Através do Cabo Cape Cod · Capítulo 7 de 10
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Através do Cabo

Quando voltamos do litoral, às vezes nos perguntamos por que não passamos mais tempo contemplando o mar; mas muito em breve o viajante já não olha para o mar mais do que para os céus. Quanto ao interior, se é que se pode dizer que o elevado banco de areia em meio ao oceano tenha algum interior, era uma paisagem extremamente desolada, raramente se avistando um campo cultivado ou cultivável. Não vimos aldeias e, raras vezes, uma casa, pois estas ficam geralmente do lado da Baía. Era uma sucessão de colinas e vales cobertos de arbustos, então revestidos de matizes outonais. Muitas vezes se pensaria, pelo caráter da superfície, pelas árvores anãs e pelas uvas-de-urso ao redor, estar no alto de uma montanha. O único bosque de Eastham ficava na orla de Wellfleet. Os pinheiros-resinosos em geral não tinham mais de quinze ou dezoito pés de altura. Os maiores eram cobertos de líquens, muitas vezes pendendo deles a longa e cinzenta Usnea. Mal existe um pinheiro-branco no antebraço do Cabo. Ainda assim, na parte noroeste de Eastham, perto do Camp Ground, vimos, no verão seguinte, alguns recantos bastante rurais, e até silvestres, para o Cabo, onde pequenos bosques sussurrantes de carvalhos, acácias e pinheiros murmurantes, em terreno perfeitamente plano, formavam um pequeno paraíso. As acácias, tanto transplantadas quanto nascidas naturalmente ao redor das casas dali, pareciam prosperar melhor que qualquer outra árvore. Havia faixas estreitas de mata em Wellfleet e Truro, a uma milha ou mais do Atlântico, mas, na maior parte, podíamos ver o horizonte através delas ou, quando eram extensas, as árvores não eram grandes. Tanto os carvalhos quanto os pinheiros tinham muitas vezes o mesmo aspecto achatado das macieiras. Em geral, os bosques de carvalho de vinte e cinco anos não passavam de uma moita rala e desgrenhada, de nove ou dez pés de altura, e com frequência podíamos alcançar-lhes a folha mais alta. Muito do que se chamava “bosque” tinha cerca de metade dessa altura, apenas manchas de carvalho-arbustivo, mírica, ameixeira-da-praia e rosas silvestres, tomadas por trepadeiras. Quando as rosas estavam floridas, essas manchas em meio à areia exibiam tal profusão de flores, misturada ao aroma da mírica, que nenhum roseiral italiano ou outro jardim artificial de rosas poderia igualá-las. Eram perfeitamente elísias e concretizavam minha ideia de um oásis no deserto. Os arbustos de mirtilo eram muito abundantes e, no verão seguinte, produziram uma quantidade notável daquela espécie de galha chamada maçã-de-mirtilo, formando flores bastante belas, embora monstruosas. Mas é preciso acrescentar que essa vegetação fervilhava de carrapatos-do-mato, parasitas por vezes muito incômodos e que exigem dedos muito calejados para serem esmagados.

Os habitantes dessas cidades têm grande consideração por uma árvore, embora o padrão que adotam para ela não possa ser nem grande nem elevado; e, quando lhe falam das grandes árvores que outrora cresciam ali, é preciso imaginá-las não como absolutamente grandes, mas grandes em comparação com a geração atual. Seus “bravos velhos carvalhos”, dos quais falam com tanto respeito e que lhe apontam como relíquias da floresta primitiva, com cem ou cento e cinquenta, sim, pelo que sabem, duzentos anos de idade, têm uma aparência ridiculamente anã, que provoca um sorriso em quem os contempla. Os maiores e mais veneráveis que lhe mostram em casos assim talvez não tenham mais de vinte ou vinte e cinco pés de altura. Divertiram-me especialmente os velhos carvalhos liliputianos da parte sul de Truro. Ao olhar inexperiente, que apreciasse apenas suas proporções, poderiam parecer vastos como a árvore que salvou sua majestade real; mas, uma vez medidos, reduziam-se de pronto quase a líquens que um cervo poderia devorar numa manhã. Ainda assim, dirão que grandes escunas já foram construídas com madeira que crescia em Wellfleet. As casas antigas também foram erguidas com madeira do Cabo; porém, no lugar das florestas em meio às quais originalmente se encontravam, charnecas estéreis, tendo capim-da-pobreza por urze, agora se estendem por todos os lados. As casas modernas são construídas com o que se chama “madeira dimensionada”, importada do Maine, já toda pronta para ser montada, de modo que em geral nem sequer tornam a tocá-la com o machado. Quase toda a madeira usada como combustível é importada por embarcações ou correntes marítimas, e naturalmente todo o carvão. Disseram-me que provavelmente um quarto do combustível e uma parte considerável da madeira de construção usada em North Truro era madeira à deriva. Muitos obtêm todo o seu combustível na praia.

Entre as aves que não são encontradas no interior do Estado, pelo menos em minha vizinhança, ouvi, no verão, o escrevedeira-de-garganta-preta (Fringilla Americana) em meio aos arbustos e, no campo aberto, o maçarico-dos-campos (Totanus Bartramius), cujas notas trêmulas, vez por outra, prolongavam-se num grito límpido, um tanto plangente, mas semelhante ao de um gavião, que parecia vir de uma distância muito indefinida. A ave podia estar no campo ao lado, embora soasse a uma milha dali.

Hoje caminhávamos por Truro, uma cidade de cerca de mil e oitocentos habitantes. Já havíamos chegado ao Pamet River, que deságua na Baía. Esse foi o limite da jornada dos Peregrinos Cabo acima, partindo de Provincetown, quando procuravam um lugar para se estabelecer. Ele nasce numa depressão a poucos rods do Atlântico, e alguém que vivia perto de sua nascente nos contou que, nas marés altas, o mar se infiltrava através da barreira; ainda assim, o vento e as ondas a preservam intacta entre ambos, e assim o rio inteiro é continuamente empurrado para oeste, com a extremidade romba à frente, nascente, canal e farol na foz, tudo junto.

No começo da tarde chegamos ao Farol de Highland, cuja torre branca víamos elevar-se do barranco à nossa frente havia uma ou duas milhas. Fica a quatorze milhas dos Faróis de Nauset, naquilo que se chama Clay Pounds, um imenso leito de argila que avança até o Atlântico e, segundo nos disse o faroleiro, estende-se de um lado a outro do Cabo, que ali tem apenas cerca de duas milhas de largura. Percebemos de imediato uma diferença no solo, pois havia uma interrupção do deserto e um leve indício de relva sob nossos pés, algo que não víamos havia dois dias.

Depois de combinarmos nossa hospedagem no farol, vagamos de um lado a outro do Cabo até a Baía, por uma região singularmente agreste e de aparência estéril, composta de colinas arredondadas e depressões, chamadas pelos geólogos de elevações e depressões diluviais, uma espécie de paisagem que já foi comparada a um mar picado, embora isso sugira uma transição súbita demais. Há uma representação dessa mesma paisagem no Report on the Geology of Massachusetts, de Hitchcock, obra que, ao menos por seu tamanho, faz pensar numa elevação diluvial. Olhando para o sul a partir do farol, o Cabo parecia um planalto elevado, inclinando-se com grande regularidade, embora suavemente, desde a borda do barranco do lado do Atlântico, cerca de cento e cinquenta pés acima do oceano, até a do lado da Baía. Ao atravessá-lo, descobrimos que era interrompido por vales largos ou ravinas, que se transformam nas depressões do barranco quando o mar avança até eles. Em geral, formam ângulos retos com a costa e muitas vezes se estendem de um lado a outro do Cabo. Alguns vales, porém, são circulares, têm cem pés de profundidade e nenhuma saída, como se o Cabo houvesse afundado nesses lugares ou como se suas areias houvessem escoado. As poucas casas dispersas pelas quais passamos, situadas no fundo das depressões em busca de abrigo e fertilidade, estavam, na maior parte, completamente ocultas, como se houvessem sido engolidas pela terra. Até uma aldeia com sua casa de reuniões, que havíamos deixado pouco mais de um arremesso de pedra para trás, afundara na terra, campanário e tudo, e víamos apenas a superfície das terras altas e o mar de ambos os lados. Ao nos aproximarmos, havíamos tomado o campanário por um pavilhão de verão na planície. Começamos a pensar que poderíamos despencar dentro de uma aldeia antes mesmo de perceber, como num buraco de formiga-leão, e ser irremediavelmente tragados pela areia. Os objetos mais conspícuos em terra eram um moinho de vento distante ou uma casa de reuniões solitária, pois somente eles podiam se dar ao luxo de ocupar um lugar exposto. Grande parte do município, porém, é uma planície estéril, semelhante a uma charneca, e talvez um terço dela seja terra comum, embora propriedade de particulares. O autor da antiga “Descrição de Truro”, falando do solo, diz: “A neve, que lhe seria de utilidade essencial se permanecesse nivelada e cobrisse o chão, é soprada para montes e para dentro do mar.” Essa peculiar região aberta, com uma ou outra mancha de arbustos, estende-se por até sete milhas, ou do Pamet River, ao sul, até High Head, ao norte, e do Oceano à Baía. Caminhar por ela causa num estranho uma impressão semelhante à de estar no mar, e ele descobre ser impossível estimar distâncias sob qualquer tempo. Um moinho de vento ou um rebanho de vacas pode parecer distante, no horizonte, mas, depois de percorrer alguns rods, ele se verá bem junto deles. Também é iludido por outras espécies de miragem. Quando, no verão, vi uma família colhendo mirtilos a uma milha de distância, andando em meio aos arbustos anões, que não lhes chegavam acima dos tornozelos, pareceram-me uma raça de gigantes, de pelo menos vinte pés de altura.

A parte mais elevada e arenosa, junto ao Atlântico, era parcamente coberta de capim-das-dunas e anileira. Depois dela, a superfície das terras altas consistia geralmente de areia branca e cascalho, como sal grosso, através dos quais uma vegetação escassa conseguia despontar. Para dar a um ornitólogo alguma ideia de sua esterilidade, direi que, no mês de junho seguinte, o mês da relva, encontrei ali ovos de bacurau e que quase qualquer rod quadrado das redondezas, escolhido ao acaso, seria um local apropriado para tal postura. O batuíra-de-coleira, que aprecia uma localidade semelhante, também deixa ali seus ovos e enche o ar acima com seu alarido. Essas terras altas também produziam líquens Cladonia, capim-da-pobreza, áster-de-folhas-de-segurelha (Diplopappus linariifolius), orelha-de-rato, uva-de-urso etc. Em algumas encostas, o áster-de-folhas-de-segurelha e a orelha-de-rato, sozinhos, formavam um relvado bastante denso, que se dizia muito bonito quando o áster estava em flor. Em algumas partes, as duas espécies de capim-da-pobreza (Hudsonia tomentosa e ericoides), que merecem nome melhor, reinam por milhas em pequenos tufos ou ilhotas hemisféricos, como musgo, dispersos pela extensão deserta. Ali permanecem floridos até meados de julho. Ocasionalmente, perto da praia, esses canteiros arredondados, assim como os de arenária-marinha (Honkenya peploides), enchiam-se de areia até uma polegada abaixo do topo e ficavam duros, como grandes formigueiros, enquanto a areia ao redor permanecia macia. No verão, quando o capim-da-pobreza cresce à cabeceira de uma Depressão voltada para o mar, numa posição desabrigada por onde o vento sobe com violência, a metade norte ou exposta do tufo por vezes fica toda negra e morta, como uma vassoura de forno, enquanto a metade oposta fica amarela de flores, apresentando assim toda a encosta um contraste notável, conforme vista do lado empobrecido ou do lado florescente. Essa planta, que em muitos lugares seria estimada como ornamento, é ali desprezada por muitos por estar associada à esterilidade. Bem poderia ser adotada no brasão de Barnstable, num campo sableux. Eu me orgulharia dela. Aqui e ali havia extensões de capim-das-dunas misturado à vara-de-ouro-marítima e à ervilha-da-praia, o que nos fazia lembrar ainda mais vividamente o oceano.

Lemos que não havia um só riacho em Truro. Contudo, houve cervos aqui outrora, que muitas vezes devem ter arquejado em vão; mas tenho quase certeza de que depois vi um pequeno riacho de água doce desaguando no lado sul do rio Pamet, embora eu tenha sido tão desatento que não o provei. De todo modo, um menino que estava por perto me disse que bebia dele. Não havia árvore alguma até onde a vista alcançava, e isso significava muitas milhas em cada direção, pois o nível geral das terras altas era aproximadamente o mesmo em toda parte. Até do lado do Atlântico avistávamos a Baía e víamos Manomet Point, em Plymouth, melhor ainda daquele lado, por ser o mais elevado. A nudez e a suavidade quase universais da paisagem eram tão agradáveis quanto novas, tornando-a ainda mais semelhante ao convés de uma embarcação. Víamos navios entrando na Baía rumo ao sul, de um lado, e seguindo para o norte ao longo da costa atlântica, do outro, todos com vento de popa.

A única estrada que percorre longitudinalmente o Cabo, ora serpenteando pela planície, ora atravessando os arbustos que raspam as rodas da diligência, era uma simples trilha de carroça na areia, em geral sem cercas que a delimitassem, e mudava continuamente de um lado para outro em busca de terreno mais firme ou, às vezes, para evitar a maré. Mas os habitantes atravessam a região erma daqui para ali como peregrinos, cajado na mão, por estreitas veredas das quais a areia escorre, revelando a nudez da terra. Estremecemos ao pensar em viver ali e fazer nossos passeios vespertinos por aquelas ondulações estéreis, onde poderíamos contemplar cada passo de nossa caminhada antes de dá-lo e teríamos de rezar por um nevoeiro ou uma tempestade de neve que ocultasse nosso destino. O caminhante dali logo há de consumir o próprio coração.

Na parte norte do município, não há casa alguma de uma costa à outra por várias milhas, e a região é tão selvagem e solitária quanto as Pradarias do Oeste costumavam ser. Na verdade, quem tiver visto todas as casas de Truro ficará surpreso ao saber o número de habitantes, mas talvez quinhentos homens e meninos dessa pequena cidade estivessem então longe, em seus pesqueiros. Apenas alguns homens ficam em casa para cultivar a areia ou vigiar a chegada das baleias-piloto. Os lavradores são pescadores-lavradores e entendem melhor de arar o mar que a terra. Não revolvem muito suas areias, embora haja abundância de algas marinhas nos canais, para não falar das baleias-piloto que ocasionalmente apodrecem na costa. Entre Pond Village e East Harbor Village havia uma interessante plantação de pinheiros-resinosos, com vinte ou trinta acres de extensão, semelhante às que já havíamos visto da diligência. Um morador das proximidades disse que a terra fora comprada por dois homens por um xelim ou vinte e cinco centavos o acre. Há terrenos que não são considerados dignos sequer da escritura. Esse solo, ou areia, parcialmente coberto de capim-da-pobreza e capim-das-dunas, azeda etc., fora sulcado a intervalos de cerca de quatro pés, e as sementes, lançadas por uma máquina. Os pinheiros haviam brotado admiravelmente e crescido três ou quatro polegadas no primeiro ano, e seis polegadas ou mais no segundo. Onde as sementes haviam sido plantadas recentemente, a areia branca aparecia recém-exposta num sulco interminável que dava voltas e mais voltas pelos flancos das depressões profundas, como uma espiral vertical, produzindo um efeito muito singular, como se contemplássemos o reverso de um vasto escudo listrado. Esse experimento, tão importante para o Cabo, parecia muito bem-sucedido, e talvez chegue o tempo em que a maior parte dessas terras no condado de Barnstable esteja assim coberta por uma floresta artificial de pinheiros, como se fez em algumas regiões da França. Naquele país, 12.500 acres de dunas haviam sido cobertos dessa maneira em 1811, perto de Bayonne. São chamados de pignadas e, segundo Loudon, “constituem a principal riqueza dos habitantes, onde antes havia um deserto de areia movediça”. Parecia uma espécie de cereal mais nobre de cultivar até mesmo que o milho.

Poucos anos antes, Truro se destacava entre as cidades do Cabo pelo número de ovelhas ali criadas; mas disseram-me que, naquela época, apenas dois homens mantinham ovelhas no município e, em 1855, um menino de Truro, de dez anos, disse-me que nunca vira uma. Antigamente elas pastavam nas terras não cercadas ou campos comunais, mas agora os proprietários faziam mais questão de afirmar seus direitos, e cercar custava caro demais. As varas das cercas são de cedro do Maine, e duas bastam para os usos comuns, mas quatro são necessárias para ovelhas. Essa foi a razão apresentada por um homem que as criara outrora para não mais fazê-lo. O material para cercas é tão caro que vi cercas feitas com uma única vara, e muitas vezes, quando a vara se partia, era cuidadosamente amarrada com um barbante. Numa das aldeias, no verão seguinte, vi uma vaca presa a uma corda de seis rods, a corda longa na mesma proporção em que a pastagem era curta e rala. Sessenta rods, sim, todos os cabos do Cabo, não teriam sido mais que justos. Amarrada no deserto por medo de que entrasse na Arabia Felix! Ajudei um homem a pesar um feixe de feno que vendia ao vizinho, segurando uma ponta da vara da qual o feixe pendia por um gancho de balança romana, e aquilo era exatamente metade de toda a sua colheita. Em suma, a região parecia tão estéril que várias vezes me abstive de pedir aos habitantes um barbante ou um pedaço de papel de embrulho, por medo de roubá-los, pois era evidente que tinham de importar essas coisas tanto quanto as varas de cerca e, onde não havia jornaleiros, eu não via de onde tirariam papel usado.

Os objetos ao nosso redor, os expedientes improvisados pelos pescadores em terra, muitas vezes nos faziam baixar os olhos para verificar se estávamos mesmo em terra firma. Nos poços, por toda parte, usavam-se moitão e talha para erguer o balde, em vez de sarilho, e junto de quase todas as casas havia uma verga ou uma ou duas pranchas cheias de furos de trado, guardadas de algum naufrágio. Os moinhos de vento eram parcialmente construídos com esse material, que também era incorporado às pontes públicas. O faroleiro, cujo celeiro estava sendo coberto com telhas, contou-me casualmente que fizera três mil boas telhas para esse fim a partir de um mastro. Às vezes se via um remo velho usado como vara de cerca. Com frequência, também, algum ornamento para bom tempo, arrancado de uma embarcação por uma tempestade perto da costa, era pregado contra uma dependência. Vi, fixada a um galpão perto do farol, uma longa placa nova com as palavras “ANGLO SAXON” em grandes letras douradas, como se fosse uma peça inútil que o navio pudesse dar-se ao luxo de perder, ou que os marinheiros tivessem dispensado ao mesmo tempo que o prático. Mas ela despertava certo interesse, como se houvesse feito parte da Argo e tivesse sido decepada ao passar pelas Simplégades.

Para o pescador, o próprio Cabo é uma espécie de navio-armazém carregado de provisões, uma embarcação mais segura e maior, que transporta as mulheres e as crianças, os velhos e os doentes; e, de fato, as expressões marítimas são tão comuns nele quanto a bordo de um navio. Assim é sempre entre um povo que se faz ao mar. Os antigos homens do Norte costumavam falar da “cumeeira-quilha” do país, isto é, a cadeia dos montes Doffrafield, como se a terra fosse um barco virado com o fundo para cima. Aqui eu era frequentemente lembrado dos homens do Norte. Os habitantes do Cabo são muitas vezes, a um só tempo, lavradores e corsários do mar; são mais que vikings, ou reis das baías, pois seu domínio também se estende pelo mar aberto. Um lavrador de Wellfleet, em cuja casa passei depois uma noite, que havia colhido cinquenta bushels de batatas no ano anterior, uma grande safra para o Cabo, e possuía extensas salinas, apontou para sua escuna, que estava à vista, na qual ele, seu empregado e seu menino de vez em quando desciam a costa comerciando até os Cabos da Virgínia. Aquele era seu carro de mercado, e seu empregado sabia governá-lo. Assim, ele conduzia duas parelhas ao campo,

“antes que os altos mares surgissem

sob as pálpebras abertas da manhã.”

Embora provavelmente não ouvisse falar muito da “mosca cinzenta” a caminho da Virgínia.

Uma grande proporção dos habitantes do Cabo está sempre assim longe, cuidando de seus transportes por uma ou outra estrada oceânica, e a história de uma de suas viagens comuns deixaria na sombra a expedição dos Argonautas. Acabo de saber de um capitão de Cape Cod que era esperado de volta das Índias Ocidentais no começo do inverno, mas havia muito fora dado como perdido, até que seus parentes enfim souberam, com alegria, que, depois de chegar a quarenta milhas do Farol de Cape Cod, nove vendavais sucessivos o haviam empurrado de volta a Key West, entre a Flórida e Cuba, e ele novamente traçava seu rumo para casa. Assim passou o inverno. Nos tempos antigos, as aventuras desses dois ou três homens e meninos teriam servido de fundamento a um mito, mas hoje tais relatos são comprimidos numa linha de sinais taquigráficos, como uma fórmula algébrica nas notícias marítimas. “Onde quer que, pelo mundo”, disse Palfrey em seu discurso em Barnstable, “vejais flutuar as estrelas e listras, podeis ter boa esperança de que sob elas se encontre alguém capaz de vos informar as sondagens de Barnstable, Wellfleet ou Chatham Harbor.”

Certo dia, lá para os lados da costa de Plymouth, passei pela casa do tio Bill de alguém, ou de todos. Era uma escuna meio adernada sobre a lama; despertamos o mestre de um sono profundo ao meio-dia, batendo no fundo da embarcação até que ele aparecesse na escotilha, pois queríamos tomar emprestado seu cavador de amêijoas. Pretendendo visitá-lo, olhei para fora na manhã seguinte e eis que ele havia atravessado para “the Pines” na noite anterior, receando uma tempestade de leste. Ele resistiu ao grande vendaval da primavera de 1851, sacudido de um lado para outro, sozinho, na Baía de Plymouth. Vai buscar algas-das-rochas, alivia a carga de navios e salva destroços. Eu ainda o via assentado na lama lá em “the Pines”, no horizonte, lugar de onde não poderia sair, mesmo que quisesse, até a maré enchente. Mas provavelmente não quereria sair naquele momento. Essa espera pela maré é um traço singular da vida à beira-mar. Uma resposta frequente é: “Bem! Você ainda não pode partir por duas horas.” É algo novo para quem vive em terra firme e, a princípio, ele não se dispõe a esperar. A história diz que “dois habitantes de Truro foram os primeiros a se aventurar até as ilhas Falkland em busca de baleias. Essa viagem foi empreendida no ano de 1774, por conselho do almirante Montague, da marinha britânica, e foi coroada de êxito.”

Em Pond Village vimos uma lagoa de três oitavos de milha de comprimento, densamente tomada por taboas de sete pés de altura, suficientes para todos os tanoeiros da Nova Inglaterra.

A costa oeste era quase tão arenosa quanto a leste, mas a água era muito mais calma, e o fundo estava parcialmente coberto pela esguia alga semelhante a capim (Zostera), que não havíamos visto no lado do Atlântico; havia também ali, na praia, alguns galpões rústicos para derreter a gordura dos peixes, o que fazia o lugar parecer menos selvagem. Nas poucas marismas desse lado, vimos depois salicórnia, alecrim e outras plantas desconhecidas para nós, habitantes do interior.

No verão e no outono, às vezes, centenas de peixes-negros (a Baleia Social, Globicephalus Melas, de De Kay; também chamados Peixe-Baleia-Negro, Baleia-Uivante, Cabeça-de-Garrafa etc.), com quinze pés ou mais de comprimento, são tangidos para a praia aqui num único cardume. Testemunhei uma cena dessas em julho de 1855. Um carpinteiro que trabalhava no farol, chegando cedo pela manhã, comentou que não sabia se não havia perdido cinquenta dólares por ter vindo trabalhar; pois, ao seguir pela margem da baía, ouvira que estavam tangendo um cardume de peixes-negros para a praia e ficara debatendo consigo mesmo se não deveria ir juntar-se a eles e tomar sua parte, mas concluíra que viria trabalhar. Depois do café da manhã, vim até este lugar, a cerca de duas milhas de distância, e perto da praia encontrei alguns pescadores voltando da perseguição. Olhando para cima e para baixo ao longo da costa, pude ver, cerca de uma milha ao sul, grandes massas negras sobre a areia, que eu sabia só poderem ser peixes-negros, e um ou dois homens junto delas. Enquanto caminhava em sua direção, logo cheguei a uma enorme carcaça cuja cabeça desaparecera e cuja camada de gordura fora retirada algumas semanas antes; a maré mal começava a movê-la, e o fedor obrigou-me a fazer uma grande volta. Quando cheguei a Great Hollow, encontrei um pescador e alguns meninos de vigia e contei cerca de trinta peixes-negros recém-mortos, com muitos ferimentos de lança, e a água mais ou menos ensanguentada ao redor. Estavam em parte na praia e em parte na água, presos por uma corda em torno da cauda até que a maré os deixasse em seco. Um barco fora um tanto avariado pela cauda de um deles. Eram de um negro liso e brilhante, como borracha da Índia, e tinham formas extraordinariamente simples e pesadonas para criaturas animadas, com focinho ou cabeça rombudos e arredondados, semelhantes aos de uma baleia, e nadadeiras simples, de aparência rígida. Os maiores tinham cerca de quinze pés de comprimento, mas um ou dois tinham apenas cinco pés e ainda não possuíam dentes. O pescador talhou um deles com seu canivete para me mostrar a espessura da camada de gordura, cerca de três polegadas; e, quando passei o dedo pelo corte, ele ficou coberto de óleo espesso. A gordura parecia toucinho, e aquele homem disse que, quando a derretiam, os meninos às vezes apareciam com um pedaço de pão numa mão e pegavam com a outra um pedaço de gordura para comer com ele, preferindo-a aos torresmos de porco. Ele também cortou a carne por baixo, que era firme e vermelha como carne bovina, e disse que, de sua parte, quando fresca, preferia-a à carne de boi. Afirma-se que, em 1812, os peixes-negros eram usados como alimento pelos pobres da Bretanha. Esperavam que a maré deixasse aqueles animais bem altos e secos, para que pudessem retirar-lhes a gordura e levá-la nos barcos até suas fornalhas de derretimento, onde a processavam na praia. Obtêm normalmente de cada animal um barril de óleo, no valor de quinze ou vinte dólares. Havia muitas lanças e arpões nos barcos, instrumentos muito mais delgados do que eu esperava. Um velho vinha pela praia com um cavalo e uma carroça, distribuindo os almoços dos pescadores, que suas esposas haviam preparado em pequenos baldes e jarros e que ele recolhera em Pond Village; por esse serviço, suponho, recebia uma parte do óleo. Quando alguém não conseguia reconhecer o próprio balde, pegava o primeiro que encontrava.

Enquanto eu estava ali, ergueram o grito de “outro cardume”, e pudemos ver seus dorsos negros e seus sopros a cerca de uma milha ao norte, enquanto avançavam saltando sobre o mar como cavalos. Alguns barcos já os perseguiam por lá, tangendo-os em direção à praia. Outros pescadores e meninos, correndo para cima, começaram a saltar nos barcos e a empurrá-los para a água do ponto onde eu estava, e eu também poderia ter ido, caso quisesse. Logo havia vinte e cinco ou trinta barcos na perseguição, alguns grandes, à vela, e outros avançando a remo com todas as forças, mantendo-se pelo lado de fora do cardume; os que estavam mais próximos dos animais batiam nas laterais dos barcos e sopravam cornetas para tangê-los até a praia. Era uma corrida empolgante. Quando conseguem levá-los à praia, cada barco recebe uma parte e depois cada homem; mas, quando são obrigados a arpoá-los ao largo, a tripulação de cada barco fica com os animais que atingir. Caminhei rapidamente pela costa em direção ao norte, enquanto os pescadores remavam ainda mais depressa para alcançar os companheiros, e um menininho que caminhava ao meu lado congratulava-se porque o barco de seu pai estava vencendo outro. Um velho pescador cego que encontramos perguntou: “Onde estão? Não consigo ver. Eles os pegaram?” Enquanto isso, os animais haviam virado e escapavam para o norte, em direção a Provincetown, aparecendo apenas de vez em quando o dorso de um deles. Assim, as tripulações mais próximas foram obrigadas a arpoá-los, e logo vimos vários barcos presos, cada qual ao seu animal, que, quatro ou cinco rods à frente, o puxava como um cavalo de corrida em linha reta para a praia, saltando meio corpo para fora da água, expelindo sangue e água pelo espiráculo e deixando atrás de si uma esteira de espuma. Mas deram à praia muito ao norte de nós, embora pudéssemos ver os pescadores saltarem para fora e trespassá-los com lanças sobre a areia. Era exatamente como as imagens da caça à baleia que já vi, e um pescador me disse que era quase tão perigoso. Em sua primeira tentativa, ficara muito excitado e, na pressa, usara uma lança ainda dentro da bainha; mesmo assim, atravessara inteiramente o animal.

Soube que, poucos dias antes, cento e oitenta peixes-negros haviam sido tangidos para a praia num único cardume em Eastham, um pouco mais ao sul, e que o faroleiro de Billingsgate Point saíra certa manhã, por volta da mesma época, e gravara suas iniciais no dorso de um grande cardume que encalhara durante a noite, vendendo seu direito sobre eles a Provincetown por mil dólares; e provavelmente Provincetown ganhou outro tanto. Outro pescador me contou que, dezenove anos antes, trezentos e oitenta haviam sido tangidos para a praia num único cardume em Great Hollow. Na Naturalists’ Library, diz-se que, no inverno de 1809-10, mil cento e dez “aproximaram-se da costa de Hralfiord, na Islândia, e foram capturados”. De Kay afirma que não se sabe por que encalham. Mas um pescador declarou-me que corriam para a praia perseguindo lulas e que em geral chegavam à costa por volta do fim de julho.

Cerca de uma semana depois, quando voltei a essa costa, ela estava coberta, até onde eu conseguia enxergar com uma luneta, pelas carcaças dos peixes-negros, despojadas da gordura e com as cabeças cortadas; estas jaziam mais acima. Caminhar pela praia estava fora de questão por causa do fedor. Entre Provincetown e Truro, elas se estendiam no próprio caminho da diligência. Ainda assim, nenhuma providência foi tomada para eliminar o incômodo, e os homens continuavam capturando lagostas como de costume, logo ao largo. Disseram-me que às vezes rebocavam as carcaças para fora e as afundavam; ainda assim, perguntei-me onde conseguiam as pedras para fazê-las submergir. Naturalmente, poderiam transformá-las em guano, e Cape Cod não é tão fértil que seus habitantes possam dar-se ao luxo de dispensar esse adubo, para nada dizer das doenças que elas podem produzir.

Depois de voltar para casa, desejando saber o que se conhecia a respeito do peixe-negro, recorri aos relatórios dos levantamentos zoológicos do Estado e descobri que Storer o omitira corretamente de seu Relatório sobre os Peixes, visto que não é peixe; voltei-me então para o Relatório dos Mamíferos, de Emmons, mas fiquei surpreso ao constatar que ele omitira as focas e as baleias por não ter tido oportunidade de observá-las. Considerando como este Estado se ergueu e prosperou graças às suas pescarias; que o legislativo que autorizou o Levantamento Zoológico reunia-se sob o emblema de um bacalhau; que Nantucket e New Bedford ficam dentro de nossos limites; que alguém que se levante cedo pode encontrar, numa manhã, mil ou mil e quinhentos dólares em peixes-negros na praia; que os Peregrinos viram os indígenas esquartejando um peixe-negro na praia de Eastham e chamaram uma parte daquela costa de “Grampus Bay”, devido à quantidade de peixes-negros que ali encontraram antes de chegar a Plymouth; e que, desde então até hoje, esses animais continuaram a enriquecer quase anualmente um ou dois condados, e que suas carcaças em decomposição envenenavam agora o ar de um condado por mais de trinta milhas, achei extraordinário que nem o nome popular nem o científico constassem de um relatório sobre nossos mamíferos, um catálogo das produções de nossa terra e de nossas águas.

Tínhamos dali, assim como de todo ponto através do Cabo, uma boa vista de Provincetown, a cinco ou seis milhas de distância sobre a água, na direção oeste, sob suas colinas de areia cobertas de arbustos, com o porto agora repleto de embarcações cujos mastros se misturavam às torres das igrejas, dando-lhe a aparência de uma cidade portuária bastante grande.

Os habitantes de todas as cidades da parte baixa do Cabo desfrutam assim da perspectiva de dois mares. De pé na costa ocidental, ou de bombordo, e olhando através da água para onde se avoluma ao longe o continente, podem dizer: Esta é a baía de Massachusetts; e então, depois de uma hora de passeio sem pressa, podem postar-se a estibordo, para além do qual não se vê terra alguma avolumar-se, e dizer: Este é o oceano Atlântico.

No caminho de volta ao farol, por cuja torre caiada nos guiávamos com tanta segurança quanto o marinheiro por sua luz à noite, passamos por um cemitério que aparentemente era impedido de ser levado pelo vento graças às suas lápides de ardósia, pois elas haviam permitido que uma espessa camada de arbustos de mirtilo se enraizasse entre as sepulturas. Pensamos que valeria a pena ler os epitáfios num lugar onde tantos se haviam perdido no mar; contudo, como não apenas suas vidas, mas em geral também seus corpos, se haviam perdido ou não tinham sido identificados, havia menos epitáfios dessa espécie do que esperávamos, embora não fossem poucos. O cemitério deles é o oceano. Perto do lado oriental, fizemos uma raposa sair de uma depressão, o único quadrúpede selvagem, com exceção de um gambá numa marisma, que vimos em toda a nossa caminhada (a menos que tartarugas-pintadas e tartarugas-caixa possam ser chamadas de quadrúpedes). Era um sujeito grande, roliço e desgrenhado, semelhante a um cachorro amarelo, com a habitual ponta branca na cauda, e parecia alimentar-se bem no Cabo. Afastou-se a meio galope por entre os carvalhos-arbustivos e as míricas que por acaso cresciam ali, mas que mal eram altos o bastante para escondê-lo. Vi outra no verão seguinte, saltando sobre o topo de uma ameixeira-da-praia um pouco mais ao norte, um pequeno arco de sua trajetória (que espero ainda não tenha chegado ao fim), a partir do qual tentei em vão calcular sua órbita inteira: havia atrações desconhecidas demais a considerar. Vi também as exúvias de uma terceira, afundando depressa na areia, e acrescentei o crânio à minha coleção. Concluí daí que deviam ser numerosas pelas redondezas; mas um viajante pode encontrar mais delas do que um habitante, pois é mais provável que tome uma rota pouco frequentada através da região. Disseram-me que, em certos anos, morriam em grande número por uma espécie de loucura, sob cujo efeito eram vistas girando sem parar, como se perseguissem a própria cauda. No relato de Crantz sobre a Groenlândia, ele diz: “Elas (as raposas) vivem de aves e de seus ovos e, quando não os conseguem, de camarinas-negras, mexilhões, caranguejos e do que o mar lança à costa.”

Pouco antes de chegarmos ao farol, vimos o sol pôr-se na baía, pois estar de pé naquele Cabo estreito era, como já disse, como estar no convés de uma embarcação, ou melhor, no topo do mastro de um navio de guerra, a trinta milhas no mar, embora soubéssemos que, naquele mesmo instante, o sol se punha atrás das colinas de nossa terra natal, que ficavam logo abaixo do horizonte naquela direção. Essa visão expulsou de nossa cabeça todo o resto, e Homero e o Oceano voltaram a irromper nela:

Ἐν δ’ ἔπεσ’ Ὠκεανῷ λαμπρὸν φάος ἠελίοιο,

a tocha resplandecente do sol caiu no oceano.

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