A Praia Cape Cod · Capítulo 4 de 10
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A Praia

Por fim alcançamos o limite aparentemente recuante da planície e entramos no que, à distância, parecera uma marisma elevada, mas que se revelou areia seca coberta de capim-das-dunas, uva-ursina, mírica, carvalhos-arbustivos e ameixeira-da-praia, elevando-se ligeiramente à medida que nos aproximávamos da costa; então, depois de atravessarmos uma faixa de areia onde nada crescia, embora o bramido do mar mal parecesse mais alto que antes, e estivéssemos preparados para andar mais meia milha, de repente nos vimos à beira de uma escarpa voltada para o Atlântico. Muito abaixo de nós ficava a praia, com uma largura de meia dúzia a uma dúzia de rods, e uma longa linha de ondas quebrando que avançavam rumo à faixa de areia. O mar estava extremamente escuro e tempestuoso, o céu inteiramente encoberto, as nuvens ainda derramando chuva, e o vento parecia soprar não tanto como causa excitadora, mas por simpatia com o oceano já agitado. As ondas quebravam sobre os bancos a certa distância da costa e, curvando-se verdes ou amarelas como se passassem sobre outras tantas barragens invisíveis, com dez ou doze pés de altura, semelhantes a mil cachoeiras, rolavam em espuma até a areia. Nada havia entre nós e a Europa senão aquele oceano selvagem.

Depois de descermos o barranco e chegarmos tão perto da água quanto nos era possível, onde a areia era mais firme, deixando para trás os Faróis de Nauset, começamos a caminhar sem pressa pela praia, em direção noroeste, rumo a Provincetown, que ficava a cerca de vinte e cinco milhas de distância, ainda navegando sob nossos guarda-chuvas com um forte vento de popa, admirando em silêncio, enquanto andávamos, a grande força da corrente oceânica,—

ποταμοῖο μέγα σθένος Ὠκεανοῖο.

As brancas ondas quebrando precipitavam-se para a costa; a espuma subia pela areia e depois recuava até onde podíamos ver — e imaginávamos quanto mais longe, ao longo da costa atlântica, à nossa frente e atrás de nós — com tanta regularidade, para comparar coisas grandes com pequenas, quanto o mestre de um coro marca o compasso com sua batuta branca; e, vez por outra, uma onda mais alta nos fazia desviar às pressas do caminho, e olhávamos para trás, vendo nossas pegadas cheias de água e espuma. As ondas quebrando pareciam manadas de mil cavalos selvagens de Netuno, avançando rumo à costa, com as crinas brancas esvoaçando muito atrás deles; e, quando por fim o sol brilhou por um instante, suas crinas ficaram tingidas das cores do arco-íris. Também as longas algas eram lançadas para cima de tempos em tempos, como caudas de vacas-marinhas brincando na água salgada.

Não havia vela alguma à vista, e não vimos nenhuma naquele dia, pois todas tinham buscado abrigo nos portos durante a tempestade recente e ainda não haviam conseguido sair; e os únicos seres humanos que vimos na praia durante vários dias foram um ou dois recolhedores de destroços à procura de madeira à deriva e fragmentos de embarcações naufragadas. Depois de uma tempestade de leste na primavera, esta praia às vezes fica coberta, de uma ponta à outra, de madeira vinda do leste, a qual, como pertence a quem a salva e o Cabo é quase desprovido de madeira, constitui uma dádiva de Deus para os habitantes. Logo encontramos um desses recolhedores de destroços, um autêntico homem de Cape Cod, com quem parlamentamos, de rosto descorado e curtido pelas intempéries, em cujas rugas não distingui feição alguma em particular. Parecia uma velha vela dotada de vida, um penhasco pendente de carne castigada pelo tempo, como um dos matacões de argila que apareciam naquele banco de areia. Trazia um chapéu que já vira água salgada e um casaco feito de muitos pedaços e cores, embora fosse sobretudo da cor da praia, como se tivesse sido recoberto de areia. Suas costas variegadas, pois o casaco tinha muitos remendos até mesmo entre os ombros, ofereceram-nos um rico objeto de estudo quando já o havíamos ultrapassado e nos voltamos para olhá-lo. Poderia ter sido desonroso para ele trazer tantas cicatrizes nas costas, é verdade, não tivesse muitas mais, e mais graves, pela frente. Parecia alguém que às vezes via um bolinho frito, mas jamais descia ao conforto; grave demais para rir, duro demais para chorar; tão indiferente quanto uma amêijoa, como uma amêijoa-do-mar de chapéu e pernas, que saíra a caminhar pela praia. Talvez fosse um dos Peregrinos, ao menos Peregrine White, que tivesse permanecido na parte de trás do Cabo e deixado os séculos passarem. Procurava destroços, velhos troncos encharcados e cobertos de cracas, ou pedaços de tábuas e barrotes, até mesmo lascas, que puxava para fora do alcance da maré e empilhava para secar. Quando o tronco era grande demais para ser levado para longe, cortava-o onde a última onda o havia deixado ou, rolando-o alguns pés, apropriava-se dele fincando no chão, cruzadas acima do tronco, duas varas. Algum tronco apodrecido que, no Maine, atravanca o chão e talvez seja lançado à água de propósito é aqui recolhido com todo o cuidado, rachado, seco e poupado. Antes do inverno, o recolhedor de destroços carrega penosamente essas coisas barranco acima, sobre os ombros, por uma longa trilha diagonal e inclinada, aberta com uma enxada na areia, quando não há nenhuma depressão por perto. Pode-se ver sempre sua vara com gancho deitada sobre o barranco, pronta para o uso. Ele é o verdadeiro monarca da praia, cujo “direito ninguém há de contestar”, e está tão identificado com ela quanto uma ave praieira.

Crantz, em seu relato da Groenlândia, cita a exposição de Dalagen sobre os modos e costumes dos groenlandeses e diz: “Quem quer que encontre madeira à deriva ou despojos de um naufrágio na praia toma-os como seus, ainda que não more ali. Mas deve arrastá-los para terra e colocar uma pedra sobre eles, como sinal de que alguém tomou posse, e essa pedra é o título de garantia, pois nenhum outro groenlandês se atreverá depois a mexer neles.” Tal é a lei instintiva das nações. Temos também em Crantz este relato sobre madeira à deriva: “Como ele (o Fundador da Natureza) negou a esta fria região rochosa o crescimento de árvores, ordenou às correntes do Oceano que transportassem para suas costas grande quantidade de madeira, que de fato chega flutuando até ali, parte sem gelo, mas a maior parte junto com ele, e se aloja entre as ilhas. Não fosse por isso, nós, europeus, não teríamos madeira para queimar ali, e os pobres groenlandeses (que, é verdade, não usam madeira, mas óleo, para queimar) tampouco teriam madeira para cobrir suas casas, erguer suas tendas, bem como construir seus barcos e fazer as hastes de suas flechas (embora ali crescessem alguns amieiros pequenos e tortuosos etc.), com as quais precisam obter seu sustento, suas roupas e óleo para aquecimento, luz e cozinha. Entre essa madeira há grandes árvores arrancadas pela raiz, que, depois de serem levadas de um lado para outro durante muitos anos e roçarem no gelo, ficam inteiramente despojadas de galhos e casca e corroídas por grandes carunchos. Uma pequena parte dessa madeira à deriva consiste em salgueiros, amieiros e bétulas, que saem das baías ao sul da própria Groenlândia; há também grandes troncos de álamos, que devem vir de uma distância maior; mas a maior parte é de pinheiro e abeto. Encontramos também boa quantidade de uma espécie de madeira de veios finos e poucos galhos; suponho que seja larício, que gosta de adornar as encostas de altas montanhas pedregosas. Há ainda uma madeira sólida e avermelhada, de fragrância mais agradável que a do abeto comum, com veios transversais visíveis; creio que seja da mesma espécie dos belos abetos-prateados, ou zirbel, que têm cheiro de cedro, crescem nas altas colinas dos Grisões e com os quais os suíços revestem de madeira seus aposentos.” O recolhedor de destroços indicou-nos uma ligeira depressão, chamada Snow’s Hollow, por onde subimos o barranco, pois em outros pontos, se não era difícil, era incômodo escalá-lo por causa da areia escorregadia, que nos enchia os sapatos.

Esse banco de areia, a espinha dorsal do Cabo, erguia-se diretamente da praia a uma altura de cem pés ou mais acima do oceano. Foi com emoções singulares que pela primeira vez nos postamos sobre ele e descobrimos que espécie de lugar havíamos escolhido para caminhar. À nossa direita, abaixo de nós, ficava a praia de areia lisa e suavemente inclinada, com uma dúzia de rods de largura; em seguida, a série interminável de brancas ondas quebrando; mais adiante ainda, a água verde-clara sobre o banco, que se estende por todo o comprimento do antebraço do Cabo; e além disso se estendia o oceano incansável e ilimitado. À nossa esquerda, prolongando-se para o interior desde a própria borda do barranco, havia um perfeito deserto de areia reluzente, com trinta a oitenta rods de largura, orlado ao longe por pequenas colinas de areia de quinze ou vinte pés de altura; entre elas, porém, em certos lugares, a areia penetrava outro tanto. Depois começava a região da vegetação, uma sucessão de pequenas colinas e vales cobertos de arbustos, agora resplandecentes com os mais vivos tons outonais imagináveis; e além deles viam-se, aqui e ali, as águas da baía. Ali, em Wellfleet, esse planalto de areia pura, conhecido pelos marinheiros como Table Lands of Eastham por causa de sua aparência quando visto do oceano e porque outrora fazia parte daquela cidade, com bem cinquenta rods de largura, e em muitos lugares muito mais, e às vezes cento e cinquenta pés inteiros acima do oceano, estendia-se para o norte desde o limite meridional da cidade, sem uma única partícula de vegetação, quase tão plano quanto uma mesa, por duas milhas e meia ou três milhas, ou até onde a vista alcançava; elevando-se ligeiramente na direção do oceano, para então inclinar-se até a praia por uma vertente tão íngreme quanto a areia podia sustentar e tão regular quanto poderia desejar um engenheiro militar. Era como a muralha escarpada de uma fortaleza estupenda, cujo glacis era a praia e cuja planície de batalha era o oceano. De sua superfície divisávamos a maior parte do Cabo. Em suma, atravessávamos um deserto, tendo de um lado a vista de uma paisagem outonal de brilho extraordinário, uma espécie de Terra Prometida, e do outro o oceano. Contudo, embora a perspectiva fosse tão ampla e a região em sua maior parte desprovida de árvores, raramente se via uma casa, e nunca vimos nenhuma desde a praia; e a solidão era a do oceano e a do deserto combinadas. Mil homens não a teriam interrompido seriamente, mas teriam se perdido na vastidão da paisagem como seus passos na areia.

Toda a costa é tão livre de rochas que vimos apenas uma ou duas em mais de vinte milhas. A areia era macia como a da praia e fatigante para os olhos quando o sol brilhava. Algumas pilhas de madeira à deriva, que certos recolhedores de destroços haviam trazido penosamente barranco acima e empilhado ali para secar, por serem os únicos objetos no deserto, pareciam imensamente grandes e distantes, quase como wigwams, embora, quando chegamos perto delas, se revelassem insignificantes montinhos de madeira.

Por dezesseis milhas, a partir dos Faróis de Nauset, a escarpa conservava sua altura, embora mais ao norte não fosse tão nivelada quanto aqui, mas interrompida por ligeiras depressões, e as manchas de capim-das-dunas e mírica frequentemente avançassem pela areia até sua borda. Há algumas páginas intituladas “Descrição da costa oriental do condado de Barnstable”, impressas em 1802, que indicam os pontos onde os administradores da Sociedade Humanitária ergueram cabanas chamadas Casas de Caridade ou Casas Humanitárias, “e outros lugares onde marinheiros náufragos possam procurar abrigo”. Foram distribuídos dois mil exemplares, para que toda embarcação que frequentasse esta costa pudesse dispor de um. Li esse Manual do Marinheiro Náufrago com uma espécie de interesse melancólico, pois o som da arrebentação, ou, poder-se-ia dizer, o lamento do mar, é ouvido por toda a obra, como se o próprio autor fosse o único sobrevivente de um naufrágio. Sobre esta parte da costa, ele diz: “Este terreno elevado aproxima-se do oceano em escarpas íngremes e altas, extremamente difíceis de subir, sobretudo durante uma tempestade. Em temporais violentos, durante marés muito altas, o mar se quebra contra a base delas, tornando então perigoso caminhar pela faixa de areia que fica entre elas e o oceano. Caso o marinheiro tenha êxito em sua tentativa de subi-las, deve abster-se de penetrar no interior, pois as casas em geral ficam tão distantes que escapariam à sua busca durante a noite; deve prosseguir até os vales que cortam as escarpas. Esses vales, que os habitantes chamam de Hollows, estendem-se em ângulo reto com a costa, e pelo meio ou pela parte mais baixa deles uma estrada conduz das casas de moradia ao mar.” Pela palavra estrada nem sempre se deve entender uma trilha visível de carroças.

Havia para nós essas duas estradas, uma superior e outra inferior, a escarpa e a praia; ambas se estendendo por vinte e oito milhas a noroeste, de Nauset Harbor a Race Point, sem uma única abertura para a praia e quase sem nenhuma interrupção séria do deserto. Se atravessássemos a vau a estreita e rasa enseada de Nauset Harbor, onde não há mais de oito pés de água sobre o banco na preamar, poderíamos caminhar mais dez ou doze milhas, o que perfaria uma praia de quarenta milhas, e a escarpa e a praia, no lado leste de Nantucket, são apenas uma continuação destas. Fiquei relativamente satisfeito. Ali eu tinha o Cabo debaixo de mim, como se o cavalgasse em pelo. Não era como no mapa, nem como visto da diligência; ali, porém, encontrei-o todo ao ar livre, imenso e real, Cape Cod! como não pode ser representado num mapa, por mais que se o colore; a própria coisa, à qual nada se assemelha mais, da qual não há retrato nem relato mais verdadeiro; além da qual não se pode ir para vê-la. Não consigo lembrar o que antes eu pensava que fosse. Em geral, celebram apenas as praias que têm um hotel, não as que têm somente uma Casa Humanitária. Eu, porém, queria ver aquele litoral onde as obras do homem são destroços; hospedar-me na verdadeira Atlantic House, onde o oceano é senhor da terra e também senhor do mar, e vem à costa sem cais para desembarcar; onde a terra que se desmorona é o único inválido, ou, na melhor das hipóteses, não passa de terra seca, e isso é tudo o que se pode dizer dela.

Caminhamos sem nenhuma pressa, ora pela praia, ora pela escarpa, sentando-nos de tempos em tempos em algum tronco úmido, de bordo ou bétula-amarela, que por muito tempo seguira os mares, mas enfim se estabelecera em terra; ou a sotavento de uma colina de areia, na escarpa, para que pudéssemos contemplar firmemente o oceano. A escarpa era tão íngreme que, onde não havia risco de desabar, sentávamo-nos em sua borda como num banco. Era difícil para nós, homens da terra, olhar o oceano sem imaginar terra no horizonte; contudo, as nuvens pareciam pender baixas sobre ele e repousar na água como nunca fazem sobre a terra, talvez por causa da grande distância que nossa vista alcançava. A areia não deixava de ter sua vantagem, pois, embora fosse “pesado” caminhar nela, era macia para os pés; e, apesar de ter chovido por quase dois dias, quando a chuva cessava por meia hora, as encostas das colinas de areia, porosas e deslizantes, ofereciam um assento seco. Todos os aspectos desse deserto são belos, quer o contemplemos com bom ou mau tempo, quer quando o sol acaba de irromper depois de uma tempestade e brilha à distância sobre sua superfície úmida, tão branca, pura e nivelada, e cada pequena irregularidade e cada rastro se revelam com tanta nitidez; e, quando nossos olhos deslizam para além disso, caem sobre o oceano. No verão, as gaivotas-da-cavala, que aqui têm seus ninhos entre as colinas de areia vizinhas, perseguem ansiosamente o viajante, mergulhando de vez em quando junto à sua cabeça com um guincho, e ele pode vê-las, como andorinhas, perseguir algum corvo que se alimentava na praia quase até o outro lado do Cabo.

Embora há algum tempo eu não fale do rugido das ondas quebrando e do incessante fluxo e refluxo das vagas, elas nem por um momento deixaram de se lançar e rugir, com tamanho tumulto que, se você estivesse ali, mal conseguiria ouvir minha voz enquanto isso; e elas se lançam e rugem neste exato momento, ainda que talvez com menos estrondo e violência, pois ali o mar nunca repousa. Estávamos inteiramente absortos naquele espetáculo e tumulto e, como Crises, embora em estado de espírito diverso do dele, caminhávamos em silêncio pela costa do mar ressonante,

Βῆ δ’ ἀκέων παρὰ θῖνα πολυφλοίσβοιο θαλάσσης.[1]

Introduzo um pouco de grego de vez em quando, em parte porque soa tanto como o oceano, embora eu duvide que o mar Mediterrâneo de Homero jamais tenha soado tão alto quanto este.

Diz-se que a atenção dos que frequentam as reuniões campais em Eastham se divide entre a pregação dos metodistas e a pregação das vagas no lado de trás do Cabo, pois todos afluem para cá durante sua estada. Confio que, neste caso, prevaleça a voz mais alta. Com que efeito podemos imaginar o oceano dizendo “Meus ouvintes!” à multidão sobre a escarpa! Daquele lado, algum John N. Maffit; deste, o reverendo Poluphloisboios Thalassa.

Havia pouca alga trazida até aqui, e sobretudo kelp, pois mal existia uma rocha à qual a alga-das-rochas pudesse aderir. Quem, do convés de alguma embarcação, quando ainda conservava suas pernas de terra, não teve a visão desse grande avental marrom, flutuando quase ereto e inteiramente submerso na água verde, agarrando uma pedra ou um mexilhão de águas profundas com seus dedos sobrenaturais? Já o vi carregando uma pedra com metade do tamanho de minha cabeça. Às vezes observávamos uma massa dessa alga semelhante a um cabo, enquanto era arremessada ao alto na crista de uma onda quebrando, esperando com interesse vê-la chegar, como se algum tesouro fosse mantido à tona por ela; mas sempre nos surpreendíamos e nos decepcionávamos com a insignificância da massa que nos atraíra. Ao olharmos para a água, os menores objetos que nela flutuavam pareciam indefinidamente grandes, tão impressionados estávamos com a vastidão do oceano, e cada um guardava proporção tão grande com todo o oceano que víamos. Ficávamos com tanta frequência decepcionados com o tamanho das coisas que chegavam à costa, os ridículos pedacinhos de madeira ou alga que o oceano se esforçava para trazer, que começamos a duvidar se o próprio Atlântico suportaria uma inspeção ainda mais minuciosa e se não se revelaria apenas um pequeno lago, caso viesse à costa até nós. Esse kelp, alga-remo, alga-emaranhada, avental-do-diabo, couro-de-sola ou alga-fita, como são chamadas várias espécies, pareceu-nos um produto singularmente marinho e fabuloso, uma invenção apropriada para Netuno adornar seu carro, ou uma extravagância de Proteu. Tudo o que se conta sobre o mar tem um som fabuloso para quem habita a terra, e todos os seus produtos possuem certa qualidade fabulosa, como se pertencessem a outro planeta, desde a alga marinha até uma lorota de marinheiro ou uma história de pescador. Nesse elemento, os reinos animal e vegetal se encontram e se misturam estranhamente. Uma espécie de kelp, segundo Bory St. Vincent, tem um talo de mil e quinhentos pés de comprimento e, por isso, é o vegetal mais longo conhecido; e a tripulação de um brigue passou dois dias, inutilmente, recolhendo os troncos de outra espécie lançados à costa nas Ilhas Falkland, tomando-os por madeira à deriva. (Ver Harvey sobre Algæ.) Essa espécie parecia quase comestível; ao menos, pensei que, se estivesse morrendo de fome, eu a provaria. Um marinheiro me disse que as vacas a comiam. Cortava-se como queijo, pois aproveitei a primeira oportunidade para me sentar e, deliberadamente, aparar com o canivete uma ou duas braças dela, a fim de conhecê-la mais intimamente, ver como se cortava e se era oca por toda a extensão. A lâmina parecia um cinto largo, cujas bordas tivessem sido franzidas, ou como se houvesse sido alargado a marteladas, e também se retorcia em espiral. A extremidade em geral estava gasta e esfarrapada pelo açoite das ondas. Um pedaço do talo que levei para casa encolheu, uma semana depois, para um quarto de seu tamanho e ficou inteiramente coberto de cristais de sal semelhantes a geada. O leitor perdoará minha inexperiência, embora não seja uma inexperiência marinha, como talvez seja a dele, pois vivo à margem de um rio, onde essa alga não chega trazida pelas ondas. Quando consideramos em que prados ela cresceu, como foi rastelada e em que espécie de tempo de fenação foi recolhida ou deixada de fora, bem podemos sentir curiosidade a seu respeito. Alguém versado no tempo deu o seguinte relato da questão.

“Quando desce sobre o Atlântico

O gigantesco

Vento de tormenta do equinócio,

Rumo à terra, em sua ira, açoita

As vagas que labutam,

Carregadas de algas arrancadas às rochas.

“Dos recifes das Bermudas, das bordas

De escolhos submersos,

Nalgum remoto e luminoso Açor;

Das Bahamas e das vagas

Que se lançam, relampejando

Em prata, de San Salvador;

“Da arrebentação trêmula que sepulta

Os escolhos das Órcades,

Respondendo às roucas Hébridas;

E de naufrágios, navios e vergas

À deriva, elevando-se

Sobre os mares desolados e chuvosos;

“Sempre à deriva, à deriva, à deriva

Nas correntes mutáveis

Do inquieto mar.”

Mas ele não pensava nesta costa quando acrescentou:

“Até que, em enseadas abrigadas e trechos

De praias arenosas,

Tudo enfim tornou a encontrar repouso.”

Essas algas eram os símbolos daqueles pensamentos grotescos e fabulosos que ainda não chegaram às enseadas abrigadas da literatura.

“Sempre à deriva, à deriva, à deriva

Nas correntes mutáveis

Do coração inquieto”,

E ainda não “registrados em livros,

Eles, como palavras familiares

Entesouradas, já não mais se vão.”

A praia também estava juncada de belas medusas, que os recolhedores de destroços chamavam de Sun-squall, uma das formas mais inferiores de vida animal, algumas brancas, outras cor de vinho, e com um pé de diâmetro. A princípio, pensei que fossem uma parte tenra de algum monstro marinho, mutilada pela tempestade ou por algum outro inimigo. Que direito tem o mar de trazer no seio coisas tão delicadas como medusas e musgos, quando possui uma costa tão tempestuosa que as estruturas mais robustas se despedaçam contra ela? Estranho que se proponha a embalar nos braços filhos tão frágeis. De início, não reconheci nelas as mesmas que outrora eu vira aos milhares no porto de Boston, subindo à superfície num movimento ondulante, como se fossem ao encontro do sol, e tingindo as águas por vastas extensões, de modo que eu parecia navegar por uma simples sopa de peixe-lua. Dizem que, quando se tenta apanhar uma delas, ela escorre pelo outro lado da mão como mercúrio. Antes que a terra emergisse do oceano e se tornasse terra seca, reinava o caos; e entre a preamar e a baixa-mar, onde ela está parcialmente despida e se erguendo, ainda reina uma espécie de caos, que somente criaturas anômalas podem habitar. Gaivotas-cavaleiras voavam o tempo todo sobre nossa cabeça e entre as ondas quebrando, às vezes duas brancas perseguindo uma preta; perfeitamente à vontade na tempestade, embora sejam organismos tão delicados quanto as medusas e os musgos; e vimos que estavam adaptadas às circunstâncias mais pelo espírito do que pelo corpo. A natureza delas deve ser essencialmente mais selvagem, isto é, menos humana, que a das cotovias e dos tordos. Seu grito parecia o som de algum metal vibrante e harmonizava bem com o cenário e o rugido da arrebentação, como se alguém houvesse tocado rudemente as cordas da lira que jaz para sempre na praia; um farrapo esfarrapado de música oceânica lançado ao alto pela espuma. Mas, se me pedissem para nomear um som cuja lembrança reavivasse com maior perfeição a impressão que a praia deixou, seria o pio lúgubre da batuíra-melodiosa (Charadrius melodus) que ali frequenta. Também suas vozes são ouvidas como parte fugaz da elegia que se toca incessantemente ao longo da costa para os marinheiros perdidos nas profundezas desde que estas foram criadas. Mas, através de toda essa desolação, parecíamos ouvir uma frase pura e absoluta de melodia eterna, pois a mesma frase que é elegia para uma casa é, para outra, canto matinal de júbilo.

Um método notável de capturar gaivotas, aprendido com os indígenas, era praticado em Wellfleet em 1794. “A Casa das Gaivotas”, diz-se, “é construída com forquilhas fincadas no chão da praia”, estendendo-se varas por cima para formar o teto, e fechando-se as laterais com estacas e algas. “As varas do teto são cobertas com carne magra de baleia. O homem, colocado lá dentro, não é descoberto pelas aves e, enquanto elas disputam e comem a carne, ele as puxa para dentro, uma a uma, entre as varas, até reunir quarenta ou cinquenta.” Daí, talvez, se diga em inglês que um homem foi gulled, quando foi taken in, isto é, quando foi logrado. Lemos que certa “espécie de gaivota é chamada pelos holandeses de mallemucke, i.e. mosca tola, porque cai sobre uma baleia com tanta avidez quanto uma mosca, e, de fato, todas as gaivotas são temerariamente ousadas e fáceis de alvejar. Os noruegueses chamam essa ave de havhest, cavalo-marinho (e o tradutor inglês diz que provavelmente se trata do que chamamos de atobás). Se comem demais, regurgitam e tornam a comer até se cansarem. É esse hábito das gaivotas de abrir mão de sua propriedade [regurgitando o conteúdo do estômago para os moleiros], que deu origem, entre os homens, aos termos gull, guller e gulling.” Lemos também que costumavam matar pequenas aves que pousavam para dormir na praia à noite, acendendo uma fogueira com banha de porco numa frigideira. Os indígenas provavelmente usavam tochas de pinho; as aves se juntavam em torno da luz e eram abatidas com um bastão. Notamos buracos cavados junto à borda do barranco, onde caçadores se escondem para atirar nas grandes gaivotas que costeiam de um lado para outro em busca de peixe, pois estas são consideradas boas para comer.

Encontramos algumas grandes amêijoas da espécie Mactra solidissima, arrancadas do fundo pela tempestade e lançadas à praia. Escolhi uma das maiores, com cerca de seis polegadas de comprimento, e levei-a comigo, pensando em fazer uma experiência. Pouco depois, encontramos um recolhedor de destroços com um arpéu e uma corda, que disse estar procurando tecido de estopa, parte da carga do navio Franklin, naufragado ali na primavera, ocasião em que se perderam nove ou dez vidas. O leitor talvez se lembre desse naufrágio pelo fato de ter sido encontrada, na valise do capitão trazida à praia pelas águas, uma carta que o instruía a naufragar a embarcação antes de chegar à América, e pelo julgamento que se seguiu. O recolhedor de destroços disse que o tecido de estopa ainda aparecia em tempestades como aquela. Disse-nos também que a amêijoa que eu levava era a amêijoa-do-mar, ou galinha-do-mar, e que era boa de comer. Fizemos nossa refeição do meio-dia ao abrigo de uma colina de areia coberta de capim-das-dunas, numa pequena depressão desolada no alto do barranco, enquanto alternadamente chovia e fazia sol. Ali, depois de reduzir a lascas com minha faca um pouco de madeira úmida trazida pelo mar, que eu recolhera na praia, acendi uma fogueira com um fósforo e um pouco de papel e cozinhei minha amêijoa nas brasas para o almoço; pois, nessa excursão, o desjejum era em geral a única refeição que eu fazia dentro de uma casa. Quando a amêijoa ficou pronta, uma valva continha a carne, e a outra, o caldo. Embora fosse muito rija, achei-a doce e saborosa, e comi tudo com gosto. De fato, com o acréscimo de uma ou duas bolachas, teria sido um almoço farto. Notei que as conchas eram iguais às que eu vira no açucareiro de madeira em casa. Amarradas a uma vara, antigamente serviam de enxada aos indígenas da região.

Por fim, em meados da tarde, depois de termos visto dois ou três arco-íris sobre o mar, as pancadas de chuva cessaram e o céu foi aos poucos se abrindo, embora o vento ainda soprasse com a mesma força e as ondas quebrando corressem tão altas quanto antes. Prosseguindo, logo chegamos a uma Casa de Caridade, na qual espiamos para ver como seria acolhido o marinheiro naufragado. Longe, numa depressão desolada junto ao mar, logo aquém do barranco, ergue-se uma construção solitária sobre estacas fincadas na areia, com um prego fino atravessado no grampo, que um homem enregelado pode entortar, e talvez um pouco de palha no chão, para que ele se deite, ou queime na lareira para se manter vivo. Talvez essa cabana jamais tenha sido necessária para abrigar um náufrago, e a pessoa benevolente que prometeu inspecioná-la anualmente, para verificar se a palha e os fósforos estão ali e se as tábuas barram o vento, tenha se tornado negligente e pense que as tempestades e os naufrágios acabaram; e esta mesma noite uma tripulação agonizante poderá forçar a porta com os dedos entorpecidos e deixar metade de seus homens mortos ali pela manhã. Quando pensei em qual devia ser a condição das famílias que um dia ocupariam ou haviam ocupado essas casas, e em qual devia ter sido a tragédia das noites de inverno passadas por seres humanos em torno de suas lareiras, essas construções, embora destinadas a moradias humanas, não me pareceram alegres. Pareciam apenas um estágio rumo ao túmulo. As gaivotas voavam em torno delas e gritavam por cima; o rugido do oceano nas tempestades e o deslizar de suas ondas nas calmarias eram os únicos sons que ressoavam ali, tudo escuro e vazio por dentro, ano após ano, exceto, talvez, numa noite memorável. Hospedarias para náufragos! Que espécie de lares de marinheiros eram aqueles?

“Cada cabana”, diz o autor da “Descrição da Costa Oriental do Condado de Barnstable”, “ergue-se sobre estacas, tem oito pés de comprimento, oito de largura e sete de altura; há uma porta corrediça ao sul, uma veneziana corrediça a oeste e, a leste, uma vara que se eleva quinze pés acima do topo da construção. Por dentro, é provida de palha ou feno e, além disso, equipada com um banco.” Hoje elas pouco diferem desse modelo. Há cabanas semelhantes na ilha de Sable e em Anticosti, ao norte, e não sei até onde se estendem para o sul ao longo da costa. É comovente ler as instruções minuciosas e fiéis que ele dá aos marinheiros que possam naufragar nessa costa, para guiá-los à Casa de Caridade ou ao abrigo mais próximo, pois, como se diz de Eastham, embora haja algumas casas a menos de uma milha da praia, ainda assim “numa tempestade de neve, que aqui se enfurece com excessiva violência, seria quase impossível descobri-las, seja de noite, seja de dia”. Ouvimos seu guia imaginário assim ordenar, animar e conduzir a tropa encharcada, trêmula e enregelada: “na entrada deste vale, a areia se acumulou, de modo que atualmente é necessário subir um pouco. Depois de passar por várias cercas e tomar cuidado para não entrar no bosque à direita, encontra-se uma casa à distância de três quartos de milha. Essa casa fica ao sul da estrada e, não muito longe dela, ao sul, está o rio Pamet, que corre de leste a oeste através de uma extensão de marisma.” Àquele que fosse lançado à costa em Eastham, ele diz: “A casa de reuniões não tem torre, mas pode ser distinguida das casas de moradia próximas por sua posição, entre dois pequenos bosques de acácias, um ao sul e outro ao norte, sendo o do sul três vezes mais comprido que o outro. Cerca de uma milha e um quarto a oeste-noroeste da cabana, aparecem o topo e as pás de um moinho de vento.” E assim prossegue por muitas páginas.

Não soubemos se essas casas haviam servido para salvar alguma vida, embora esse autor diga, a respeito de uma erguida na cabeceira de Stout’s Creek, em Truro, que “foi construída de maneira imprópria, pois tinha uma chaminé; e foi colocada num ponto onde não crescia capim-das-dunas. Os ventos fortes removeram a areia de suas fundações e o peso da chaminé a fez cair; de modo que, em janeiro do presente ano [1802], ela foi inteiramente demolida. Esse fato ocorreu cerca de seis semanas antes de o Brutus naufragar. Se tivesse permanecido de pé, é provável que toda a desafortunada tripulação daquele navio tivesse sido salva, pois chegaram à praia a apenas alguns rods do local onde a cabana estivera.”

Essa “Casa de Caridade”, como a chamava o recolhedor de destroços, essa “Casa Humanitária”, como alguns a chamam, isto é, a primeira à qual chegamos, não tinha janela nem veneziana corrediça, nem tábuas de revestimento, nem pintura. Como dissemos, havia um prego enferrujado atravessado no grampo. Contudo, como desejávamos formar uma ideia de uma Casa Humanitária e esperávamos nunca ter oportunidade melhor, pusemos alternadamente os olhos num buraco de nó da porta e, depois de olhar longamente, sem enxergar, para dentro da escuridão, sem saber quantos ossos de náufragos poderíamos por fim avistar, olhando com os olhos da fé, sabendo que, embora nem sempre se abra para aquele que bate, para aquele que olha tempo bastante através de um buraco de nó o interior se tornará visível, pois já tínhamos alguma prática em olhar para dentro, e mantendo, enquanto isso, o outro globo ocular protegido da luz, deixando o mundo exterior às nossas costas, oceano, terra e praia, até que a pupila se dilatasse e recolhesse os raios de luz errantes naquela escuridão (pois a pupila se dilatará pelo olhar; nunca houve noite tão escura que um olho fiel e paciente, por menor que fosse, não pudesse enfim vencê-la), depois de tudo isso, digo, as coisas começaram a tomar forma diante de nossa visão, se é que podemos usar essa expressão onde nada havia senão vazio, e obtivemos a tão desejada visão interior. Embora a princípio julgássemos o caso sem esperança, depois de vários minutos de exercício constante da faculdade divina, nossas perspectivas começaram decididamente a clarear, e estávamos prontos a exclamar com o bardo cego de “Paraíso Perdido e Paraíso Reconquistado”:

> “Salve, Luz sagrada! primogênita do Céu,

> Ou raio coeterno do Eterno.

> Poderei exprimir-te sem culpa?”

Mais um pouco, e uma chaminé irrompeu vermelha diante de nossos olhos. Em suma, quando nossa visão se familiarizou com a escuridão, descobrimos que havia algumas pedras e alguns tufos soltos de lã no chão, além de uma lareira vazia na extremidade oposta; mas ela não estava provida de fósforos, palha ou feno, pelo que pudemos ver, nem “equipada com um banco”. De fato, era o naufrágio de toda beleza cósmica lá dentro.

Dando as costas ao mundo exterior, olhamos assim pelo buraco de nó para dentro da Casa Humanitária, para as próprias entranhas da misericórdia; e, em vez de pão, encontramos uma pedra. Era literalmente muito grito (das gaivotas lá fora) e pouca lã. Ainda assim, ficamos contentes de nos sentar do lado de fora, a sotavento da Casa Humanitária, para escapar ao vento cortante; e ali pensamos em como é fria a caridade! como é desumana a humanidade! É isto, então, o que a caridade esconde! Virtudes antigas e remotas, sempre com um prego enferrujado sobre o trinco; e, além disso, muito difíceis de conservar em bom estado, tão incerto é que alguém algum dia alcance a praia perto de você. Assim, tremíamos ao redor, sem conseguir entrar, espiando de tempos em tempos pelo buraco de nó para aquela noite sem estrela, até concluirmos que não era de modo algum uma casa humanitária, mas uma caixa à beira-mar, agora fechada, pertencente a alguém da família da Noite ou do Caos, onde passavam os verões junto ao mar por causa da brisa marinha, e que não era apropriado nos intrometermos em seus assuntos.

Meu companheiro já havia declarado, em termos bastante absolutos e para meu espanto, que eu não tinha uma partícula de sentimento; mas suspeito que quisesse dizer que minhas pernas não doíam naquele momento, embora eu não seja inteiramente alheio a esse sentimento. Mas eu não pretendia fazer desta uma viagem sentimental.

[1] Não temos em inglês palavra alguma que exprima o som de muitas ondas

quebrando ao mesmo tempo, suave ou violentamente, πολυφλοίσβοιος ao

ouvido e, nos estados brandos do oceano, um ἀνάριθμον γέλασμα aos

olhos.

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