O Farol de Highland Cape Cod · Capítulo 8 de 10
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O Farol de Highland

Este farol, conhecido pelos navegantes como Farol de Cape Cod ou de Highland, é um de nossos “faróis costeiros principais” e costuma ser o primeiro avistado por aqueles que, vindos da Europa, se aproximam da entrada da Baía de Massachusetts. Fica a quarenta e três milhas do Farol de Cape Ann e a quarenta e uma do Farol de Boston. Ergue-se a cerca de vinte rods da borda da escarpa, formada aqui de argila. Tomei emprestados a plaina e o esquadro, o nível e o compasso de um carpinteiro que cobria de telhas um celeiro ali perto e, usando uma daquelas telhas feitas de um mastro, improvisei uma espécie rudimentar de quadrante, com pinos servindo de miras e pivôs; obtive assim o ângulo de elevação da escarpa diante do farol e, com um par de linhas de pesca ao bacalhau, o comprimento de sua encosta, medindo então sua altura sobre a telha. Ela se eleva cento e dez pés acima da base imediata, ou cerca de cento e vinte e três pés acima da baixa-mar média. Graham, que levantou cuidadosamente a extremidade do Cabo, atribui-lhe cento e trinta pés. A mistura de areia e argila formava um ângulo de quarenta graus com o horizonte no ponto em que a medi, mas a argila em geral é muito mais íngreme. Vaca ou galinha alguma jamais consegue descê-la. Meia milha mais ao sul, a escarpa é quinze ou vinte e cinco pés mais alta, e ali parecia estar o terreno mais elevado de North Truro. Até mesmo essa vasta escarpa de argila está se desgastando depressa. Pequenos cursos d’água, escorrendo por ela a intervalos de dois ou três rods, deixaram a argila intermediária na forma de telhados góticos muito inclinados, com cinquenta pés de altura ou mais, as cumeeiras tão afiadas e de aspecto tão áspero quanto rochas; e, num ponto, a escarpa foi curiosamente escavada na forma de uma grande cratera semicircular.

Segundo o faroleiro, o Cabo se desgasta aqui dos dois lados, embora mais no oriental. Em alguns lugares perdera muitos rods no decorrer do último ano e, dentro em pouco, o farol teria de ser transferido. Calculamos, com base nos dados dele, quanto tempo levaria para que o Cabo se consumisse por completo nesse ponto, “pois”, disse ele, “consigo me lembrar de sessenta anos atrás”. Ficamos ainda mais surpresos com essa última revelação, isto é, com o lento desgaste da vida e da energia em nosso informante, pois havíamos calculado que não tivesse mais de quarenta anos, do que com o rápido desgaste do Cabo; e pensamos que ele tinha boas chances de sobreviver a este último.

Entre aquele outubro e junho do ano seguinte, constatei que a escarpa perdera cerca de quarenta pés num ponto diante do farol e, na segunda data, apresentava uma rachadura que avançava mais de quarenta pés para dentro a partir da borda, enquanto a costa estava coberta de detritos recentes. Julguei, porém, que em geral ela não se desgastava ali à razão de mais de seis pés por ano. Quaisquer conclusões extraídas das observações de apenas alguns anos ou de uma única geração provavelmente se mostrarão falsas, e o Cabo talvez frustre as expectativas por sua durabilidade. Em alguns lugares, até mesmo uma trilha de recolhedor de destroços que desce a escarpa dura vários anos. Um velho morador nos contou que, quando o farol foi construído, em 1798, calculou-se que permaneceria de pé por quarenta e cinco anos, supondo que a escarpa perdesse a cada ano o comprimento de uma seção de cerca, “mas”, disse ele, “ali está ele” (ou, antes, outro próximo do mesmo local, a cerca de vinte rods da borda da escarpa).

O mar não avança sobre o Cabo em toda parte, pois um homem me falou de uma embarcação naufragada havia muito tempo ao norte de Provincetown, cujos “ossos” (essa foi a palavra que usou) ainda são visíveis muitos rods para dentro da linha atual da praia, meio enterrados na areia. Talvez estejam ao lado dos ossamentos de uma baleia. A afirmação geral dos habitantes é que o Cabo se desgasta dos dois lados, mas se estende em certos pontos ao sul e a oeste, como nas praias de Chatham e Monomoy e em Billingsgate, Long e Race Points. James Freeman afirmou, em seu tempo, que mais de três milhas haviam sido acrescentadas à praia de Monomoy nos cinquenta anos anteriores, e diz-se que ela ainda se estende com a mesma rapidez de sempre. Um autor da Massachusetts Magazine, no século passado, conta-nos que “quando os ingleses se estabeleceram pela primeira vez no Cabo, havia uma ilha ao largo de Chatham, à distância de três léguas, chamada Webbs’ Island, com vinte acres, coberta de cedro-vermelho ou sabina. Os habitantes de Nantucket costumavam levar madeira dali”; mas acrescenta que, em seu tempo, somente uma grande rocha assinalava o lugar, onde a água tinha seis braças de profundidade. A entrada do Porto de Nauset, que outrora ficava em Eastham, deslocou-se agora para o sul, até Orleans. As ilhas do Porto de Wellfleet formavam antigamente uma praia contínua, embora hoje pequenas embarcações passem entre elas. E o mesmo se dá em muitas outras partes desta costa.

Talvez o que o Oceano tira de uma parte do Cabo ele dê a outra, roubando Pedro para pagar Paulo. No lado oriental, o mar parece avançar por toda parte sobre a terra. Não apenas a terra é solapada e suas ruínas levadas pelas correntes, mas a areia é soprada da praia diretamente para o alto da escarpa íngreme, onde esta tem cento e cinquenta pés de altura, e cobre ali a superfície original com muitos pés de profundidade. Caso você se sente na borda, logo terá uma demonstração ocular disso, enchendo os olhos de areia. Assim, a escarpa conserva sua altura na mesma rapidez com que se desgasta. Essa areia viaja continuamente para oeste em ritmo acelerado, “mais de cem jardas”, diz um autor, dentro da memória dos habitantes ainda vivos; de modo que, em certos lugares, prados de turfa estão profundamente enterrados sob a areia, e a turfa é cortada através dela; e, num lugar, um grande prado de turfa apareceu na costa, dentro da escarpa, coberto por muitos pés de areia, e dali se extraiu turfa. Isso explica aquele grande seixo de turfa que vimos na arrebentação. O velho ostricultor nos contara que, muitos anos antes, perdera um “bicho” porque ela atolara num pântano próximo ao lado do Atlântico, a leste de sua casa, e que, vinte anos antes, perdera inteiramente o próprio pântano, embora desde então tivesse visto sinais de seu reaparecimento na praia. Disse também que vira tocos de cedro “do tamanho de rodas de carroça”(!) no fundo da Baía, a três milhas de Billingsate Point, quando se inclinava sobre a borda de seu barco em tempo agradável, e que ali havia terra seca não fazia muito tempo. Outro nos contou que uma canoa de tronco, sabidamente enterrada muitos anos antes no lado da Baía, em East Harbor, Truro, onde o Cabo é extremamente estreito, apareceu por fim no lado do Atlântico, depois que o Cabo rolou por cima dela; e uma velha disse: “Agora vocês veem que era verdade o que eu lhes dizia: o Cabo está se movendo.”

Os bancos de areia ao longo da costa mudam com cada tempestade e, em muitos lugares, às vezes não há nenhum. Nós mesmos observamos o efeito de uma única tempestade acompanhada de maré alta durante a noite, em julho de 1855. Ela deslocou a areia da praia diante do farol a uma profundidade de seis pés e por uma largura de três rods, até onde podíamos enxergar ao norte e ao sul, e a levou inteira ninguém sabe exatamente para onde, deixando descoberta, num ponto, uma grande rocha de cinco pés de altura que antes era invisível e estreitando a praia nessa mesma medida. Em geral, como já disse, não se pode tomar banho no lado de fora do Cabo por causa da corrente de retorno; mas, na última vez em que estivemos ali, o mar havia lançado, três meses antes, um banco perto desse farol, com duas milhas de comprimento e dez rods de largura, sobre o qual a maré não passava, deixando entre ele e a costa uma enseada estreita, então com um quarto de milha de extensão, que proporcionava excelentes banhos. De tempos em tempos, essa enseada se fechava à medida que o banco se deslocava para o norte, chegando certa vez a aprisionar quatrocentas ou quinhentas pescadas e bacalhaus, que ali morreram; com a mesma frequência, a água se tornava doce e, por fim, dava lugar à areia. Os habitantes nos garantiram que esse banco poderia desaparecer por completo e haver ali água com seis pés de profundidade em dois ou três dias.

O faroleiro disse que, quando o vento soprava forte em direção à costa, as ondas devoravam rapidamente a escarpa, mas, quando soprava para o largo, não levavam areia alguma; pois, no primeiro caso, o vento amontoava a superfície da água junto à praia e, para preservar o equilíbrio, uma forte corrente de retorno se estabelecia imediatamente de volta para o mar, carregando consigo a areia e tudo o mais que estivesse no caminho e deixando a praia dura para se caminhar; no segundo caso, porém, a corrente de retorno dirigia-se para a costa e levava a areia consigo, de modo que era especialmente difícil para náufragos alcançar terra quando o vento soprava para a costa, mas mais fácil quando soprava para o largo. Essa corrente de retorno, ao encontrar a onda superficial seguinte sobre o banco que ela própria formou, constitui parte da barreira sobre a qual a onda se quebra, como contra uma parede vertical. Assim o mar brinca com a terra, mantendo por algum tempo um banco de areia na boca antes de engoli-lo, como um gato brinca com um camundongo; mas o aperto fatal por fim certamente virá. O mar envia seu voraz vento leste para roubar a terra, mas, antes que ele tenha ido longe com a presa, a terra envia seu honesto vento oeste para recuperar parte do que lhe pertence. Contudo, segundo o tenente Davis, as formas, a extensão e a distribuição dos bancos e depósitos de areia são determinadas principalmente não pelos ventos e pelas ondas, mas pelas marés.

Nosso anfitrião disse que ficaríamos surpresos se estivéssemos na praia quando o vento soprasse como um furacão diretamente sobre ela, ao ver que nenhuma madeira à deriva vinha dar à costa, mas que toda ela era levada diretamente para o norte, paralela à praia e à velocidade com que um homem caminha, pela corrente costeira, que se estabelece com força nessa direção durante a maré enchente. Até os nadadores mais fortes são arrastados por ela e não ganham uma polegada sequer em direção à praia. Mesmo uma grande rocha foi deslocada meia milha para o norte ao longo da praia. Garantiu-nos que o mar jamais ficava quieto no lado de fora do Cabo, mas que comumente corria à altura da cabeça de um homem, de modo que durante grande parte do tempo não se podia lançar ali um barco; e, mesmo no tempo mais calmo, as ondas subiam seis ou oito pés pela praia, embora então fosse possível fazer-se ao mar sobre uma prancha. Champlain e Pourtrincourt não conseguiram desembarcar aqui em 1606 por causa da ondulação (la houlle), embora os selvagens tenham ido até eles numa canoa. Na “Relation des Caraibes”, do Sieur de la Borde, cuja edição que possuo foi publicada em Amsterdã em 1711, ele diz, à página 530:

“Couroumon, um Caraíba, também uma estrela [isto é, um deus], forma as grandes lames à la mer e vira as canoas. Lames à la mer são as longas vagues que não são quebradas (entrecoupées), como as que se veem chegar à terra inteiras, de uma ponta da praia à outra, de modo que, por menos vento que haja, uma chalupa ou uma canoa mal poderia aportar (aborder terre) sem virar ou encher-se de água.”

Mas, do lado da baía, a água, mesmo junto à margem, muitas vezes é tão lisa e imóvel quanto num lago. Em geral, não se usam barcos ao longo desta praia. Havia um barco pertencente ao Farol de Highland que o faroleiro seguinte, depois de um ano ali, ainda não havia lançado ao mar, embora dissesse que havia boa pesca logo ao largo. De modo geral, os botes salva-vidas não podem ser usados quando são necessários. Quando as ondas se elevam muito, é impossível lançar um barco ao mar, por mais habilmente que se governe, pois ele muitas vezes fica inteiramente coberto pela borda curva da arrebentação que se aproxima, como sob um arco, e assim se enche de água; ou é erguido pela proa, virado diretamente para trás e todo o seu conteúdo é lançado fora. Uma verga de trinta pés de comprimento recebe o mesmo tratamento.

Ouvi falar de um grupo que, alguns anos antes, saiu para pescar na costa oceânica de Wellfleet, em dois barcos, com tempo calmo, e que, depois de carregar os barcos de peixe e se aproximar novamente da terra, encontrou uma ondulação tão forte quebrando na praia, embora não houvesse vento, que teve medo de entrar. A princípio, pensaram em remar até Provincetown, mas a noite se aproximava, e o lugar ficava a muitas milhas de distância. A situação parecia desesperadora. Toda vez que se aproximavam da costa e viam as terríveis ondas quebrando entre eles e a terra, recuavam. Em suma, estavam completamente aterrorizados. Por fim, depois de atirarem os peixes ao mar, os homens de um dos barcos escolheram uma ocasião favorável e conseguiram, graças à habilidade e à boa sorte, chegar à terra; mas não quiseram assumir a responsabilidade de dizer aos outros quando deveriam entrar e, como o outro timoneiro era inexperiente, seu barco foi imediatamente alagado, embora todos tenham conseguido salvar-se.

Ondas muito menores logo deixam um barco “doente dos pregos”, como se diz. O faroleiro afirmou que, depois de uma ventania longa e forte, viriam três ondas grandes, cada qual sucessivamente maior que a anterior, e depois não haveria nenhuma grande por algum tempo; e que, quando desejavam desembarcar de barco, entravam sobre a última e maior onda. Sir Thomas Browne (conforme citado em Popular Antiquities, de Brand, p. 372), a respeito de a décima onda ser “maior ou mais perigosa que qualquer outra”, depois de citar Ovídio,

> Qui venit hic fluctus, fluctus supereminet omnes

> Posterior nono est, undecimo que prior,

diz: “O que, não obstante, é evidentemente falso; tampouco pode ser demonstrado pela observação, seja na costa, seja no oceano, como diligentemente investigamos em ambos. E decerto esperamos em vão regularidade nas ondas do mar, ou em seus movimentos particulares, tal como podemos esperar em suas reciprocidades gerais, cujas causas são constantes e, portanto, correspondentes os efeitos; ao passo que suas flutuações são apenas movimentos subordinados, que os ventos, as tempestades, as costas, os baixios e tudo quanto se interpõe tornam irregulares.”

Lemos que os Clay Pounds receberam esse nome “porque embarcações tiveram a desventura de ser golpeadas contra eles em vendavais”, derivação que consideramos duvidosa. Há aqui pequenos lagos sustentados pela argila, antigamente chamados Clay Pits. Talvez esta denominação, ou Clay Ponds, seja a origem do nome. Encontra-se água na argila bem perto da superfície; mas ouvimos falar de um homem que cavara um poço na areia ali perto “até conseguir ver estrelas ao meio-dia”, sem encontrar água alguma. Sobre esta Highland desnudada, o vento corre sem obstáculo. Mesmo em julho, sopra as asas por cima da cabeça dos perus jovens, que não sabem o bastante para se voltar contra ele; e, nos vendavais, portas e janelas são arrombadas pelo vento, e é preciso agarrar-se ao farol para não ser lançado no Atlântico. Os que simplesmente permanecem na praia durante uma tempestade de inverno às vezes são recompensados pela Humane Society. Caso se queira sentir toda a força de uma tempestade, fixe residência no cume do Monte Washington ou no Farol de Highland, em Truro.

Dizia-se, em 1794, que mais embarcações naufragavam na costa leste de Truro do que em qualquer outro ponto do condado de Barnstable. Embora este farol tenha sido erguido desde então, depois de quase toda tempestade lemos sobre uma ou mais embarcações naufragadas aqui, e às vezes mais de uma dúzia de naufrágios podem ser vistos deste ponto ao mesmo tempo. Os habitantes ouvem o estrondo das embarcações despedaçando-se enquanto se sentam junto às lareiras, e em geral datam os acontecimentos a partir de algum naufrágio memorável. Caso a história desta praia pudesse ser escrita do princípio ao fim, constituiria uma página emocionante da história do comércio.

Truro foi colonizada no ano de 1700 com o nome de Dangerfield. Era um nome muito apropriado, pois mais tarde li, num monumento do cemitério próximo ao rio Pamet, a seguinte inscrição:

> Sagrado

> à memória de

> 57 cidadãos de Truro,

> que se perderam em sete

> embarcações, que

> naufragaram no mar durante

> o memorável vendaval

> de 3 de outubro de 1841.

Seus nomes e idades, agrupados por famílias, estavam registrados em diferentes faces da pedra. Diz-se que se perderam no Banco de George, e contaram-me que apenas uma embarcação veio dar à praia na costa oceânica do Cabo, com os rapazes trancados na cabine e afogados. Diz-se que as casas de todos ficavam “dentro de um circuito de duas milhas”. Vinte e oito habitantes de Dennis se perderam no mesmo vendaval; e li que “num único dia, logo depois dessa tempestade, quase ou exatamente cem corpos foram recolhidos e sepultados em Cape Cod”. A Truro Insurance Company faliu por falta de capitães que assumissem o comando de suas embarcações. Mas os habitantes sobreviventes voltaram a pescar no ano seguinte, como de costume. Descobri que não convinha falar de naufrágios ali, pois quase todas as famílias haviam perdido alguns de seus membros no mar. “Quem mora naquela casa?”, perguntei. “Três viúvas”, foi a resposta. O forasteiro e o habitante contemplam a costa com olhos muito diferentes. O primeiro talvez tenha vindo para ver e admirar o oceano durante uma tempestade; mas o segundo o contempla como o cenário em que seus parentes mais próximos naufragaram. Quando observei a um velho recolhedor de destroços, parcialmente cego, que estava sentado à beira do barranco fumando um cachimbo, recém-aceso com um fósforo de capim-das-dunas seco, que eu supunha que ele gostasse de ouvir o som da arrebentação, respondeu: “Não, não gosto de ouvir o som da arrebentação.” Ele perdera pelo menos um filho no “vendaval memorável” e podia contar muitas histórias dos naufrágios que testemunhara ali.

No ano de 1717, um pirata famoso chamado Bellamy foi conduzido ao banco de areia ao largo de Wellfleet pelo capitão de um snow que capturara, a quem oferecera devolver a embarcação caso o pilotasse para dentro do porto de Provincetown. A tradição diz que este último lançou ao mar, durante a noite, um barril de alcatrão em chamas, que derivou até a praia, e os piratas o seguiram. Sobrevindo uma tempestade, toda a frota naufragou, e mais de cem cadáveres ficaram espalhados ao longo da costa. Seis homens que escaparam do naufrágio foram executados. “De tempos em tempos, até hoje” (1793), diz o historiador de Wellfleet, “encontram-se moedas de cobre do rei William e da rainha Mary, e peças de prata chamadas cob-money. A violência dos mares desloca as areias do banco exterior, de modo que, por vezes, nas vazantes mais baixas, viu-se o fogão de bordo de ferro do navio [isto é, o de Bellamy].” Outro autor nos conta que “durante muitos anos depois desse naufrágio, via-se, a cada primavera e outono, um homem de aspecto muito singular e assustador viajando pelo Cabo, o qual se supunha ter sido um dos tripulantes de Bellamy. Presume-se que ele ia a algum lugar onde os piratas haviam escondido dinheiro, a fim de obter o necessário para suas necessidades. Quando morreu, encontraram-se muitas peças de ouro numa cinta que ele usava constantemente.”

Enquanto caminhava pela praia dali em minha última visita, à procura de conchas e seixos, logo depois daquela tempestade que mencionei como tendo deslocado a areia a grande profundidade, sem saber se por acaso encontraria alguma cob-money, acabei de fato recolhendo uma moeda francesa de uma coroa, no valor de cerca de um dólar e seis centavos, perto da marca da preamar, sobre a areia ainda úmida, bem abaixo da base abrupta e desmoronada do barranco. Era de uma cor escura de ardósia e parecia um seixo achatado, mas ainda trazia uma efígie muito nítida e bela de Luís XV e, no reverso, a legenda habitual. Sit Nomen Domini Benedictum (Bendito seja o Nome do Senhor), sentimento agradável de ler nas areias do litoral, não importando em que estivesse cunhado; e também consegui distinguir a data, 1741. É claro que, a princípio, pensei que fosse aquele mesmo botão velho que já encontrei tantas vezes, mas minha faca logo revelou a prata. Mais tarde, vagando pelos bancos de areia na maré baixa, enganei meu companheiro erguendo entre os dedos conchas redondas (Scutellæ), ao que ele depressa se despiu e veio até mim.

Durante a Revolução, um navio de guerra britânico chamado Somerset naufragou perto dos Clay Pounds, e todos os que estavam a bordo, algumas centenas de pessoas, foram feitos prisioneiros. Meu informante disse que nunca vira qualquer menção a isso nas histórias, mas que, de todo modo, sabia de um relógio de prata que um daqueles prisioneiros deixara ali por acidente e que ainda continuava funcionando para contar a história. Esse acontecimento, porém, é mencionado por alguns autores.

No verão seguinte, vi uma chalupa de Chatham arrastando o fundo em busca de âncoras e correntes bem diante desta costa. Ela mantinha seus barcos ocupados no trabalho enquanto se movia de um lado para outro, em diferentes bordos, e, quando encontravam alguma coisa, aproximava-se para içá-la a bordo. É uma ocupação singular, para a qual homens são regularmente contratados e pagos por sua diligência, sair hoje, em tempo agradável, à procura de âncoras que se perderam, a fé e a esperança submersas dos marinheiros, nas quais confiaram em vão; ora, talvez, seja a âncora enferrujada do navio de algum velho pirata ou de algum pescador normando, cujo cabo se rompeu aqui duzentos anos atrás; ora, a melhor âncora de leva de um navio de Cantão ou da Califórnia, que seguiu seu rumo. Se os ancoradouros do oceano espiritual pudessem ser assim rastreados, quantas unhas enferrujadas de esperanças iludidas e quantos cabos de corrente partidos da fé poderiam ser novamente recolhidos pelo molinete para bordo! Bastariam para afundar a embarcação de quem os encontrasse, ou para equipar novas marinhas até o fim dos tempos. O fundo do mar está coberto de âncoras, umas mais fundas e outras mais rasas, alternadamente soterradas e descobertas pela areia, talvez ainda com um pequeno trecho de corrente de ferro preso a elas; mas onde está a outra ponta? Tantas histórias inconclusas, a serem continuadas em outra ocasião. Assim, se tivéssemos sinos de mergulho adaptados às profundezas espirituais, veríamos âncoras com seus cabos presos a elas, tão apinhadas quanto enguias em vinagre, todas se retorcendo em vão em direção ao lugar onde deveriam firmar-se. Mas não é tesouro para nós aquilo que outro homem perdeu; cabe-nos, antes, buscar o que nenhum outro homem encontrou ou pode encontrar, e não ser homens de Chatham, arrastando o fundo em busca de âncoras.

Os anais desta praia voraz! Quem poderia escrevê-los, senão um marinheiro naufragado? Quantos dos que a viram só a viram em meio ao perigo e à aflição, a última faixa de terra contemplada por seus olhos mortais. Pense no volume de sofrimento testemunhado por uma única praia. Os antigos a teriam representado como um monstro marinho de mandíbulas abertas, mais terrível que Cila e Caríbdis. Um habitante de Truro contou-me que, cerca de quinze dias depois do naufrágio do St. John em Cohasset, encontrou dois corpos na costa, nos Clay Pounds. Eram os de um homem e de uma mulher corpulenta. O homem calçava botas grossas, embora a cabeça estivesse separada, mas “estava ao lado”. O homem que os encontrou levou algumas semanas para superar a visão. Talvez fossem marido e mulher, e aqueles que Deus unira as correntes do oceano não separaram. Contudo, por que acidentes insignificantes, a princípio, talvez tenham sido reunidos em sua deriva. Alguns corpos daqueles passageiros foram recolhidos longe, em alto-mar, metidos em caixas e afundados; outros foram levados à praia e enterrados. Um naufrágio tem mais consequências do que aquelas de que tomam nota os seguradores. A Corrente do Golfo pode devolver alguns às suas costas natais, ou deixá-los em alguma gruta remota do Oceano, onde o tempo e os elementos escreverão novos enigmas com seus ossos. Mas voltemos de novo à terra.

Nesse barranco, acima da argila, contei, no verão, duzentos buracos de andorinhas-das-barreiras num espaço de seis rods, e havia pelo menos mil aves adultas numa distância três vezes maior, chilreando sobre a arrebentação. Eu nunca as associara antes, em meus pensamentos, à praia. Um garotinho que saíra à procura de ninhos de pássaros conseguira oitenta ovos de andorinha como sua parte! Não contem isso à Sociedade Humanitária. Havia muitas aves jovens sobre a argila, embaixo, que haviam caído dos ninhos e morrido. Também havia muitos pássaros-pretos-de-asa-vermelha saltitando pelos campos secos, e as tarambolas-do-campo estavam procriando perto do farol. Certa vez, o faroleiro cortara a asa de uma delas ao ceifar, enquanto ela permanecia ali sobre os ovos. Este também é um lugar predileto dos caçadores no outono, para atirar nas tarambolas-douradas. Assim como nas margens de uma lagoa se veem libélulas, borboletas etc., aqui, para minha surpresa, vi, na mesma estação, grandes libélulas de tamanho proporcionalmente maior, quase tão grandes quanto meu dedo, patrulhando sem cessar para cima e para baixo a borda do barranco; borboletas também pairavam sobre ele, e nunca vi tantos escaravelhos e besouros de várias espécies quanto os que cobriam a praia. Ao que parecia, haviam voado sobre o barranco durante a noite e não conseguiam subir de novo, e alguns talvez tivessem caído no mar e sido lançados à praia. Podem ter sido atraídos, em parte, pelas lâmpadas do farol.

Os Clay Pounds são uma extensão de terra mais fértil do que o habitual. Vimos ali alguns belos canteiros de tubérculos e milho. Como ocorre em geral no Cabo, as plantas tinham pouco caule ou folha, mas produziam sementes de modo notável. O milho mal chegava a pouco mais da metade da altura que alcança no interior; as espigas, contudo, eram grandes e cheias, e um fazendeiro nos disse que podia colher quarenta bushels por acre sem adubo, e sessenta com adubo. As espigas do centeio também eram extraordinariamente grandes. O juneberry (Amelanchier), as ameixas-da-praia e os mirtilos (Vaccinium Pennsylvanicum), como as macieiras e os carvalhos, eram muito anões, espalhando-se sobre a areia, mas ao mesmo tempo muito frutíferos. O mirtilo tinha apenas uma ou duas polegadas de altura, e seus frutos muitas vezes repousavam no chão, de modo que não se suspeitava da existência dos arbustos, mesmo naquelas colinas nuas, até começar a pisá-los. Pensei que essa fertilidade devia provir sobretudo da abundância de umidade na atmosfera, pois observei que a pouca grama existente ficava extraordinariamente carregada de orvalho pela manhã, e, no verão, nevoeiros densos e aprisionadores muitas vezes persistem até o meio-dia, transformando a barba de uma pessoa num guardanapo molhado em torno do pescoço; o mais antigo morador pode perder-se a um tiro de pedra de sua casa ou ser obrigado a seguir a praia como guia. A casa de tijolos anexa ao farol era excessivamente úmida naquela estação, e o papel de escrever perdia ali toda a rigidez. Era impossível secar a toalha depois do banho ou prensar flores sem que mofassem. O ar era tão úmido que raramente desejávamos beber, embora a todo momento pudéssemos sentir o gosto do sal nos lábios. Raramente se usava sal à mesa, e nosso anfitrião nos contou que seu gado o recusava invariavelmente quando lhes era oferecido, pois recebia tanto com a grama e a cada respiração; mas disse que um cavalo doente ou recém-chegado do interior às vezes tomava uma boa golada de água salgada, parecia gostar dela e sentir-se melhor depois.

Era surpreendente ver quanta água ficava contida no broto terminal da vara-de-ouro-do-litoral, de pé na areia no começo de julho, e também como nabos, beterrabas, cenouras etc. prosperavam até em areia pura. Um homem que viajara pela costa ali perto, não muito antes de nós, notou algo verde crescendo na areia pura da praia, bem na linha da preamar, e, ao aproximar-se, descobriu que era um canteiro de beterrabas crescendo vigorosamente, provavelmente nascidas de sementes levadas para fora do Franklin. Beterrabas e nabos também brotavam nas algas usadas como adubo em muitas partes do Cabo. Isso sugere de que modo diversas plantas podem ter-se dispersado pelo mundo, chegando a ilhas e continentes distantes. Embarcações com sementes em suas cargas, destinadas a certos portos onde talvez não fossem necessárias, naufragaram em ilhas desertas e, embora suas tripulações tenham perecido, algumas das sementes foram preservadas. Entre muitas espécies, algumas encontrariam solo e clima adequados, naturalizar-se-iam e talvez, por fim, expulsassem as plantas nativas, preparando assim a terra para a habitação humana. Não há vento ruim que não sopre algum bem para alguém, e naufrágios por ora lamentáveis podem, desse modo, acrescentar uma nova planta ao patrimônio vegetal de um continente e revelar-se, no conjunto, uma bênção duradoura para seus habitantes. Ou ventos e correntes poderiam produzir o mesmo efeito sem a intervenção humana. O que são, na verdade, as várias plantas suculentas que crescem na praia, senão tais canteiros de beterrabas e nabos, nascidos originalmente de sementes que talvez tenham sido lançadas às águas com esse fim, embora não conheçamos o Franklin de onde saíram? Em tempos antigos, certo Sr. Bell (?) navegava por estas bandas em sua arca, com sementes de rúcula, salicórnia, arenária, capim-das-dunas, funcho-marítimo, mírica, capim-da-pobreza etc., todas cuidadosamente etiquetadas com instruções, pretendendo estabelecer um viveiro em algum lugar; e não foi um viveiro estabelecido, embora ele pensasse ter fracassado?

Ao redor do farol, observei no verão a bonita Polygala polygama, espalhando-se rente ao chão em forma de raios, cardos-brancos-de-pastagem (Cirsium pumilum) e, entre os arbustos, a Smilax glauca, que em geral se diz não crescer tão ao norte; perto da borda dos barrancos, cerca de meia milha ao sul, a camarinha-rasteira (Empetrum Conradii), para a qual Plymouth é habitualmente indicada como a única localidade em Massachusetts, forma belos montículos verdes de quatro ou cinco pés de diâmetro por um pé de altura, leitos macios e elásticos para o viajante. Vi-a depois em Provincetown, mas, mais bonita que todas, a morrião-vermelha, ou barômetro-do-pobre (Anagallis-arvensis), saúda-nos em dias claros em quase cada jarda quadrada de areia. De Yarmouth, recebi a Chrysopsis falcata (áster-dourado) e a Vaccinium stamineum (deerberry ou mirtilo-das-squaws), de fruto não comestível, às vezes tão grande quanto um oxicoco (7 de setembro).

O Farol de Highland,[1] onde estávamos hospedados, é uma construção de aparência sólida, feita de tijolos, pintada de branco e coroada por uma cobertura de ferro. A ele se liga a casa do faroleiro, de um só pavimento, também de tijolos e construída pelo governo. Como passaríamos a noite num farol, queríamos aproveitar ao máximo uma experiência tão nova e, por isso, dissemos ao nosso anfitrião que gostaríamos de acompanhá-lo quando fosse acender as luzes. Ainda bem cedo, à hora de acender as velas, ele acendeu uma pequena lâmpada japonesa, deixando-a fumegar um pouco mais do que toleramos em ocasiões comuns, e mandou-nos segui-lo. Conduziu-nos primeiro por seu quarto, que ficava mais próximo do farol, e depois por uma passagem longa, estreita e coberta, entre paredes caiadas, semelhante à entrada de uma prisão, até a parte inferior do farol, onde se dispunham ao redor muitos grandes tonéis de óleo; dali subimos por uma escada de ferro aberta e em espiral, com um cheiro cada vez mais forte de óleo e fumaça de lamparina, até um alçapão num piso de ferro, e por ele entramos na lanterna. Era uma construção bem cuidada, com tudo na mais perfeita ordem, e ali nada corria o risco de enferrujar por falta de óleo. A luz consistia em quinze lâmpadas de Argand, colocadas dentro de refletores côncavos e lisos, de vinte e uma polegadas de diâmetro, e dispostas em dois círculos horizontais, um acima do outro, voltados para todas as direções, exceto diretamente para o interior do Cabo. A dois ou três pés de distância, cercavam-nas grandes janelas de vidro plano, capazes de desafiar as tempestades, com caixilhos de ferro sobre os quais repousava a cobertura de ferro. Toda a ferragem, exceto o piso, era pintada de branco. E assim se completava o farol. Caminhamos devagar em torno daquele espaço estreito, enquanto o faroleiro acendia sucessivamente cada lâmpada, conversando com ele no mesmo instante em que muitos marinheiros em alto-mar presenciavam o acender do Farol de Highland. Seu dever era encher, aparar e acender as lâmpadas, e manter polidos os refletores. Enchia-as todas as manhãs e, em geral, aparava-as uma vez durante a noite. Queixava-se da qualidade do óleo que lhe forneciam. Esse farol consome cerca de oitocentos galões por ano, ao custo de quase um dólar por galão; mas talvez algumas vidas fossem salvas se se fornecesse óleo melhor. Outro faroleiro disse que a mesma proporção de óleo filtrado para o inverno era enviada tanto ao farol mais meridional da União quanto ao mais setentrional. Antigamente, quando este farol tinha janelas de vidraças pequenas e finas, uma tempestade violenta às vezes quebrava o vidro, e então era preciso colocar às pressas um postigo de madeira para salvar as luzes e os refletores; por vezes, durante temporais, justamente quando o navegante mais necessitava de sua orientação, quase transformavam assim o farol numa lanterna escura, que emitia apenas uns poucos raios débeis, e estes em geral para o lado de terra ou de sotavento. Ele falou da ansiedade e do senso de responsabilidade que sentia nas noites frias e tempestuosas do inverno, quando sabia que muitos pobres homens dependiam dele e suas lâmpadas ardiam fracamente porque o óleo gelava. Às vezes era obrigado, à meia-noite, a aquecer o óleo numa chaleira em casa e tornar a encher as lâmpadas, pois não podia manter fogo no farol, já que isso fazia as janelas suarem em excesso. Seu sucessor me disse que, num caso assim, não havia fogo quente demais. Tudo isso porque o óleo era ruim. O governo iluminando os navegantes em sua costa invernal com óleo filtrado para o verão, a fim de poupar despesas! Isso era, sem dúvida, uma misericórdia filtrada para o verão.

O sucessor desse faroleiro, que gentilmente me hospedou no ano seguinte, contou que, numa noite extremamente fria, quando este e todos os faróis vizinhos queimavam óleo de verão, embora ele tivesse tido a previdência de reservar um pouco de óleo de inverno para emergências, acordou tomado de ansiedade e descobriu que seu óleo se coagulara e que as luzes estavam quase apagadas. Depois de muitas horas de esforço, conseguiu reabastecer os reservatórios, junto à extremidade dos pavios, com óleo de inverno e, a custo, fazê-los arder; então olhou para fora e viu que os outros faróis da vizinhança, normalmente visíveis dali, haviam se apagado. Soube depois que os faróis do rio Pamet e de Billingsgate também se haviam extinguido.

Nosso anfitrião disse que a geada nas janelas também lhe causava muito trabalho, e que, nas noites abafadas de verão, as mariposas as cobriam e enfraqueciam as luzes; às vezes até pequenos pássaros voavam contra o espesso vidro plano e eram encontrados pela manhã no chão, embaixo, com o pescoço quebrado. Na primavera de 1855, encontrou dezenove pequenos pássaros amarelos, talvez pintassilgos ou mariquitas-de-myrtle, mortos desse modo ao redor do farol; e, por vezes, no outono, vira onde uma tarambola-dourada batera no vidro durante a noite, deixando nele a penugem e a parte gordurosa do peito.

Assim ele lutava, por todos os meios, para manter sua luz brilhando diante dos homens. Sem dúvida, o faroleiro exerce um ofício de responsabilidade, ainda que fácil. Quando sua lâmpada se apaga, ele também se apaga; ou, no máximo, perdoa-se apenas um acidente desses.

Achei uma pena que algum estudante pobre não morasse ali para aproveitar toda aquela luz, pois não privaria dela o navegante. “Bem”, disse ele, “às vezes subo aqui e leio o jornal quando fazem barulho lá embaixo.” Imagine quinze lâmpadas de Argand para ler o jornal! Óleo do governo! Luz bastante, talvez, para ler a Constituição! Pensei que, sob aquela luz, ele não deveria ler nada menos que a Bíblia. Tive um colega de turma que se preparou para a faculdade à luz das lâmpadas de um farol, luz maior, pensamos, do que a Universidade oferecia.

Depois que descemos e caminhamos uma dúzia de rods para longe do farol, vimos que não podíamos receber toda a força de sua luz na estreita faixa de terra entre ele e a costa, pois estávamos abaixo demais do foco, e enxergávamos apenas muitas estrelas fracas e sem raios; mas, a quarenta rods para o interior, podíamos ler, embora ainda devêssemos isso a uma única lâmpada. Cada refletor projetava um “leque” separado de luz: um iluminava o moinho de vento, outro a depressão do terreno, enquanto os espaços intermediários permaneciam na sombra. Diz-se que essa luz é visível a vinte milhas náuticas ou mais para um observador quinze pés acima do nível do mar. Podíamos ver a luz giratória de Race Point, na extremidade do Cabo, a cerca de nove milhas de distância, e também a luz de Long Point, na entrada do porto de Provincetown, bem como uma das distantes luzes do porto de Plymouth, do outro lado da baía, quase alinhada com a última, como uma estrela no horizonte. O faroleiro achava que a outra luz de Plymouth ficava oculta por estar exatamente alinhada com a de Long Point. Disse-nos que o navegante às vezes era desviado por uma lanterna de pescador de cavalas, que temia ser abalroado durante a noite, ou até pela luz de uma casa, confundindo-as com algum farol conhecido da costa; e, ao descobrir o engano, costumava amaldiçoar sem razão o pescador prudente ou o morador insone.

Embora certa vez se tenha declarado que a Providência colocou aqui esta massa de argila de propósito para que nela se erguesse um farol, o faroleiro disse que ele deveria ter sido construído meia milha mais ao sul, onde a costa começa a curvar-se e onde a luz poderia ser vista ao mesmo tempo que as luzes de Nauset, distinguindo-se delas. Agora falam em construir um ali. Acontece que o farol atual se tornou ainda mais inútil, tão perto da extremidade do Cabo, porque desde então outros faróis foram construídos naquela região.

Entre os muitos regulamentos da Junta dos Faróis pendurados na parede, vários talvez excelentes, se houvesse aqui estacionado um regimento para cumpri-los, há um que exige do faroleiro a contagem do número de embarcações que passam diante de sua luz durante o dia. Mas há cem embarcações à vista ao mesmo tempo, seguindo em todas as direções, muitas no limite extremo do horizonte, e ele precisaria ter mais olhos que Argos, além de uma visão muito mais longa, para dizer quais estão passando por sua luz. É uma ocupação, sob certos aspectos, mais adequada aos hábitos das gaivotas que percorrem a costa para cima e para baixo e descrevem círculos sobre o mar.

O faroleiro seguinte me contou que, no dia 8 de junho posterior, numa manhã particularmente clara e bela, levantou-se cerca de meia hora antes do nascer do sol e, como dispunha de algum tempo, pois seu costume era apagar as luzes ao nascer do sol, caminhou em direção à costa para ver o que encontraria. Quando chegou à borda do barranco, ergueu os olhos e, para seu espanto, viu o sol nascendo, já parcialmente acima do horizonte. Pensando que seu relógio estivesse errado, voltou depressa e, embora pelo relógio ainda fosse cedo demais, apagou as lâmpadas. Quando terminou e desceu, olhou pela janela e, para espanto ainda maior, viu o sol exatamente onde estivera antes, com dois terços do disco acima do horizonte. Mostrou-me o lugar em que os raios incidiam na parede do outro lado do cômodo. Pôs-se a acender o fogo e, quando acabou, o sol ainda permanecia à mesma altura. Então, já não confiando nos próprios olhos, chamou a mulher para que olhasse, e ela também o viu. Havia embarcações à vista no oceano, e suas tripulações, disse ele, também deviam tê-lo visto, pois os raios incidiam sobre elas. O sol permaneceu naquela altura por cerca de quinze minutos no relógio, depois subiu como de costume, e nada mais de extraordinário aconteceu naquele dia. Embora acostumado à costa, ele nunca presenciara nem ouvira falar de tal fenômeno. Sugeri que talvez houvesse no horizonte uma nuvem invisível para ele, que subira junto com o sol, e que seu relógio tivesse apenas a precisão habitual; ou talvez, como ele negasse essa possibilidade, se tratasse de uma espécie de miragem elevada do sol, como se diz ocorrer no lago Superior e em outros lugares. Sir John Franklin, por exemplo, diz em sua Narrativa que, quando estava na costa do Mar Polar, a refração horizontal variou tanto numa certa manhã que “a borda superior do sol apareceu duas vezes no horizonte antes que ele finalmente nascesse”.

Ele certamente deve ser um filho da Aurora, aquele para quem o sol se eleva em miragem, quando há tantos milhões para os quais ele antes se entenebrece, ou que nunca o veem senão uma hora depois de ter nascido. Mas convém a nós, velhos veteranos, conservar nossas lâmpadas aparadas e acesas até o fim, sem confiar na elevação ilusória do sol.

Esse faroleiro observou que o centro da chama deveria ficar exatamente diante do centro dos refletores e que, por isso, se ele não tivesse o cuidado de baixar os pavios pela manhã, o sol, incidindo sobre os refletores do lado sul do edifício, atearia fogo neles, como uma lente ustória, mesmo no dia mais frio; ao erguer os olhos ao meio-dia, ele os veria todos acesos! Quando sua luz está pronta para iluminar, está também mais pronta para receber luz, e o sol a acenderá. Seu sucessor disse que jamais os vira produzir chama num caso desses, mas apenas fumaça.

Vi que aquele era um lugar de maravilhas. Numa névoa marinha ou neblina baixa, quando estive ali no verão seguinte, estando o céu limpo acima, a borda do barranco, a vinte rods de distância, parecia uma pastagem de montanha no horizonte. Fui completamente enganado por ela e pude então compreender por que os navegantes às vezes davam à costa em situações assim, sobretudo à noite, supondo que a terra estivesse longe, embora pudessem vê-la. Certa vez, depois disso, estando num grande barco de ostras a duzentas ou trezentas milhas dali, numa noite escura, quando havia um fino véu de névoa sobre a terra e a água, chegamos tão perto de dar contra a costa antes que nosso capitão percebesse, que o primeiro aviso foi eu ouvir o som da arrebentação debaixo do meu cotovelo. Eu quase poderia ter saltado em terra, e fomos obrigados a virar de bordo muito depressa para evitar o choque. A luz distante para a qual rumávamos, julgando-a um farol a cinco ou seis milhas, vinha pelas frestas do beliche de um pescador a não mais de seis rods de distância.

O faroleiro nos recebeu magnificamente em sua solitária casinha oceânica. Era um homem de paciência e inteligência singulares que, quando nossas perguntas o atingiam, ressoava em resposta com a clareza de um sino. As lâmpadas do farol, a poucos pés de distância, brilhavam em cheio dentro do meu quarto e deixavam-no claro como o dia; assim, eu sabia exatamente como o Farol de Highland se orientava durante toda aquela noite e não corria perigo de naufragar. Ao contrário da noite anterior, esta estava quieta como uma noite de verão. Enquanto ali jazia, meio acordado e meio adormecido, olhando pela janela para as luzes acima de minha cabeça, pensei em quantos olhos insones, muito longe na corrente do Oceano, marinheiros de todas as nações contando suas histórias ao longo dos vários quartos da noite, estavam voltados para o meu leito.

[1] Desde então, o farol foi reconstruído e passou a exibir uma luz de Fresnel.

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