Um Prédio na Mão O Último Príncipe na Terra de Gigantes · Capítulo 5 de 12
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Um Prédio na Mão

Kael-Rum deixou a tigela de barro no limite da luz e recuou de joelhos, um gesto estranho em corpo tão grande. Mesmo agachado, continuava acima do telhado partido do templo. A água dentro da tigela quase não se mexia, limpa demais para aquela noite de lama, poeira e fruta aberta no chão. Ninguém avançou. A sede apertava bocas e gargantas desde o fim da tarde, porém o tamanho da oferta a tornava suspeita. Um presente daquele volume podia afogar uma criança se tombasse. Uma mão generosa, naquele mundo, ainda podia matar por cálculo errado. Harauto permaneceu entre Kael-Rum e o pátio, tentando mostrar gratidão sem permitir que alguém corresse para beber.

Natsuko veio primeiro com uma concha pequena, duas xícaras rachadas e uma lâmina de prata tirada da bolsa de remédios. A enfermeira aproximou-se da tigela devagar, olhando para Kael-Rum a cada passo. O gigante acompanhava tudo com sobrancelhas erguidas, inquieto, os dedos apoiados na terra para manter distância. Quando Natsuko mergulhou a concha, ele soltou uma palavra curta, talvez aviso, talvez permissão. A lâmina de prata entrou na água e saiu sem mancha. Jiro cheirou, molhou a ponta da língua e cuspiu. "Água de nascente", disse. "Fria por baixo. Sem sal." Natsuko ainda mandou ferver uma parte antes de distribuir. Sede podia esperar panela. Morte por pressa ocuparia leito.

Minae pegou uma tábua chamuscada e desenhou com carvão: um boneco pequeno, um boneco enorme, uma tigela e uma mão aberta. Apontou para Kael-Rum, depois para a água, depois juntou as mãos diante do peito em agradecimento. O gigante aproximou o rosto, atento. O ar deslocado pela respiração dele apagou a chama de uma lamparina próxima. Minae xingou baixo, cobriu a outra lamparina com a palma e desenhou de novo, dessa vez maior. Kael-Rum tocou o desenho do boneco enorme com a ponta do dedo e bateu no próprio peito. "Kael-Rum." Depois tocou o boneco pequeno e olhou para Harauto. O príncipe respondeu: "Harauto." Kael-Rum repetiu mal, com consoante quebrada, e sorriu sem mostrar dentes.

O sorriso dele mudou parte do pátio. Crianças que choravam em silêncio levantaram a cabeça. Um marinheiro ferido riu uma vez, talvez de nervoso. Takamori, sentado perto da caixa de chá, não riu. "Um nome trocado não firma aliança", murmurou. Harauto ouviu e concordou por dentro. O sorriso não resolvia escala, fome, rota, língua, família desaparecida ou o fato de outro gigante ter deixado pegada sobre a Avenida Hibiya sem notar sobreviventes. Ainda assim, uma tigela de água limpa tinha valor de tratado naquela noite. Harauto apontou para a tigela, depois para o pátio, depois tocou o próprio peito e inclinou a cabeça. Kael-Rum imitou a inclinação com tanta força que levantou poeira do chão.

Durante a madrugada, a água foi distribuída em tampas, canecas e pedaços de cerâmica. Natsuko controlou cada porção, priorizando crianças, feridos e idosos. Harauto recebeu a dele depois de todos os outros e bebeu de uma xícara lascada com gosto de barro. A água fria cortou a garganta e devolveu ao corpo uma precisão que ele havia perdido sem perceber. Ao lado, Minae tentava obter informações de Kael-Rum por desenho. Casa, montanha, caminho, gente grande, gente pequena. Kael-Rum entendia algumas imagens, errava outras e se frustrava com rapidez quase infantil. Quando Minae desenhou uma espada, ele afastou a mão e olhou para a planície. Quando desenhou uma casa enorme, ele apontou para o horizonte onde a construção de pedra surgira ao entardecer.

Senda observou a direção do gesto e marcou no mapa improvisado. "Assentamento gigante", concluiu. Jiro, que comia uma lasca pequena da fruta, corrigiu sem tirar os olhos de Kael-Rum. "Ou celeiro. Ou templo. Ou prisão. Aqui tamanho engana." Renji organizou vigias em três pontos do pátio e pediu autorização para posicionar arqueiros na parte alta do templo. Harauto autorizou, com ordem de não atirar sem comando direto. A palavra direto irritou Renji, mas ficou. Uma flecha humana talvez furasse pele, talvez apenas arranhasse. A consequência podia vir em forma de pé sobre o templo. No mundo antigo, disparar primeiro era bravura em relatório. Naquele, podia virar funeral de bairro.

Ao amanhecer, Kael-Rum voltou com outra oferta. Desta vez trouxe um pedaço de raiz branca, grossa, limpa, cortada em três partes sobre uma folha larga. Jiro analisou, cheirou, encostou na língua e cuspiu pela segunda vez em doze horas. "Talvez comida. Talvez veneno caro." Natsuko testou uma lasca em água quente e esperou mudança de cor. Nada. Um dos sobrinhos de Jiro, faminto, tentou pegar um pedaço escondido. Minae deu um tapa na mão dele antes de Natsuko ver. "Quer ser o primeiro relatório de morte por legume de gigante?" O garoto recuou vermelho de vergonha. Kael-Rum percebeu a tensão e afastou a raiz com cuidado, empurrando a folha para longe do pátio.

Harauto decidiu que aquela manhã não seria gasta apenas em medo. O grupo precisava localizar o palácio, retirar sobreviventes da avenida e entender se Kael-Rum podia conduzi-los sem esmagá-los. Minae desenhou a Avenida Hibiya, a pegada, o templo e um caminho até a cidade. Kael-Rum reconheceu a pegada do gigante velho antes do resto. Tocou a marca desenhada, fez gesto de vara no chão e disse uma palavra longa, pesada. Depois apontou para a própria cabeça, fechou os olhos e balançou a mão. Minae interpretou primeiro. "Ele está dizendo que o velho não enxerga direito." Harauto olhou para a planície. Um gigante com visão ruim podia destruir uma rua por acidente todas as manhãs.

Kael-Rum tentou explicar mais. Pegou um graveto e desenhou no chão, com traços enormes que Minae precisou traduzir em escala menor. Uma linha curva indicava a planície. Pequenos círculos marcavam lugares onde gigantes passavam. Um quadrado torto representava o assentamento de pedra no horizonte. Perto dele, Kael-Rum fez marcas verticais, muitas, agrupadas. Depois apontou para os humanos, para a cesta e para uma marca que parecia gaiola. Ninguém gostou. Senda foi objetiva. "Há gente grande que recolhe gente pequena." Kael-Rum entendeu o tom, não as palavras, e assentiu depressa. Apontou para si mesmo, para os humanos, depois afastou as mãos em negativa vigorosa. Harauto decidiu aceitar a intenção sem abandonar a dúvida.

O retorno à Avenida Hibiya começou com uma coluna maior que a da noite anterior. Natsuko ficou no templo com feridos graves; Senda levou marinheiros e o quadro de marés quebrado, porque precisava comparar o comportamento do céu com a posição dos fragmentos. Renji comandou segurança. Minae seguiu à frente com fitas vermelhas. Harauto caminhou perto de Kael-Rum, ou o mais perto possível sem ficar sob sua sombra. O gigante avançava abaixado, afastando folhas altas com as costas da mão. Cada cuidado dele consumia esforço visível. Um humano podia esquecer a própria força ao segurar um inseto. Kael-Rum tentava não esquecer a dele a cada passo.

Quando chegaram à avenida, a segunda pegada estava lá, sobreposta à primeira, esmagando parte da banca de jornal que haviam usado para a maca de Shun. A água do cano rompido enchera as duas marcas, formando poças fundas. Pessoas presas nos prédios tinham deixado faixas nas janelas, pedaços de camisa, placas com nomes. A coluna humana se espalhou em grupos. Senda coordenou resgate no prédio de escritórios. Renji levou soldados até a estação de metrô afundada. Minae correu para uma marquise onde alguém batia metal contra metal em pedido de socorro. Harauto ficou no centro da avenida, olhando para o norte, onde a poeira escondia o contorno do palácio.

Kael-Rum parou antes do asfalto. A textura quebrada da rua parecia incomodá-lo. Abaixou-se e tocou uma faixa branca com a ponta do dedo. O gesto arrancou um pedaço de tinta do chão. Depois tocou um poste caído, ergueu-o sem esforço e examinou a lâmpada no alto. Para ele, aquilo talvez fosse ferramenta, enfeite, galho morto. Harauto apontou para o poste, depois para uma janela com pessoas. "Casa", disse, sabendo que a palavra não chegaria inteira. Minae, do outro lado, entendeu a necessidade e desenhou prédio, pessoa e perigo no chão. Kael-Rum olhou para os prédios inclinados, depois para as mãos. A compreensão chegou devagar e pesou no rosto dele.

O primeiro prédio foi aberto por fora. Um bloco administrativo de seis andares ficara inclinado contra uma colina de terra, com as escadas internas quebradas e gente presa em salas superiores. Kael-Rum aproximou dois dedos da fachada e parou, esperando instrução. Renji quase gritou para afastá-lo, mas Harauto ergueu a mão. Minae desenhou janela e seta. Senda mandou todos recuarem da base. O gigante quebrou o vidro de uma janela com a unha, mínimo para ele, tempestade de cacos para quem estava dentro. Gritos vieram do andar. Kael-Rum recuou assustado. Harauto pegou uma pedra, quebrou outra janela menor e mostrou que cacos também podiam ser controlados com pano e cuidado. Kael-Rum observou, depois tentou de novo usando uma lasca de madeira como alavanca.

Uma mulher saiu pela abertura amarrada a cortinas e cabos, segurando um bebê contra o peito. Kael-Rum estendeu a palma, e todos prenderam a respiração. A mulher recusou com a cabeça, pálida, tremendo. Harauto não a culpou. Kael-Rum abaixou a mão até encostar no parapeito, criando uma ponte. A mulher pisou na pele dele, deu três passos e desceu para a corda de Renji. Depois vieram mais quatro pessoas, um homem com perna quebrada, dois adolescentes, um funcionário com braço preso em pasta de documentos. Kael-Rum manteve a mão imóvel por tempo longo, músculos do antebraço tremendo, enquanto humanos do tamanho de falanges cruzavam sua palma sem agradecer porque ainda tinham medo demais.

O resgate mudou quando um som distante veio pela planície. Três batidas de metal, pausadas. Kael-Rum levantou a cabeça, e toda a delicadeza sumiu do corpo dele. Pegou a mão de volta rápido demais; uma adolescente quase caiu, salva por Renji. O gigante apontou para o assentamento de pedra e depois para a avenida, fazendo gesto de coleta. Minae correu até Harauto. "Vem alguém." Senda subiu no capô de um veículo tombado e usou a luneta. "Dois gigantes. Um carrega vara com gancho. O outro, sacos." A palavra sacos passou pela avenida com gosto ruim. Kael-Rum tentou empurrar os humanos para trás com gestos largos. Queria que fugissem para a grama.

Fugir com feridos, crianças e gente presa em andares altos seria abandono. Ficar exposto seria convite. Harauto olhou para a avenida, para os prédios, para a pegada cheia de água, para a estação de metrô aberta feito boca escura. "Subterrâneo", disse. Renji entendeu. Minae correu para guiar os resgatados até a entrada da estação. Senda organizou marinheiros para carregar feridos. Jiro levou crianças pelo lado dos trilhos. Kael-Rum observava, angustiado, sem entender por que os pequenos se moviam devagar diante de ameaça tão clara. Harauto apontou para um prédio ainda com gente nas janelas e depois para a própria cabeça, tentando dizer que sair sem todos partia a liderança por dentro.

Os dois gigantes apareceram entre as árvores baixas. Eram adultos, mais altos que Kael-Rum e vestidos com peças de couro duro, cheias de marcas pintadas. Um deles trazia vara longa terminada em gancho; o outro carregava sacos de rede presos às costas. Conversavam sem pressa, olhando para o chão em busca de fragmentos. Quando viram a avenida, pararam. Quando viram os humanos correndo, abriram sorrisos de caçadores que encontraram animal raro. Kael-Rum se colocou entre eles e a estação, braços abertos. A discussão entre os gigantes começou em voz baixa para a escala deles, suficiente para fazer vidros vibrarem nos prédios.

Minae puxou Harauto pela manga. "Se ele brigar aqui, a avenida vira farinha." O príncipe concordou. "Leve todos para baixo." Ela apontou para uma janela alta. "Ainda tem gente." Harauto subiu os olhos e viu três crianças presas no quarto andar de um prédio estreito, sinalizando com uma placa de plástico. Renji também viu. Não havia tempo para montar corda. Kael-Rum discutia com os dois gigantes, perdendo terreno a cada frase. O gigante do gancho olhou para o prédio das crianças e estendeu a mão com curiosidade. Não golpeou. Não ameaçou. Apenas pegou o prédio pelo topo.

O som foi pior que queda. Concreto rangeu, metal estalou, janelas explodiram em chuva fina. O prédio não saiu inteiro; resistiu por fundações, canos e paredes vizinhas. O gigante franziu a testa, aumentou a força e arrancou metade da estrutura, erguendo três andares como quem colhe peça de brinquedo quebrada. As crianças ficaram presas em um canto de sala exposta, agarradas a uma mesa. Harauto correu sem calcular. Renji veio atrás. Minae gritou algo que ele não ouviu. Kael-Rum avançou contra o gigante do gancho e segurou o pulso dele com as duas mãos, tentando impedir que levantasse mais.

A briga ficou grande demais para a rua. Um cotovelo bateu em fachada e abriu buraco. A vara com gancho caiu, esmagando um veículo. O gigante dos sacos tentou agarrar Kael-Rum pela nuca. Senda mandou todos para a estação. Harauto chegou ao prédio partido com Renji e viu que a metade arrancada balançava a uma altura impossível. As crianças gritavam dentro da sala aberta. Minae surgiu com a faixa branca amarrada a uma pedra. "Chama ele pelo nome", disse, sem fôlego. Harauto entendeu. Subiu sobre um bloco de concreto, ergueu a faixa e gritou: "Kael-Rum!"

O jovem gigante ouviu. Virou o rosto apenas um segundo. Harauto apontou para as crianças, depois para o chão, depois abriu as mãos em pedido. Kael-Rum largou o pulso do outro gigante, recebeu um golpe no ombro e ainda assim se abaixou na direção do prédio arrancado. O gigante do gancho xingou, talvez, e tentou puxar a peça para o saco. Kael-Rum colocou a própria mão por baixo da sala exposta, criando apoio. As crianças caíram sobre a palma dele junto de mesa, papel, pó e pedaços de parede. Uma delas desmaiou. Kael-Rum fechou os dedos apenas o bastante para formar borda e desceu a mão até a avenida.

Renji e Minae puxaram as crianças para fora da palma. Harauto segurou a menor, que tinha sangue no cabelo e um crachá escolar preso ao casaco. Kael-Rum permaneceu curvado sobre eles, respirando com dificuldade. O gigante do gancho olhou para a cena e perdeu o sorriso. Disse algo duro. Kael-Rum respondeu com a mesma palavra duas vezes. O outro cuspiu no chão, recolheu a vara e apontou para o templo ao longe. A ameaça dispensava tradução. Depois os dois gigantes se afastaram, levando no saco pedaços de metal, um poste e parte de um veículo, mas nenhum humano visível. Kael-Rum ficou parado até que sumissem atrás das árvores.

O silêncio depois da saída deles durou pouco. Pessoas presas na estação choravam, chamavam parentes, pediam água. A avenida tinha novo buraco, novo pó, novo cheiro de cano aberto. O prédio arrancado deixara uma parede interna exposta, com calendário, armário, cartaz motivacional e uma mesa pendurada por fios. Um escritório inteiro virara corte aberto. Harauto colocou a criança ferida nos braços de Natsuko, que surgira da estação apesar das ordens para ficar no templo. "Eu ouvi o prédio", disse ela, antes que alguém perguntasse. Senda queria evacuar tudo imediatamente. Renji queria perseguir de vista os gigantes para saber rota. Minae queria xingar em paz por dez segundos. Ninguém recebeu tudo que queria.

Kael-Rum ajoelhou perto da pegada cheia de água e tocou o próprio ombro atingido. Havia um corte largo, superficial para ele, ainda assim do tamanho de uma porta para os humanos. Natsuko olhou para Harauto. "Não tenho material para isso." Jiro subiu em uma pedra com um pote de pasta feita de carvão limpo e resina de árvore baixa, usada por pescadores em casco rachado. "Material de barco serve para pele de gigante? Vamos descobrir se ele deixar." Minae desenhou ferida, mão e ajuda. Kael-Rum entendeu depois de alguns segundos e abaixou o ombro. Natsuko, Jiro e dois marinheiros trabalharam sobre uma escada improvisada, espalhando a pasta com tábuas lisas. O gigante suportou a ardência sem mover o braço.

Enquanto tratavam Kael-Rum, Harauto entrou na estação de metrô. O túnel estava escuro, úmido, mas inteiro por alguns metros. Ali dentro, os sobreviventes da avenida caberiam longe de olhos gigantes, ao menos por uma noite. Havia água pingando de canos, banheiros quebrados, lojas pequenas, máquinas antigas e uma passagem para outra saída bloqueada por entulho. Minae já riscara setas nas paredes com carvão. Renji posicionara guardas nos degraus. Senda avaliava ventilação com chama de lamparina. Natsuko usaria a bilheteria como enfermaria. O mundo anterior, feito para transportar multidões, virava toca. Harauto não gostou da palavra que lhe veio. Refúgio, corrigiu mentalmente. Toca era nome que caçador dava.

No fim da tarde, conseguiram retirar quarenta e nove pessoas da avenida e dos prédios próximos. Três corpos ficaram para depois, marcados com placas e pedras. Harauto fez questão de registrar nomes quando havia nome, roupa quando não havia. Takamori, trazido do templo por dois jovens para coordenar listas, escreveu tudo na parede da estação antes de passar a limpo. "Este lugar precisa de título", disse, cansado, olhando para as pessoas sentadas no chão. Minae respondeu: "Estação Hibiya ainda serve." O conselheiro aceitou. Harauto percebeu que preservar nomes antigos podia ser útil, desde que não impedisse função nova.

Kael-Rum não entrou na estação; não caberia nem com a cabeça. Ficou sentado do lado de fora, vigiando a avenida com a tigela vazia ao lado e o ombro coberto de pasta escura. Quando Harauto subiu para falar com ele, levou uma das crianças salvas, a que já conseguia ficar de pé. Chamava-se Emi. Ela segurava o crachá escolar com as duas mãos e tremia, mas quis ir. Minae desenhou no chão: Kael-Rum, prédio, crianças, mão, vida. Emi entendeu o desenho antes do gigante e inclinou a cabeça. "Obrigada", disse. Kael-Rum não conhecia a palavra. Conheceu o gesto. Tocou o próprio peito com cuidado e respondeu o nome dela de modo errado, quase apagando a última sílaba.

Harauto aproveitou aquele instante para perguntar o que precisava. Desenhou os dois gigantes, o saco, o gancho e o assentamento de pedra. Kael-Rum ficou sério. Desenhou um símbolo no chão: três linhas verticais dentro de um círculo. Depois apontou para o próprio peito e riscou o símbolo com força, negando vínculo. Desenhou a cesta dele, a água, uma casa menor, gente grande curvada sobre plantas. Minae traduziu por tentativa. "Ele não é deles. Ou não quer ser. Vem de algum grupo de trabalho, talvez campo, talvez casa baixa." Senda, que escutava perto da escada, guardou a expressão. "Então há grupos. E os que recolhem pequenos têm marca."

A tarde poderia ter terminado ali, com uma aliança frágil, feridos abrigados e uma estação transformada em refúgio. A Terra de Gigantes, porém, ainda não aprendera a esperar o descanso humano. Ao escurecer, um som de sino grave veio do assentamento de pedra. Kael-Rum levantou rápido demais e derrubou a tigela vazia. Na planície, luzes grandes se acenderam uma a uma, alinhadas em direção à avenida. Tinham altura baixa demais para estrelas, regularidade demais para casas pequenas e marcha demais para fogo de acampamento. Eram lanternas carregadas por mãos gigantes. Muitas. Senda subiu o primeiro lance da estação e contou até perder sequência. Renji mandou apagar todas as lamparinas. Minae cobriu a boca de Emi antes que a menina perguntasse em voz alta.

Harauto olhou para Kael-Rum. O jovem gigante apontou para a estação, depois para baixo, insistente. Esconder. A palavra ainda faltava entre eles; o gesto já tinha gramática. Harauto mandou todos descerem, sem corrida, sem grito, sem luz. Takamori levou a caixa de chá. Natsuko arrastou a maca de Shun para trás da bilheteria. Jiro cobriu a entrada com lona suja e pedaços de placa. Do lado de fora, Kael-Rum pegou a parte arrancada do prédio e a encostou diante da escadaria, criando uma parede torta de concreto, vidro e escritório morto. Um prédio na mão, agora usado para esconder gente viva. Quando as primeiras lanternas gigantes chegaram à avenida, Harauto estava no escuro, olhando por uma fresta entre cartazes rasgados, entendendo que o próximo capítulo da sobrevivência começaria sem o direito de fazer barulho.

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