As Planícies de Nauset Cape Cod · Capítulo 3 de 10
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As Planícies de Nauset

Na manhã seguinte, quinta-feira, 11 de outubro, chovia tão forte quanto nunca; ainda assim, estávamos decididos a prosseguir a pé. Primeiro fizemos algumas indagações sobre a viabilidade de caminhar pela costa do lado do Atlântico até Provincetown, e se encontraríamos algum riacho ou marisma que nos criasse dificuldades. Higgins disse que não havia obstáculo algum e que não era muito mais longe do que pela estrada, mas achava que encontraríamos uma caminhada muito “pesada” na areia; já era ruim o bastante na estrada, onde um cavalo afundaria até os boletos. Havia, porém, na taverna, um homem que fizera o percurso a pé, e ele disse que poderíamos seguir muito bem, embora às vezes fosse incômodo e até perigoso caminhar sob o barranco quando havia uma grande maré, com vento de leste, o que fazia a areia desmoronar. Nas primeiras quatro ou cinco milhas, seguimos a estrada, que aqui se volta para o norte no cotovelo, a parte mais estreita do Cabo, para contornarmos, à nossa direita, uma enseada do oceano, parte do porto de Nauset, em Orleans. Achamos o caminho suficientemente bom para pedestres pelas margens da estrada, embora fosse “pesado” para os cavalos no meio. Caminhávamos com os guarda-chuvas atrás de nós, pois ventava forte, além de chover, com névoas impelidas pelo vento, como no dia anterior, e o vento nos ajudava a avançar rapidamente sobre a areia. Tudo indicava que havíamos chegado a uma costa estranha. A estrada não passava de uma vereda, serpenteando por ondulações nuas de uma terra desolada e de aspecto estéril. As casas eram poucas e muito espaçadas, além de pequenas e gastas pelo tempo, embora parecessem bem conservadas, e seus quintais dianteiros, que eram o próprio Cabo sem cercas, estavam arrumados; ou, antes, pareciam ter o chão ao redor varrido pelo vento. Talvez a escassez de madeira ali, e a consequente ausência da pilha de lenha e de outros apetrechos de madeira, contribuíssem para esse aspecto. Pareciam, como marinheiros em terra, ter-se simplesmente sentado para desfrutar a firmeza do solo, sem cuidar da postura nem dos trajes. Para eles, era apenas terra firma e cognita, ainda não fertilis e jucunda. Toda paisagem suficientemente sombria possui certa beleza aos meus olhos, e, neste caso, suas qualidades permanentes eram realçadas pelo tempo. Tudo falava do mar, mesmo quando não víamos sua vastidão nem ouvíamos seu bramido. Em lugar de aves, havia gaivotas; em lugar de carroças nos campos, barcos virados de fundo para cima junto às casas; e, por vezes, a costela de uma baleia estava entretecida na cerca à beira da estrada. As árvores eram, se possível, ainda mais raras que as casas, exceto as macieiras, das quais havia alguns pequenos pomares nas depressões. Estas eram ou estreitas e altas, de copas chatas, tendo perdido os galhos laterais, como enormes moitas de ameixeiras crescendo em lugares expostos, ou então anãs, ramificando-se rente ao chão, como marmeleiros. Sugeriam que, em circunstâncias semelhantes, todas as árvores acabariam por adquirir hábitos de crescimento semelhantes. Mais tarde vi no Cabo muitas macieiras adultas que não eram mais altas que a cabeça de um homem; de fato, um pomar inteiro onde todos os frutos poderiam ter sido colhidos por um homem em pé no chão, embora mal se pudesse rastejar sob as árvores. Algumas, que os donos me disseram ter vinte anos, mediam apenas três pés e meio de altura, espalhando-se, a seis polegadas do chão, cinco pés em cada direção; e, além disso, cercadas de caixas de alcatrão para apanhar as lagartas-medideiras, pareciam plantas em vasos, como se pudessem ser levadas para dentro de casa no inverno. Em outro lugar, vi algumas pouco maiores que groselheiras; no entanto, o proprietário me disse que elas haviam produzido um barril e meio de maçãs naquele outono. Se tivessem sido plantadas juntas, eu poderia ter saltado por cima de todas de uma só vez. Medi algumas perto do Farol de Highland, em Truro, que haviam sido retiradas, ainda jovens, dos bosques arbustivos das redondezas e enxertadas. Uma delas, plantada havia dez anos, tinha em média dezoito polegadas de altura e se estendia por nove pés, com a copa chata. Dois anos antes, produzira um bushel de maçãs. Outra, provavelmente com vinte anos desde a semente, tinha cinco pés de altura e se estendia por dezoito pés, ramificando-se, como de costume, rente ao chão, de modo que não se podia rastejar por baixo dela. Esta produzira um barril de maçãs dois anos antes. O dono dessas árvores usava invariavelmente o pronome pessoal ao falar delas; por exemplo: “Tirei ele do bosque, mas ele não dá fruto.” A maior que vi naquela vizinhança tinha nove pés de altura até a folha mais alta e se estendia por trinta e três pés, dividindo-se rente ao chão em cinco direções.

Num quintal, observei uma única árvore de aspecto muito saudável, enquanto todas as outras estavam mortas ou morrendo. O morador disse que seu pai adubara todas, menos aquela, com blackfish.

Esse hábito de crescimento deveria, sem dúvida, ser estimulado; e elas não deveriam ter os galhos inferiores podados, como aconselharam alguns especialistas itinerantes. Em 1802, não havia uma única árvore frutífera em Chatham, a cidade seguinte a Orleans, ao sul; e o antigo relato sobre Orleans diz: “Não se consegue fazer árvores frutíferas crescerem a menos de uma milha do oceano. Mesmo as que são plantadas a maior distância são prejudicadas pelos ventos de leste; e, depois de tempestades violentas na primavera, percebe-se um sabor salgado em sua casca.” Notamos que muitas vezes estavam cobertas por uma ferrugem amarela semelhante a líquen, a Parmelia parietina.

As construções mais estrangeiras e pitorescas do Cabo, aos olhos de um homem do interior, sem excluir as salinas, são os moinhos de vento, torres octogonais de aspecto cinzento, com longas vigas inclinando-se até o chão na parte de trás e ali apoiadas sobre uma roda de carroça, por meio da qual suas pás são giradas para ficar de frente para o vento. Essas vigas também pareciam servir, em certa medida, de escoras contra sua força. Ao redor do edifício, a roda havia aberto um grande sulco circular. Os vizinhos que se reúnem para virar o moinho na direção do vento provavelmente sabem para que lado ele sopra sem precisar de um catavento. Pareciam soltos e ligeiramente móveis, como enormes aves feridas arrastando uma asa ou uma perna, e lembravam quadros dos Países Baixos. Por estarem em terrenos elevados e serem altos por si mesmos, servem de marcos, pois não há árvores altas, nem geralmente outros objetos que possam ser vistos à distância no horizonte; embora o contorno da própria terra seja tão firme e distinto que um cone insignificante, ou até um precipício de areia, seja visível de muito longe, do mar. Os marinheiros que se aproximam da costa costumam orientar-se pelos moinhos de vento ou pelas casas de reunião. No interior, somos obrigados a nos orientar apenas pelas casas de reunião. No entanto, a casa de reunião é uma espécie de moinho de vento que funciona um dia em cada sete, movido ora pelos ventos da doutrina ou da opinião pública, ora, mais raramente, pelos ventos do Céu, e onde se mói outro tipo de grão, do qual, se não for todo farelo ou estiver embolorado, se não for gesso, esperamos fazer o pão da vida.

Aqui e ali havia montes de conchas nos campos, onde amêijoas tinham sido abertas para servir de isca; pois Orleans é famosa por seus moluscos, especialmente as amêijoas, ou, como diz nosso autor, “falando com mais propriedade, vermes”. As costas são mais férteis que a terra seca. Os habitantes medem suas colheitas não apenas em bushels de milho, mas também em barris de amêijoas. Mil barris de isca de amêijoa são avaliados como equivalentes a seis ou oito mil bushels de milho-indiano, e antigamente eram obtidos sem maior trabalho ou despesa, julgando-se inesgotável o suprimento. “Pois”, diz a história, “depois que uma parte da costa foi revolvida e quase todas as amêijoas retiradas, ao fim de dois anos, segundo se afirma, elas voltam a ser tão abundantes ali quanto antes. Muitas pessoas chegam a afirmar que é tão necessário revolver com frequência o terreno das amêijoas quanto sachar um campo de batatas; porque, se esse trabalho for omitido, as amêijoas ficarão amontoadas demais e serão impedidas de aumentar de tamanho.” Disseram-nos, porém, que a pequena amêijoa, Mya arenaria, já não era tão abundante ali quanto antes. Provavelmente, afinal, o terreno das amêijoas foi revolvido com frequência excessiva. Ainda assim, um homem que se queixava de que as davam aos porcos e assim as tornavam escassas contou-me que, num único inverno, em Truro, escavou e abriu cento e vinte e seis dólares em amêijoas.

Atravessamos um riacho de não mais que catorze rods de comprimento, entre Orleans e Eastham, chamado Jeremiah’s Gutter. Diz-se que às vezes o Atlântico encontra a Baía nesse ponto e isola a parte setentrional do Cabo. Os cursos d’água do Cabo são necessariamente formados em escala diminuta, pois não há espaço para que corram sem se precipitarem de imediato no mar; além disso, achamos difícil nós mesmos corrermos naquela areia, embora espaço não faltasse. Por isso, o menor canal por onde a água corre, ou pode correr, é importante e recebe a dignidade de um nome. Lemos que não há água corrente em Chatham, a cidade seguinte. Dificilmente se acreditaria na aparência estéril da terra, se ela fosse descrita. Era um solo, ou melhor, uma terra tal que, a julgar pelas aparências, nenhum agricultor do interior pensaria em cultivar, ou sequer cercar. Em geral, os campos arados do Cabo parecem brancos e amarelos, como uma mistura de sal e farinha de milho. A isso se chama solo. Todas as noções que um homem do interior tenha de solo e fertilidade serão confundidas por uma visita a estas paragens, e por algum tempo depois ele não será capaz de distinguir solo de areia. O historiador de Chatham diz, a respeito de uma parte daquela cidade conquistada ao mar: “Há uma aparência duvidosa de que um solo esteja começando a se formar. Ela é qualificada de duvidosa porque não seria percebida por todos os olhos e talvez não fosse reconhecida por muitos.” Pensamos que essa não seria uma descrição ruim da maior parte do Cabo. Há uma “praia” no lado oeste de Eastham, que atravessamos no verão seguinte, com meia milha de largura e estendendo-se através do município, contendo mil e setecentos acres, na qual hoje não existe uma única partícula de terra vegetal, embora outrora produzisse trigo. Todas as areias são aqui chamadas de “praias”, quer sejam ondas de água, quer de ar que se arremessem contra elas, visto que em geral têm origem na costa. “A areia, em alguns lugares”, diz o historiador de Eastham, “acumulando-se contra o capim-das-dunas, elevou-se em colinas de cinquenta pés de altura, onde vinte e cinco anos atrás não havia colina alguma. Em outros, encheu pequenos vales e pântanos. Onde havia um arbusto de raízes fortes, a aparência é singular: uma massa de terra e areia fica presa a ele, assemelhando-se a uma pequena torre. Em vários lugares, rochas que antes estavam cobertas de solo ficaram expostas e, açoitadas pela areia que o vento lança contra elas, parecem recém-extraídas de uma pedreira.”

Ficamos surpresos ao ouvir falar das grandes safras de milho que ainda se obtêm em Eastham, apesar da esterilidade real e aparente. Nosso estalajadeiro em Orleans nos dissera que colhia anualmente trezentos ou quatrocentos bushels de milho, e também falara do grande número de porcos que engordava. Nas “Voyages” de Champlain, há uma gravura representando os milharais indígenas destas redondezas, com seus wigwams no meio, tal como apareciam em 1605, e foi aqui que os Peregrinos, para citar suas próprias palavras, “compraram oito ou dez tonéis de milho e feijão” dos indígenas Nauset, em 1622, para não morrerem de fome.[1]

“Em 1667, a cidade [de Eastham] votou que todo chefe de família deveria matar doze pássaros-pretos ou três corvos, que causavam grandes danos ao milho; e essa resolução foi repetida durante muitos anos.” Em 1695, aprovou-se uma ordem adicional, a saber, que “todo homem solteiro do município matará seis pássaros-pretos ou três corvos enquanto permanecer solteiro; como penalidade por não o fazer, não poderá casar-se até obedecer a esta ordem”. Os pássaros-pretos, contudo, ainda molestam o milho. Eu os vi fazendo isso no verão seguinte, e havia muitos espantalhos, quando não espanta-pássaros-pretos, nos campos, que muitas vezes confundi com homens.

Disso concluí que ou muitos homens não eram casados, ou muitos pássaros-pretos eram. Ainda assim, eles põem apenas três ou quatro grãos em cada cova e deixam permanecer menos plantas do que nós. No relato de Eastham publicado em 1802 nas “Historical Collections”, diz-se que “produz-se mais milho do que os habitantes consomem, e cerca de mil bushels são enviados anualmente ao mercado. Como o solo não tem pedras, o arado o atravessa rapidamente; e, depois que o milho nasce, um pequeno cavalo do Cabo, pouco maior que uma cabra, com o auxílio de dois meninos, capinará facilmente três ou quatro acres por dia; vários agricultores costumam produzir quinhentos bushels de grãos por ano, e não faz muito tempo um deles colheu oitocentos bushels em sessenta acres”. Relatos semelhantes são dados hoje; na verdade, os relatos recentes são, em alguns casos, repetições suspeitas dos antigos, e não tenho dúvida de que suas afirmações se baseiam tão frequentemente na exceção quanto na regra, e de que a grande maioria dos acres é tão estéril quanto parece. Já é bastante notável que se possa obter aqui qualquer safra, e isso talvez se deva, como outros sugeriram, à quantidade de umidade na atmosfera, ao calor da areia e à raridade das geadas. Um moleiro, que estava afiando as pedras do moinho, contou-me que, quarenta anos antes, estivera aqui numa debulha de milho em que quinhentos bushels foram debulhados numa só noite, e o milho ficou empilhado no centro a seis pés de altura ou mais; mas agora quinze ou dezoito bushels por acre eram uma produção média. Nunca vi campos de milho de aparência tão raquítica e pouco promissora como nesta cidade. Provavelmente os habitantes se contentam com pequenas safras obtidas numa grande extensão facilmente cultivada. Nem sempre a terra mais fértil é a mais lucrativa, e esta areia talvez remunere o cultivo tão bem quanto as férteis terras baixas do Oeste. Diz-se, além disso, que os legumes cultivados na areia, sem esterco, são extraordinariamente doces, sobretudo as abóboras, embora suas sementes logo degenerem quando plantadas no interior. Posso atestar que os legumes daqui, quando vingam, parecem extraordinariamente verdes e sadios, embora talvez isso se deva em parte ao contraste com a areia. Ainda assim, os habitantes das cidades do Cabo, em geral, não produzem a própria farinha de milho nem a própria carne de porco. Suas hortas são comumente pequenos trechos recuperados nas bordas das marismas e dos pântanos.

Durante toda a manhã, ouvíramos o mar rugir na costa oriental, que ficava a várias milhas de distância, pois ele ainda sentia os efeitos da tempestade em que o St. John naufragara, embora um menino de escola que alcançamos mal soubesse o que queríamos dizer, tão acostumados estavam seus ouvidos àquele som. Ele teria ouvido mais claramente o mesmo ruído numa concha. Era um som muito estimulante para acompanhar a caminhada, enchendo todo o ar: o do mar arremetendo contra a terra, ouvido a várias milhas para o interior. Em vez de ter um cão rosnando diante da porta, ter um oceano Atlântico rosnando por todo um Cabo! No conjunto, estávamos contentes com a tempestade, que nos mostraria o oceano em seu estado de maior fúria. Garantiram a Charles Darwin que o rugido da arrebentação na costa de Chiloe, depois de um forte vendaval, podia ser ouvido à noite a uma distância de “21 milhas marítimas, através de uma região acidentada e coberta de bosques”. Conversamos com o menino que mencionamos, que devia ter uns oito anos, fazendo-o caminhar enquanto isso a sotavento de nosso guarda-chuva; pois julgávamos tão importante saber como era a vida no Cabo para um menino quanto para um homem. Ficamos sabendo por ele onde se encontravam as melhores uvas da vizinhança. Levava o almoço num balde; e, sem que lhe fizéssemos perguntas impertinentes, acabou por se revelar do que ele consistia. Os fatos mais corriqueiros são sempre os mais bem-vindos a uma mente investigadora. Por fim, antes de chegarmos à casa de reuniões de Eastham, deixamos a estrada e atravessamos os campos em direção à costa oriental, rumo aos Nauset Lights, três faróis muito próximos uns dos outros, a duas ou três milhas de nós. Eram tantos para que pudessem ser distinguidos dos demais; mas aquilo nos pareceu um modo desajeitado e dispendioso de alcançar esse objetivo. Vimo-nos de imediato numa planície aparentemente sem limites, sem árvore nem cerca e, com uma ou duas exceções, sem casa alguma à vista. Em vez de cercas, a terra às vezes era amontoada numa pequena elevação. Meu companheiro comparou-a às pradarias ondulantes de Illinois. Na tempestade de vento e chuva que se enfurecia quando a atravessamos, sem dúvida ela pareceu mais vasta e desolada do que realmente é. Como não havia colinas, mas apenas aqui e ali uma depressão seca no meio daquela vastidão, e o horizonte distante estava oculto pela névoa, não sabíamos se a planície era alta ou baixa. Um viajante solitário que vimos perambulando à distância avultava como um gigante. Parecia caminhar curvado, como se fosse sustentado por cima por correias sob os ombros tanto quanto pela planície embaixo. Homens e meninos teriam parecido iguais a pouca distância, pois não havia objeto pelo qual medi-los. De fato, para um homem do interior, a paisagem do Cabo é uma miragem constante. Esse tipo de região estendia-se por uma ou duas milhas em cada direção. Eram as “Planícies de Nauset”, outrora cobertas de bosques, onde no inverno os ventos uivam e a neve sopra bem alegremente no rosto do viajante. Fiquei contente por ter saído das cidades, onde costumo sentir-me indescritivelmente mesquinho e desonrado, e por ter deixado para trás, por algum tempo, os bares de Massachusetts, onde os adultos não são desmamados de hábitos selvagens e imundos, continuando a chupar um charuto. Meu ânimo se elevava na mesma proporção que a desolação exterior. As cidades precisam ser ventiladas. Os deuses se alegrariam ao ver algumas chamas puras saindo de seus altares. Não se apaziguam com fumaça de charuto.

Enquanto assim contornávamos os fundos das cidades, pois não entramos em aldeia alguma até chegarmos a Provincetown, líamos suas histórias debaixo de nossos guarda-chuvas, raramente encontrando alguém. Os relatos antigos são os mais ricos em topografia, que era o que mais queríamos; e, na verdade, também na maioria das outras coisas, pois verifico que as partes legíveis dos relatos modernos dessas cidades consistem, em grande medida, em citações, reconhecidas ou não, dos mais antigos, sem nenhuma informação adicional de igual interesse; histórias municipais que, por fim, desembocam numa história da Igreja daquele lugar, sendo essa a única história que têm para contar, e concluem citando os epitáfios latinos dos velhos pastores, escritos nos bons e velhos tempos do latim e do grego. Remontam à ordenação de cada ministro e contam fielmente quem fez a oração introdutória e quem proferiu o sermão; quem fez a oração de ordenação e quem deu a exortação; quem estendeu a mão direita da comunhão e quem pronunciou a bênção; e também quantos concílios eclesiásticos se reuniram, de tempos em tempos, para investigar a ortodoxia de algum ministro, e os nomes de todos os que os compunham. Como levaremos uma hora para atravessar esta planície, e não há variedade na paisagem, por mais peculiar que ela seja, lerei nesse meio-tempo um pouco da história de Eastham.

Quando a comissão de Plymouth comprou dos indígenas o território de Eastham, “perguntou-se quem reivindicava Billingsgate”, entendendo-se por isso toda aquela parte do Cabo ao norte do que haviam comprado. “A resposta foi que não havia Ninguém que a possuísse. ‘Então’, disse a comissão, ‘essa terra é nossa.’ Os indígenas responderam que sim.” Foi uma afirmação e uma admissão notáveis. Os Peregrinos parecem ter-se considerado representantes de Ninguém. Talvez este tenha sido o primeiro exemplo daquela maneira tranquila de “falar por” um lugar ainda não ocupado, ou pelo menos não melhorado tanto quanto poderia ser, que seus descendentes praticaram, e ainda praticam, em escala tão ampla. Ninguém parece ter sido o único proprietário de toda a América antes dos ianques. Mas a história diz que, depois de os Peregrinos haverem mantido por muitos anos as terras de Billingsgate, por fim “apareceu um indígena, que se intitulava Tenente Anthony”, reivindicou-as, e dele eles as compraram. Quem sabe se um Tenente Anthony não baterá algum dia à porta da Casa Branca? Seja como for, sei que, se você retiver injustamente uma coisa, no fim certamente terá de acertar contas com o diabo.

Thomas Prince, que foi várias vezes governador da colônia de Plymouth, foi o líder do povoamento de Eastham. Até recentemente ainda se erguia, no que fora sua fazenda, nesta cidade, uma pereira que se dizia ter sido trazida da Inglaterra e plantada ali por ele cerca de duzentos anos antes. Ela foi derrubada pelo vento poucos meses antes de nossa passagem. Um relato recente diz que se encontrava ainda há pouco em estado vigoroso; o fruto era pequeno, mas excelente; e produzia, em média, quinze bushels. O sr. Heman Doane dirigiu-lhe alguns versos apropriados, dos quais citarei uma parte, tanto porque são o único espécime de poesia de Cape Cod que me lembro de ter visto quanto porque não são ruins.

“Duzentos anos, nas asas do Tempo,

Passaram com alegrias e aflições, desde que tu, Velha Árvore!

Lançaste tuas primeiras folhas neste clima estrangeiro,

Transplantada do solo para além do mar.”

[Estas estrelas representam os versos mais clericais, bem como aqueles que

faleceram.]

“Aquele bando exilado há muito se foi,

E ainda, Velha Árvore! permaneces no lugar

Onde a mão de Prince te plantou em seu tempo,

Memorial involuntário de sua raça

E de sua época; daqueles nossos honrados pais,

quando Vieram de Plymouth e aqui se estabeleceram;

Doane, Higgins, Snow e outros homens dignos,

Cujos nomes seus filhos se lembram de reverenciar.

“O velho Tempo rareou teus ramos. Velha Árvore Peregrina!

E te curvou sob o peso de muitos anos;

Ainda assim, entre as geadas da idade, vemos tua floração,

E a cada ano ainda aparece teu fruto maduro.”

Há alguns outros versos que eu poderia citar, se não estivessem jungidos, pela rima, a companheiros indignos. Quando um dos bois se deita, o jugo pesa sobre o que permanece em pé.

Um dos primeiros colonos de Eastham foi o diácono John Doane, que morreu em 1707, aos cento e dez anos. A tradição diz que, durante vários de seus últimos anos, ele foi embalado num berço. Essa certamente não foi uma vida aquileana. Sua mãe deve tê-lo deixado escapar quando o mergulhou no líquido que o tornaria invulnerável, e ele entrou por inteiro, calcanhares e tudo. Alguns dos marcos de pedra de sua fazenda, que ele mesmo ergueu, continuam de pé até hoje, com suas iniciais neles gravadas.

A história eclesiástica desta cidade nos interessou um pouco. Parece que “muito cedo construíram uma pequena casa de reunião, de vinte pés quadrados, com teto de palha, através do qual podiam disparar seus mosquetes”, naturalmente contra o Diabo. “Em 1662, a cidade concordou que uma parte de cada baleia lançada à costa fosse destinada ao sustento do ministério.” Sem dúvida pareceu haver certa propriedade em deixar assim o sustento dos ministros a cargo da Providência, de quem são servos e que sozinha governa as tempestades; pois, quando poucas baleias eram arrojadas à costa, podiam suspeitar que seu culto não era aceitável. Os ministros devem ter-se sentado nas escarpas durante cada tempestade, observando ansiosamente a costa. E, quanto a mim, se fosse ministro, preferiria confiar nas entranhas das vagas, nos fundos de Cape Cod, para me lançarem uma baleia à praia, a confiar na generosidade de muitas paróquias rurais que conheço. Em geral, não se pode dizer do salário de um ministro rural que ele seja “muito parecido com uma baleia”. Ainda assim, o ministro que dependia das baleias arrojadas à costa deve ter passado por tempos difíceis. Eu teria preferido ir às Ilhas Falkland com um arpão e resolver logo a questão. Imagine uma baleia tendo o sopro da vida espancado para fora dela por uma tempestade, e sendo arrastada sobre bancos e canais estreitos para o sustento do ministério! Que consolo isso deve ter sido para ela! Ouvi falar de um ministro que fora pescador e que foi estabelecido em Bridgewater pelo tempo em que conseguisse distinguir um bacalhau de um hadoque. Por mais generosa que pareça, essa condição esvaziaria imediatamente a maioria dos púlpitos rurais, pois há muito os pescadores de homens deixaram de ser pescadores. Também se impôs aqui um tributo à cavala para sustentar uma escola gratuita; em outras palavras, tributou-se o cardume de cavalas para que a escola das crianças pudesse ser gratuita. “Em 1665, a Corte aprovou uma lei para infligir castigo corporal a todas as pessoas residentes nas cidades deste governo que negassem as Escrituras.” Imagine um homem sendo açoitado numa manhã de primavera até ser constrangido a confessar que as Escrituras eram verdadeiras! “Também foi votado pela cidade que todas as pessoas que permanecessem do lado de fora da casa de reunião durante o ofício divino fossem postas no tronco.” Cabia a uma cidade dessas cuidar para que sentar-se na casa de reunião não tivesse parentesco algum com sentar-se no tronco, para que a pena da obediência à lei não fosse maior que a da desobediência. Esta era a Eastham que, em anos recentes, se tornou famosa por suas reuniões campais, realizadas num bosque próximo, às quais acorrem milhares de todas as partes da Baía. Conjeturamos que a razão do desenvolvimento talvez incomum, se não doentio, do sentimento religioso ali fosse o fato de grande parte da população ser composta de mulheres cujos maridos e filhos estavam ou longe, no mar, ou afogados, e não restava ninguém além delas e dos ministros. O relato antigo diz que “ataques histéricos são muito comuns em Orleans, Eastham e nas cidades mais abaixo, especialmente aos domingos, durante o ofício divino. Quando uma mulher é afetada, outras cinco ou seis em geral simpatizam com ela; e a congregação é lançada na maior confusão. Vários homens idosos supõem, talvez de maneira pouco filosófica e pouco caridosa, que a vontade esteja em parte envolvida, e que o ridículo e as ameaças tenderiam a impedir o mal.” Não chegamos a saber como isso se dá hoje. Vimos, contudo, numa casa desta mesma planície, uma mulher singularmente masculina, que não parecia jamais ser perturbada por histeria, nem simpatizar com as que eram; ou, talvez, a própria vida fosse para ela um ataque histérico, uma mulher de Nauset, de uma dureza e grosseria que nenhum homem jamais possui nem sugere. Bastava ver as vértebras e os tendões de seu pescoço, e suas mandíbulas de ferro cerradas, que, em sua ação ordinária, teriam partido ao meio um prego de tábua, retesadas contra o mundo, falando como um marinheiro de navio de guerra de saias, ou como se gritasse para você através de uma onda quebrando; parecia que viver lhe dava dor de cabeça; dura o bastante para qualquer enormidade. Olhei para ela como para alguém que cometera infanticídio; que nunca tivera irmão, a menos que fosse alguma criaturinha morta na infância, pois que necessidade teria dele?, e cujo pai devia ter morrido antes que ela nascesse. Essa mulher nos disse que as reuniões campais não haviam sido realizadas no verão anterior por medo de introduzir o cólera, e que teriam sido realizadas mais cedo naquele verão, não fosse o centeio estar tão atrasado que a palha ainda não estaria pronta para elas; pois dormem sobre palha. Às vezes reúnem-se cento e cinquenta ministros (!) e cinco mil ouvintes. O terreno, chamado Millennium Grove, pertence a uma companhia de Boston e é o mais adequado, ou melhor, inadequado, para esse fim entre todos os que vi no Cabo. É cercado, e as armações das tendas podem ser vistas em qualquer época, dispersas entre os carvalhos. Eles dispõem de um forno e uma bomba-d’água, e guardam todos os utensílios de cozinha, coberturas das tendas e móveis num edifício permanente no local. Escolhem para suas reuniões uma época em que a lua está cheia. Um homem é designado para limpar a bomba uma semana antes, enquanto os ministros limpam a garganta; mas provavelmente estes últimos nem sempre produzem um fluxo tão puro quanto o primeiro. Vi os montes de conchas de amêijoas deixados sob as mesas, onde haviam banqueteado nos verões anteriores, e supus, naturalmente, que aquilo fosse obra dos não convertidos, ou dos apóstatas e zombadores. Parecia que uma reunião campal devia ser uma combinação singular de reunião de oração e piquenique.

O primeiro ministro estabelecido aqui foi o reverendo Samuel Treat, em 1672, cavalheiro que, segundo se diz, tinha “direito a uma posição de destaque entre os evangelistas da Nova Inglaterra”. Em seu tempo, converteu muitos indígenas, bem como homens brancos, e traduziu a Confissão de Fé para a língua de Nauset. Eram esses os indígenas a respeito dos quais seu primeiro mestre, Richard Bourne, escreveu a Gookin, em 1674, dizendo que fora visitar um deles, que estava doente, “e dele vieram expressões muito edificantes e celestiais”; mas, quanto à maioria, afirma: “a verdade é que muitos deles levam uma vida muito dissoluta, para a lancinante tristeza de meu coração”. O sr. Treat é descrito como um calvinista da espécie mais rigorosa, não um daqueles que, cedendo ou explicando tudo até esvaziá-lo, se tornam como um porco-espinho desarmado de seus espinhos, mas um calvinista coerente, capaz de lançar os espinhos a distância e defender-se corajosamente. Existe um volume manuscrito de seus sermões, “os quais”, diz um comentador, “parecem ter sido destinados à publicação”. Cito de segunda mão as seguintes frases de um Discurso sobre Lucas xvi, 23, dirigido aos pecadores:

“Não tardarás a descer ao abismo sem fundo. O inferno alargou-se

para receber-te e está pronto. Há espaço de sobra para a tua

hospedagem....

“Considera que estás indo para um lugar preparado por Deus de propósito para exaltar nele a sua justiça, um lugar feito para nenhuma outra ocupação senão os tormentos. O inferno é a casa de correção de Deus; e lembra-te de que Deus faz todas as coisas à sua própria maneira. Quando Deus quer mostrar sua justiça e o peso de sua ira, faz um inferno onde isso, de fato, se manifeste plenamente.... Ai de tua alma quando fores erguido como alvo para as flechas do Todo-Poderoso....

“Considera que o próprio Deus será o principal agente de tua miséria, seu sopro é o fole que atiça para sempre a chama do inferno; e, se ele te punir, se te encontrar em sua fúria, não te encontrará como um homem; dar-te-á um golpe onipotente.”

“Alguns pensam que o pecado termina com esta vida; mas é um engano. A criatura está submetida a uma lei eterna; os condenados aumentam seus pecados no inferno. É possível que a menção disso te agrade. Mas lembra-te de que ali não haverá pecados agradáveis; nada de comer, beber, cantar, dançar, entregar-se a carícias lascivas e beber águas roubadas, mas pecados condenados, pecados amargos, infernais; pecados exasperados pelos tormentos, maldições contra Deus, rancor, furor e blasfêmia. A culpa de todos os teus pecados será posta sobre tua alma e transformada em outros tantos montes de combustível....

“Pecador, suplico-te que reconheças a verdade dessas coisas. Não te ponhas a imaginar que isso diminui a misericórdia de Deus e não passa de uma fábula vã para assustar crianças até fazê-las perder o juízo. Deus pode ser misericordioso, ainda que te faça miserável. Terá monumentos suficientes desse precioso atributo, brilhando como estrelas no lugar da glória e entoando aleluias eternos em louvor Àquele que os redimiu, ainda que, para exaltar o poder de sua justiça, condene pecadores aos montes.”

“Mas”, prossegue o mesmo escritor, “apesar da vantagem de proclamar a doutrina do terror, que naturalmente produz um estilo sublime e impressionante de eloquência (‘Triumphat ventoso gloriæ curru orator, qui pectus angit, irritat, et implet terroribus.’ Vid. Burnet, De Stat. Mort., p. 309), ele não conseguiu adquirir fama de pregador popular. Sua voz era tão alta que podia ser ouvida a grande distância da casa de reuniões, mesmo entre os gritos de mulheres histéricas e os ventos que uivavam sobre as planícies de Nauset; mas não havia nela mais música do que nos sons discordantes com que se misturava.”

“O efeito de semelhante pregação”, diz-se, “foi que seus ouvintes, várias vezes durante o seu ministério, despertaram e se alarmaram; e, numa ocasião, um jovem relativamente inocente ficou assustado a ponto de quase perder o juízo, e o sr. Treat teve de esforçar-se para fazer o inferno parecer-lhe um pouco menos quente”; contudo, asseguram-nos que “as maneiras de Treat eram joviais, sua conversa agradável e às vezes espirituosa, mas sempre decente. Gostava de um dito humorístico e de uma peça pregada em alguém, e demonstrava seu gosto por ambos em longas e ruidosas crises de riso”.

Era esse o homem a respeito de quem se conta uma anedota bem conhecida, que sem dúvida muitos de meus leitores já ouviram, mas que, ainda assim, ousarei citar:

“Depois de se casar com a filha do sr. Willard (pastor da South Church, em Boston), era às vezes convidado por aquele cavalheiro a pregar em seu púlpito. O sr. Willard possuía uma elocução graciosa, uma voz viril e harmoniosa; e, embora não tivesse conquistado grande reputação com seu ‘Body of Divinity’, obra frequentemente ridicularizada, sobretudo pelos que a leram, havia em seus sermões vigor de pensamento e energia de linguagem. A consequência natural era que ele fosse admirado em geral. Tendo o sr. Treat pregado um de seus melhores discursos à congregação de seu sogro, à sua maneira desventurada de sempre, provocou repulsa geral; e vários críticos refinados procuraram o sr. Willard e lhe pediram que o sr. Treat, embora fosse, é verdade, um homem digno e piedoso, mas um pregador deplorável, jamais voltasse a ser convidado para o seu púlpito. A esse pedido o sr. Willard não respondeu; mas pediu ao genro que lhe emprestasse o discurso. Tendo-o recebido, proferiu-o sem alteração diante de seu povo algumas semanas depois. Correram ao sr. Willard e solicitaram uma cópia para publicação. ‘Vejam a diferença’, exclamaram, ‘entre o senhor e seu genro; o senhor pregou um sermão sobre o mesmo texto do sr. Treat, mas, enquanto o dele era desprezível, o seu é excelente.’ Como se observa numa nota, ‘o sr. Willard, depois de apresentar o sermão na caligrafia do sr. Treat, poderia ter-se dirigido a esses sábios críticos com as palavras de Fedro,

“‘En hic declarat, quales sitis judices.’”[2]

O sr. Treat morreu de um ataque de paralisia, logo depois da memorável tempestade conhecida como a Grande Nevasca, que deixou inteiramente descoberto o chão ao redor de sua casa, mas acumulou neve na estrada a uma altura incomum. Por essa massa foi escavada uma passagem em arco, através da qual os indígenas levaram seu corpo à sepultura.

O leitor há de imaginar-nos, durante todo esse tempo, atravessando

firmemente aquela extensa planície numa direção um pouco ao norte do

leste, rumo a Nauset Beach, e lendo sob nossos guarda-chuvas enquanto

avançávamos como que a navegar, ao passo que soprava um vento forte

em meio a névoa e chuva, como se nos aproximássemos de um aniversário

apropriado do funeral do sr. Treat. Imaginávamos que fosse uma charneca

como aquela em que alguém pereceu na neve, conforme se relata em

“Lights and Shadows of Scottish Life”.

O ministro seguinte estabelecido aqui foi o “reverendo Samuel Osborn, que nasceu na Irlanda e estudou na Universidade de Dublin”. Diz-se que era “um homem de sabedoria e virtude”, e ele ensinou seu povo a utilizar a turfa, bem como a arte de secá-la e prepará-la, o que, visto que quase não dispunham de nenhum outro combustível, representou para eles uma grande bênção. Também introduziu aperfeiçoamentos na agricultura. Mas, apesar de seus muitos serviços, como abraçou a religião de Armínio, alguns membros de seu rebanho ficaram insatisfeitos. Por fim, um concílio eclesiástico, composto de dez ministros com suas respectivas igrejas, reuniu-se para julgá-lo e, como era de esperar, arruinou sua utilidade. O concílio reuniu-se a pedido de dois filósofos divinos, Joseph Doane e Nathaniel Freeman.

Em seu relatório, dizem: “Parece ao concílio que o reverendo sr. Osborn afirmou, em sua pregação a este povo, que aquilo que Cristo fez e sofreu em nada reduz ou diminui nossa obrigação de obedecer à lei de Deus, e que o sofrimento e a obediência de Cristo foram para ele próprio; ambas as partes dessa afirmação, segundo pensamos, contêm erro perigoso.”

“Também: ‘Foi dito, e parece a este concílio, que o reverendo sr. Osborn, tanto em público quanto em particular, sustentou não haver na Bíblia promessas que não sejam condicionais, o que também consideramos um erro, e afirmamos que há promessas absolutas e sem condição alguma, como a promessa de um novo coração e a de que ele escreverá sua lei em nossos corações.’”

“Também dizem: ‘Alegou-se, e parece-nos, que o sr. Osborn declarou ser a obediência uma causa considerável da justificação de uma pessoa, o que, segundo pensamos, contém erro muito perigoso.’”

E fizeram muitas outras distinções semelhantes, com as quais alguns de meus leitores provavelmente estão mais familiarizados do que eu. Assim, muito longe no Oriente, entre os Yezidis, ou os chamados Adoradores do Diabo, os caldeus e outros povos, segundo o testemunho de viajantes, ainda se podem ouvir essas notáveis disputas sobre pontos doutrinários. Osborn foi, por conseguinte, destituído e mudou-se para Boston, onde manteve uma escola por muitos anos. Mas, a meu ver, foi plenamente justificado por suas obras na turfeira; uma prova disso é que viveu entre noventa e cem anos.

O ministro seguinte foi o reverendo Benjamin Webb, de quem, embora um

clérigo vizinho o declarasse “o melhor homem e o melhor ministro que

jamais conhecera”, o historiador diz:

“Como passou seus dias no cumprimento uniforme de seu dever (isso faz lembrar uma revista militar do interior) e não havia sombras que dessem relevo a seu caráter, não se pode dizer muito a seu respeito. (É pena que o Diabo não tenha plantado algumas árvores de sombra ao longo de suas alamedas.) Seu coração era tão puro quanto a neve recém-caída, que cobre por completo toda mancha escura num campo; sua mente era tão serena quanto o céu numa noite amena de junho, quando a lua brilha sem nuvem alguma. Nomeie qualquer virtude, e ele a praticava; nomeie qualquer vício, e ele o evitava. Mas, se qualidades peculiares marcavam seu caráter, eram a humildade, a mansidão e o amor a Deus. Por muito tempo o povo fora ensinado por um filho do trovão (o sr. Treat); nele, recebeu a instrução de um filho da consolação, que docemente os atraía para a virtude por meio de suave persuasão e da exposição da misericórdia do Ser Supremo; pois seus pensamentos estavam tanto no céu que raramente desciam às regiões lúgubres lá embaixo; e, embora partilhasse os mesmos sentimentos religiosos do sr. Treat, sua atenção voltava-se para aquelas boas-novas de grande alegria que um Salvador veio anunciar.”

Interessou-nos saber que semelhante homem havia percorrido as planícies

de Nauset.

Folheando mais adiante nosso livro, nossos olhos caíram sobre o nome do reverendo Jonathan Bascom, de Orleans: “Senex emunctæ naris, doctus, et auctor elegantium verborum, facetus, et dulcis festique sermonis.” E, novamente, sobre o do reverendo Nathan Stone, de Dennis: “Vir humilis, mitis, blandus, advenarum hospes; (havia necessidade dele ali;) suis commodis in terrâ non studens, reconditis thesauris in cœlo.” Uma virtude fácil, essa, naquele lugar, pois, a meu ver, nenhum habitante de Dennis poderia ocupar-se muito de seus bens terrenos, mas teria de considerar que a maior parte de seus tesouros estava no céu. Contudo, provavelmente o retrato mais justo e pertinente de todos é aquele que parece ter sido atribuído ao reverendo Ephraim Briggs, de Chatham, na língua dos romanos posteriores: “Seip, sepoese, sepoemese, wechekum”, o que, por não ter sido interpretado, não sabemos o que significa, embora não tenhamos dúvida de que ocorre em algum lugar das Escrituras, provavelmente na Epístola do Apóstolo Eliot aos Nipmucks.

Que ninguém pense que não amo os antigos ministros. Eram, provavelmente, os melhores homens de sua geração e merecem que suas biografias preencham as páginas das histórias municipais. Se eu pudesse ao menos ouvir as “boas-novas” de que falam e que, porventura, eles ouviram, talvez escrevesse num tom mais digno do que este.

Não havia maneira melhor de fazer o leitor compreender quão vasta e peculiar era aquela planície, e quanto tempo levava atravessá-la, do que inserir esses excertos no meio de minha narrativa.

[1] Depois disso, aportaram num lugar chamado Mattachiest, onde conseguiram mais milho; mas, tendo sua chalupa naufragado numa tempestade, o governador foi obrigado a retornar a Plymouth a pé, cinquenta milhas através dos bosques. Segundo a Mourt’s Relation, “chegou em segurança a casa, embora cansado e surbated”, isto é, com os pés feridos. (Ital. sobattere, lat. sub ou solea battere, machucar as solas dos pés; v. Dic. Não “de acerbatus, amargurado ou ressentido”, como supõe um comentador dessa passagem.) Essa palavra é de ocorrência muito rara, sendo aplicada apenas a governadores e pessoas de descrição semelhante que se encontrem nessa situação; embora estes em geral recebam uma considerável verba de quilometragem e pudessem poupar as solas se quisessem.

[2] Lib. v. Fab. 5.

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