O Ostricultor de Wellfleet Cape Cod · Capítulo 5 de 10
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O Ostricultor de Wellfleet

Depois de caminharmos cerca de oito milhas desde que alcançamos a praia e de passarmos o limite entre Wellfleet e Truro, assinalado por um marco de pedra na areia, pois até esta areia se encontra sob a jurisdição de uma cidade ou de outra, voltamos para o interior, atravessando colinas e vales estéreis, aonde o mar, por algum motivo, não nos seguiu, e, subindo pelo curso de uma depressão, descobrimos duas ou três casas de aspecto sóbrio a menos de meia milha dali, excepcionalmente próximas da costa oriental. Seus sótãos pareciam tão cheios de aposentos que os telhados mal conseguiam assentar-se direitos, e não duvidamos de que ali haveria lugar para nós. As casas próximas do mar são em geral baixas e largas. Estas tinham um andar e meio; mas, se apenas contássemos as janelas em suas empenas, pensaríamos que havia muitos outros andares ou, em todo caso, que o meio andar era o único considerado digno de ser ilustrado. O grande número de janelas nas extremidades das casas, e a irregularidade de seu tamanho e posição, ali e em outros pontos do Cabo, causaram-nos uma impressão agradável, como se cada um dos diversos ocupantes que tinham ali atrás seus cunabula houvesse aberto um buraco onde suas necessidades o exigiam, de acordo com seu tamanho e estatura, sem consideração pelo efeito exterior. Havia janelas para os adultos e janelas para as crianças, três ou quatro para cada um; assim como certo homem mandou abrir um buraco grande na porta do celeiro para o gato e outro menor para o gatinho. Às vezes ficavam tão baixas sob os beirais que pensei que deviam ter perfurado o frechal para criar mais um aposento, e notei algumas triangulares, a fim de se ajustarem com maior exatidão àquela parte. As extremidades das casas tinham assim tantas bocas quanto um revólver e, se os habitantes têm o mesmo hábito de olhar fixamente pelas janelas que alguns de nossos vizinhos, um viajante deve ter poucas chances diante deles.

Em geral, as casas antigas e sem pintura do Cabo pareciam mais confortáveis, além de mais pitorescas, do que as modernas e mais pretensiosas, que estavam menos em harmonia com a paisagem e menos firmemente assentadas.

Essas casas ficavam às margens de uma cadeia de sete lagoas, nascente de um pequeno curso d’água chamado Herring River, que deságua na Baía. Há muitos Herring Rivers no Cabo; talvez em breve sejam mais numerosos que os arenques. Batemos à porta da primeira casa, mas todos os seus moradores tinham saído. Enquanto isso, vimos os ocupantes da casa seguinte olhando para nós pela janela e, antes que chegássemos até ela, uma velha saiu, fechou a porta externa do porão e tornou a entrar. Ainda assim, não hesitamos em bater à sua porta, e apareceu um homem de aspecto grisalho, que julgamos ter sessenta ou setenta anos. A princípio, perguntou-nos com desconfiança de onde vínhamos e qual era nosso propósito; demos-lhe respostas diretas.

“Qual é a distância de Concord a Boston?”, perguntou ele.

“Vinte milhas por ferrovia.”

“Vinte milhas por ferrovia”, repetiu.

“O senhor nunca ouviu falar de Concord, famosa pela Revolução?”

“Se eu nunca ouvi falar de Concord? Ora, ouvi os canhões dispararem na batalha de Bunker Hill. [O som de canhões pesados chega até eles através da Baía.] Tenho quase noventa anos; tenho oitenta e oito. Tinha catorze anos na época da Batalha de Concord, e onde estavam vocês então?”

Fomos obrigados a confessar que não participáramos da batalha.

“Bem, entrem; deixaremos a decisão por conta das mulheres”, disse ele.

Assim, entramos, surpresos, e nos sentamos; uma velha pegou nossos chapéus e trouxas, e o velho prosseguiu, aproximando-se da grande lareira à moda antiga:

“Sou uma pobre criatura que não serve para nada, como diz Isaías; estou acabado este ano. Aqui vivo sob o governo das saias.”

A família era composta pelo velho, sua mulher e sua filha, que parecia quase tão velha quanto a mãe, uma idiota; pelo filho dela (um homem de meia-idade, de aspecto embrutecido e parte inferior do rosto proeminente, que estava de pé junto à lareira quando entramos, mas saiu imediatamente); e por um menino de dez anos.

Enquanto meu companheiro conversava com as mulheres, eu conversava com o velho. Elas diziam que ele estava velho e tolo, mas era evidente que sabia demais para elas.

“Estas mulheres”, disse-me ele, “são ambas pobres criaturas que não servem para nada. Esta é minha mulher. Casei-me com ela há sessenta e quatro anos. Tem oitenta e quatro anos e é surda como uma víbora, e a outra não é muito melhor.”

Ele tinha boa opinião da Bíblia, ou ao menos falava bem dela e não pensava mal, pois isso não seria prudente para um homem de sua idade. Disse que a lera atentamente por muitos anos e tinha grande parte dela na ponta da língua. Parecia profundamente impressionado pela percepção de sua própria insignificância e exclamava repetidas vezes:

“Não sou nada. O que extraio de minha Bíblia é simplesmente isto: o homem é uma pobre criatura que não serve para nada, e tudo é tal como Deus julga conveniente e dispõe.”

“Posso perguntar seu nome?”, disse eu.

“Sim”, respondeu, “não tenho vergonha de dizer meu nome. Meu nome é——. Meu bisavô veio da Inglaterra e se estabeleceu aqui.”

Era um velho ostricultor de Wellfleet que adquirira certo patrimônio nesse ofício e ainda tinha filhos dedicados a ele.

Disseram-me que quase todas as lojas e bancas de ostras de Massachusetts são abastecidas e mantidas por naturais de Wellfleet, e uma parte dessa cidade ainda se chama Billingsgate porque antigamente se cultivavam ostras ali; mas consta que as ostras nativas morreram em 1770. Atribuem-se a isso várias causas, como uma geada no solo, as carcaças de cetáceos deixadas para apodrecer no porto e outras semelhantes, mas a explicação mais comum é a seguinte, e verifico que uma superstição parecida acerca do desaparecimento dos peixes existe em quase toda parte: quando Wellfleet começou a disputar com as cidades vizinhas o direito de recolhê-las, apareceram nelas manchas amarelas, e a Providência fez com que desaparecessem. Alguns anos atrás, sessenta mil bushels eram trazidos anualmente do Sul e cultivados no porto de Wellfleet até adquirirem “o sabor apropriado de Billingsgate”; agora, porém, são em geral importados já adultos e depositados perto de seus mercados, em Boston e outros lugares, onde a água, por ser uma mistura de salgada e doce, lhes convém mais. Dizia-se que o negócio ainda era bom e estava prosperando.

O velho disse que as ostras estavam sujeitas a congelar no inverno se fossem cultivadas em local demasiado alto; mas, desde que não fizesse “tanto frio a ponto de lhes forçar os olhos”, não sofriam dano. Os habitantes de New Brunswick observaram que “não se forma gelo sobre um banco de ostras, a menos que o frio seja de fato muito intenso, e, quando as baías congelam, os bancos de ostras são facilmente descobertos porque a água sobre eles permanece sem congelar, ou, como dizem os residentes franceses, degèle”. Nosso anfitrião disse que as guardavam em porões durante todo o inverno.

“Sem nada para comer ou beber?”, perguntei.

“Sem nada para comer ou beber”, respondeu.

“As ostras conseguem se mover?”

“Tanto quanto meu sapato.”

Mas, quando o surpreendi dizendo que elas “se acomodavam na areia, com o lado plano para cima e o lado arredondado para baixo”, eu lhe disse que meu sapato não conseguiria fazer isso sem o auxílio de meu pé dentro dele; ao que respondeu que elas apenas se assentavam à medida que cresciam; se fossem colocadas formando um quadrado, assim seriam encontradas; a amêijoa, porém, conseguia mover-se bastante depressa. Desde então, ostricultores de Long Island, onde a ostra ainda é nativa e abundante, disseram-me que elas são encontradas em grandes massas, presas à progenitora no centro, e assim são retiradas com suas tenazes; nesse caso, dizem eles, a idade das jovens prova que não pode ter havido movimento por pelo menos cinco ou seis anos. E Buckland, em Curiosities of Natural History (página 50), diz: “Uma ostra que tenha escolhido sua posição e se fixado quando ainda muito jovem jamais pode mudar de lugar. No entanto, ostras que não se fixaram, mas permanecem soltas no fundo do mar, têm capacidade de locomoção; abrem as conchas em toda a sua extensão e depois, fechando-as subitamente, a expulsão da água para a frente produz um movimento para trás. Um pescador de Guernsey disse-me que vira ostras moverem-se dessa maneira com frequência.”

Alguns ainda discutem “se a ostra era nativa da Baía de Massachusetts” e se o porto de Wellfleet constituía um “hábitat natural” desse peixe; mas, sem falar no testemunho dos velhos ostricultores, que considero bastante conclusivo, embora a ostra nativa talvez esteja hoje extinta ali, vi que suas conchas, abertas pelos indígenas, estavam espalhadas por todo o Cabo. De fato, o Cabo foi a princípio densamente povoado por indígenas devido à abundância dessas e de outras espécies de peixe. Depois disso, vimos muitos vestígios de sua ocupação em Truro, perto de Great Hollow, e em High-Head, perto de East Harbor River: ostras, amêijoas, berbigões e outras conchas, misturadas com cinzas e ossos de veados e outros quadrúpedes. Recolhi meia dúzia de pontas de flecha e, em uma ou duas horas, poderia ter enchido os bolsos com elas. Os indígenas viviam nas bordas dos pântanos, que então provavelmente eram lagoas em alguns casos, em busca de abrigo e água. Além disso, Champlain, na edição de suas Voyages impressa em 1613, diz que, no ano de 1606, ele e Poitrincourt exploraram um porto (Barnstable Harbor?) na parte meridional do que hoje se chama Baía de Massachusetts, na latitude 42°, cerca de cinco léguas ao sul, um ponto a oeste de Cap Blanc (Cape Cod), e ali encontraram muitas ostras boas, dando-lhe o nome de “le Port aux Huistres” (Porto das Ostras). Em uma edição de seu mapa (1632), o “R. aux Escailles” aparece desaguando na mesma parte da baía, e no mapa “Novi Belgii”, na America de Ogilby (1670), as palavras “Port aux Huistres” estão assinaladas diante do mesmo lugar. Também William Wood, que deixou a Nova Inglaterra em 1633, fala, em seu New England’s Prospect, publicado em 1634, de “um grande banco de ostras” no Charles River e de outro no Mistick, cada um dos quais obstruía a navegação de seu rio. “As ostras”, diz ele, “são grandes, com a forma de uma calçadeira; algumas têm um pé de comprimento; elas se reproduzem em certos bancos que ficam descobertos a cada maré de sizígia. Esse peixe sem a concha é tão grande que precisa ser dividido antes que se consiga pô-lo inteiro na boca.” Ostras ainda são encontradas ali. (Ver também New English Canaan, de Thomas Morton, página 90.)

Nosso anfitrião nos disse que a amêijoa-do-mar, ou hen, não era fácil de obter; era apanhada com ancinho, mas nunca do lado do Atlântico, onde só era lançada à praia em pequenas quantidades durante as tempestades. O pescador às vezes entra na água até vários pés de profundidade e enfia à sua frente uma vara pontiaguda na areia. Quando esta penetra entre as valvas de uma amêijoa, ela as fecha sobre a vara e é puxada para fora. Sabe-se que ela já capturou e reteve galeirões e marrecas que dela se alimentavam. Por acaso, algum tempo depois, eu estava um dia à margem do Acushnet, em New Bedford, observando alguns patos, quando um homem me informou que, tendo soltado seus patinhos naquela manhã para procurarem alimento entre a salicórnia (Salicornia) e outras ervas à beira do rio durante a baixa-mar, acabou notando que um deles permanecia imóvel entre as plantas, impedido por alguma coisa de seguir os demais; e, ao aproximar-se, encontrou-lhe o pé firmemente preso na concha de um quahog. Recolheu ambos juntos, levou-os para casa, e sua mulher, abrindo a concha com uma faca, soltou o pato e cozinhou o quahog. O velho disse que as grandes amêijoas eram boas para comer, mas que sempre lhes retiravam certa parte, venenosa, antes de cozinhá-las. “Diziam que matava um gato.” Não lhe contei que naquela tarde eu comera inteira uma das grandes, mas comecei a pensar que era mais resistente que um gato. Disse ele que mascates passavam por ali e às vezes tentavam vender às mulheres uma escumadeira, mas ele lhes dizia que as mulheres dali tinham escumadeira melhor do que qualquer uma que eles pudessem fabricar, na concha de suas amêijoas; ela tinha exatamente a forma certa para esse fim. Em alguns lugares chamam-nas de “skim-alls”. Disse também que a água-viva chamada sun-squall era venenosa ao toque e que, quando os marinheiros deparavam com uma, não mexiam nela, mas a arremessavam para fora do caminho. Contei-lhe que eu a manuseara naquela tarde e ainda não sentira efeito algum. Mas ele disse que fazia as mãos coçarem, sobretudo se já estivessem arranhadas, e que, se eu a pusesse junto ao peito, descobriria o que ela era.

Informou-nos que nunca se formava gelo no lado de trás do Cabo, ou não mais de uma vez por século, e que ali se acumulava pouca neve, pois era absorvida, levada pelo vento ou lavada. Às vezes, no inverno, quando a maré estava baixa, a praia congelava e proporcionava uma estrada firme por umas trinta milhas ao longo do lado de trás, lisa como um assoalho. Num inverno, quando era menino, ele e o pai “saíram direto para o lado de trás antes do amanhecer, caminharam até Provincetown e voltaram para o almoço”.

Quando perguntei o que faziam com toda aquela terra de aspecto estéril, onde eu via tão poucos campos cultivados, ele respondeu:

“Nada.”

“Então por que cercam seus campos?”

“Para impedir que a areia voe e cubra tudo.”

“A areia amarela”, disse ele, “tem alguma vida; a branca, pouca ou nenhuma.”

Quando, em resposta às suas perguntas, lhe disse que era agrimensor, ele contou que os que mediam sua fazenda costumavam, onde o terreno era irregular, erguer cada corrente em laçadas até a altura dos cotovelos; essa era a margem que davam, e queria saber se eu podia explicar por que as medidas nunca correspondiam à escritura, nem saíam iguais duas vezes. Parecia ter mais respeito pelos agrimensores da velha escola, o que não me surpreendeu. “O rei George Terceiro”, disse ele, “traçou uma estrada com quatro rods de largura e reta por toda a extensão do Cabo”, mas não sabia dizer onde ela ficava agora.

Essa história dos agrimensores fez-me lembrar de um homem de Long Island que certa vez, quando eu me preparava para saltar da proa de seu barco para a margem e ele julgou que eu subestimava a distância e não chegaria até lá, embora depois eu descobrisse que avaliava a elasticidade de minhas articulações pelas próprias, contou-me que, ao chegar a um riacho que queria atravessar, levantava uma perna e, se o pé parecia cobrir qualquer parte da margem oposta, sabia que podia saltá-lo. “Ora”, eu lhe disse, “para não falar do Mississippi e de outros pequenos cursos d’água, eu poderia apagar uma estrela com o pé, mas nem por isso me comprometeria a saltar até ela”, e perguntei como sabia quando a perna atingira a elevação correta. Mas ele considerava suas pernas tão exatas quanto um compasso de pontas ajustável ou um quadrante comum, e parecia conservar dolorosa lembrança de cada grau e minuto do arco que elas descreviam; queria fazer-me crer que havia uma espécie de trava na articulação do quadril que servia a esse fim. Sugeri que unisse os dois tornozelos por um barbante do comprimento adequado, que seria a corda de um arco, medindo sua capacidade de salto em superfícies horizontais, supondo uma das pernas perpendicular ao plano do horizonte, suposição que, contudo, talvez fosse ousada demais naquele caso. Ainda assim, era uma espécie de geometria nas pernas que me interessou conhecer.

Nosso anfitrião tinha prazer em dizer-nos os nomes das lagoas, a maioria das quais podíamos ver de suas janelas, e em fazer-nos repeti-los depois dele, para verificar se os havíamos entendido direito. Eram Gull Pond, a maior e muito bela, límpida e profunda, com mais de uma milha de circunferência, Newcomb’s, Swett’s, Slough, Horse-Leech, Round e Herring Ponds, todas ligadas na preamar, se não me engano. Os agrimensores da costa tinham ido procurá-lo para saber os nomes, e ele lhes contou o de uma que não haviam detectado. Disse que já não eram tão altas quanto antigamente. Houve um terremoto cerca de quatro anos antes de ele nascer, que rachou os fundos das lagoas, que eram de ferro, fazendo-as baixar. Não me lembrava de ter lido sobre isso. Incontáveis gaivotas costumavam frequentá-las; mas as grandes gaivotas agora eram muito raras, pois, segundo ele, os ingleses saqueavam seus ninhos muito ao norte, onde se reproduziam. Lembrava-se bem de quando se apanhavam gaivotas na casa de gaivotas e de quando pequenos pássaros eram mortos à noite por meio de uma frigideira e fogo. Seu pai certa vez perdeu um cavalo valioso por essa causa. Um grupo de Wellfleet, tendo acendido uma fogueira com esse propósito numa noite escura, em Billingsgate Island, assustou vinte cavalos que ali pastavam, entre eles aquele potro; e os animais, tentando no escuro atravessar a passagem que os separava da praia vizinha, então vadeável na baixa-mar, foram todos arrastados para o mar e morreram afogados. Observei que muitos cavalos ainda eram soltos para pastar durante todo o verão nas ilhas e praias de Wellfleet, Eastham e Orleans, como numa espécie de terreno comunal. Ele também descreveu a matança do que chamava de “galinhas selvagens” dali, depois que iam empoleirar-se nos bosques, quando era menino. Talvez fossem “galinhas-das-pradarias” (pinnated grouse).

Gostava da ervilha-da-praia (Lathyrus maritimus), cozida ainda verde, tanto quanto da cultivada. Vira-a crescer com grande abundância em Newfoundland, onde os habitantes também a comiam, mas nunca conseguira obter nenhuma madura para semente. Lemos, sob o verbete de Chatham, que “em 1555, durante um período de grande escassez, o povo das proximidades de Orford, em Sussex (Inglaterra), foi salvo de perecer ao comer as sementes dessa planta, que ali crescia em grande abundância no litoral. Vacas, cavalos, ovelhas e cabras a comem.” Mas o autor que citava isso não conseguira saber se elas alguma vez haviam sido usadas no condado de Barnstable.

Então ele havia sido viajante? Oh, em seus dias correra o mundo. Certa vez considerara-se piloto de toda a nossa costa; mas agora haviam mudado os nomes, de modo que talvez se atrapalhasse.

Deu-nos a provar o que chamava de Summer Sweeting, uma maçã agradável que cultivava e da qual fazia enxertos com frequência, mas que nunca vira crescer em outro lugar, exceto uma vez, três árvores em Newfoundland, ou na Bay of Chaleur, não me lembro qual, quando passava navegando. Tinha certeza de que reconheceria a árvore à distância.

Por fim entrou o simplório, a quem meu companheiro chamava de feiticeiro, resmungando entre os dentes: “Malditos mascates de livros, o tempo todo falando de livros. Era melhor fazerem alguma coisa. Malditos sejam. Vou atirar neles. Tem um médico aqui embaixo. Maldito seja, vou buscar uma arma e atirar nele”; sem erguer a cabeça uma única vez. Ao que o velho se levantou e disse em voz alta, como quem estava acostumado a mandar e como se aquela não fosse a primeira vez em que se via obrigado a exercer ali sua autoridade: “John, vá sentar, cuide da sua vida; já ouvimos você falar antes; muito pouco é o que vai fazer; seu latido é pior que sua mordida.” Mas, sem dar atenção, John tornou a murmurar a mesma algaravia e depois se sentou à mesa que os velhos haviam deixado. Comeu tudo o que havia nela e então se voltou para as maçãs que sua idosa mãe descascava, a fim de oferecer aos hóspedes um pouco de purê de maçã no café da manhã; mas ela as afastou e mandou-o embora.

Quando me aproximei dessa casa no verão seguinte, por sobre as colinas desoladas entre ela e a costa, dignas de terem sido o berço de Ossian, vi o feiticeiro no meio de um milharal na encosta; mas, como de costume, sua figura se elevava de modo tão estranho que o tomei por um espantalho.

Esse era o velho mais alegre que jamais havíamos visto, e um dos mais bem conservados. Seu modo de conversar era tosco e direto o bastante para agradar a Rabelais. Teria dado um bom Panurge. Ou, antes, era um Sileno sóbrio, e nós os rapazes Chromis e Mnasilus, que ouviam sua história.

“Nem junto aos montes hemônios o bardo trácio,

Nem o augusto Febo foi ouvido no Pindo

Com silêncio mais profundo ou maior atenção.”

Havia em sua conversa uma estranha mistura de passado e presente, pois vivera sob o rei George e talvez se lembrasse de quando Napoleão e os modernos em geral nasceram. Disse que um dia, quando começaram os conflitos entre as Colônias e a metrópole, ele, menino de quinze anos, atirava feno para fora de uma carroça, e certo Doane, um velho tory que conversava com seu pai, bom whig, disse-lhe: “Ora, tio Bill, seria tão sensato tentar jogar aquela lagoa no oceano com um forcado quanto as Colônias tentarem conquistar a independência.” Lembrava-se bem do general Washington e de como ele cavalgava pelas ruas de Boston, e levantou-se para nos mostrar sua aparência.

“Era um homem b-e-m grande e corpulento, um oficial de aspecto viril e resoluto, com uma perna bastante boa quando estava montado.” “Pois então, vou lhes dizer, era assim com Washington.” Então tornou a se levantar e fez uma reverência graciosa para a direita e para a esquerda, fingindo agitar o chapéu. E disse: “Esse era Washington.”

Contou-nos muitas anedotas da Revolução e ficou muito satisfeito quando lhe dissemos que havíamos lido as mesmas coisas na história e que seu relato concordava com o que estava escrito.

“Oh”, disse ele, “eu sei, eu sei! Era um rapaz de dezesseis anos, com os ouvidos bem abertos; e um rapaz dessa idade, vocês sabem, está bem desperto e gosta de saber tudo o que acontece. Oh, eu sei!”

Contou-nos a história do naufrágio do Franklin, ocorrido ali na primavera anterior: como um menino foi à casa dele bem cedo pela manhã para saber de quem era o barco junto à costa, pois havia uma embarcação em perigo; e ele, por ser velho, primeiro tomou o café da manhã, depois caminhou até o alto da colina junto à costa e ali se sentou, tendo encontrado um assento confortável, para assistir ao naufrágio. O navio estava sobre o banco de areia, a apenas um quarto de milha dele e ainda mais perto dos homens na praia, que já haviam preparado um barco, mas não podiam prestar auxílio por causa da arrebentação, pois o mar estava bastante alto. Os passageiros estavam todos aglomerados na parte da frente do navio, e alguns saíam pelas janelas da cabine e eram puxados para o convés pelos outros.

“Eu vi o capitão pôr seu barco na água”, disse ele; “ele tinha um pequeno; e então saltaram para dentro dele um após outro, descendo em linha reta como uma flecha. Eu os contei. Eram nove. Uma era mulher, e saltou tão reto quanto qualquer um deles. Então se afastaram da embarcação. O mar os trouxe de volta, uma onda passou por cima deles e, quando tornaram a aparecer, havia seis ainda agarrados ao barco; eu os contei. A onda seguinte virou o barco com o fundo para cima e despejou todos na água. Nenhum deles jamais chegou vivo à costa. Todos os restantes estavam apinhados no castelo de proa, pois as outras partes do navio se achavam debaixo d’água. Tinham visto tudo o que acontecera ao barco. Por fim, uma vaga pesada separou o castelo de proa do resto do destroço e o lançou para dentro da pior arrebentação, e o barco conseguiu alcançá-los e salvou todos os que restavam, menos uma mulher.”

Ele também nos contou que o vapor Cambria encalhara em sua costa poucos meses antes de nossa passagem por ali, e falou de seus passageiros ingleses, que percorreram suas terras e que, segundo ele, consideraram a vista do alto morro junto à costa “a mais deleitosa que jamais haviam contemplado”, bem como das travessuras que as senhoras fizeram com sua rede de cabo nos tanques. Falava desses viajantes, com as bolsas cheias de guinéus, tal como nossos antepassados provincianos costumavam falar dos janotas britânicos no tempo do rei George III.

Quid loquar? Por que repetir o que ele nos contou?

“Aut Scyllam Nisi, quam fama secuta est,

Candida succinctam latrantibus inguina monstris,

Dulichias vexâsse rates, et gurgite in alto

Ah timidos nautas canibus lacerâsse marinis?”

Ao longo da noite comecei a sentir a potência da amêijoa que havia comido, e fui obrigado a confessar ao nosso anfitrião que eu não era mais resistente do que o gato de que ele falara; mas ele respondeu que era um homem de fala franca e podia me dizer que aquilo era pura imaginação. De todo modo, no meu caso ela se revelou um emético, e por breve tempo me deixou bastante enfermo, enquanto ele ria à minha custa. Mais tarde tive prazer em ler, no Mourt’s Relation, acerca do desembarque dos Peregrinos no porto de Provincetown, estas palavras: “Encontramos grandes mexilhões (o antigo editor diz que eram sem dúvida amêijoas-do-mar), muito gordos e cheios de pérola-do-mar; mas não pudemos comê-los, pois fizeram adoecer todos os que os comeram, tanto marinheiros como passageiros, [...] porém logo tornaram a ficar bem.” Isso me aproximou dos Peregrinos, ao me recordar, por uma experiência semelhante, quanto eu me parecia com eles. Além disso, era uma confirmação valiosa de seu relato, e agora estou disposto a acreditar em cada palavra do Mourt’s Relation. Também me agradou constatar que o homem e a amêijoa ainda se encontravam no mesmo ângulo um em relação ao outro. Mas não notei pérola-do-mar alguma. Como Cleópatra, devo tê-la engolido. Desde então desenterrei essas amêijoas numa planície de maré da Baía e as observei. Podiam esguichar a bons dez pés a favor do vento, como mostravam as marcas das gotas na areia.

“Agora vou lhe fazer uma pergunta”, disse o velho, “e não sei se o senhor saberá responder; mas é um homem instruído, e eu nunca tive instrução nenhuma, a não ser a que aprendi com a natureza.” Foi inútil lembrarmos que ele podia citar Josefo para nossa confusão. “Sempre pensei que, se algum dia encontrasse um homem instruído, gostaria de lhe fazer esta pergunta. Pode me dizer como se escreve Axy e o que significa? Axy”, disse ele; “há uma moça aqui perto chamada Axy. Ora, o que é isso? O que quer dizer? Está nas Escrituras? Li minha Bíblia durante vinte e cinco anos, vezes e mais vezes, e nunca encontrei isso.”

“Leu-a durante vinte e cinco anos com esse objetivo?”, perguntei.

“Bem, como se escreve? Mulher, como se escreve?” Ela disse: “Está na Bíblia; eu já vi.”

“Bem, como você soletra?”

“Não sei. A c h, ach, s e h, seh, Achseh.”

“Isso se lê Axy? Bem, e você sabe o que significa?”, perguntou ele, voltando-se para mim.

“Não”, respondi, “nunca ouvi esse som antes.”

“Certa vez houve por aqui um mestre-escola, e perguntaram-lhe o que significava, e ele disse que não significava mais do que uma vara de feijão.”

Eu lhe disse que tinha a mesma opinião do mestre-escola. Eu próprio fora mestre-escola e tivera de lidar com nomes estranhos. Também ouvi falar, por estas bandas, de nomes como Zoleth, Beriah, Amaziah, Bethuel e Shearjashub.

Por fim, o menino, que tinha um assento bem no canto da lareira, tirou as meias e os sapatos, aqueceu os pés e, depois que lhe aplicaram uma nova camada de unguento na perna ferida, foi para a cama; então o simplório desnudou seus pés e pernas de aparência nodosa e o seguiu; e finalmente o velho também expôs suas panturrilhas ao nosso olhar. Nunca antes tivéramos a boa fortuna de ver as pernas de um velho, e ficamos surpresos ao achá-las claras e roliças como as de uma criança, e pensamos que ele se orgulhava de exibi-las. Em seguida passou a preparar-se para se recolher, discorrendo enquanto isso, com uma franqueza de fala digna de Panurge, sobre os males a que está sujeita a velha humanidade. Éramos uma pesca rara para ele. Em geral não conseguia ninguém com quem conversar a não ser ministros, embora às vezes fossem dez de uma vez, e alegrava-se em encontrar alguns leigos com tempo de sobra. A noite não era longa o bastante para ele. Como eu estivera enfermo, a velha senhora perguntou se eu não queria ir para a cama, pois já estava ficando tarde para gente idosa; mas o velho, que ainda não terminara suas histórias, disse: “O senhor não faz questão de horário, faz?”

“Ah, não”, respondi, “não tenho pressa. Creio que já dobrei o cabo da Amêijoa.”

“Elas são boas”, disse ele; “quem me dera ter algumas agora.”

“Nunca me fizeram mal”, disse a velha senhora.

“Mas a senhora tirou a parte que matou um gato”, respondi.

Por fim o interrompemos no meio de suas histórias, que ele prometeu retomar pela manhã. Ainda assim, afinal, uma das velhas senhoras que entrou em nosso quarto durante a noite para prender a placa da lareira, que chocalhava, tomou a precaução de nos trancar ao sair. As velhas são por natureza mais desconfiadas do que os velhos. Contudo, os ventos uivaram ao redor da casa e fizeram tanto as placas da lareira como os caixilhos das janelas chocalharem bastante naquela noite. Provavelmente foi uma noite ventosa em qualquer lugar, mas não conseguíamos distinguir o bramido próprio do oceano daquele que se devia apenas ao vento.

Os sons que o oceano produz devem ser muito significativos e interessantes para os que vivem perto dele. Quando eu deixava a costa naquele lugar, no verão seguinte, e já me encontrava a um quarto de milha de distância, subindo um morro, fui sobressaltado por um ruído súbito e forte vindo do mar, como se um grande vapor soltasse vapor junto à costa, de modo que perdi o fôlego e por um instante senti o sangue gelar, e me virei, esperando ver um dos vapores do Atlântico tão longe de sua rota, mas nada de incomum havia à vista. Havia um barranco baixo na entrada da depressão, entre mim e o oceano, e, suspeitando que ao subir o morro talvez eu houvesse penetrado em outra camada de ar, que trouxera até mim apenas o bramido comum do mar, desci imediatamente de novo, para verificar se deixava de ouvi-lo; mas, independentemente de eu subir ou descer, o som se extinguiu em um ou dois minutos, embora durante todo o tempo quase não houvesse vento. O velho disse que aquilo era o que chamavam de “rut”, um bramido peculiar do mar antes de o vento mudar, para o qual, contudo, ele não sabia dar explicação. Achava que podia dizer tudo sobre o tempo pelos sons que o mar produzia.

O velho Josselyn, que veio para a Nova Inglaterra em 1638, inclui entre seus sinais meteorológicos que “o ressoar do mar vindo da costa e o murmúrio dos ventos nos bosques, sem vento aparente, anunciam vento por vir”.

Estando certa noite, depois disso, em outra parte da costa, ouvi o bramido da arrebentação a uma milha de distância, e os habitantes disseram que era sinal de que o vento giraria para leste e teríamos tempo chuvoso. O oceano se acumulava em algum ponto a leste, e esse bramido era causado por seu esforço para preservar o equilíbrio, chegando a onda à costa antes do vento. Também o capitão de um paquete entre este país e a Inglaterra me contou que às vezes encontrava no Atlântico uma onda vindo contra o vento, talvez num mar calmo, o que indicava que, à distância, o vento soprava de um quadrante oposto, mas a ondulação viajara mais depressa que ele. Os marinheiros falam de “correntes de maré revoltas” e “ondulações de fundo”, que supõem terem sido causadas por furacões e terremotos e terem percorrido muitas centenas, às vezes até duas ou três mil milhas.

Antes do nascer do sol, na manhã seguinte, tornaram a nos soltar, e corri até a praia para ver o sol sair do oceano. A velha de oitenta e quatro invernos já estava do lado de fora, no vento frio da manhã, de cabeça descoberta, andando com passos ligeiros como uma moça e trazendo a vaca para ordenhá-la. Preparou o desjejum com rapidez e sem ruído nem agitação; enquanto isso, o velho retomou suas histórias, de pé diante de nós, que estávamos sentados, com as costas para a chaminé, cuspindo o sumo do tabaco para a direita e para a esquerda no fogo atrás de si, sem se importar com os vários pratos que ali estavam sendo preparados. No desjejum tivemos enguias, bolo de leitelho, pão frio, vagens verdes, rosquinhas e chá. O velho falava sem parar; e, quando a mulher lhe disse que era melhor comer seu desjejum, ele respondeu: “Não me apresse; vivi tempo demais para ser apressado.” Comi o purê de maçã e as rosquinhas, que me pareceram ter sofrido o menor dano dos disparos do velho, mas meu companheiro recusou o purê de maçã e comeu o bolo quente e as vagens verdes, que lhe haviam parecido ocupar a parte mais segura da lareira. Mas, ao compararmos nossas observações depois, contei-lhe que o bolo de leitelho estivera particularmente exposto e que eu vira como sofrera repetidas vezes, razão pela qual o evitara; ele, porém, declarou que, fosse como fosse, testemunhara que o purê de maçã fora gravemente atingido e que por isso o recusara. Depois do desjejum examinamos seu relógio, que estava desregulado, e o lubrificamos com um pouco de “gordura de galinha”, por falta de azeite fino, pois ele mal conseguia acreditar que não fôssemos funileiros ou mascates; enquanto isso, contou uma história sobre visões, relacionada com uma rachadura na caixa do relógio provocada pela geada certa noite. Tinha curiosidade de saber a que seita religiosa pertencíamos. Disse que, quando jovem, fora ouvir treze tipos de pregação num só mês, mas não aderira a nenhum deles, pois se mantivera fiel à Bíblia. Não havia nada parecido com nenhum deles em sua Bíblia. Enquanto eu me barbeava no cômodo ao lado, ouvi-o perguntar ao meu companheiro a que seita pertencia, ao que ele respondeu:

“Ah, pertenço à Irmandade Universal.”

“O que é isso?”, perguntou ele. “Filhos da Temperança?”

Por fim, depois de enchermos os bolsos de rosquinhas, que ele ficou contente ao descobrir que chamávamos pelo mesmo nome que ele, e de pagarmos nossa hospedagem, partimos; mas ele nos seguiu para fora e nos fez dizer os nomes das hortaliças que cultivara a partir de sementes vindas do Franklin. Eram repolho, brócolis e salsa. Como eu lhe perguntara o nome de tantas coisas, ele por sua vez me pôs à prova com todas as plantas que cresciam em sua horta, tanto silvestres quanto cultivadas. Tinha cerca de meio acre, que ele cultivava inteiramente sozinho. Além das hortaliças comuns, havia língua-de-vaca-amarela, erva-cidreira, hissopo, hera-terrestre, orelha-de-rato, morugem, losna-romana, énula e outras plantas. Enquanto estávamos ali, vi uma águia-pescadora baixar em voo para apanhar um peixe em seu tanque.

“Lá”, disse eu, “ela pegou um peixe.”

“Bem”, disse o velho, que estivera olhando o tempo todo, mas não conseguia ver nada, “ela não mergulhou, só molhou as garras.”

E, com efeito, dessa vez ela não mergulhou, embora se diga que muitas vezes o façam, mas apenas desceu o bastante para apanhá-lo com as garras; porém, enquanto levava sua presa brilhante por cima dos arbustos, ela caiu no chão, e não vimos que a recuperasse. Isso não é costume delas.

Assim, depois de mais uma prosa com o velho, que permanecia de cabeça descoberta sob o beiral, ele nos indicou o caminho “através dos campos”, e tornamos à praia para mais um dia, sendo então já avançada a manhã.

Foi apenas um ou dois dias depois disso que o cofre do Banco de Provincetown foi arrombado e roubado por dois homens do interior, e soubemos que nossos hospitaleiros anfitriões de fato alimentaram, ao menos por algum tempo, a suspeita de que nós éramos os homens.

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