X. Mudanças e Acasos
X. Mudanças e Acasos
A MUDANÇA que está ocorrendo, e que ainda durante muito tempo continuará ocorrendo, no Marrocos deve ser gradual. O profundo conservadorismo do povo, o espírito que manteve o país fechado à Europa século após século, ainda não desapareceu. Exceto no caso das tribos mais remotas, consiste menos em oposição aberta à reforma que em uma relutância incessante diante de qualquer alteração de sua situação. Em muitos aspectos, é melhor que seja assim, pois odres velhos não suportam vinho novo em excesso, e pouco a pouco o mouro e o homem das tribos assimilam o novo estado de coisas sem compreender, ou pelo menos sem perceber plenamente, a grande mudança que já está ocorrendo.
Não há dúvida de que, na prática, é mais fácil organizar a civilização, por mais primitiva que a princípio precise ser, entre as tribos selvagens da África Central que tentar adaptar, e necessariamente destruir em certa medida, aquilo que existia antes. O estado de civilização do Marrocos foi durante séculos elevado em comparação com a maior parte da África. É verdade que há muito tempo se encontrava em decadência, mas ainda possuía certas características admiráveis. As instituições do país, a arquitetura e a arte, os vestígios do saber, os sistemas de abastecimento de água de Fez e Marrakesh, as maneiras do povo e sua capacidade como mercadores, comerciantes e agricultores, tudo apresenta provas de um nível de civilização, durante muitos séculos não influenciado pela Europa, que só pode ser considerado admirável. Houve pouco ou nenhum progresso. Os mouros viviam do mero eco do passado, mas orgulhavam-se tanto desse passado quanto do espírito que dele haviam herdado, um espírito de fechar a porta do país a toda agressão e a porta do coração a toda influência externa.
Quando chega, como chegou ao Marrocos, o início da grande mudança, o novo sistema deve esperar ser recebido com suspeita e impopularidade. Com o tempo, os benefícios serão plenamente reconhecidos e alguma gratidão será demonstrada, mas talvez demore muito. Poucas pessoas no mundo realmente apreciam mudanças radicais, sobretudo quando são impostas por estrangeiros de outra raça, língua e religião. Ainda assim, em conjunto, o mouro do Marrocos enfrenta a mudança com o mesmo espírito impassível de indiferença com que suportava as antigas perseguições de seus próprios Sultões e Governo. Aceita tudo como vontade de Deus, mas descobre que agora possui, pela primeira vez, refiro-me ao Protetorado francês do Marrocos, segurança da vida e dos bens. Não gosta de estrangeiros, mas reconhece a melhora de sua situação. Está mais rico e mais feliz que antes. Atribui isso à providência misericordiosa de Deus. Em troca, precisa pagar tributação regular, da qual particularmente não gosta; e atribui isso à intervenção dos franceses. Assim tranquiliza a consciência e aproveita a situação.
Contudo, por mais gradual que seja a mudança, muito já foi realizado. Somente aqueles que conheceram o país antes e o conhecem agora podem compreender a extensão do que foi feito. Quando os franceses bombardearam Casablanca e, assim, abriram o caminho para a ocupação da maior parte do Marrocos, entraram em uma casa fechada, habitada pela suspeita, pelo fanatismo e pela desconfiança. O país considerava-se inexpugnável, e o povo via os “cristãos” como raça desprezível, condenada por sua religião, pouco guerreira por natureza e ridícula na aparência. O mouro imaginava que, com um pequeno exército muçulmano auxiliado pela ajuda divina, poderia derrotar facilmente todas as forças “cristãs” do mundo. “Seus projéteis e balas se transformarão em água”, diziam, “pois os santos e homens sagrados que nos protegem jamais permitirão que o infiel invada nossa terra. Tempestades destruirão seus navios e, mesmo que seus soldados desembarquem, um punhado de nossos cavaleiros bastaria para empurrá-los de volta ao mar.” Acreditavam realmente nisso.
Que mudança ocorreu desde então, e faz apenas treze anos que aconteceu o bombardeio de Casablanca! De tempos em tempos, acompanhei a expedição que invadiu a Chaouia e as terras altas além, quando, uma após outra, as tribos cederam e reconheceram que aquelas duas colunas francesas, avançando e sempre avançando, eram mais fortes que todos os santos em seus túmulos e todos os Homens Sagrados com suas promessas de vitória. O mouro teve de reconhecer um fato. Foi muito difícil no início. Mudou toda a sua visão da vida, toda a sua mentalidade. Alguns milhares de cristãos conquistavam seu país! E as duas colunas eram tão irresistíveis quanto o próprio fato. Refugiou-se no consolo supremo de sua religião, gritou: “É a vontade de Deus”; deixou o rifle de lado e regressou aos campos ou alistou-se no Exército francês.
Por trás da demonstração de força, atuava outro fator ainda mais importante. À medida que distrito após distrito era ocupado e as tropas seguiam adiante, surgia uma nova organização, uma nova administração que protegia os interesses do povo, sua vida e seus bens. Experimentaram, pela primeira vez em séculos, a segurança. O medo sempre existente da morte, do confisco e da prisão, sob cuja sombra haviam passado toda a vida, assim como seus pais e antepassados antes deles, desapareceu. A extorsão dos “Kaids” cessou ou foi grandemente reduzida, e tornou-se possível obter justiça.
Na introdução da civilização, os franceses demonstraram tato admirável. Todos os seus atos e pensamentos foram influenciados pelo desejo de melhorar a situação do povo e torná-lo próspero. Construíram estradas intermináveis. Abriram hospitais e dispensários, e evitaram tudo o que pudesse ferir as suscetibilidades religiosas do povo. Possuíam a experiência da Argélia e de Túnis. Estudaram nossa atuação no Egito. Souberam o que adotar e o que evitar. Mantiveram no trono um descendente da antiga linhagem de Sultões e, governando em seu nome, conseguiram obter uma flexibilidade administrativa que as leis codificadas da França jamais teriam proporcionado caso se adotasse um sistema de governo direto. Encontraram muito menos oposição do que se poderia esperar. Na verdade, a introdução da civilização no Marrocos, em tempos de grandes dificuldades durante a guerra, constituiu belo exemplo do verdadeiro espírito de pacificação e progresso. Eu, que conheço o Marrocos há mais de trinta anos, posso testemunhar que, nas partes do país ocupadas pela França, a melhora no bem-estar do povo é imensa. Ainda há muito a fazer. Décadas precisarão transcorrer antes que o trabalho se conclua, mas estou convencido de que a grande política inaugurada pelo general Lyautey no Marrocos será aceita como fundamento do governo, para benefício mútuo do “Protetor” e do “Protegido”.
Ainda assim, há quem continue a falar dos “bons velhos tempos” do Marrocos antes da chegada dos franceses ao país! É inacreditável que alguém possa lamentar aquela época. Somente aqueles que não conseguiram enxergar sob a superfície, e havia tão pouca superfície para ocultar os fatos, podem comparar os dois períodos. O máximo que se pode dizer contra o regime francês é que o nativo considera irritante a introdução de regulamentos. Precisa pagar impostos regulares em vez de sofrer a extorsão das próprias autoridades, como no passado. Não gosta da regularidade, e alguns mouros provavelmente prefeririam a incerteza e os riscos de jogo do passado à prosperidade sem acontecimentos do presente. É verdade que havia o risco de morte, confisco e prisão; mas havia também a oportunidade de saquear e roubar, adquirir posição pela força ou pelo suborno e conseguir, com razoável segurança, confiscar os bens de outras pessoas e colocá-las na prisão; e, se no fim o próprio homem morresse encarcerado, bem, era a vontade de Deus. O mouro é jogador. Sob o antigo regime, apostava não apenas a fortuna, mas a vida. Muitas vezes perdia ambas; porém, às vezes, vencia, e eram as vidas de outros que se sacrificavam e os bens de outros que se acumulavam, até que se formasse uma grande propriedade, se construíssem palácios em todas as capitais, seus escravos fossem legião e suas mulheres zumbissem como um enxame de abelhas, e então, certo dia, chegava o fim. Se o destino fosse bondoso, morria ainda em posse das propriedades, que eram confiscadas no dia de sua morte; mas, com maior frequência, morria na prisão enquanto a família passava fome. Enquanto isso, nada poderia ser imaginado como mais lamentável que a sorte do povo do campo, vítima de roubos de toda espécie, pois, do Sultão ao xeque da aldeia, todo o Maghzen pilhava os pobres e vivia às suas custas. Nenhum homem podia considerar a própria alma como sua. Graças a Deus, os “bons velhos tempos” acabaram definitivamente!
Às vezes me pergunto se, apesar de tudo o que foi escrito sobre o assunto, compreende-se plenamente o estado de coisas existente no Marrocos até a introdução do Protetorado francês em 1912.
Enquanto Mulai Hafid foi Sultão, de 1908 a 1912, ano em que abdicou, o palácio foi cenário constante de barbárie e tortura. O próprio Sultão, neurastênico e, segundo se dizia, viciado em drogas, tinha dias bons e ruins. Não havia dúvida de que, no início, pretendia reformar o país, ou talvez, de maneira mais exata, salvá-lo da crescente intervenção da França. Possuía certa inteligência astuta e alguma noção de governo, mas encontrou decepções. As coisas haviam avançado longe demais. O Marrocos estava condenado. Ao descobrir que todas as tentativas de preservar a independência do país eram inúteis, cedeu às tentações e tornou-se cruel e avarento.
Os rebeldes capturados na guerra, muitos dos quais, sem dúvida, eram membros inofensivos das tribos, tiveram mãos e pés cortados. Vinte e seis foram torturados dessa maneira em Fez em um único dia. Vinte e cinco morreram, em sua maioria de gangrena; pois, embora os médicos europeus de Fez implorassem ao Sultão permissão para tratá-los, Mulai Hafid recusou. Em público, os açougueiros cortaram e deceparam de cada um daqueles infelizes uma mão e um pé, tratando os cotos com piche. O único sobrevivente daquele grupo específico vive ainda hoje.
No início do reinado, em 1909, Mulai Hafid sentiu ciúmes de um jovem Xerife, Sid Mohamed el-Kittani, membro de uma grande família que, depois de abraçar a vida religiosa, reunira ao redor de si um grupo de homens cultos e fundara uma seita. Falava-se muito dele; sua popularidade e reputação eram grandes. Dos recintos do palácio, o Sultão acompanhava todos os seus movimentos, e espiões relatavam cada uma de suas palavras, mas não se conseguia encontrar pretexto para prendê-lo. Mulai Hafid, porém, estava decidido a livrar-se dele. Deixou que o jovem Xerife compreendesse que estava em perigo, que o Sultão pretendia prendê-lo e, influenciado por um espião, o jovem foi persuadido a abandonar Fez. Fugiu durante a noite, diretamente para a armadilha. Permitiram que chegasse aos territórios da tribo Beni Mtir e ali o prenderam. Enquanto isso, espalhou-se o boato de que tentara fazer-se proclamar Sultão, e facilmente se produziram provas nesse sentido. Foi levado de volta a Fez, eu o vi entrar como prisioneiro no palácio, e açoitado diante de Mulai Hafid. Golpe após golpe de cordas de couro cheias de nós caiu sobre suas costas e pernas até que, quase sem vida, foi levado dali e atirado em uma prisão do palácio. Nem sequer lhe permitiram tratar os ferimentos. Viveu apenas mais alguns dias, e os escravos que lavaram seu cadáver para o sepultamento contaram-me que o tecido de linho da camisa fora cravado tão profundamente na carne, fechada em feridas medonhas sobre ele, que se limitaram a cortar as partes mais expostas dos trapos imundos e manchados de sangue, deixando o restante.
Talvez as mais trágicas torturas perpetradas por Mulai Hafid tenham sido as infligidas à família do Basha Haj ben Aissa, Governador de Fez, homem cuja reputação certamente não era pior que a da maioria dos funcionários mouros e era muito melhor que a de muitos.
Acreditando que fosse muito rico, Mulai Hafid mandou prender o Governador e lançá-lo na prisão com vários membros de sua família. Ocorreram os espancamentos e privações habituais, e Haj ben Aissa entregou todas as propriedades ao Sultão. Mulai Hafid, porém, não estava satisfeito. Acreditava na existência de uma grande fortuna em dinheiro. Na verdade, o Governador de Fez fora um agricultor dedicado e investira todos os ganhos, lícitos e ilícitos, em terras, mas nada conseguia convencer o Sultão desse fato. Deu ordens para que se encontrasse a fortuna; seguiram-se novas privações e mais espancamentos, mas tudo sem resultado. Então as mulheres foram presas, entre elas a aristocrática esposa do Governador de Fez, senhora de boa família e posição elevada. Imaginava-se que ela conheceria e revelaria o tesouro escondido. Foi torturada, mas nada revelou, pois nada havia para revelar.
Toda essa história chegou a meu conhecimento, e a barbárie dos procedimentos do Sultão levou-me a decidir que o mundo deveria saber o que se passava. O Times abriu suas colunas sem reservas para essas injustiças, como esse grande jornal jamais deixou de fazer quando havia uma injustiça a reparar. Não se tratava tanto da tortura da esposa do Governador de Fez, por mais terrível que fosse, quanto do fato de que essas coisas ainda ocorriam no Marrocos e precisavam cessar. As provas que eu possuía eram juridicamente frágeis, mas decidi levar o assunto até o fim. O Sultão negou, ameaçou e tornou a negar, mas os esforços reiterados do Times foram suficientes até mesmo para mobilizar o Foreign Office, e decidiu-se que alguma providência precisava ser tomada. O falecido Sir Reginald Lister era ministro britânico naquela época, e seu incentivo e auxílio ajudaram-me em minha campanha. Depois de muita demora, o Governo britânico decidiu pedir ao Sultão que apresentasse a senhora, pois nenhuma outra prova seria suficiente para convencê-lo de que não haviam sido cometidas grandes crueldades. O Governo francês colocou-se ao lado do nosso no interesse da humanidade. O Sultão concordou prontamente, mas não apresentou a senhora. A energia do sr. McLeod, Cônsul britânico em Fez, foi incansável. Estava decidido a levar o assunto até o fim. Por fim, pressionado pela força das circunstâncias, o Sultão permitiu que a esposa do Basha fosse visitada por duas médicas missionárias inglesas, acompanhadas pela esposa de um médico francês. Elas a viram nos recessos do palácio e, apesar dos protestos e ameaças dos escravos, insistiram em examiná-la.
Seu corpo mutilado e as terríveis cicatrizes de ferimentos recentes justificaram amplamente a atitude do Times. O Sultão mentira durante todo o tempo. A mulher fora cruelmente torturada.
Com aquele espírito humanitário que demonstrou durante toda a vida, Sid el-Haj Mohamed el-Mokri, que era então Grão-Vizir e hoje ocupa com tanta competência o mesmo cargo, acolheu em sua própria casa a esposa ferida do Governador de Fez, onde ela recebeu toda a assistência médica de que necessitava e toda a bondade das mulheres da família do vizir.
Tenho duas cartas referentes a esse incidente que valorizo. Uma é do sr. J. M. McLeod, C.M.G., então Cônsul britânico em Fez, datada de 28 de julho de 1910, na qual ele me escreve para dizer que os membros sobreviventes da família de Haj Ben Aissa o haviam procurado com o propósito de pedir-lhe que me comunicasse quanto estavam gratos pelos “grandes esforços que eu fizera em favor deles, os quais haviam sido para eles um imenso consolo”. A segunda é uma carta do ministro britânico, Sir Reginald Lister, datada de 22 de fevereiro, escrita dos Dolomitas, na qual diz: “Escrevo antes de tudo e acima de tudo para felicitá-lo por seu triunfo na questão das torturas.” Afinal, minha participação fora pequena. Foi a publicidade que o Times deu a meus telegramas e mensagens que obteve o êxito. Dois anos depois, quando as circunstâncias tornaram a aproximar Mulai Hafid e eu, pedi-lhe que explicasse sua conduta. Disse-me que sabia que a mulher fora torturada, não fora a única, mas que pessoalmente não tivera essa intenção. Declarou que, quando o informaram de que não se conseguia encontrar a fortuna de Haj ben Aissa, ordenara a prisão das mulheres da família. Pouco depois, disseram-lhe que as mulheres “não queriam falar”, e ele reconheceu ter respondido: “É preciso fazê-las falar.” Palavras assim, vindas de semelhante fonte, eram interpretadas como uma coisa, e uma coisa apenas, tortura; e elas foram torturadas.
Sobre o fim de Bou Hamara, escrevi em outro lugar: seu longo confinamento em uma pequena gaiola, o fato de ter sido lançado aos leões diante das mulheres do Sultão e, por fim, de ter sido fuzilado depois que os animais selvagens lhe dilaceraram e rasgaram os braços.
Aqueles eram os “bons velhos tempos”!
A crueldade não existia apenas no palácio. Em cada Kasbah de Governador, no fundo de masmorras úmidas, muitas vezes simples buracos escavados na terra para armazenar cereais, jaziam e definhavam aqueles que haviam cometido, ou não cometido, conforme o caso, algum crime; e, com frequência ainda maior, aqueles que eram ricos o bastante para serem espremidos. Sabe-se de homens que, em semelhante sofrimento e na escuridão, recebendo apenas alimento suficiente para conservar a vida, permaneceram durante anos, para reaparecer muito tempo depois de seus parentes terem abandonado toda esperança de revê-los. Mas havia sempre uma possibilidade, a possibilidade de o Governador morrer ou cair em desgraça; então as masmorras de seu castelo eram abertas e os destroços de seus prisioneiros, libertados. E que prisões! Que horrores de prisões eram, mesmo aquelas acima do solo e reservadas à classe comum de criminosos. Acorrentados pelo pescoço uns aos outros, com pesados grilhões nas pernas, permaneciam sentados ou deitados na imundície, e muitas vezes os cruéis colares de ferro eram abertos apenas para retirar um cadáver. As prisões das cidades já eram ruins o bastante, mas as das Kasbahs rurais eram muito piores. Mulai Abdul Aziz, que reinou de 1894 a 1908 e ainda vive em Tânger, merece ao menos algum crédito, pois, durante certo período de seu reinado, pôs em ordem as prisões de Fez. Foram amplamente restauradas, acrescentou-se um sistema de abastecimento de água, e tornaram-se menos medonhas do que antes; mas, gradualmente, o antigo sistema voltou a insinuar-se, e as melhorias duraram pouco tempo. Mesmo com todas as boas intenções do mundo, um Sultão daqueles dias não conseguia romper as tradições e a corrupção ao redor.
Entre os grandes chefes berberes do Atlas, a vida era ainda mais dura; mas, de qualquer forma, não existiam a mesma perseguição e a mesma extorsão encontradas nas planícies e nos distritos mais ricos. A independência mais que parcial dos berberes libertava-os das exações permanentes do Maghzen, embora de modo algum da extorsão de seus próprios chefes. Ainda assim, o próprio clima, as dificuldades da vida naqueles picos inóspitos e as guerras constantes travadas pelas tribos umas contra as outras faziam deles homens, e todas as tradições de sua raça eram democráticas. Mas, embora não existisse a mesma opressão destinada a extorquir dinheiro, o tratamento dado aos prisioneiros de guerra cujas vidas não eram sacrificadas, ou àqueles mantidos como reféns, era bastante severo. Eles também, os grandes Kaids berberes, possuíam castelos e masmorras, e estas raramente estavam vazias. Toda a vida naquelas grandes Kasbahs fortificadas do Atlas era feita de guerra e tristeza. Cada tribo tinha inimigos, cada família possuía vendetas e cada homem, um possível assassino. Desde meus primeiros anos no Marrocos, visitei esses castelos distantes e, com muitos dos Kaids berberes, desfruto hoje de uma amizade que dura há muitos anos. Há muito mantenho relações íntimas com a família dos Kaids de Glaoua. Quando os conheci, Sid Madani Glaoui era apenas o Governador da tribo Glaoua, e seu irmão mais novo, Sid Thami, então um jovem, não ocupava cargo oficial. Notáveis por sua habilidade na guerra e por sua competência na diplomacia tribal, os membros da família Glaoua raramente deixavam os altos picos das montanhas, exceto para fazer visitas periódicas a Marrakesh, situada a três dias de viagem de sua casa. Sua Kasbah em Teluet, a mais grandiosa de todas as fortalezas do Atlas, encontra-se a mais de sete mil pés acima do nível do mar. Esses jovens irmãos possuíam tamanha capacidade que não era difícil prever que estavam destinados a desempenhar um papel na história do Marrocos. Começaram consolidando seu poder no Atlas, tanto pela diplomacia quanto por uma série de pequenas guerras, nas quais superaram a si mesmos em feitos de armas e durante as quais ambos foram feridos repetidas vezes. Como Comandante-em-Chefe das forças xerifianas, o mais velho foi empregado por Mulai Abdul Aziz em suas guerras contra as tribos do Rif. Enquanto isso, a facção Glaoua no sul tornava-se todo-poderosa e, quando Mulai Hafid, em 1908, desfraldou o estandarte da revolta contra o irmão, os chefes Glaoui o apoiaram. Sem eles, sua causa necessariamente teria fracassado de imediato. Madani tornou-se ministro da Guerra e, mais tarde, Grão-Vizir; seu irmão, Haj Thami, foi nomeado Governador de Marrakesh e das tribos vizinhas. Competentes na arte do governo nativo, eram igualmente competentes na administração dos próprios assuntos. Suas propriedades, as mais extensas entre todas, excetuadas talvez as terras do Maghzen pertencentes ao Sultão, eram admiravelmente trabalhadas e administradas, e enormes receitas afluíam. No momento em que se declarou o Protetorado francês, os dois homens capazes lançaram sua sorte ao lado da França e serviram-na com lealdade. Inteligentes e conscientes havia muitos anos de que o fim da independência do Marrocos poderia ser adiado durante breve período, mas acabaria sendo inevitável, os irmãos Glaoui jamais ocultaram sua preferência pela reforma e seu desejo de abrir as riquezas do Marrocos. A raça berbere possui não apenas agudeza de inteligência, mas também uma atividade ausente nos demais habitantes do Marrocos. Estradas, ferrovias e máquinas lhes agradam, e mostram-se ansiosos por sua introdução. Sua mentalidade é europeia, não africana.
Madani Glaoui morreu há dois anos, homem verdadeiramente lamentado não apenas pelos franceses, aos quais prestou grandes serviços, mas também pelos nativos. Era um dos maiores, mais ricos e mais generosos chefes berberes, homem de maneiras encantadoras e grande erudição. Seu irmão, Haj Thami, ainda relativamente jovem, é hoje Basha de Marrakesh. Leva vida simples em meio a muito esplendor e passa todas as horas que consegue poupar de seus deveres oficiais visitando suas propriedades ou manuseando e lendo sua maravilhosa coleção de manuscritos árabes. Em uma de minhas visitas à Kasbah deles em Teluet, creio que no ano de 1901, deixei-me persuadir a permanecer mais e mais, embora já devesse estar a caminho da costa. Primeiro fora o Kaid Madani quem me pedira que ficasse mais um dia, depois um ou outro de seus irmãos ou primos, e assim por diante. Todas as manhãs eu me preparava para partir, e todas as vezes imploravam-me que permanecesse. Por fim, realmente esperava receber permissão para ir embora, mas fui conduzido a um grande pátio dominado pelas muralhas ameaçadoras da Kasbah. Nos telhados em terraços reunia-se uma multidão de mulheres veladas. Meu anfitrião, pedindo-me que olhasse para cima, disse: “Hoje são nossas mulheres que lhe imploram que fique”, e, com um grande brado, as mulheres manifestaram suas boas-vindas. Os berberes são menos rigorosos em relação às mulheres, e muitas vezes conversei com senhoras idosas da família Glaoua. Ao perguntar a uma dessas personagens, parente muito próxima de Sid Madani, por que as mulheres da Kasbah desejavam que eu prolongasse minha permanência, respondeu: “Porque, desde que está aqui, há uma trégua na guerra e nas vendetas. Nossos filhos e os filhos de nossos filhos estão seguros. Antes de sua chegada, ninguém jamais ria na Kasbah, pois os homens só pensam na guerra e nós, mulheres, apenas na morte; mas, durante quinze dias, rimos e cantamos, sem sentir medo. Quando partir, porém, a trégua terminará, e todo o nosso riso cessará.” Isso fazia compreender a vida na Kasbah de Teluet.
Quando Sid Madani Glaoui estava em Fez como Grão-Vizir durante o reinado de Mulai Hafid, tinha consigo apenas alguns de seus numerosíssimos filhos. Entre esses poucos estava um filho predileto de uma escrava negra. Tinha cerca de doze anos, pele muito escura, mas extraordinária vivacidade e inteligência, e era muito divertido. Infelizmente, esse temperamento possuía desvantagens, e sua conduta, para a idade, era vergonhosa. Já se entregara à mais desenfreada das vidas. O pai o enviara à escola francesa, mas ele só aparecia ali nas ocasiões mais raras. Não importava quantos servidores do Vizir o levassem até a porta, invariavelmente conseguia escapar de algum modo e passava os dias em companhias muito menos recomendáveis em outros lugares. Por fim, as coisas ficaram tão ruins que o professor insistiu em queixar-se pessoalmente ao pai. O rapaz foi convocado à presença dele e perguntaram-lhe por que faltava às aulas. Negou, para surpresa dos dois. Insistiu que frequentava regularmente a escola e que a acusação só existia porque o professor não gostava dele. Naturalmente, o professor continuou a contradizê-lo, até que o rapaz disse: “Bem, posso provar. Se eu não tivesse ido à escola, não saberia falar francês. Examinem-me.” Chamaram às pressas um argelino do séquito do Vizir e pediram-lhe que se dirigisse ao rapaz em francês. Ele assim fez, e o diabrete negro respondeu com a facilidade quase de um parisiense, mas não era o francês que meninos em idade escolar deveriam aprender. As expressões e palavras empregadas fizeram os cabelos do professor se arrepiarem, mas ele indiscutivelmente falava francês, com fluência assustadora. Não o aprendera em uma escola para “filhos de cavalheiros”, nem tampouco em uma escola para “filhas de senhoras”, mas em um café chantant francês, como o estabelecimento chamava a si mesmo, instalado recentemente no bairro judeu da cidade.
Os judeus do Marrocos constituem uma raça à parte. Há dois ramos distintos, os descendentes dos judeus berberes originais do país e os descendentes daqueles que migraram da Espanha, em sua maioria no século XV. Enquanto estes últimos preservaram o espanhol como língua materna, os primeiros usam o Shelha, berbere, ou o árabe, conforme a parte do Marrocos que habitam. O tipo, como seria de esperar, é muito diferente, e muitas vezes é difícil, quando não impossível, distinguir entre os israelitas do Atlas e os membros das tribos berberes muçulmanas vizinhas. Até mesmo se vestem da mesma maneira, exceto pelo pequeno barrete preto comum às tribos judaicas. A origem desses judeus nativos é desconhecida, mas sua existência no Marrocos remonta a grande antiguidade. Há uma tradição segundo a qual foram expulsos da Palestina por Josué, filho de Nun, mas parece mais provável que fossem berberes nativos convertidos do paganismo em época muito antiga.
Esses judeus originais habitam o interior do país, principalmente as cidades, embora muitos estejam dispersos entre as tribos. Vivem isolados e consideram os judeus mais instruídos de origem espanhola inclinados à heterodoxia, quando não realmente heterodoxos. As circunstâncias em que passam a vida entre membros orgulhosos e fanáticos das tribos muçulmanas naturalmente não ofereceram aos judeus nativos nenhuma facilidade nem incentivo para o progresso. No caso dos judeus de ascendência espanhola, houve um movimento notável durante os últimos cinquenta anos. Aproveitaram todas as formas e espécies de educação para aumentar seu bem-estar social. Escolas foram construídas, professores europeus contratados, e tudo isso foi realizado quase inteiramente com fundos arrecadados localmente. A “Alliance Israélite” forneceu em grande parte o pessoal das escolas, mas a onda de educação foi obra dos próprios judeus inteligentes. Nenhum sacrifício foi grande demais, nenhum esforço excessivo, com o resultado de que hoje quase não existe judeu nas cidades costeiras do Marrocos que não fale, leia e escreva pelo menos duas línguas, enquanto a maioria fala três. Esses judeus de origem espanhola
310 O MARROCOS DE ANTIGAMENTE compartilham com seus correligionários do Oriente o título de “Sefarditas”. Quando foram expulsos da Espanha, depois de um período de perseguição cruel, procuraram refúgio no Marrocos. Já constituíam uma raça instruída e civilizada, muito à frente, em erudição e nas artes, da maioria dos espanhóis entre os quais já não lhes era permitido viver. Ao chegar ao Marrocos, encontraram os judeus de origem berbere vivendo em uma posição de inferioridade que lhes seria inteiramente impossível aceitar. Negociaram, portanto, com o Sultão uma “Ordonnance” acerca do estatuto que poderiam possuir no país, a qual, ao mesmo tempo, estabelecia determinadas regras para orientar sua própria conduta, para que a vida entre seus correligionários nativos mais ignorantes não os levasse a abandonar alguns de seus princípios mais civilizados e civilizadores. Essa “Ordonnance” ainda é observada e é conhecida pelos “Sefarditas” como “Decanot”. Contém, entre muitas outras cláusulas, regras sobre contratos de casamento e sobre a sucessão dos bens.
Os “Sefarditas” do Marrocos são um povo notável, que prestou e continua prestando grandes serviços ao país. Trabalhadores, inteligentes, homens de negócios atentos e organizadores competentes, os judeus espanhóis do Marrocos progrediram na civilização, na educação e na fortuna de uma maneira altamente digna de elogio.
Muito antes, porém, desse “renascimento” moderno, os judeus “Sefarditas” do Marrocos, apesar das grandes dificuldades e desvantagens em que viviam, haviam conquistado para si uma posição no país. Como banqueiros e prestamistas, tornaram-se indispensáveis, e também exerciam muitas outras profissões. Alfaiates, joalheiros, fabricantes de tendas e trabalhadores do metal eram praticamente todos judeus. O “Mellah”, como se chama seu bairro, era o centro do comércio. Em suas lojas, nada era pequeno demais para ser comprado: vi caixas de fósforos de cera divididas e vendidas em grupos de meia dúzia; enquanto o mesmo comerciante, ou talvez seu irmão, conduzia o visitante até sua casa e, em um aposento superior com a porta trancada, oferecia-lhe um colar de pérolas, uma grande esmeralda em cabochão ou um diamante do tamanho de um xelim.
Em muitos aspectos, sua condição, embora fossem perseguidos como raça, era preferível à do muçulmano. Possuíam leis próprias, administradas por seus rabinos. Sua tributação era arrecadada separadamente por seu próprio povo e paga ao Sultão como uma espécie de oferenda. Naturalmente eram espremidos e, de vez em quando, seu bairro era saqueado, mas jamais existia o perigo individual de perseguição a que o muçulmano estava sujeito em todos os momentos. Quase sempre conseguiam acesso às autoridades e até aos Sultões que, em suas conversas com os muitos judeus e judias que trabalhavam, como fabricantes de tendas e alfaiates, no palácio, eram muito mais íntimos e afáveis que com o próprio povo. Tanto Mulai Abdul Aziz quanto Mulai Hafid possuíam amigos pessoais entre os judeus de Fez e Marrakesh,
com os quais mantinham relações de considerável intimidade. Como resultado, os judeus do Marrocos, enquanto raça, conseguiam com muito mais frequência, por meio de suas amizades na Corte e com os vizires, obter justiça pelas injustiças sofridas que seus vizinhos muçulmanos; e mesmo nos distritos rurais, um comerciante judeu era temido. Talvez zombassem dele ou às vezes o intimidassem um pouco, mas raramente era verdadeiramente maltratado. Um exemplo do medo que os judeus inspiravam chegou a meu conhecimento pessoal durante minhas viagens muitos anos atrás. Um judeu que viajava sozinho de mercado rural em mercado rural foi assassinado, e seu pequeno estoque de mercadorias e os poucos dólares que possuía foram roubados. O assassinato ocorreu no distrito densamente povoado do Gharb, entre dois dos mercados mais importantes, durante as primeiras horas da noite. Eu conhecia bem o homem, que visitava constantemente os “souks”. Durante um ou dois dias, nada se soube, exceto que ele deixara de ser visto nos mercados. É verdade que poderia ter regressado a Alcazar, sua cidade natal, para reabastecer o estoque, mas parecia certo que fora morto. Seu corpo, contudo, não foi encontrado, embora naquelas planícies niveladas, densas de aldeias de tendas e cabanas, fosse difícil escondê-lo. Tudo o que se podia afirmar com certeza era que desaparecera.
Ora, o que acontecera fora o seguinte. Depois de roubarem o corpo, os assassinos deixaram-no durante a noite logo fora de uma aldeia vizinha. Ao amanhecer, os aldeões o encontraram e, aterrorizados diante da possibilidade de serem acusados de matar um judeu, esconderam o cadáver até a noite, quando o carregaram furtivamente para longe e o deixaram nos arredores de outra aldeia. Ali se praticou novamente a mesma manobra e, dia após dia e noite após noite, o corpo foi escondido e transportado adiante. Pouco importava que, com o tempo, o estado do cadáver demonstrasse claramente que o assassinato ocorrera havia bastante tempo. O simples fato de ser encontrado perto de uma aldeia teria constituído prova suficiente de culpa, não importando o quanto estivesse decomposto. A punição inevitável teria sido severa, prisões e confiscos, para os aldeões inocentes. Se o homem assassinado fosse muçulmano, pouca atenção se daria ao caso, mas o assassinato de um judeu era muito mais grave. O assunto chegou a meus ouvidos, pois os habitantes de uma aldeia confiaram-me que haviam encontrado o corpo naquela manhã e que, como a morte ocorrera semanas antes, transportá-lo para outra aldeia constituía tarefa extremamente difícil. Intervim e comuniquei a descoberta às autoridades, e os aldeões não sofreram punição.
O instinto comercial é naturalmente muito forte entre os judeus marroquinos. Sua existência no passado foi sempre uma luta, e a vida, difícil. Um dos muitos amigos que possuo entre essa raça contou, com delicioso senso de humor, uma anedota de sua primeira infância. Acabara de começar a estudar em hebraico os pormenores de sua fé, e sua alma ardia com a ideia de que o Messias prometido poderia chegar a qualquer momento. Ao dar boa-noite aos pais e parentes, sussurrou à velha avó, senhora de grande influência na família: “A senhora acha que o Messias virá esta noite?” Ela acariciou-lhe suavemente a cabeça e disse: “Não se preocupe com isso, meu querido. Ele virá no dia certo. Aprenda a somar; aprenda a somar.” Era uma velha senhora prática, e o neto seguiu seu conselho. Hoje é o líder da comunidade judaica de uma das cidades mais importantes do Marrocos, homem honrado e rico, de grande generosidade e devoção inabalável aos interesses de seu povo.
Os judeus observam com grande rigor a letra da lei e, embora eu tenha todo o respeito pela devoção, certa vez fiquei realmente muito irritado com a rígida obediência de um israelita idoso a seus mandamentos.
Eu acampava na província do Gharb durante o inverno. A chuva caía em torrentes, e o chão estava coberto de lama profunda. Durante o jantar, chegou um jovem judeu que, entrando abruptamente em minha tenda, começou a chorar. Assim que conseguiu fazer-se entender, declarou que o pai, acampado em uma aldeia vizinha, estava muito doente. Ouvira falar da chegada de um “cristão” e implorou-me que fosse vê-lo. Fui, acompanhado por meus homens, que levavam lanternas. Foi uma longa caminhada, e chovia torrencialmente; mas por fim chegamos ao lugar onde estava armado o acampamento dos judeus, duas grandes tendas do tipo sempre usado pelos comerciantes judeus viajantes. Tudo estava às escuras.
Fui recebido, à luz de minhas próprias lanternas, pelo pai do jovem, que, cercado por seus fardos de tecidos e mercadorias de algodão, parecia a própria imagem da saúde. Depois dos cumprimentos habituais, perguntei o que poderia fazer.
Era noite de sexta-feira e, portanto, os judeus já haviam iniciado o Sabá. Com muitos pedidos de desculpas, o comerciante informou-me de que o vento apagara suas lanternas e, como era o Sabá, não tinham permissão de riscar fósforos e, portanto, não conseguiam tornar a acendê-las. Os mouros, que ele chamou de infiéis, haviam-se recusado a ajudá-los, razão pela qual fora obrigado a incomodar-me! Eu caminhara algumas milhas através de lama profunda, tarde da noite, sob chuva torrencial, para riscar um fósforo!
Risquei-o, e orgulho-me de que tenha sido a única coisa que risquei. Deixei-o com as lanternas acesas, mas obriguei-o a dar uma gorjeta tão generosa a meus homens pela caminhada longa e cansativa que, no futuro, ele provavelmente preferiria passar semanas na escuridão a correr o risco de perturbar outro cristão.
Uma família muçulmana que sofreu muitas vicissitudes foi a de um antigo Governador dos Oulad Sifian, no Gharb. Haj Bouselham er-Remoush fora, em certa época, um grande homem. Devia a nomeação a amigos e subornos na Corte e rapidamente se tornou personagem influente e rica. Na verdade, para os padrões dos Kaids mouros, não era mau Governador. Naturalmente praticava a extorsão, e suas prisões estavam cheias, mas a tribo que governava não se queixava em excesso, o que significava que ele devia possuir algumas boas qualidades. Essas boas qualidades certamente não estavam em seus filhos. O mais velho, Vice-Governador, era um patife completo. Excelente cavaleiro, sempre belamente vestido, apresentava exteriormente uma personalidade atraente; mas bebia copiosamente, e nenhuma mulher ou jovem bela dentro de sua jurisdição estava a salvo de suas atenções. Ainda era quase um rapaz quando veio a queda. Haviam chegado ao Sultão queixas sobre sua licenciosidade e, como consequência, o pai foi pesadamente “espremido” pela Corte, e sua fortuna não resistiu à pressão. Quando os vizires extraíram tudo o que ele tinha para dar, chegou um bando de tropas e prendeu todos os membros masculinos da família, enquanto os soldados passaram o dia ou os dois dias seguintes em seu harém. A casa foi derrubada pedra por pedra na busca por tesouros, e o Kaid e seus dois filhos mais velhos foram enviados acorrentados para Marrakesh. Seu lar transformou-se em ruína, e os jardins foram destruídos. Ainda hoje, em meio a um emaranhado de figueiras-da-índia, podem-se ver os restos daquilo que um dia fora uma residência importante.
Haj Bouselham, homem idoso acostumado a todos os luxos da riqueza, sucumbiu rapidamente aos horrores da prisão de Marrakesh. Seu filho mais velho morreu pouco depois. O terceiro, ainda menino, foi libertado. Alguns anos depois, enquanto eu cavalgava pelos cumes das colinas perto de Wazzan, um pastor que cuidava de um rebanho de cabras falou comigo. “O senhor não me reconhece”, disse; “sou Mohamed, filho de Haj Bouselham er-Remoush.” Pedi-lhe que me contasse sua história. Libertado da prisão, naturalmente sem um centavo, refugiara-se entre os parentes da mãe, que também haviam sofrido no confisco geral ocorrido depois da queda do pai. Agora era pastor de cabras; e apenas alguns anos antes, quantas vezes eu o vira montado em um de seus belos cavalos, sobre sela bordada a ouro e cercado por escravos.
Alguns anos mais tarde, encontrei-o novamente. Sua sorte mudara. Parte de suas propriedades confiscadas fora recuperada, e ele era um jovem membro de tribo em boas condições, seguindo um caminho próspero. Hoje, sob um governo mais benigno, é importante proprietário de terras e agricultor e volta a montar belos cavalos.
Em regra, as famílias permaneciam unidas para o bem e para o mal. Sua segurança dependia da coesão e do número. No momento em que um homem era nomeado Kaid, reunia todos os irmãos, tios e primos e os instalava ao redor de si. Isentava-os da tributação e permitia que roubassem. Era tanto a força numérica de seus servidores quanto seu prestígio que o mantinha imune ao assassinato e à revolta. Ainda assim, às vezes as famílias se dividiam, e então ai delas.
Cerca de trinta anos atrás, depois da morte de um dos grandes Kaids do sul, seu filho mais velho apressou-se até a Corte do Sultão, levando mulas carregadas de dinheiro, para comprar sua sucessão ao cargo do pai. Havia um filho mais novo que ainda tinha permissão de entrar nos aposentos das mulheres, e cuja mãe fora a esposa predileta do velho Kaid, permanecendo até a morte dele como sua confidente. Ela sabia perfeitamente qual seria seu destino caso o filho mais velho conseguisse comprar a sucessão, ela e seu filho seriam expulsos e deixados para morrer de fome, caso o jovem não fosse assassinado, pois a disputa entre os membros da família era mortal. Ela possuía uma carta decisiva, quase sempre a carta vencedora no Marrocos. Ela, e somente ela, sabia onde estava escondida a fortuna secreta do Kaid morto. Sob os cuidados de alguns parentes, enviou o filho às pressas para a Corte. Ele chegou e descobriu que o meio-irmão já fora nomeado para o cargo de Kaid e partira naquela mesma manhã para regressar à tribo. Não havia um instante a perder. O jovem e seus conselheiros procuraram o Grão-Vizir e perguntaram quanto o irmão havia pago pela sucessão. Disseram-lhes a quantia, e então o irmão mais novo ofereceu soma ainda maior em troca de uma carta do Sultão nomeando-o para o posto, com autoridade imperial para tomar todas as medidas que considerasse necessárias a fim de destituir o irmão. O acordo foi fechado rapidamente e, acompanhado por um forte contingente de cavalaria colocado a sua disposição pelo Sultão, partiu em perseguição. Encontraram-se fora das muralhas da Kasbah e, dominado pelas tropas, o filho mais velho do antigo Kaid foi feito prisioneiro e lançado em uma masmorra do castelo. Nem é preciso dizer que jamais saiu vivo. Os soldados permaneceram durante alguns dias e regressaram ao Sultão, levando o preço prometido pelo cargo, pois o filho desenterrara, debaixo da grande bacia de uma fonte no pátio da Kasbah, o tesouro secreto do pai.
Não havia crime que o Maghzen não cometesse por dinheiro. Não raro, os próprios Sultões conduziam seus negócios. Mulai Hafid, com razão, depositava pouca confiança em seu séquito, sentimento mútuo, e não havia transação financeira, por mais duvidosa que fosse sua moralidade, que não assumisse pessoalmente, quase sempre com êxito.
Toda a atmosfera do palácio estava impregnada de extorsão. Os Sultões nunca hesitavam em apropriar-se, de maneira brincalhona, porém definitiva, de qualquer objeto que lhes despertasse o desejo, caso o proprietário mantivesse com eles relações que não fossem as mais formais. Repetidas vezes fui vítima desses pequenos furtos, carteiras, abotoaduras, alfinetes de gravata. Logo se aprendia a não levar nada de valor aos recintos da Corte. Não se deve imaginar que fossem oferecidos presentes em troca, pois era realmente raro que algum Sultão desse qualquer coisa. De vez em quando, eram generosos com os bens de outra pessoa, e mesmo isso era raro. As visitas à Corte de Mulai Abdul Aziz e Mulai Hafid eram caras. Muitos pensavam que os poucos afortunados para os quais aqueles portões hermeticamente fechados se abriam estavam fazendo fortuna. Alguns faziam, aqueles que tinham mercadorias para vender; mas os que, como eu, eram visitantes ocasionais pagavam muito caro pelo privilégio da entrada. Uma das formas mais comuns de roubo era a seguinte. Ao chegar aos portões do palácio, o cavalo do visitante era tomado pelos escravos negros. Ao sair mais tarde dos recintos, os escravos estavam ali, mas o cavalo, invisível. Protestos e ameaças não produziam efeito; era preciso fazer um pagamento, muitas vezes elevado, para recuperá-lo. Em certa época, minhas audiências com Mulai Hafid, então em Fez, ocorriam quase diariamente, e essa forma de extorsão tornou-se tão cara que acabei entrando “em greve”, pois muitas vezes me custava de duas a três libras recuperar o cavalo. Em uma ocasião, perdi a calma e amaldiçoei os escravos. Sem conseguir reparação alguma, regressei em uma explosão justificada de raiva e queixei-me ao Grão-Vizir. O Sultão me ouviu e convocou-me a sua presença, onde falei com igual energia. Disse-lhe que, na Europa, as pessoas pagavam ingresso para ver monstruosidades em espetáculos de feira, mulheres gordas e homens tatuados, mas eu não permitiria que me roubassem daquela maneira perfeitamente injustificável e em grande escala toda vez que fosse vê-lo. Acrescentei que era ele quem mandava chamar-me. Quanto a mim, era indiferente àquelas entrevistas e estava inteiramente disposto a não regressar se a situação não fosse corrigida. O Sultão acalmou meu ânimo ferido, falou um pouco de bondade e caridade e terminou dizendo: “Não deve julgá-los com demasiada severidade. Veja, nenhum deles recebe salário, e vivem do que conseguem. Contudo, farei com que sejam castigados, para que não voltem a incomodá-lo”, e ordenou ao Grão-Vizir que mandasse açoitá-los. Naturalmente,
intervim, sabendo o que frequentemente eram esses açoites, mas não precisava ter-me dado ao trabalho. Foram açoitados, mas apenas de maneira fingida, meia dúzia de golpes em cada um que mal teriam ferido uma criança pequena. Ao chegar à porta do palácio poucos minutos depois, meu cavalo desaparecera novamente! Fora levado pelos escravos que haviam administrado o bastinado e que agora exigiam pagamento pelo castigo infligido a seus companheiros de escravidão por uma infração exatamente igual. Nada havia a fazer. Paguei.
Hoje tudo é muito diferente no palácio. A etiqueta tradicional e histórica é rigorosamente seguida em todas as ocasiões de Estado, mas sente-se a mão organizadora. Os escravos e soldados estão belamente vestidos. Os funcionários da Corte, em suas longas roupas brancas, são a própria cortesia, e uma recepção oficial do atual Sultão em seu palácio é espetáculo digno de ser visto. Nos pátios exteriores estão seus guardas negros em escarlate e ouro, cavalaria e infantaria, sua banda de músicos em “kaftans” das cores do arco-íris, e os longos corredores estão cheios de servidores do palácio. Na sala do trono, sentado em um divã, o Sultão recebe os convidados como anfitrião inteligente e afável. É verdade que as “surpresas” desapareceram, mas todo o restante continua, até mesmo os leões que rugem em suas jaulas em um canto do jardim interior. Os palácios são os mesmos, mas varridos, limpos e ornamentados, pois antigamente apenas a parte dos grandes edifícios efetivamente habitada pelo Sultão era conservada em bom estado. Visitei os palácios de Fez e
Marrakesh pouco depois da abdicação de Mulai Hafid. Eu já vira determinadas partes deles, mas a existência de centenas de mulheres sob o antigo regime, muitas delas viúvas, escravas e descendentes de Sultões mortos, impedia a visita a muitos pátios e edifícios. Com a chegada do novo regime, tomaram-se outras providências para essas pensionistas do palácio, em grande benefício delas, e iniciou-se a restauração dos edifícios. Havia, contudo, muito que não podia ser restaurado, pátio após pátio, nos quais os tetos dos aposentos haviam desabado e onde era literalmente perigoso caminhar. A impressão transmitida pelo conjunto era a de que, com exceção de algumas das partes mais antigas e de algumas das mais modernas, os Sultões haviam sido terrivelmente “enganados” por seus construtores e pelos homens responsáveis pela manutenção. Sem dúvida, sempre fora assim. Os funcionários da Corte e os vizires exigiam e recebiam comissões, e que comissões!, por todos os trabalhos realizados nos palácios. Em regra, a decoração palaciana não é melhor que a existente nas magníficas residências particulares de Fez e Marrakesh, e a execução costuma ser nitidamente inferior. A maior parte dos palácios existentes foi construída por Mulai Hassen, avô do atual Sultão Mulai Youssef, morto em 1894. Para levantar aqueles acres e mais acres de edifícios, ele deve ter destruído boa parte do que existia antes. Dos palácios das antigas dinastias, nada resta além das ruínas mais insignificantes, algumas muralhas em Fez do palácio dos ix, Marrakech (Maroc). SALA NO PALÁCIO DO PACHA, MARRAKESH.
Merínidas e, em Marrakesh, as grandes muralhas e o recinto daquilo que deve ter sido o mais belo de todos os edifícios marroquinos, o palácio dos Sultões Saadianos, cuja dinastia terminou no século XVII. Seu mausoléu, datado do século XVI, o mais belo edifício do Marrocos, ainda permanece intacto como exemplo da perfeita arte mourisca; e não há dúvida, pelas descrições da época, de que o palácio vizinho possuía beleza e magnificência incomparáveis. A planta de seu grande pátio, com imensos reservatórios de água e fontes, ainda pode ser claramente distinguida; enquanto, em uma das extremidades, diante de um longo caminho reto revestido de azulejos entre duas das grandes bacias, estão as ruínas da sala de audiências do Sultão, um vasto aposento quadrado. As paredes ainda permanecem de pé, mas o teto desabou há muito tempo. A descrição desse palácio nos dias de glória parece uma página das Mil e Uma Noites. Aquilo que levara um século para ser construído foi destruído em um dia. A dinastia saadiana caiu, e o cruel déspota Mulai Ismail tomou o trono. Seu primeiro ato foi ordenar a destruição daquele famoso palácio de seus antecessores, e o grande edifício foi saqueado pelos soldados e pela multidão. Muitas das casas antigas de Marrakesh possuem hoje degraus formados por pequenas colunas, ou partes de colunas maiores, de mármores raros, vestígios das colunatas que outrora adornavam o magnífico palácio da dinastia mais intelectual e civilizada de que o Marrocos jamais se orgulhou. Talvez a mudança mais evidente ocorrida no Marrocos esteja na atitude do povo diante da assistência médica e cirúrgica. No passado, o mouro estava muitas vezes disposto a aceitar a ajuda de médicos europeus e possuía certa fé em seus remédios, mas as oportunidades eram poucas. As Missões Médicas de Fez e Marrakesh eram muito frequentadas e prestavam grandes serviços, e os médicos ligados à Corte do Sultão possuíam certa clientela. Em regra, a fé do nativo era pouco entusiástica, suficiente para aceitar medicamentos caso nada fosse cobrado, mas raramente do tipo que pagaria uma consulta. Muitas vezes, também, o remédio não era tomado e, secretamente, no fundo do coração, o paciente às vezes depositava muito mais fé no benefício que poderia resultar da companhia do médico que nos medicamentos recomendados. Pouco tempo atrás, vivi um bom exemplo disso. Um mouro, meu vizinho, estava muito doente de febre tifoide e, por recomendação minha, suas mulheres convocaram um excelente médico para atendê-lo. Eu sempre acompanhava o médico nas visitas. O homem estava desesperadamente doente. O médico e eu explicamos cuidadosamente às mulheres como os remédios deveriam ser administrados, e elas aparentemente seguiram nossos conselhos à risca. Certo dia, porém, chegando inesperadamente à casa na hora em que o paciente deveria tomar o medicamento, vi sua esposa medir cuidadosamente a dose no copo e despejá-la fora de maneira deliberada. Permaneci escondido durante alguns instantes e então revelei que estava ali. Perguntei se o homem tomara o remédio. Erguendo o frasco e apontando a diminuição do conteúdo, a mulher respondeu: “Sim; acabou de tomá-lo.” Disse-lhe que a vira jogá-lo fora. Demonstrou pouca ou nenhuma confusão, mas declarou: “A companhia do médico é suficiente, sem suas drogas. Seu conhecimento é o que tem utilidade, quem sabe o que suas drogas contêm?” Vivi muitos casos semelhantes, um deles tão absurdo que merece ser repetido. Encontrei por acaso um velho nativo que tinha uma ferida terrível na panturrilha de uma das pernas e perguntei-lhe se iria ao hospital como paciente externo para receber tratamento. Concordou prontamente, e escrevi em um cartão de visita algumas palavras ao médico responsável. O homem apanhou o cartão e seguiu caminho. Um ou dois dias depois, encontrei-o, com a perna envolta em um trapo imundo. Perguntei-lhe se fora ao hospital. “Não”, respondeu, “não houve necessidade. Minha perna já está melhor.” Insisti em ver a ferida. Debaixo da bandagem fétida, amarrado diretamente sobre a chaga aberta, estava meu cartão de visita! Perguntei-lhe por que o colocara ali. “Sua bondade”, disse, “e o conhecimento do médico a quem estava endereçado constituem cura suficiente, por isso apliquei o cartão sobre a ferida. Já está melhor.” Não estava. Na verdade, encontrava-se nitidamente pior, razão pela qual levei o velho à força até o hospital, onde recebeu tratamento. Ao encontrar alívio quase imediato para a dor, seguiu os conselhos do médico e continuou as visitas até que a perna sarou. Tentei mostrar-lhe a insensatez de sua própria ideia de cura, mas ele se limitava a responder: “Seu cartão era suficiente. Teria sarado da mesma maneira se o senhor tivesse permitido que eu o deixasse ali.”
As mulheres eram, e ainda são, as mais difíceis, mas mesmo entre elas ocorreu grande mudança, e a Missão Médica para mulheres em Fez, tão admiravelmente conduzida por duas estimáveis senhoras inglesas, ou melhor, irlandesas, prestou imensos serviços. É curioso que em Fez, a mais fanática de todas as cidades marroquinas, se tenha obtido o maior avanço nesse trabalho médico com mulheres. Em outros lugares, alcançou-se considerável êxito, mas em nenhum outro, creio, as casas e os corações das mulheres nativas se abriram tanto aos “cristãos” quanto na capital setentrional. Nenhuma grande cerimônia em qualquer das casas aristocráticas está completa sem a participação das senhoras da Missão Médica. Falando a língua com perfeita fluência, conseguiram, por suas boas obras, e talvez ainda mais por seu bom caráter, tornar-se muito justa e sinceramente amadas. Pelo menos parte do segredo de seu êxito foi aquilo que tantas vezes falta, alegria e amor, que constituem, afinal, talvez o equipamento mais importante do verdadeiro Cristianismo.
Antigamente, a massa do povo contentava-se com o poder curativo de seus Xerifes e com os amuletos dos “tholba”, ou estudantes de religião. Visitavam certos lugares sagrados, em sua maioria túmulos, onde se faziam orações. Outros, ainda mais ignorantes, convocavam para junto do leito de seus enfermos dançarinos negros e devotos da seita “Aissaoua”, e o barulho de sua música e de seus cânticos deveria ser suficiente para expulsar todos os djinns do Marrocos. Ao mesmo tempo, existe certo conhecimento de ervas entre o povo do campo, e muitos dos remédios aos quais recorrem não são de modo algum desprezíveis. A redução de fraturas é praticada regularmente, e bem praticada, com talas de madeira e cana.
Há muito os mouros conhecem o valor medicinal de determinadas fontes termais, muito procuradas para a cura de doenças de pele e outras enfermidades comuns no país. Particularmente famosos são os banhos quentes de Mulai Yakoub, não muito longe de Fez, e o benefício obtido é indiscutível. Conheci nativos que mal conseguiam chegar a cavalo ao lugar e estavam cobertos de feridas, mas que, depois de permanecer entre vinte e trinta dias ali, regressaram curados.
À parte os vendedores de medicamentos estranhos que podem ser vistos em qualquer mercado marroquino, com seu estoque disposto diante deles, predominando animais secos medonhos e peles de aves comidas pelas traças, há certo número de médicos nativos. Os mais célebres são Xerifes de Dades, oásis situado ao sul do Grande Atlas. Esses homens alegam possuir conhecimentos inspirados e hereditários, e não há dúvida de que ainda existe entre eles algum vestígio de saber médico. Operam cataratas, não as removendo, mas deslocando-as, procedimento pelo qual muitas vezes se recupera a visão, embora sem qualquer certeza de que a cura seja mais que temporária. São também habilidosos na remoção de partes fraturadas do crânio. Não há verdadeira trepanação do osso, mas a parte quebrada é removida e recolocada, depois que o couro cabeludo é aberto e puxado para trás com um pedaço da casca seca de uma cabaça que, sobrepondo-se à parte intacta do crânio, cobre a abertura e protege o cérebro. O couro cabeludo é recolocado e suturado.
Talvez a prática mais engenhosa utilizada entre os berberes do Atlas seja o emprego da grande formiga vermelha para fechar ferimentos na pele. A arte de suturar feridas é conhecida e praticada, mas eles não possuem meios de desinfetar o material utilizado e afirmam que os pontos muitas vezes se abrem ou formam feridas. Por isso, empregam o seguinte método. Segurando juntas as duas bordas da pele, de modo que uma pequena parte de ambas fique saliente, aplicam uma formiga vermelha viva à ferida. A formiga fecha as fortes mandíbulas sobre a pele e é prontamente decapitada com o auxílio de uma tesoura. As mandíbulas permanecem fechadas, mantendo unidas as duas bordas da pele. Aplicam-se quatro ou cinco desses “grampos” a uma ferida de algumas polegadas de comprimento. Quando a cabeça da formiga finalmente cai, a ferida já se fechou. Esse sistema é de uso comum no Atlas, e o Governador de Marrakesh, Haj Thami Glaoui, contou-me que insiste em que seus homens o empreguem em preferência à sutura, a menos que esta possa ser realizada por um médico europeu com material desinfetado.
Os Sultões Mulai Abdul Aziz e Mulai Hafid interessavam-se por medicina e odontologia e confiavam em seus médicos. Um dentista inglês, que atendia as senhoras do palácio durante o reinado do primeiro desses dois Sultões, só tinha permissão de trabalhar na boca das integrantes do harém imperial através de um pequeno orifício aberto no lençol que envolvia inteiramente a paciente enquanto ela permanecia sentada na cadeira do dentista. Contudo, ele restaurou com tamanho êxito os dentes das senhoras do palácio que os vizires seguiram o exemplo, e o dentista passou a ter muito trabalho. Certo dia, o ministro das Relações Exteriores mandou chamar-me e, depois de algumas observações gerais, perguntou-me se eu conhecia o dentista. Respondi que sim e que era mestre em sua arte. O Vizir continuou dizendo que pessoalmente sabia muito pouco sobre odontologia e perguntou se, toda vez que sua mulher espirrava, era necessário que espirrasse também a nova fileira de dentes superiores até a metade do aposento. Respondi que duvidava de que isso fosse uma necessidade absoluta, mas perguntaria ao dentista. Assim fiz, e a dentadura da senhora foi rapidamente modificada para ajustar-se melhor. “É maravilhoso”, disse-me o Vizir mais tarde; “ela espirra e espirra, e os dentes nem sequer batem.”
Nos dias de Mulai Hassen, antes da chegada de um médico residente ao palácio, o Kaid Maclean, então jovem oficial, costumava aventurar-se pela medicina, e tão grande era a confiança que inspirava aos olhos do Sultão que até Sua Majestade se permitia ser tratado. O conhecimento do Kaid Maclean limitava-se ao conteúdo de sua caixa de remédios e a um livro de explicações. Em certa ocasião, as senhoras do palácio vinham sofrendo, provavelmente de indigestão, e, ao mesmo tempo, era necessário algum desinfetante para uma pessoa do palácio que se ferira em um acidente. O Kaid Maclean enviou os dois medicamentos, com instruções sobre como deveriam ser usados, mas, por algum engano, as senhoras engoliram as pastilhas comprimidas de permanganato de potássio em lugar do tônico. As pastilhas dissolveram-se no interior, mas provocaram violentos ataques de vômito e, para horror do Sultão e das próprias senhoras, elas começaram a vomitar aquilo que parecia ser uma enorme quantidade de sangue. Quanto mais vomitavam, mais aterrorizadas ficavam e, em resposta a uma mensagem aflita, o Kaid Maclean correu ao palácio. O Sultão estava fora de si de medo, mas logo se encontrou uma explicação, e as senhoras se recuperaram.
A primeira experiência de Mulai Abdul Aziz com o uso do clorofórmio poderia facilmente ter provocado consequências mais graves. O dr. Verdon, seu médico inglês, operara um escravo sob clorofórmio, e o Sultão estivera presente. Terminada a operação, Sua Majestade recolheu-se ao palácio levando consigo um grande frasco do anestésico. O médico tentou recuperar o frasco, mas em vão, e tudo o que pôde fazer foi advertir Sua Majestade para que tivesse muito cuidado com ele. Sem dúvida teve, pois aparentemente ninguém morreu; mas os rumores afirmam que suas mulheres ficaram espalhadas por todo o palácio, insensíveis como toras de madeira, pois ele tivera uma grande noite de cloroformização inteiramente para si. Mulai Hafid também apreciava bastante o uso do clorofórmio e insistiu em que fosse administrado a um leão que sofria de unhas excessivamente crescidas. O leão, cujo temperamento não era dos melhores, não recebeu com muita gentileza toda a operação, que, contudo, acabou sendo realizada com êxito, para satisfação de Sua Majestade Xerifiana.
Hoje, o povo acorre aos milhares aos hospitais e dispensários que os franceses abriram por toda a extensão de seu Protetorado. Ainda há espaço para mais trabalho médico, pois as doenças são abundantes, mas o que já foi realizado é admirável. O mouro que, antigamente, jamais teria pensado em aceitar a ajuda de um médico, agora corre ao dispensário mais próximo assim que se sente doente, e qualquer homem que sofre um acidente é imediatamente levado pelos companheiros de trabalho ao hospital nativo. Multidões aguardam pacientemente sua vez nos jardins e corredores, e os dias destinados às mulheres são quase tão congestionados quanto os reservados aos homens. Quaisquer que sejam os verdadeiros sentimentos do povo em relação aos europeus, sua confiança nos médicos “cristãos” é indiscutível. Ainda assim, as próprias pessoas que acorrem em massa em busca de assistência médica provavelmente não reconheceriam que ocorreu alguma mudança em suas opiniões. Não percebem que, apenas dez anos antes, mesmo que as possibilidades existissem, jamais teriam ousado demonstrar esse respeito exterior e essa crença na habilidade do “infiel”. Mas a mudança ocorreu gradualmente e passa despercebida por aqueles aos quais se deve. A mesma sequência de mentalidade pode ser observada de muitas outras maneiras. As “universidades”, medersas, de Fez e Marrakesh, fechadas durante séculos aos europeus, estão novamente abertas ao visitante cristão, que recebe permissão para entrar e admirar essas joias da arquitetura mourisca. As autoridades religiosas já não podiam insistir em mantê-las fechadas depois de reconhecerem que, alguns séculos antes, estudiosos cristãos haviam efetivamente recebido educação dentro de seus recintos e, assim, depois de alguma hesitação, decidiram permitir que as “medersas” fossem visitadas. As autoridades do Service des Beaux-Arts começaram imediatamente a restaurar essas obras-primas da arquitetura. A princípio, os estudantes ficaram chocados com a entrada do cristão e, em uma de minhas visitas à bela “medersa” de Ben Youssef, em Marrakesh, queixaram-se com bastante amargura de que os arquitetos franceses estavam restaurando a obra antiga e tomando liberdades com a estrutura. Preferiam, disseram, que fosse deixada em paz, em seu estado de ruína, a que fosse alterada por “descrentes”.
Um ano depois, regressei à “medersa”. Os mesmos estudiosos, ou muitos deles, ainda estavam ali. O Service des Beaux-Arts restaurara um dos lados do grande pátio, mas aguardava novos recursos antes de começar o restante. Mais uma vez, os estudiosos se queixaram, mas sua queixa era diferente: os arquitetos franceses haviam abandonado o trabalho. Que direito tinham de deixá-lo inacabado? Eu utilizaria minha influência para garantir que as restaurações fossem retomadas e concluídas? Recordei-lhes a queixa feita apenas um ano antes e sua oposição a que o trabalho sequer fosse iniciado. Eles riram e responderam: “Bem, veja, ontem era ontem, e hoje é hoje.”