De Volta à Praia Cape Cod · Capítulo 6 de 10
Obra Menu

De Volta à Praia

Nosso caminho até a alta escarpa arenosa, que descrevi como se estendendo ao longo de toda a costa, passava, como de costume, por manchas de arbustos de mírica que avançavam de modo irregular sobre a areia. Depois do carvalho-arbustivo, este era talvez o arbusto mais comum por aquelas redondezas. Atraíam-me muito suas folhas odoríferas e suas pequenas bagas cinzentas, agrupadas em torno dos raminhos curtos, logo abaixo do crescimento do ano anterior. Conheço apenas dois arbustos em Concord, e eles, por serem plantas estaminadas, não dão frutos. As bagas conferiam-lhe uma aparência venerável e exalavam um aroma bastante especiado, como pequenos confeitos. Robert Beverley, em sua History of Virginia, publicada em 1705, afirma que “na foz de seus rios, e ao longo de todo o mar e da baía, e perto de muitos de seus riachos e pântanos, cresce a mírica, que produz uma baga da qual fazem uma cera dura e quebradiça, de curiosa cor verde, que, refinada, se torna quase transparente. Com ela fazem velas que jamais ficam gordurosas ao toque nem derretem quando deixadas no tempo mais quente; tampouco o pavio queimado destas ofende o olfato, como o de uma vela de sebo; ao contrário, em vez de ser desagradável, se por acaso uma vela se apaga, ela espalha uma fragrância agradável por todos os que estão no aposento; tanto que pessoas exigentes muitas vezes as apagam de propósito para sentir o incenso do pavio que se extingue. Diz-se que o processo de derreter essas bagas foi descoberto pela primeira vez por um cirurgião da Nova Inglaterra, que realizou coisas prodigiosas com um unguento feito delas.” Pela abundância de bagas que ainda pendiam dos arbustos, concluímos que os habitantes em geral não as colhiam para fazer sebo, embora tivéssemos visto um pedaço na casa que acabáramos de deixar. Desde então, eu mesmo fiz um pouco desse sebo. Segurando uma cesta sob os ramos nus em abril, esfreguei-os entre as mãos e assim colhi cerca de um quartilho em vinte minutos; depois acrescentei o suficiente para completar três pintas, e poderia tê-las colhido muito mais depressa com um ancinho apropriado e uma cesta grande e rasa. Elas têm pequenas saliências como as de uma laranja, todas vincadas de sebo, que também preenche os interstícios até o caroço. A parte oleosa subiu à superfície, fazendo o conjunto parecer um saboroso caldo negro, cujo cheiro lembrava muito o de bálsamo ou de outro chá de ervas. Deixa-se esfriar, retira-se então o sebo da superfície, torna-se a derretê-lo e coa-se. Obtive de minhas três pintas cerca de um quarto de libra, e ainda ficou mais dentro das bagas. Uma pequena porção esfriou sob a forma de pequenos hemisférios achatados, semelhantes a cristalizações, do tamanho de um grão de milho, pepitas, como eu as chamava ao retirá-las do meio das bagas. Loudon diz que “as árvores cultivadas, segundo se afirma, produzem mais cera do que as encontradas em estado silvestre”. (Ver Duplessy, Végetaux Résineux, vol. II, p. 60.) Se alguma resina grudar em suas mãos nos pinhais, basta esfregar entre elas algumas dessas bagas para soltá-la. Mas o oceano era ali o grande fato, que nos fazia esquecer tanto as míricas quanto os homens.

Naquele dia, o ar estava belamente límpido, e o mar já não era escuro e tempestuoso, embora as ondas ainda se quebrassem em espuma ao longo da praia, mas cintilante e cheio de vida. Já naquela manhã eu vira o dia romper sobre o mar como se saísse de seu seio:

“A Aurora de vestes açafroadas ergueu-se célere das correntes

Do Oceano, para levar luz aos imortais e aos mortais.”

O sol nasceu visivelmente a tamanha distância sobre o mar que o banco de nuvens no horizonte, que a princípio o ocultava, não se tornou perceptível até que ele se elevasse por trás dele e, como uma flecha, claramente o rompesse e dispersasse. Mas eu ainda o contemplava como se nascesse sobre a terra e não conseguia, sem esforço, perceber que nascia sobre o mar. Eu já via no horizonte algumas embarcações que haviam contornado o Cabo durante a noite e agora avançavam bem por seu caminho aquático rumo a outras terras.

Voltamos à praia na parte sul de Truro. No início do dia, enquanto era maré enchente e a praia estava estreita e fofa, caminhamos pela escarpa, que ali era muito alta, embora não tão nivelada quanto na véspera, pois era mais interrompida por pequenas depressões. O autor da Description of the Eastern Coast diz a respeito dessa parte que “a escarpa é muito alta e íngreme. De sua borda para oeste, há uma faixa de areia de cem jardas de largura. Segue-se então uma vegetação arbustiva baixa, com um quarto de milha de largura e quase intransponível. Depois vem uma floresta densa e desconcertante, na qual não se avista casa alguma. Portanto, embora seja grande a distância entre essas duas depressões (Newcomb’s Hollow e Brush Hollow), os marinheiros não devem tentar entrar na mata, pois numa tempestade de neve sem dúvida pereceriam.” Esta ainda é uma descrição verdadeira da região, exceto por já não restar muita mata alta.

Havia muitas embarcações que, como gaivotas, roçavam a superfície do mar, ora meio ocultas nas cavas, com seus paus-de-golfinho arando a água, ora lançadas ao topo das vagas. Uma delas, uma barca que seguia paralela à costa, de repente recolheu as velas, lançou âncora e girou ao vento perto de nós, a apenas meia milha da praia. A princípio pensamos que seu capitão desejava comunicar-se conosco e talvez não tenhamos dado atenção ao sinal de perigo que um marinheiro teria compreendido, enquanto ele nos amaldiçoava como recolhedores de destroços de coração frio que lhe viravam as costas. Durante horas ainda pudemos vê-la ancorada atrás de nós, e nos perguntávamos como podia dar-se ao luxo de se demorar tanto em sua rota. Ou seria uma contrabandista que escolhera aquela praia deserta para desembarcar a carga? Ou queriam pescar, ou pintar a embarcação? Não tardou para que outras barcas, brigues e escunas, que nesse meio-tempo haviam dobrado o Cabo, passassem por ela impulsionadas pela brisa viva, e nossas consciências se aliviaram. Algumas dessas embarcações ficavam para trás, enquanto outras avançavam sem cessar. Observávamos atentamente seu aparelho, o corte de suas bujarronas e a maneira como caminhavam sobre a água, pois havia entre elas toda a diferença que existe entre criaturas vivas. Mas nos espantava que lá fora ainda se lembrassem de Boston, Nova York e Liverpool e rumassem para esses lugares, como se o marinheiro pudesse esquecer seu negócio de mascate numa estrada tão grandiosa. Talvez tivessem trazido laranjas das Ilhas Ocidentais; estariam levando as cascas de volta? Seria o mesmo transportarmos nossas velhas tralhas através do oceano da eternidade. Será aquilo apenas outra “corrente mercantil”, com suas ilhas bem-aventuradas? É o Céu um porto como as docas de Liverpool?

Prosseguiam ainda, sem interrupção, os terrenos áridos e os arbustos do interior, o deserto e a alta escarpa arenosa de declive uniforme, a ampla praia branca, as arrebentações, a água verde sobre o banco de areia e o oceano Atlântico; e percorremos com prazer novos trechos da costa. Tivemos outra lição sobre crinas de cavalos-marinhos e caudas de vacas-marinhas, sobre medusas-do-mar e amêijoas-do-mar, agora enriquecida por nossa experiência recém-adquirida. O mar corria quase tão forte quanto na véspera. A cada onda parecia estar amainando, porque isso era o que esperávamos, e contudo, depois de transcorridas horas, não conseguíamos ver diferença alguma. Mas ali estava ele, equilibrando-se, o oceano inquieto ao nosso lado, cambaleante em seu andar. Cada onda deixava a areia toda trançada ou tecida, por assim dizer, com trama e urdidura grosseiras e uma borda elevada bem definida em sua obra veloz. Não tínhamos pressa, pois desejávamos contemplar o oceano à vontade; e, de fato, aquela areia fofa não era lugar para correr, pois uma milha ali valia por duas em qualquer outro lugar. Além disso, éramos obrigados com frequência a esvaziar os sapatos da areia que entrava ao subirmos ou descermos a escarpa.

Enquanto caminhávamos rente à beira da água naquela manhã, viramo-nos por acaso e vimos um grande objeto negro que as ondas acabavam de lançar à praia atrás de nós, ainda distante demais para distinguirmos o que era. Quando nos dispúnhamos a voltar até ele, dois homens vieram correndo da escarpa, onde antes não aparecera ser humano algum, como se tivessem saído da areia, a fim de salvá-lo antes que outra onda o levasse. À medida que nos aproximávamos, ele assumiu sucessivamente a forma de um peixe enorme, de um homem afogado, de uma vela ou de uma rede e, por fim, de uma massa de tecido de estopa, parte da carga do Franklin, que os homens colocaram numa carroça.

Os objetos na praia, sejam homens ou coisas inanimadas, não apenas parecem extremamente grotescos, mas também muito maiores e mais extraordinários do que realmente são. Há pouco tempo, ao me aproximar do litoral vários graus ao sul deste ponto, vi diante de mim, aparentemente a meia milha de distância, o que pareciam penhascos abruptos e escarpados na praia, com quinze pés de altura e esbranquiçados pelo sol e pelas ondas; mas, depois de alguns passos, revelaram-se baixos montes de trapos, parte da carga de uma embarcação naufragada, com pouco mais de um pé de altura. Certa vez também coube-me procurar os restos de um corpo humano dilacerado por tubarões, que acabara de ser lançado à praia uma semana depois de um naufrágio, tendo eu recebido as indicações de um farol: deveria encontrá-lo a uma ou duas milhas de distância pela areia, a uma dúzia de rods da água, coberto por um pano, junto a uma vara fincada no chão. Eu esperava ter de olhar com grande atenção para encontrar objeto tão pequeno, mas a praia arenosa, com meia milha de largura e estendendo-se para além do alcance da vista, era tão perfeitamente lisa e nua, e a miragem na direção do mar tão amplificadora, que, quando eu ainda estava a meia milha de distância, a insignificante lasca que marcava o lugar parecia uma verga descorada, e os restos eram tão conspícuos como se estivessem expostos solenemente naquela planície arenosa, ou como se uma geração inteira tivesse trabalhado para erguer ali seu monte funerário. Vistos de perto, eram simplesmente alguns ossos com um pouco de carne aderida, na verdade apenas uma ligeira irregularidade no amplo traçado da costa. Não havia neles absolutamente nada de notável, e eram singularmente inofensivos tanto aos sentidos quanto à imaginação. Mas, enquanto eu permanecia ali, tornavam-se cada vez mais imponentes. Estavam a sós com a praia e o mar, cujo bramido cavo parecia dirigir-se a eles, e tive a impressão de que havia entre eles e o oceano um entendimento que necessariamente me excluía, com minhas compadecidas lamúrias. Aquele corpo morto tomara posse da costa e reinava sobre ela como nenhum corpo vivo poderia reinar, em nome de certa majestade que lhe pertencia.

Depois vimos muitos pequenos pedaços de tecido de estopa trazidos pelas ondas, e soube que continuaram a ser encontrados em bom estado até novembro daquele ano, meia dúzia de peças de cada vez.

Enchemos avidamente os bolsos com os seixos lisos e redondos que, em alguns lugares, mesmo ali, se achavam esparsamente salpicados sobre a areia, juntamente com conchas circulares e achatadas (Scutellæ?); mas, como havíamos lido, quando secas elas perdiam a beleza, e, a cada parada, tornávamos a esvaziar os bolsos das menos notáveis, até que nossa coleção estivesse bem selecionada. Todo material era rolado pelas ondas até assumir a forma de seixo; não apenas pedras de várias espécies, mas também o carvão mineral que alguma embarcação deixara cair, pedaços de vidro e, numa ocasião, uma massa de turfa de três pés de comprimento, embora nada semelhante pudesse ser visto por muitas milhas. Todos os grandes rios do globo descarregam anualmente, quando não de modo constante, grandes quantidades de madeira, que derivam até costas distantes. Também vi seixos de tijolo de forma muito perfeita, e barras de sabão de Castela provenientes de um naufrágio, roladas até se tornarem cilindros perfeitos, ainda estriados em espiral de vermelho, como o poste de um barbeiro. Quando uma carga de trapos é lançada à praia, todo bolso velho e todo recesso semelhante a um saco fica cheio de areia até quase rebentar, de tanto rolar pela praia; e, numa ocasião, os bolsos das roupas dos náufragos, assim estufados, mesmo depois de rasgados pelos recolhedores de destroços, iludiram-me com a esperança de identificá-los pelo conteúdo. Um par de luvas parecia exatamente estar preenchido por mãos. A água dessas roupas logo é espremida e evaporada, mas a areia, que se entranha em cada costura, não é tão fácil de eliminar. Como se sabe, as esponjas recolhidas na costa conservam um pouco da areia da praia até o último de seus dias, apesar de todos os esforços para extraí-la.

Encontrei no alto do barranco uma pedra de cor cinza-escura, moldada exatamente como uma amêijoa-gigante (Mactra solidissima) e do mesmo tamanho; e, o que era mais notável, metade de sua parte externa se desprendera e jazia perto dela, com a mesma forma e profundidade de uma das valvas dessa amêijoa, enquanto a outra metade estava solta, deixando no interior um núcleo sólido de cor mais escura. Mais tarde vi uma pedra que se assemelhava a uma amêijoa-canivete, mas era inteiramente maciça. Parecia que a pedra, no processo de formação, preenchera o molde fornecido por uma concha de amêijoa; ou que a mesma lei que dera forma à amêijoa fizera uma amêijoa de pedra. Amêijoas mortas, com as conchas cheias de areia, são chamadas amêijoas-de-areia. Havia muitas conchas das grandes amêijoas cheias de areia; e às vezes uma valva isolada estava preenchida em nível perfeitamente uniforme, como se a areia tivesse sido amontoada e depois raspada. Mesmo entre as muitas pedrinhas no alto do barranco, encontrei uma ponta de flecha.

Além da amêijoa-gigante e das cracas, encontramos na costa uma pequena amêijoa (Mesodesma arctata), que desenterrei com as mãos em grande número nos bancos de areia e que às vezes é comida pelos habitantes, na falta da Mya arenaria, deste lado. A maioria de suas conchas vazias fora perfurada por algum inimigo. Também:

Astarte castanea.

O mexilhão-comestível (Mytilus edulis) nas poucas rochas, e trazido à praia em curiosos cachos de quarenta ou cinquenta indivíduos, unidos por seu bisso semelhante a cordas.

A concha de vieira (Pecten concentricus), usada em porta-cartões e

alfineteiros.

Búzios, ou cucos (Natica heros), e seu notável ninho,

chamado “círculo de areia”, semelhante à parte superior de uma bilha de

pedra sem a rolha e quebrada de um lado, ou a uma gola aberta feita de

lixa. Também:

Cancellaria Couthouyi (?), e

Caramujos (?) (Fusus decemcostatus).

Mais tarde vimos algumas outras espécies no lado da Baía. Gould afirma que

este Cabo “até agora se mostrou uma barreira às migrações de muitas

espécies de moluscos”. “Das cento e noventa e sete espécies

[que ele descreveu em 1840 como pertencentes a Massachusetts],

oitenta e três não passam para a costa sul, e cinquenta não são encontradas na

costa norte do Cabo.”

Entre os crustáceos, havia carapaças de caranguejos e lagostas, muitas vezes branqueadas até ficarem inteiramente brancas no alto da praia; pulgas-do-mar ou pulgas-da-praia (Amphipoda); e os exoesqueletos do límulo, ou peixe-frigideira (Limulus Polyphemus), dos quais vimos muitos vivos no lado da Baía, onde os dão de comer aos porcos. Suas caudas eram usadas como pontas de flecha pelos indígenas.

Entre os radiados, havia o ouriço-do-mar, ou ovo-do-mar (Echinus granulatus), em geral privado dos espinhos; conchas circulares e achatadas (Scutella parma?), cobertas de espinhos cor de chocolate, mas que se tornam lisas e brancas, com cinco figuras semelhantes a pétalas; algumas estrelas-do-mar, ou cinco-dedos (Asterias rubens); e medusas, ou águas-vivas (Aureliæ).

Havia também pelo menos uma espécie de esponja.

As plantas que notei aqui e ali na faixa de areia pura,

entre a marca ordinária da preamar e o sopé do barranco, eram a mostarda-marítima

(Cakile Americana), a barrilha-espinhosa (Salsola kali), a arenária-marítima

(Honkenya peploides), o carrapicho-marítimo (Xanthium echinatum), a eufórbia-litorânea

(Euphorbia poylgonifolia); também o capim-das-dunas (*Arundo,

Psamma ou Calamagrostis arenaria), a vara-de-ouro-litorânea (Solidago

sempervirens) e a ervilha-da-praia (Lathyrus maritimus*).

Às vezes ajudávamos um recolhedor de destroços a virar um tronco maior que o habitual, ou nos divertíamos rolando pedras pelo barranco abaixo, mas raramente conseguíamos fazer com que alguma alcançasse a água, de tão macia e larga que era a praia; ou tomávamos banho em algum baixio dentro de um banco de areia, onde o mar nos cobria de areia a cada fluxo da maré, embora estivesse bastante frio e ventasse muito. Ali, no calor, o oceano costuma ser apenas uma perspectiva tentadora, pois, com toda aquela água diante de você, não há, como depois nos disseram, banho no lado do Atlântico, por causa da corrente de retorno e dos rumores de tubarões. Tanto no farol de Eastham quanto no de Truro, as únicas casas de fato situadas na costa, afirmaram, no ano seguinte, que não se banhariam ali “por dinheiro algum”, pois às vezes viam tubarões serem arremessados para a areia e se contorcerem por um instante. Outros riam dessas histórias, mas talvez pudessem se dar a esse luxo porque nunca se banhavam em lugar nenhum. Um velho recolhedor de destroços contou-nos que matara um autêntico tubarão-comedor-de-homens de quatorze pés de comprimento e o arrastara para fora com seus bois, no lugar onde havíamos tomado banho; e outro, que seu pai apanhara ali encalhado um menor da mesma espécie, pondo-o em pé sobre o focinho para que as ondas não o levassem. Em todo o Cabo contarão histórias espantosas sobre tubarões, das quais não ouso duvidar por completo: como às vezes viram um barco ou o despedaçam para alcançar o homem que está dentro dele. Posso acreditar facilmente na corrente de retorno, mas não tenho dúvida de que um tubarão a cada doze anos basta para manter a reputação de uma praia de cem milhas de extensão. Devo acrescentar, porém, que em julho caminhamos pelo barranco, durante um quarto de milha, paralelamente a um peixe de cerca de seis pés de comprimento, talvez um tubarão, que rondava devagar a menos de dois rods da costa. Era de cor castanho-clara, singularmente diáfano e indistinto na água, como se toda a Natureza favorecesse essa criatura do oceano, e exibia muitas barras ou anéis transversais mais escuros sempre que vinha à superfície. É bem sabido que diferentes peixes, mesmo da mesma espécie, são coloridos pela água que habitam. Vimo-lo entrar numa pequena enseada, ou banheira natural, onde pouco antes havíamos tomado banho, e onde a água tinha então apenas quatro ou cinco pés de profundidade, e, depois de explorá-la, sair outra vez lentamente; mas continuamos a nos banhar ali, limitando-nos a observar primeiro, do alto do barranco, se a enseada já estava ocupada. Pareceu-nos que a água era mais cheia de vida, talvez mais aerada que a da Baía, como água com gás, pois éramos tão exigentes quanto salmões jovens, e a expectativa de encontrar um tubarão em nada diminuía suas propriedades vivificantes.

Às vezes nos sentávamos na praia molhada e observávamos as aves praieiras, maçaricos e outras, trotando bem junto de cada onda e esperando que o mar lhes lançasse o desjejum. Os primeiros (Charadrius melodus) corriam com grande rapidez e então ficavam absolutamente imóveis, notavelmente eretos e quase indistinguíveis da praia. A areia molhada estava coberta de pequenas pulgas-do-mar saltitantes, que aparentemente constituem parte de seu alimento. Estas últimas são as pequenas lixeiras da praia, e são tão numerosas que devoram em pouquíssimo tempo peixes grandes lançados à costa. Uma avezinha não maior que um pardal, talvez um falaropo, pousava na superfície revolta onde as ondas quebravam a cinco ou seis pés de altura, e ali flutuava com leveza como um pato, alçando astutamente voo e elevando-se alguns pés pelo ar sobre a crista espumante de cada onda; mas às vezes cavalgava em segurança uma vaga considerável que a ocultava por alguns segundos, quando o instinto lhe dizia que ela não iria quebrar. Era uma criaturinha a brincar assim com o oceano, mas alcançava, a seu modo, êxito tão perfeito quanto as ondas no delas. Havia também uma linha quase ininterrupta de galeirões subindo e descendo com as ondas, a poucos rods da costa, por toda a extensão do Cabo. Faziam parte tão constante da orla do oceano quanto as folhas de nenúfar ou a pontedéria fazem da margem de um lago. Lemos o seguinte a respeito do painho-de-Wilson (Thalassidroma Wilsonii), que é visto tanto na Baía quanto do lado de fora. “As penas do peito do painho-de-Wilson são, como as de todas as aves nadadoras, impermeáveis; mas substâncias que não podem ser molhadas pela água são, justamente por essa razão, as mais apropriadas para recolher óleo de sua superfície. Essa função é desempenhada pelas penas do peito dos painhos-de-Wilson quando roçam a superfície; e, embora talvez não seja essa a única maneira pela qual obtêm alimento, é certamente aquela pela qual conseguem grande parte dele. Eles avançam impetuosamente até carregar as penas e então param sobre a onda e retiram o óleo com o bico.”

Assim prosseguimos ao longo da costa que se curvava suavemente, avistando de uma só vez duas ou três milhas adiante, por essa calçada à beira do oceano, onde não havia ninguém a quem dar passagem, com o meio da estrada, a grande via das nações, à nossa direita, e as escarpas arenosas do Cabo à esquerda. Naquela manhã vimos parte dos destroços de uma embarcação, provavelmente o Franklin, uma grande peça de quinze pés quadrados, ainda com a pintura fresca. Com um arpéu e uma corda, poderíamos tê-la salvado, pois as ondas repetidamente a traziam ao alcance de um arremesso, mas outras tantas vezes a levavam de volta. Teria sido uma captura afortunada para algum pobre recolhedor de destroços, pois me disseram que um homem que pagou três ou quatro dólares por uma parte dos destroços daquela embarcação vendeu cinquenta ou sessenta dólares em ferro retirado dela. Outro, o mesmo que recolheu a valise do capitão com a memorável carta dentro, mostrou-me, crescendo em seu jardim, muitas pereiras e ameixeiras que deram à costa vindas dela, todas cuidadosamente amarradas e etiquetadas; e disse que poderia ter obtido quinhentos dólares em mercadorias, pois um certo Sr. Bell importava o núcleo de um viveiro que seria estabelecido perto de Boston. Suas sementes de nabo vieram da mesma fonte. Também jaziam em seu quintal valiosas vergas e mastros da mesma embarcação e do Cactus. Em suma, os habitantes visitam a praia para ver o que apanharam com a mesma regularidade com que um pescador visita seu curral de pesca, ou um madeireiro sua barreira de retenção; o Cabo é a barreira deles. Ouvi falar de um homem que havia recolhido recentemente vinte barris de maçãs em bom estado, provavelmente parte de uma carga de convés lançada ao mar durante uma tempestade.

Embora haja mestres de naufrágios nomeados para cuidar de bens valiosos, que precisam ser anunciados, sem dúvida uma grande quantidade de objetos de valor é levada embora em segredo. Mas não somos todos recolhedores de destroços, tramando para que algum tesouro seja lançado em nossa praia, a fim de que possamos nos apoderar dele? E não inferimos os hábitos desses recolhedores de Nauset e Barnegat a partir dos modos comuns de ganhar a vida?

O mar, vasto e selvagem como é, leva assim os resíduos e destroços da arte humana até sua costa mais remota. Não há como saber o que ele pode vomitar. Não deixa nada repousar, nem mesmo as amêijoas gigantes que se agarram ao seu fundo. Ainda continua lançando à praia o tecido grosseiro do Franklin, e talvez um pedaço do navio de algum velho pirata, naufragado há mais de cem anos, dê hoje à costa. Alguns anos atrás, quando naufragou aqui uma embarcação que levava noz-moscada em sua carga, as nozes ficaram espalhadas por toda a praia e, durante um tempo considerável, não foram estragadas pela água salgada. Pouco depois, um pescador apanhou um bacalhau que estava cheio delas. Por que, então, os habitantes das Ilhas das Especiarias não poderiam sacudir suas árvores de noz-moscada sobre o oceano e deixar que todas as nações que delas necessitam as recolhessem? Contudo, depois de um ano, constatei que as nozes-moscadas do Franklin haviam amolecido.

Seria possível fazer uma lista curiosa dos artigos que os peixes engoliram: canivetes abertos de marinheiros e reluzentes caixas de rapé de folha de flandres, sem saber o que havia dentro delas, além de jarros, joias e Jonas. Outro dia deparei com o seguinte recorte num jornal.

“Um peixe religioso. Há pouco tempo, o anfitrião Stewart, do Denton Hotel, comprou um peixe-rocha que pesava cerca de sessenta libras. Ao abri-lo, encontrou dentro dele um certificado de filiação à Igreja Episcopal Metodista, que lemos como segue:

Membro da Igreja E. Metodista. Fundada

A. D. 1784. Cartão Trimestral. 18

Ministro.

‘Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós um peso eterno de glória muito mais excelente.’, 2 Cor. iv. 17.

‘Oh, que são todos os meus sofrimentos aqui,

Se, Senhor, me julgares digno

De surgir com aquela hoste arrebatada,

E adorar a teus pés!’

“O papel estava, naturalmente, amarrotado e molhado, mas, depois de exposto ao sol e de se passarem a ferro suas dobras, tornou-se perfeitamente legível. Denton (Md.) Journal.”

De tempos em tempos, nós mesmos salvávamos algum destroço, uma caixa ou um barril, colocávamo-lo de pé e tomávamos posse dele por meio de gravetos cruzados; e talvez fique ali, respeitado por outros recolhedores de destroços, até que alguma tempestade mais violenta o leve, realmente perdido para o homem até naufragar de novo. Também salvamos, ao custo apenas de molhar os pés, uma corda valiosa e uma boia, parte de uma rede de cerco com a qual o mar brincava, pois parecia falta de cortesia recusar o menor presente que tão grande personagem nos oferecesse. Levamos aquilo para casa e ainda o usamos como cordel de jardim. Recolhi uma garrafa meio enterrada na areia molhada, coberta de cracas, mas bem arrolhada e meio cheia de cerveja vermelha, que ainda tinha sabor de zimbro, tudo o que restava, imaginei, do naufrágio de um mundo de arruaceiros; de um lado, aquele grande mar salgado, e, do outro, este pequeno mar de cerveja, cada qual preservando seu caráter próprio. E se ela pudesse nos contar suas aventuras por incontáveis ondas oceânicas! O homem não continuaria homem depois de provações como aquelas pelas quais ela passara. Mas, enquanto eu lentamente derramava seu conteúdo sobre a areia, pareceu-me que o próprio homem era como uma garrafa meio vazia de cerveja clara, da qual o Tempo bebera até certo ponto, embora permanecesse bem arrolhada por algum tempo e andasse à deriva no oceano das circunstâncias; destinada, porém, em breve, a se misturar às ondas circundantes ou a se derramar nas areias de uma costa distante.

No verão, vi dois homens pescando robalos por aquelas bandas. A isca deles era uma rã-touro, ou várias rãs pequenas reunidas num feixe, por falta de lula. Seguiam uma onda que recuava e, girando as linhas ao redor da cabeça com velocidade crescente, lançavam-nas o mais longe que podiam no mar; depois, recuando, sentavam-se estendidos na areia e esperavam uma fisgada. Era, literalmente (ou litoralmente), descer até a costa e lançar a linha no Atlântico. Eu não teria como saber o que poderia agarrar a outra ponta, se Proteu ou algum outro. De todo modo, caso não conseguisse puxá-lo para fora, ora, poderia soltá-lo sem ser você mesmo puxado para dentro. E eles sabiam por experiência que seria um robalo-listrado, ou talvez um bacalhau, pois esses peixes se movem por perto, ao longo da costa.

De tempos em tempos, sentávamo-nos a sotavento de uma colina de areia na ribanceira, parcamente coberta por áspero capim-das-dunas, e contemplávamos fixamente o mar, ou observávamos as embarcações seguindo para o sul, todas Bênçãos da Baía, naturalmente. Podíamos ver pouco mais de um semicírculo de oceano, além dos vislumbres da Baía que obtínhamos atrás de nós; ali o mar não era selvagem e desolado sob todos os aspectos, pois com frequência havia cem velas à vista de uma só vez no Atlântico. Num dia favorável de verão, é comum contar cerca de oitenta, e às vezes os práticos desembarcam e sobem a ribanceira para procurar aquelas que necessitam de seus serviços. Elas haviam esperado tempo bom e saído juntas do porto de Boston. O mesmo acontece quando ficam reunidas no Vineyard Sound, de modo que se podem ver poucas num dia e uma grande frota no seguinte. Escunas com muitas bujarronas e velas de estai apinhavam toda a estrada marítima; embarcações de velame redondo, com a grande altura e largura de suas lonas, volta e meia surgiam do horizonte distante, ou desapareciam e afundavam nele; aqui e ali, um barco de prático rebocava seu pequeno bote pela popa em direção a alguma embarcação estrangeira distante que acabara de disparar um tiro de canhão, cujo eco ao longo da costa soava como o desabamento da ribanceira. Podíamos ver o prático olhando por sua luneta para o navio distante, que voltava para falar com ele. Ele navega muitas milhas para encontrá-lo; e agora o navio põe as velas em pane e se comunica com ele bordo a bordo, envia alguma mensagem importante aos proprietários e então se despede destas costas de uma vez por todas; ou talvez um vapor a hélice passasse e se amarrasse a alguma embarcação avariada, ou a uma que tivesse ficado em calmaria, cuja carga de frutas poderia estragar. Embora seguissem silenciosamente e, na maior parte, sem se comunicar, cuidando de seus afazeres, eram sem dúvida uma fonte de ânimo e uma espécie de companhia umas para as outras.

Hoje era o Mar Púrpura, epíteto que antes eu não teria aceitado. Havia manchas bem definidas da cor de uma uva roxa cuja pruína tivesse sido esfregada. Mas, do princípio ao fim, o mar é de todas as cores. Gilpin escreve bem a respeito “dos matizes brilhantes que continuamente brincam sobre a superfície de um oceano tranquilo”, e este não era turbulento demais a certa distância da costa. “Belos”, diz ele, “sem dúvida em alto grau, são aqueles tons cintilantes que muitas vezes revestem os cumes das montanhas; mas não passam de coruscações comparados a estas cores marinhas, que continuamente variam e se transformam umas nas outras em todo o vívido esplendor do arco-íris, por um espaço muitas vezes de várias léguas.” Em geral, com tempo calmo, por meia milha a partir da costa, onde o fundo lhe dá cor, o mar é verde ou esverdeado, como alguns lagos; depois, azul por muitas milhas, muitas vezes com tons púrpura, limitado ao longe por uma faixa clara, quase prateada; além dela, costuma haver uma orla azul-escura, semelhante a uma cadeia de montanhas no horizonte, como se, à maneira desta, devesse sua cor à atmosfera intermediária. Em outro dia, estará marcado por longas faixas, alternadamente lisas e onduladas, claras e escuras, tal como nossos campos do interior durante uma cheia, mostrando para que lado sopra o vento.

Assim nos sentávamos na costa espumosa, contemplando o oceano cor de vinho,

Φίν’ ἔφ’ ἁλὸς πολιῆς, ὁρόων ἐπὶ οἴνοπα πόντον.

Aqui e ali havia uma mancha mais escura em sua superfície, a sombra de uma nuvem, embora o céu estivesse tão límpido que, de outro modo, nenhuma nuvem teria sido notada, e nenhuma sombra seria vista em terra, onde uma superfície muito menor é visível de uma só vez. Assim, nuvens e aguaceiros distantes podem ser vistos por um marinheiro de todos os lados ao longo de um dia, sem que necessariamente anunciem chuva no lugar onde ele se encontra. Em julho, vimos manchas azul-escuras semelhantes onde cardumes de menhaden enrugavam a superfície, mal se distinguindo das sombras das nuvens. Às vezes, o mar ficava pontilhado delas por toda parte, tamanha é sua fertilidade inesgotável. De perto, vê-se sua nadadeira dorsal, muito longa e afiada, projetando-se duas ou três polegadas acima da água. De tempos em tempos, também víamos os ventres brancos dos robalos que brincavam ao longo da costa.

Era uma recreação poética observar aquelas velas distantes rumando para portos meio fabulosos, cujos próprios nomes são uma música misteriosa aos nossos ouvidos: Fayal, e Babelmandel, sim, e Chagres, e Panama, destinadas à famosa Baía de San Francisco e às correntes douradas do Sacramento e do San Joaquin, ao Feather River e ao American Fork, onde preside o Forte de Sutter, e, no interior, ergue-se a City de los Angeles. É notável que os homens não naveguem o mar com maior expectativa. Nada de notável jamais foi realizado num estado de espírito prosaico. Os heróis e descobridores constataram ser verdade mais do que antes se acreditava somente quando esperavam e sonhavam com algo além do que sonhavam seus contemporâneos, ou mesmo do que eles próprios descobriram, isto é, quando se achavam numa disposição de espírito adequada para contemplar a verdade. Julgados pelo padrão do mundo, são sempre insanos. Até os selvagens pressentiram indiretamente algo assim. Humboldt, falando de Colombo ao aproximar-se do Novo Mundo, diz: “O frescor agradável do ar vespertino, a pureza etérea do firmamento estrelado, a fragrância balsâmica das flores, levada até ele pela brisa terrestre, tudo o induzia a supor (como nos conta Herrara, nas Décadas) que se aproximava do jardim do Éden, a morada sagrada de nossos primeiros pais. O Orinoco lhe parecia um dos quatro rios que, segundo a venerável tradição do mundo antigo, corriam do Paraíso para regar e dividir a superfície da Terra, recém-adornada de plantas.” Assim, até as expedições em busca de El Dorado e da Fonte da Juventude conduziram a descobertas reais, embora não compensadoras.

Distinguimos embarcações tão distantes, depois que começamos a procurar, que apenas os topos de seus mastros eram visíveis no horizonte, e era preciso uma forte intenção do olhar, e seu lado mais favorável, para enxergá-las de todo; às vezes, duvidávamos se não estaríamos contando nossos cílios. Charles Darwin afirma que viu, desde a base dos Andes, “os mastros dos navios ancorados na baía de Valparaiso, embora estivessem a não menos de vinte e seis milhas geográficas de distância”, e que Anson se surpreendera com a distância da costa a que seus navios eram avistados, sem conhecer a razão, a saber, a grande altura da terra e a transparência do ar. Os vapores podem ser detectados a uma distância muito maior que os veleiros, pois, como diz alguém, quando seus cascos e mastros de madeira e ferro já desapareceram, seus mastros de fumaça e suas flâmulas ainda os denunciam; e o mesmo autor, ao falar das vantagens comparativas do carvão betuminoso e do antracito para vapores de guerra, afirma que, “pela elevação das colunas de fumaça acima do horizonte, os movimentos dos vapores no porto de Calais [na costa da França] são a todo momento observáveis em Ramsgate [na costa inglesa], desde o primeiro acendimento das fornalhas até a saída para o mar; e que, na América, os vapores que queimam o gorduroso carvão betuminoso podem ser rastreados no mar pelo menos setenta milhas antes que os cascos se tornem visíveis, graças às densas colunas de fumaça negra que se derramam de suas chaminés e se arrastam ao longo do horizonte.”

Embora houvesse numerosas embarcações a essa grande distância no horizonte, por todos os lados, os vastos espaços entre elas, como os espaços entre as estrelas, tão distantes quanto estavam de nós, também o estavam umas das outras, e algumas, na verdade, estavam duas vezes mais distantes entre si do que de nós, imprimiam-nos uma sensação da imensidão do oceano, o “oceano infrutífero”, como tem sido chamado, e podíamos ver que proporção o homem e suas obras guardam em relação ao globo. Quando olhávamos ao largo e víamos a água tornar-se cada vez mais escura e mais profunda quanto mais longe mirávamos, até que era terrível considerá-la, e ela parecia não ter relação alguma com a terra amiga, nem como margem nem como fundo, de que serve um fundo se está fora de vista, se fica a duas ou três milhas da superfície, e você se afogará muito antes de alcançá-lo, ainda que seja feito da mesma matéria que o solo natal? Sobre aquele oceano, onde, como diz o Veda, “não há nada que ofereça apoio, nada em que repousar, nada a que se agarrar”, senti que eu era um animal terrestre. Até o homem num balão pode em geral pousar na terra em poucos instantes, mas a única esperança do marinheiro é alcançar a costa distante. Pude então apreciar o heroísmo do antigo navegador Sir Humphrey Gilbert, de quem se conta que, surpreendido por uma tempestade quando regressava da América, no ano de 1583, muito a nordeste de onde estávamos, sentado à ré com um livro na mão, pouco antes de ser tragado pelas profundezas, gritou a seus companheiros no Hind, quando chegaram ao alcance de sua voz: “Estamos tão perto do Céu pelo mar quanto pela terra.” Vi que não seria fácil compreender isso plenamente.

Em Cape Cod, a próxima terra mais a leste de que se ouve falar é St. George’s Bank (os pescadores falam de “Georges”, “Cashus” e outras terras submersas que frequentam). Todo homem do Cabo tem uma teoria de que George’s Bank foi outrora uma ilha, e, em seus relatos, eles reduzem gradualmente a profundidade de seis, cinco, quatro, duas braças, até a afirmação confiante de alguém que viu uma gaivota-da-cavala pousada num pedaço de terra seca ali. Isso me fez lembrar, quando pensei nos naufrágios ocorridos naquele lugar, da Ilha dos Demônios, assinalada ao largo desta costa nos antigos mapas do Novo Mundo. Deve haver algo de monstruoso, penso eu, na visão do fundo do mar por sobre algum banco a mil milhas da costa, mais terrível do que sua suposta ausência de fundo; um continente afogado, todo lívido e espumando pelas narinas, como o corpo de um homem afogado, que é melhor estar submerso nas profundezas do que perto da superfície.

Fiquei surpreso ao descobrir, de um vapor, como a própria Baía de Massachusetts é rasa. Ao largo de Billingsgate Point, eu poderia ter tocado o fundo com uma vara e o via claramente, matizado de várias tonalidades pelas algas marinhas, a cinco ou seis milhas da costa. Este é, é verdade, “o baixio do Cabo”, mas, em outros lugares, a baía não é muito mais profunda que uma lagoa do interior. Dizem-nos que a água mais profunda do Canal da Mancha, entre Shakespeare’s Cliff e Cape Grinéz, na França, tem cento e oitenta pés; e Guyot diz que “o Mar Báltico tem uma profundidade de apenas cento e vinte pés entre as costas da Alemanha e as da Suécia”, e que “o Adriático, entre Veneza e Trieste, tem uma profundidade de apenas cento e trinta pés”. Uma lagoa de minha cidade natal, com apenas meia milha de comprimento, tem mais de cem pés de profundidade.

O oceano não passa de um lago maior. Em pleno verão, às vezes se pode ver nele uma faixa de lisura vítrea, com alguns rods de largura e muitas milhas de comprimento, como se a superfície estivesse ali coberta por uma fina película de óleo, exatamente como numa lagoa do interior; uma espécie de imobilidade, dir-se-ia, no encontro ou na separação de duas correntes de ar (se é que não assinala, antes, a constância sem ondulações de uma corrente de água abaixo), pois os marinheiros falam da brisa marítima e da brisa terrestre encontrando-se entre as velas de vante e as de ré de uma embarcação, enquanto estas permanecem enfunadas e aquelas são de súbito apanhadas pelo avesso. Daniel Webster, numa de suas cartas em que descreve a pesca da enchova ao largo de Martha’s Vineyard, referindo-se a esses lugares lisos, que pescadores e marinheiros chamam de slicks, diz: “Nós os encontramos ontem, e nosso barqueiro se dirigia a eles sempre que eram avistados. Disse que eram causados pelas enchovas ao retalharem suas presas. Isto é, esses sujeitos vorazes entram num cardume de menhaden, que são grandes demais para ser engolidos inteiros, e os mordem em pedaços adequados a seu gosto. E o óleo dessa carnificina, subindo à superfície, forma o slick.”

No entanto, esse mesmo Oceano plácido, agora tão civilizado quanto o porto de uma cidade, lugar de navios e comércio, em breve será açoitado por uma fúria repentina, e todas as suas cavernas e falésias ressoarão com o tumulto. Ele arremessará sem piedade essas embarcações de um lado para outro, irá despedaçá-las entre suas mandíbulas arenosas ou pedregosas e entregar suas tripulações aos monstros marinhos. Brincará com elas como se fossem algas, irá distendê-las como sapos mortos e carregá-las daqui para ali, ora no alto, ora embaixo, para exibi-las aos peixes, deixando-os dar uma mordiscada. Esse Oceano gentil sacudirá e rasgará o trapo do corpo de um homem como o pai dos touros enlouquecidos, e seus parentes poderão ser vistos durante semanas procurando os restos ao longo da praia. De alguma aldeia tranquila do interior, correram chorando para aquela costa jamais imaginada e agora permanecem incertos quanto ao lugar onde um marinheiro foi recentemente sepultado entre as colinas de areia.

Supõe-se em geral que aqueles que há muito convivem com o Oceano conseguem prever, por certos indícios, como seu bramido e os gritos das aves marinhas, quando ele passará da calmaria à tempestade; mas provavelmente não existe nenhum marinheiro antigo como aquele com que sonhamos; eles não sabem mais, pelo menos, do que os marinheiros mais velhos sabem sobre esta viagem da vida em que todos estamos embarcados. Ainda assim, gostamos de ouvir os ditos dos velhos marinheiros e seus relatos de fenômenos naturais, que ignoram por completo a ciência e são por ela ignorados; e talvez eles nem sempre tenham olhado por tanto tempo sobre a amurada em vão. Kalm repete uma história que lhe foi contada na Filadélfia por certo Mr. Cock, o qual um dia navegava para as Índias Ocidentais num pequeno iate, levando a bordo um velho muito familiarizado com aqueles mares. “O velho, ao sondar a profundidade, chamou o imediato e mandou que dissesse a Mr. Cock para lançar imediatamente os botes ao mar e pôr neles um número suficiente de homens, a fim de rebocar o iate durante a calmaria, para que alcançassem o quanto antes a ilha à frente, pois dentro de vinte e quatro horas haveria um forte furacão. Mr. Cock perguntou-lhe que razões tinha para pensar assim; o velho respondeu que, ao sondar, vira o chumbo na água a uma distância de muitas braças maior do que jamais o vira antes; que, portanto, a água se tornara clara de repente, o que ele considerava um sinal certo de um furacão iminente no mar.” O desfecho da história é que, por boa fortuna e à força de remar, conseguiram alcançar um porto seguro antes que o furacão chegasse ao auge; mas ele por fim se enfureceu com tamanha violência que não apenas muitos navios se perderam e casas ficaram sem teto, como até a própria embarcação deles, no porto, foi arrastada tão longe para terra que se passaram várias semanas antes que pudesse ser desencalhada.

Os gregos não teriam chamado o oceano de ἀτρύγετος, ou infrutífero, embora ele não produza trigo, se o houvessem contemplado à luz da ciência moderna; pois os naturalistas agora afirmam que “o mar, e não a terra, é a principal sede da vida”, embora não da vida vegetal. Darwin assegura que “nossas florestas mais densamente povoadas parecem quase desertos quando as comparamos com as regiões correspondentes do oceano”. Agassiz e Gould nos dizem que “o mar fervilha de animais de todas as classes, muito além do ponto extremo alcançado pelas plantas floríferas”; mas acrescentam que “experimentos de dragagem em águas muito profundas também nos ensinaram que o abismo do oceano é quase um deserto”; “de modo que as investigações modernas”, para citar as palavras de Desor, “apenas confirmam a grande ideia vagamente antevista pelos antigos poetas e filósofos, de que o Oceano é a origem de todas as coisas”. No entanto, animais e plantas marinhos ocupam uma posição inferior na escala dos seres à dos animais e plantas terrestres. “Não se conhece caso algum”, diz Desor, “de um animal que se torne aquático em seu estado perfeito depois de haver vivido, em sua fase inferior, em terra seca.” Mas, como no caso do girino, “o progresso aponta invariavelmente para a terra seca”. Em suma, a própria terra seca veio através da água e para fora dela em seu caminho rumo aos céus, pois, “ao recuarmos pelas eras geológicas, chegamos a uma época em que, segundo todas as aparências, a terra seca não existia e a superfície de nosso globo estava inteiramente coberta de água”. Contemplamos então o mar mais uma vez, não como ἀτρύγετος, ou infrutífero, mas como foi mais verdadeiramente chamado, o “laboratório dos continentes”.

Embora ultimamente nos tenhamos entregado a algumas reflexões plácidas, o leitor não deve esquecer que o choque e o estrondo das ondas eram incessantes. Na verdade, seria bom que ele lesse com uma grande concha junto ao ouvido. Mas, apesar de hoje fazer muito frio e ventar bastante, era um frio que, pensávamos, não faria adoecer de resfriado quem a ele se expusesse, devido à salinidade do ar e à secura do solo. Ainda assim, o autor da antiga Description of Wellfleet diz: “A atmosfera está fortemente impregnada de partículas salinas, o que, talvez, juntamente com o grande consumo de peixe e o descuido com a sidra e a cerveja de abeto, possa ser uma razão para que as pessoas estejam mais sujeitas a feridas na boca e na garganta do que em outros lugares.”

1/1
Menu

Fazer anotação