dissiparem em grandes rolos de pesada fumaça branca.

Da uma às duas horas, os disparos diminuíram, mas, à última hora, fez-se nova tentativa de avanço. Toda a linha avançou, mas, a setecentas ou oitocentas jardas de Zinat, rompeu-se e, bem, se não chegaram exatamente a correr, certamente regressaram com muita rapidez. Foi nesse momento que ocorreram dois incidentes pitorescos. Da casa de Raisuli saiu uma mulher que, atravessando o campo aberto sob fogo intenso, subiu sobre uma rocha e dali amaldiçoou as tropas. Jogou para trás seu espesso “haik” e, arrancando os cabelos, agitou os braços em direção ao céu, mas os disparos abafavam sua voz. Então, lenta e majestosamente, envolveu-se novamente no véu e retirou-se. Poucos segundos depois, oito homens, sem dúvida encorajados por sua coragem, correram para o campo aberto, gritando e zombando das forças em retirada, enquanto disparavam seus Mausers. Foi então que o Comandante-em-Chefe caiu ferido no pescoço. Trouxeram uma mula e, sustentado por seu séquito, foi levado às pressas de volta ao acampamento. A essa altura, o exército já gastara todos os projéteis e quase todos os cartuchos. Até mesmo uma força de reserva, escondida no leito de um rio a uma milha na retaguarda, disparava daquela distância contra a montanha desde a manhã, colocando em perigo iminente seus companheiros que avançavam.

O exército retirava-se agora em boa ordem, seguido pelos oito homens de Raisuli, que de tempos em tempos lhes enviavam um tiro de despedida. A batalha de Zinat terminara. O grande esforço do Maghzen fracassara, e a fortaleza e a aldeia, exceto por alguns buracos abertos pelos projéteis, continuavam tão plácidas e pacíficas na aparência quanto estiveram pela manhã. O grande exército xerifiano demonstrara ser, como tudo o mais no Marrocos, com a possível exceção do próprio Raisuli, um blefe gigantesco.

A tarde já estava muito avançada, e o cenário da luta encontrava-se deserto. Subi rastejando por uma pequena ravina até ficar a quatrocentas ou quinhentas jardas da casa e, espiando por entre as rochas, observei longamente com meus binóculos. Sobre a relva verde diante da casa estava um homem segurando um par de binóculos diante dos olhos. De cada lado havia alguns servidores. Permanecia silencioso e imóvel, observando o exército em retirada. Era Raisuli.

Ao amanhecer do domingo, eu estava novamente nas colinas perto de Zinat. Jamais o sol nasceu sobre cena mais pacífica ou de beleza mais serena. Pico após pico, muitos tocados pela neve, tornaram-se cor-de-rosa e dourados quando os primeiros raios do sol nascente atingiram seus cumes. Na própria Zinat, tudo estava tranquilo. Uma pequena fumaça azul, de fogo de lenha, erguia-se das chaminés da casa de Raisuli, diante da qual meia dúzia de montanheses se aquecia em uma pequena fogueira.

Somente às nove horas as tropas deixaram o acampamento e, distribuindo-se em formação muito semelhante à do dia anterior, avançaram pela planície. Mas seu número aumentara, pois reforços haviam sido enviados às pressas durante a noite desde Tânger, e novos contingentes de montanheses leais haviam chegado em força. Ainda mais importante, porém, era a adição de um homem, um oficial de artilharia argelino vinculado ao serviço do Sultão pelo Governo francês, cuja pontaria com os canhões de campanha em Taza e Oujda salvara em grande medida a situação nos dois lugares. Fora intenção do Maghzen enviá-lo no sábado, mas, por ser súdito francês, decidiram não fazê-lo, pois, segundo sua própria avaliação, qualquer pessoa relacionada à França era naquele período alguém a ser evitado. Sua insensatez fez com que perdessem o dia. Se Si Abderrahman ben Sedira estivesse atrás dos canhões no sábado, a casa de Raisuli, e provavelmente o próprio Raisuli e a maioria de seus seguidores, teriam sido destruídos. A prova, caso fosse necessária, é esta: ele causou mais destruição com os dois projéteis disparados contra a fortaleza na manhã de domingo que os cento e trinta tiros disparados no sábado. Pouco antes das duas horas, iniciou-se um avanço geral em direção a Zinat, e os dois projéteis mencionados foram disparados pelos canhões de campanha. Não houve resposta da casa nem das rochas acima. As tropas já estavam consideravelmente mais próximas do que haviam chegado no dia anterior. Percebia-se certa hesitação, pois sem dúvida os soldados imaginavam que lhes permitiam aproximar-se até uma distância fácil e certeira. A esquerda estava bem adiante, conduzida pelo antigo Califa de Raisuli, hoje mais realista que o Rei, seguido de perto por seu contingente da tribo Fahs. Apenas trezentas jardas os separavam agora da aldeia. Com um grito selvagem e uma salva de seus rifles, a cavalaria atacou. Passaram pelo terreno ascendente como um brilhante lampejo de cores e só puxaram as rédeas quando chegaram à porta de Raisuli.

A casa e a aldeia estavam vazias. Então começou uma cena de pandemônio. Askaris, cavaleiros e contingentes tribais lançaram-se sobre o castelo, e teve início a mais desenfreada pilhagem. Outros grupos, concentrados no saque, vasculharam as casas vizinhas. Em poucos minutos, chamas irromperam dos telhados de palha das cabanas ao redor. O fogo se espalhou e, em tão pouco tempo quanto se leva para escrever, toda a aldeia estava em chamas. O vento forte empurrava a fumaça pesada em enormes nuvens pela encosta da montanha e, em meia hora, tudo o que restava de Zinat eram as casas em chamas, acima das quais se erguia a fortaleza de Raisuli, até então apenas ligeiramente danificada. Então a fumaça começou a sair de suas janelas. O telhado, já meio arrancado pelos projéteis, caiu com estrondo; uma parede tombou em nuvens de poeira e, pouco a pouco, a fortaleza transformou-se em ruína inútil. Não se disparou um único tiro da montanha, pois não havia ninguém para dispará-lo. Silenciosamente, durante a noite, Raisuli e seus seguidores, assim como os habitantes das aldeias vizinhas, com todos os idosos, mulheres, crianças, rebanhos e manadas, haviam-se afastado furtivamente pela escuridão, atravessado a planície e seguido para as montanhas. Nenhum guarda fora colocado para vigiar, nenhum golpe fora desferido para impedir que escapassem. Sob as rochas onde eu estava sentado, os soldados, carregados de saque, regressavam. Tapetes, colchões, caixas, vasos de flores artificiais, bandejas e xícaras de chá, sacos de farinha e cereais, rolos de esteiras, todos os bens e utensílios das casas mouriscas formavam suas cargas. Um soldado, gigante de aparência alegre e bondosa, assobiava para um canário em uma gaiola, que levara em preferência a saques mais valiosos.

Quando passei a cavalo pelo alto da colina, no caminho de volta a Tânger, puxei as rédeas por um momento e olhei para trás. O exército deixava Zinat, e as casas incendiadas pouco mais eram que montes de cinzas fumegantes. Além delas erguiam-se as altas montanhas de Beni Msaour, de onde Raisuli e os habitantes de suas aldeias deviam contemplar as ruínas de seus lares.

II

RAISULI estava agora inteiramente proscrito. Vivia nas fortalezas naturais de suas montanhas, onde as tropas do Sultão jamais poderiam sequer tentar penetrar. Dali espalhava alarme para todos os lados, provocando medos e pânicos constantes, mesmo entre os europeus de Tânger.

Toda a situação no Marrocos fervilhava. As tribos haviam-se tornado, para todos os efeitos, independentes, e muitas abandonaram toda aparência de obedecer às ordens de seus Governadores ou pagar impostos. As mais vulneráveis, por sua posição geográfica ou fraqueza numérica, eram perseguidas e espremidas para compensar a inadimplência das outras. A rapacidade dos vizires era maior que nunca, e as extravagâncias do Sultão pareciam ter aumentado com a nova provisão de dinheiro que um empréstimo estrangeiro mal aconselhado colocara, um ou dois anos antes, a sua disposição. Bou Hamara, o Pretendente, no Rif, e Raisuli, entre as tribos montanhesas, eram os dois principais espinhos no flanco do Maghzen. Nada se podia fazer contra Bou Hamara, que afirmava ser o irmão mais velho do Sultão. Permanecia nos inacessíveis territórios tribais do Rif, onde governava como um pequeno Sultão; até as autoridades espanholas, que esperaram muito tempo para vê-lo expulso, acabaram obrigadas a estabelecer relações com ele para garantir a segurança de seus “Presidios”. É certo que Bou Hamara e Raisuli se comunicavam, mas havia pouco respeito e pouca confiança entre eles e, exceto pela troca de cartas, não parece ter existido qualquer pacto de importância real ou prática. Ainda assim, fica claro que suas relações eram cordiais pelo documento original em minha posse, selado por Bou Hamara com seu grande Selo de Estado, pelo qual ele nomeia Raisuli Governador de certas tribos montanhesas. Nesse Selo de Estado, Bou Hamara usa o título de “Mohammed ben Hassen”, reivindicando assim ser Mulai Mohammed, o filho mais velho de Mulai Hassen e, portanto, irmão mais velho do Sultão reinante.

Raisuli não tinha pretensão alguma ao Sultanato, embora, aos olhos da Europa, desempenhasse papel mais importante, pois suas principais atividades se concentravam nos distritos de Tânger, a capital diplomática do país.

Em 1906, aquela inútil Conferência de Algeciras, inútil, isto é, na medida em que produziu algum efeito benéfico no Marrocos, reunira-se, discutira, assinara e se dispersara. Sem dúvida esclarecera a situação para a Europa e representara um revés para a Alemanha; mas o pobre Marrocos ganhou pouco, de fato, ela marcou mais um passo em seu caminho para a ruína. Provavelmente jamais semelhante reunião de diplomatas, cujos títulos pomposos ocupam as primeiras páginas daquele insignificante livrinho amarelo que contém os resultados de seus trabalhos insignificantes, assumiu ares de tamanha importância. Durante dias, discutiram as questões da importação de armas esportivas e do raiamento dos canos com toda a pompa dedicada aos assuntos da mais grave importância, para depois passarem às regras de distribuição de encomendas postais. Três ou quatro homens disputavam uma grande partida, representantes da Inglaterra, da França e da Alemanha, e jogaram bem. A vitória ficou com os dois primeiros. Os demais eram marionetes, mas não perceberam. Realmente acreditavam, ou pareciam acreditar, que seus esforços prestavam serviço ao país sobre o qual poucos sabiam alguma coisa além da vista distante que podiam obter das colinas acima de Algeciras.

O norte do Marrocos estava em sua pior situação no ano seguinte à assinatura do Ato de Algeciras, e até o amante dos prazeres Mulai Abdul Aziz percebeu que os acontecimentos se tornavam graves. Decidiu iniciar negociações com Raisuli. Para isso, o Kaid Maclean entrevistou-se com o chefe dos bandidos em abril de 1907. Raisuli ouviu as propostas do Kaid, mas recusou-se a acompanhá-lo a Fez, onde o Sultão então residia. Contudo, dera-se um passo em direção a um possível acordo. Um mês depois, munido da autoridade do Sultão, o Kaid Maclean regressou a Alcazar, cidade situada na estrada entre Tânger e Fez, a cerca de sessenta milhas da primeira. Nesse meio-tempo, porém, vazara a informação de que Raisuli tentaria capturar esse importante funcionário. O Sultão, que também recebera a notícia, e a Legação britânica fizeram todos os esforços para cancelar a entrevista, e o Agente Consular britânico em Alcazar recebeu instruções nesse sentido para prosseguir as negociações. Uma entrevista secreta com Raisuli foi organizada para ocorrer nos limites dos territórios da tribo Ahlserif, a poucas milhas de Alcazar. Ali se encontraram essas duas personagens. As propostas do Sultão foram comunicadas a Raisuli, que fingiu aceitá-las e estar disposto a regressar a Fez com o Kaid. Partiria imediatamente, disse, e, se o Kaid o acompanhasse até a aldeia onde seu acampamento estava armado, seguiriam viagem no dia seguinte. O Kaid concordou e entrou nas montanhas com seu anfitrião, mas não houve partida no dia seguinte, pois descobriu ser prisioneiro e permaneceu em cativeiro por cerca de sete meses, sofrendo privações consideráveis.

De todas as negociações para obter a liberdade dos prisioneiros de Raisuli, essas foram as mais difíceis. As condições exigidas por Raisuli eram absurdas, e cerca de vinte pessoas pareciam negociar por conta própria, enquanto o próprio Kaid fazia o máximo, muito naturalmente, para conseguir a libertação. O resultado foi confusão e mal-entendidos, e a distância de Tânger em que Raisuli mantinha o cativo aumentava as dificuldades. Se todo o assunto tivesse sido deixado nas mãos de Sir Gerard Lowther, que naquele período representava competentemente a Inglaterra no Marrocos, é provável que a libertação do Kaid Maclean tivesse sido obtida mais depressa. Mas, em todas as ocasiões em que uma solução parecia próxima, alguma proposta inteiramente nova, vinda de fontes não autorizadas, frustrava os planos oficiais. Por fim, Raisuli obteve 20.000 libras e foi declarado súdito sob proteção britânica; havia ainda outras condições menores. O Kaid Maclean foi libertado. O único aspecto agradável de todos esses casos de banditismo era a confiança absoluta que Raisuli sempre depositava na palavra do Governo britânico, das autoridades britânicas e, na verdade, de todos os britânicos.

Alguns anos depois desse acontecimento, quando o ex-Sultão Mulai Abdul Aziz, que acabara de abdicar, visitava minha vila em Tânger, mostrei-lhe dois documentos árabes. Um deles era seu “Dahir” original para a nomeação de Raisuli como Governador das tribos, que o bandido extorquira como parte do resgate de Perdicaris; o outro era a nomeação de Raisuli como Governador das mesmas tribos, trazendo outro grande Selo de Estado, o do Pretendente Bou Hamara. Mulai Abdul Aziz perguntou-me como eu entrara em posse dos dois documentos. Contei-lhe. O “Dahir” do Pretendente eu encontrara, durante meu aprisionamento, em um armário secreto de um aposento da casa de Raisuli em Zinat. Carregara-o, costurado dentro de minhas roupas, com outra correspondência igualmente interessante, durante todo o período de meu cativeiro. O firman do próprio Sultão eu obtivera no dia em que a casa de Raisuli fora saqueada pelas tropas do Maghzen, pitoresco incidente ao qual eu estivera presente.

O ex-Sultão sorriu. “Parece”, disse com certo cinismo, “não haver nada de interessante no Marrocos que não tenha chegado a seu conhecimento ou a suas mãos; nada que não lhe tenha sido dado, ou que não tenha adquirido?”

“A mais valiosa de todas as coisas foi-me dada”, respondi.

“E qual foi?”

“A amizade de Vossa Majestade.”

Foi nesse período, enquanto vivia como proscrito nas montanhas, que Raisuli quase realizou sua captura mais importante. O incidente foi mantido em grande segredo na época, mas vazou para a imprensa francesa pouco depois. A verdade era que nós, europeus que desempenhamos um papel, e quase desempenhamos um papel muito grave, na história, não desejávamos publicidade.

Os fatos foram os seguintes. As ruínas da fortaleza de Raisuli em Zinat ficavam a apenas cerca de quatorze milhas de Tânger e constituíam uma excursão tentadora, mas que ninguém empreendia, pois era notoriamente perigosa. Contudo, à medida que o tempo passava sem que nada ocorresse nas proximidades de Tânger para perturbar a tranquilidade, e como Raisuli e seu bando pareciam haver fixado residência permanente nas montanhas, a considerável distância do cenário de suas antigas atividades, decidiu-se realizar um piquenique em Zinat, e fui convidado. Os outros integrantes de nosso grupo eram Sir Gerard Lowther, então ministro britânico no Marrocos, Monsieur e Madame de Beaumarchais, da Legação francesa, e o sr. Christopher Lowther, filho do Presidente da Câmara dos Comuns. Eu era o quinto membro do grupo.

Certa manhã quente de verão, partimos a cavalo, tendo enviado o almoço com antecedência. Ao nos aproximarmos de Zinat, fomos chamados por um camponês que arava seus campos. Cavalguei até ele para descobrir o que desejava e fui informado de que o bando de Raisuli regressara a Zinat, aparentemente para retirar algum tesouro que, por estar enterrado, escapara à pilhagem dos soldados quando o castelo fora destruído. Ele aconselhou-nos a não prosseguir. Discutimos a notícia e, na insensatez de uma excursão agradável, decidimos continuar, pois o almoço já seguira adiante. Nada poderia superar a tranquilidade da cena quando chegamos, e logo almoçávamos sob a sombra das oliveiras. Confesso que, em meu caso, o prazer do foie-gras estava misturado a certa apreensão nervosa da qual os outros pareciam imunes. Não acreditávamos, ou fingíramos não acreditar, na história do regresso dos bandidos de Raisuli.

O almoço estava quase terminado quando o brilho do cano de um rifle no matagal espesso atraiu meu olhar, depois outro e mais outro entre as rochas, pois a colina de Zinat é uma encosta selvagem e abrupta, formada por massas quebradas de rocha e vegetação rasteira. Um minuto depois, estávamos cercados. Os homens eram perfeitamente corteses e, para todos os efeitos, pareciam ter vindo apenas desejar-nos um bom-dia. À frente deles estava o jovem e belo Ahmed el-Aoufi, segundo em comando de Raisuli, amigo pessoal meu, que me demonstrara considerável bondade durante meu cativeiro entre os bandidos em 1903. Apertou calorosamente nossas mãos e, com o rifle entre os joelhos, sentou-se para conversar. A poucas jardas de distância, formando um círculo completo ao nosso redor, estavam trinta ou quarenta de seus homens.

Confesso que situações como essa me exaltam. Detesto derramamento de sangue e encontros ruidosos, mas uma situação delicada possui um sabor único e, céus!, aquela era uma situação delicada. O ministro britânico e o encarregado de negócios francês, que golpe! Eu era o único integrante do grupo que falava árabe, e a ansiedade que os demais devem ter sofrido durante a hora ou as duas horas seguintes deve ter sido extrema. Ainda assim, ninguém deu o menor sinal. Vi muitas vezes grandes exemplos de autocontrole, mas creio que jamais algum maior que naquela ocasião. Lembrem-se de que meus amigos não compreendiam nada do que eu dizia, exceto que, de vez em quando, eu recorria a eles para que confirmassem minhas afirmações. Para mim, a situação era muito emocionante. Se, afinal, eu fosse capturado, seria apenas aquilo que já acontecera antes, e eu estava acostumado às aventuras e às privações, mas, para os outros! E eu não conseguia deixar de pensar nas condições, provavelmente impossíveis, que Raisuli exigiria para libertá-los, e nas possíveis consequências! Descobri em ocasiões como essa, pois não era de modo algum a única situação apertada desse gênero em que me encontrara, que não apenas existe uma espécie de exaltação, mas também que a capacidade de concentrar o pensamento se torna mais intensa. Por menos auspiciosos que sejam os arredores concretos, sente-se e sabe-se que a superioridade mental pertence ao europeu e que a formação hereditária do pensamento e a educação lhe são muito úteis. O mouro não é tolo; é ardiloso e astuto, mas sua mente não é treinada, e ele é confiante ao lidar com europeus. Nos primeiros instantes de nosso encontro em Zinat, compreendi que nossa segurança dependia do jogo que eu estava decidido a jogar, e que joguei com êxito.

Comecei com uma mentira enorme. Segurando a mão de El-Aoufi, disse-lhe que estava encantado por vê-lo e que sua visita era muito oportuna, na verdade, nada poderia ter sido melhor. Depois, fiz com que se sentasse e conversei seriamente com ele e com seus principais companheiros. Foi nesse momento que Madame de Beaumarchais, com o admirável sangue-frio de uma francesa talentosa e corajosa, tirou uma fotografia. O homem com quem eu conversava era Ould el-Aoufi; o europeu sentado logo atrás de mim era o falecido Sir Gerard Lowther.

A história que lhes contei foi a seguinte. Recordei-lhes que Raisuli fora afastado do Governo de Tânger e das tribos vizinhas por exigência das Potências europeias. Elas haviam agido imprudentemente, tinham percebido isso e agora lamentavam sua atitude. “Sabem”, perguntei, “quem são estas pessoas que estão aqui hoje?”

“Não temos certeza”, responderam.

“Então eu lhes direi”, e disse. Em vez de, como pareceria natural, tentar ocultar a identidade de meus distintos amigos, lancei-me em afirmações exageradas sobre sua importância. Percebi que causara impressão. Minha audiência estava agora inteiramente perplexa.

“E por que estão aqui?”, perguntei. “Escutem, e eu lhes direi. As Potências da Europa lamentam a destituição e a desgraça de Raisuli. Desejam que seja reconduzido, mas o Sultão se recusou. As Potências insistem e, como o Maghzen ainda resiste, os Governos da Inglaterra e da França telegrafaram a seus representantes, os cavalheiros que veem aqui hoje, instruindo-os a visitar o cenário das depredações cometidas contra o castelo de Raisuli e tomar todas as providências necessárias para reconstruí-lo o mais depressa possível, para que Raisuli possa ser restituído ao que lhe pertence e novamente introduzir a lei e a ordem na região. Para esse fim viemos hoje, contra o conselho de todos os nossos amigos, para que o trabalho possa ser iniciado de imediato. Enquanto isso, está sendo redigida a carta convocando Raisuli de volta das montanhas.” Acrescentei então: “Fomos avisados no caminho de que os encontraríamos aqui e aconselhados a regressar, mas disse às pessoas que nos advertiram que os homens de Raisuli compreenderiam perfeitamente nossa missão, e que bela encrenca teriam

[Fotografia de Madame de Beaumarchais. O AUTOR, EL AOUFI E OS BANDIDOS DE RAISULI.

[Fotografia de Madame de Beaumarchais.

O AUTOR MEDINDO AS MURALHAS DAS RUÍNAS DA

CASA DE RAISULI. (O europeu de pé ao fundo é o falecido caso capturassem exatamente os homens que insistem em restituí-lo à antiga grandeza, conseguir a devolução de todos os seus bens confiscados e até reconstruir o castelo às custas dos Governos que representam. Gostaria de ver seu rosto, meu amigo Ahmed el-Aoufi, depois que Raisuli descobrisse a ‘gaffe’ que você cometera; e, se conheço seu chefe, amigo e confidente como você é, posso imaginar as vergastadas que ele aplicaria em suas costas nuas. Acha que, se não fôssemos realmente seus benfeitores, teríamos sido tolos o bastante para aventurar-nos neste ninho de vespas? Agora, levante-se”, gritei, erguendo-me, “e veremos o que podemos fazer com estas ruínas.”

Segui à frente até as ruínas e, durante a hora seguinte, medi paredes, tomei notas sobre os preços locais de pedreiros e carpinteiros e sobre as possibilidades de obter tijolos no próprio lugar, propus um novo abastecimento de água que as leis da gravidade tornavam inteiramente impossível e até sussurrei ao ouvido de El-Aoufi que haveria dinheiro para construir-lhe uma pequena casa ao lado da de seu chefe. Chegamos à conclusão de que, por uma soma entre 12.000 e 15.000 libras, considerando-se que Raisuli poderia obter uma oferta abundante de trabalho forçado e todo o material que desejasse, a casa poderia ser restaurada com esplendor ainda maior que o original.

Outra fotografia tirada por Madame de Beaumarchais retrata-nos medindo a passos o comprimento das muralhas da casa.

Com meu caderno cheio de números, tornei a sentar-me e ditei a El-Aoufi a seguinte carta, que ele escreveu: “Ao confiável e muito amado Xerife, o erudito Mulai Ahmed er-Raisuli, que a paz e a misericórdia de Deus estejam convosco; e, agindo conforme as instruções de seus Governos, das quais a carta que vos enviei ontem terá dado todos os detalhes, o ministro britânico e o encarregado de negócios francês visitaram as ruínas de vossa Kasbah. Entristeceram-se muito ao ver seu estado lastimável. Como tereis sabido pelo conteúdo de minha carta, é intenção de seus Governos não apenas restituir-vos ao poder, mas também reconstruir vosso castelo. Hoje estamos em Zinat e tivemos a boa sorte de encontrar vosso fiel e inteligente representante, meu senhor Ahmed el-Aoufi, e vossos seguidores, que nos foram de grande utilidade, nos mostraram muitas coisas que nos auxiliaram e nos guardaram em segurança e paz contra quaisquer pessoas más que pudessem estar pelas proximidades. Somos gratos. E meu senhor Ahmed el-Aoufi vos contará muitas coisas que, em nossa amizade por vós, lhe confiamos. Aguardaremos em Tânger uma resposta à carta que vos enviei ontem, na qual expliquei plenamente essas questões, e, imediatamente depois de recebida a resposta, serão tomadas providências para iniciar a restauração de vossa Kasbah; mas confiamos que não esperareis sua conclusão para regressar a vossa antiga posição, pois qualquer demora apenas prolongará o estado insatisfatório dos assuntos atualmente existente e dará continuidade ao nervosismo da população de Tânger e à opressão do pobre povo do campo. Meu senhor El-Aoufi vos contará tudo. Que a paz esteja convosco.”

Coloquei minha assinatura nessa epístola e não senti uma única pontada de consciência, nem a senti desde então. Raisuli e eu havíamos jogado muitas partidas, só que aquela era um pouco maior que as outras. Para dizer a verdade, longe de sentir-me culpado, deleitei-me literalmente com meu engano.

Era hora de regressar a Tânger, e confesso que estava nervoso. Propus a El-Aoufi que os outros partissem primeiro e que eu permanecesse por algum tempo e os alcançasse na estrada. Eu queria passar, disse, mais algum tempo em sua companhia, prazer tão raro e tão valioso.

Com um suspiro de alívio, vi o restante de nosso grupo montar. El-Aoufi apertou a mão de todos e agradeceu-lhes pela visita, e eles se afastaram lentamente a cavalo. Meus receios haviam terminado.

Permaneci sentado durante meia hora e expliquei a El-Aoufi que Raisuli já teria recebido minha carta, inteiramente imaginária, do dia anterior, que explicava toda a situação, e que, quando ele regressasse a seu chefe nas montanhas, a uma jornada de seis ou oito horas adiante, encontrá-lo-ia plenamente informado. Ele, El-Aoufi, devia ter cruzado com minha carta no caminho, acrescentei. Não encontrara o mensageiro, cujo nome lhe dei? Não! Bem, então ele devia ter seguido outra trilha. Meus amigos não passavam agora de pequenos pontos negros muito distantes na planície. Levantei-me e abracei El-

Aoufi e, segundo o costume do país, beijamos os ombros um do outro. Trouxeram meu cavalo e, descendo lentamente a encosta a meio galope, afastei-me em direção a Tânger.

Apesar da série deliberada de falsidades de que me fizera culpado durante aquelas poucas horas, jamais me senti menos atormentado pela consciência, e talvez jamais mais feliz, em toda a vida.

Vi Raisuli muitas vezes desde o incidente. Depois de um combate de experiência, referiu-se a El-Aoufi como um leão de coragem.

“Não havia criatura mais nobre no mundo de Deus”, respondi, “que o leão, mas às vezes o chacal astuto o engana.”

Percebi um pequeno lampejo nos olhos de Raisuli, mas ele respondeu com languidez: “Na verdade, o chacal é um animal impuro.”

Sir Gerard Lowther, os Beaumarchais, Christopher Lowther e eu jantamos juntos na noite de nossa aventura, mas não falamos muito sobre ela. Nossa gratidão por termos escapado só era igualada pela compreensão da enorme insensatez de termos empreendido a expedição. Concordamos que, se possível, o incidente deveria permanecer secreto, mas poucas semanas depois o Temps publicou toda a história, que vazara de fontes nativas e chegara a Paris.

Eu gostaria de ter presenciado o encontro entre Raisuli e El-Aoufi quando este lhe relatou o incidente e entregou minha carta. Caiu em desgraça por algum tempo, como era de esperar, mas veio visitar-me em Tânger poucos meses depois. Não mencionamos a visita a Zinat, mas discutimos assuntos mais gerais. Falando das boas e más qualidades da humanidade, El-Aoufi disse: “A coisa mais degradante do mundo é a falsidade”, e disse isso de maneira bastante desagradável.

“Em minha opinião, existe algo ainda mais humilhante”, respondi.

“E o que seria?”

“Ser feito de tolo.”

Mas nos separamos como os melhores amigos.

III

EMBORA, como já deve ter sido compreendido, minhas relações com Raisuli tenham sido variadas e aventureiras, não lhe guardo rancor; e creio que ele sempre me considerou amigo e espero que ainda o faça. Em suas visitas a Tânger, passou muitas vezes horas seguidas em minha casa, discutindo as numerosas situações do país e as diversas atitudes das tribos montanhesas. Perdera boa parte da bela aparência anterior, pois se tornara pesado e corpulento, e sua expressão talvez fosse mais cruel. Era sempre cortês e geralmente divertido, muitas vezes de maneira muito sarcástica e cínica. Estava cheio da própria importância e parecia compreender que era singular, o que, talvez felizmente, certamente era.

Em certa ocasião, enquanto estava em minha casa, viu dentro de uma vitrine um Alcorão iluminado de considerável valor artístico, tanto pela antiguidade quanto pela beleza. Ora, os mouros não suportam ver seus livros religiosos em posse de europeus e, sem mais cerimônias, Raisuli retirou o livro da vitrine, beijou-o reverentemente, envolveu-o com cuidado em um lenço de seda e colocou-o nas mãos de um de seus escravos.

Não explicou sua atitude, que, afinal, não necessitava de explicação. A conversa seguiu por outros assuntos, e ele nem sequer mencionou o livro. Pouco depois partiu, e meu Alcorão também.

Eu possuía dois desses Alcorões, mas o que Raisuli levara era de longe o mais belo, do ponto de vista de um colecionador. O segundo exemplar era, contudo, mais novo e tinha cores mais brilhantes e certamente pareceria, aos olhos de um mouro, uma aquisição mais desejável, pois para eles a antiguidade tem pouca importância. Raisuli não vira esse segundo exemplar.

No dia seguinte, enviei-lhe um de meus mouros com o volume, envolto em seda, para perguntar se estaria disposto a devolver-me o que levara em troca daquele exemplar mais novo e muito mais bem conservado. O primeiro, informei-lhe, talvez sem inteira exatidão, possuía para mim um grande interesse pessoal, e implorei-lhe que aceitasse o segundo e me devolvesse o mais antigo. Insinuei que o segundo era um livro muito superior. Meu homem regressou cabisbaixo e triste. Sua missão fracassara. Trouxe-me muitas mensagens amistosas de Raisuli, mas nenhum livro, nem o primeiro nem o segundo, pois Raisuli conservara ambos. Era exasperante, mas nada havia a fazer além de jurar que acertaria as contas com ele em ocasião futura.

Certa manhã, cerca de um mês depois, mandei pedir-lhe que me emprestasse duas mulas de montaria com suas selas, para que alguns amigos meus fossem a um piquenique, boas mulas de passo, pois meus amigos não estavam acostumados a cavalgar. Meia hora depois, chegaram duas mulas excelentes, ajaezadas com ricas selas vermelhas, conduzidas por escravos de Raisuli. Eu próprio as coloquei em meu estábulo e tranquei a porta. Mandei então dizer a Raisuli que, quando recebesse meus livros, ele poderia receber suas mulas. Um de seus secretários regressou com meu mensageiro e, depois dos cumprimentos habituais, informou-me que seu mestre o instruíra a dizer que os livros eram inestimáveis e que não poderia devolvê-los. As mulas eram minhas, acrescentou; na verdade, tudo o que Raisuli possuía era meu, exceto, naturalmente, os livros, e, caso eu necessitasse de mais mulas ou cavalos, ele poderia enviar-me quantos eu desejasse. Poderia facilmente fazê-lo: possuía dezenas e dezenas, quando não centenas, quase todos confiscados ou extorquidos do povo do país. Nada lhe custaram para adquirir e, portanto, pouco lhe custariam para dar.

Minha consciência acusou-me. Meu pequeno estratagema parecia tão mesquinho ao lado daquela digna magnificência e generosidade de Raisuli. Ofereci-me para devolver as mulas, mas ele se recusou a ouvir falar nisso. Continuaram em meus estábulos, e minha amizade com o antigo proprietário prosseguiu sem diminuição nem mudança. Via-o com frequência. Desde o episódio do Alcorão, os livros jamais foram mencionados entre nós; agora as mulas também foram incluídas no Índex. Nunca, direta ou indiretamente, em nossas conversas, fizemos referência ao assunto. Minha captura também jamais foi mencionada. Apenas uma vez um europeu sem tato

falou, na presença do chefe dos bandidos, sobre eu ter permanecido algum tempo em sua fortaleza de Zinat. Com um sorriso agradável, Raisuli interrompeu: “Minha casa está sempre à disposição de meus amigos.” A hospitalidade é inata no caráter mouro.

A troca de presentes era muito praticada no “antigo” Marrocos, mas hoje felizmente está desaparecendo. Era sempre uma grande inconveniência. Muitas vezes alguém dava algo que realmente desejava conservar, e era tão difícil substituir qualquer coisa, e recebia em troca alguma aquisição perfeitamente inútil. Regressei a Tânger depois de uma longa jornada pelo interior com meia dúzia de cavalos novos, em sua maioria nem bons nem ruins. Eu não poderia montar todos, e eles eram apenas uma despesa e um luxo muito incômodos. A princípio, e durante muito tempo, hesitei em adotar o costume do país e entregá-los como presentes a outra pessoa. Eu tinha a sensação de que os presentes eram “sagrados” e deveriam ser conservados a todo custo, e de que o doador ficaria magoado ao saber que sua oferta fora passada adiante. Com o tempo, porém, descobri que o doador não se importava minimamente com o destino dado aos presentes nem tornava a pensar neles.

Certa vez, um dos vizires deu-me um colar de âmbar feito de contas transparentes lapidadas. Disse que o Sultão lhe dera o colar e que Sua Majestade o recebera de um alto funcionário da capital meridional. Alguns anos depois, ofereci-o como presente de casamento a uma jovem europeia prestes a casar-se e descobri que fora o pai dela quem o levara ao Marrocos, por parecer muito mais caro do que realmente era, e o dera a um dos Governadores tribais em troca de outra coisa. Viajara por todo o Marrocos, mas por fim regressara ao lugar de onde partira, sem encontrar reconhecimento algum. Rimos da história do colar, e a jovem recebeu outro presente em troca. Minhas contas de âmbar adornam agora o belo pescoço, caso ela alguma vez as use, de uma senhora bela e distinta muito distante do Marrocos.

Meus estábulos estavam muitas vezes cheios a ponto de transbordar e constituíam enorme esforço para meus recursos, até que endureci o coração e comecei a dar os cavalos à medida que chegavam. Infelizmente, porém, as autoridades mouriscas não queriam cavalos, pois já possuíam cavalos demais. Não, era o relógio de alguém, a espingarda de caça, um rifle esportivo, um barômetro ou binóculos de campanha que sempre desejavam, algo raro e impossível de obter ou substituir no país. Tampouco terminavam as dificuldades quando a troca de presentes se concluía, pois havia as inúmeras gorjetas que precisavam ser dadas. Um cavalo era trazido, conduzido por um escravo e acompanhado pelo chefe dos estábulos e por dois cavalariços, e todos precisavam ser satisfeitos. Depois, provavelmente, o filho do doador visitava meu acampamento e manifestava súbito e intenso desejo de possuir minha espingarda ou a corrente de meu relógio; e, quando partia, talvez satisfeito com um presente menos caro retirado de uma caixa de objetos levados para esse fim, chegava o secretário de seu pai para desculpar-se pela grosseria do filho e dizer que seria castigado pelo pai por ter ousado pedir alguma coisa. Cantava os louvores do cavalo que eu acabara de receber. Depois adotava um tom de tristeza. Era um homem pobre; tivera problemas. Não teria contado a outra pessoa, nem se os dentes de leões lhe dilacerassem as entranhas; mas sentia que o vínculo de solidariedade entre nós era tão íntimo que... e então vinha uma longa história, naturalmente inteiramente falsa, sobre a mesquinhez de seu patrão, o salário não pago e assim por diante. Já não conseguia guardar o segredo, precisava contá-lo e, com lágrimas nos olhos, implorava por uma soma em dinheiro, geralmente bastante modesta. Contudo, sempre havia espaço para negociação, e suas exigências diminuíam até que, por fim, partia com algumas moedas em um êxtase de gratidão fingida. Aceitar a hospitalidade dos grandes chefes era apenas um pouco menos caro, e uma noite de entretenimento oferecida por algum dignitário ou Governador de tribo era muitas vezes cansativa e dispendiosa. Significava uma sucessão de visitas ao acampamento por uma multidão de curiosos, a maioria dos quais desejava alguma coisa. Havia também os guardas, designados especialmente para afastar essas pessoas curiosas, mas que, na verdade, apenas aumentavam seu número. Esses guardas esperavam pagamento pelos deveres que fracassavam de modo tão evidente em cumprir. Depois, grandes quantidades de alimentos eram enviadas pelo alto funcionário, galinhas vivas, um carneiro vivo, pães de açúcar, pacotes de chá, cevada para os cavalos, e essas mercadorias, fornecidas em abundância tão extravagante quanto incômoda, exigiam em troca gorjetas intermináveis. Eram necessários três homens, por exemplo, para conduzir o carneiro e um escravo para carregar cada galinha, e todos esperavam suas pourboires antes de partir. Depois, na hora do jantar, geralmente tão tarde que já era quase meia-noite, chegavam grandes travessas de alimentos cozidos, que eram excelentes, e provavelmente o próprio grande homem e alguns membros de sua casa convidavam-se para o jantar que haviam fornecido com tanta abundância. Quase sempre era muito cansativo, e sempre muito tarde quando se conseguia dormir. De vez em quando, era bastante agradável, e recordo com prazer muitas e muitas noites passadas desse modo, em banquetes com os grandes homens do país. Nenhum alimento era desperdiçado, pois o carneiro e as galinhas eram mortos, e os servidores e escravos vinham ajudar na cozinha do acampamento, trazendo grandes panelas e recipientes de barro para o preparo dos alimentos, e permaneciam sentados, cantando e comendo durante toda a noite. Nos limites do acampamento reuniam-se os pobres, e estes jamais eram esquecidos.

Viajei pela China e pelo Japão, pela Pérsia, Arábia e Abissínia, e por muitas partes do norte da África, Turquia Asiática e Síria, mas o “antigo” Marrocos era de longe o lugar mais caro para viajar. Não havia absolutamente nenhuma instalação, nenhum caravançará onde se pudesse alojar, e todo o alimento, e às vezes a forragem e o combustível, precisava ser levado. Nada além de carneiros e galinhas podia ser

[Fotografia do autor. MINHA CARAVANA ATRAVESSANDO O ATLAS. comprado pelo caminho; até mesmo o pão precisava ser transportado ou preparado no acampamento. A compra ou o aluguel de animais de caravana era sempre oneroso e, às vezes, exorbitante. As gorjetas eram excessivas. Somente nas cidades muito distantes umas das outras era possível reabastecer qualquer provisão e, nas cidades do interior, além de chá, açúcar e velas, não se podia obter mais nada. Na primavera, era possível comprar manteiga, mas, mesmo quando se encontrava em outras épocas do ano, era sempre o “smin” conservado, com sabor e cheiro fortes. Até hoje, jamais descobri a razão que tornava as viagens tão difíceis e tão caras. O mau Governo sem dúvida tinha muito a ver com isso, pois não apenas não havia incentivo algum para que o povo prosperasse e criasse animais, como, ao contrário, ser rico ou mesmo razoavelmente próspero tornava o nativo sujeito à prisão, ao confisco dos bens e talvez ao desaparecimento completo. Ainda assim, o mouro sempre foi econômico, disposto a dedicar-se ao trabalho e ainda mais disposto a ganhar dinheiro. Apesar disso, era muitas vezes difícil, mesmo nos grandes centros, reunir mulas de caravana para uma jornada, e então o aluguel era frequentemente exorbitante.

Estou escrevendo sobre jornadas nas quais viajei como europeu, com um grande acampamento, muitas vezes sozinho, às vezes na companhia de amigos, quando era preciso observar toda a rígida etiqueta e formalidade das visitas aos Kaids e às autoridades locais. Mas houve outras jornadas nas quais, com meia dúzia de mulas próprias, meus homens comigo, alguns bons cavalos e tendas menos pretensiosas e de caráter nativo, vaguei sozinho pelo país e vestido como nativo durante meses e meses seguidos. Aqueles foram os grandes dias: jornadas longas e quase sem objetivo, vagando para onde me conduzia o desejo, ora às cidades de Wazzan, Fez ou Marrakesh, ora às margens das neves do Grande Atlas. Exceto quando estava efetivamente explorando, como em minha viagem a Tafilet, naturalmente jamais fingi passar por nativo; mas o fato de usar roupas mouriscas afastava os curiosos e até reduzia as constantes exigências feitas a minha bolsa. Tornava a vida muito mais agradável. Em vez de armar o acampamento diante dos castelos dos grandes homens, eu era convidado a permanecer no interior, geralmente em um pequeno aposento para hóspedes composto por duas ou três salas, e as massas desnecessárias de alimentos eram reduzidas a refeições agradáveis com o anfitrião. Para o mouro, roupas “cristãs” e um chapéu na cabeça significavam as relações mais formais; quando eu os abandonava, era aceito na intimidade.

A visita mais recente que fiz a Raisuli ocorreu cerca de oito anos atrás, quando ele construía seu palácio em Arzeila. Eu estava acompanhado por uma jovem sobrinha, que viera para uma breve visita a Tânger, e por uma amiga dela. Julguei que nada poderia ser mais divertido para duas jovens inglesas que visitar o famoso bandido na pequena e antiga cidade murada de Arzeila, com os restos de seu velho castelo e bastiões portugueses. A visita ganhou sabor adicional pela desaprovação que provocou entre meus amigos. Era tarde da noite quando chegamos ao acampamento de Raisuli, pois ele percorrera certa distância para encontrar-nos. Um rio sujeito às marés atrasara-nos, e permanecemos sentados em suas margens aguardando que a água baixasse até depois do anoitecer. Foi com um suspiro de alívio que vi as luzes e fogueiras do acampamento, pois a noite estava inteiramente escura, e nossos cavalos, garanhões, naturalmente, pois ninguém monta outra coisa no Marrocos, estavam muito agitados pela proximidade de numerosas éguas invisíveis na escuridão.

Encontramos Raisuli em sua grande tenda, um pavilhão circular de lona com cerca de vinte e cinco pés de diâmetro, paredes altas e teto elevado. Um imenso pilar quadrado, mais que um simples mastro, sustentava o grande conjunto, pois toda a tenda era revestida internamente de tecido verde-escuro, pesado e muito caro. A parte exterior era de lona branca, decorada com desenhos de tecido azul-índigo aplicados sobre a lona.

Enquanto nossas tendas eram armadas, jantamos no pavilhão de Raisuli. O famoso bandido estava acompanhado por certo número de amigos e secretários, e um antigo alto funcionário nativo também chegara naquele mesmo dia para uma visita e para participar da caçada que nos seria oferecida. Minha sobrinha, a amiga dela e eu éramos, naturalmente, os únicos europeus. Altos castiçais de bronze polido, sustentando grandes velas, estavam sobre bandejas do mesmo material e bastavam para iluminar a tenda e os rostos dos guardas montanheses e dos escravos negros, que permaneciam de pé ou agachados em grupos do lado de fora da entrada, prontos para obedecer às ordens do mestre. Várias tendas menores estavam armadas em um grande semicírculo, cujo ponto central era formado pelo pavilhão de Raisuli.

Sentados sobre luxuosos colchões dispostos ao redor das paredes da grande tenda, fomos servidos com pratos de carnes cozidas, chá verde aromatizado com hortelã e ervas, e café.

No dia seguinte, seguimos a cavalo para Arzeila. O séquito de Raisuli, cerca de duzentos montanheses, espalhou-se em uma longa fileira e caçava enquanto avançava, com cavalos, armas, galgos, bastões e até pedras, cantando e gritando durante todo o tempo.

Ao chegarmos, nosso anfitrião convidou-nos a instalar-nos em uma casa da pequena cidade, mobiliada e preparada para nós, ou em um vasto acampamento armado para nossa recepção perto da praia e a menos de duzentas jardas das ondas do Atlântico. Escolhemos este último, pois os arredores de Arzeila constituem um dos locais de acampamento mais encantadores do Marrocos.

À esquerda ficava a cidade antiga, com suas torres ameaçadoras e ameias erguendo-se acima das oliveiras e laranjeiras dos jardins ao redor. À frente, a relva verde e macia descia suavemente até as areias amarelas e a grande extensão do oceano, enquanto atrás de nós se erguiam colinas ondulantes cobertas de relva. O acampamento fervilhava de vida: soldados uniformizados, escravos e criados passavam e repassavam, e uma longa fileira de cerca de quarenta cavalos, amarrados pelos pés segundo o costume do país, estava a nossa disposição caso quiséssemos montar outros animais além dos nossos. Alimentos, mortos e vivos, afluíam ao acampamento, e parecia haver uma procissão perpétua de grandes travessas de comida preparada, rebanhos de carneiros e gaiolas de galinhas e pombos. Uma banda nativa produzia música estridente em todas as horas mais inconvenientes do dia e da noite.

Raisuli era o melhor dos anfitriões e estava em excelente disposição. Entre outros entretenimentos que nos ofereceu, houve um almoço para minha sobrinha, a amiga dela e eu, servido em uma sala superior de uma das altas torres que se projetavam sobre o mar. Com o mais doce dos sorrisos e em um esforço muito bem-sucedido para interessar, quando não divertir, suas jovens convidadas, apontou para uma das janelas da sala, uma antiga seteira na muralha, pela qual ele e seus homens, sob a ameaça das baionetas, haviam feito passar o falecido Governador da cidade, o Kaid Khalkhali, para que caísse quarenta pés sobre as rochas abaixo, apenas pouco tempo antes. A história passada dos anfitriões em entretenimentos mouros acrescentava sabor picante às refeições. No Marrocos, não se deve ser crítico demais, e era raro jantar com qualquer grande autoridade nativa do país que não possuísse um passado capaz de superar os anais históricos de Newgate. Graças a Deus, aqueles dias terminaram. A chegada dos franceses pôs fim a um período verdadeiramente terrível. Ainda assim, quando alguém vivia entre aqueles grandes crimes, os aparecimentos e desaparecimentos súbitos, os sepultamentos à meia-noite em lugares desertos, o rapto de mulheres; ódio, amor, vingança e, de vez em quando, algum grande ato de altruísmo, a exacerbação, na verdade, de todas as qualidades e sentimentos, bons e maus, deixava de se espantar. Famílias inteiras caíam, hoje na riqueza e no luxo, amanhã desaparecidas, para talvez ressurgir uma geração depois e prosseguir a vendeta de vingança e ódio, ou talvez, geralmente de modo imprudente, perdoar.

IV

Como já foi declarado, uma das condições exigidas por Raisuli e cumpridas pelo Governo britânico para a libertação do Kaid Maclean foi que ele se tornasse súdito sob proteção britânica, estatuto que o colocava fora da jurisdição do Sultão e o submetia à lei britânica. Foi um sacrifício humilhante que o Governo de Sua Majestade precisou fazer, mas não havia saída. Talvez Raisuli pudesse ter sido persuadido a renunciar às 20.000 libras que recebeu em dinheiro, mas jamais àquela outra cláusula das condições. Assim libertado do receio de ser preso pelo Sultão, passou a levar vida mais regular e começou a construção de sua grande residência em Arzeila. É preciso acrescentar que, durante o período em que desfrutou da proteção britânica, não cometeu, até onde sabemos, outros crimes além da extorsão contra as tribos e, sem dúvida, algumas crueldades. Foi uma sorte que os membros sofredores das tribos não se queixassem às autoridades britânicas, pois teria sido difícil até mesmo intimar Raisuli a comparecer ao Tribunal Consular de Tânger, e ainda mais difícil levá-lo até lá.

Enquanto Raisuli vivia tranquilamente em Arzeila, caso receber a visita de todos os membros das tribos vizinhas e viver no tumulto de uma construção possa ser assim descrito, os acontecimentos em outras partes do Marrocos fervilhavam. Em 1908, Mulai Abdul Aziz, derrotado com seu exército no sul, abdicou, e Mulai Hafid tomou o trono. Depois de uma jornada longa e perigosa, o novo Sultão instalou-se em Fez. Raisuli sentiu que sua oportunidade chegara. Ajudara a derrubar Mulai Abdul Aziz e fora um dos primeiros a proclamar Mulai Hafid no norte; ambicioso por natureza, desejava novamente desempenhar um papel, e um grande papel, no novo regime. Abriram-se negociações secretas entre ele e Mulai Hafid, que terminaram em uma visita à Corte de Fez. A disputa que se seguiu foi muito interessante. Eu estava em Fez e mantinha contato constante com ambas as partes interessadas durante as negociações. Dos dois, Mulai Hafid era o mais sagaz. Tinha mais paciência e astúcia que Raisuli, embora também não lhe faltasse de modo algum essa útil característica oriental. O chefe dos bandidos chegara a Fez cheio da importância de seu poder e influência, mas não compreendia que, na Corte instruída e civilizada, era considerado pouco mais que um ladrão muito bem-sucedido, embora reconhecido como perigo e espinho no flanco do Sultão. Sua recepção por Mulai Hafid não foi cordial; na verdade, permaneceu algum tempo à espera antes de conseguir audiência. Os vizires foram corteses, e pouco mais que isso. Raisuli, instalado em uma residência muito palaciana na cidade, estava entediado. Desejava regressar ao norte, onde reinava supremo, e livrar-se de Fez, onde desconfiava de perigos ocultos e era considerado pessoa de pouca importância. Mas Mulai Hafid deliberadamente deixou as negociações arrastarem-se, e Raisuli teve grande dificuldade em conseguir audiências com seu Soberano; mesmo quando organizadas, eram constantemente adiadas. Por fim, cansado de tanta demora, começou a agir e, para aborrecimento de Mulai Hafid, a situação entre as tribos do norte começou a deteriorar-se. Circulavam rumores de que Mulai Abdul Aziz provavelmente seria proclamado novamente, e as tribos escapavam ao controle. Raisuli era o único homem capaz de exercer verdadeira influência naquelas regiões, e tanto o Sultão quanto ele sabiam disso. Ambos me consultaram e, como a paz do país era mais importante que aquelas disputas locais em Fez, aconselhei energicamente os dois a chegarem a um acordo. E chegaram. Raisuli foi nomeado Governador de praticamente todas as tribos do noroeste do Marrocos, com exceção de Tânger e do distrito ao redor; mas, antes de receber a nomeação, foi obrigado a abandonar a proteção britânica, pois, segundo a lei do país, nenhum “súdito protegido” podia ocupar cargo no Maghzen. Foi também chamado a devolver as 20.000 libras que o Governo britânico lhe pagara pela libertação do Kaid Maclean.

Até esse ponto, Mulai Hafid marcara pontos, pois o Governo britânico pressionava-o, como Sultão, pelo reembolso do resgate de Maclean, que fora adiantado ao empobrecido Maghzen, incapaz de levantar a soma. Ao mesmo tempo, ao abandonar a proteção britânica, Raisuli tornava-se novamente sujeito à lei e à jurisdição mouriscas; e Mulai Hafid, que esperava consolidar sua soberania no norte, antevia a possibilidade de um dia livrar-se daquele chefe caso se tornasse incômodo demais. Raisuli, ao contrário, sabia que, em poucos meses, poderia facilmente recuperar as 20.000 libras das tribos que agora fora nomeado para governar e estava suficientemente seguro de sua influência e poder para não temer possíveis represálias do Sultão. Prometeu lealdade devotada, mas já decidira manter independência absoluta. Depois de satisfazer o Sultão e oferecer presentes consideráveis em dinheiro aos vizires, deixou Fez em direção ao norte e jamais regressou à capital.

É preciso reconhecer que, durante os quatro anos em que Raisuli foi Governador daquelas tribos setentrionais, manteve a ordem na região. As estradas permaneceram abertas ao tráfego de caravanas, e os roubos eram raros. Mas era um governo de terror e extorsão. Seu prestígio era enorme, e ele o exercia plenamente. As tribos traziam tudo o que exigia, e ele exigia muito. O dinheiro afluía a seus cofres; forneciam-lhe trabalho gratuito. Caravanas de cal e materiais de construção chegavam em desfile interminável a Arzeila, e a grande casa erguia-se, pavimento após pavimento, acima das muralhas marítimas da cidade. Construiu também residências em Zinat e Tazerout, na tribo Beni Aros.

Seus estábulos estavam cheios de cavalos e mulas, pelos quais pouco ou nada pagara. Recebia com hospitalidade e, na verdade, mantinha a casa aberta, conforme o costume do país. Mas por trás de tudo estavam a cruel vontade de ferro e a mão severa, e milhares de pessoas que poderiam ter sido livres obedeciam-lhe como se estivessem hipnotizadas e levavam-lhe tudo o que possuíam, apenas para, em geral, receberem ordem de regressar e trazer mais. Meio reverenciado, meio temido; um pouco amado e talvez não inteiramente odiado, pois ninguém ousava odiá-lo, Raisuli governava as tribos do noroeste do Marrocos e tratava-as como escravas. Seu principal inimigo nesse período era o Kaid er-Remiki, que oferecera seus serviços à Espanha e organizara o falso ataque a Alcazar que proporcionou aos espanhóis o pretexto para ocupar a cidade em 1911. Remiki era agente alemão já naqueles dias, e os atos dele e de sua família eram suspeitos havia muito tempo. Suas relações com Raisuli eram tensas, pois o bandido das montanhas via naquele líder das planícies, Remiki era Kaid da tribo Khlot, um possível rival. Sua proximidade com os espanhóis e o auxílio que lhes prestava abertamente conduziram Raisuli ainda mais a um espírito de independência e oposição; mas, à medida que o tempo passava e as tropas espanholas ocupavam as planícies ao redor de Alcazar, Raisuli viu sua posição, ou pelo menos suas propriedades, ameaçada, pois possuía extensas terras naquelas regiões. As tentativas espanholas de iniciar negociações com ele fracassaram durante tempo considerável, mas por fim se chegou a um modus vivendi que, no começo, pareceu bem-sucedido. Um entendimento permanente entre Raisuli e as autoridades espanholas, contudo, era mais do que se poderia esperar, pois ambos estavam dominados por um senso exagerado de amor-próprio e nenhum dos dois compreendia, nem desejava compreender, a mentalidade do outro. Raisuli estava disposto a ser amistoso enquanto sua independência não sofresse interferência; os espanhóis também estavam dispostos a ser amistosos enquanto Raisuli não exercesse exatamente essa independência que reivindicava e na qual insistia. O resultado foi atrito constante. A situação tampouco se tornou mais fácil pelo fato de os métodos adotados pelas autoridades civis espanholas divergirem inteiramente dos utilizados pelos chefes militares, pois nenhum dos lados consultava o outro. Boa parte da correspondência trocada entre os espanhóis e Raisuli nessa época chegou a minhas mãos. Não possui interesse muito especial, exceto por demonstrar os objetivos e finalidades inteiramente opostos das autoridades militares e civis espanholas. A situação chegou ao ponto de certas autoridades militares tomarem providências para provocar o “desaparecimento” de Raisuli. O acidente deveria ocorrer enquanto ele estivesse a caminho de visitar as autoridades civis espanholas em Tânger, com a ideia de organizar uma viagem a Madri. A Legação espanhola em Tânger naturalmente ignorava por completo a conspiração e concedera salvo-conduto a Raisuli. A notícia chegou aos ouvidos do encarregado de negócios espanhol quase no último momento. Houve apenas tempo de enviar um corredor nativo a Raisuli para adverti-lo a não iniciar a viagem, que certamente não teria transcorrido sem um incidente provavelmente fatal. As autoridades espanholas em Tânger comportaram-se, como seria de esperar, com grande prontidão e correção. O fato era que o ciúme existente entre as autoridades militares espanholas em Laraiche e o representante espanhol em Tânger era tamanho que nenhum dos dois sabia o que o outro fazia ou planejava fazer. Enquanto o general Silvestre, comandante das tropas espanholas em Laraiche, seguia uma política enérgica e previa, corretamente, as dificuldades que a permanência e a atitude de Raisuli causariam à Espanha no futuro, a Legação espanhola em Tânger, ao contrário, era favorável a chegar a um acordo com o bandido e utilizá-lo em favor dos objetivos e ambições espanhóis. Qualquer uma das políticas, se aplicada com habilidade, provavelmente teria tido êxito, mas ambas colocadas em prática ao mesmo tempo não contribuíam para acalmar as suspeitas de Raisuli. Por fim, ele veio a Tânger, onde pelo menos naquela ocasião sua vida estava segura; e, enquanto negociava efetivamente com Madri, as autoridades militares em Laraiche, exasperadas pelas dificuldades colocadas em seu caminho por suas intrigas, confiscaram suas propriedades e romperam todas as relações com ele.

Raisuli tornou-se novamente proscrito e refugiou-se nas montanhas. Seu único objetivo, seu único desejo, passou a ser obrigar os espanhóis a devolverem suas propriedades e vingar-se. Não demorou para que seus planos adquirissem forma, e as tropas e os “postos” militares espanhóis não tiveram descanso. Havia assassinatos constantes, roubos constantes, tiros de atiradores ocultos, ataques e alarmes noturnos. Os civis também sofreram, pois todo e qualquer espanhol era objeto da cólera e da vingança de Raisuli.

A atitude do bandido em relação aos espanhóis jamais fora segredo. Talvez sentisse antipatia cordial pelos súditos das outras Potências europeias, mas desprezava os habitantes da Península. Durante o último período de sua proscrição, quando estava ameaçado de ataque pelas tropas do Sultão, ordenara a seus seguidores que “capturassem um cristão” como refém. Não era tarefa fácil, pois haviam sido tomadas precauções em Tânger; mas certo dia um bando de seus homens encontrou por acaso uma pequena caravana de operários espanhóis a caminho de Tetuan para Tânger. Foram imediatamente capturados, e um mensageiro seguiu às pressas para anunciar a Raisuli que alguns “cristãos” haviam sido presos. O chefe dos bandidos encontrava-se naquele momento nas montanhas Beni Msaour, para onde os cativos foram enviados. Quando os viu, enfureceu-se extraordinariamente e, voltando-se para seus homens, gritou: “Ordenei que me capturassem ‘cristãos’, e vocês me trazem espanhóis”, e soltou-os imediatamente. Sabia por experiência que as condições que conseguiria arrancar da Espanha pelo resgate de meia dúzia de pobres espanhóis seriam realmente pequenas. Em um caso anterior, no qual dois espanhóis, um rapaz e uma moça, haviam sido capturados em Arzeila, ambos foram mortos pelos bandidos em razão da maneira infeliz como as autoridades iniciaram as negociações. Em anos posteriores, contudo, desde a ocupação de Tetuan pelos espanhóis, as tribos montanhesas passaram a dedicar-se lucrativamente ao banditismo local. Conhecem o valor exato de um soldado espanhol ou de um oficial subalterno e de um civil espanhol, homem ou mulher, e o preço que podem extorquir sem, ao que parece, correr qualquer risco de punição posterior. Houve vários casos desse banditismo em 1919-1920, alguns deles acompanhados de assassinato.

A atitude de Raisuli para com as autoridades e tropas espanholas causava grande ansiedade na Espanha. O público irritava-se com a perda contínua de vidas provocada por sua resistência à ocupação espanhola do país, e o general Silvestre, que comandava as tropas em Laraiche, foi chamado de volta. Novas negociações foram iniciadas com Raisuli. As condições que exigiu e recebeu eram extorsivas; mas a opinião pública espanhola e a imprensa de Madri exigiam o fim das perdas constantes, e muitas vezes pesadas, sofridas pelas tropas. Suas condições precisaram ser aceitas. Recebeu um pequeno exército nativo próprio, que seria pago e armado pela Espanha, uma grande pensão mensal e uma infinidade de favores menores. Tornou-se praticamente ditador da parte noroeste da zona espanhola, governando igualmente espanhóis e mouros. Sua própria “zona” foi claramente demarcada, e ai do espanhol que tentasse atravessar a fronteira e entrar no território sob sua jurisdição. As estradas foram fechadas, e havia insegurança junto às próprias muralhas de Ceuta e Tetuan.

Raisuli era agente dos alemães muito antes da guerra. Fizera contratos com os famosos irmãos Mannesmann a respeito da mineração nos distritos montanhosos, contratos que praticamente fecharam aquelas regiões a outras nacionalidades e empresas. Quando a guerra começou, manteve suas relações amistosas com os Cônsules alemães de Tetuan e Laraiche e com os muitos agentes secretos alemães abrigados na zona espanhola. Sob sua orientação, prestou auxílio ativo à intriga criminosa e à propaganda alemãs e manteve relações diretas com a Embaixada alemã em Madri. O Times de 3 de setembro de 1918 publicou a tradução de uma carta da Embaixada alemã a Raisuli que continha, entre outras coisas, uma promessa explícita de armas e munições.

Para aqueles que não possuem conhecimento pessoal das tribos montanhesas do Marrocos, o estado permanente de anarquia em que vivem, a opressão exercida por seus chefes legítimos e ilegítimos, a vingança e o assassinato devem parecer inacreditáveis.

Na tribo Anjera, nos primeiros anos deste século, havia duas grandes famílias, os Deilan e os Duas. Ambas estavam entre meus amigos íntimos. Eu estivera, sempre vestido como nativo e sempre recebido como hóspede bem-vindo, nos casamentos de vários filhos do xeque Deilan, em sua aldeia nos cumes das montanhas, onde centenas de membros das tribos se reuniam e passavam as noites de luar em banquetes e cantos, pois escolhiam para essas festividades o período de lua cheia e, em geral, o fim da primavera, o verão ou o começo do outono. Que noites maravilhosas eram aquelas! No lugar mais plano que se pudesse encontrar nas proximidades da aldeia, os montanheses reuniam-se, deixando no centro um espaço circular aberto, com “corredores” vazios irradiando-se por entre a multidão compacta. Ao som de flautas e tambores estridentes, música selvagem e estimulante para quem aprendera a apreciá-la, os dançarinos, rapazes treinados, ocupavam o centro e começavam a dançar, lentamente no início, depois mais depressa. Essas danças das montanhas nada têm em comum com a dança oriental comum vista nas cidades e nas planícies. Não há nenhuma daquelas contorções sem arte e sugestivas que, do ponto de vista europeu, são tão pouco graciosas. Vestidos com longas e soltas roupas brancas, que quase lhes chegavam aos pés, com mangas esvoaçantes presas para trás por cordões de seda colorida e um pequeno lenço lançado sobre a cabeça de modo a velar parcialmente o rosto, os jovens moviam-se graciosamente para dentro e para fora, cada qual dançando sozinho e, ainda assim, integrando sua dança a um plano de movimentos coordenados.

A dança das montanhas começa com os artistas imóveis durante alguns instantes, a cabeça lançada para trás e os braços caindo frouxamente ao lado do corpo. Então, acompanhando o ritmo da música, ocorre um movimento súbito e rápido dos pés, uma pequena batida suave, mas sem o menor movimento do corpo. À medida que os músicos aumentam a energia, o corpo do dançarino ganha vida. O movimento dos pés se acentua, e de repente ele desliza para a frente em direção ao público, com os braços estendidos, erguendo por um instante o lenço que cobre o rosto, e então o corpo torna-se novamente imóvel. Mas, como se contra sua vontade, a música o domina. Os movimentos tornam-se mais amplos. Os pés se erguem mais alto do chão, e o dançarino gira e cai sobre um joelho, torna a levantar-se e desliza, mantendo o corpo quase imóvel, pelos corredores vazios abertos entre as seções da multidão. Jamais se abandona a atitude graciosa; o véu, ora meio erguido, ora novamente abaixado, o leve tremor dos ombros e o movimento deslizante dos pés, tudo possui encanto e mérito artístico. De vez em quando, com um rápido giro do corpo, que faz as dobras soltas da longa vestimenta branca flutuarem ao seu redor, o dançarino cai sobre um joelho diante de um dos convidados e, removendo o véu, espera que uma moeda de prata seja pressionada contra sua testa e que o doador lhe dirija cumprimentos exagerados e poéticos. Há um movimento nessas danças que é admirável, embora poucos consigam executá-lo, pois exige submissão e treinamento completos dos músculos. O dançarino subitamente fica ereto, com os braços estendidos e a cabeça lançada para trás. Então, começando pelos pés, um pequeno tremor, uma espécie de estremecimento, sobe pelo corpo até desaparecer nas pontas dos dedos das mãos estendidas. Em seu movimento ascendente, cada parte dos membros e do corpo treme isoladamente; o restante permanece imóvel, e mesmo o tremor é tão delicado que quase poderia passar despercebido. A rigidez do corpo não se altera, e sente-se, mais do que se vê, esse “arrepio nervoso” ascendente que ilumina a figura, como se desse vida a uma estátua.

Mas estou divagando. Os Deilan e os Duas eram as grandes famílias da tribo Anjera. Das duas, os Deilan eram os mais poderosos, pois o velho xeque tinha muitos filhos, sobrinhos e parentes. Naturalmente surgiu o eterno ciúme, que terminou em disputa aberta. Durante algum tempo, as duas famílias viveram separadas, mas por fim organizou-se uma reconciliação. Deilan e sua família visitaram Duas para participar de um grande banquete que celebraria o fim da disputa. Enquanto estavam sentados diante dos fumegantes e saborosos pratos no pátio da casa de Duas, foi dado um sinal, e Deilan e seus filhos foram baleados, enquanto muitos de seus servidores também caíram vítimas da traição cuidadosamente preparada. Durante algum tempo, Duas foi chefe incontestado da tribo em sua fortaleza no próprio cume de uma montanha. Eu fora prisioneiro naquela casa pouco tempo antes, durante alguns dias, na parte final do período em que fui capturado por Raisuli, e minhas lembranças de Duas, que eu conhecia bem, e de sua família são agradáveis. Fui tratado não apenas com respeito, mas também com grande amizade, e fizeram o possível para tornar meu período de cativeiro fácil e agradável.

Pouco depois, a família Duas começou a pagar pela traição e pelo assassinato. Um após outro, foram abatidos por tiros de emboscada e morreram. Às vezes ocorria de dia, às vezes à noite, mas sempre por uma bala certeira e infalível de um rifle Mauser, disparada das rochas ou do matagal. Então chegou a vez do próprio Duas. Cavalgava uma mula a caminho de um mercado local, cercado por seus servidores. A bala pareceu evitar seus homens e encontrou o alvo em seu chefe. Ele caiu morto. Assim prosseguiu a vendeta, executada por um único homem. Era um sobrinho do xeque Deilan, chamado Ben Ahmed, que escapara ao massacre na casa de Duas. Eu o conhecia bem, um jovem belo, que não sabia o significado do medo e jurara vingança. Por fim, foi morto a tiros, mas havia matado Duas e onze membros de sua família. Os nomes de Duas e Deilan já estão quase esquecidos entre os Anjera. Se ainda vivem membros das famílias, caíram na insignificância de membros comuns da tribo, e outros surgiram em seu lugar.

É preciso dizer algumas palavras sobre outro chefe Anjera. De todos os meus amigos entre os montanheses, era aquele cuja amizade eu mais valorizava e apreciava. Sid El Arbi bel Aysh pertencia a uma importante família xerifiana dos Anjera, era descendente direto do Profeta Maomé e também bandido, pois as duas profissões se unem com muita frequência no Marrocos! De coragem indiscutível, os espanhóis deram-lhe o nome de “Valiente”, participara de muitos combates tribais e, certa vez, com um punhado de seguidores, defendera sua fortaleza montanhosa contra várias centenas de membros das tribos. Sua pontaria era infalível, e ai do homem contra quem disparasse. Até o fim de sua curta vida, foi morto em 1915, visitou constantemente minha casa, vindo com regularidade de seu lar nas montanhas para passar cerca de uma semana em Tânger. Conquistava o coração de todos os que encontrava, talvez um bandido, mas um bandido contra quem jamais se fez acusação de crueldade. Com as maneiras hereditárias de um chefe cuja família se originara treze séculos antes com o Profeta Maomé, com grande elegância e beleza viril, com voz encantadora e personalidade atraente, Sid El Arbi bel Aysh era o tipo perfeito do cavalheiro montanhês marroquino. Seu sorriso aberto e seu humor bondoso faziam dele persona grata por toda parte, e em nenhum lugar era mais bem-vindo que em minha casa.

A coragem moral de Sid El Arbi era tão grande quanto sua coragem física, pois se manteve afastado de toda a tribo quando, em 1913, ela declarou guerra aos espanhóis. Durante muito tempo recusou-se a combater, embora assim colocasse em perigo a própria vida, pois, em determinado momento, seus companheiros de tribo cogitaram assassiná-lo por esse motivo. Infelizmente, contudo, os espanhóis não compreenderam seu gesto nem souberam utilizá-lo em benefício próprio; e, no entanto, ele talvez fosse o único amigo leal com quem poderiam ter contado entre os Anjera. Na questão da venda de parte de suas terras, com os direitos sobre a água que as acompanhavam, às autoridades espanholas de Ceuta, foi tratado de uma maneira que é melhor não descrever. Em poucas palavras, recebeu apenas pequena parte do preço da compra.

Aproveitaram-se de sua boa vontade para negociar a transação até que a quantia combinada se tornasse absurdamente pequena, e mesmo a maior parte dela jamais lhe foi paga. Exasperado com esse tratamento e instigado pelas zombarias dos membros de sua tribo, acabou pegando em armas contra os espanhóis. Pouquíssimas semanas depois, foi morto em combate, atingido por um fragmento de projétil.

Pouco antes de sua morte, eu organizara um encontro entre ele e uma alta autoridade espanhola, na esperança de promover uma reconciliação e obter a influência de Sid El Arbi bel Aysh em favor da paz. Infelizmente, o funcionário espanhol não percebeu que lidava não apenas com um jovem chefe poderoso, mas também com um membro de uma das famílias mais antigas do Marrocos e, além disso, com um cavalheiro. Com uma falta de tato que quase chegava ao insulto, o espanhol perguntou a Sid El Arbi se a verdadeira razão de ele ter pegado em armas contra eles era o fato de suas mulheres o terem chamado de covarde e tornado sua vida insuportável em casa. Nos países muçulmanos, não se fala com um homem a respeito de suas mulheres, mas Sid El Arbi riu e respondeu: “Não, essa dificilmente foi a razão.”

“Imagino que o chamaram de ‘covarde’ e de ‘cristão’ por não pegar em armas contra nós?”, continuou o infeliz espanhol.

Fiz o possível para levar a conversa para outros assuntos, mas era tarde demais. Sid El Arbi tornou a rir.

“Não”, respondeu novamente, “não foi isso. Todo o mundo sabe que não sou covarde, e alguns de meus melhores amigos são cristãos.”

“Então o que o fez combater-nos?”

“Eu lhe direi”, disse Sid El Arbi, ainda sorrindo, mas muito zangado. “Suportei todas as zombarias até que, certo dia, em desespero, chamaram-me de ‘espanhol’. Esse insulto foi mais do que a natureza humana poderia suportar. Desde aquele momento, estou em guerra com vocês.” Ainda sorrindo, Sid El Arbi levantou-se e, interrompendo a entrevista antes que seu objetivo fosse alcançado, despediu-se de nosso anfitrião e deixou a casa.

Foi a gota final. Regressou aos Anjera e morreu combatendo pouco tempo depois.

A ocupação de Tetuan pelos espanhóis em 1912 pôs fim a todas as viagens pelas montanhas do noroeste do Marrocos, onde, no passado, eu passara tantos meses agradáveis pescando trutas e caçando. Poucos meses antes de as tropas espanholas entrarem na cidade, as estradas ainda eram seguras, e senhoras inglesas percorriam sozinhas a cavalo a trilha de quarenta e duas milhas que levava daquela cidade a Tânger. Hoje, porém, as tribos mudaram completamente de caráter, pois se tornaram desconfiadas e estão sempre em guerra. Ainda na primavera de 1912, Sir Reginald Lister, então ministro britânico no Marrocos, que, ai!, morreu em novembro daquele mesmo ano, e eu fizemos várias excursões por terra até Tetuan, sem companhia além de nossos cavalariços. Muitas vezes, um soldado montado da polícia partia conosco, mas sempre o deixávamos muito para trás e, sem dúvida, ele regressava. Sir Reginald comprara e restaurara uma encantadora pequena casa mourisca em Tetuan, onde passávamos os fins de semana. Deixávamos Tânger às oito da manhã e chegávamos a Tetuan às três da tarde, com uma hora para o almoço no caminho, nada mal, pois a distância é de quarenta e duas milhas, e em muitos lugares a estrada não passa de trilha pedregosa. Às vezes, quando o caminho estava pesado, trocávamos de cavalos na metade do percurso, mas, em regra, eu montava o mesmo animal até o fim. De Tetuan, encantadoramente situada com vista para o amplo vale e tendo ao fundo picos escarpados, fazíamos excursões pela região circundante, levando apenas como guia um homem que conhecesse o território e nossos cavalariços. Partindo cedo pela manhã, cavalgávamos até as aldeias das montanhas e encontrávamos em toda parte a mais bondosa das acolhidas do povo. Algumas dessas aldeias raramente, e talvez nunca, haviam sido visitadas por europeus, e nossa chegada despertava grande interesse. Às vezes, as trilhas eram ásperas demais para os cavalos, e nós os deixávamos sob os cuidados de nossos homens e escalávamos as rochas até os pequenos grupos de cabanas de palha que pareciam agarrados à encosta. As vistas eram sempre belas, muitas vezes estendendo-se por todo o estreito de Gibraltar, que parecia apenas um curso de água estreito separando da Europa as montanhas escarpadas da África.

Depois veio a ocupação espanhola e o fechamento de toda essa região. Mesmo com todas as tropas de que dispunham, foram necessários vários anos para que alcançassem aquelas aldeias. As montanhas, onde muitos europeus costumavam acampar e caçar em perfeita segurança, são hoje tão difíceis de alcançar quanto as regiões mais selvagens da África Central, e muito menos seguras. Enquanto no Protetorado francês imensas regiões, inexploradas até a chegada dos franceses, podem ser percorridas com perfeita segurança, muitas vezes de trem ou automóvel, a chegada dos espanhóis, ao contrário, tendeu a fechar a maior parte da zona sob sua influência, muitas áreas da qual antes estavam abertas a viajantes e caçadores.

Não precisava ter sido assim. No início, as coisas transcorreram razoavelmente bem, mas a falta de conhecimento dos nativos e de seus costumes, a falta de tato e a falta de generosidade logo causaram mal-entendidos, com o resultado que existe hoje: ausência completa de segurança, agressões constantes e poucas realizações.

Durante todo o período da guerra, Raisuli manteve essa atitude pró-alemã. Possuía ao mesmo tempo confiança absoluta no Governo espanhol, que lhe fornecia somas quase ilimitadas de dinheiro, rifles e munições, uniformes para suas tropas nativas e alimentos para sustentá-las. Qualquer pessoa que, pelo conhecimento da situação ou do homem, se aventurasse a expressar a opinião de que os sentimentos de Raisuli pela Espanha poderiam ser duvidosos era atacada por denúncias oficiais e pela imprensa de Madri. Contudo, a situação era perfeitamente clara. Raisuli ganhava tempo. Aumentava sua riqueza e seus meios de resistência, caso a situação exigisse resistência, e pouco ou nada pensava em outra pessoa ou coisa além de si mesmo e do próprio futuro. Certa vez, durante a guerra, enviei-lhe uma mensagem perguntando se era verdade que recebia dinheiro alemão. Evitou a pergunta na resposta. Disse: “Se os britânicos, os franceses ou qualquer outra nação têm dinheiro para dar, aceitarei de bom grado, quanto mais, melhor.”

Trabalhava pelos interesses da Alemanha porque era pago para fazê-lo, assim como teria trabalhado pelos interesses de qualquer outro país em circunstâncias semelhantes. Quando Raisuli compreendeu os resultados da guerra, e se realizavam em Tânger as celebrações pela assinatura da paz, em 14 de julho de 1919, mandou dizer-me que também mantinha a paz, pois massacrara algumas centenas de espanhóis. Felicitava a França e a Inglaterra, disse, por terem-se livrado da Alemanha e ele próprio livraria os Aliados “de outro inimigo, a Espanha”. Tanto por suas inclinações alemãs.

No fim da guerra, a situação na zona espanhola era francamente impossível, do ponto de vista de todos. Os espanhóis haviam apostado no cavalo errado; os Aliados haviam vencido, e Madri precisava explicar os fins perversos para os quais o Governo espanhol permitira que sua zona no Marrocos fosse utilizada, e não era explicação fácil. Tarde demais, começaram a expulsar os espiões alemães e a reprimir a intriga que até então tivera campo praticamente livre. Tampouco era agradável a própria posição da Espanha em sua zona. Até mesmo o Alto

Comissário espanhol estava, para todos os efeitos, sob as ordens de Raisuli, e nenhum espanhol podia viajar por grande parte da zona sem um passaporte especial do chefe dos bandidos. Um ou dois que se aventuraram a fazê-lo desapareceram, e nada mais se soube deles.

Por fim, a opinião pública espanhola revoltou-se. Raisuli recebera milhões de pesetas de bom dinheiro espanhol sem prestar serviço algum, a menos que impedir a ocupação espanhola do país pudesse ser considerado um serviço. O general Jordana, Alto Comissário espanhol, morreu subitamente em Tetuan, e o Governo espanhol decidiu agir. Enviou-se a Raisuli algo equivalente a um ultimato, que ele ignorou, e surgiu uma crise. O general Berenguer, competente general espanhol com considerável conhecimento do Marrocos, foi nomeado Alto Comissário espanhol e iniciou com êxito seu mandato, conquistando para o lado da Espanha a numerosa e importante tribo Anjera. Mas até ele confiou demais no êxito e, poucos dias depois de fazer uma declaração à imprensa afirmando que não haveria mais combates no Marrocos, as forças espanholas sofreram revés muito grave diante de Raisuli. A série de combates de Wad Ras começou em 11 de julho e durou até 13 de julho de 1919. As autoridades espanholas fizeram todas as tentativas para esconder a verdade do que ocorrera, mas fracassaram. Todo o auxílio, todo o dinheiro e todas as armas que durante cinco anos os espanhóis haviam fornecido a Raisuli voltaram-se agora contra os doadores, como qualquer pessoa que realmente conhecesse a situação já compreendera havia muito que acabaria acontecendo. A pequena força espanhola que operava nas cristas setentrionais das colinas de Wad Ras, a cerca de vinte milhas de Tânger, foi praticamente destroçada. As perdas jamais foram publicadas, mas tenho todos os motivos para acreditar que somaram cerca de trezentos mortos e provavelmente mil feridos. Não houve prisioneiros, e os feridos espanhóis foram massacrados até o último homem. As forças de Raisuli não estavam apenas, graças à generosidade das próprias pessoas que atacavam, bem armadas, mas também possuíam uniformes espanhóis, disfarçadas com os quais conseguiram massacrar uma coluna de mais de cento e setenta soldados. Para aumentar os horrores desse episódio, os membros das tribos de Raisuli vieram equipados com granadas de mão e bombas asfixiantes. Esse desastre, pois, não importa o que os espanhóis afirmem, foi um desastre, levou a novas revelações. Segundo as notícias, os hospitais encontravam-se em estado chocante de abandono; não havia camas para os feridos, e reinava completa desorganização em todos os departamentos.

O Governo espanhol finalmente percebeu que alguma coisa precisava ser feita, ou a continuação da política seguida até então logo se revelaria fatal para o prestígio espanhol, não apenas no Marrocos, mas também na Europa. O general responsável pelos acontecimentos fatais de julho foi demitido, e o general Silvestre, conhecido inimigo de Raisuli, foi enviado da Espanha para assumir o comando. Enormes quantidades de material foram transportadas para a África, incluindo aviões, tanques, artilharia, rifles e munições e, felizmente, suprimentos hospitalares em quantidade suficiente. Dois meses depois dos dias críticos de julho, o exército espanhol no Marrocos estava novamente preparado para avançar e expulsar Raisuli de suas fortalezas nas montanhas.

A nova campanha começou em 27 de setembro de 1919. Doze mil soldados espanhóis foram reunidos para formar as principais colunas que cercariam o Fondak de Wad Ras, de onde Raisuli dominava a estrada que levava de Tânger a Tetuan. Antigamente, essa estrada estava aberta ao tráfego, e grupos de turistas do sexo feminino percorriam frequentemente a cavalo o caminho entre Tânger e Tetuan, acompanhadas apenas por um guia nativo. Desde a ocupação de Tetuan pelos espanhóis, Raisuli fechara essa trilha a todos, exceto aos nativos. Sua importância para os espanhóis era primordial, pois constituía o único meio direto de comunicação entre o distrito de Tetuan e o de Laraiche, na costa atlântica. Enquanto Raisuli controlasse o Fondak, nenhuma comunicação seria possível, e a única maneira de ir de uma cidade a outra dentro da zona espanhola era por mar. As forças espanholas avançaram com cautela. Os membros das tribos de Raisuli não ofereceram grande resistência. Eram impotentes diante do imenso material de guerra que os espanhóis haviam trazido recentemente ao cenário da ação. A artilharia e os aviões os atormentavam. Projéteis e bombas incendiavam suas aldeias e matavam suas mulheres e crianças. A disparidade era grande demais. Durante algum tempo, as operações foram interrompidas por uma pequena revolta de tropas nativas atrás das linhas espanholas. Oficiais e soldados espanhóis foram massacrados; mas o motim foi reprimido, e as colunas, atacando de três direções, aproximaram-se do Fondak.

No sábado, 4 de outubro, restavam apenas pouquíssimos quilômetros, e as tropas espanholas já haviam começado a subir as encostas que conduziam ao Fondak. Na manhã de domingo, as colinas cobertas de mato ao redor foram intensamente bombardeadas, e as tropas avançaram pela última etapa da marcha, incendiando tudo o que pudesse arder pelo caminho. Das colinas acima de Tânger, eu podia ver os projéteis explodindo, as detonações das bombas que caíam, a destruição implacável das aldeias pelo fogo, em suma, a ruína de centenas de famílias e a devastação de dezenas de lares, que assinala a introdução da civilização nessa parte do Marrocos.

E em algum lugar daqueles cumes Raisuli também viu tudo e, assim como jamais esqueceu nem perdoou a destruição de seu castelo em Zinat, jamais esquecerá nem perdoará essa última campanha. Talvez seja impotente para combater uma força numericamente mais de duas vezes maior que a sua e armada com todos os modernos e hediondos instrumentos de guerra; mas, se conheço seu caráter e sua maneira de guerrear, empreenderá uma campanha de guerrilha com ataques e assassinatos à meia-noite que durará muito tempo e cobrará caro tributo em vidas entre os invasores de seu país.

A solução está nas mãos dos espanhóis. Caso levem prosperidade e justiça aos nativos de sua zona, serão deixados em paz. Até agora não trouxeram nenhuma das duas, mas muito se pode esperar do Governo espanhol, que compreende que a maneira de ocupar o Marrocos é tão importante para o bom nome da Espanha quanto a condução dos assuntos na própria Península. Não devem esquecer que Raisuli ainda vive e que, a sua maneira, é o maior homem do Marrocos.

Poucos países poderiam produzir um Raisuli. Isso exige um ambiente que talvez, felizmente, exista apenas em países como o Marrocos. Contudo, durante os últimos anos da carreira, tornou-se famoso, e um verdadeiro toque de romance envolve o bandido que, nascido em família aristocrática, aterrorizou e, ainda assim, de certo modo protegeu Tânger, cidade de quarenta mil habitantes e sede de uma dúzia de legações. Apesar de sua celebridade, pouquíssimos europeus o viram. Raramente, se alguma vez, foi fotografado, e jamais escreveu o nome no álbum de um colecionador de autógrafos. Durante todo o tempo foi uma espécie de personagem misteriosa, meio santo, meio patife, que todo turista corajoso do sexo masculino se oferecia para capturar e muitas turistas ainda mais corajosas se ofereciam para desposar. Mulai Ahmed er-Raisuli é único e talvez, afinal, um de sua espécie seja suficiente.

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