A Saída 4 O Último Príncipe na Terra de Gigantes · Capítulo 7 de 12
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A Saída 4

As vozes vinham de um trecho mais largo do túnel, onde a linha de serviço encontrava a passagem pública da estação seguinte. Harauto apagou a lamparina com dois dedos e esperou os olhos aceitarem a escuridão. A água luminosa continuava brilhando em pontos baixos do chão, fraca, branca, presa em poças que cheiravam a metal. Eno, o funcionário do metrô, encostou a mão no azulejo e fez sinal para todos se abaixarem. Renji passou à frente com a espada curta na mão. Senda guardou o aparelho de fotografia dentro da jaqueta. Minae ficou junto de Harauto, já segurando carvão para marcar parede se precisassem voltar correndo. As vozes cresceram. Uma delas gritava nomes. Outra mandava formar fila. Uma terceira repetia: "Por ordem do general Arakida."

Chegaram a uma fresta aberta entre duas placas de manutenção. Dali era possível ver parte da plataforma. O teto havia cedido em três pontos, deixando barras de ferro penduradas e poeira acumulada sobre os trilhos. No centro, homens com faixas pretas amarradas no braço revistavam sobreviventes. Alguns ainda usavam uniforme imperial, outros tinham casacos civis sobre coletes de guarda. Havia mulheres, crianças, idosos e funcionários do metrô sentados no chão, separados por cordas presas a colunas. Perto de uma escada bloqueada, caixas de comida, remédios e lanternas eram empilhadas sob vigilância. Um soldado anotava nomes em prancheta. Outro riscava os que demoravam a responder.

O homem que gritava ordens era baixo, largo de ombros, com barba mal aparada e uma pistola antiga presa ao peito. Eno reconheceu sem som, apenas formando o nome com a boca: Mizuta. O cabo citado na parede. Mizuta levantou a prancheta e leu mais três nomes. Dois homens se apresentaram. Uma mulher tentou ir junto e recebeu coronhada no ombro. "Só aptos para deslocamento", disse o cabo. "Família fica sob proteção." A palavra proteção fez Minae apertar o carvão até quebrá-lo. Harauto olhou para as cordas, para as caixas de mantimento, para a faixa preta cobrindo o brasão em alguns uniformes. A cadeia de comando do império tinha virado filtro de medo dentro de um túnel.

Renji aproximou a boca do ouvido de Harauto. "Posso neutralizar os dois da esquerda. Não o grupo inteiro." Senda apontou para um corredor lateral. "Há pelo menos oito armados. Talvez mais atrás das caixas." Jiro, agachado perto do chão, analisava as poças com preocupação. "E esse brilho está aumentando." Harauto ouviu tudo sem tirar os olhos de Mizuta. Anunciar-se ali poderia quebrar a autoridade falsa ou entregar o único príncipe vivo a homens dispostos a obedecer o nome de Arakida antes de conferir o rosto dele. O uniforme de Harauto estava sem brasão. A cidade achava que ele talvez tivesse sumido com o palácio. A dúvida ainda era proteção.

Mizuta chamou uma menina de tranças e mandou que ela entregasse a mochila. A menina segurou as alças. "É remédio da minha mãe." O cabo estendeu a mão. A mãe, sentada atrás da corda, tentou levantar e caiu porque o tornozelo estava preso por faixa improvisada. O soldado ao lado de Mizuta riu. A menina entregou a mochila. Harauto viu, dentro dela, dois frascos pequenos, um inalador e pacote de arroz cru. O cabo separou o arroz para as caixas e jogou o inalador de volta. "Medicamento pessoal fica com a família. Mantimento fica com comando." A frase tinha limpeza administrativa. Por isso soava pior.

Harauto fez sinal para recuarem. Todos voltaram alguns metros pelo túnel de serviço antes que ele falasse. "Há pessoas presas, mantimentos recolhidos e pelo menos uma saída bloqueada. Se entrarmos atacando, eles matam reféns ou fecham escada." Renji guardou a impaciência no maxilar. "E se esperarmos, eles levam os aptos para Arakida." Eno abriu o mapa dobrado que carregava dentro da camisa. "A Saída 4 dá para o corredor de ventilação antigo. Depois vem uma escada curta até a rua lateral dos jardins. Se estão mandando não subir, talvez usem a saída para guardar gente fora da plataforma." Minae passou o carvão sobre uma linha apagada no mapa. "Ou para esconder o que tomaram."

O túnel oferecia uma rota menor, usada por manutenção de cabos. Eno disse que cabia uma pessoa de cada vez. Senda quis saber se havia ar. Ele respondeu que sim, se as grelhas superiores não tivessem desabado. Jiro foi o primeiro a cheirar a entrada e disse que o ar vinha sujo, porém respirável. Harauto decidiu dividir. Renji e dois voluntários ficariam observando a plataforma. Senda, Minae, Eno, Jiro e Harauto seguiriam pelo duto até a Saída 4. Se encontrassem sobreviventes, abririam caminho. Se encontrassem depósito, marcariam rota e voltariam. Se encontrassem Arakida, fariam silêncio e sobreviveriam. Renji não gostou de ficar para trás. Harauto lembrou que alguém precisava impedir Mizuta de deslocar a plataforma inteira antes do sinal.

O duto obrigou todos a avançar curvados. Canos frios batiam nos ombros. A água luminosa escorria em filetes pelo canto esquerdo, suficiente para dispensar lamparina durante parte do caminho. De perto, o brilho parecia vir de pó suspenso dentro da água, partículas minúsculas que se juntavam quando a peça de Varn no peito de Harauto passava perto. Ele segurou o objeto por cima da roupa para diminuir o ruído contra os botões. Senda notou. "A marca deles conversa com o rastro do Pilar." A frase saiu baixa, sem espanto, apenas com cálculo. Jiro respondeu atrás: "Ótimo. Até o metal desse mundo fofoca."

Depois de quarenta metros, chegaram a uma grelha. Do outro lado havia uma sala estreita de ventilação, iluminada por duas lanternas no chão. Três pessoas estavam amarradas a um cano: um homem idoso de uniforme do metrô, uma jovem com avental de cozinha e um rapaz de guarda urbana sem faixa preta. Tinham panos na boca. Minae tirou o carvão do bolso, escreveu no próprio antebraço "silêncio" e mostrou pela grelha. A jovem assentiu com tanta força que bateu a cabeça no cano. Eno removeu dois parafusos com a faca. A grelha rangeu, e todos pararam. Nenhum passo veio do corredor. Harauto entrou primeiro, cortou o pano do idoso e recebeu uma frase sussurrada antes de qualquer agradecimento: "Eles minaram a Saída 4 com gente."

O idoso chamava-se Arai, supervisor aposentado chamado de volta depois da ruptura porque conhecia chaves manuais. Mizuta o obrigara a abrir depósitos do metrô e depois o amarrou quando ele se recusou a trancar civis na escada de ventilação. A jovem, Sana, trabalhava em cozinha comunitária e tentara esconder sacos de arroz no banheiro. O guarda urbano, Oba, abandonara o grupo de faixa preta quando viu crianças sendo usadas para forçar obediência dos pais. "Eles dizem que o general vai reunir todos no Jardim Norte", explicou Oba, esfregando os pulsos depois de solto. "Quem sabe trabalhar vai primeiro. Quem atrasa fica aqui. Quem questiona vira exemplo." Harauto perguntou pelo imperador. Oba não sabia. Sabia apenas que Arakida anunciara o palácio sob proteção militar e o príncipe desaparecido.

Minae abriu a porta da sala com a chave de Arai. O corredor seguinte levava a um lance de escadas, e as escadas levavam ao que sobrava da Saída 4. A placa verde ainda pendia sobre a porta, quebrada no canto. No patamar havia vinte e seis pessoas trancadas atrás de uma grade manual: idosos, duas mulheres com bebês, um homem sem sapato, três adolescentes e um menino com uniforme escolar sujo de sangue seco. Não estavam amarrados. Essa era a crueldade eficiente. Tinham espaço para ficar de pé e ver a saída, água pingando da parede e uma grade que só abria pelo lado de fora. Sana cobriu a boca ao reconhecer uma das mulheres. "Minha irmã."

Harauto ajudou Arai a girar a trava manual. O mecanismo resistiu, travado por poeira e impacto. Jiro colocou óleo de lamparina nos dentes da engrenagem. Senda segurou a porta para impedir barulho. Quando a grade abriu, ninguém correu. O povo preso aprendera depressa a desconfiar de todo resgate. Minae foi a primeira a falar. "Hibiya está com abrigo, água e médico. Quem consegue andar, vem comigo. Quem não consegue, levamos em dupla." Uma senhora apontou para Harauto. "Quem é ele?" Minae respondeu sem hesitar: "O homem que está abrindo a porta." A senhora aceitou. Identidade menor, naquele momento, bastava.

O plano de retirada morreu no terceiro grupo. Um soldado de faixa preta apareceu no alto da escada, segurando lanterna e facão curto. Viu a grade aberta, viu Oba sem amarras, viu Harauto no patamar. Abriu a boca para gritar. Senda acertou a lanterna com a faca antes que a voz saísse inteira. O vidro quebrou. O corredor ficou quase escuro. O soldado desceu dois degraus às cegas, e Oba o derrubou pela cintura. O facão bateu no piso. Harauto pegou a arma antes que outro tropeçasse nela. O soldado tentou chamar Mizuta. Minae enfiou pano na boca dele com raiva limpa e eficiente. Renji, atraído pelo ruído, apareceu pelo corredor inferior com dois homens. "A plataforma percebeu", disse.

Não havia mais retirada discreta. Harauto mandou que os civis descessem pelo duto de serviço em direção à rota de Hibiya, guiados por Arai e Sana. Senda ficou para organizar a passagem. Jiro levou os bebês primeiro, reclamando que velho pescador não servia de berço e servindo mesmo assim. Harauto, Renji, Minae e Oba subiram até a porta principal da Saída 4. Precisavam criar ruído em outro ponto para impedir Mizuta de seguir os civis. A porta saía para um corredor quebrado, depois para uma escada aberta ao ar livre. No alto, viam-se pedaços de céu verde-azulado e folhas enormes cobrindo parte da entrada. Também havia caixas de mantimento empilhadas sob lona preta e dois soldados vigiando.

Renji neutralizou o primeiro com o cabo da espada. Oba cuidou do segundo, torcendo o braço até que a arma caísse. Minae abriu as caixas. Arroz, feijão, remédios, pilhas, fósforos, cobertores térmicos, latas de peixe, frascos de água. Tudo recolhido da plataforma. Ela encontrou também uma lista: aptos para deslocamento, retidos por vínculo, retidos por lesão, material médico centralizado, alimentos sob custódia. No cabeçalho, carimbo improvisado: Comando de Preservação Imperial, Jardim Norte. Assinatura de Mizuta. Referência à ordem superior A-17. Harauto guardou a lista dentro da roupa. A peça de Varn bateu contra o papel. Dois sistemas, dois símbolos, mesma vontade de numerar gente assustada.

Mizuta chegou antes que terminassem de mover as caixas. Veio com quatro homens e a pistola antiga na mão. Parou ao ver Oba livre. "Desertor", disse. Oba levantou o queixo, tremendo. "Guarda urbano, ainda." Mizuta apontou a arma para ele. Renji deu um passo. Harauto ergueu o facão tirado do soldado e falou antes que o cabo escolhesse alvo. "Aponte essa arma para mim." Mizuta olhou para o homem sujo, sem brasão, mão ferida, roupa comum. "Quem é você para pedir preferência?" Harauto soltou a capa cinza, abriu a gola da roupa e mostrou o crisântemo pequeno preso do lado de dentro, preservado desde a saída do palácio. "Harauto Akihito, príncipe imperial. E você vai baixar a arma."

Dois homens de Mizuta recuaram. Um deles fez menção de se curvar e parou, confuso pela faixa preta no próprio braço. Mizuta não baixou a pistola. "O príncipe está desaparecido." Harauto manteve os olhos nele. "Encontrado." A palavra correu pelo corredor mais rápido que ordem. Alguns civis ainda presos na plataforma ouviram. Alguém repetiu. Encontrado. Mizuta ajustou a empunhadura. "O general Arakida assumiu proteção da capital sob autorização emergencial. Sua Alteza deve ser escoltada ao Jardim Norte." Harauto olhou para as caixas de mantimento. "Escolta começa depois de devolver o que foi tirado de famílias amarradas a uma grade." O cabo sorriu sem alegria. "O senhor ainda fala de família. O mundo acabou, Alteza."

"O mundo mudou de lugar", Harauto respondeu. "Acabar é o que você faz quando tira inalador de mochila e chama isso de custódia." Mizuta ficou vermelho. A frase atingira porque havia testemunhas. Minae levantou a lista tomada das caixas. "Tem criança marcada como vínculo. Vínculo é refém com tinta bonita." Um dos soldados de faixa preta olhou para o chão. Renji viu a hesitação e entrou nela. "Quem serve o império baixa arma diante do herdeiro. Quem serve saqueador continua apontando." A escolha abriu espaço no corredor. Dois homens de Mizuta abaixaram as armas. O terceiro correu. Oba tentou segurá-lo, mas o soldado escapou pela escada superior em direção aos jardins.

Mizuta atirou. O disparo no túnel foi brutal, curto, ensurdecedor. A bala acertou uma caixa de latas atrás de Harauto e ricocheteou no metal. Renji derrubou o cabo antes do segundo tiro. Minae chutou a pistola para longe. Harauto ficou parado por um instante, sentindo o ar passar quente perto da orelha. Depois se agachou diante de Mizuta, que cuspia poeira e tentava respirar com o rosto contra o piso. "Você vai viver", disse. "E vai responder por cada nome nessa lista." O cabo riu de lado, com sangue no lábio. "O general já tem o imperador." Harauto segurou a lista até o papel amassar. "Onde?" Mizuta fechou a boca. A resposta veio do soldado que tinha baixado a arma: "Pavilhão das Carpas. Jardim Norte."

Takamori teria reconhecido imediatamente o lugar. Harauto precisou buscar na memória de infância: um pavilhão antigo, perto de lago ornamental, usado para audiências pequenas e cerimônias de primavera. Se parte dos jardins tinha caído naquele mundo, o pavilhão podia servir de quartel e prisão ao mesmo tempo. Harauto mandou Renji amarrar Mizuta, recolher armas e separar os soldados que se renderam dos que resistiram. Senda chegou com Arai e Sana pelo corredor inferior, confirmando que os civis da Saída 4 estavam a caminho de Hibiya. "Temos pouco tempo", disse. "O homem que fugiu vai avisar o Jardim Norte." Harauto olhou para a escada aberta ao céu. "Então chegamos antes de ele transformar aviso em armadilha."

As caixas de comida foram divididas. Metade seguiria para Hibiya com Arai, Sana, Oba e os civis libertados. A outra metade ficaria escondida em uma sala de manutenção marcada no mapa, para retirada posterior. Minae riscou setas discretas nas paredes. Jiro deixou sinais de pescador nos batentes, incompreensíveis para soldados comuns. Senda fotografou a lista, as faixas pretas, Mizuta amarrado e a mensagem de sangue na parede. Renji recolheu a pistola antiga e as munições. Harauto pensou em levar Mizuta ao Jardim Norte para confronto, mas recusou a própria vontade. Prisioneiro em combate virava escudo ou fardo. Ficaria sob guarda de Oba até Hibiya organizar cela decente, ou algo próximo disso.

Subiram pela Saída 4 em fila baixa, junto à parede. O ar livre chegou com cheiro de grama esmagada, fumaça distante e pedra úmida. A escada desembocava atrás de um muro partido, coberto por folhas largas. Do outro lado havia o que restava dos jardins imperiais. O nome antigo cabia mal naquele terreno partido. O lago das carpas havia virado uma poça oval suspensa entre rachaduras, com água derramada por uma borda para a planície abaixo. Pontes vermelhas estavam partidas. Lanternas de pedra tombavam em ângulos absurdos. Cerejeiras, arrancadas com torrões enormes, continuavam de pé por teimosia vegetal. Ao fundo, parte do Palácio Imperial aparecia inteira demais, cercada por barracas, fogueiras baixas e homens de faixa preta.

Harauto parou atrás do muro. Viu civis agrupados perto das árvores, soldados controlando passagem, bandeiras imperiais cobertas por pano escuro e uma fileira de armas apoiada contra a parede do pavilhão. No Pavilhão das Carpas, havia luz. A porta estava guardada por seis homens. Um deles usava faixa preta sobre armadura cerimonial. Outro carregava rádio curto. E no centro do pátio, junto a uma mesa improvisada, estava o general Arakida. Harauto reconheceu a postura antes do rosto: homem que acreditava que ordem era uma faca e que toda mão devia aceitar corte. Arakida falava com oficiais, apontando para um mapa preso por pedras. Sobre o mapa, Harauto viu uma peça oval de metal fosco, igual à que Kael-Rum lhe entregara.

Senda também viu. "Ele tem marca de Varn." A frase ficou entre eles sem resposta. Arakida podia ter encontrado a peça em campo. Podia ter tomado de alguém. Podia já estar negociando com os gigantes marcados. Qualquer opção piorava o Jardim Norte. Minae tocou o braço de Harauto e apontou para a lateral do pavilhão. Em uma janela baixa, quase coberta por sombra, uma mão idosa apareceu por um segundo e desapareceu. Dois dedos bateram na madeira, pausa, mais dois. Harauto conhecia aquele ritmo. O imperador Akihito usava nos jogos de infância para chamar o filho sem chamar criados. Vivo. Preso. Atento.

O primeiro impulso de Harauto foi correr. Renji segurou seu ombro antes que o impulso virasse movimento. "Não com seis guardas e Arakida no pátio." Harauto respirou pelo nariz, uma vez, duas. O pai estava vivo. A capital tinha núcleo. Arakida tinha comida, armas, reféns e talvez uma ligação com Varn. A Saída 4 dera passagem, prova e urgência. Ainda não dava vitória. Harauto pegou a lista de Mizuta, dobrou-a com cuidado e guardou junto da carta de Aiko. Depois olhou para Minae, Senda, Renji e Jiro. "Vamos tirar meu pai sem entregar Hibiya." Na planície além dos jardins, um sino grave soou de novo. As lanternas de Varn começavam a aparecer entre as árvores altas.

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