A Água de Kasumi O Último Príncipe na Terra de Gigantes · Capítulo 12 de 12
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A Água de Kasumi

A água corria para baixo e para cima ao mesmo tempo. Pela superfície, seguia o declive da vala, arrastando palha podre, folhas, pontas de madeira e um botão de uniforme que girava sem afundar. Por baixo, porém, a areia preta vinha na direção contrária, rente ao fundo, feito bando de insetos miúdos fugindo de fogo. Senda manteve a mão molhada aberta diante da luz fraca e viu os grãos se juntarem nas linhas da palma. Eles puxavam uns aos outros sem vento, sem corrente, sem motivo visível. "Isto responde a metal", disse. Takamori se inclinou para ver melhor, protegendo os mapas contra respingos. Harauto olhou para a peça oval. A linha interna apontava para a boca escura sob a ponte caída, onde a água fazia um ruído baixo contra uma grade antiga.

O grupo inteiro ocupava pouco espaço e gente demais. Crianças do armazém tremiam encostadas na parede do túnel, adultos feridos tentavam esconder a dor para parecerem úteis, soldados disputavam chão seco com sacos, mapas e lanças. Osen mantinha Taru perto da saia, embora ele já tivesse idade para se ofender com proteção em dias comuns. Dias comuns tinham ficado do outro lado da porta arrebentada. Harauto percebeu que seguir com todos para dentro da água seria sentença sem julgamento. Também percebeu que mandá-los voltar pelo armazém seria entregá-los ao gigante de lentes rachadas. A cidade colocava as escolhas dentro de caixas pequenas e depois culpava a mão que não cabia. Ele pediu a Minae que procurasse outra saída antes de qualquer passo adiante.

Minae subiu por uma escada lateral quase escondida atrás de cabos, apoiando os pés em degraus cobertos de ferrugem. Voltou com poeira no cabelo e uma resposta prática: havia uma sala de manutenção acima da ponte, com duas portas. Uma dava para a avenida partida, outra para um corredor de serviço que seguia rumo ao antigo mercado. A porta do mercado estava emperrada, porém abria por dentro com alavanca. "Dá para levar Osen e os moradores até lá", disse. "Não é seguro, só é menos burro." Osen aprovou com um grunhido. Senda destacou dois soldados para escoltar os civis. Harauto mandou que levassem um dos mapas menores, uma lanterna sem luz branca e metade do arroz seco. Osen recusou a comida por orgulho. Liora colocou o saco nas mãos de Taru e resolveu a discussão.

Taru segurou o saco contra o peito e olhou para Liora com gravidade de adulto mal ensaiado. "Se eu encontrar Nao?" Liora se agachou, molhando a barra da roupa. "Fale o nome dele antes de falar de fuga. Gente assustada reconhece o próprio nome primeiro." O menino repetiu a instrução em voz baixa, guardando-a com a mesma atenção que dera aos dedos contados. Osen observava Liora de modo diferente agora, sem confiança plena, porém com uma espécie de respeito desconfiado. "A menina já viu coisa demais", disse a Harauto. Ele respondeu olhando para a água: "Sim." Nada além disso cabia. Harauto não sabia se proteger Liora significava afastá-la daquilo ou escutá-la quando ela reconhecia uma dor que os adultos ainda tentavam nomear.

Antes da separação, Osen devolveu a chave ao príncipe. A peça pequena, de ferro escuro, tinha cabo achatado em forma de grão de arroz. "A prefeitura distribuiu seis dessas para depósitos antigos. Diziam que era para comportas. Minha avó dizia que abria coisa mais funda." Harauto fechou os dedos em torno da chave. "Por que guardar isso no armazém?" Osen deu de ombros. "Porque homem com cargo joga fora o que chama de superstição. Mulher que limpa depósito guarda o que abre porta." Takamori soltou uma tosse que podia ser riso ou irritação. Senda gostou da frase e anotou mentalmente sem mostrar. A chave passou para dentro da manga de Harauto, junto à tira de Aiko, e o contato frio das duas coisas fez o caminho parecer menos inventado.

O grupo se dividiu sem despedida grande. Gente em fuga aprende depressa que despedida comprida chama azar e atrasos. Osen subiu com os moradores, Taru virou a cabeça três vezes para olhar a água, e os dois soldados sumiram atrás deles com lanças erguidas. Ficaram Harauto, Liora, Senda, Minae, Takamori, Iso e quatro soldados. Pouco para enfrentar Varn. Muito para andar no escuro sem barulho. Senda reorganizou a ordem: Minae na frente, Harauto e Liora no meio, Takamori logo atrás com mapas presos no peito, soldados em intervalos curtos, ela por último. Iso recebeu a lanterna de menor chama e a ordem de apagar sem esperar pergunta. A vergonha do armazém ainda estava no rosto dele. Senda o deixou carregar a luz para que a mão ocupada tremesse menos.

A grade antiga ficava meio submersa, presa por dois fechos cobertos de limo. Minae mergulhou o braço até o ombro e encontrou a fechadura pelo tato. A chave de Osen entrou com dificuldade, raspando metal contra grãos de areia preta. Quando girou, a água parou por um segundo. Parou mesmo, sem ondulação, segurando folhas e palha no lugar. Depois todo o canal respirou de uma vez e puxou o grupo para a frente. Harauto agarrou Liora pela cintura antes que ela caísse. Senda prendeu a mão na grade. Takamori, surpreendido pelo solavanco, salvou os mapas com uma torção feia do próprio corpo. A grade abriu para dentro, revelando um corredor de pedra que descia em curva. Na parede, cobertas por limo, havia marcas de mãos. Algumas eram humanas. Outras tinham dedos do tamanho de réguas.

Minae tocou uma marca grande sem encostar a palma inteira, respeitosa apesar da pressa. "Kael-Rum saberia ler isso?" Senda examinou os riscos sob as mãos. "Talvez. Ou talvez esses sinais sejam velhos até para ele." Harauto aproximou a peça oval da parede. O metal aqueceu, e pequenas letras surgiram entre as marcas, linhas finas gravadas em japonês antigo, quase apagadas. Takamori esqueceu a água nos sapatos. "Isto é anterior ao projeto Kuroshio." Passou o dedo perto das letras, sem tocar. "Registros de oferenda, medida de maré, contagem de grãos." Liora leu uma palavra isolada, mais por forma do que por estudo: "Kasumi." A água respondeu ao nome com um tremor leve. Iso apagou a lanterna sem que Senda mandasse.

No escuro, o corredor deixou de ser passagem e virou ouvido. Cada gota parecia próxima demais. Cada respiração batia na pedra. Senda esperou, contando com os dedos sobre o cabo da faca. Nada veio. Iso acendeu a lanterna outra vez, cobrindo a chama com a mão. A luz revelou um baixo-relevo na parede seguinte: figuras pequenas depositavam tigelas junto a um canal; figuras gigantes, ajoelhadas, deixavam peixes e madeira na margem oposta. Entre os dois grupos havia três círculos, iguais aos pontos desenhados por Aiko no verso do papel. Harauto abriu o tubo e conferiu a tira, protegendo-a da umidade. Torre Segunda, água funda, criança de Varn fala japonês, não entreguem a oval inteira. As palavras de Aiko, ali, deixavam de ser aviso solto e se tornavam caminho escrito em pedra por gente morta.

Takamori queria copiar tudo. Senda queria andar. Minae queria saber se o canal tinha saída antes que Varn encontrasse a grade. Harauto deu a Takamori o tempo de uma página. O velho conselheiro ajoelhou no chão molhado, tirou carvão de um estojo e copiou o desenho principal com velocidade inesperada. "Se morrermos, isto precisa sair daqui", disse, sem levantar os olhos. Liora respondeu antes de Harauto: "Então não morra segurando a única cópia." Takamori a encarou, quase ofendido, depois rasgou a folha em duas partes. Deu uma a Senda, outra a Minae. "Distribuição documental", murmurou. A frase teria sido ridícula em outro dia. Naquele corredor, parecia um pequeno ato de fé administrativa contra o fim do mundo.

Depois da curva, o teto baixou. Os soldados precisaram inclinar a cabeça, e Takamori bateu a testa uma vez, mordendo uma reclamação. A água subiu até a cintura. A areia preta grudava nas botas e fazia cada passo demorar. A peça oval, guardada por Harauto, aquecia em pulsos regulares. Liora começou a contar os pulsos em silêncio. No décimo segundo, uma voz veio por dentro da parede. "Portadora." Todos pararam. A voz de Nao chegava fina, metálica, talvez conduzida por tubo, talvez por algo preso na coleira branca. "Portadora desce. Grupo entrega oval. Dano reduzido." A frase repetia a ordem de Varn, porém falhava no fim, onde uma respiração de criança aparecia antes do silêncio. Harauto fez menção de responder. Liora segurou sua manga.

"Nao", disse ela, em voz baixa, sem olhar para as paredes. A água carregou o nome pelo corredor. Nada respondeu de imediato. Senda ergueu a faca, irritada com qualquer conversa que pudesse denunciar posição. Liora continuou, agora com os olhos fechados. "Taru está vivo." A parede estalou. Um ruído de metal arranhado veio acima deles. Depois a voz voltou, menor, sem a cadência de ordem. "Taru fala demais." Liora abriu os olhos. Harauto sentiu a mudança nos soldados antes de vê-la: a palavra comum, quase uma reclamação de criança, entrara no túnel feito ar novo. "Ele ainda guarda arroz", disse Liora. A voz ficou muda. Então três batidas rápidas soaram dentro do cano. Vinham de outro lugar: pequenas, feitas com dedo ou peça metálica. Minae apontou para a parede esquerda.

Encontraram uma portinhola circular coberta por limo. A chave de Osen não cabia. A peça oval, porém, reagiu quando Harauto a aproximou. Uma linha se abriu no metal da portinhola, fina, com encaixe do mesmo formato da borda quebrada da oval. Liora lembrou a frase de Aiko antes de todos: não entreguem a oval inteira. Harauto retirou a peça e examinou a lateral. Havia uma fratura antiga, quase perfeita, sinal de que faltava uma parte. "Ela sabia que isto encaixava", disse Takamori. Senda olhou para trás. "E Varn também." O corredor atrás deles recebeu um barulho distante de grade batendo. A patrulha chegara à entrada. Harauto fechou a mão sobre a peça sem usá-la. "Procuramos outro modo." Senda aceitou porque discutir gastaria segundos melhores.

Minae encontrou o outro modo onde adultos olhariam por último: no chão. Uma laje menor tinha dois furos na beira, largos para dedos infantis, estreitos para mão comum. Liora e Minae se ajoelharam juntas, enfiaram os dedos nos furos e puxaram. A laje resistiu. Iso largou a lanterna, prendeu a ponta da faca em uma fresta e ajudou. A pedra levantou com um suspiro de água presa, mostrando um poço estreito com escada de metal descendo. O cheiro de sal veio forte. Nao bateu de novo dentro da parede, desta vez duas pancadas pequenas, pausa, uma pancada. Minae traduziu sem certeza: "Talvez esteja dizendo rápido." Senda olhou para a portinhola circular e depois para o poço. "Descemos." Ninguém perguntou se havia fundo. A resposta chegaria com os pés ou com a queda.

O poço era apertado demais para lanças. Os soldados deixaram duas presas em argolas de ferro e levaram facas. Takamori desceu com os mapas dentro da camisa, resmungando contra arquitetos mortos. Liora foi logo depois de Minae, porque cabia melhor e porque a voz de Nao parecia segui-la. Harauto desceu acima dela, contando degraus para manter a cabeça ocupada. No vigésimo primeiro, a escada tremeu. No vigésimo quinto, a água da vala desapareceu acima, substituída por ar frio. No trigésimo, o poço abriu em uma galeria grande, sustentada por colunas grossas. A lanterna de Iso iluminou o piso de pedra, coberto por linhas brancas que convergiam para um tanque circular no centro. Ali, a água estava parada. A areia preta girava por baixo em três círculos lentos.

Kasumi, ou a primeira sala de Kasumi, parecia ter sido construída por mãos de dois tamanhos. A parte baixa tinha bancos, escadas, canais de drenagem e inscrições à altura humana. A parte alta, quase perdida na escuridão, trazia arcos largos, nichos enormes e degraus que nenhum homem subiria sem corda. Em um dos nichos havia restos de tigelas gigantes, quebradas, com grãos petrificados grudados no fundo. Minae levantou a lanterna para ver melhor e prendeu o ar. Na parede oposta, uma gravação mostrava uma peça oval dividida em três partes. Uma parte estava junto aos pequenos, outra nas mãos de uma figura gigante, a terceira no fundo de uma torre desenhada abaixo da água. Harauto não precisou que Takamori lesse a legenda. A peça que carregava nunca fora inteira.

Senda caminhou até o tanque central e marcou a distância com os pés. "Lugar de encontro", disse. "Ou de troca." Takamori, já absorvido pelas inscrições, traduziu aos pedaços: maré de arroz, maré de peixe, promessa de mão aberta, punição para quem toma sem deixar. A palavra punição apareceu repetida em três pontos, escrita com traços fundos. Liora olhou para a água e viu reflexo onde a lanterna não alcançava. Um rosto de criança surgiu por um instante na superfície, distorcido, com marcas azuis nos cantos da boca. "Nao", chamou. O reflexo abriu os olhos. A água não ondulou. Harauto puxou Liora para trás, e o rosto se quebrou em areia preta. Do alto da galeria veio a voz infantil, agora real, vinda de algum duto acima: "Ele escuta quando vocês dizem meu nome."

Senda apagou a lanterna com um tapa. A galeria mergulhou em sombra, salvo pela luz fraca do tanque. Harauto falou baixo, escolhendo palavras que servissem para Nao e para o monstro por trás dele. "Quem escuta?" A resposta demorou. Quando veio, parecia disputada dentro da garganta do menino. "O que usa lentes. O que usa meu pescoço. O que quer a menina porque ela ouve sem peça." Liora ficou imóvel. Takamori virou-se para ela, e a nova informação passou pelo grupo sem frase bonita. Varn não queria Liora apenas como refém. A menina tinha algum tipo de sensibilidade aos canais, à luz, às ordens. Aiko talvez houvesse entendido isso antes deles. Senda tocou o ombro de Liora com a mão seca. O gesto durou pouco, porém substituiu perguntas que fariam mal.

Nao falou de novo, muito depressa. "A grade de cima abriu. Eles descem. Não olhem para a lente quebrada. Ela guarda rosto." Depois um som abafado cortou a voz. A coleira, talvez. O tanque formou ondas pequenas sem vento. Na parede alta, um ponto branco acendeu, distante, seguido por outro. Harauto viu o reflexo de lentes descendo pela rampa gigante do lado oposto da galeria. O Varn do armazém encontrara outro acesso, grande o suficiente para seu corpo. Senda distribuiu ordens por sinais: soldados para as colunas, Minae com Takamori para a saída baixa, Liora atrás de Harauto. Iso, pálido, pegou uma pedra solta e a segurou junto com a faca. O jovem que batera lança no barril agora controlava a respiração tão bem que Senda o deixou no lugar.

O gigante entrou curvado, com a armação quebrada sobre um olho e a coleira de Nao presa por cabo fino à sua mão. O menino vinha ao lado, molhado até a cintura, os pés descalços deixando marcas na pedra. A lente rachada refletia partes do rosto de todos, uma de cada vez, capturando expressões e devolvendo-as menores. Harauto entendeu o aviso: quem olhava direto via a própria face presa no vidro e demorava um instante a se mover. Aquele instante bastava para Varn. O príncipe baixou os olhos para a mão do gigante, não para a lente. "Solte o menino", disse. O gigante respondeu na língua dele, e Nao traduziu com atraso forçado: "Entregue a portadora e a parte oval." A palavra parte saiu limpa. Varn sabia que faltavam pedaços.

Liora deu um passo à frente antes que Harauto pudesse impedir. "Nao", disse. O menino tremeu. A coleira brilhou, e ele mordeu o próprio lábio para não gritar. "Taru está vivo. Osen também." O gigante puxou o cabo. Nao caiu de joelhos, porém levantou a cabeça com raiva pequena e útil. "Taru fala demais", repetiu, agora para si. Minae aproveitou o olhar do gigante no menino e lançou a chave de Osen para Iso. O soldado correu até uma comporta baixa marcada com o símbolo do grão de arroz. Tinha visto o desenho na chave e na parede. Senda percebeu tarde, quase mandou parar, depois viu a intenção: abrir água entre eles e Varn. Iso enfiou a chave no fecho, girou com as duas mãos e recebeu um jato frio no peito.

A comporta abriu. O tanque central desceu meio palmo, depois subiu com força, despejando água preta pelo piso. O gigante recuou para proteger a lente. Nao escorregou, e o cabo da coleira ficou frouxo por um segundo. Liora correu. Harauto correu atrás dela. Senda gritou sem palavra. Minae agarrou uma corrente caída e lançou a ponta para Harauto. Ele alcançou Liora no meio da água quando ela segurou Nao pelo braço. A coleira acendeu branca. Nao apertou os dentes e apontou para a lateral do próprio pescoço. Havia um fecho pequeno ali, semelhante à portinhola circular de cima. Harauto aproximou a peça oval, mas a retirou antes do encaixe completo. Aiko advertira. Não entregar inteira. Ele encostou apenas a borda quebrada. O fecho abriu um dente, não todos.

Foi suficiente para Nao respirar sem a voz de Varn por um instante. "A torre bebe nome", disse ele, apressado. "Se chamar a menina três vezes, ela responde mesmo sem querer." O gigante avançou pela água, furioso, uma mão aberta do tamanho de uma mesa indo na direção de Liora. Kael-Rum salvou-os sem aparecer. Uma batida imensa veio de cima, uma só, seguida por rachaduras no teto alto. Pedras caíram perto da rampa gigante. O Varn ergueu os olhos. Senda puxou a corrente, Harauto puxou Liora, Liora puxou Nao. Os três caíram para trás quando o cabo da coleira arrebentou pela metade, soltando pontos brancos que morreram na água. Fagulhas pequenas ficaram presas por um segundo nos anéis da coleira, depois sumiram com cheiro de metal queimado.

O grupo correu pela saída baixa enquanto a galeria enchia. Minae guiava pelo desenho copiado do relevo: três círculos, uma escada, canal direito. Takamori, encharcado, carregava metade dos papéis entre os dentes e a outra metade contra o peito. Iso ficou por último com Senda, arrependimento transformado em utilidade. O Varn tentou segui-los pela abertura humana e ficou preso nos ombros. Sua mão alcançou o corredor, raspando unhas na pedra, arrancando lascas. Nao, agora carregado por Liora e Harauto, olhou para trás apenas uma vez. O rosto dele perdeu a expressão de intérprete e virou rosto de criança exausta. "Ele sabe seu cheiro", disse a Liora. "Então ando perto da água", respondeu ela. A resposta veio sem heroísmo. Vinha de alguém que acabara de escolher medo com método.

O corredor baixo terminou em uma sala redonda menor, seca no centro, com água correndo por canais laterais. No chão havia três encaixes ovais. Um estava vazio, outro guardava pedra quebrada, o terceiro tinha marcas recentes de ferramenta. A peça de Harauto aqueceu tanto que ele precisou envolvê-la no pano. Nao apontou para o encaixe vazio. "Aiko passou aqui." A frase atingiu Harauto sem enfeite algum. "Você viu?" O menino negou com a cabeça. "Ouvi. Eles repetem nomes nos canos quando procuram gente. Aiko respondeu uma vez e depois parou de responder. Ela quebrou uma luz com água salgada." Takamori, apoiado na parede, fechou os olhos e sorriu de modo torto, como quem reconhece uma pessoa por um dano bem escolhido. Harauto guardou o sorriso dele sem conseguir sorrir junto.

Na parede seca, Aiko deixara outra marca. Aquilo ficava longe de carta ou frase longa. Apenas três riscos curtos e um ponto, o sinal de infância, feitos com carvão grosso junto a uma seta apontando para o canal direito. Abaixo, em letra apressada, havia quatro palavras: levem Liora pela água. Harauto leu uma vez, depois outra. Liora leu também e ficou parada, com Nao ainda apoiado nela. "Ela sabe meu nome", disse. Nao respirou com dificuldade. "Eles disseram muitas vezes." Senda avaliou as duas saídas. A da esquerda subia em direção a ruído de metal. A da direita descia para água escura e corrente forte. Kael-Rum bateu uma vez em algum ponto acima, mais fraco que antes. O caminho existia, sim. Agora tinha nome, preço e ordem escrita por Aiko. Harauto entrou primeiro na água para não pedir coragem a ninguém antes de gastar a própria.

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