Novas parceiras Os arquivos de Von Kasten · Capítulo 9 de 9
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Novas parceiras

Anna

Tirei os dias de descanso ajudando o William a arrumar a casa. Inúmeros livros empoeirados, mofo em todas as paredes e alguns cômodos ainda cheiravam a cinzas de cigarro, mesmo o William supostamente tendo parado de fumar a anos atrás. Talvez ele não limpe esse lugar a tanto tempo que o cheiro ainda se manteve, fico assustada em saber como meu irmão morava em condições tão insalubres e ainda fazia piada com isso.

No primeiro dia limpamos a loja, ajudei a ele a organizar melhor os itens velhos e deixei os mais chamativos na vitrine e é claro limpamos um a um, já no segundo dia limpamos grande parte daquele porão que ainda estava fedendo a enxofre por algum motivo. Terminamos o segundo dia limpando a cozinha e os quartos.

No fim a casa ganhou outra cara, nem parecia mais aquele chiqueiro mofado, as paredes estavam mais coloridas, o chão estava mais brilhoso e até meu irmão parecia mais acolhedor naquele ambiente.

— Vê se mantém esse lugar desse jeito agora...

— Eu vou tentar, eu prometo - disse meu irmão

— Essa casa nunca esteve tão limpa desde... — Eu travei, um enorme sentimento de nostalgia bateu no peito, William olhou para mim e deu um leve sorriso.

— Desde que a vovó morreu, né? Eu também me lembrei dela... Ela vivia reclamando desse meu jeitão desleixado.

Pude sentir uma leve tristeza na voz de William, horas depois em meus pensamentos fiquei me perguntando se o motivo dele deixar a casa naquele estado era algum tipo de proteção que ele criou ou apenas incompetência e preguiça.

E nada impedia de ser os dois.

Ficamos o resto do dia fora, William me levou até um restaurante para tirar um pouco da carga de casa e aproveitar o resto tempo juntos. Afinal, amanhã teríamos que nos separar e prosseguir com a busca...

Saímos de casa e pegamos a picape, fiz questão de evitar o volante mais uma vez, afinal de contas meu irmão adora dirigir a picape de vovô. Ele entendeu imediatamente e me pediu as chaves, tirei elas bolso e a entreguei.

Ele dirigia calmamente, mas estava estranhamente calado desde a última missão, na verdade tanto eu quanto ele não estávamos conversando tanto.

— William

— O que foi?

— Você está bem? Está meio estranho desde que cheguei na loja.

— Estou sim, ainda meio dolorido do pulmão, mas nada demais.

— Não estou falando fisicamente irmão, você está agindo como se estivesse escondendo algo de mim. Isso está bem visível desde que eu cheguei, aconteceu alguma coisa? Ainda está abalado pelo vovô?

— Tem certeza que quer falar sobre isso agora?

— Em qual momento você quer falar sobre isso?

— Pode ser nunca?

— Não, não pode…

— Por que você é assim?

— Assim como?

— Superprotetora, acha que eu vou explodir se eu não seguir o que me aconselha á risca.

Fiquei calada, estava cansada demais para discutir sobre aquilo mais uma vez.

— Não é por que sou um humaninho frágil e fraco, que vou morrer em qualquer beco da esquin-

— CALADO — gritei — Você sabe como eu sou, e sabe muito bem porque sou assim. — disse diminuindo o tom.

William apenas suspirou, deu um aperto maior no volante e continuou o trajeto. Apenas fiquei olhando para a janela enquanto torcia para aquele clima passasse logo.

Como uma vampira, eu tenho muito tempo de vida, a expectativa de vida do meu clã é de séculos. É totalmente improvável um vampiro como eu morrer de velhice. Vampiros sentem os anos como meses e meses como semanas. Mas eu não, deve ser por conta do sangue humano que tenho, minha percepção de tempo é igual a de um humano. Talvez tenha sido um presente, ou até mesmo uma maldição por não conseguir esquecer as coisas como um vampiro qualquer…

E eu queria muito esquecer várias coisas que vi… Mas ao mesmo tempo quero me lembrar do máximo das coisas vivi com meu irmão…

Eu vou viver séculos depois dele morrer e esse tempo que passo é apenas um grão de areia perto do que ainda vou viver.

Por isso acho que ele pensa que sou superprotetora, eu não quero que meu irmão morra… não tão cedo assim… Eu que dei a ideia dele de reabrir a loja do vovô, para que assim ele ficasse longe das caçadas. Mas infelizmente ele puxou muito muito o nosso pai, muito mais do que gostaria…

Fiquei tempo demais escrevendo isso… Vou dar uma pausa e parar de pensar nisso.

———

O jantar foi horrível, tudo por conta do silêncio pesado entre nós, William pediu uma sopa já que não podia comer nada pesado. Já eu estava comendo normalmente, pelo menos a comida daquele local estava muito boa, a única coisa boa daquela noite.

Voltamos para casa em silêncio. Ao chegar eu fui direto para o quarto de hóspedes e tentei ficar olhando para o teto até cair o sono. Mas no fim fiquei chorando baixinho por um tempo antes de qualquer fagulha de sono.

Queria que ele se abrisse mais, queria que ele ficasse fora disso, não quero que ele morra por mim, não posso perder mais gente da família.

Lembrei daquele dia outra vez, lembrei que não podia nada, me lembrei do terror que senti, lembrei dos gritos da minha mãe tentando me esconder o máximo que podia.

Minha preocupação com meu irmão ainda vai me matar…

Mas enquanto isso, eu vou ficar aqui me lamentando.

———

Acordei e já comecei a arrumar as coisas, dei uma olhada no espelho e vi que meus olhos ainda estavam inchados.

Talvez tenha mentido na parte do “acordei” já que não dormi nada.

Peguei um frasco na minha mochila e tomei, limpei ao redor da boca e me vesti adequadamente para receber os caçadores da ordem. Fui até o banheiro e limpei minha cara, fiquei alguns segundos bem longos me encarando no espelho do banheiro. Tentava me convencer que daria tudo certo, tentava me enganar o máximo que podia. Talvez assim eu conseguisse suportar tudo aquilo.

Me maquiei minimamente para a ocasião, tirar a cara de acabada era prioridade do momento.

Por fim peguei a mochila do quarto e desci para loja.

É lá estava meu irmão, sentado na cadeira como se estivesse deitado na cama. Dormindo com o jornal cara.

Acordo ele? — pensei — Não… Deixa ele se virar, não é isso que ele quer?

Os caçadores da Ordem apareceriam a qualquer momento.

Enquanto isso, meu irmão continuava dormindo profundamente a poucos metros de mim, completamente alheio ao mundo.

Ainda estava irritada com ele, ainda estava magoada, ainda queria jogar aquele jornal longe e obrigá-lo a conversar comigo, mas fiquei olhando para ele por alguns segundos, respirando, vivo.

Desviei os olhos, por enquanto, aquilo teria que bastar.

———

Cerca de quarenta minutos depois, o primeiro deles chegou.

O sino da porta tilintou e meu irmão acordou no mesmo instante, tirando o jornal que estava sobre o rosto e se endireitando na cadeira como se não tivesse passado os últimos minutos roncando atrás do balcão.

— Tô acordado!

— Não me diga...

William passou a mão pelo rosto e tentou inutilmente ajeitar o cabelo. Pelo menos teve a decência de parecer minimamente envergonhado.

A pessoa que acabara de entrar não disse nada.

Caminhou pela loja a passos curtos, observando as antiguidades conforme avançava. Primeiro uma coleção de relógios na parede, depois algumas peças de porcelana, uma espada enferrujada que William insistia em dizer que valia alguma coisa e, por fim, Reginaldo, o crânio que meu irmão mantinha exposto como se aquilo fosse uma decoração perfeitamente normal.

O homem continuou até o balcão e parou diante de William o encarando-o. Meu irmão o encarou de volta, nenhum dos dois disse absolutamente nada.

Cinco segundos. Dez segundos. O clima estava ficando estranho.

Até que o William simplesmente fez um bico para ele. Meu irmão é bem esquisito.

— Ryusei! — chamei.

Ele imediatamente desviou os olhos de William e me encontrou do outro lado da loja.

Pela primeira vez desde que entrara, sua expressão mudou um pouco.

— Anna? Então é você mesmo...

— Então vocês já se conhecem... — disse meu irmão.

Eu havia trabalhado com Ryusei algumas vezes, a maioria das nossas missões envolvia localizar e destruir alvos. Nada particularmente complicado de explicar: a Ordem encontrava alguma coisa que julgava perigosa demais para continuar respirando, nós descobríamos onde ela estava e garantíamos que parasse de respirar. E quando respirar se aplicava Ryusei era bom nisso, muito bom.

Na verdade, aquela era provavelmente a coisa mais importante que alguém precisava saber sobre ele.

Não conversávamos muito durante as missões. Não porque tivéssemos qualquer problema um com o outro, mas porque Ryusei simplesmente não parecia enxergar necessidade em preencher silêncio. Se havia um alvo, ele procurava o alvo. Se havia uma trilha, seguia a trilha. Se alguma coisa tentava matá-lo, ele matava primeiro.

Uma homem bem simples prático. E eu gostava disso nele.

Eu já havia trabalhado com Ryusei algumas vezes. A maioria das missões envolvia localizar e destruir alvos, o tipo de trabalho em que a Ordem apontava para alguma coisa e concluía que o mundo ficaria um pouco melhor se aquilo deixasse de existir.

Ryusei era um bruxo de poucas palavras. Pouquíssimas, na verdade. Não era exatamente antipático, apenas parecia considerar a maior parte das conversas um desperdício de energia. Também não transmitia muitas emoções. Eu já o tinha visto cercado, ferido e coberto pelo sangue de alguma coisa que definitivamente não era humana, e sua expressão continuava praticamente a mesma. Às vezes era difícil saber se estava irritado, preocupado ou apenas pensando no que comeria depois.

Ele também era difícil de colocar numa idade.

Tinha uma aparência estranhamente jovial, talvez de alguém no fim dos vinte anos, mas não se comportava como alguém daquela idade. Seus movimentos eram precisos demais, suas decisões rápidas demais e havia uma experiência nele que não combinava com o rosto. Ryusei tinha aquela postura de quem já havia sobrevivido à mesma situação tantas vezes que não precisava mais pensar antes de agir.

Os cabelos brancos também não ajudavam. Não eram grisalhos; eram realmente brancos, compridos e geralmente presos para trás quando estava trabalhando. Mas o que mais chamava atenção eram os olhos amarelados e felinos. Olhos de gato.

As pupilas estreitas davam a impressão de que ele estava sempre examinando alguma coisa, mesmo quando permanecia completamente imóvel. No começo aquilo me incomodava. Depois de algumas missões, descobri que o problema não eram os olhos.

Era perceber que, na maioria das vezes, Ryusei realmente estava examinando alguma coisa e naquele momento, era meu irmão.

— Trabalhamos juntos três vezes — expliquei.

Ryusei corrigiu:

— Quatro.

Parei para pensar.

— Quatro?

— Floresta de Florença.

— Aquilo conta?

— Havia uma missão.

— Ficamos lá por duas horas.

— Ainda era uma missão.

William olhava de um para o outro.

— Ele é sempre assim?

— Assim como? — perguntou Ryusei.

Meu irmão imediatamente apontou para ele.

— Assim.

Ryusei continuou encarando enquanto William baixava lentamente o dedo.

— Entendi. — Respondeu ele.

Precisei esconder um sorriso.

Ryusei voltou-se para mim.

— Disseram que eu trabalharia com Anna Von Kasten. Não disseram que haveria outro caçador.

— Não sou caçador da Ordem — respondeu William.

— Ele faz questão dessa distinção — acrescentei.

— Sou um profissional independente, freelancer como andam chamando.

— Ele faz muita questão dessa distinção.

William me lançou um olhar.

— Porque existe diferença.

Ryusei observou meu irmão de cima a baixo.

O sobretudo jogado sobre a cadeira. A camisa amarrotada. A garrucha parcialmente escondida atrás do balcão. Dois livros abertos. Uma caneca de café que eu tinha certeza de que estava ali desde ontem.

Depois olhou para mim.

— Ele é seu irmão?

— Infelizmente.

— Ei.

— Mais novo?

— EI! Pergunte isso pra mim!

Ryusei assentiu como se alguma coisa finalmente fizesse sentido.

— Parece.

William apoiou as duas mãos sobre o balcão.

— Eu estou literalmente aqui.

— Eu percebi — respondeu Ryusei.

Aquilo me arrancou uma risada, talvez aquela missão fosse ser mais divertida do que eu esperava. Ryusei, como sempre, não pareceu entender o que havia sido tão engraçado. Apenas ajeitou a alça da besta que carregava nas costas e voltou a atenção para mim.

— O Comandante Wilson me passou os detalhes da jornada. Irei com Anna até Aberdeen, na Escócia. Lá poderemos investigar o paradeiro de Conquista e, claro, do pai de vocês.

O sorriso de William diminuiu um pouco quando Ryusei mencionou nosso pai, só um pouco, se eu não o conhecesse tão bem, provavelmente nem teria percebido.

— Por que especificamente a minha irmã? — perguntou ele, apoiando os cotovelos no balcão. — Tem alguma coisa contra a minha carinha fofa?

— William!

Ele abriu os braços.

— É uma pergunta perfeitamente válida.

Ryusei olhou para o rosto dele por alguns segundos.

— Não. Apenas conheço Anna há mais tempo.

— Ah.

William pareceu sinceramente decepcionado com a falta de reação.

— Então minha carinha não teve influência nenhuma?

— Nenhuma.

Ryusei virou-se para mim.

— Ele sempre fala tanto?

— Você não faz ideia.

— Estou começando a fazer.

William colocou a mão no peito.

— Impressionante. Duas pessoas que claramente me adoram e nenhuma demonstra.

Ignorei.

— Wilson falou mais alguma coisa sobre Aberdeen?

Ryusei assentiu.

— Os últimos registros confiáveis de Manfried terminam lá. Há relatos de atividade sobrenatural na região que coincidem com o período em que ele desapareceu. A Ordem acredita que possa haver uma ligação.

A menção ao nosso pai fez o ambiente mudar outra vez. Manfried Von Kasten. Eu não sabia exatamente o que esperava encontrar na Escócia. Uma pista? Um esconderijo abandonado? Alguém que o tivesse conhecido? Talvez apenas mais uma trilha fria para acrescentar às outras.

William desviou os olhos por um instante, eu sabia que ele queria encontrar nosso pai e também sabia que preferiria arrancar os próprios dentes a admitir aquilo em voz alta.

— E eu? — perguntou ele.

Ryusei o encarou.

— Você?

— Minha missão. Imagino que Wilson não tenha me chamado aqui para desejar boa viagem à minha irmã.

— Não.

— Ótimo. Por um segundo achei que a Ordem estivesse desenvolvendo sentimentos.

E Ryusei não reagiu, William apontou para ele.

— Você precisa aprender a colaborar quando faço uma piada.

— Por que?

— Porque vai ser difícil sermos amigos assim.

— Não precisamos ser amigos.

Meu irmão ficou em silêncio, em seguida olhou para mim e depois para Ryusei.

— Anna, posso trocar de parceiro com você?

— Você nem sabe quem é seu parceiro ainda.

— Já estou disposto a correr o risco.

O sino da porta tilintou novamente, todos nos viramos para olhar, uma mulher entrou na loja e fechou a porta atrás de si com cuidado. A primeira coisa que me chamou atenção foi a quantidade absurda de roupa, sobretudo comprido, luvas, botas, cachecol cobrindo o pescoço e boca e um chapéu largo que projetava sombra sobre o rosto. Um tapa-olho cobria o olho esquerdo. Os cabelos que escapavam por baixo do chapéu eram tão claros que quase pareciam brancos.

Ela permaneceu alguns segundos perto da entrada, deixando os olhos percorrerem a loja, depois começou a caminhar em nossa direção. William olhou para ela com os olhos supresos e ela olhou de volta para William, nenhum dos dois disse nada.

Ryusei foi o primeiro a quebrar o silêncio.

— Bianca.

— Oi Ryusei, há quanto tempo.

William apoiou os braços sobre o balcão.

— Então imagino que agora estamos todos aqui.

Bianca olhou rapidamente para ele.

— Imagino.

Voltei minha atenção para ela, foi aí que pude sentir o cheiro dela.

O cheiro do sangue dela era vampírico, o que por si só não significava muita coisa. Eu também era uma.

Mas havia algo mais.

Cheiro de pele queimada? — Pensei — Esse cheiro é dela!?. — Uma característica que eu conhecia, uma característica que não gostava de lembrar, acabei olhando para Bianca por tempo demais.

Sua pouca pele á mostra era pálida, quase sem cor, suas roupas eram pesadas, o uniforme de missões gélidas da Ordem.

E é claro, a maneira como evitava até a pequena faixa de luz que atravessava a vitrine, e aquele maldito cheiro. Meu estômago revirou.

Sangue Pálido. — Pensei com força.

— Agora que estamos todos aqui — disse Ryusei — podemos definir as duplas.

William saiu de trás do balcão.

— Você disse que vai com Anna.

— Sim.

— Então eu vou com ela? — perguntou, indicando Bianca.

— Era a formação prevista.

— Não — falei.

Os três olharam para mim, William franziu a testa.

— Como assim não?

— Você vai com Ryusei.

— Anna...

— Eu vou com ela. — Apontei para Bianca

Bianca ergueu uma sobrancelha, mas não disse nada, Ryusei também não pareceu particularmente interessado em discutir, William, infelizmente, era William.

— Por quê?

— Porque eu estou pedindo.

— Uau! Que argumento incrível.

Lancei um olhar para ele.

— William. Vem comigo.

— Lá vamos nós...

Segurei o braço dele e o levei para o corredor que dava acesso à parte de trás da loja.

— Não precisa me arrastar.

— Preciso, sim.

Só parei quando tive certeza de que Bianca e Ryusei não conseguiriam nos ouvir com facilidade epor fim soltei meu irmão.

— Nós vamos trocar.

— Não.

— Não estou perguntando.

— Então temos um problema, porque eu também não.

Senti a irritação subir imediatamente.

— Você ainda está com essa merda de ontem?

Ele franziu a testa.

— O quê?

— Isso é implicância comigo?

— Anna...

— Porque se você está fazendo isso só para provar que consegue se virar sozinho—

— Não estou tentando provar nada.

— Ontem você passou metade da noite reclamando que eu trato você como uma criança e agora aparece uma missão e a primeira coisa que faz é—

— Anna.

Ele não gritou, e foi justamente isso que me fez parar, William raramente usava aquele tom comigo.

— Não é por causa de ontem.

Cruzei os braços.

— Então por quê?

Ele ficou em silêncio.

— Porque eu vou com ela.

— Isso não responde.

— É a resposta que eu tenho.

Aquilo só me irritou mais.

— Você nem conhece essa mulher.

Por um instante, achei que alguma coisa na expressão dele tivesse mudado, foi tão rápido que não tive certeza.

— E você conhece?

— O suficiente.

William ficou sério.

— O que foi?

Aproximei-me.

— Ela é uma vampira.

Ele piscou.

— Anna, mas você também é uma vampira.

— Não começa.

— Só estou apontando uma pequena inconsistência no argumento.

— Ela é Sangue Pálido.

William parou, dessa vez eu vi a expressão de surpresa genuína.

— Tem certeza?

— Absoluta.

Ele olhou na direção da loja.

— Puta merda...

— Exatamente.

Diminuí a voz ainda mais.

— O Sangue Pálido matou meus pais.

— Eu sei.

— Então não venha me dizer que vai atravessar sabe-se lá quantos quilômetros sozinho com uma deles.

— Não sabemos se ela teve alguma coisa a ver com aquilo.

— Não importa.

— Importa bastante.

— William, você não sabe quem ela é.

— Nem você.

Aquilo me atingiu em cheio.

— Eu sei o que o clã dela fez.

— E está julgando ela pelo clã.

— Estou tentando manter meu irmão vivo!

Ele soltou o ar pelo nariz.

— E voltamos para ontem.

— Não faça isso.

— Você que trouxe ontem para a conversa.

— Porque parece que está fazendo isso só para me contrariar!

William ficou me encarando.

— Eu não estou.

— Então troca comigo.

— Não.

— Por quê?!

— Porque eu decidi ir com ela.

Cerrei os dentes.

— Você é inacreditável. — disse dando um empurrão nele, ele não reagiu.

— É, eu sei.

— Não foi elogio.

— Eu sei também.

Tentei passar por ele, William segurou gentilmente meu braço, não para me impedir, só para me fazer parar.

— Anna.

Assim que olhei para a mão dele ele soltou imediatamente.

— Confia em mim.

— Você quer que eu confie em você para viajar sozinho com uma vampira do mesmo clã que assassinou nossos pais? — perguntei, sentindo minha voz falhar no final.

Tentei disfarçar, e não estava conseguindo, meus olhos já ardiam e precisei desviar o rosto antes que William percebesse o quanto eu estava perto de chorar, mas é claro que percebeu.

— Anna...

— Não.

Respirei fundo, engolindo aquele maldito nó na garganta.

— Não faz isso comigo agora.

Ele ficou quieto.

— Eu sei que você acha que eu exagero. Sei que acha que fico em cima de você o tempo todo, que trato você como se fosse uma criança...

— Eu não—

— Deixa eu terminar.

William fechou a boca.

— Eu estou tentando, tá? — Minha voz falhou novamente. — Estou tentando fazer o que você pediu ontem. Estou tentando entender que você não precisa que eu fique cuidando de você o tempo inteiro. Mas isso...

Apontei para a direção da loja.

— ISSO-É-DIFERENTE.

Ele abaixou os olhos por um instante.

— Eu sei.

— Não, você não sabe.

Passei rapidamente os dedos sob um dos olhos antes que alguma lágrima caísse.

— Você não sabe como é olhar para ela e sentir aquele cheiro.

As palavras ficaram presas por alguns segundos.

— Eu sei exatamente de onde ela veio.

William não disse nada.

— Eu olho para aquela mulher e penso na minha mãe, no meu padrasto, naqueles relatórios e em tudo que fizeram para depois esconderam da gente.

Minha respiração ficou mais curta.

— E agora você está me pedindo para simplesmente ir embora com o Bruxo enquanto você fica com ela.

— Eu não estou pedindo para você confiar nela.

Olhei para ele e William estava sério.

— Estou pedindo para confiar em mim.

Aquilo me fez apertar os lábios. Porque era muito mais difícil. Se ele tivesse pedido que eu confiasse naquela vampira, eu poderia simplesmente dizer não, mas não era ela, era meu irmão.

— Eu sei me defender, você sabe muito bem disso — continuou. — E se alguma coisa estiver errada, eu vou embora. Nunca fui de bancar o herói, não vou tentar descobrir até onde posso forçar a situação. Eu saio.

— Você promete?

— É claro.

— E se ela tentar alguma coisa?

— Eu vou fugir.

— William...

— EU VOU FUGIR, Anna.

Uma lágrima finalmente escapou, que ódio, limpei-a imediatamente.

— Eu odeio quando você fala assim.

Ele franziu a testa.

— Assim como?

— Como se pudesse prometer que vai voltar.

William ficou quieto, ele estava bem sério, apenas se aproximou um pouco.

— Então eu prometo outra coisa.

— O quê?

— Que vou fazer tudo que puder para voltar vivo.

Olhei para ele, era uma promessa bem pior, porque era a única que ele realmente podia cumprir, respirei fundo e assenti, mesmo com cada parte de mim querendo dizer não.

— Tá...

William pareceu surpreso.

— Tá?

— Não me faça repetir.

— Certo.

Apontei o dedo para ele.

— Mas eu ainda acho uma ideia horrível.

— Registrado.

— E ainda estou brava com você.

— Também registrado.

— E se ela matar você, eu vou atrás dela.

Um pequeno sorriso apareceu no rosto dele.

— Aí eu já vou estar morto.

— Vou atrás de você depois.

— Isso parece logisticamente complicado.

— William.

— Parei, parei.

Balancei a cabeça e enxuguei os olhos outra vez, ainda estava com medo, talvez até mais do que antes, mas aquela era justamente a parte que eu precisava aprender.

Confiar no meu pequeno irmão não significava acreditar que nada aconteceria com ele, significava aceitar que a vida dele não era minha para controlar, mesmo quando isso me aterrorizava.

----

Respirei fundo uma última vez antes de voltar para a loja, William veio logo atrás de mim, Bianca e Ryusei estavam exatamente onde os havíamos deixado, em silêncio.

Ryusei permanecia em pé próximo ao balcão, braços cruzados, com aquela expressão impossível de interpretar. Bianca estava um pouco mais afastada, protegida da luz da vitrine. Nenhum dos dois parecia ter trocado uma única palavra durante nossa ausência.

Por algum motivo, aquilo não me surpreendeu.

Ryusei não era exatamente conhecido por puxar conversa e Bianca, pelo visto, também não estava interessada. Assim que aparecemos, os dois olharam para nós.

Ryusei foi direto ao ponto.

— Resolveram?

Olhei para William, ele não respondeu por mim, pelo menos teve essa consideração.

— Sim — falei com um leve bufo.

Minha voz ainda estava um pouco estranha. Limpei discretamente o canto de um dos olhos, torcendo para que ninguém reparasse.

Bianca reparou, claro que reparou, seu único olho visível passou rapidamente por mim e depois por William. Maldita caolha.

— A formação continua a mesma — falei. — Eu vou com Ryusei. E William... Vai com Bianca.

Ryusei simplesmente assentiu.

— Certo.

Bianca demorou um pouco mais.

— Tudo bem. — Disse levantando as mãos com um leve sorriso.

Fiquei olhando para ela, talvez por tempo demais, ela sustentou meu olhar sem qualquer hostilidade, mas também sem recuar. Aquilo me incomodou ainda mais. Eu quase preferia que demonstrasse alguma coisa.

William passou por mim e voltou para perto do balcão.

— Pronto! Problema resolvido!

— Não está resolvido — respondi olhando para ele.

— Parcialmente resolvido.

— Também não.

— Temporariamente administrado?

— William.

— Certo.

Bianca desviou os olhos para ele por um instante, foi rápido, tão rápido que não dei importância.

— Ryusei... Quando partimos? — perguntei virando a cabeça levemente para ele.

— Hoje, agora de preferência — respondeu Ryusei. — Quanto antes chegarmos a Aberdeen, melhor.

Assenti. William pegou o sobretudo que estava jogado sobre a cadeira.

— E nós?

Bianca olha para meu irmão.

— Vamos ao posto avançado da Ordem, receberemos instruções separadas e Wilson disse você precisa se equipar melhor para a missão.

— Hunf... Qual o problema com meu equipamento? — murmurou meu irmão.

— Pergunta para o Wilson.

— Facilitar meu trabalho nunca foi a cara da Ordem mesmo...

Bianca quase sorriu. Quase. Cruzei os braços.

Talvez estivesse procurando motivos para desconfiar dela naquele momento. Qualquer gesto, qualquer olhar estranho, qualquer pequena coisa que justificasse voltar atrás, não encontrei e isso não me tranquilizou.

Ryusei começou a conferir o próprio equipamento enquanto William foi buscar a mochila. Bianca se sentou no sofá da loja , esperando.

Passei ao lado dela, parei.

Não havia pensado no que dizer.

Na verdade, havia pensado em várias coisas, e quase todas terminavam comigo ameaçando arrancar a cabeça dela caso alguma coisa acontecesse com William.

Depois da conversa que acabara de ter com meu irmão, talvez fosse melhor não começar por aí.

— Bianca.

Ela virou o rosto para mim.

— Oi?

Fiquei alguns segundos em silêncio.

Eu ainda não gostava dela. Na verdade, cada instinto que eu tinha continuava me dizendo para agarrar William pelo braço, colocá-lo na caminhonete e ir embora dali, mas eu havia prometido confiar nele, então tentei.

— Meu irmão pode ser irritante.

Bianca franziu levemente a testa.

— Vocês são irmãos?

Pisquei.

— Sim?

Ela olhou para William, depois para mim, então riu.

— Hahaha! Eu achei que fossem casados ou namorados. Você parecia com ciúmes...

Talvez eu devesse ter começado pela ameaça, senti meu rosto esquentar imediatamente.

— O QUÊ?!

William, que estava colocando algumas coisas dentro da mochila, parou, Ryusei também virou o rosto em nossa direção Bianca ainda parecia achar graça.

— Eu achei que vocês fossem um casal.

— Ele é meu irmão!

— Agora eu sei.

— Meu irmão!

— Anna, eu entendi.

— Como você olha para nós dois e chega nessa conclusão?!

Bianca deu de ombros.

— Você levou ele para um canto, ficou um tempão discutindo com ele porque não queria que viajasse comigo e voltou com os olhos vermelhos. Pareceu ciúme.

Minha vontade de arrancar a cabeça dela aumentou consideravelmente.

— Eu não estava com ciúmes!

— Agora eu sei.

— Eu estava preocupada!

— Também sei agora.

— Porque ele é meu irmão!

— Bem, essa parte ficou bastante clara.

A maneira tranquila como ela respondia só piorava, William estava mordendo o interior da bochecha, e eu conhecia aquela expressão.

— NEM-PENSE.

Ele levantou as mãos.

— Não falei nada.

— Você está querendo rir.

— Não tô não.

— Está sim.

— Anna, eu jamais acharia graça de—

Ele soltou uma risada pelo nariz.

— William!

— Tá, tá, desculpa...

Virou de costas imediatamente, fingindo procurar alguma coisa dentro da mochila, filho da puta, voltei para Bianca, ela ainda estava sorrindo.

— Escuta aqui...

Dei um passo na direção dela.

O sorriso diminuiu.

— A única razão pela qual eu aceitei essa formação é porque ele me pediu para confiar nele.

Apontei para William.

— Não porque eu confie em você.

Bianca ficou séria.

— Tudo bem...

— Então não confunda preocupação com ciúme.

— Certo...

— E não volte a insinuar que eu quero pegar meu irmão.

William ergueu a cabeça.

— Tecnicamente ela não—

Virei para ele.

— CALA A BOCA!

— Certo.

Ryusei permanecia parado ao lado do balcão.

Olhei para ele.

— E você não tem nada para falar?

— Não.

— Ótimo! Finalmente alguém sensato nessa loja.

Voltei para Bianca.

— Se alguma coisa acontecer com ele...

Ela me encarou.

— Tá bom, eu sei.

— Não, você não sabe.

— Você vai me matar.

— Exatamente.

Bianca pensou por um instante.

— Justo.

Aquilo conseguiu me irritar ainda mais.

— Não é para concordar!

— Mas como você quer que eu responda? Quer que eu resista?

Abri a boca.

Nada saiu.

Eu realmente não sabia.

William finalmente desistiu de fingir que arrumava a mochila e começou a rir.

— Eu odeio vocês dois.

— Também te amo, irmãzona.

— Vai pro inferno.

Bianca olhou para ele.

— Ela é sempre assim?

— Ah, você conheceu ela num dia bom.

— WILLIAM!

E naquele exato momento tive absoluta certeza de duas coisas.

A primeira era que confiar no meu irmão seria muito mais difícil do que eu havia imaginado.

A segunda era que eu já não gostava daquela mulher antes de ela insinuar qualquer coisa entre a gente.

Agora eu tinha certeza. Eu odiava Bianca.

----

— Quer saber? Chega.

Virei para Ryusei.

— Vamos embora.

Ele assentiu como se estivesse esperando aquelas palavras havia meia hora.

Peguei minha bolsa e fui em direção à porta, quanto mais rápido saísse daquela loja, melhor. Antes que Bianca fizesse outro comentário idiota, antes que William resolvesse colaborar com ela e, principalmente, antes que eu mudasse de ideia sobre deixá-lo ir. Coloquei a mão na maçaneta.

— Anna.

Parei, não queria olhar para trás, olhei mesmo assim, William estava vindo na minha direção.

— O quê?

Ele não respondeu, simplesmente se aproximou e me abraçou. Por um instante, fiquei dura entre seus braços, ainda brava com ele, ainda mais brava com Bianca e, acima de tudo, com medo do que poderia acontecer depois que nos separássemos. No fim, não consegui sustentar aquela resistência por muito tempo e passei os braços ao redor dele, apertando meu irmão com força contra mim. William não reclamou nem tentou estragar o momento apenas me abraçou de volta, mantendo um braço ao redor das minhas costas e a outra mão apoiada atrás da minha cabeça.

— Vai ficar tudo bem — murmurou.

Fechei os olhos ao ouvi-lo e apertei um pouco mais o sobretudo entre os dedos.

— Não promete isso.

William permaneceu em silêncio por alguns segundos antes de assentir contra meu cabelo.

— Tá.

Era melhor assim. Eu não precisava que ele me prometesse que voltaria, porque nós dois sabíamos que havia coisas que nem ele podia controlar; precisava apenas que entendesse por que era tão difícil para mim vê-lo partir daquele jeito.

Quando finalmente nos soltamos, William manteve as mãos sobre meus ombros e me encarou.

— Confia em mim.

Engoli em seco. Depois de tudo que havíamos discutido desde a noite anterior, aquelas três palavras pareciam carregar um peso muito maior do que deveriam.

— Estou tentando.

Ele sorriu, mas não com aquele sorriso irritante que usava sempre que queria transformar tudo em piada. Era pequeno, cansado e sincero, e isso tornou ainda mais difícil ir embora.

Passei a mão pela frente do sobretudo dele e ajeitei uma dobra que nem precisava ser ajeitada, só para ter alguma desculpa para permanecer ali por mais alguns segundos.

— Toma cuidado.

— Você também.

— Estou falando sério.

— Eu também.

Olhei por cima do ombro de William e encontrei Bianca ainda perto do balcão. Quando nossos olhares se cruzaram, boa parte da tranquilidade que aquele abraço tinha conseguido me devolver desapareceu quase imediatamente, então apontei dois dedos para os meus próprios olhos e depois para ela, deixando o recado o mais claro possível sem precisar abrir a boca.

Estou de olho em você.

Bianca levantou as duas mãos em rendição e, pelo menos, teve inteligência suficiente para não rir da minha cara.

Voltei minha atenção para William.

— Se você morrer, eu te mato.

— Bem, continuo achando que existe um problema bem lógico nessa ameaça.

— Vai descobrir se acontecer.

Ele soltou uma risadinha e, dessa vez, deixei passar. Eu ainda estava irritada demais para achar graça, mas ouvir aquela risada antes de partir me fez bem de uma maneira que eu não estava disposta a admitir.

Afastei-me dele e olhei para Ryusei.

— Vamos.

Ryusei assentiu e abriu a porta para mim. Passei por ele, sentindo o ar de fora atingir meu rosto, e consegui andar apenas alguns passos antes de ceder à vontade de olhar para trás.

William continuava parado à porta da loja, observando nossa partida, e ergueu dois dedos quando percebeu que eu havia me virado. Era o mesmo gesto simples que fazíamos desde pequenos, uma despedida que sobrevivera aos anos e a todas as coisas que haviam mudado entre nós.

Ergui os meus em resposta.

Então Ryusei continuou andando e fui atrás dele, dessa vez resistindo à vontade de olhar novamente, porque sabia que, se fizesse isso, talvez voltasse, dissesse que havia mudado de ideia e agarrasse William pelo braço para levá-lo comigo, fazendo exatamente aquilo que ele vinha tentando me dizer que eu fazia desde a noite anterior.

Por isso continuei andando.

Eu havia prometido confiar nele e, enquanto deixava a loja para trás, descobri que confiar em alguém podia ser muito mais assustador do que protegê-lo.

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