A Carta Sem Porto O Último Príncipe na Terra de Gigantes · Capítulo 2 de 12
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A Carta Sem Porto

Harauto saiu antes de o sino do pátio anunciar a primeira troca da guarda. A cidade ainda dormia mal, enrolada em fumaça baixa e telhados úmidos, com janelas cobertas por pano grosso para conservar calor. O príncipe deixou o palácio pela passagem dos jardineiros, usando capa cinza, botas de mensageiro e uma bolsa de couro sem brasão. Minae vinha ao lado dele com dois mapas dobrados sob a jaqueta e uma faca curta presa de modo visível, menos por ameaça que por aviso. Atrás, o capitão Renji conduzia três soldados sem insígnia imperial, homens escolhidos pela capacidade de fechar a boca antes da disciplina com espada. Takamori também veio, apesar de ter passado a madrugada defendendo que sua idade e seu cargo serviriam melhor dentro dos muros.

O primeiro trecho até Ginza foi feito a pé. Cavalos chamariam atenção demais nas ruas estreitas, e carroças pertenciam a quem tinha carga para justificar roda. Harauto passou por fachadas de lojas antigas, algumas ainda com nomes estrangeiros apagados pelo tempo, outras transformadas em depósitos de lenha, hortas cobertas ou dormitórios coletivos. Um cinema fora dividido por cortinas em vinte famílias. Na bilheteria, uma mulher dormia sentada com um bebê preso ao peito por faixa de algodão. Minae diminuiu o passo para evitar uma garrafa quebrada. "Antes daqui vendiam relógio que falava com satélite", ela disse, apontando para uma vitrine vazia. "Meu avô roubou pilha de um desses uma vez. Disse que o relógio sabia onde estava. A pilha, pelo menos, sabia acender lanterna."

Renji preferia silêncio, mas a rua não permitia silêncio completo. Um grupo de homens descarregava batatas de uma carroça escoltada por dois adolescentes armados com lanças improvisadas. Perto de um canal estreito, mulheres lavavam panos em água fria e discutiam com um fiscal municipal sobre direito de uso da margem. Dois monges recolhiam tábuas quebradas de um prédio condenado. Ninguém reconheceu Harauto. Alguns olharam para Takamori por causa da postura, outros para Renji por causa do jeito de soldado escondido em roupa civil. O príncipe aceitou aquela invisibilidade com desconforto. Na véspera, acreditara ter descido até o povo ao abrir um depósito. De manhã, descobria que o povo começava muito antes do portão.

Minae escolheu ruas menores até chegarem ao antigo terminal de ônibus, agora usado por mensageiros, contrabandistas tolerados e comerciantes que pagavam licença em arroz. Ali conseguiram dois cavalos e uma carroça baixa, suficiente para levar Takamori quando as pernas dele cobrassem idade. A placa enferrujada ainda prometia partidas para aeroportos, parques e hotéis que já não recebiam ninguém. Harauto leu os destinos apagados enquanto Minae negociava com o dono dos animais. Chiba parecia próximo no mapa, quase uma dobra de papel. Nas conversas do terminal, soava longe: havia ponte quebrada, posto sem comando, milícia cobrando passagem e uma região costeira onde bússolas tinham enlouquecido durante a semana.

O dono dos cavalos aceitou ficha imperial apenas depois que Renji acrescentou uma lâmina curta ao pagamento. Chamava-se Oshiro e tinha dentes ruins, olhos muito vivos e uma desconfiança sem pressa. "Se vão para a costa, passem por Ichikawa antes do meio-dia", disse, prendendo as rédeas na carroça. "Depois disso, o posto do canal fecha para quem vem da capital. Dizem que estão procurando desertores." Renji perguntou desertores de quem. Oshiro deu de ombros. "Essa é a parte cara da pergunta." Minae sorriu de canto e ofereceu duas fichas de caldo. Oshiro guardou as fichas dentro da luva. "Marinha, guarda costeira e homens de Arakida. Cada um chama o outro de desertor. Melhor não usar nome bonito demais."

Harauto subiu na carroça ao lado de Takamori e manteve a capa fechada. O conselheiro esperou o terminal ficar para trás antes de falar. "General Arakida não informou movimentação nessa rota." Renji, montado à frente, respondeu sem virar. "Por isso mesmo o nome dele apareceu." Takamori não gostou de ser contrariado por soldado, porém a viagem já deixava a hierarquia do palácio menos útil. Harauto tirou a bússola de Aiko da bolsa e observou a agulha presa no leste. A peça vibrava de leve quando a carroça passava sobre trilhos antigos. O Hoshimaru possuía instrumentos melhores, tripulação treinada e rota autorizada. Se um bote vazio trouxera apenas aquela bússola, alguém retirara do acidente tudo que podia explicar o acidente.

Em Ichikawa, a ponte principal estava fechada por blocos de concreto e um caminhão posto de lado a lado. Soldados com braçadeiras diferentes dividiam a guarita sem dividir comando. Um deles usava uniforme naval desbotado; outro, casaco civil com coldre militar; o terceiro tinha a marca da guarda urbana presa sobre remendo. Pediram autorização de passagem. Minae apresentou licença de mensageiros costeiros, papel autêntico e incompleto na medida exata. O soldado naval leu, devolveu e perguntou o que levavam. "Mapas, pedido de carvão, relatório de escola e um velho irritado", respondeu Minae. Takamori abriu a boca. Harauto pisou no pé dele dentro da carroça. O soldado olhou para o conselheiro, viu a irritação e aceitou a prova.

Do outro lado da ponte, a estrada piorou. Partes do asfalto tinham sido retiradas para reaproveitamento, deixando faixas de terra dura entre placas antigas. Postes caídos serviam de cerca para hortas improvisadas. A cada poucos quilômetros, a carroça passava por famílias levando objetos que já tinham sido móveis, máquinas ou lembranças, agora reduzidos a material útil. Harauto viu um homem desmontar um piano na frente de uma casa, separando madeira de cordas metálicas com a concentração de um cirurgião. Ninguém tocaria música nele outra vez. Talvez uma criança se aquecesse com as teclas. O pensamento ficou no príncipe durante boa parte da viagem.

O primeiro sinal de mar veio antes do cheiro. Foi uma gaivota morta no meio da estrada, inteira, sem ferimento, olhos abertos para o céu branco. Depois veio outra, presa em uma cerca. Mais adiante, dezenas delas cobriam um arrozal alagado, espalhadas entre talos quebrados. Renji mandou parar e desceu com cuidado. O capitão usou a ponta da bainha para virar uma das aves. "Sem tiro", disse. Minae agachou perto da água e tocou a superfície com dois dedos. "Quente." Harauto desceu da carroça. A manhã era fria o bastante para endurecer mãos, mas a água do arrozal soltava vapor quase invisível. Takamori recuou. "Geotermia local?" perguntou, sem convicção. Minae secou os dedos na calça. "Geotermia em arrozal morto é jeito caro de dizer que ninguém sabe."

Perto do meio-dia, chegaram ao antigo posto meteorológico costeiro, transformado em central naval de emergência. O prédio baixo tinha janelas reforçadas, antenas inclinadas e sacos de areia diante da entrada. No mastro, a bandeira japonesa batia de modo irregular, puxada por rajadas que vinham do mar e depois recuavam, contrariando a direção das nuvens. Um oficial jovem tentou barrar o grupo no portão. Renji deu nome falso e recebeu recusa. Takamori deu o próprio nome e recebeu susto. Harauto afastou o capuz. A recusa virou continência, e a continência virou medo quando o oficial entendeu que teria de explicar por que o almirantado ainda não enviara relatório completo sobre o Hoshimaru.

A comandante local chamava-se Iori Senda. Tinha cabelo preso rente à nuca, uniforme manchado de óleo e três noites de vigília sob os olhos. Não perdeu tempo com frases de luto. Levou Harauto a uma sala com mapas náuticos presos por pesos de chumbo e instrumentos empilhados sobre mesas. "Recebemos o bote às quatro da manhã de ontem", disse, apontando para um quadro de registro. "Vinha vazio, sem remo, sem rádio, sem diário. A bússola estava no fundo, embrulhada em pano azul. A carta veio dentro da caixa de instrumento, seca. Isso é o primeiro problema." Harauto colocou a mão sobre a bolsa onde guardava a carta. "Por quê?" Senda puxou uma gaveta e mostrou um carimbo metálico. "Toda carta naval recebe porto de saída ou de recolhimento. A da princesa veio sem porto."

O carimbo ausente interessou Minae antes de qualquer declaração. Ela pediu para ver o envelope. Harauto entregou depois de hesitar apenas um segundo. Minae examinou dobra, lacre partido, borda e manchas. "Não passou por balcão", concluiu. Senda assentiu. "Também não passou por bote durante tempestade. O papel estaria pior. Alguém colocou a carta na caixa depois que o instrumento já estava seco." Takamori perguntou se isso indicava falsificação. A comandante apontou para a caligrafia. "A letra é da princesa, segundo dois oficiais que já receberam ordens dela. O problema não está na mão que escreveu. Está no caminho que a carta fez até nós."

Harauto pediu todos os registros do Hoshimaru. Senda abriu uma pasta de pano grosso. Dentro havia cópias de rota, lista de tripulação, carga de mantimentos, autorização de escolta e relatório de corrente marítima. O navio partira para encontrar uma embarcação chinesa perto de uma zona neutra, missão diplomática discreta, sem anúncio à imprensa. Aiko levava amostras, mapas e uma caixa lacrada pelo conselho técnico. Essa parte não constava na autorização pública. Takamori reconheceu o selo do conselho e ficou rígido. Harauto percebeu. "Você sabia da caixa?" O conselheiro demorou. "Sabia que havia material técnico. Não sabia que a princesa o levaria pessoalmente." Senda observou a resposta sem comentar. Minae comentou por ela. "Então alguém sabia o bastante para escolher o navio dela."

A sala tinha um quadro lateral com leituras de maré. Harauto aproximou-se dele enquanto Senda separava outro maço de papéis. Linhas pretas, azuis e verdes marcavam variações nas últimas semanas. As curvas recentes subiam em dentes abruptos, depois caíam abaixo do normal sem sequência de lua, vento ou tempestade. Um ponto estava circulado em vermelho: Pilar Kuroshio, setor externo, acesso restrito. Harauto tocou o círculo. "Onde fica?" Senda puxou um mapa maior, antigo, com manchas de umidade. "Oficialmente, em lugar nenhum. Na prática, uma plataforma de captação em águas profundas, financiada por consórcios estrangeiros, empresas japonesas e governos que jamais colocaram assinatura pública." Ela prendeu o mapa com uma faca. "Quando o Hoshimaru desapareceu, estava longe da rota diplomática e perto demais desse setor."

Takamori pediu cautela. "Acusar um consórcio energético sem prova pode romper o pouco que ainda nos resta de comércio." Senda encarou o conselheiro com cansaço duro. "Com todo respeito, senhor, comércio já rompeu. Ontem recebemos peixe cozido dentro da rede. Esta manhã, gaivotas caíram sem ferimento. A maré baixou quarenta centímetros em sete minutos e subiu quase um metro logo depois. Se alguém está ligando máquina no fundo do mar, a costa vai saber antes dos diplomatas." Harauto voltou à bússola quebrada. A agulha presa no leste apontava para o mapa, não para o norte. Leste, naquele trecho, significava mar aberto. Significava Kuroshio.

Um marinheiro entrou trazendo uma régua de maré de madeira, ainda molhada, com números marcados a canivete. A peça fora retirada do píer sul depois que a água arrancou os suportes de ferro. Senda colocou a régua sobre a mesa. Havia cortes recentes em alturas impossíveis, feitos por alguém que tentara registrar a oscilação quando os instrumentos digitais falharam. "A princesa pediu mapa de maré na carta", Harauto disse. Senda pegou uma segunda folha, dobrada dentro da pasta. "E pediu que não aceitassem acidente antes de contar os instrumentos. Contamos." A comandante mostrou a lista: três bússolas travadas, dois barômetros rachados, quatro rádios queimados, relógios mecânicos adiantados entre dois e nove minutos, aves mortas, água quente em arrozal, maré sem lua.

Minae assobiou baixo. "Isso não cabe em pirata." Renji pediu para examinar a área do bote. Senda conduziu todos para os fundos do posto, onde uma rampa descia até o píer de manutenção. O mar estava cinza, aparentemente calmo, porém o píer rangia sem ritmo. Cordas esticavam e relaxavam em intervalos curtos, puxadas por uma água que mudava de altura sem onda. O bote do Hoshimaru estava coberto por lona. Senda retirou a proteção. O casco não tinha marca de impacto. Dentro, no fundo, ainda havia um retângulo limpo onde a caixa da bússola ficara encaixada. Minae entrou antes de receber permissão, ajoelhou e cheirou a madeira. "Óleo", disse. "Não de motor pequeno. Óleo grosso, de máquina grande."

Renji encontrou outro detalhe: grãos pretos presos nas frestas do casco, semelhantes a areia metálica. Senda mandou um marinheiro trazer frasco. Harauto observou o material contra a luz. As partículas grudavam umas nas outras, formando pequenas pontas quando aproximadas da bússola. Takamori deu um passo para trás. "Magnetita?" Senda respondeu que talvez, mas a concentração não combinava com aquele trecho da costa. "O Hoshimaru poderia ter passado por uma zona de descarga industrial", sugeriu Takamori, já procurando explicação que coubesse em relatório. Minae apontou para o mar. "Ou por uma máquina que está cuspindo metal no caminho." Ninguém riu. A frase tinha o tamanho exato do medo.

Harauto pediu para falar com o homem que encontrara o bote. Senda chamou um pescador chamado Jiro, morador de uma vila próxima, magro, barba rala, mãos feridas por frio e sal. Ele entrou sem se curvar direito, não por desrespeito, e sim por dor nas costas. Contou que achara o bote preso a uma boia quebrada, sem deriva natural. "Estava amarrado", disse. Senda ergueu a cabeça. Esse detalhe ainda não estava no relatório. Jiro olhou para ela e sustentou. "Eu falei para o suboficial. Talvez ele não tenha escrito." Renji pediu que descrevesse a amarra. Jiro fez o nó com os dedos no ar. "Nó de porto grande. Não de pescador. Quem amarrou queria que o bote fosse achado, depois soltasse quando a maré virasse."

O suboficial responsável pelo primeiro registro foi chamado. Veio pálido, com o colarinho torto. Negou ter omitido informação. Senda mandou buscar o livro físico de entrada. Nele, na linha referente ao bote, havia rasura sobre a palavra amarrado. O suboficial tentou explicar que considerara irrelevante. Harauto não precisou levantar a voz. "Quem pediu a rasura?" O homem olhou para Senda, depois para Takamori, depois para o príncipe. "Um oficial do almirantado ligou pelo rádio curto. Disse que qualquer palavra indicando intervenção criaria pânico antes da confirmação." Renji perguntou o nome. O suboficial fechou a boca. Senda bateu a mão na mesa. O homem respondeu: "Arakida."

Takamori fechou os olhos por um instante. O general Arakida comandava parte da defesa costeira e respondera ao imperador em campanhas de contenção no norte. Homem eficiente, duro, popular entre oficiais que preferiam ordem a explicação. Harauto lembrou o aviso de Oshiro no terminal: marinha, guarda costeira e homens de Arakida procurando desertores. "Onde está o general?" Senda respondeu que havia dois dias ninguém o via na base principal, embora ordens dele continuassem chegando por rádio. Minae pegou o envelope de Aiko sobre a mesa e virou de novo. "Uma carta sem porto, um bote amarrado para ser achado, uma rasura mandada por rádio. Alguém quer que a gente encontre só metade da pista."

Harauto pediu cópia de tudo: rota, marés, lista de instrumentos, registro rasurado, declaração de Jiro. Senda não fingiu tranquilidade. "Levar isso para a capital pode fazer o almirantado fechar a base antes de investigarmos." Harauto guardou os papéis em bolsa separada. "Então duas cópias ficam aqui, uma segue comigo e outra sai por mensageiro civil." Minae já chamava dois corredores locais indicados por Jiro. Takamori tentou protestar contra envio fora da cadeia militar. Harauto respondeu sem dureza: "A cadeia militar já apagou uma palavra." O conselheiro recebeu a frase como merecia, em silêncio.

No fim da tarde, Senda levou Harauto ao farol velho, desativado para navegação oficial, ainda usado por pescadores quando conseguiam óleo suficiente. De lá, a costa se abria em faixa larga, com o mar escurecendo sob nuvens baixas. A comandante entregou a ele uma luneta. "Veja a linha além das boias." Harauto ajustou o foco. No começo, viu apenas água. Depois, entre duas ondulações, percebeu uma coluna distante, fina demais para ilha, reta demais para navio. Não soltava fumaça. Não refletia sol. Surgia e desaparecia conforme a maré mudava, mesmo sem ondas altas. "Pilar Kuroshio?" perguntou. Senda confirmou com a cabeça. "A plataforma oficial fica submersa. Aquilo é torre de manutenção. Ela deveria estar cinquenta quilômetros ao sul."

Minae pediu a luneta e levou alguns segundos para encontrar o ponto. "A torre andou?" Jiro, que acompanhara o grupo até o farol por vontade própria, cuspiu no chão de pedra. "Ou o mar trouxe a estrada dela para cá." Takamori repreendeu a frase com olhar, mas Senda não. A comandante abriu outro mapa, marcado com círculos de avistamento. Pescadores de três vilas tinham visto a torre em posições diferentes na mesma semana. Nenhum navio chegava perto. Rádios falhavam. Relógios adiantavam. Um barco voltou com todos os peixes mortos e o casco coberto de areia preta. Aiko seguira para aquela região levando caixa técnica. Depois, carta sem porto.

Harauto sentiu vontade de reler as quatro linhas dela ali mesmo, diante do mar, mas recusou o impulso. A carta já tinha dito o suficiente. O que faltava estava na torre, nas rasuras e no homem que mandara apagar a palavra amarrado. "Preparamos saída ao amanhecer", disse. Renji achou que ele falava de retorno à capital. Minae entendeu antes. "Para o mar?" Harauto olhou para Senda. A comandante avaliou vento, luz e a expressão do príncipe. "Tenho um barco pequeno, motor fraco, casco bom. Não chega ao Pilar se o mar mudar de novo." Harauto apontou a coluna na luneta. "Não preciso chegar ao Pilar amanhã. Preciso chegar perto o bastante para saber quem impede os barcos maiores."

Takamori ficou lívido. "Alteza, isso ultrapassa imprudência." Harauto virou-se para ele. "Imprudência foi deixar Aiko ir com uma caixa técnica que ninguém admite conhecer. Imprudência foi aceitar relatório sem mapa de maré. Imprudência foi apagar a palavra que dizia que o bote foi amarrado." O conselheiro recebeu cada frase com o rosto fechado. Harauto baixou o tom. "Eu ainda preciso de você. Não para me impedir de ir. Para garantir que, se eu não voltar, a capital receba os papéis certos." Takamori segurou o mapa com as duas mãos. Pela primeira vez desde a saída do palácio, pareceu velho de verdade.

Quando desceram do farol, o céu já escurecia. O vento mudou de direção três vezes em menos de uma hora, e os sinos dos barcos presos ao píer tocaram sem que ninguém os tocasse. Senda ordenou que o bote do Hoshimaru fosse lacrado e que o suboficial da rasura ficasse detido na base. Jiro ofereceu dois sobrinhos para guiar o barco pequeno até a linha das boias. Minae distribuiu cópias dobradas em envelopes de peixe seco, método dela para fazer papel importante passar por mercadoria pobre. Renji inspecionou armas e cordas. Harauto ficou por último no píer, olhando a água escura bater contra a madeira em intervalos errados.

Antes de recolher-se, Harauto abriu a carta de Aiko pela terceira vez. Sob luz de lamparina, a mancha perto da dobra mostrou pequenos pontos de brilho, quase invisíveis. Ele pegou uma faca e raspou uma partícula para a mesa. O grão saltou em direção à bússola quebrada e grudou no aro metálico. Areia preta, igual à do bote. A carta sem porto viera do mesmo lugar que ferira os instrumentos, aquecera a água e movera a torre. Harauto fechou a mão sobre a bússola até o metal marcar a pele. Do lado de fora, o mar recuou de repente, deixando barcos tortos sobre lama escura. Senda gritou ordens no pátio. Minae abriu a porta sem bater. "O senhor precisa ver isso." Harauto já estava de pé. Pela janela, além do píer seco, a torre distante acendeu uma luz branca no meio do oceano sem água.

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