O Mar e o Deserto
As lâmpadas do farol ainda ardiam, embora agora com um brilho prateado, quando me levantei para ver o sol sair do Oceano; pois ele ainda nascia a leste de nós; mas eu estava convencido de que devia ter saído de um leito seco além daquela corrente, embora parecesse sair da água.
“O sol mais uma vez tocou os campos,
Subindo ao céu desde o belo e fluente
Oceano de profundas correntes.”
Víamos agora incontáveis velas de pescadores de cavala espalhadas pelo alto-mar, uma frota ao norte acabando de contornar o Cabo, outra rumando para Chatham, e o filho de nosso anfitrião partiu para se juntar a algum retardatário da primeira que ainda não havia deixado a Baía.
Antes de deixarmos o farol, fomos obrigados a untar cuidadosamente os sapatos com sebo, pois caminhar pela praia, na água salgada e na areia, os deixara avermelhados e quebradiços. Em compensação, observei que o litoral, mesmo onde é lamacento, como não é aqui, é singularmente limpo; pois, apesar dos respingos de água e lama e dos esguichos das amêijoas quando se vai e volta do barco, sua melhor calça preta não conserva mancha nem sujeira alguma, como adquiriria ao caminhar pelo interior.
Ouvimos dizer que, poucos dias depois disso, quando o Banco de Provincetown foi roubado, emissários velozes de Provincetown fizeram neste farol perguntas minuciosas a nosso respeito. De fato, seguiram nossos rastros por todo o Cabo e concluíram que havíamos descido por aquela rota incomum, pelo lado de fora e a pé, a fim de descobrir uma maneira de escapar com o espólio depois de cometermos o roubo. O Cabo é tão comprido e estreito, e além disso tão despido, que é quase impossível um estranho visitá-lo sem que seus habitantes em geral o saibam, a menos que naufrague nele durante a noite. Assim, quando ocorreu o roubo, todas as suspeitas parecem ter-se concentrado de imediato em nós, os dois viajantes que acabavam de percorrê-lo. Se não tivéssemos por acaso deixado o Cabo tão cedo, provavelmente teríamos sido presos. Os verdadeiros ladrões eram dois jovens do condado de Worcester que viajavam com uma broca de ponta central e, segundo se diz, executaram o trabalho com grande perícia. Mas o único banco em que metemos o nariz foi o grande banco de areia de Cape Cod, e dele roubamos apenas uma velha moeda francesa de uma coroa, algumas conchas e seixos, e o material desta história.
Mais uma vez tomamos a praia por outro dia inteiro (13 de outubro), caminhando ao longo da costa do mar ressoante, decididos a absorvê-lo. Queríamos conviver com o Oceano até que ele perdesse a aparência de lagoa que assume aos olhos de um homem do interior. Ainda pensávamos poder ver o outro lado. Sua superfície cintilava ainda mais que na véspera, e contemplamos “os incontáveis sorrisos das ondas do oceano”; embora alguns fossem largos esgares, pois o vento ainda soprava e as vagas rompiam em espuma ao longo da praia. A praia mais próxima de nós do outro lado, para onde olhávamos, exatamente a leste, ficava na costa da Galícia, na Espanha, cuja capital é Santiago, embora, segundo o cálculo dos antigos poetas, devesse ser a Atlântida ou as Hespérides; mas agora se descobriu que o céu fica mais a oeste. A princípio estávamos à altura daquela parte de Portugal entre Douro e Mino, e depois a Galícia e o porto de Pontevedra se abriram diante de nós enquanto caminhávamos; mas não entramos, tão altas corriam as ondas da arrebentação. O ousado promontório do cabo Finisterra, um pouco ao norte do leste, projetou-se em seguida em nossa direção com sua jactância vã, ao que retrucamos: “Aqui está Cape Cod, o Cabo do Começo da Terra.” Uma pequena reentrância ao norte, pois a terra avultava em nossa imaginação por uma miragem comum, sabíamos ser o golfo da Biscaia, e cantamos:
“Ali ficamos até o dia seguinte,
No golfo da Biscaia, oh!”
Um pouco ao sul do leste ficava Palos, onde Colombo levantou âncora, e mais além ainda as colunas erguidas por Hércules; quando perguntamos a plenos pulmões o que estava escrito nelas, pois tínhamos o sol da manhã no rosto e não podíamos enxergar com nitidez, os habitantes gritaram Ne plus ultra (nada além), mas o vento nos trouxe apenas a verdade, plus ultra (mais além), e sobre a Baía, rumo ao oeste, ecoou ultra (além). Falamos com eles através da arrebentação sobre o Extremo Oeste, a verdadeira Hespéria, ἕω πέρας, ou fim do dia, o Aquém do Pôr do Sol, onde o sol se extinguia no Pacífico, e os aconselhamos a arrancar suas estacas e plantar aquelas colunas na costa da Califórnia, para onde toda a nossa gente havia partido, o único ne plus ultra de agora. Diante disso, pareceram abatidos em seus penhascos, pois havíamos tirado o vento de todas as suas velas.
Não conseguimos perceber que algum resto deixado por eles tivesse vindo dar aqui, embora tenhamos recolhido um brinquedo de criança, um pequeno barco desmantelado, que talvez se tivesse perdido em Pontevedra.
O Cabo se tornava cada vez mais estreito à medida que nos aproximávamos de seu pulso, entre Truro e Provincetown, e a costa se inclinava mais decididamente para oeste. Na cabeceira de East Harbor Creek, o Atlântico é separado das águas de maré da Baía por não mais que meia dúzia de rods de areia. A partir dos Clay Pounds, o barranco foi-se aplainando ao longo das últimas dez milhas até a extremidade em Race Point, embora suas partes mais altas, chamadas “ilhas” por causa da aparência que oferecem à distância, vistas do mar, ainda se elevassem setenta ou oitenta pés acima do Atlântico e proporcionassem uma boa vista deste, além de uma vista constante da Baía, pois não havia árvores nem colina alta o bastante para interrompê-la. Também as areias começaram a invadir a terra cada vez mais, até que por fim tomaram posse completa de mar a mar, na parte mais estreita. Por três ou quatro milhas entre Truro e Provincetown não havia habitantes de uma costa à outra, e por uma distância duas vezes maior não havia mais que três ou quatro casas.
Enquanto avançávamos penosamente, ora pela borda do oceano, onde a areia bebia depressa a última onda que a molhara, ora sobre as colinas de areia do barranco, a frota de cavalas continuava a derramar-se em torno do Cabo, ao norte de nós, a dez ou quinze milhas de distância, em números incontáveis, escuna após escuna, até formar uma cidade sobre a água. Eram tão numerosas que muitas pareciam enroscadas umas nas outras; ora todas navegando com estas amuras, ora com aquelas. Vimos quão bem os habitantes da Nova Inglaterra haviam seguido as sugestões do capitão John Smith a respeito da pesca, feitas em 1616, a que ponto haviam levado “este desprezível comércio de peixe”, como ele significativamente o chama, e como agora se igualavam aos holandeses, cujo exemplo ele apresenta aos ingleses para que o imitem; apesar de que, “nesta aptidão”, segundo diz, “os primeiros estão de tal modo naturalizados, e conhecem com tanta certeza seus mercados, que não há probabilidade de jamais serem igualados, pois possuem duas ou três mil busses, embarcações de fundo chato, sword-pinks, todes e outras semelhantes, que lhes formam marinheiros, navegantes, soldados e mercadores, os quais jamais poderão ser afastados desse comércio e estarão aptos para qualquer outro”. Pensamos que seriam necessários todos esses nomes e ainda mais para descrever as numerosas embarcações que víamos. Já então, alguns anos antes que nossos “renomados patriarcas”, acompanhados de suas “damas sem par”, pisassem em Plymouth Rock, ele escreveu: “Newfoundland carrega anualmente quase oitocentas velas de navios com um pobre, magro, mirrado e insignificante poor-john, e com cor fish”, embora todos os seus mantimentos tivessem de ser transportados anualmente da Europa. Por que, então, não fundar uma colônia aqui e produzir esses mantimentos no próprio lugar? “De todas as quatro partes do mundo”, diz ele, “que até agora vi desabitadas, se eu dispusesse apenas dos meios de transportar uma colônia, preferiria viver aqui a qualquer outro lugar. E, se ela não se sustentasse, uma vez que estivéssemos razoavelmente bem instalados, que morrêssemos de fome.” Então, “pescando diante de suas portas”, vocês “poderão dormir tranquilamente em terra todas as noites, com boa comida e as fogueiras que desejarem, ou, quando lhes aprouver, com suas mulheres e famílias”. Ele já antecipa “as novas cidades da Nova Inglaterra em memória das antigas”, e quem sabe o que poderá ser descoberto no “coração e nas entranhas” da terra, “vendo-se até mesmo as próprias bordas” etc., etc.
Tudo isso foi realizado, e mais ainda, e onde está a Holanda agora? Em verdade, os holandeses a tomaram. Não houve longo intervalo entre a sugestão de Smith e o elogio de Burke.
Ainda uma após outra as escunas de pesca da cavala surgiam à vista ao contornar a ponta do Cabo, “embranquecendo toda a estrada do mar”, e observávamos cada uma por um momento com interesse indiviso. Parecia um belo divertimento. Aqui no interior, são apenas alguns meninos ociosos ou vadios que vão pescar num dia de chuva; mas ali parecia que todo homem fisicamente capaz e todo menino prestativo da Baía haviam saído para um passeio de recreio em seus iates, e que por fim todos desembarcariam para tomar uma caldeirada no Cabo. O gazetteer informa solenemente quantos homens e meninos dessas cidades se dedicam à pesca da baleia, do bacalhau e da cavala, quantos vão aos bancos de Newfoundland, ou à costa de Labrador, aos estreitos de Belle Isle ou à baía de Chaleurs (Shalore, como a chamam os marinheiros); como se eu fosse calcular o número de meninos de Concord que durante o verão se dedicam à pesca da perca, do pickerel, da brema, do hornpout e do shiner, da qual ninguém mantém estatísticas, embora eu pense que ela seja praticada com igual proveito para o homem moral e intelectual (ou para o menino), e certamente com menos perigo para o homem físico.
Um de meus companheiros de brincadeiras, aprendiz de impressor e um tanto brincalhão, perguntou ao mestre certa tarde se podia ir pescar, e o mestre consentiu. Ficou fora três meses. Quando voltou, disse que estivera nos Grand Banks e retomou a composição dos tipos como se apenas uma tarde tivesse transcorrido.
Confesso que me surpreendeu descobrir que tantos homens passavam o dia inteiro, sim, quase a vida inteira, pescando. É notável como os homens fazem da obtenção de seu jantar um negócio sério, e como universalmente a falta de iniciativa e o gosto rasteiro se refugiam numa diligência meramente formigueira. Melhor ficar sem jantar, pensei, do que passar assim a eternidade pescando-o como um corvo-marinho. Naturalmente, vistas da costa, nossas ocupações no interior não parecem nem um pouco menos frívolas.
Certa vez, eu mesmo naveguei três milhas numa pescaria de cavala. Era uma noite de domingo, depois de um dia muito quente em que houvera frequentes trovoadas, e eu caminhara pela costa de Cohasset a Duxbury. Queria passar deste último lugar para Clark’s Island, mas, disseram, nenhum barco podia se mover naquele estágio da maré, pois todos haviam ficado encalhados no alto do lodo. Por fim soube que o taverneiro Winsor sairia naquela noite para pescar cavala com sete homens e me levaria. Depois da demora devida, fomos descendo um após outro, dispersos, até a costa, sem pressa, como se ainda esperássemos a maré, e, de botas de borracha ou carregando os sapatos nas mãos, vadeamos até os barcos, cada tripulante levando uma braçada de lenha, e um deles, além disso, um balde de batatas novas. Resolveram então que cada um deveria trazer mais uma braçada de lenha, e isso bastaria. Já haviam embarcado um barril de água e tinham mais na escuna. Empurramos os barcos por uma dúzia de rods sobre o lodo e a água até que flutuassem; depois, remando meia milha até a embarcação, subimos a bordo, e lá estávamos numa escuna de pesca de cavala, uma bela e robusta embarcação de quarenta e três toneladas, cujo nome esqueci. As iscas ainda não haviam secado nos anzóis. Ali estava o moinho em que moíam a cavala, a gamela para contê-la e a concha de cabo comprido com que a lançavam ao mar; e, já no porto, vimos a superfície encrespada por cardumes de pequenas cavalas, o verdadeiro Scomber vernalis. A tripulação pôs-se, sem pressa, a suspender a âncora e içar suas duas velas, pois soprava um vento favorável, embora muito leve; e, como o sol agora se punha límpido e brilhava sobre a embarcação depois das trovoadas, achei que não poderia ter iniciado a viagem sob auspícios mais favoráveis. Tinham quatro dóris e em geral pescavam neles; caso contrário, pescavam à popa, pelo lado de estibordo, onde suas linhas ficavam penduradas e prontas, duas por homem. A retranca girou uma ou duas vezes, e Winsor lançou ao mar o caldo imundo de cavala misturado com água da chuva que restara em sua gamela; então nos reunimos em torno do timoneiro e contamos histórias. Lembro que a bússola era afetada pelo ferro nas proximidades e variava alguns graus. Havia entre nós um homem que acabara de voltar da Califórnia e agora seguia como passageiro, por saúde e divertimento. Esperavam ficar fora cerca de uma semana, começar a pescar na manhã seguinte e levar o peixe fresco a Boston. Desembarcaram-me em Clark’s Island, onde desembarcaram os Peregrinos, pois meus companheiros queriam obter um pouco de leite para a viagem. Mas eu já tinha visto tudo. O resto era apenas sair ao mar e apanhar as cavalas. Além disso, foi melhor que eu não tivesse permanecido com eles, considerando a pequena quantidade de provisões que haviam levado.
Agora eu via a frota de pesca da cavala em seu pesqueiro, embora a princípio não me desse conta disso. Assim, minha experiência estava completa.
Hoje fazia ainda mais frio e vento do que antes, e muitas vezes ficávamos contentes de encontrar abrigo atrás de uma colina de areia. Nenhum dos elementos repousava. Na praia há uma atividade incessante, sempre alguma coisa acontecendo, na tempestade e na calmaria, no inverno e no verão, noite e dia. Até o homem sedentário desfruta aqui de uma amplitude de vista quase equivalente ao movimento. Em tempo claro, o mais preguiçoso pode abarcar a Baía de um só olhar até Plymouth, ou o Atlântico até onde alcança a visão humana, apenas erguendo as pálpebras; ou, se afinal for preguiçoso demais para olhar, dificilmente poderá deixar de ouvir o incessante embate e rugido da arrebentação. O oceano inquieto pode a qualquer momento lançar a seus pés uma baleia ou uma embarcação naufragada. Todos os repórteres do mundo, os mais velozes taquígrafos, não seriam capazes de registrar as notícias que ele traz. Criatura alguma poderia mover-se devagar onde havia tanta vida em torno. Os poucos recolhedores de destroços estavam indo ou vindo, assim como os navios e os maçaricos, e as gaivotas que gritavam lá no alto; nada permanecia imóvel, salvo a costa. As pequenas aves da praia trotavam rente à beira da água, ou paravam apenas um instante para engolir o alimento, acompanhando o compasso dos elementos. Eu me perguntava como haviam se acostumado ao mar a ponto de se aventurarem tão perto das ondas. Que habitantes minúsculos a terra produzia! exceto uma raposa. E o que poderia fazer uma raposa, contemplando o Atlântico daquele alto barranco? O que é o mar para uma raposa? Às vezes encontrávamos um recolhedor de destroços com sua carroça e seu cão, e o débil latido do cão dirigido a nós, caminhantes, ouvido através do rugido da arrebentação, soava ridiculamente fraco. Ver um pequeno vira-lata trêmulo, de patas delicadas, de pé à margem do oceano, latindo em vão para uma ave da praia em meio ao rugido do Atlântico! Teria vindo com o propósito de latir para uma baleia, talvez! Esse som serve para os terreiros de fazenda. Todos os cães pareciam deslocados ali, nus e como que estremecendo diante da vastidão; e pensei que não estariam ali sem o apoio moral de seus donos. Menos ainda se poderia imaginar uma gata encaminhando os passos naquela direção e sacudindo sobre o Atlântico a pata molhada; contudo, dizem-me que até isso às vezes acontece. No verão, vi os tenros filhotes da batuíra-assobiadora, como pintinhos recém-saídos do ovo, meros punhados de penugem sobre duas pernas, correndo em bandos, com um pio débil, pela beira das ondas. Eu costumava ver matilhas de cães semisselvagens rondando a praia solitária da costa sul de Staten Island, na Baía de Nova York, por causa da carniça ali lançada; e lembro que certa vez, depois de ouvir por muito tempo latidos furiosos na relva alta do brejo, uma matilha de meia dúzia de cães grandes irrompeu na praia, perseguindo um pequeno que correu em linha reta para mim em busca de proteção, e eu a concedi com algumas pedras, embora com algum risco para mim; mas no dia seguinte o pequeno foi o primeiro a latir para mim. Nessas circunstâncias, não pude deixar de recordar as palavras do poeta:
“Sopra, sopra, ó vento de inverno,
Não és tão cruel
Quanto a ingratidão dele;
Teu dente não é tão afiado,
Pois não és visto,
Embora rude seja teu hálito.
“Gela, gela, ó céu amargo,
Não mordes tão fundo
Quanto os benefícios esquecidos;
Embora encrespes as águas,
Teu aguilhão não é tão agudo
Quanto o amigo não lembrado.”
Às vezes, quando eu me aproximava da carcaça de um cavalo ou de um boi que jazia na praia, ali onde nenhuma criatura viva estava à vista, um cão emergia inesperadamente de dentro dela e se esgueirava para longe com a boca cheia de vísceras.
O litoral é uma espécie de terreno neutro, um ponto sumamente vantajoso de onde contemplar este mundo. É até um lugar trivial. As ondas que rolam para sempre em direção à terra viajaram longe demais e são indomáveis demais para se tornarem familiares. Rastejando pela praia sem fim em meio às rajadas de sol e à espuma, ocorre-nos que também nós somos produto do limo marinho.
É um lugar selvagem, viçoso e agreste, e nele não há lisonja. Espalhado de caranguejos, límulos, lingueirões e tudo quanto o mar lança à praia, uma vasta morgue, onde cães famintos podem vagar em matilhas, e corvos vêm diariamente respigar a ninharia que a maré lhes deixa. As carcaças de homens e animais jazem juntas, imponentes, sobre sua prateleira, apodrecendo e branqueando ao sol e nas ondas, e cada maré as vira em seus leitos e lhes aconchega areia fresca por baixo. Ali está a Natureza nua, desumanamente sincera, sem gastar um pensamento sequer com o homem, roendo a costa escarpada onde as gaivotas volteiam em meio à borrasca.
Vimos nesta manhã o que, à distância, parecia um tronco descorado com um galho ainda preso. Revelou-se ser um dos principais ossos de uma baleia, cuja carcaça, depois de despojada da gordura em alto-mar e abandonada à deriva, fora lançada à praia alguns meses antes. Quis o acaso que essa fosse a prova mais conclusiva que encontramos para demonstrar o que afirmam os antiquários de Copenhague: que estas costas eram as Furdustrandas pelas quais Thorhall, companheiro de Thorfinn durante sua expedição a Vinland em 1007, passou navegando com desgosto. Parece que, depois de deixarem o Cabo e explorarem a região em torno de Straum-Fiordr (Buzzards’ Bay!), Thorhall, decepcionado por não conseguir ali vinho algum para beber, decidiu navegar novamente para o norte em busca de Vinland. Embora os antiquários nos tenham dado o original islandês, prefiro citar a tradução deles, pois a sua é a única composição em latim que conheço ter sido dirigida a Cape Cod.
“Cum parati erant, sublato
velo, cecinit Thorhallus:
Eò redeamus, ubi conterranei
sunt nostri! faciamus aliter,
expansi arenosi peritum,
lata navis explorare curricula:
dum procellam incitantes gladii
moræ impatientes, qui terram
collaudant, Furdustrandas
inhabitant et coquunt balænas.”
Em outras palavras: “Quando estavam prontos e sua vela havia sido içada, Thorhall cantou: Voltemos para onde estão nossos compatriotas. Façamos uma ave[1] hábil em voar pelo céu de areia,[2] para explorar a ampla rota dos navios; enquanto guerreiros que impelem à tempestade de espadas,[3] impacientes com a demora, que louvam a terra, habitam as Praias Maravilhosas, e cozinham baleias.” E assim ele navegou para o norte, passando por Cape Cod, como dizem os antiquários, “e naufragou na Irlanda”.
Embora outrora mais baleias fossem lançadas aqui, penso que este lugar nunca foi mais selvagem do que agora. Não associamos ao oceano a ideia de antiguidade, nem nos perguntamos como ele parecia mil anos atrás, como fazemos com a terra, pois sempre foi igualmente selvagem e insondável. Os indígenas não deixaram vestígio algum em sua superfície, mas ele é o mesmo para o homem civilizado e para o selvagem. Apenas o aspecto da costa mudou. O oceano é uma região selvagem que circunda o globo, mais selvagem que uma selva de Bengala e mais cheia de monstros, banhando os próprios cais de nossas cidades e os jardins de nossas residências à beira-mar. Serpentes, ursos, hienas e tigres desaparecem rapidamente à medida que a civilização avança, mas a cidade mais populosa e civilizada não consegue afugentar um tubarão para longe de seus cais. A esse respeito, não está mais adiantada que Singapura, com seus tigres. Os jornais de Boston nunca me haviam contado que havia focas no porto. Eu sempre as associara aos esquimós e a outros povos remotos. Contudo, das janelas das salas de estar ao longo de toda a costa, podem-se ver famílias delas brincando nos baixios. Eram para mim tão estranhas quanto seria o homem-marinho. Senhoras que nunca caminham pelos bosques navegam sobre o mar. Ir para o mar! Ora, é ter a experiência de Noé, é compreender o dilúvio. Toda embarcação é uma arca.
Enquanto caminhávamos pela praia, não vimos cercas, nem travessas de bétula sobre os mourões mais altos, projetando-se mar adentro para impedir que as vacas dessem a volta a vau, nada que nos lembrasse que o homem era proprietário da costa. Contudo, um homem de Truro nos disse que os donos de terras no lado leste daquela cidade eram considerados proprietários da praia, a fim de que pudessem controlá-la até o ponto de se defenderem contra os avanços da areia e do capim-das-dunas, pois até esse amigo às vezes é considerado inimigo; mas disse que isso não ocorria no lado da Baía. Também vi, em trechos abrigados da Baía, cercas temporárias que se estendiam até a linha da baixa-mar, com os postes assentados em vigas de soleira ou dormentes dispostos transversalmente.
Depois de caminharmos por muitas horas, a frota da cavala ainda pairava no horizonte ao norte, quase na mesma direção, porém mais distante, com os cascos já ocultos abaixo da linha do horizonte. Embora suas velas estivessem içadas, nunca se afastavam navegando, nem tampouco lançavam âncora, mas mantinham-se em bordos diversos, tão próximas umas das outras quanto embarcações num porto; e nós, em nossa ignorância, julgávamos que lutavam pacientemente contra ventos adversos, bordeando para leste. Mais tarde, porém, soubemos que já então se encontravam em seu pesqueiro e que apanhavam cavalas sem recolher as velas grandes nem fundear, sendo “uma brisa viva” (por isso chamada brisa da cavala), como diz alguém, “considerada a mais favorável” para esse fim. Contamos cerca de duzentas velas de pescadores de cavala dentro de um pequeno arco do horizonte, e um número quase igual desaparecera para o sul. Assim pairavam em torno da extremidade do Cabo, como mariposas ao redor de uma vela; as luzes de Race Point e Long Point sendo para elas velas luminosas durante a noite, e, àquela distância, pareciam belas e brancas, como se ainda não tivessem voado para dentro da chama; mais tarde, porém, vistas de perto, percebemos como algumas haviam outrora chamuscado as asas e o corpo.
Assim parece uma aldeia quando todos os seus homens aptos lavram juntos o oceano, como um campo comum. Em North Truro, as mulheres e moças podem sentar-se à porta e ver onde seus maridos e irmãos colhem cavalas a quinze ou vinte milhas de distância, no mar, com centenas de carroças brancas de colheita, assim como no interior as mulheres dos agricultores às vezes veem os maridos trabalhando num campo distante, numa encosta. Mas o som de nenhuma buzina do jantar pode alcançar o ouvido do pescador.
Depois de passarmos pela parte mais estreita da cintura do Cabo, embora ainda em Truro, pois esse município se estende por cerca de doze milhas ao longo da costa, atravessamos para o lado da Baía, a menos de meia milha de distância, a fim de passar o meio-dia na mais próxima colina arenosa coberta de arbustos em Provincetown, chamada Monte Ararat, que se eleva cem pés acima do oceano. No caminho até lá, tivemos ocasião de admirar as variadas e belas formas e cores da areia e observamos uma miragem interessante, que desde então descobri ter sido também notada por Hitchcock nas areias do Cabo. Atravessávamos um vale raso no Deserto, onde a areia lisa e imaculada subia em suave inclinação até o horizonte por todos os lados, e, na parte mais baixa, havia uma longa cadeia de poças claras, porém rasas. Ao nos aproximarmos delas para beber, em direção diagonal através do vale, pareciam inclinadas num ângulo leve, mas nítido, em relação ao horizonte, embora estivessem evidente e amplamente ligadas umas às outras e não houvesse a menor ondulação que sugerisse correnteza; de modo que, quando alcançamos uma parte conveniente de uma delas, parecia que havíamos subido vários pés. Por magia, aparentavam repousar na encosta do vale, como um espelho deixado em posição oblíqua. Era uma miragem muito bonita para um deserto de Provincetown, mas não chegava ao que, em sânscrito, se chama “a sede da gazela”, pois aqui havia água verdadeira por base e, afinal, conseguimos saciar a sede.
O professor Rafn, de Copenhague, pensa que a miragem que observei, mas que um velho morador de Provincetown, a quem a mencionei, jamais vira nem ouvira falar, teria algo a ver com o nome “Furdustrandas”, isto é, Praias Maravilhosas, dado, como já disse, no antigo relato islandês da expedição de Thorfinn a Vinland, no ano de 1007, a uma parte da costa em que ele desembarcou. Mas estas areias são mais notáveis pela extensão do que pela miragem, que é comum a todos os desertos, e a razão para o nome dada pelos próprios nórdicos, “porque se levava muito tempo para navegar ao longo delas”, é suficiente e mais aplicável a estas costas. Entretanto, caso se navegasse todo o caminho da Groenlândia até Buzzards’ Bay acompanhando o litoral, avistar-se-iam muitas praias arenosas. Mas, tenha ou não Thorfinn visto aqui a miragem, Thor-eau, da mesma família, viu; e talvez tenha sido porque Lief, o Afortunado, numa viagem anterior, retirara Thor-er e seu povo da rocha no meio do mar, que Thor-eau nasceu para vê-la.
Essa não foi a única miragem que vi no Cabo. A metade da praia junto ao barranco costuma ser plana, ou quase, enquanto a outra desce em declive até a água. Quando eu caminhava pela borda do barranco em Wellfleet, ao pôr do sol, pareceu-me que a metade interior da praia se inclinava para cima, em direção à água, até encontrar a outra, formando uma crista de dez ou doze pés de altura ao longo de toda a costa, porém sempre mais alta em frente ao ponto onde eu estava; e não me convenci do contrário até descer o barranco, embora os contornos sombreados deixados pelas ondas de uma maré anterior, apenas a meio caminho da aparente encosta, devessem ter-me ensinado melhor. Um estranho pode perceber facilmente aquilo que é estranho ao mais velho morador, pois o estranho é seu domínio. O velho ostricultor, ao falar da caça às gaivotas, dissera que era preciso mirar por baixo ao atirar do alto do barranco.
Um vizinho me conta que, certo mês de agosto, olhando através de uma luneta de Naushon para algumas embarcações que navegavam nas proximidades de Martha’s Vineyard, a água ao redor delas parecia perfeitamente lisa, de modo que se refletiam nela, e contudo suas velas enfunadas provavam que ela devia estar ondulada; e os que estavam com ele pensaram tratar-se de miragem, isto é, um reflexo produzido por uma névoa.
Da colina arenosa acima mencionada, avistávamos Provincetown e seu porto, agora vazio de embarcações, bem como uma vasta extensão de oceano. Como não desejávamos entrar em Provincetown antes da noite, embora estivesse frio e ventasse, voltamos através dos Desertos para o lado do Atlântico e caminhamos outra vez pela praia quase até Race Point, ainda ávidos da influência do mar. Durante todo esse tempo, não estava tão calmo quanto o leitor talvez suponha, mas era sopro, sopro, sopro; rugido, rugido, rugido; passo, passo, passo; sem interrupção. A costa agora corria quase de leste a oeste.
Antes do pôr do sol, já tendo visto a frota da cavala regressar à Baía, deixamos o litoral ao norte de Provincetown e atravessamos o Deserto rumo à extremidade leste da cidade. Da primeira colina alta de areia, coberta de capim-das-dunas e arbustos até o topo, à margem do deserto, contemplamos a região de colinas cobertas de arbustos e pântanos que circunda Provincetown ao norte e a protege, em certa medida, da areia invasora. Apesar da esterilidade universal e da proximidade do deserto, nunca vi uma paisagem outonal pintada com tamanha beleza. Era como o tapete mais rico que se possa imaginar, estendido sobre uma superfície irregular; nenhum damasco, veludo, tintura ou tecido de Tiro, nem obra de tear algum, poderia jamais igualá-lo. Havia o vermelho incrivelmente vivo do huckleberry e o castanho-avermelhado da mírica, misturados ao verde claro e vivaz de pequenos pinheiros-resinosos, e também ao verde mais apagado da mírica, da boxberry e da ameixeira; o verde-amarelado dos carvalhos arbustivos; e os vários matizes dourados, amarelos e fulvos da bétula, do bordo e do álamo, cada qual formando sua própria figura; e, em meio a tudo isso, os poucos deslizamentos de areia amarela nas encostas das colinas pareciam o piso branco visto através de rasgos no tapete. Vindo do interior, como eu vinha, e tendo visto tantas matas outonais, essa foi talvez a visão mais nova e notável que encontrei no Cabo. É provável que o brilho dos matizes fosse realçado pelo contraste com a areia que cercava aquela faixa. Isso fazia parte da mobília de Cape Cod. Durante dias, havíamos percorrido a longa e desolada varanda que se estende ao longo de seu lado atlântico, depois atravessado o piso coberto de areia de seus salões, e agora éramos apresentados ao seu boudoir. As cem velas brancas que se apinhavam ao redor de Long Point, entrando no porto de Provincetown, vistas sobre as colinas pintadas à nossa frente, pareciam navios de brinquedo sobre uma cornija de lareira.
A peculiaridade dessa paisagem outonal consistia tanto na pouca altura e na espessura dos arbustos quanto no brilho dos matizes. Era como um tecido grosso de lã penteada ou um velo, e parecia que um gigante poderia erguê-lo pela bainha, ou antes pela franja com borlas que se arrastava sobre a areia, e sacudi-lo, embora ele não precisasse ser sacudido. Mas sem dúvida a poeira voaria nesse caso, pois não foi pouca a que se acumulou debaixo dele. Não teria sido uma paisagem outonal como esta que sugeriu nossos tapetes e carpetes de cores vivas? Daqui em diante, quando eu olhar para um tapete mais rico que o comum e estudar suas figuras, pensarei: ali estão as colinas de huckleberry, e ali os pântanos mais densos de boxberry e blueberry; ali as manchas de carvalhos arbustivos e as míricas; ali os bordos, as bétulas e os pinheiros. Que outras tinturas podem ser comparadas a estas? Eram cores mais quentes do que as que eu associara à costa da Nova Inglaterra.
Depois de atravessarmos em zigue-zague um pântano cheio de boxberry e escalarmos, sem trilha, várias colinas cobertas de carvalhos arbustivos, onde náufragos correriam o risco de perecer durante a noite, descemos até a extremidade leste das quatro tábuas que percorrem toda a extensão da rua de Provincetown. Esta, a última cidade do Cabo, situa-se sobretudo numa única rua ao longo da praia curva voltada para sudeste. As colinas de areia, cobertas de arbustos e entremeadas de pântanos e lagoas, erguiam-se logo atrás dela em forma de crescente, com meia milha a uma milha ou mais de largura no centro; e, para além delas, estende-se o deserto, que constitui a maior parte de seu território, alcançando o mar a leste, a oeste e ao norte. A cidade é densamente construída no espaço estreito, com dez a cinquenta rods de profundidade, entre o porto e as colinas de areia, e continha naquele tempo cerca de dois mil e seiscentos habitantes. As casas, nas quais um estilo mais moderno e pretensioso enfim prevaleceu sobre a cabana do pescador, ficam no lado interno, ou lado das tábuas, da rua; e os armazéns de peixe e de mercadorias, com os pitorescos moinhos de vento das salinas, no lado da água. A estreita porção de praia entre ambos, formando a rua, com cerca de dezoito pés de largura, a única em que uma carruagem poderia passar por outra, caso houvesse mais de uma carruagem na cidade, parecia muito mais “pesada” do que qualquer trecho da praia ou do deserto por onde havíamos caminhado, pois ficava acima do alcance da maré mais alta e a areia era mantida solta pela passagem ocasional de algum viajante. Soubemos que as quatro tábuas sobre as quais caminhávamos haviam sido compradas com a parte que coubera à cidade na Receita Excedente, cuja destinação fora motivo de disputa entre os habitantes, até que resolveram sabiamente colocá-la assim debaixo dos pés. Contudo, dizia-se que alguns ficaram tão irritados por não receberem em dinheiro sua parcela individual que insistiram em caminhar pela areia muito tempo depois de construída a calçada. Este é o único caso de que por acaso tenho conhecimento em que a receita excedente se revelou uma bênção para alguma cidade. Uma receita excedente de dólares proveniente do tesouro para conter o mal maior de uma receita excedente de areia proveniente do oceano. Esperavam ter uma estrada firme quando aquelas tábuas se desgastassem. De fato, já a fizeram desde que estivemos lá e quase se esqueceram de seu batismo de areia.
Enquanto seguíamos, observamos os habitantes ocupados em curar peixe ou o capim salgado grosseiro que haviam trazido para casa e espalhado na praia diante de suas portas, tão amarelo que parecia ter sido rastelado para fora do mar. Os lotes dos jardins da frente pareciam o que de fato eram: porções da praia cercadas, com capim-das-dunas crescendo nelas, como se às vezes fossem cobertas pela maré. Ainda se podiam apanhar ali conchas e seixos. Havia algumas árvores entre as casas, sobretudo choupos-brancos, salgueiros e bálsamos-de-Gileade; e um homem me mostrou um carvalho jovem que transplantara de trás da cidade, julgando que fosse uma macieira. Mas cada qual no seu ofício. Embora entendesse pouco de mato, nem por isso conhecia menos o tempo, e deu-nos uma informação, a saber: observara que, quando uma nuvem de trovoada chegava com a maré enchente, não chovia. Era a cidade mais completamente marítima em que já havíamos estado. Não passava de um bom porto, cercado de terra seca, quando não firme, uma praia habitada, na qual os pescadores curavam e armazenavam o peixe, sem região interior alguma. Mesmo em terra, os habitantes ainda andam sobre tábuas. Alguns pequenos trechos foram recuperados dos pântanos, contendo em geral apenas meia dúzia de rods quadrados cada um. Vimos um que era cercado por quatro extensões de trilhos; vimos também uma cerca feita inteiramente de aduelas de tonéis, fincadas no chão. Essas terras, e outras semelhantes, constituíam toda a área cultivada e cultivável de Provincetown. Disseram-nos que havia ao todo trinta ou quarenta acres, mas não descobrimos sequer a quarta parte disso, e o que vimos estava bem polvilhado de areia e parecia estar sendo reclamado pelo deserto. Agora estão transformando alguns de seus pântanos em Prados de Oxicoco, em escala bastante extensa.
Contudo, longe de ficar fora do caminho, Provincetown está diretamente no caminho do navegador, e feliz é aquele que não se choca com ela no escuro. Situa-se numa das grandes vias do comércio, e homens de todas as partes do globo aportam ali ao longo de um ano.
A frota da cavala havia chegado quase toda antes de nós, pois era noite de sábado, com exceção daquela divisão que pela manhã descera em direção a Chatham; e, de uma colina aonde fomos ver o sol se pôr na Baía, contamos duzentas escunas de bela aparência fundeadas no porto, a várias distâncias da costa, enquanto outras ainda contornavam o Cabo. À medida que cada uma fundeava, recolhia as velas, girava ao vento e baixava seu bote. Pertenciam principalmente a Wellfleet, Truro e Cape Ann. Era aquela cidade de lona que havíamos visto no horizonte, com os cascos ocultos. Vistas de perto e com os mastros nus, eram embarcações de aspecto inesperadamente negro, μέλαιναι νῆες. Um pescador nos disse que havia mil e quinhentas embarcações na frota da cavala e que ele já contara trezentas e cinquenta de uma só vez no porto de Provincetown. Como eram obrigadas a fundear a considerável distância da costa, por causa da pouca profundidade da água, davam a impressão de constituir uma frota maior que a das embarcações atracadas aos cais de uma grande cidade. Assim como haviam manobrado lá fora o dia inteiro, aparentemente para nosso entretenimento, enquanto caminhávamos para noroeste ao longo do Atlântico, agora as encontrávamos afluindo ao porto de Provincetown ao cair da noite, justo quando chegávamos, como se viessem ao nosso encontro e se exibissem bem de perto. Avançando por Race Point e Long Point a velocidades variadas, lembravam-me aves que voltavam para o poleiro.
Eram genuínas embarcações da Nova Inglaterra. Consta no Diário de Moses Prince, irmão do analista, sob a data de 1721, ocasião em que visitou Gloucester, que a primeira embarcação da classe chamada escuna fora construída ali cerca de oito anos antes, por Andrew Robinson; e, no fim do mesmo século, certo Cotton Tufts nos transmite a tradição com alguns pormenores, que conheceu numa visita ao mesmo lugar. Segundo este último, depois que Robinson construiu uma embarcação que aparelhou com mastros e cordame de maneira peculiar, quando ela deixou a carreira um espectador exclamou: “Oh, como ela scoons!” Ao que Robinson respondeu: “Pois escuna seja!” “Desde então”, diz Tufts, “as embarcações assim mastreadas e aparelhadas passaram a ser conhecidas pelo nome de escunas; antes disso, embarcações dessa descrição não eram conhecidas na Europa.” (Ver Mass. Hist. Coll., vol. IX, 1ª série, e vol. I, 4ª série.) Contudo, mal consigo acreditar nisso, pois a escuna sempre me pareceu a embarcação típica.
Segundo C. E. Potter, de Manchester, New Hampshire, a própria palavra schooner é de origem nova-inglesa, derivada do indígena schoon ou scoot, que significa precipitar-se, como Schoodic, de scoot e anke, um lugar onde a água se precipita. N. B. Certo indivíduo de Gloucester deveria ler um ensaio sobre o assunto perante uma sociedade genealógica, em Boston, em 3 de março de 1859, segundo o Boston Journal, q. v.
Quase todos os que saem precisam andar sobre as quatro tábuas que mencionei, de modo que é quase certo encontrar todos os habitantes de Provincetown que saírem ao longo do dia, contanto que você mesmo fique do lado de fora. Naquela noite, as tábuas estavam apinhadas de pescadores de cavala, aos quais ora cedíamos passagem, ora deles a recebíamos, enquanto voltávamos ao hotel. O hotel era mantido por um alfaiate, com a oficina de um lado da porta e o hotel do outro, e seu dia parecia dividido entre trinchar carne e cortar casimira.
Na manhã seguinte, embora estivesse ainda mais frio e tempestuoso que no dia anterior, voltamos aos Desertos, pois passávamos os dias inteiramente ao ar livre, ao sol quando havia algum, e ao vento, que nunca faltava. Depois de atravessarmos a região de colinas arbustivas na extremidade sudoeste da cidade, a oeste do Shank-Painter Swamp, cujo nome expressivo, pois de início o entendemos como naturalmente o entenderia um homem de terra firme, lhe conferia importância aos nossos olhos, cruzamos as areias até a costa ao sul de Race Point, distante três milhas, e dali vagueamos para leste através do deserto até o ponto em que havíamos deixado o mar na noite anterior. Percorremos cinco ou seis milhas depois de chegar lá, seguindo uma linha curva, e poderíamos ter percorrido nove ou dez, sobre vastas bandejas de areia pura, do centro das quais não víamos uma única partícula de vegetação, exceto os distantes e ralos campos de capim-das-dunas, que coroavam e formavam as cristas para as quais a areia subia em declive de ambos os lados; o tempo todo enfrentamos um vento cortante, frio como em janeiro. Na verdade, durante quase dois meses depois disso não experimentamos tempo tão frio. Esse deserto estende-se da extremidade do Cabo, atravessa Provincetown e penetra em Truro, e muitas vezes, ao cruzá-lo, lembramo-nos da “Narrativa de Riley” sobre seu cativeiro nas areias da Arábia, apesar do frio. Nossos olhos ampliavam os trechos de capim-das-dunas, transformando-os em milharais no horizonte, e provavelmente exagerávamos a altura das cristas por causa da miragem. Alegrou-me saber mais tarde, pelas Viagens na América do Norte, de Kalm, que os habitantes do Baixo São Lourenço chamam esse capim (Calamagrostis arenaria), bem como o capim-marinho (Elymus arenarius), de seigle de me; e ele acrescenta: “Asseguraram-me que essas plantas crescem em grande abundância em Newfoundland e em outras costas norte-americanas; os lugares cobertos por elas parecem, vistos de longe, campos de cereais, o que talvez explique a passagem de nossos relatos nórdicos [ele escrevia em 1749] acerca da excelente terra do vinho [Vinland det goda, Tradutor], na qual se menciona terem encontrado campos inteiros de trigo crescendo em estado selvagem.”
O capim-das-dunas mede “de dois a quatro pés de altura e tem cor verde-mar”, e diz-se que se encontra amplamente difundido pelo mundo. Nas Hébridas, é usado para esteiras, albardas, sacos, chapéus etc.; em Dorchester, neste Estado, já se fabricou papel com ele, e o gado o come quando tenro. Suas espigas assemelham-se um pouco às do centeio, medem de seis polegadas a um pé de comprimento, e ele se propaga tanto pelas raízes como pelas sementes. Para exprimir seu amor pela areia, alguns botânicos chamaram-no Psamma arenaria, isto é, a palavra grega para areia qualificada pela palavra latina para arenoso, ou areia arenosa. Enquanto é agitado pelo vento, embora permaneça firmemente preso pelas raízes, traça na areia miríades de círculos com tanta precisão como se fossem feitos por compassos.
Era a paisagem mais desoladora que se possa imaginar. Os únicos animais que vimos na areia naquela ocasião foram aranhas, encontradas em quase toda parte, seja na neve, na água gelada ou na areia, e um verme comprido e estreito, de aparência venenosa, um dos miriápodes, ou mil-pés. Surpreendeu-nos ver, naquela areia movediça, buracos de aranha com bordas tão firmes quanto as de um poço revestido de pedras.
Em junho, essa areia estava riscada pelas pegadas de tartarugas grandes e pequenas, que haviam saído à noite, indo dos pântanos ou voltando para eles. Um terræ filius que possui uma “fazenda” à margem do deserto e conhece bem a fama de Provincetown contou-me que um homem apanhara ali vinte e cinco tartarugas-mordedoras na primavera anterior. Seu próprio método de capturá-las consistia em colocar um sapo num anzol de cavala e lançá-lo num lago, amarrando a linha a um toco ou estaca na margem. Invariavelmente, depois de fisgada, a tartaruga subia pela linha até o toco e ali era encontrada à espera de seu captor, por mais tarde que ele voltasse. Disse também que ali se encontravam visons, ratos-almiscarados, raposas, guaxinins e camundongos selvagens, mas nenhum esquilo. Ouvimos falar de tartarugas-marinhas do tamanho de um barril encontradas na praia e na marisma de East Harbor, mas não ficou claro se eram nativas dali ou se haviam sido perdidas por alguma embarcação. Talvez fossem a Salt-water Terrapin, ou então a Smooth Terrapin, encontrada tão ao norte. Muitos sapos apareciam onde não havia nada além de areia e capim-das-dunas. Em Truro, eu me surpreendera com o número de sapos grandes e claros que saltavam por toda parte nos campos secos e arenosos, sua cor correspondendo à da areia. Cobras também são comuns nessas praias de areia pura, e nunca fui tão atormentado por mosquitos como em lugares assim. Na mesma estação, morangos cresciam ali em abundância nas pequenas depressões à margem do deserto, entre o capim-das-dunas na areia, e o fruto da shadbush, ou Amelanchier, que os habitantes chamam Josh-pears (alguns julgam que o nome venha de juicy?), é muito abundante nas colinas. Encontrei um homem prestativo que me conduziu ao melhor lugar para morangos. Disse que não teria mostrado o local se não percebesse que eu era forasteiro e não poderia chegar antes dele no ano seguinte; sinto-me, portanto, obrigado por minha honra a não revelá-lo. Quando chegamos a um lago, ele, por ser o nativo, fez as honras e carregou-me nos ombros até a outra margem, como Sindbad. Um favor merece outro, e, se algum dia ele vier às nossas bandas, farei por ele o mesmo.
Em certo lugar, vimos numerosas copas mortas de árvores projetando-se através do deserto, que de resto não apresentava interrupção alguma; ali, como soubemos depois, existira trinta ou quarenta anos antes uma floresta florescente, e agora, à medida que as árvores eram descobertas de ano em ano, os habitantes cortavam-lhes as pontas para combustível.
Não vimos ninguém fora da cidade naquele dia; o tempo estava invernal demais para que aqueles que já haviam visto o Back-side, ou a maioria, que jamais deseja vê-lo, se aventurassem para fora; e mal vimos uma pegada que indicasse que alguém algum dia atravessara aquele deserto. Disseram-me, contudo, que há sempre algumas pessoas no Back-side, noite e dia, durante o mau tempo, à procura de naufrágios, a fim de conseguirem o trabalho de descarregar a carga ou algo semelhante, e é assim que homens naufragados recebem socorro. Mas, em termos gerais, os habitantes raramente visitam essas areias. Um homem que vivera trinta anos em Provincetown contou-me que, durante todo esse tempo, não atravessara até o lado norte. Às vezes, os próprios nativos chegam perto de morrer ao perder o rumo em tempestades de neve atrás da cidade.
O vento não era um siroco nem um simum, como os que associamos ao deserto, mas um nordeste da Nova Inglaterra, e em vão procuramos abrigo sob as colinas de areia, pois ele soprava por todos os lados, arredondando-as em cones, e certamente nos encontrava, qualquer que fosse o lado em que nos sentássemos. De tempos em tempos nos deitávamos e bebíamos de pequenas poças na areia, cheias de água doce e pura, provavelmente tudo o que restava de uma lagoa ou de um brejo. O ar estava cheio de poeira como neve e de areia cortante, que fazia o rosto formigar, e vimos o que deve ser enfrentá-la quando o tempo está mais seco e, se possível, ainda mais ventoso: enfrentar no ar um banco de areia migrante, que apanhou seus trapos e partiu; ser açoitado por um gato não de nove caudas, mas de uma miríade de caudas, cada qual com seu ferrão. Um certo sr. Whitman, antigo ministro de Wellfleet, costumava escrever aos amigos do interior que a areia soprada riscava tanto as vidraças que ele era obrigado a mandar colocar um painel novo toda semana, para poder enxergar lá fora.
Na orla dos bosques arbustivos, a areia tinha o aspecto de uma inundação que os submergia, terminando num barranco abrupto muitos pés acima da superfície em que se erguiam e tendo enterrado parcialmente as árvores exteriores. As colinas de areia móveis da Inglaterra, chamadas Dunes ou Downs, às quais estas foram comparadas, são formadas ou de areia lançada pelo mar, ou de areia retirada inicialmente da própria terra pelo vento e impelida ainda mais para o interior. Aqui é uma maré de areia impulsionada pelas ondas e pelo vento, fluindo lentamente do mar para a cidade. Diz-se que os ventos de nordeste são os mais fortes, mas que os de noroeste deslocam mais areia, por serem os mais secos. Na costa do golfo da Biscaia, muitas aldeias foram outrora destruídas dessa maneira. Algumas das cristas de capim-das-dunas que vimos haviam sido plantadas pelo governo muitos anos antes, para preservar o porto de Provincetown e a extremidade do Cabo. Conversei com alguns que haviam trabalhado no plantio. Na “Descrição da Costa Oriental”, à qual já me referi, diz-se: “Durante a primavera e o verão, o capim-das-dunas cresce cerca de dois pés e meio. Se estiver cercado de praia nua, as tempestades do outono e do inverno amontoam areia por todos os lados e fazem-na subir quase até o topo da planta. Na primavera seguinte, o capim torna a erguer-se; no inverno, é novamente coberto de areia; e assim uma colina ou crista continua a elevar-se enquanto houver base suficiente para sustentá-la, ou até que a areia circundante, também coberta de capim-das-dunas, já não ceda à força dos ventos.” As colinas de areia assim formadas têm às vezes cem pés de altura e assumem toda variedade de formas, como montes de neve ou tendas árabes, e estão continuamente mudando de lugar. O capim enraíza-se com grande firmeza. Quando eu tentava arrancá-lo, geralmente se partia dez polegadas ou um pé abaixo da superfície, no ponto que fora a superfície no ano anterior, como mostravam os numerosos rebentos ali existentes, sendo ele um broto reto, duro e redondo, cujo comprimento revelava quanto a areia se acumulara no último ano; e às vezes os tocos mortos de uma estação anterior eram arrancados junto com ele de uma profundidade ainda maior na areia, com seu próprio broto, mais decomposto, ainda preso, de modo que a idade de uma colina de areia e sua taxa de crescimento ao longo de vários anos ficam assim registradas com bastante exatidão.
O velho Gerard, o herborista inglês, diz, à p. 1250: “Encontro menção na Crônica de Stowe, no ano de 1555, a certa leguminosa, ou ervilha, como a chamam, com a qual os pobres daquele tempo, havendo grande carestia, foram milagrosamente socorridos; ele a menciona assim. No mês de agosto, diz ele, em Suffolke, num lugar à beira-mar todo de pedra dura e seixos, chamado naquelas partes de shelf, situado entre as cidades de Orford e Aldborough, onde nem crescia capim nem jamais se vira terra alguma, sucedeu que, nesse lugar estéril, brotasse de repente, sem cultivo nem semeadura, grande abundância de ervilhas, das quais os pobres colheram, segundo se julgou, mais de cem quarters, e ainda restavam algumas maduras e outras em flor, tantas quantas jamais houvera antes; ao qual lugar foram a cavalo o bispo de Norwich e lorde Willoughby, com muitos outros, e nada encontraram senão pedra dura e rochosa pelo espaço de três jardas sob as raízes dessas ervilhas, cujas raízes eram grandes, compridas e muito doces.” Ele também nos conta que Gesner soube pelo dr. Cajus que havia ali quantidade suficiente para alimentar milhares de homens. Prossegue dizendo que “sem dúvida elas ali cresciam havia muitos anos, mas não foram observadas até que a fome os fez prestar-lhes atenção e aguçou sua inventividade, que em nosso povo costuma ser muito obtusa, sobretudo para descobrir alimentos dessa natureza. Meu estimado amigo, o dr. Argent, contou-me que muitos anos atrás esteve nesse lugar e mandou seu criado cavar a praia com as mãos e seguir as raízes por tanto tempo, até obter algumas de comprimento igual à sua altura, sem contudo conseguir chegar ao fim delas.” Gerard nunca as viu e não tem certeza de que espécie eram.
Nas Viagens pela Nova Inglaterra, de Dwight, afirma-se que os habitantes de Truro eram outrora regularmente convocados, por força da lei, no mês de abril de cada ano, a plantar capim-das-dunas, assim como em outros lugares eram convocados a reparar as estradas. Eles desenterravam o capim em touceiras, que depois eram divididas em várias menores e plantadas a cerca de três pés umas das outras, em fileiras dispostas de modo desencontrado, para interromper e obstruir a passagem do vento. Ele se espalhava rapidamente, pois o peso das sementes maduras curvava as espigas do capim, fazendo-as cair diretamente ao lado da planta e ali germinar. Desse modo, por exemplo, reconstruíram a parte do Cabo entre Truro e Provincetown sobre a qual o mar havia passado no século anterior. Agora há ali perto uma estrada pública, feita assentando-se torrões cheios de raízes, com a face inferior para cima e bem juntos sobre a areia, em camada dupla no meio da pista; depois, espalhando-se uniformemente galhos sobre a areia por cerca de meia dúzia de pés de cada lado, plantando capim-das-dunas nos barrancos em fileiras regulares, como acima descrito, e fincando uma cerca de galhos junto às depressões.
A atenção do governo federal foi atraída pela primeira vez para o perigo que ameaçava o porto de Cape Cod com o avanço da areia cerca de trinta anos antes, e Massachusetts nomeou então comissários para examinar o local. Eles relataram, em junho de 1825, que, em consequência de “as árvores e os arbustos terem sido cortados, e o capim-das-dunas destruído no lado do Cabo voltado para o mar, defronte do porto”, a superfície original do terreno fora desfeita e removida pelo vento em direção ao porto, durante os catorze anos anteriores, numa extensão de “meia milha de largura e cerca de quatro milhas e meia de comprimento”; que “o espaço onde poucos anos antes ficavam algumas das terras mais altas do Cabo, cobertas de árvores e arbustos” apresentava “um vasto ermo de areia ondulante”; e que, durante os doze meses anteriores, a areia “se aproximara do porto numa distância média de cinquenta rods, ao longo de uma extensão de quatro milhas e meia!”; e, a menos que se adotassem medidas para deter seu avanço, ela destruiria em poucos anos tanto o porto quanto a cidade. Recomendaram, portanto, que se plantasse capim-das-dunas numa linha curva, ao longo de uma faixa de dez rods de largura e quatro milhas e meia de comprimento, e que se proibisse o gado bovino, os cavalos e as ovelhas de andar soltos, bem como os habitantes de cortar os arbustos.
Disseram-me que, ao todo, cerca de trinta mil dólares haviam sido destinados a esse fim, embora se reclamasse que grande parte dessa soma fora gasta insensatamente, como costuma acontecer com o dinheiro público. Alguns dizem que, enquanto o governo planta capim-das-dunas atrás da cidade para proteger o porto, os habitantes despejam areia no porto em carrinhos de mão, a fim de criar lotes para casas. O Patent-Office importou recentemente da Holanda a semente desse capim e a distribuiu pelo país, mas provavelmente temos tanto dele quanto os holandeses.
Assim, Cape Cod está, por assim dizer, ancorado aos céus por uma miríade de pequenos cabos de capim-das-dunas e, se eles viessem a falhar, tornar-se-ia um destroço completo e em pouco tempo iria ao fundo. Antigamente, permitia-se que as vacas andassem soltas, e elas comiam muitos filamentos do cabo pelo qual o Cabo está amarrado, quase deixando-o à deriva, como fez o touro com o barco que estava amarrado por uma corda de capim; mas agora não lhes permitem vaguear.
Uma parte de Truro que contém considerável propriedade tributável foi recentemente anexada a Provincetown, e um homem de Truro me disse que seus concidadãos falavam em pedir à legislatura que também transferisse para Provincetown a milha seguinte de seu território, para que ela tivesse sua parte tanto do magro quanto do gordo e cuidasse da estrada que o atravessa; pois todo o valor dessa faixa consiste literalmente em manter o Cabo unido, e nem isso ela sempre conseguiu fazer. Mas Provincetown recusa energicamente o presente.
O vento soprava tão forte do nordeste que, apesar do frio, resolvemos ver a arrebentação do lado do Atlântico, cujo estrondo ouvíramos durante toda a manhã; por isso continuamos para leste através do Deserto, até alcançar novamente a costa a nordeste de Provincetown, e nos expusemos a toda a força da rajada cortante. Há ali extensos baixios sobre os quais o mar quebrava com grande violência. Por meia milha a partir da costa, tudo era uma única massa de arrebentação branca que, juntamente com o vento, produzia tamanho estrondo que mal conseguíamos ouvir um ao outro falar. A respeito dessa parte da costa, diz-se: “Uma tempestade de nordeste, a mais violenta e fatal para os marinheiros, por vir frequentemente acompanhada de neve, sopra diretamente sobre a terra; uma forte corrente corre ao longo da costa; acrescente-se a isso que os navios, durante uma tempestade assim, procuram avançar para o norte, a fim de entrar na baía. Caso não consigam dobrar Race Point, o vento os impele contra a costa, e o naufrágio é inevitável. Por conseguinte, a praia está por toda parte coberta de fragmentos de embarcações.” Mas, desde que o Farol de Highland foi erguido, essa parte da costa é menos perigosa, e diz-se que ocorrem mais naufrágios ao sul daquele farol, onde antes quase não eram conhecidos.
Este foi o mar mais tempestuoso que presenciamos, mais tumultuoso, afirmou meu companheiro, que as corredeiras do Niágara e, naturalmente, numa escala muito maior. Era o oceano sob uma ventania, num dia claro e frio, com apenas uma vela à vista, que avançava com grande dificuldade, como se procurasse ansiosamente um porto. Era maré alta quando chegamos à costa e, em certo trecho de extensão considerável, cada onda subia com tamanha altura que era difícil passar entre ela e o barranco. Mais ao sul, onde o barranco era mais alto, teria sido perigoso tentar. Um natural do Cabo contou-me que, muitos anos antes, três meninos, seus companheiros de brincadeira, tendo ido àquela praia em Wellfleet para visitar um destroço, corriam até ele quando o mar recuava e, quando retornava, corriam à sua frente em direção ao barranco; mas o mar, seguindo-lhes de perto os calcanhares, fez o barranco desabar e os enterrou vivos.
Era o mar rugidor, θάλασσα ἠχήεσσα,
ἀμφὶ δὲ τ’ ἄκραι
Ἠϊόνες βοόωσιν, ἐρευγομένης ἁλὸς ἔξω.
E os cimos da ribanceira
Ao redor ressoam, enquanto o mar é vomitado para fora.
Enquanto estávamos ali contemplando essa cena, fomos aos poucos nos convencendo de que pescar ali e pescar numa lagoa não eram, em todos os aspectos, a mesma coisa, e de que aquele que espera bom tempo e mar calmo talvez nunca veja a pele cintilante de uma cavala, nem chegue mais perto de um bacalhau do que do emblema de madeira na Casa do Estado.
Tendo permanecido na costa até quase morrermos de frio por causa do vento, e estando prontos para buscar abrigo numa casa de caridade, voltamos nossos rostos castigados pelo tempo para Provincetown e novamente para a baía, tendo agora mais que dobrado o Cabo.
[1] I. e., uma embarcação.
[2] O mar, arqueado sobre seu fundo arenoso como um céu.
[3] Batalha.