Provincetown Cape Cod · Capítulo 10 de 10
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Provincetown

Na manhã seguinte, bem cedo, entrei numa casa de beneficiamento de peixe perto de nosso hotel, onde três ou quatro homens se ocupavam em levar para fora, em carrinhos de mão, o peixe conservado em salmoura e estendê-lo para secar. Disseram-me que uma embarcação chegara havia pouco dos Bancos com quarenta e quatro mil bacalhaus. Timothy Dwight diz que, pouco antes de ele chegar a Provincetown, “uma escuna entrou vinda do Grande Banco com cinquenta e seis mil peixes, quase mil e quinhentos quintais, capturados numa única viagem; o convés principal, ao regressar, ficando oito polegadas debaixo d’água em tempo calmo”. Os bacalhaus nessa casa, recém-tirados da salmoura, jaziam empilhados a vários pés de profundidade, e três ou quatro homens permaneciam em pé sobre eles, calçando botas de couro cru, e os lançavam nos carrinhos com um instrumento de uma única ponta de ferro. Um rapaz, que mascava tabaco, cuspia repetidamente sobre os peixes. Ora, senhor, pensei eu, quando aquele homem mais velho o vir, há de lhe dizer alguma coisa. Mas logo vi o homem mais velho fazer o mesmo. Isso me fez lembrar dos figos de Esmirna. “Quanto tempo leva para curar esses peixes?”, perguntei.

“Dois bons dias de secagem, senhor”, foi a resposta.

Atravessei de novo a rua e entrei no hotel para tomar o café da manhã, e o estalajadeiro perguntou se eu queria “picadinho de peixe ou feijão”. Escolhi feijão, embora nunca tivesse sido um de meus pratos prediletos. No verão seguinte descobri que essa continuava sendo a única alternativa oferecida ali, e o estalajadeiro ainda repicava as variações dessas duas palavras. No primeiro prato havia uma proporção notável de peixe. À medida que se viaja para o interior, a batata passa a predominar. Por acaso, não provei peixe fresco de espécie alguma no Cabo, e garantiram-me que ali ele não era tão consumido quanto no interior. É ali que os peixes são curados e onde, às vezes, os viajantes ficam curados de comê-los. Nenhuma carne fresca era abatida em Provincetown, mas a pouca que se usava nas hospedarias vinha de Boston no vapor.

Muitas das casas dali eram cercadas por armações de secagem de peixe, encostadas às soleiras por todos os lados, restando apenas uma passagem estreita, de dois ou três pés de largura, até a porta da frente; de modo que, em vez de olhar para um canteiro de flores ou relva, via-se uma porção de rods quadrados de bacalhaus virados do avesso. Dizia-se que esses parterres se pareciam menos ainda com um jardim de flores num bom dia de secagem em pleno verão. Havia armações de todas as idades e feitios, algumas tão enferrujadas e cobertas de líquens que pareciam ter servido aos fundadores da pesca dali. Algumas haviam desabado sob o peso de colheitas sucessivas. A principal ocupação dos habitantes naquela época parecia ser levar os peixes para fora e estendê-los pela manhã, e recolhê-los à noite. Vi quanto vadio que por acaso estivesse fora cedo o bastante conseguia trabalho empurrando os peixes do vizinho, ansioso por aproveitar por inteiro um dia de bom tempo. Agora, enfim, eu sabia onde se pescava peixe salgado. Estavam por toda parte, deitados de costas, com as clavículas salientes como as lapelas da jaqueta de um marinheiro de navio de guerra, convidando todas as coisas a vir repousar em seus peitos; e todas as coisas, com poucas exceções, aceitavam o convite. Penso, aliás, que, se alguém enrolasse um grande peixe salgado em torno de um menino pequeno, ele teria um casaco de um feitio como já vi muitos usarem em revista militar. Peixes salgados estavam empilhados nos cais, parecendo lenha cordada, bordo e bétula-amarela ainda com a casca. A princípio, tomei-os por isso, e num certo sentido era o que eram, combustível para manter acesos nossos fogos vitais, uma madeira oriental que crescia nos Grandes Bancos. Alguns eram empilhados na forma de enormes vasos de flores, dispostos em pequenos círculos com as caudas voltadas para fora, cada círculo sucessivo maior que o anterior até a pilha alcançar três ou quatro pés de altura, quando os círculos diminuíam rapidamente, formando um teto cônico. Nas costas de New Brunswick, isso é coberto com casca de bétula, põem-se pedras por cima e, assim tornado impermeável à chuva, deixa-se curtir antes de ser embalado para exportação.

Corre o rumor de que, no outono, as vacas dali às vezes são alimentadas com cabeças de bacalhau! A parte divina do bacalhau, que, como a cabeça humana, é feita de modo curioso e admirável, e que, com efeito, contém pouco menos cérebro, acabar assim, triturada pelos dentes das vacas! Senti meu próprio crânio rachar por simpatia. E se as cabeças dos homens fossem cortadas para alimentar as vacas de uma ordem superior de seres que habitam as ilhas do éter? Lá se vai seu belo cérebro, a morada do pensamento e do instinto, engrossar o bolo ruminado de um animal! Contudo, um morador garantiu-me que não tinham o hábito de alimentar vacas com cabeças de bacalhau; as vacas apenas as comiam às vezes; mas eu poderia viver ali todos os meus dias e nunca ver isso acontecer. Uma vaca com falta de sal também lambia por vezes toda a parte mole de um bacalhau nas armações. Ele queria que eu acreditasse ser esse o fundamento dessa história de peixe.

Há milhares de anos tem sido uma história constante de viajantes, e talvez uma calúnia, repetida por latinos e gregos, que esta ou aquela nação alimenta seu gado, ou seus cavalos, ou suas ovelhas com peixe, como se pode ver em Eliano e Plínio; mas no Diário de Nearco, que foi almirante de Alexandre e fez uma viagem do Indo ao Eufrates trezentos e vinte e seis anos antes de Cristo, diz-se que os habitantes de uma parte da costa intermediária, a quem ele chamou de Ictiófagos ou Comedores de Peixe, não apenas comiam peixes crus e também secos, socados numa vértebra de baleia usada como almofariz e transformados em pasta, como ainda os davam ao gado, pois não havia capim na costa; e vários viajantes modernos, Braybosa, Niebuhr e outros, fazem o mesmo relato. Portanto, ao pesar as provas, continuo em dúvida quanto às vacas de Provincetown. Quanto a outros animais domésticos, o capitão King, em sua continuação do Diário do capitão Cook, em 1779, diz dos cães de Kamtschatka: “No inverno, sua alimentação consiste inteiramente em cabeças, vísceras e espinhas de salmão, que são separadas e secas para esse fim; e mesmo com essa dieta eles são alimentados com parcimônia”. (Diário de Cook, vol. VII, p. 315.)

Já que estamos tratando de assuntos piscosos, permitam-me inserir o que diz Plínio: “os comandantes das frotas de Alexandre, o Grande, relataram que os gedrósios, habitantes das margens do rio Arabis, costumavam fazer as portas de suas casas com maxilares de peixes e construir as vigas dos telhados com seus ossos”. Estrabão conta o mesmo sobre os Ictiófagos. “Hardouin observa que os bascos de seu tempo tinham o costume de cercar seus jardins com costelas de baleia, que por vezes excediam vinte pés de comprimento; e Cuvier diz que, ainda hoje, o maxilar da baleia é usado na Noruega para fazer vigas ou postes de construções.” (Ed. Bohn, trad. de Plínio, vol. II, p. 361.) Heródoto diz que os habitantes do lago Prasias, na Trácia, que viviam sobre estacas, “dão peixe como forragem a seus cavalos e animais de carga”.

Provincetown era, ao que parecia, o que se chama uma cidade próspera. Alguns habitantes me perguntaram se eu não achava que, em geral, pareciam estar em boa situação. Respondi que sim e perguntei quantas pessoas havia no asilo de pobres. “Oh, apenas uma ou duas, enfermas ou idiotas”, responderam. O aspecto exterior das casas e lojas sugeria com frequência uma pobreza desmentida pelo conforto e até pela riqueza de seu interior. Podia-se encontrar uma senhora finamente vestida numa manhã de domingo, avançando pelas colinas de areia ao sair da igreja, onde não se via casa alguma digna de recebê-la; no entanto, sem dúvida o interior da casa correspondia ao exterior da senhora. Quanto ao interior dos habitantes, continuo sem saber nada. Tive algum contato com certos indivíduos que encontrei na rua, e muitas vezes fui agradavelmente surpreendido ao descobrir inteligência em exemplares rudes e que seriam considerados pouco promissores. Mais que isso, no verão seguinte aventurei-me a visitar um cidadão, a convite especial. Encontrei-o sentado à porta da frente, naquela noite de domingo, pronto para que eu entrasse e me chegasse a ele; mas, infelizmente para sua reputação de manter a casa aberta, estendia-se através do portão uma teia de aranha circular, das maiores, e inteiramente intacta. Aquilo pareceu tão agourento que de fato me desviei e entrei pelos fundos.

Aquela manhã de segunda-feira estava lindamente amena e calma, tanto em terra quanto na água, prometendo-nos uma travessia tranquila da baía, e os pescadores receavam que não fosse um dia de secagem tão bom quanto o frio e ventoso que o precedera. Dificilmente poderia haver contraste maior. Era o primeiro dos dias do verão indígena, embora, já tarde na manhã, encontrássemos ainda cobertos de gelo, formado durante a noite, os poços na areia atrás da cidade. Entre o vento e o sol, minha feição mais proeminente chegou a trocar de pele. Mas asseguro-lhes que serão necessários mais de dois bons dias de secagem para me curar da mania de andar a esmo. Depois de fazermos uma excursão pelas colinas nas proximidades do Shank-Painter Swamp e conseguirmos realizar ali um pouco do trabalho que lhe competia, sentamo-nos na mais alta colina de areia com vista para a cidade, suspensos no ar sobre uma longa prancha estendida entre dois montículos de areia, onde alguns meninos tentavam em vão empinar uma pipa; e ali permanecemos pelo resto daquela manhã, olhando o porto plácido e aguardando a primeira aparição do vapor vindo de Wellfleet, para estarmos prontos a embarcar quando ouvíssemos o apito ao largo de Long Point.

Enquanto isso, extraímos dos meninos tudo quanto pudemos. Os meninos de Provincetown são, naturalmente, todos marinheiros e têm olhos de marinheiro. Quando estivemos no Farol de Highland no verão anterior, a sete ou oito milhas do porto de Provincetown, e quisemos saber, numa manhã de domingo, se o Olata, um iate bem conhecido, havia chegado de Boston, para que pudéssemos regressar nele, um menino de Provincetown, de cerca de dez anos, que por acaso estava à mesa, comentou que sim. Perguntei como sabia. “Acabei de vê-lo entrar”, disse ele. Quando manifestei surpresa por ele conseguir distingui-lo de outras embarcações a tamanha distância, respondeu que não havia tantas escunas de dois mastaréus desse tipo a ponto de não poder reconhecê-lo. Palfrey disse, em seu discurso em Barnstable, que o pato não se lança à água com instinto mais seguro do que o menino de Barnstable. [Ele poderia igualmente ter dito o menino de Cape Cod.] Ele salta das faixas infantis para os ovéns; da mãe ao topo do mastro há apenas um pulo. Recita os rumos da rosa dos ventos em seus solilóquios de criança. Sabe ferrar, rizar e governar quando chega à idade de empinar uma pipa.

Aquele era exatamente o dia que alguém teria escolhido para se sentar numa colina com vista para o mar e a terra e ali meditar. A frota da cavala partia rapidamente, uma escuna após outra, e contornava o Cabo, como aves deixando seus poleiros pela manhã para se dispersarem por campos distantes. Os galpões semelhantes a tartarugas das salinas comprimiam-se em cada reentrância das colinas, imediatamente atrás da cidade, e seus moinhos de vento, agora ociosos, alinhavam-se pela costa. Valia a pena ver por meio de que química grosseira e simples se obtém esse elemento quase indispensável à vida, tendo o sol como oficial e um único aprendiz para executar os pequenos serviços de um grande estabelecimento. É uma espécie de trabalho tropical, realizado ainda por cima na estação mais ensolarada; mais interessante que a lavagem do ouro ou dos diamantes, à qual imagino que, à distância, se assemelhe um pouco. Na produção das coisas necessárias à vida, a Natureza está sempre bastante pronta a auxiliar o homem. Assim também nas fábricas de potassa que vi em Hull, onde queimam os talos das algas e fervem as cinzas. Em verdade, química não é coisa de partir cabelos ao meio quando se têm meia dúzia de irlandeses rústicos no laboratório. Diz-se que, devido ao reflexo do sol nas colinas de areia e ao fato de não desaguar absolutamente nenhuma água doce no porto, o mesmo número de pés quadrados produz mais sal ali do que em qualquer outra parte do condado. Uma pequena quantidade de chuva é considerada necessária para limpar o ar e fazer sal depressa e de boa qualidade, pois, assim como a tinta não seca, a água não evapora no tempo abafado dos dias caniculares. Mas agora, como em outros lugares do Cabo, estavam desmantelando as salinas e vendendo-as como madeira.

Daquela elevação, podíamos observar as atividades dos habitantes quase tão completamente como se os telhados tivessem sido retirados. Estavam atarefados cobrindo de peixe salgado as armações de vime para secagem dispostas em torno das casas, e vimos então que os quintais dos fundos eram aproveitados para esse fim tanto quanto os da frente; onde terminava o peixe de um homem, começava o de outro. Em quase todos os quintais, distinguíamos alguma pequena construção de onde esses tesouros eram trazidos em carrinhos e espalhados metodicamente, e vimos que havia arte, além de jeito, até mesmo em espalhar peixe, e que se praticava com proveito uma divisão do trabalho. Um homem afastava seus peixes alguns centímetros além do focinho da vaca do vizinho, que esticara o pescoço por cima de uma paliçada para alcançá-los. Parecia uma ocupação inteiramente doméstica, como secar roupas, e de fato, em algumas partes do condado, as mulheres participam dela.

Notei em vários lugares do Cabo uma espécie de armação de secagem para roupas. Espalham galhos no chão, cercam-nos e então dispõem as roupas por cima, para preservá-las da areia. Esse é o varal de Cape Cod.

A areia é aqui a grande inimiga. O topo de algumas colinas fora cercado e se colocara uma placa proibindo a entrada de qualquer pessoa, para que seus pés não perturbassem a areia e a pusessem a voar ou a deslizar. Os habitantes são obrigados a obter licença das autoridades para cortar madeira atrás da cidade destinada às armações de secagem de peixe, às estacas de feijão, aos ramos para ervilhas e coisas semelhantes, embora, segundo nos disseram, possam transplantar árvores de uma parte do município para outra sem licença. A areia forma montes como a neve, e às vezes o andar térreo de uma casa fica encoberto por ela, embora seja contida por um muro. Antigamente, as casas eram construídas sobre estacas, para que a areia levada pelo vento pudesse passar por baixo delas. Vimos ali algumas velhas casas ainda erguidas sobre suas estacas, mas agora tinham o vão fechado com tábuas, por estarem protegidas pelas vizinhas mais jovens. Havia uma escola, logo abaixo da colina em que estávamos sentados, cheia de areia até o alto das carteiras, e naturalmente o mestre e os alunos haviam fugido. Talvez tivessem imprudentemente deixado as janelas abertas certo dia, ou negligenciado o conserto de uma vidraça quebrada. Contudo, em um lugar anunciava-se: “Areia fina à venda aqui”; mal pude acreditar no que via. Provavelmente um pouco da areia da rua, peneirada. Um bom exemplo do fato de que um homem confere valor à coisa mais inútil ao misturar-se com ela, regra segundo a qual devemos ter conferido valor a toda a parte posterior de Cape Cod. Mas pensei que, se pudessem anunciar “Terra fértil”, ou talvez “Livramo-nos de areia fina”, ou ainda “Sapatos esvaziados aqui”, seria mais atraente. Ao olharmos para a cidade, julguei ver um homem, que provavelmente morava além da extremidade do calçamento de tábuas, governando e bordeando em direção a ele com uma espécie de raquetes de neve, mas posso ter me enganado. Em algumas imagens de Provincetown, os habitantes não são desenhados abaixo dos tornozelos, pois se supõe que essa parte esteja enterrada na areia. Entretanto, naturais de Provincetown garantiram-me que podiam andar no meio da rua sem dificuldade, até de chinelos, pois haviam aprendido a baixar e levantar os pés sem deixar entrar areia alguma. Um homem disse que se surpreenderia se encontrasse meia dúzia de grãos de areia em seus sapatos ao anoitecer, e acrescentou que as moças tinham um modo hábil de esvaziar os sapatos a cada passo, o qual um forasteiro levaria muito tempo para aprender. Os aros das rodas da diligência tinham cerca de cinco polegadas de largura; e, em geral, os aros das carroças no Cabo são uma ou duas polegadas mais largos, já que a areia é uma ou duas polegadas mais funda do que em outros lugares. Vi um carrinho de bebê com aros de seis polegadas de largura para mantê-lo próximo da superfície. Quanto mais calçadas de aros as rodas, menos cansados os cavalos. Ainda assim, durante todo o tempo que passamos em Provincetown, dois dias e duas noites, vimos apenas um cavalo e uma carroça, e transportavam um caixão. Ali não faziam tais experiências em ocasiões comuns. No verão seguinte, vi apenas a carroça de duas rodas que me levou trinta rods para dentro do porto, a caminho do vapor. Contudo, lemos que havia ali dois cavalos e duas juntas de bois em 1791, e nos disseram que havia vários outros quando estivemos lá, além da parelha da diligência. Nas Historical Collections, de Barber, afirma-se: “Tão raramente se veem veículos de rodas no lugar que eles constituem objeto de alguma curiosidade para a parcela mais jovem da comunidade. Um rapaz que entendia muito melhor de navegação oceânica do que de viagens por terra, ao ver um homem conduzindo uma carroça pela rua, manifestou surpresa por ele conseguir guiá-la tão em linha reta sem o auxílio de um leme.” Não havia o chocalhar de carroças, e não haveria chocalhar mesmo que houvesse carroças. Alguns cavalos de sela que passaram diante do hotel à noite apenas fizeram a areia voar, com um som farfalhante semelhante ao de um escritor polvilhando abundantemente areia sobre o papel, mas não se ouvia o ruído de seus passos. Sem dúvida, hoje há mais cavalos e carroças por lá. Nunca se vê um trenó, ou pelo menos ele é uma grande novidade no Cabo, pois a neve ou é absorvida pela areia ou soprada para formar montes.

Apesar disso, os habitantes do Cabo em geral não se queixam de seu “solo”, mas dirão que ele é bastante bom para secarem nele o peixe.

Apesar de toda essa areia, contamos nessa rua três casas de reunião e quatro escolas quase tão grandes quanto elas, embora algumas tivessem em torno uma cerca compacta de tábuas para conservar plano e firme o terreno interno. Cercas semelhantes, situadas até a menos de um pé de muitas casas, davam à cidade uma aparência menos alegre e hospitaleira do que teria de outro modo. Disseram-nos que, de modo geral, a areia não avançara nos últimos dez anos, pois já não se permitia que as vacas andassem soltas e empregavam-se todos os meios para deter a maré arenosa.

Em 1727, Provincetown foi “investida de privilégios peculiares”, para seu estímulo. Uma ou duas vezes esteve quase abandonada; mas agora os lotes da rua alcançam preço elevado, embora os títulos sobre eles tenham sido obtidos inicialmente pela posse e pela melhoria, e ainda sejam transferidos apenas por escrituras de renúncia de direitos, pois o município é propriedade do Estado. Mas, embora os lotes fossem tão valiosos na rua, em muitos lugares se podia atirar uma pedra por cima deles até um ponto onde um homem ainda poderia obter terra, ou areia, ocupando-a ou melhorando-a.

Pedras são muito raras no Cabo. Vi pouquíssimas pedras pequenas usadas em pavimentos e muros de contenção, em um ou dois lugares durante minha caminhada, mas são tão escassas que, conforme me informaram, proibiu-se que embarcações as retirassem da praia para servir de lastro, e por isso suas tripulações costumavam desembarcar à noite para roubá-las. Não ouvi falar de um único rod de muro regular de pedra ao sul de Orleans. Contudo, vi um homem escorando os alicerces de uma casa nova em Eastham com algumas “rochas”, como ele as chamava, que, segundo disse, um vizinho reunira com grande esforço ao longo dos anos e por fim lhe cedera. Achei que era um presente digno de registro, quase equivalente a uma transferência de “rochas” da Califórnia. Outro homem que o ajudava, e que parecia observador atento da natureza, confidenciou-me a localização de uma rocha naquela vizinhança que tinha “quarenta e dois passos de circunferência e quinze pés de altura”, pois percebeu que eu era forasteiro e provavelmente não a levaria embora. Suspeito, porém, que a localização das poucas rochas grandes no antebraço do Cabo seja bem conhecida dos habitantes em geral. Encontrei até um homem que adquirira umas noções de mineralogia, mas não pude imaginar onde as recolhera. Pensei que ele encontraria algumas interessantes nozes geológicas para quebrar caso algum dia visitasse o continente, Cohasset ou Marblehead, por exemplo.

As pedras do poço do Farol de Highland vieram de Hingham, mas os poços e porões do Cabo são geralmente construídos de tijolos, também importados. Os porões, assim como os poços, são feitos em formato circular, para impedir que a areia pressione a parede para dentro. Os primeiros têm apenas de nove a doze pés de diâmetro, e dizem que são muito baratos, pois uma única fiada de tijolos basta para um porão de dimensões ainda maiores. Naturalmente, quando se vive na areia, não é preciso um grande porão para guardar raízes e tubérculos. Em Provincetown, quando antigamente deixavam a areia passar sob as casas, apagando todo vestígio rudimentar de porão, não cultivavam um legume sequer para nele guardar. Um agricultor de Wellfleet, que colhia cinquenta bushels de batatas, mostrou-me seu porão sob um canto da casa, com não mais de nove pés de diâmetro, parecido com uma cisterna; mas tinha outro do mesmo tamanho sob o celeiro.

Basta cavar alguns pés em quase qualquer ponto próximo à costa do Cabo para encontrar água doce. Mas a que provamos era invariavelmente ruim, embora os habitantes a chamassem de boa, como se a comparassem com água salgada. Na descrição de Truro, afirma-se: “Os poços cavados perto da costa ficam secos na baixa-mar, ou melhor, no que se chama começo da maré enchente, mas se reabastecem com a subida da maré”; a água salgada, que aparentemente fica mais abaixo na areia, força a água doce para cima. Quando você manifesta surpresa diante do verdor de um jardim de Provincetown à beira da praia, em uma estação seca, às vezes lhe dizem que a maré impele a umidade até ele. É fato interessante que bancos de areia baixos no meio do oceano, talvez até aqueles que ficam expostos apenas na baixa-mar, sejam reservatórios de água doce nos quais o marinheiro sedento pode se abastecer. Parecem, como enormes esponjas, reter a chuva e o orvalho que caem sobre eles e que, por atração capilar, são impedidos de se misturar à salmoura circundante.

O Porto de Provincetown, que, assim como a maior parte da baía e uma vasta extensão do oceano, contemplávamos de nosso poleiro, é merecidamente famoso. Abre-se para o sul, é livre de rochas e nunca congela. Diz-se que o único gelo visto nele às vezes vem à deriva de Barnstable ou Plymouth. Dwight observa que “As tempestades que predominam na costa americana geralmente vêm do leste; e não há outro porto numa costa de barlavento num raio de duzentas milhas.” J. D. Graham, que realizou um levantamento muito minucioso e completo desse porto e das águas adjacentes, afirma que “sua capacidade, a profundidade das águas, o excelente ancoradouro e a proteção completa que oferece contra todos os ventos combinam-se para torná-lo um dos portos de navios mais valiosos de nossa costa.” Ele é o porto do Cabo e dos pescadores de Massachusetts em geral. Era conhecido dos navegadores pelo menos vários anos antes da fundação de Plymouth. No mapa da Nova Inglaterra do capitão John Smith, datado de 1614, ele traz o nome Milford Haven, e a Baía de Massachusetts, o de Stuard’s Bay. Sua Alteza, o príncipe Charles, mudou o nome de Cape Cod para Cape James; mas nem mesmo os príncipes têm sempre o poder de mudar um nome para pior, e, como disse Cotton Mather, Cape Cod é “um nome que suponho jamais perderá, até que cardumes de bacalhaus sejam vistos nadando sobre suas colinas mais altas”.

Mais de um dos primeiros navegadores foi inesperadamente apanhado por esse gancho e viu-se encerrado na baía. Em mapas sucessivos, Cape Cod aparece salpicado de nomes franceses, holandeses e ingleses, pois fez parte da Nova França, da Nova Holanda e da Nova Inglaterra. Em um mapa, o Porto de Provincetown é chamado “Baía de Fuic (bownet?)”, a Baía de Barnstable, “Baía de Staten”, e o mar ao norte dela, “Mare del Noort”, ou Mar do Norte. Em outro, a extremidade do Cabo é chamada “Staten Hoeck”, ou Gancho dos Estados. Em outro, de Young, figuram Noord Zee, Staten hoeck ou Hit hoeck, mas a cópia de Cambridge não tem data; todo o Cabo é chamado “Niew Hollant” (em homenagem a Hudson); e, em outro ainda, a costa entre Race Point e Wood End parece chamar-se “Bevechier”. No admirável Mapa da Nova França de Champlain, que inclui o mais antigo mapa reconhecível do que hoje é a costa da Nova Inglaterra que conheço, Cape Cod é chamado C. Blan (isto é, Cabo Branco), por causa da cor de suas areias, e a Baía de Massachusetts é Baye Blanche. Foi visitado por De Monts e Champlain em 1605 e, no ano seguinte, mais explorado por Poitrincourt e Champlain. Este último forneceu um relato particular dessas explorações em suas “Voyages”, acompanhado de cartas separadas e sondagens de dois de seus portos: Malle Barre, o Banco Ruim (Porto de Nauset?), nome hoje aplicado ao que os franceses chamavam Cap Baturier; e Port Fortune, aparentemente o Porto de Chatham. Ambos os nomes são copiados no mapa de “Novi Belgii”, na America de Ogilvy. Ele também descreve minuciosamente os costumes e hábitos dos selvagens e representa, numa gravura, os selvagens surpreendendo os franceses e matando cinco ou seis deles. Depois, os franceses mataram alguns dos nativos e quiseram, como vingança, levar outros consigo e fazê-los moer em seu moinho manual em Port Royal.

É notável que não exista em inglês nenhum relato adequado ou correto da exploração francesa do que hoje é a costa da Nova Inglaterra, entre 1604 e 1608, embora se admita que eles então fundaram o primeiro assentamento europeu permanente no continente da América do Norte ao norte de St. Augustine. Se os leões fossem os pintores, teria sido diferente. Essa omissão provavelmente se explica, em parte, pelo fato de a edição primitiva das “Voyages” de Champlain não ter sido consultada para esse fim. Ela contém, de longe, o capítulo mais minucioso e, a meu ver, o mais interessante daquilo que podemos chamar a história pré-Peregrinos da Nova Inglaterra, estendendo-se por cento e sessenta páginas in-quarto; mas parece ser igualmente desconhecido do historiador e do orador de Plymouth Rock. Bancroft não menciona Champlain em absoluto entre as autoridades para a expedição de De Monts, nem diz que ele alguma vez visitou a costa da Nova Inglaterra. Embora ostentasse o título de piloto de De Monts, ele era, em outro sentido, o espírito condutor, bem como o historiador da expedição. Holmes, Hildreth e Barry, e aparentemente todos os nossos historiadores que mencionam Champlain, remetem à edição de 1632, na qual foram omitidas todas as cartas separadas de nossos portos etc. e cerca de metade da narrativa; pois o autor explorou depois tantas terras que podia dar-se ao luxo de esquecer parte do que havia feito. Hildreth, ao falar da expedição de De Monts, diz que “ele examinou o Penobscot [em 1605], que Pring havia descoberto dois anos antes”, sem dizer nada sobre a extensa exploração que Champlain fez dele para De Monts em 1604 (Holmes diz 1608 e remete a Purchas); diz também que ele seguiu os rastros de Pring ao longo da costa “até Cape Cod, a que chamou Malabarre”. (Haliburton já fizera a mesma afirmação antes dele, em 1829. Champlain chamou-o Cap Blanc, e Malle Barre, o Banco Ruim, era o nome dado a um porto no lado leste do Cabo.) Pring nada diz sobre um rio ali. Belknap afirma que Weymouth o descobriu em 1605. Sir F. Gorges diz, em sua narrativa (Maine Hist. Coll., vol. II, p. 19), de 1658, que Pring, em 1606, “fez um descobrimento perfeito de todos os rios e portos”. Isso é o máximo que consigo encontrar. Bancroft atribui a Champlain a descoberta de rios mais ocidentais no Maine, sem mencionar o Penobscot; ele, contudo, deve ter sido o descobridor das distâncias nesse rio (ver Belknap, p. 147). Pring esteve ausente da Inglaterra por apenas cerca de seis meses e passou ao largo desta parte de Cape Cod (Malabarre) porque ela não produzia sassafrás, enquanto os franceses, que provavelmente não tinham ouvido falar de Pring, exploravam pacientemente a costa durante anos, em busca de um lugar para se estabelecer, sondando e levantando seus portos.

O mapa de John Smith, publicado em 1616 com base em observações de 1614-15, é considerado por muitos o mapa mais antigo da Nova Inglaterra. É o primeiro feito depois que este país foi chamado Nova Inglaterra, pois foi ele quem assim o denominou; mas nas “Voyages” de Champlain, edição de 1613 (e Lescarbot, em 1612, cita um relato ainda anterior de sua viagem), há um mapa dele feito quando era conhecido pela cristandade como Nova França, intitulado Carte Géographique de la Nouvelle Franse faictte par le Sieur de Champlain Saint Tongois Cappitaine ordinaire pour le roi en la Marine, faict l’en 1612, com base em suas observações entre 1604 e 1607; mapa que se estende do Labrador a Cape Cod e, para oeste, até os Grandes Lagos, e que está apinhado de informações geográficas, etnográficas, zoológicas e botânicas. Ele chega a registrar a variação da bússola observada por ele próprio naquela época em muitas partes da costa. Isso, somado às numerosas cartas separadas de portos e suas sondagens em grande escala que o volume contém, entre elas Qui ni be quy (Kennebec), Chouacoit R. (rio Saco), Le Beau port, Port St. Louis (perto de Cape Ann) e outras de nossa costa, mas que não estão na edição de 1632, faz deste um mapa mais completo da Nova Inglaterra e da costa setentrional adjacente do que qualquer outro produzido durante quase meio século depois; quase, poderíamos dizer, até que outro francês, Des Barres, fizesse outro para nós, que somente nosso recente Levantamento Costeiro veio a superar. A maioria dos mapas desta costa feitos por muito tempo depois denuncia sua dívida para com Champlain. Ele era um navegador habilidoso, homem de ciência e geógrafo do rei da França. Cruzou o Atlântico cerca de vinte vezes e não fez disso caso algum; muitas vezes numa pequena embarcação em que poucos hoje ousariam fazer-se ao mar; e, em uma ocasião, fez a viagem de Tadoussac a St. Malo em dezoito dias. Esteve nesta região, isto é, entre Annapolis, Nova Scotia, e Cape Cod, observando a terra e seus habitantes e traçando um mapa da costa, de maio de 1604 a setembro de 1607, ou cerca de três anos e meio, e descreveu minuciosamente seu método de levantamento dos portos. Segundo seu próprio relato, parte de seu mapa foi gravada em 1604 (?). Quando Pont-Gravé e outros retornaram à França em 1606, ele permaneceu em Port Royal com Poitrincourt, “a fim”, diz ele, “de, com a ajuda de Deus, terminar a carta das costas que eu havia começado”; e novamente, em seu volume, impresso antes de John Smith visitar esta parte da América, afirma: “Parece-me que cumpri meu dever tanto quanto pude, se não me esqueci de inserir em minha dita carta tudo o que vi e de dar ao público um conhecimento particular daquilo que nunca havia sido descrito nem descoberto tão particularmente como o fiz, embora algum outro possa ter escrito sobre isso anteriormente; mas era coisa muito pequena em comparação com o que descobrimos nos últimos dez anos.”

Os descendentes dos Peregrinos em geral não se lembram, se é que sabem, de que, quando seus antepassados passavam seu primeiro inverno memorável no Novo Mundo, tinham por vizinha uma colônia de franceses situada a não mais que trezentas milhas de distância, em Port Royal (Annapolis, Nova Scotia), embora Prince pareça calcular cerca de quinhentas milhas; e ali, apesar de muitas vicissitudes, eles já estavam havia quinze anos. Construíram ali um moinho de grãos já em 1606; também fabricaram tijolos e terebintina junto a um curso d’água, diz Williamson, em 1606. De Monts, que era protestante, trouxe consigo seu ministro, que chegou às vias de fato com o padre católico por causa de religião. Embora esses fundadores da Acadie tenham suportado não menos que os Peregrinos, e aproximadamente a mesma proporção deles, trinta e cinco de setenta e nove (o Maine de Williamson diz trinta e seis de setenta), tenha morrido no primeiro inverno em St. Croix, em 1604-5, dezesseis anos antes, nenhum orador, que eu saiba, jamais celebrou seu empreendimento (a History of Maine de Williamson o faz consideravelmente), ao passo que as provações sofridas por seus sucessores e descendentes às mãos dos ingleses forneceram tema tanto ao historiador quanto ao poeta. (Ver a History de Bancroft e a Evangeline de Longfellow.) Os restos de seu forte em St. Croix foram descobertos no fim do século passado e ajudaram a decidir onde ficava a verdadeira St. Croix, nossa fronteira.

As próprias lápides daqueles franceses são provavelmente mais antigas que o mais antigo monumento inglês da Nova Inglaterra ao norte das Elizabeth Islands, ou talvez de qualquer parte da Nova Inglaterra, pois, se ainda existem vestígios do armazém de Gosnold, suas obras fortificadas desapareceram. Bancroft diz, com cautela, em 1834: “É preciso um olhar crente para discernir as ruínas do forte”; e afirma que em 1837 não havia ruínas de forte algum. O dr. Charles T. Jackson me conta que, durante um levantamento geológico em 1827, descobriu uma lápide, uma placa de rocha trapeana, em Goat Island, diante de Annapolis (Port Royal), em Nova Scotia, com um brasão maçônico e a data de 1606, catorze anos anterior ao desembarque dos Peregrinos. Ela foi deixada em poder do juiz Haliburton, da Nova Scotia.

Havia padres jesuítas no que desde então se chamou Nova Inglaterra, convertendo os selvagens em Mount Desert, então St. Savior, em 1613, depois de terem vindo para Port Royal em 1611, embora tenham sido quase imediatamente interrompidos pelos ingleses, anos antes de os Peregrinos virem para cá desfrutar de sua própria religião. Isso segundo Champlain. Charlevoix diz o mesmo; e, depois de vir da França em 1611, foi para oeste desde Port Royal, ao longo da costa, até o Kennebec, em 1612, e era frequentemente transportado de Port Royal a Mount Desert.

De fato, a história inglesa da Nova Inglaterra só começa quando ela deixa de ser a Nova França. Embora Cabot tenha sido o primeiro a descobrir o continente da América do Norte, Champlain, na edição de suas “Voyages” impressa em 1632, depois que os ingleses se haviam apoderado por algum tempo de Quebec e Port Royal, queixa-se com não pouca razão: “O consenso comum de toda a Europa é representar a Nova França como estendendo-se pelo menos até o trigésimo quinto e o trigésimo sexto graus de latitude, como se vê nos mapas-múndi impressos na Espanha, Itália, Holanda, Flandres, Alemanha e Inglaterra, até que eles se apoderaram das costas da Nova França, onde ficam a Acadie, os Etchemins (Maine e New Brunswick), os Almouchicois (Massachusetts?) e o Grande Rio St. Lawrence, aos quais impuseram, segundo sua fantasia, nomes como Nova Inglaterra, Escócia e outros; mas não é fácil apagar a memória de uma coisa conhecida por toda a cristandade.”

O simples fato de Cabot ter desembarcado na costa inabitável do Labrador não dava aos ingleses nenhum título justo à Nova Inglaterra, nem aos Estados Unidos em geral, tanto quanto não lhes dava à Patagônia. Seu cuidadoso biógrafo (Biddle) não tem certeza em qual viagem ele teria descido ao longo da costa dos Estados Unidos, como se relata, e ninguém nos diz o que viu. Miller, no New York Hist. Coll., vol. I, p. 28, afirma que ele não parece ter desembarcado em parte alguma. Contraste-se isso com a permanência de Verrazzani por quinze dias num ponto da costa da Nova Inglaterra e suas frequentes excursões dali para o interior. Acontece que a carta deste último a Francisco I, de 1524, contém “o mais antigo relato original ainda existente da costa atlântica dos Estados Unidos”; e desde então a parte setentrional dela começou a ser chamada La Terra Francese, ou Terra Francesa. Uma parte foi chamada Nova Holanda antes de ser chamada Nova Inglaterra. Os ingleses demoraram muito a explorar e povoar o continente em que haviam tropeçado. Os franceses os precederam tanto nas tentativas de colonizar o continente da América do Norte (Carolina e Florida, 1562-4) quanto em seu primeiro assentamento permanente (Port Royal, 1605); e o direito de posse, muito naturalmente, era aquele que a Inglaterra sobretudo respeitava e reconhecia no caso da Espanha, de Portugal e também da França, desde o tempo de Henrique VII.

As explorações dos franceses deram ao mundo os primeiros mapas valiosos destas costas. Denys de Honfleur fez um mapa do golfo de São Lourenço em 1506. Mal Cartier explorara o São Lourenço, em 1535, seus compatriotas começaram a publicar cartas de notável exatidão daquele rio até Montreal. É quase todo o continente ao norte da Flórida que se reconhece nas cartas durante mais de uma geração depois disso, embora o tosco esboço de Verrazzani (feito sob os auspícios franceses) fosse considerado por Hackluyt, mais de cinquenta anos após sua viagem (em 1524), a representação mais exata de nossa costa. O rastro francês é nítido. Eles avançavam medindo e sondando e, quando voltavam para casa, tinham algo a mostrar por suas viagens e explorações. Não havia perigo de suas cartas se perderem, como se perderam as de Cabot.

Os navegadores mais ilustres daquele tempo eram italianos, ou de ascendência italiana, e portugueses. Os franceses e espanhóis, embora menos avançados na ciência da navegação que os primeiros, possuíam mais imaginação e espírito de aventura que os ingleses, e estavam mais bem preparados para ser os exploradores de um novo continente, mesmo em época tão tardia quanto 1751.

Foi esse espírito que tão cedo levou os franceses aos Grandes Lagos e ao Mississippi pelo norte, e o espanhol ao mesmo rio pelo sul. Muito tempo se passou antes que nossas fronteiras alcançassem seus assentamentos no oeste, e um voyageur ou coureur de bois ainda é ali nosso guia. Prairie é uma palavra francesa, assim como sierra é espanhola. Augustine, na Flórida, e Santa Fé, no Novo México [1582], ambas construídas pelos espanhóis, são consideradas as cidades mais antigas dos Estados Unidos. Ainda na memória do homem mais velho, os anglo-americanos estavam confinados entre os montes Apalaches e o mar, “um espaço de menos de duzentas milhas de largura”, enquanto o Mississippi era, por tratado, a fronteira oriental da Nova França. (Ver o panfleto sobre o povoamento do Ohio, Londres, 1763, encadernado junto às viagens de Sir John Bartram.) No que dizia respeito à descoberta do interior, o espírito aventureiro dos ingleses era o de marinheiros que desembarcam apenas por um dia, e sua iniciativa, a iniciativa de comerciantes. Cabot falou como inglês, e era isso que ele era, se disse, conforme se conta, a respeito da descoberta do continente americano, ao vê-lo estender-se para o norte, que aquilo fora para ele uma grande decepção, pois estava a caminho da Índia; mas preferiríamos acrescentar algo à fama de tão grande descobridor, em vez de diminuí-la.

Samuel Penhallow, em sua história (Boston, 1726), p. 51, falando de “Port Royal e Nova Scotia”, diz desta última que sua “primeira tomada foi por Sir Sebastian Cobbet, para a coroa da Grã-Bretanha, no reinado do rei Henrique VII; mas permaneceu inativa até o ano de 1621”, quando Sir William Alexander obteve sua patente e a possuiu por alguns anos; depois, Sir David Kirk foi seu proprietário, mas não tardou para que, “para espanto de todos os homens sensatos, ela fosse entregue aos franceses”.

Mesmo em época tão tardia quanto 1633, encontramos Winthrop, o primeiro governador da Colônia de Massachusetts, que não era dos mais propensos a estar mal informado e que, além disso, tem ao menos a fama de haver descoberto o monte Wachusett (avistou-o a quarenta milhas para o interior), falando do “Grande Lago” e dos “horrendos pântanos ao seu redor”, perto dos quais nasciam o Connecticut e o “Potomack”; e, entre os acontecimentos memoráveis do ano de 1642, ele registra a expedição de Darby Field, um irlandês, ao “monte Branco”, de cujo cume este viu, a leste, o que “julgou ser o golfo do Canadá” e, a oeste, o que “julgou ser o grande lago de onde sai o rio Canadá”, e onde encontrou muito “vidro da Moscóvia”, do qual “conseguia arrancar peças de quarenta pés de comprimento e sete ou oito de largura”. Enquanto os próprios habitantes da Nova Inglaterra assim fabularam acerca do país situado cem milhas para o interior, que para eles era uma terra incognita, ou melhor, muitos anos antes da mais antiga data aqui mencionada, Champlain, o primeiro governador do Canadá, sem falar das descobertas interiores de Cartier,[1] Roberval e outros, no século precedente, nem de sua própria viagem anterior, já havia ido à guerra contra os iroqueses em seus fortes na floresta, penetrado até os Grandes Lagos e passado o inverno ali, antes que um Peregrino sequer tivesse ouvido falar da Nova Inglaterra.

Nas “Voyages” de Champlain, impressas em 1613, há uma gravura que representa um combate no qual ele auxiliou os indígenas do Canadá contra os iroqueses, perto da extremidade sul do lago Champlain, em julho de 1609, onze anos antes do povoamento de Plymouth. Bancroft diz que ele se juntou aos algonquinos numa expedição contra os iroqueses, ou Cinco Nações, no noroeste de Nova York. Este é aquele “Grande Lago” que os ingleses, tendo ouvido muito depois algum rumor a seu respeito vindo dos franceses, situaram numa “Província Imaginária chamada Laconia, e passaram vários anos, por volta de 1630, na vã tentativa de descobri-lo”. (Sir Ferdinand Gorges, em Maine Hist. Coll., vol. II, p. 68.) Thomas Morton tem um capítulo sobre esse “Grande Lago”. Na edição do mapa de Champlain datada de 1632, aparecem as cataratas do Niágara; e, num grande lago a noroeste de Mer Douce (lago Huron), está representada uma ilha sobre a qual se lê: “Isle ou il y a une mine de cuivre”, “Ilha onde há uma mina de cobre”. Isto serve de contrapeso ao “Vidro da Moscóvia” de nosso governador. De todas essas aventuras e descobertas temos um relato minucioso e fiel, que fornece fatos e datas, bem como cartas e sondagens, tudo científico e à maneira francesa, com quase nenhuma fábula ou história de viajante.

É provável que Cape Cod tenha sido visitado por europeus muito antes do século XVII. Pode ser que o próprio Cabot o tenha avistado. Verrazzani, em 1524, segundo seu próprio relato, passou quinze dias em nossa costa, na latitude de 41° 40 minutos (alguns supõem que no porto de Newport), e dali avançou muitas vezes cinco ou seis léguas para o interior; ele diz que, partindo de lá, navegou de uma só vez cento e cinquenta léguas rumo a nordeste, sempre à vista da costa. Há uma carta em “Divers Voyages”, de Hackluyt, feita segundo o esboço de Verrazzani, cuja exatidão é elogiada por Hackluyt, mas não consigo distinguir nela Cape Cod, a menos que seja o “C. Arenas”, que está na latitude correta, embora dez graus a oeste de “Claudia”, que se supõe ser Block Island.

A “Biographic Universelle” nos informa que “Uma antiga carta manuscrita

desenhada em 1529 por Diego Ribeiro, cosmógrafo espanhol, preservou

a memória da viagem de Gomez [um português enviado por Carlos V].

Nela se lê, abaixo (au dessous) do lugar ocupado pelos Estados

de Nova York, Connecticut e Rhode Island, *Terre d’Etienne Gomez,

qu’il découvrit en* 1525 (Terra de Etienne Gomez, que ele descobriu

em 1525).” Essa carta, acompanhada de uma memória, foi publicada em

Weimar no século passado.

Jean Alphonse, piloto de Roberval no Canadá em 1642, um dos navegadores mais hábeis de seu tempo, e que deixou instruções notavelmente minuciosas e exatas para subir o São Lourenço, demonstrando saber do que fala, diz em seu “Routier” (está em Hackluyt): “Estive numa baía até o quadragésimo segundo grau, entre Norimbegue [o Penobscot?] e a Flórida, mas não explorei seu fundo e não sei se ela passa de uma terra à outra”, isto é, até a Ásia. (“J’ai été à une Baye jusques par les 42e degres entre la Norimbegue et la Floride; mais je n’en ai pas cherché le fond, et ne sçais pas si elle passe d’une terre à l’autre.”) Isso pode se referir à baía de Massachusetts, se não, talvez, à inclinação da costa para oeste um pouco mais ao sul. Quando ele diz: “Não tenho dúvida de que o Norimbegue desemboca no rio do Canadá”, talvez esteja interpretando assim algum relato dado pelos indígenas sobre a rota do São Lourenço ao Atlântico pelo Saint John ou pelo Penobscot, ou possivelmente até pelo rio Hudson.

Ouvimos de muitos lados rumores desse país de “Norumbega” e de sua grande cidade. Num discurso de um grande capitão francês no terceiro volume de Ramusio (1556-65), diz-se que esse é o nome dado à terra por seus habitantes, e Verrazzani é chamado seu descobridor; outro relato, de 1607, faz os nativos chamarem a região, ou o rio, de Aguncia. Ela é representada como uma ilha numa carta que acompanha o texto. Os antigos escritores falam frequentemente dela como um país de extensão indefinida, entre o Canadá e a Flórida, e ela aparece como uma grande ilha, com Cape Breton em sua extremidade oriental, no mapa feito segundo o esboço de Verrazzani em “Divers Voyages”, de Hackluyt. Esses mapas e rumores podem ter dado origem à noção, comum entre os primeiros colonos, de que a Nova Inglaterra era uma ilha. O país e a cidade de Norumbega aparecem aproximadamente onde hoje fica o Maine, num mapa de Ortelius (“Theatrum Orbis Terrarum”, Antuérpia, 1570), e o “R. Grande” é traçado onde poderiam estar o Penobscot ou o Saint John.

Em 1604, enviado pelo Sieur de Monts para explorar a costa de Norumbegue, Champlain subiu o Penobscot por vinte e duas ou vinte e três léguas a partir de “Isle Haute”, ou até ser detido pelas quedas-d’água. Diz ele: “Penso que este rio é aquele que muitos pilotos e historiadores chamam Norumbegue, e que a maior parte deles descreveu como grande e espaçoso, com numerosas ilhas; e sua entrada no quadragésimo terceiro ou quadragésimo terceiro e meio grau, ou, segundo outros, no quadragésimo quarto grau de latitude, mais ou menos.” Ele está convencido de que “a maior parte” dos que falam de uma grande cidade ali nunca a viu, limitando-se a repetir um mero rumor, mas pensa que alguns viram a foz do rio, pois ela corresponde à descrição que fizeram.

Sob a data de 1607, Champlain escreve: “Três ou quatro léguas ao norte

do Cap de Poitrincourt [perto do fundo da baía de Fundy, em Nova

Scotia], encontramos uma cruz muito antiga, coberta de musgo e quase

inteiramente apodrecida, sinal evidente de que outrora houvera cristãos

ali.”

Também a passagem seguinte de Lescarbot mostrará quanto as costas vizinhas eram frequentadas por europeus no século XVI. Falando de seu retorno de Port Royal à França, em 1607, ele diz: “Por fim, a quatro léguas de Campseau [o estreito de Canso], chegamos a um porto [em Nova Scotia], onde pescava um digno e velho cavalheiro de St. John de Lus, chamado capitão Savale, que nos recebeu com a maior cortesia. E, como esse porto, pequeno, mas muito bom, não tem nome, dei-lhe em minha carta geográfica o nome de Savalet. [Ele também aparece no mapa de Champlain.] Esse digno homem nos contou que aquela era a quadragésima segunda viagem que fazia àquelas paragens, embora os pescadores de Newfoundland [Terre neuviers] façam apenas uma por ano. Estava maravilhosamente satisfeito com sua pescaria e nos informou que obtinha diariamente cinquenta coroas em bacalhau, e que sua viagem valeria dez mil francos. Tinha dezesseis homens a seu serviço; e sua embarcação era de oitenta toneladas, podendo transportar cem mil bacalhaus secos.” (Histoire de la Nouvelle France, 1612.) Secavam os peixes nas rochas da costa.

A “Isola della Réna” (ilha Sable?) aparece na carta de “Nuova Francia” e Norumbega que acompanha o “Discurso” acima mencionado, no terceiro volume de Ramusio, edição de 1556-65. Champlain fala de haver na ilha Sable, em 1604, “capim onde pastavam bois (bœufs) e vacas que os portugueses levaram para lá mais de sessenta anos atrás”, isto é, sessenta anos antes de 1613; numa edição posterior, diz que esses animais provinham de uma embarcação espanhola que se perdera ao tentar estabelecer uma colônia na ilha Sable; e afirma que os homens de De la Roche, deixados nessa ilha durante sete anos a partir de 1598, viveram da carne do gado que encontraram “en quantie)”, e construíram casas com os destroços das embarcações que chegaram à ilha (“talvez a de Gilbert”), pois ali não havia madeira nem pedra. Lescarbot diz que viveram “de peixe e do leite das vacas deixadas ali cerca de oitenta anos antes pelo barão de Leri e por Saint Just”. Charlevoix diz que comeram todo o gado e depois viveram de peixe. Haliburton menciona como rumor o gado deixado ali. De Leri e Saint Just haviam proposto planos de colonização da ilha Sable já em 1515 (1508?), segundo Bancroft, que remete a Charlevoix. Estes são apenas alguns dos exemplos que eu poderia citar.

Diz-se comumente que Cape Cod foi descoberto em 1602. Examinaremos detidamente em que circunstâncias, e com que observações e expectativas, os primeiros ingleses que a história distingue claramente se aproximaram da costa da Nova Inglaterra. Segundo os relatos de Archer e Brereton, ambos companheiros de Gosnold, em 26 de março de 1602, no calendário antigo, o capitão Bartholomew Gosnold partiu de Falmouth, Inglaterra, rumo à parte norte da Virgínia, numa pequena barca chamada Concord; eram ao todo, diz um dos relatos, “trinta e duas pessoas, das quais oito marinheiros e homens do mar, doze com o propósito de, feita a descoberta, regressar no navio à Inglaterra, e os demais de ali permanecer para povoamento”. Isso é considerado “a primeira tentativa dos ingleses de estabelecer uma colônia dentro dos limites da Nova Inglaterra”. Seguindo uma rota nova e mais curta que a habitual, pelas Canárias, “no dia 14 de abril seguinte” avistaram Santa Maria, uma ilha dos Açores. Como seus marinheiros eram poucos e “nenhum dos melhores” — uso as palavras deles próprios —, e estavam “rumando para uma costa desconhecida”, não foram “ousados demais para se achegar à costa, salvo com tempo aberto”; assim, fizeram sua primeira descoberta de terra com o prumo. Em 23 de abril, o oceano pareceu amarelo, mas, recolhida certa quantidade de água num balde, “ela não diferia do azul do mar nem na cor nem no sabor”. Em 7 de maio, viram diversas aves cujos nomes conheciam, e muitas outras que, em sua “língua inglesa, não tinham nome”. Em 8 de maio, “a água mudou para um verde-amarelado, onde, a setenta braças”, “acharam fundo”. No dia 9, o prumo lhes trouxe “muitas pedras reluzentes” — “que talvez prometessem alguma matéria mineral no fundo”. No dia 10, estavam sobre um banco que julgaram próximo da extremidade ocidental da Ilha de St. John e viram cardumes de peixes. No dia 12, dizem eles, “passavam continuamente à deriva por nós algas marinhas, que pareciam seguir seu curso móvel rumo ao nordeste”. No dia 13, observaram “grandes leitos de algas, muita madeira e diversas outras coisas flutuando”, e “sentiram o cheiro da costa, muito semelhante ao do cabo meridional e ao da Andaluzia, na Espanha”. Na sexta-feira, dia 14, bem cedo pela manhã, divisaram terra ao norte, na latitude de quarenta e três graus, aparentemente alguma parte da costa do Maine. Williamson, em sua História do Maine, diz que certamente não poderia estar ao sul da ilha central de Isles of Shoals. Belknap inclina-se a pensar que fosse o lado sul de Cape Ann. Seguindo com bom tempo ao longo da costa, por volta do meio-dia daquele mesmo dia lançaram âncora e foram visitados por oito selvagens, que vieram até eles “num batel da Biscaia, com vela e remos” — “uma fateixa de ferro e um caldeirão de cobre”. A princípio, tomaram-nos por “cristãos em apuros”. Um deles estava “vestido com gibão e calções de sarja preta, feitos à nossa moda marítima, meias e sapatos nos pés; todos os demais, salvo um que trazia um par de calções de pano azul, estavam nus”. Pareciam ter mantido relações com “alguns bascos de Saint-Jean-de-Luz e compreender muito mais do que nós”, dizem os ingleses, “por falta da língua, podíamos compreender”. Mas logo eles “fizeram-se à vela para oeste, deixando-os e deixando sua costa”. Essa foi uma descoberta notável para descobridores.

“No dia 15”, escreve Gabriel Archer, “tornamos a avistar a terra, que se projetava à nossa frente e que julgamos ser uma ilha, em razão de um largo estreito que aparecia a oeste entre ela e o continente; pois, chegando à extremidade ocidental, percebemos uma grande abertura, à qual chamamos Shoal Hope. Perto desse cabo lançamos âncora a quinze braças, onde apanhamos grande quantidade de bacalhau, motivo por que mudamos o nome e o chamamos Cape Cod. Ali vimos cardumes de arenques, cavalas e outros peixes pequenos em grande abundância. Trata-se de um banco baixo e arenoso, mas sem perigo; tornamos também a lançar âncora a dezesseis braças, bem junto à terra, na latitude de quarenta e dois graus. Esse cabo tem quase uma milha de largura e se estende de nordeste a leste. O capitão desembarcou ali e encontrou o chão coberto de ervilhas, morangos, mirtilos etc., então ainda verdes; a areia junto à costa era também um tanto funda; a lenha que ali recolhemos era de cipreste, bétula, hamamélis e faia. Um jovem indígena aproximou-se ali do capitão, armado de arco e flechas, e trazia certas placas de cobre pendentes das orelhas; mostrou-se disposto a nos ajudar no que precisássemos.”

“No dia 16, seguimos o contorno da costa rumo ao sul; era toda ela campestre e coberta de relva, mas as ilhas eram um tanto arborizadas.”

Ou, segundo o relato de John Brereton, “estando fundeados ali”, isto é, onde primeiro se comunicaram com os nativos, “num porto não muito bom e, além disso, receosos quanto ao tempo, por volta das três horas da tarde daquele mesmo dia levantamos âncora e, seguindo para o sul, ao largo, mar adentro, pelo restante do dia e pela noite seguinte, com uma fresca rajada de vento, pela manhã nos vimos encerrados numa baía por um imenso promontório; mas, lançando âncora por volta das nove horas daquele mesmo dia, a uma légua da costa, pusemos na água uma metade do nosso batel, e o capitão Bartholomew Gosnold, eu próprio e outros três desembarcamos, sendo aquela uma costa branca, arenosa e muito escarpada; e, marchando toda aquela tarde com os mosquetes ao pescoço, pelos montes mais altos que avistamos, estando o tempo muito quente, por fim percebemos que aquele promontório era parte do continente e que diversas ilhas jaziam quase ao redor dele; assim, voltando ao cair da tarde para o nosso batel, pois a essa altura a outra metade havia sido levada para terra e montada, avistamos um indígena, jovem de boa estatura e semblante agradável, e, depois de certa familiaridade com ele, deixamo-lo à beira-mar e regressamos ao navio, onde, durante nossa ausência de cinco ou seis horas, haviam abarrotado de tal modo a embarcação com bacalhaus que tornamos a lançar muitos deles ao mar; e estou seguramente convencido de que, nos meses de março, abril e maio, há nessa costa pesca melhor e tão abundante quanto em Newfoundland; pois os cardumes de cavalas, arenques, bacalhaus e outros peixes que víamos diariamente quando íamos à costa e dela voltávamos eram prodigiosos”, etc.

“Deste lugar navegamos ao redor do promontório, por quase todos os

rumos da bússola, sendo a costa muito escarpada; mas, como nenhuma

costa está livre de perigos, estou convencido de que esta é tão livre

quanto qualquer outra. A terra é um tanto baixa, coberta de belos

bosques, mas plana em alguns lugares.”

Não está inteiramente claro de que lado do Cabo eles desembarcaram. Se foi do lado de dentro, como parecem indicar as palavras de Brereton, “Deste lugar navegamos ao redor do promontório por quase todos os rumos da bússola”, deve ter sido na costa ocidental de Truro ou de Wellfleet. Para quem navega rumo ao sul pela Barnstable Bay, ao longo do Cabo, a única “costa branca, arenosa e muito escarpada” que aparece fica nesses municípios, embora ali a ribanceira não seja tão alta quanto no lado oriental. A uma distância de quatro ou cinco milhas, as escarpas arenosas dali parecem um longo forte de arenito amarelo, tão niveladas e regulares são, sobretudo em Wellfleet: o forte da terra defendendo-se das invasões do Oceano. Aqui e ali são riscadas por uma areia avermelhada, como se estivessem pintadas. Mais ao sul, a costa é mais plana, menos evidente e abruptamente arenosa, e um leve matiz verde, aqui e ali nas marismas, aparece ao marinheiro como uma esmeralda rara e preciosa. Mas, no Diário da Viagem de Pring, do ano seguinte, e Salterne, que estava com Pring, havia acompanhado Gosnold, diz-se: “Partindo dali [isto é, de Savage Rocks], rumamos para aquele grande golfo que o capitão Gosnold ultrapassara no ano anterior.”[2]

Assim, navegaram ao redor do Cabo, chamando a extremidade sudeste de “Point Cave”, até chegarem a uma ilha que denominaram Martha’s Vineyard, hoje chamada No Man’s Land, e a outra onde permaneceram por algum tempo, a que deram o nome de Elizabeth’s Island, em homenagem à Rainha, uma das ilhas do grupo que desde então recebeu esse nome, hoje conhecida por seu nome indígena, Cuttyhunk. Ali construíram um pequeno armazém, a primeira casa erguida pelos ingleses na Nova Inglaterra, cujo porão ainda podia ser visto em tempos recentes, feito em parte com pedras retiradas da praia. Bancroft diz, na edição de 1837, que as ruínas do forte já não podem ser distinguidas. Como os que deveriam permanecer se mostraram descontentes, todos juntos fizeram-se à vela para a Inglaterra, com uma carga de sassafrás e outras mercadorias, no dia 18 de junho seguinte.

No ano seguinte veio Martin Pring, em busca de sassafrás, e daí por diante começaram a chegar em grande número e com rapidez, até muito depois de o sassafrás ter perdido sua reputação.

Esses são os relatos mais antigos que possuímos sobre Cape Cod, a menos que, porventura, Cape Cod seja, como alguns supõem, o mesmo “Kial-ar-nes”, ou Cabo da Quilha, onde, segundo antigos manuscritos islandeses, Thorwald, filho de Eric, o Vermelho, depois de navegar muitos dias para sudoeste desde a Groenlândia, partiu a quilha no ano de 1004; e onde, segundo outro manuscrito, sob certos aspectos menos digno de confiança, Thor-finn Karlsefue, “isto é, alguém que promete ser, ou está destinado a ser, um homem capaz ou grande”; diz-se que teve um filho nascido na Nova Inglaterra, do qual descendia o escultor Thorwaldsen, ao passar navegando, no ano de 1007, com sua mulher Gudrida, Snorre Thorbrandson, Biarne Grinolfson e Thorhall Garnlason, distintos homens do Norte, em três navios que levavam “cento e sessenta homens e toda espécie de animais domésticos”, provavelmente inclusive os primeiros ratos-da-Noruega, tendo a terra “à sua direita”, “aproou para a costa” e encontrou “ör-æfi (desertos sem caminhos)”, “Strand-ir láng-ar ok sand-ar (longas praias estreitas e colinas de areia)”, e “chamou aquelas costas de Furdustrand-ir (Praias Maravilhosas), porque a navegação ao longo delas parecia longa”.

Segundo os manuscritos islandeses, Thorwald teria sido, portanto, o primeiro, a menos que o fosse certo Biarne Heriulfson, isto é, filho de Heriulf, tomado de grande desejo de viajar, que partiu da Islândia para a Groenlândia no ano de 986 a fim de reunir-se ao pai, que emigrara para lá, pois resolvera, diz o manuscrito, “passar o inverno seguinte, como todos os anteriores, com seu pai”; arrastado muito para sudoeste por uma tempestade, quando o tempo clareou viu a terra baixa de Cape Cod erguer-se vagamente à distância; mas, como ela não correspondia à descrição da Groenlândia, virou a embarcação e, navegando para o norte ao longo da costa, por fim chegou à Groenlândia e ao pai. De todo modo, ele pode apresentar uma forte reivindicação ao título de descobridor do continente americano.

Esses homens do Norte eram uma raça resistente, cujos filhos mais

novos herdavam o oceano e o atravessavam sem carta nem bússola, e

diz-se que foram “os primeiros a aprender a arte de navegar contra o

vento”. Além disso, tinham o costume de lançar ao mar os umbrais de

suas portas e fixar-se onde quer que eles dessem à costa. Mas, como

Biarne, Thorwald e Thorfinn não mencionaram a latitude e a longitude

com nitidez suficiente, embora tenhamos grande respeito por eles como

navegadores hábeis e aventureiros, devemos por ora permanecer em

dúvida quanto aos cabos que de fato avistaram. Pensamos que estiveram

consideravelmente mais ao norte.

Se o tempo e o espaço permitissem, eu poderia apresentar as reivindicações de várias outras pessoas dignas. Lescarbot, em 1609, afirma que os marinheiros franceses estavam habituados a frequentar os bancos de Newfoundland desde tempos imemoriais, “por causa do bacalhau com que alimentam quase toda a Europa e abastecem todas as embarcações que se fazem ao mar”, e que, por conseguinte, “a língua das terras mais próximas é meio basca”; e cita Postel, erudito francês extravagante, nascido em 1510, apenas seis anos depois de se dizer que bascos, bretões e normandos descobriram o Grande Banco e as ilhas adjacentes, como tendo escrito, em sua Charte Géographique, que não vimos: “Terra haec ob lucrosissimam piscationis utilitatem summa litterarum memoria a Gallis adiri solita, et ante mille sexcentos annos frequentari solita est; sed eo quod sit urbibus inculta et vasta, spreta est.” “Esta terra, em razão do lucro extraordinário de sua pesca, costumava ser visitada pelos gauleses desde a aurora da história escrita e, há mais de mil e seiscentos anos, costumava ser frequentada; mas, por ser desprovida de cidades e deserta, foi desprezada.”

É a velha história. Bob Smith descobriu a mina, mas fui eu que a descobri para o mundo. E agora Bob Smith está apresentando sua reivindicação.

Mas não ríamos de Postel e de suas visões. Talvez ele estivesse mais bem informado do que nós; e, se parece esticar demais o arco, pode ser porque tinha de disparar a uma distância muito grande, atravessando todo o Atlântico. Se a América foi descoberta e novamente perdida uma vez, como acredita a maioria de nós, por que não duas? sobretudo quando provavelmente haveria tão poucos registros de uma descoberta anterior. Considere-se de que matéria é feita a história: em sua maior parte, ela é apenas uma narrativa sobre a qual a posteridade chegou a um acordo. Quem nos dirá sequer quantos russos estiveram envolvidos na batalha do Chernaya, outro dia? E, no entanto, sem dúvida o sr. Scriblerus, o historiador, fixará um número exato para que os colegiais o confiem às suas excelentes memórias. Que dizer, então, do número de persas em Salamina? O historiador que li sabia tanto sobre a posição das partes e suas táticas nesse último confronto quanto sabem os que hoje descrevem uma batalha recente num artigo para a imprensa, antes que cheguem os pormenores. Creio que, se eu próprio tivesse de viver novamente a vida da humanidade (coisa que não aceitaria fazer nem por dinheiro), com a História Universal nas mãos, ainda assim não conseguiria dizer o que era o quê.

De qualquer modo, antes da data a que Postel se refere, Cape Cod jazia em completa escuridão para o mundo civilizado, embora mesmo então, todos os dias, o sol nascesse do mar a leste e, rolando sobre o Cabo, se pusesse a oeste, na Baía. Mesmo então já eram Cabo e Baía, sim, o Cabo do Bacalhau e a Baía dos Massachusetts, talvez.

Muito recentemente, em 11 de novembro de 1620, no calendário antigo, como é bem sabido, os Peregrinos do Mayflower lançaram âncora no porto de Cape Cod. Haviam partido de Plymouth, Inglaterra, em 6 de setembro e, nas palavras da “Relação de Mourt”, “depois de muitas dificuldades em tempestades impetuosas, por fim, pela providência de Deus, no dia 9 de novembro avistamos terra, que julgamos ser Cape Cod, e assim depois se comprovou. No dia 11 de novembro lançamos âncora na baía, que é um bom porto e uma baía agradável, cercada por todos os lados, exceto na entrada, que mede cerca de quatro milhas de terra a terra, circundada até o próprio mar por carvalhos, pinheiros, zimbro, sassafrás e outras madeiras fragrantes. É um porto em que mil embarcações à vela podem fundear com segurança. Ali nos abastecemos de lenha e água e reanimamos nossa gente, enquanto nossa chalupa era preparada para costear a baía, em busca de um lugar para habitação.” Ali nos hospedamos no Hotel Fuller, passando ao largo da Pilgrim House por ser cara demais para nós (depois soubemos que não precisávamos ter sido tão exigentes), e nos reanimamos com peixe picado e feijão, além de nos abastecermos de líquidos (que não eram intoxicantes), enquanto nossas pernas eram reajustadas para costear o lado de fora do Cabo. Dizem ainda os Peregrinos: “Não pudemos chegar mais perto da costa do que três quartos de milha inglesa, por causa das águas rasas; o que nos foi de grande prejuízo, pois nossa gente, ao desembarcar, era obrigada a vadear a distância de um ou dois tiros de arco para chegar à terra, e isso fez muitos apanharem resfriados e tosses; porque muitas vezes o tempo era de frio congelante.” Dizem depois: “Isso trouxe muita fraqueza entre nós”; e sem dúvida levou alguns à morte em Plymouth.

O porto de Provincetown é muito raso perto da costa, sobretudo junto à cabeceira, onde os Peregrinos desembarcaram. Quando deixei esse lugar no verão seguinte, o vapor não pôde chegar ao cais; fomos levados numa carroça até um grande barco, por nada menos que trinta rods de águas rasas, enquanto um bando de meninos nos acompanhava, vadeando ao redor; dali fomos puxados até o vapor por uma corda. Como o porto é assim raso e arenoso junto à costa, os navios de cabotagem costumam entrar ali para pintar suas embarcações, que ficam em seco quando a maré baixa.

Por acaso, na manhã de domingo em que lá estivemos, eu me juntara a um grupo de homens que fumavam e se espreguiçavam sobre uma pilha de tábuas num dos cais (nihil humanum a me, etc.), quando nosso estalajadeiro, que era uma espécie de fiscal do dízimo e dos costumes dominicais, saiu para deter alguns marinheiros ocupados em pintar a embarcação. Nosso grupo recebia de tempos em tempos o reforço de outros cidadãos, que chegavam esfregando os olhos como se tivessem acabado de sair da cama; e um velho me observou que ali era costume permanecer no leito até muito tarde aos domingos, por ser dia de descanso. Comentei que, a meu ver, bem poderiam deixar os homens pintar, por tudo o que nos dizia respeito. Não era trabalho barulhento e não perturbava nossas devoções. Mas um jovem do grupo, tirando o cachimbo da boca, disse que aquilo contrariava claramente a lei de Deus, que citou, e que, se não houvesse alguma regra desse tipo, embarcações entrariam ali para receber alcatrão, aparelhamento e pintura, e eles acabariam sem sábado algum. Era um argumento bastante bom, não o tivesse ele apresentado em nome da religião. No verão seguinte, sentado numa colina dali, numa abafada tarde de domingo, com as janelas da casa de reuniões abertas, minhas meditações foram interrompidas pelo ruído de um pregador que bradava como um contramestre, profanando a atmosfera tranquila e que, imaginei, devia ter tirado o paletó. Poucas coisas poderiam ter sido mais repugnantes ou desalentadoras. Desejei que o fiscal fosse detê-lo.

Dizem os Peregrinos: “Havia ali a maior abundância de aves que jamais vimos.”

Não vimos ave alguma ali, exceto gaivotas de várias espécies; mas a maior abundância delas que jamais vimos estava sobre uma planície quase rasa, mal coberta de água, no lado leste do porto, e observamos um homem que desembarcara ali de um barco avançando sorrateiro pela margem para tentar alvejá-las; mas todas se ergueram e voaram numa grande revoada dispersa, cedo demais para ele, aparentemente já tendo conseguido o jantar, embora ele não conseguisse o seu.

É notável que os Peregrinos (ou seu relator) descrevam essa parte do Cabo não apenas como bem arborizada, mas também como dotada de solo profundo e excelente, e quase não mencionem a palavra areia. Agora, o que impressiona o viajante é a esterilidade e a desolação da terra. Eles encontraram “o terreno ou a terra em colinas de areia, muito semelhantes às dunas da Holanda, mas com a crosta da terra muito melhor, à profundidade de uma cuspida, excelente terra negra”. Nós descobrimos que a terra perdera a crosta, se é que algum dia a tivera, e que não havia solo digno de menção. Não vimos em Provincetown terra negra bastante para encher um vaso de flores, salvo nos brejos. Eles a encontraram “toda coberta de carvalhos, pinheiros, sassafrás, zimbro, bétula, azevinho, trepadeiras, alguns freixos, nogueiras; o bosque, em sua maior parte, aberto e sem sub-bosque, próprio para andar ou cavalgar”. Nós mal vimos algo alto o bastante para ser chamado de árvore, exceto uma pequena mata baixa na extremidade leste da cidade e as poucas árvores ornamentais de seus quintais, apenas alguns pequenos exemplares de algumas das espécies acima nas colinas de areia ao fundo; mas tudo era arbustal cerrado, sem nenhuma mata alta acima dele, muito impróprio tanto para andar quanto para cavalgar. A maior parte da terra era um perfeito deserto de areia amarela, ondulada pelo vento como vagas, onde apenas aqui e ali crescia um pouco de capim-das-dunas. Eles dizem que, logo depois de passar a cabeceira de East Harbor Creek, os ramos e arbustos “rasgaram” sua “própria armadura em pedaços” (a mesma coisa aconteceu à armadura que usávamos, quando, por curiosidade, nos metemos entre os arbustos); ou que chegaram a vales profundos, “cheios de mato, wood-gaile e capim alto”, e “encontraram fontes de água doce”.

Quanto a nós, na maior parte do tempo não vimos nem ramo nem arbusto, nem sequer um renovo contra o qual rasgar as roupas, mesmo que quiséssemos, e uma ovelha não perderia nada do velo, ainda que encontrasse pasto bastante para fazê-lo crescer ali. Vimos antes capim-das-dunas e capim-da-pobreza, e apenas azeda bastante para dar cor à superfície. Suponho, então, que por Woodgaile eles queiram dizer mírica.

Todos os relatos concordam em afirmar que essa parte do Cabo era comparativamente bem arborizada há um século. Mas, apesar das grandes mudanças ocorridas a esse respeito, não posso deixar de pensar que devemos conceder algum desconto à inexperiência verde dos Peregrinos nessas matérias, que os levava a enxergar tudo verde. Não acreditamos que as árvores fossem grandes nem que o solo fosse profundo ali. O relato deles pode ser verdadeiro em particular, mas é falso no geral. Literalmente, assim como figuradamente, viram apenas um lado do Cabo. Naturalmente exageraram a beleza e o atrativo da terra, pois estavam contentes de chegar a qualquer terra depois daquela viagem angustiante. Tudo lhes parecia cor-de-rosa e tinha aroma de zimbro e sassafrás. Muito diferente é o relato geral e despretensioso feito pelo capitão John Smith, que estivera nessa costa seis anos antes e fala como velho viajante, navegador e soldado, que vira mundo demais para exagerar, ou mesmo para se deter longamente numa parte dele. Em sua “Descrição da Nova Inglaterra”, impressa em 1616, depois de falar de Accomack, mais tarde chamada Plymouth, diz: “Cape Cod é o próximo acidente que se apresenta, e consiste apenas num promontório de altas colinas de areia, cobertas de pinheiros arbustivos, hurts [isto é, whorts, ou mirtilos] e semelhante refugo, mas é um porto excelente para todos os tempos. Esse Cabo é formado pelo mar aberto de um lado e por uma grande baía do outro, em forma de foice.” Champlain já havia escrito: “Ao qual demos o nome de Cap Blanc (Cabo Branco), porque eram areias e dunas (sables et dunes) que assim apareciam.”

Quando os Peregrinos chegam a Plymouth, seu relator diz outra vez: “A terra, quanto à crosta, tem a profundidade de uma cuspida”, o que parece ter sido a receita deles para uma crosta terrestre, “excelente terra negra e fértil em alguns lugares”. Contudo, segundo o próprio Bradford, a quem alguns consideram autor de parte da “Relação de Mourt”, os que vieram no Fortune no ano seguinte ficaram um tanto desanimados quando “entraram no porto de Cape Cod e ali nada viram além de um lugar nu e estéril”. Logo descobriram seu engano quanto à qualidade do solo de Plymouth. Ainda assim, quando por fim, alguns anos mais tarde, estavam plenamente convencidos da pobreza do lugar que haviam escolhido, “a maior parte”, diz Bradford, “consentiu numa mudança para um lugar chamado Nausett”, concordaram em mudar todos juntos para Nauset, hoje Eastham, o que equivalia a saltar da frigideira para o fogo; e alguns dos mais respeitáveis habitantes de Plymouth de fato se mudaram para lá.

Cumpre admitir que os Peregrinos possuíam poucas das qualidades do pioneiro moderno. Não eram os antepassados dos homens das matas do interior americano. Não entraram de imediato no bosque com seus machados. Eram uma família e uma igreja, e estavam mais ansiosos por permanecer juntos, ainda que sobre a areia, do que por explorar e colonizar um Novo Mundo. Quando o grupo acima mencionado se mudou para Eastham, a igreja de Plymouth ficou, para usar a expressão de Bradford, “como uma mãe antiga, envelhecida e abandonada pelos filhos”. Embora tivessem desembarcado na ilha de Clark, no porto de Plymouth, em 9 de dezembro (calendário antigo), e no dia 16 todos chegassem a Plymouth, e no dia 18 perambulassem pelo continente, e no dia 19 decidissem estabelecer-se ali, foi somente em 8 de janeiro que Francis Billington partiu com um dos imediatos do comandante para examinar o magnífico lago ou lagoa hoje chamado “Mar de Billington”, a cerca de duas milhas de distância, que ele descobrira do alto de uma árvore e tomara por um grande mar. E em 7 de março “o mestre Carver, com outros cinco, foi aos grandes lagos, que parecem oferecer excelente pesca”; ambos os pontos ficam dentro do alcance de um passeio comum de uma tarde, por mais selvagem que fosse a região. É verdade que, a princípio, estavam ocupados com suas construções e eram impedidos por muito mau tempo; mas um grupo de emigrantes rumo à Califórnia ou ao Oregon, sem menos trabalho em mãos e com indígenas mais hostis, teria explorado tanto já na primeira tarde, e o sieur de Champlain teria procurado uma entrevista com os selvagens, examinado a região até o Connecticut e traçado um mapa dela antes que Billington tivesse subido em sua árvore. Ou comparem-nos apenas aos franceses que, em 1603, procuravam cobre nas cercanias da Baía de Fundy, seguindo pequenos cursos d’água com guias indígenas. Apesar de tudo, os Peregrinos foram pioneiros e antepassados de pioneiros numa empresa muito mais grandiosa.

A essa altura, vimos o pequeno vapor Naushon entrando no porto, ouvimos o som de seu apito e descemos das colinas para encontrá-lo no cais. Assim nos despedimos de Cape Cod e de seus habitantes. Gostamos muito das maneiras destes últimos, pelo pouco que vimos deles. Eram particularmente francos e bem-humorados. Os idosos pareciam extraordinariamente bem conservados, como que pela salinidade da atmosfera, e, depois de nos enganarmos uma vez, nunca mais podíamos ter certeza se falávamos com alguém da geração de nossos avós ou da nossa própria idade. Diz-se que descendem dos Peregrinos com maior pureza do que os habitantes de qualquer outra parte do Estado. Disseram-nos que “às vezes, quando o tribunal se reúne em Barnstable, não há um único criminoso para julgar, e a cadeia fica fechada”. Quando estivemos lá, ela estava “para alugar”. Até bem recentemente, não havia advogado estabelecido abaixo de Orleans. Quem, então, se queixará de alguns tubarões antropófagos regulares ao longo do lado de trás?

Um dos ministros religiosos de Truro, quando lhe perguntei o que os pescadores faziam no inverno, respondeu que não faziam nada além de visitar uns aos outros, ficar sentados por aí e contar histórias, embora trabalhassem duro no verão. Ainda assim, não é uma longa temporada de descanso que recebem. Lamento não ter estado lá no inverno para ouvir seus causos. Quase todo homem do Cabo é Capitão de alguma embarcação, todo homem, pelo menos, que comanda os próprios assuntos, embora nem todos o façam, pois algumas cabeças têm a força de um alfa privativo, anulando todos os esforços que a Natureza de bom grado faria por meio delas. A maioria dos homens não passa de cabos. Vale a pena conversar com alguém a quem os vizinhos tratam por Capitão, ainda que sua embarcação tenha afundado há muito e ele esteja agarrado com os dentes apenas ao mastro estilhaçado de um cachimbo, e hoje só fique a meio mar em sentido figurado. É quase certo que, ao fim, ele justificará seu direito ao título: pelo menos uma ou duas boas histórias saberá contar.

Na maior parte do tempo, vimos apenas o lado de trás das cidades, mas nossa história é verdadeira até onde alcança. Poderíamos ter tirado maior proveito do lado da Baía, mas estávamos inclinados a abrir mais os olhos para o Atlântico. Não nos interessava ver os aspectos do Cabo em que ele é inferior ou apenas igual ao continente, mas somente aqueles em que é peculiar ou superior. Não podemos dizer como suas cidades se apresentam de frente a quem vai ao encontro delas; fomos ver o oceano que ficava atrás. Elas eram apenas a jangada sobre a qual estávamos, e observamos as cracas que se prendiam a ela e algumas inscrições talhadas em sua superfície.

Antes de deixarmos o cais, travamos conhecimento com um passageiro que havíamos visto no hotel. Quando lhe perguntamos por que caminho chegara a Provincetown, respondeu que fora lançado à costa em Wood End, na noite de sábado, na mesma tempestade em que o St. John naufragara. Estivera trabalhando como carpinteiro no Maine e embarcara para Boston numa escuna carregada de madeira. Quando a tempestade se levantou, tentaram entrar no porto de Provincetown. “Estava escuro e enevoado”, disse ele, “e, enquanto governávamos rumo ao Farol de Long Point, de repente vimos terra perto de nós, pois nossa bússola estava desregulada, variava vários graus [um marinheiro sempre põe a culpa na bússola]; mas, como havia neblina em terra, pensamos que ela estivesse mais longe do que estava, e por isso seguimos adiante, e imediatamente batemos no banco de areia. Diz o Capitão: ‘Estamos todos perdidos.’ Digo eu ao Capitão: ‘Agora não deixe que ela bata de novo desse jeito; ponha-a de proa.’ O Capitão pensou por um instante e então a pôs de proa. O mar passou completamente por cima de nós e quase arrancou o fôlego do meu corpo. Agarrei-me ao cordame móvel, mas aprendi que da próxima vez devo me agarrar ao cordame fixo.” “Bem, alguém se afogou?”, perguntei. “Não; todos chegamos em segurança a uma casa em Wood End, à meia-noite, encharcados até a pele e meio mortos de frio.” Ao que parecia, ele passara o tempo desde então jogando damas no hotel e se felicitava por ter vencido naquele jogo um companheiro de hospedagem muito alto. “A embarcação será vendida em leilão hoje”, acrescentou. (Tínhamos ouvido o som da sineta do pregoeiro que o anunciava.) “O Capitão está um tanto abatido por causa disso, mas eu lhe digo que se anime, e logo arranjará outra embarcação.”

Naquele momento, o Capitão o chamou do cais. Parecia um homem recém-chegado do interior, com um gorro feito de pele de marmota, e agora que eu ouvira parte de sua história, ele me pareceu singularmente desprovido de tudo: um Capitão sem embarcação alguma, apenas com um capote! E talvez um capote emprestado! Nem sequer um cão o seguia; somente o título continuava preso a ele. Vi também um dos tripulantes. Todos usavam gorros do mesmo feitio e traziam uma expressão abatida, além de seus traços naturalmente aquilinos, como se uma onda quebrando, uma “vaga de crista”, tivesse passado por cima deles. Ao passarmos por Wood End, notamos a pilha de madeira na costa que constituíra a carga de sua embarcação.

Nas imediações de Long Point, no verão, é comum vê-los capturando lagostas para o mercado de Nova York, em pequenos barcos pouco afastados da costa; ou melhor, as lagostas capturam a si mesmas, pois se agarram espontaneamente à rede sobre a qual se coloca a isca e assim são içadas. Vendem-nas frescas por dois centavos cada. Para apanhar uma lagosta em suas armadilhas, o homem precisa saber apenas um pouco mais do que ela. A frota da cavala vinha saindo para o mar, embarcação após embarcação, desde a meia-noite, e, ao deixarmos o Cabo, passamos perto de muitas delas a vela e tivemos uma visão mais próxima do que antes: meia dúzia de homens e meninos de camisa vermelha inclinavam-se sobre a amurada para olhar para nós, enquanto o capitão gritava de volta o número de barris que havia pescado, em resposta à nossa pergunta. Todos os marinheiros interrompem o que fazem para observar um vapor e gritam em saudação ou escárnio. Em uma das embarcações, um grande cão terra-nova pôs as patas na amurada, ergueu-se à altura de qualquer um deles e pareceu igualmente sábio. Mas o capitão, que não queria ser visto tão desocupado quanto um cão, deu-lhe uma pancada no focinho e mandou-o para baixo. Assim é a justiça humana! Pareceu-me ouvir o cão, lá embaixo, fazer um apelo eficaz da justiça humana à divina. Ele devia ter, dos dois, o peito de longe mais limpo.

Ainda a muitas milhas atrás de nós, do outro lado da Baía, víamos as velas brancas dos pescadores de cavala pairando em torno de Cape Cod; e, quando todos os seus cascos já estavam ocultos abaixo do horizonte, e a baixa extremidade do Cabo também desaparecera, suas velas brancas continuavam visíveis dos dois lados dela, ao redor do lugar onde afundara, como uma cidade sobre o oceano, proclamando as raras qualidades do Porto de Cape Cod. Mas, antes que a extremidade do Cabo desaparecesse por completo, ela parecia uma tênue lasca de terra estendida horizontalmente sobre o oceano e, mais tarde ainda, o mero reflexo de um banco de areia na bruma acima. Seu nome sugere uma verdade prosaica, mas seria mais poético se descrevesse a impressão que causa em quem o contempla. Alguns cabos têm nomes particularmente sugestivos. Há, por exemplo, Cape Wrath, a ponta noroeste da Escócia; que bom nome para um cabo que jaz distante e sombrio sobre as águas, sob um céu ameaçador!

Por mais amena que estivesse a manhã em terra, o vento era frio e cortante sobre a água. Ainda que seja o dia mais quente de julho em terra e a viagem vá durar apenas quatro horas, leve consigo as roupas mais grossas, pois você está prestes a flutuar sobre icebergs derretidos. Quando parti de Boston de vapor, em 25 de junho do ano seguinte, fazia um dia bastante quente em terra. Os passageiros vestiam suas roupas mais leves e, a princípio, sentavam-se sob os guarda-sóis; mas, quando estávamos bem dentro da Baía, os que tinham apenas os casacos sofriam com o frio e procuravam o abrigo da casa do piloto e o calor da chaminé. Quando, porém, nos aproximamos do porto de Provincetown, surpreendeu-me perceber quanta influência aquela faixa baixa e estreita de areia, com apenas uma ou duas milhas de largura, exercia sobre a temperatura do ar por muitas milhas ao redor. Penetramos numa atmosfera abafada, em que nossos casacos leves voltaram a estar na moda, e encontramos os habitantes sufocando de calor.

Deixando bem de lado Manomet Point, em Plymouth, e a costa de Scituate, depois de ficarmos uma ou duas horas sem avistar terra, pois havia bastante bruma, aproximamo-nos outra vez dos rochedos de Cohasset, em Minot’s Ledge, e vimos a grande árvore-tupelo na orla de Scituate, que ergue sua copa, como uma planta umbelífera, muito acima da mata circundante e se destaca por muitas milhas sobre terra e água. Ali estava o novo farol de ferro, então inacabado, em forma de casca de ovo pintada de vermelho e colocado no alto de pilares de ferro, como o ovum de um monstro marinho flutuando sobre as ondas, destinado a tornar-se fosforescente. Ao passarmos por ele na meia-maré, vimos os borrifos serem lançados quase até a casca. Um homem viveria naquela casca de ovo dia e noite, a uma milha da costa. Quando passei por ali no verão seguinte, estava concluído e dois homens viviam dentro dele; e um faroleiro disse que eles lhe haviam contado que, durante uma ventania recente, o farol balançara tanto que fizera os pratos saltarem da mesa. Pense em fazer a cama assim, na crista de uma onda quebrando! Ter as ondas, como uma matilha de lobos famintos, sempre de olho em você, noite e dia, e de tempos em tempos saltando em sua direção, quase certas de apanhá-lo por fim. E nenhum de todos aqueles viajantes pode vir em seu socorro; quando sua luz se apagar, será sinal de que a luz de sua vida também se apagou. Que lugar para compor uma obra sobre arrebentações! Esse farol era o centro de todos os olhares. Cada passageiro o observou por pelo menos meia hora; no entanto, um cozinheiro negro do barco, que eu vira sair várias vezes de seus aposentos para esvaziar as vasilhas por sobre a borda com um gesto largo, aconteceu sair justamente quando estávamos à altura do farol, a não mais de quarenta rods dele, enquanto todos o contemplávamos. Ao puxar o braço para trás, avistou-o e exclamou, surpreso: “O que é aquilo?” Trabalhava naquele barco havia um ano e passava pelo farol todos os dias úteis, mas, como nunca lhe ocorrera esvaziar as vasilhas exatamente naquele ponto, jamais o vira. Observar luzes era tarefa do piloto; ele cuidava do fogo da cozinha. Isso sugeria quão pouco alguns dos que davam a volta ao mundo conseguiam ver. Seria quase tão fácil acreditar que há homens a quem nunca ocorreu sair no momento certo para ver o sol. De que serve pôr uma luz no alto de uma colina, se você passa a vida inteira diretamente sob a colina? Seria o mesmo que colocá-la debaixo de um alqueire. Esse farol, como se sabe, foi varrido por uma tempestade em abril de 1851, juntamente com os dois homens que estavam nele, e na manhã seguinte não se via da costa um único vestígio seu.

Um homem de Hull contou-me que ajudara a erguer um poste de carvalho-branco em Minot’s Ledge alguns anos antes. Tinha quinze polegadas de diâmetro, quarenta e um pés de altura, estava cravado quatro pés na rocha e era sustentado por quatro estais, mas permaneceu de pé apenas um ano. Pedras empilhadas em grade, perto do mesmo lugar, resistiram oito anos.

Quando atravessei a Baía no Melrose, em julho, mantivemo-nos junto à costa de Scituate pelo maior tempo possível, a fim de aproveitar o vento. Bem longe, na Baía (ao largo dessa costa), espantamos uma ninhada de patos jovens, provavelmente patos-pretos, criados por aquelas bandas, que o paquete perturbara com frequência em suas viagens. Um concidadão, que fazia a travessia pela primeira vez, caminhou devagar até ficar atrás do timoneiro quando estávamos no meio da Baía e, olhando para o mar antes de se sentar ali, observou, com toda a originalidade possível a quem empregava uma expressão emprestada: “Este é um grande país.” Fora comerciante de madeira, e depois o vi medir com a bengala o diâmetro do mastro grande e calcular-lhe a altura. Voltei da mesma excursão no Olata, um iate muito belo e veloz, que deixou Provincetown ao mesmo tempo que dois outros paquetes, o Melrose e o Frolic. A princípio, mal soprava uma aragem, e ficamos uma hora à deriva nas proximidades de Long Point, em companhia deles, com a cabeça debruçada sobre a amurada, observando os grandes círculos de areia e os peixes no fundo, em águas calmas de quinze pés de profundidade. Mas, depois de contornarmos o Cabo, içamos uma bujarrona volante e, como o Capitão havia profetizado, logo mostramos os calcanhares aos nossos companheiros. Havia um vapor seis ou oito milhas ao norte, perto do Cabo, rebocando um grande navio em direção a Boston. Sua fumaça se estendia perfeitamente horizontal por várias milhas sobre o mar e, com uma mudança súbita de direção, avisou-nos de uma mudança no vento antes que a sentíssemos. O vapor parecia estar muito longe do navio, e alguns rapazes que haviam usado repetidas vezes a luneta do Capitão, mas não suspeitavam que as embarcações estivessem ligadas, manifestaram surpresa por elas se manterem aproximadamente à mesma distância durante tantas horas. Ao que o Capitão observou secamente que provavelmente nunca chegariam mais perto uma da outra. Enquanto o vento se manteve, acompanhamos o vapor; mas por fim ele morreu quase por completo, e a bujarrona volante fez todo o trabalho. Quando passamos pelo barco-farol de Minot’s Ledge, o Melrose e o Frolic mal eram visíveis, dez milhas à ré.

Considerem as ilhas que levam os nomes de todos os santos, eriçadas de fortes como ouriços de castanha, ou echinidæ; e, contudo, a polícia não permite que dois irlandeses disputem nelas uma luta particular, pois isso é monopólio do governo. Todos os grandes portos marítimos estão em posição de pugilista, e é preciso navegar com prudência entre duas fileiras de nós dos dedos de pedra antes de chegar a sentir o calor de seus peitos.

Diz-se que as Bermudas foram descobertas por um navio espanhol desse nome que ali naufragou, ilhas que, “até então”, diz Sir John Smith, “por seis mil anos não tiveram nome”. Os ingleses não tropeçaram nelas em suas primeiras viagens à Virgínia; e o primeiro inglês que lá esteve naufragou nelas em 1593. Smith diz: “Nenhum lugar conhecido possui muralhas melhores nem fosso mais largo.” Ainda assim, logo no primeiro povoamento, com cerca de sessenta pessoas, em 1612, o primeiro Governador, naquele mesmo ano, “construiu e lançou os alicerces de oito ou nove fortes”. Dir-se-ia que era para estarem prontos a receber a primeira tripulação que em seguida viesse naufragar ali. Teria sido mais sensato construir outras tantas “Casas de Caridade”. Essas são as atormentadas Bermoothees.

Nossas grandes velas captavam todo o ar que havia, e nosso casco baixo e estreito oferecia o mínimo atrito possível. Subindo o porto contra a corrente, passamos por tudo. Alguns rapazes que voltavam de uma excursão de pesca chegaram à borda de sua embarcação enquanto avançávamos firmemente por eles e, fazendo uma reverência, observaram com a melhor graça possível: “Nós nos damos por vencidos.” No entanto, às vezes ficávamos quase imóveis. Os marinheiros observavam dois objetos em terra para verificar se avançávamos ou recuávamos. No porto, parecia a noite de um feriado. O vapor Eastern passou por nós com música e vivas, como se fossem a um baile, quando talvez estivessem indo para o armário de Davy Jones.

Ouvi um menino contar a história do companheiro de Nix a algumas meninas quando passávamos por aquele lugar. Esse era o nome de um marinheiro enforcado ali, disse ele. “Se sou culpado, esta ilha permanecerá; mas, se sou inocente, será levada pelas águas”; e agora foi toda levada pelas águas!

Em seguida (?) veio o forte da George’s Island. São engenhocas desajeitadas: não nossos fortes, mas nossas fraquezas. Wolfe passou no escuro pelo forte mais poderoso da América do Norte e tomou-o.

Admirei a habilidade com que a embarcação foi afinal conduzida ao seu lugar no cais, perto da extremidade de Long Wharf. Era hora de acender as velas, e meus olhos não conseguiam distinguir os cais que avançavam em nossa direção; tudo parecia uma linha uniforme de costa densamente apinhada de navios. Não se poderia adivinhar Long Wharf com uma margem de erro menor que um quarto de milha. Ainda assim, tínhamos de ser impelidos para uma fenda no meio deles, avançando diretamente para dentro do labirinto. Baixa-se a vela grande, e apenas a bujarrona nos leva adiante. Agora estamos a quatro rods dos navios, tendo já nos desviado de vários que estavam por fora; mas ainda é apenas um labirinto de mastros, cordames e cascos, e não se vê uma única abertura. Baixa-se a bujarrona, mas continuamos avançando. O Capitão está à popa, com uma das mãos no leme e a outra segurando a luneta noturna; seu filho está no gurupés, forçando a vista; os passageiros sentem o coração subir-lhes até a boca, à espera de uma colisão. “Vê algum espaço aí?”, pergunta calmamente o Capitão. Ele precisa decidir em cinco segundos, ou arrancará o gurupés daquela embarcação, ou perderá o seu. “Sim, senhor, há um lugar para nós aqui”; e, três minutos depois, estamos amarrados ao cais numa pequena abertura entre duas embarcações maiores.

E agora estávamos em Boston. Quem já foi até a extremidade de Long Wharf e atravessou Quincy Market viu Boston.

Boston, New York, Philadelphia, Charleston, New Orleans e as demais são os nomes de cais que avançam mar adentro (cercados pelas lojas e moradias dos comerciantes), bons lugares para receber e descarregar uma carga (desembarcar os produtos de outros climas e embarcar as exportações do nosso). Vejo grande quantidade de barris e caixas cilíndricas de figos, pilhas de madeira para cabos de guarda-chuva, blocos de granito e gelo, enormes montes de mercadorias e os meios de embalá-las e transportá-las, muito papel de embrulho e barbante, muitos caixotes, tonéis e carros de carga, e isso é Boston. Quanto mais barris, mais Boston. Os museus, as sociedades científicas e as bibliotecas são acidentais. Reúnem-se ao redor das areias para poupar o transporte em carroças. Os ratos do cais, os funcionários da alfândega e os poetas arruinados buscam fortuna entre os barris. Seus liceus melhores ou piores, suas pregações e seus tratamentos médicos, tudo isso também é acidental, e as alamedas dos parques públicos são sempre coisa de pouca monta. Quando vou a Boston, sigo naturalmente em linha reta através da cidade (passando pelo Mercado), até a extremidade de Long Wharf, e olho para o largo, pois não tenho primos nos becos dos fundos; e ali vejo muitos homens do interior, em mangas de camisa, vindos do Maine, da Pennsylvania, de toda a costa e do interior, além de alguns estrangeiros, carregando e descarregando e conduzindo suas parelhas de um lado para outro, como numa feira rural.

Quando chegamos a Boston naquele outubro, eu tinha nos sapatos um gill de areia de Provincetown; e, em Concord, ainda restava o bastante para polvilhar minhas páginas por muitos dias; e, durante uma semana, pareceu-me ouvir o mar rugir, como se eu vivesse dentro de uma concha.

Os lugares que descrevi talvez pareçam estranhos e remotos aos meus concidadãos; com efeito, de Boston a Provincetown é duas vezes mais longe que da Inglaterra à França. No entanto, entrem no trem e, em seis horas, poderão estar sobre aquelas quatro tábuas e ver o Cabo que, segundo se diz, Gosnold descobriu e que eu descrevi tão pobremente. Se tivessem partido quando lhes dei o primeiro conselho, talvez ainda vissem nossas pegadas na areia, frescas, estendendo-se por todo o caminho dos Faróis de Nauset a Race Point, cerca de trinta milhas; pois a cada passo deixamos uma impressão no Cabo, embora não tivéssemos consciência disso, e embora nosso relato talvez não tenha causado impressão alguma em suas mentes. Mas o que é nosso relato? Nele não há rugido, nem aves da praia, nem tecido de estopa.

Hoje, muitas vezes gostamos de pensar na vida dos homens nas praias, ao menos em pleno verão, quando o tempo está sereno; em suas vidas ensolaradas sobre a areia, entre o capim-das-dunas e as míricas; tendo por companheira uma vaca, por riqueza uma braçada de madeira à deriva ou algumas ameixas-da-praia, e por música a arrebentação e o pio da ave da praia.

Fomos ver o Oceano, e aquele é provavelmente o melhor lugar de toda a nossa costa aonde ir para isso. Indo por água, pode-se experimentar o que é deixar estas costas e aproximar-se delas; pode-se ver no caminho o painho-de-cauda-quadrada, θαλασσοδρόμα, correndo sobre o mar, e, se o tempo estiver apenas um pouco fechado, perder de vista a terra no meio da travessia. Não sei onde há, nos Estados do Atlântico, outra praia ligada ao continente que seja tão longa e, ao mesmo tempo, tão reta e completamente ininterrupta por riachos, enseadas, rios de água doce ou pântanos; pois, embora possam existir trechos desimpedidos no mapa, o viajante a pé provavelmente os encontraria cortados por riachos e pântanos. Certamente não há outra em que exista uma via dupla, como a que descrevi, uma praia e uma escarpa, que ao mesmo tempo mostre a terra e o mar e, durante parte do tempo, dois mares. A Great South Beach de Long Island, que visitei desde então, é ainda mais longa sem uma abertura; mas é literalmente um mero banco de areia, exposto, a várias milhas da Ilha, e não a borda de um continente que se desfaz sob os assaltos do Oceano. Embora selvagem e desolada, como lhe falta a escarpa imponente, possui aos meus olhos apenas metade da grandiosidade de Cape Cod, e tampouco a imaginação se satisfaz com sua orientação meridional. As únicas outras praias de grande extensão em nossa costa atlântica de que ouvi marinheiros falarem são as de Barnegat, na costa de Jersey, e Currituck, entre Virginia e North Carolina; mas estas, como a anterior, são bancos de areia baixos e estreitos, situados ao largo da costa e separados do continente por lagunas. Além disso, à medida que se avança para o sul, as marés se tornam mais fracas e deixam de acrescentar variedade e grandiosidade à costa. Também no lado do Pacífico de nosso país, sem dúvida, há boas caminhadas a fazer; um escritor recente, morador daquela região, conta-nos que “a costa de Cape Disappointment (ou do Columbia River) a Cape Flattery (no Strait of Juan de Fuca) corre quase de norte a sul e pode ser percorrida em quase toda a sua extensão por uma bela praia de areia”, com exceção de duas baías, quatro ou cinco rios e alguns promontórios que avançam mar adentro. Os moluscos comuns encontrados ali parecem ser muitas vezes de tipos correspondentes, quando não de espécies idênticas, aos de Cape Cod. A praia que descrevi, contudo, não é firme o bastante para carruagens e deve ser explorada a pé. Depois que uma carruagem passa, a seguinte afunda ainda mais no sulco deixado por ela. Atualmente, ela não tem nome, assim como não tem fama. A porção ao sul de Nauset Harbor é comumente chamada Chatham Beach. A parte em Eastham chama-se Nauset Beach, e a que fica diante de Wellfleet e Truro, Back-side ou, às vezes, talvez, Cape Cod Beach. Penso que a parte que se estende sem interrupção de Nauset Harbor a Race Point deveria chamar-se Cape Cod Beach, e é assim que me refiro a ela.

Um dos lugares mais atraentes para visitantes fica na parte nordeste de Wellfleet, onde provavelmente se poderiam obter acomodações (quero dizer, para homens e mulheres de saúde e hábitos razoáveis) a menos de meia milha do litoral. É onde melhor se combinam o campo e a beira-mar. Embora o Oceano esteja fora de vista, seu murmúrio mais tênue é audível, e basta subir uma colina para encontrar-se à sua borda. É apenas um passo da superfície vítrea dos Herring Ponds até o grande Lago Atlântico, onde as ondas nunca deixam de quebrar. Ou talvez o Farol de Highland, em Truro, possa competir com esse lugar, pois ali há uma vista mais desimpedida do Oceano e da Baía, e no verão sempre corre algum ar à borda da escarpa, de modo que os habitantes não sabem o que é tempo quente. Quanto à vista, o faroleiro, acompanhado de um ou mais membros da família, caminha até a borda da escarpa depois de cada refeição para olhar ao largo, como se não tivessem vivido ali todos os seus dias. Em suma, é uma vista que não se gasta. E que quadro vocês colocarão nas paredes em lugar dela? Mas, atualmente, as senhoras não conseguem descer a escarpa sem o auxílio de uma talha.

A maioria das pessoas visita a beira-mar em tempo quente, quando os nevoeiros são frequentes e a atmosfera costuma estar carregada, e o encanto do mar se perde em certa medida. Mas suspeito que o outono seja a melhor estação, pois então a atmosfera é mais transparente e olhar para o mar dá maior prazer. O ar límpido e revigorante, e até mesmo as tempestades do outono e do inverno, são necessários para que recebamos a impressão que o mar está destinado a causar. Em outubro, quando o tempo não está intoleravelmente frio e a paisagem veste seus matizes outonais, matizes que, creio eu, somente uma paisagem de Cape Cod veste, sobretudo se houver uma tempestade durante sua estada, esse, estou convencido, é o melhor momento para visitar esta costa. No outono, até mesmo em agosto, começam os dias reflexivos, e podemos caminhar em qualquer lugar com proveito. Além disso, um frio e uma desolação exteriores, que tornam necessário buscar abrigo à noite, conferem à caminhada um espírito de aventura.

Há de chegar o tempo em que esta costa será um lugar de veraneio para os habitantes da Nova Inglaterra que de fato desejam visitar a beira-mar. Atualmente ela é inteiramente desconhecida do mundo elegante, e provavelmente nunca será agradável a ele. Se o visitante procura apenas uma pista de boliche, uma ferrovia circular ou um oceano de julepo de hortelã, se pensa mais no vinho que na salmoura, como suspeito que alguns façam em Newport, confio que por muito tempo ficará decepcionado aqui. Mas esta costa nunca será mais atraente do que é agora. Praias como as que estão na moda são aqui feitas e desfeitas num único dia, quase se pode dizer, pelo mar ao deslocar suas areias. Lynn e Nantasket! É este braço nu e curvado que forma a baía em que repousam tão abrigadas. Que são fontes e cachoeiras? Aqui está a fonte das fontes, a cachoeira das cachoeiras. Uma tempestade no outono ou no inverno é a ocasião de visitá-la; um farol ou a cabana de um pescador, o verdadeiro hotel. Um homem pode estar ali e pôr toda a América atrás de si.

[1] É notável que a primeira parte da Nova Inglaterra, se não a única, que Cartier viu tenha sido Vermont (ele também viu as montanhas de New York), do Montreal Mountain, em 1535, sessenta e sete anos antes de Gosnold ver Cape Cod. Se ver é descobrir, e isso é tudo o que está provado que Cabot sabia da costa dos Estados Unidos, então Cartier (para não falar de Verrazani e Gomez) foi o descobridor da Nova Inglaterra, e não Gosnold, a quem comumente se atribui esse título.

[2] “Savage Rock”, que alguns, por causa do nome, supuseram ser the Salvages, uma laje rochosa a cerca de duas milhas de Rockland, Cape Ann, era provavelmente the Nubble, uma rocha grande e elevada perto da costa, no lado leste de York Harbor, Maine. Presume-se, segundo navegadores experientes, que a primeira terra avistada por Gosnold tenha sido Cape Elizabeth, na mesma costa. (Ver History of Gloucester, Massachusetts, de Babson.)

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