09 - Jantar Em Família
A semana passou rápido. Foquei em estudar para os concursos e manter a rotina na academia. Ingrid me deu folga na segunda. Terça e hoje de manhã bateu às oito em ponto para me arrastar para a malhação.
Mulher determinada, meu Deus!
Ela tem uma loja na rua dos biquínis, trabalha às dez da manhã, mas acorda às sete. Dez (meu horário normal) é o ponto alto do dia dela. Preciso me enquadrar nesse ritmo: são nove da noite e estou morrendo de sono.
— Acorda, Natalie! — Mamma veio com uma panela de molho de tomate. — Sai da minha frente! Tá dormindo em pé?
Deveria ajudá-la na cozinha, mas a exaustão só me faria atrapalhar.
Às quartas a pizzaria não abre. Desde pequena mamãe intitulou esse dia “O dia do jantar em família.” Meu irmão avisou que traria a piriguete legal dele. Dei esse apelido por ela ter me ajudado naquele dia.
Desde que enfrentei o Eduardo na segunda, ele não me liga nem manda mensagem. Resolveu me dar um gelo. Entretanto, sempre jantou conosco às quartas. Será que ia continuar, mesmo depois de tudo?
Não deveria me importar, prometi esquecê-lo. Admito! No fundo não aguentava de ansiedade para vê-lo de novo. É difícil tirá-lo da cabeça com ele aqui, na mesma cidade. Não tenho mais a distância para ajudar.
Ontem peguei a chave do carro duas vezes para ir na casa dele. Na primeira, parei na porta. Na segunda, fui até a rua do prédio e voltei. Hoje fui mais forte: não saí procurando por ele. Estou alimentando o desejo de que venha a mim.
Deixar de amar alguém que você ama desde que nasceu é complicado. Uns dias você se empenha mais que outros. Sei que terei que me desfazer da amizade, mas é desse vínculo que mais sentirei falta.
— Vai se arrumar, Natalie! — Mamma disse tentando se livrar de mim. — E ponha uma roupa bonita.
— Estou sem ânimo, mãe.
— Teremos visita! Faça uma maquiagem leve. Sua cara está péssima.
Subi. A água quente desfez o cansaço e trouxe disposição de volta. O ritual veio no automático: cremes, maquiagem, perfume. O vestido azul soltinho com preguinhas embaixo parecia apropriado, arrumado sem exagero, combinando com a rasteirinha prata. Et voilà! É o máximo que consigo hoje.
Desci. Nos últimos degraus, a porta da frente estava aberta. Meu pai abraçava meu irmão com a mão estendida para cumprimentar minha cunhada. Atrás dela, encostado com a testa no batente da porta, com cara de entediado, estava o Eduardo.
Sabe quando o coração pula e você perde o degrau?
Três degraus. Foi o suficiente.
O chão veio rápido demais. Meu quadril bateu primeiro, depois o cotovelo, e então tudo virou um borrão de dor e vergonha. Por um segundo, só consegui ficar ali, pernas pro ar, de vestido, respiração presa, tentando entender o que tinha acabado de acontecer.
Isso aí! Patético!
O berro do meu pai me trouxe de volta. Mãos me ergueram da escada — muitas mãos, todas ao mesmo tempo. Vozes faziam perguntas impossíveis de processar, a cabeça girando do impacto.
Meu irmão me pegou no colo enquanto a piriguete dele vinha do lado. Todo mundo falava coisas incompreensíveis, mas o que me incomodava era não saber para onde o Eduardo foi. Assim que Caio me colocou no sofá, perguntou se eu estava bem.
— Meu pé dói.
Eduardo veio da cozinha com um saco de gelo.
— Onde torceu? — questionou sentando ao meu lado.
— Ali — apontei meu pé esquerdo. Ele encostou o gelo devagar. Estremeci.
— O que deu em você, Natalie? — Minha mãe veio berrando da cozinha com uma concha na mão e o seu avental manchado de molho.
— Errei o degrau — fiz cara de dor, mas não o suficiente para amolecê-la. Mamma voltou para a cozinha falando em italiano, me xingando ou me chamando de cabeça oca e estabanada. Ela fala isso sempre.
Olhei para o lado a tempo de ver um sorriso no canto dos lábios de Eduardo. O cretino se divertia.
— Qual é a graça? — Disse fria como o gelo no meu tornozelo.
— Você é uma estabanada.
— Entende italiano agora?
— Sim, fiz aulas para cantar em italiano.
Levantei a sobrancelha. Sempre me surpreendia. Como conseguia?
Esse homem falando em italiano… Meu Deus, só de imaginar meu corpo não me obedece.
Tentei não olhar, apesar de sentir o olhar fixo dele. Ok, admito que sou uma fraca. Não resisto aos seus olhos em cima de mim e virei o rosto aos poucos.
Levantou o lábio num sorriso torto, olhos semicerrados. Meu coração parou.
— E aí? — Falou acenando com a cabeça.
— E aí? — Repeti e acenei igual. O sorriso se alargou, covinha à mostra.
Aconchegou-se no sofá ao meu lado, deixou o saco de gelo em cima do meu pé por minha conta.
— Conseguiu estudar? — Puxou o assunto.
— Sim.
— Legal.
— É.
— Que maravilha! — Meu pai exclamou entretido na conversa com meu irmão e Fabi. Meu irmão virou em nossa direção.
— Esse homem é uma máquina — apontou o dedo para Eduardo.
— Fico feliz por você ter voltado a escrever — meu pai cumprimentou Eduardo. — Quando teremos a honra de ouvir essas músicas na pizzaria?
Girei a cabeça para ele. Espera aí! Ele voltou a escrever? Antigamente Eduardo e meu irmão escreviam músicas juntos, mas após a minha ida para São Paulo, Eduardo teve bloqueio criativo e não conseguia escrever letra nenhuma.
Meu irmão assumiu daí em diante, mas as músicas do Dudu sempre foram melhores que as do Caio.
— Amm… não sei, o Nelson pediu para guardarmos para o próximo álbum.
Enquanto a conversa desenrolava na sala, minha mãe e Babi arrumavam a sala de jantar.
— Ouvi bem? Eduardo está escrevendo? — Mamma perguntou segurando os pratos.
— Deixe isso comigo, mamma! — Eduardo se levantou e tomou os pratos da mão dela para arrumar na mesa. Eu pensei: puxa saco. — Sim, voltei a escrever. Tive uma inspiração.
— Quando foi isso? — Mamma começou o interrogatório.
Meu irmão respondeu:
— Na segunda à noite! Entrei na casa do cara e ele estava uma máquina: cheio de cerveja, cheiro deplorável, depressivo… Brigou com a Camila? — Meu irmão balançou as mãos impedindo Eduardo de responder. — Mas ao ver tantos papéis pelo chão, entrei em choque. — Imitou a cara que fez. — Eram letras e melodias, músicas inteiras, românticas e enraivecidas, a maioria sobre a tal garota e a to… — Eduardo tossiu interrompendo.
— Ei, cara! Vai estragar a surpresa.
— É… O Nelson não quer que ninguém fale delas. Prevê como sensação do próximo álbum.
— Fico feliz, querido — minha mãe abraçou Eduardo. — Vamos comer!
— Quer ajuda, Natalie? — Meu pai ofereceu. Peguei sua mão e me apoiei nele para levantar. O tornozelo latejava a cada passo, mas consegui atravessar a sala sem mancar demais. Quando finalmente me sentei à mesa, o aroma da macarronada de Mamma me envolveu, fazendo até a dor valer a pena.
A mesa obedecia posições pré-definidas: meus pais nas pontas, Babi ao meu lado, Eduardo na minha frente. Meu irmão e a piri-Fabi completavam o círculo.
Não tirei o olhar do Eduardo. Ele também me encarou a maior parte do jantar, desviando só para responder perguntas dos meus pais e do meu irmão.
Era magnético. O feitiço me dominava e transparecia. Não me dei ao trabalho de disfarçar. O dia foi cansativo e minha cota de fingimento com ele se esgotou.
— O que está havendo entre você e ele? — Babi sussurrou no meu ouvido apontando Eduardo com a cabeça. Inclinei em sua direção.
Um suspiro saiu antes das palavras.
— Nada, por quê?
— Vocês parecem brincar de quem pisca primeiro — disse colocando macarrão na boca. — Ou se comendo com os olhos — completou de boca cheia.
— Impressão sua, estamos de boa. — Tentei disfarçar engolindo metade do vinho tinto seco que Papà separou.
Fiquei quieta o resto do jantar. Por fim, todos foram para a sala conversar e eu bocejei.
— Vá para não forçar. Descanse, filha — insistiu Mamma dando duas batidinhas na minha perna.
Precisava ir. Não aguentava mais ver o Eduardo ali cheio de charme e sorrisos, cheiroso, exalando felicidade com meus pais.
— Boa noite, pessoal — me despedi sem realmente cumprimentar ninguém e subi.
Fechei a porta do quarto e encostei as costas nela, respirando fundo. Sozinha. O vestido saiu rapidamente, substituído pelo conforto do short e blusão. Passava os dedos pelos cabelos para desfazer o penteado quando ouvi as batidas na porta.
Abri. Mais uma vez encostando a testa no batente da porta estava ele, com cara séria.
Alguém pelo amor de Deus avisa a ele para parar de fazer isso. Fica difícil se desapaixonar assim.
— O que foi? — Perguntei aflita, quase puxando ele pela gola e jogando na cama.
Se controla, Natalie!
— Vim conversar — falou entrando no quarto sem esperar convite.
— Sobre? — Fechei a porta e virei exalando confiança como da última vez.
— Somos amigos, né? — Perguntou sem tirar os olhos de mim.
Amigos? Não! Não queria mais ser amiga dele. Não queria olhar para ele e sentir meu coração palpitar nem debulhar em prantos cada vez que a esposinha dele dizia fazer coisas com vontade. Não! Isso acabou. Não havia condição de sermos amigos. Chega! Ponto final.
— E então? — Exigiu.
— Sim. — Sentei na cama em derrota. Patética!
Respirou fundo e soltou o ar de uma vez, parecia ter se livrado de um peso. A testa estava menos tensa.
Deu passos até a cama. O colchão afundou atrás de mim. Suas mãos pousaram nos meus ombros e a pressão começou.
— Estou bem. — Disse chegando para a frente, me afastando dele.
— Não está. Sua mãe acha que você está na TPM.
— Agora você fica de fofoquinha com minha mãe?
— Olha como você está me respondendo…
Mas eu sabia que nada tinha a ver com TPM. Esse estresse vinha dele ser casado com a Camila.
— Deita! — Ordenou.
— Dudu, na boa! Não precisa.
— Não me irrita! Deita.
Deitei de bruços e ele sentou ao meu lado, começou a massagem no pescoço, aliviando a tensão. Não percebi que estava tão tensa. Conforme passava os dedos, sentia meus músculos rígidos. Aos poucos fui relaxando ao seu toque.
— Pensei em assistir um filme amanhã, pipoca, cerveja, coca, chocolate. Que tal? Topa?
Deveria ter dito não. Deveria ter criado limites, distância, qualquer coisa que me protegesse de mais uma noite sozinha com ele. Mas suas mãos desceram para os ombros, desfazendo os nós que encontrava pelo caminho, e todas as minhas defesas derreteram junto. Alguns nós demoravam mais que outros, mas sua paciência parecia infinita. Pressionava devagar para que eu não sentisse dor.
— Hm… Sim. Que horas? — Respondi no automático.
— Às oito. Vira!
Como assim vira? Nossa massagem sempre se limitou as costas.
Virei apenas para descobrir a sua intenção. Olhei em seus olhos e ele disse:
— Relaxa! — Como se não fosse nada. Bobagem a minha toda essa novidade.
Seu polegar encontrou as têmporas com movimentos circulares suaves. A dor latejante desde a manhã dissolveu sob a pressão certa, no lugar certo.
— Oito está bom.
Depois pegou minhas mãos, massageou a parte interna, apertou os dedos e puxou para trás até estalarem.
Estalaram todos. Continuou movimentando o pulso de forma circular. O contato com meus braços descobertos me fazia esquentar. Em breve estaria suando e eu sabia que era por conta do singelo toque.
Eduardo massageou todo o braço e fez o mesmo com o outro. Abri os olhos um pouco e olhei para ele de esguelha. Estava como eu, concentrado, sentindo a massagem que fazia em minha mão.
No automático, levantou-se e foi para o pé da cama. Ergueu meus pés, sentou de pernas cruzadas logo abaixo e apoiou um deles em sua perna, pressionando nos pontos de tensão.
— Ahh, isso é bom! — Soltei sem querer.
Ouvi o risinho abafado que deu e morri de vergonha por ter dito isso em voz alta. Fez o mesmo com o pé esquerdo. Abri os olhos, apoiei o cotovelo na cama levantando um pouco o corpo para olhá-lo.
O corpo dele se reposicionou, avançando. Minha perna direita foi parar no ombro dele antes que eu processasse o movimento. Suas mãos passaram pela panturrilha e entrei em ebulição.
O que ele estava fazendo?
Me olhava sério da mesma forma que me olhou no jantar inteiro. Como se esperasse por algo. Suas mãos eram firmes e tranquilas, massageava a panturrilha e seguiam para a coxa.
Meus pensamentos começaram a embaralhar. Se ajeitou para a frente ficando entre as minhas pernas, descendo pela coxa enquanto sua barba por fazer roçava a minha canela.
Esse homem vai me fazer gozar só de me passar a mão.
Mantive o olhar fixo no dele, sua respiração acelerava junto com a minha. Chegou na parte debaixo da perna perto da pélvis e continuou forçando os dedos por cima dos músculos, virou a mão e massageou o interior da perna. Me dei por vencida e caí na cama arfando, fechei os olhos, segurei meus lábios com força.
Não se iluda! Ele não invadira nada por ali. Mas eu queria, como eu queria!
Pegou a outra perna e fez o mesmo. Sua barba roçou na minha panturrilha e dessa vez ele deixou um beijo, sorrindo ao perceber que me arrepiei. Aquilo o agradava, divertia-se no controle. Minhas mãos seguravam o travesseiro do lado com força para não me jogar em cima dele.
Ao massagear o interior da outra coxa, eu sabia que não ia além. Queria me ver assim entregue, implorando por ele. Suas mãos passeavam possessivas, revindicando cada pedacinho das minhas pernas. Me provocava ou me dava o troco por ter tirado a roupa na frente dele. Me deixava louca com um simples toque, como homem nenhum foi capaz de fazer.
— Eduardo — minha voz saiu baixa, quase um sussurro.
Puxou-me para frente pelo quadril, passou minhas pernas pela cintura e encostou minha pélvis perto da dele. Levantou minha blusa na altura dos seios, mas não os descobriu.
— O que é? — A voz saiu baixa, quase rouca.
— O que você está fazendo? — Perguntei umedecendo os lábios, olhos fechados, respiração ofegante.
— Massagem — falou e deslizou as mãos possessivamente pelo abdômen.
— Estou… hm… acabando — pigarreou no meio da frase.
Sua mão grande se espalhava descendo por baixo do umbigo, me fazendo desejar que tivesse coragem de continuar explorando.
Abri os olhos e me forcei a olhá-lo. Estava com a testa contraída, parecia em um dilema interno, mas massageava perfeitamente, me fazendo virar os olhos todas as vezes que seu dedo mindinho descia.
Abriu os olhos e me viu encarando. Levantou as mãos como se tivesse tocado em brasa.
— Terminei! — disse rápido, sem graça. — Está… melhor? — A voz foi diminuindo até o final da frase. Tímido?
Não!
O filho da puta queria me deixar excitada.
Engoli a seco sem conseguir disfarçar. Dessa vez, foi ponto para ele.
🍕 RECADO DO CHEF – JANTAR EM FAMÍLIA COM TEMPERATURA ALTA 🍕
Obrigada por devorar mais um capítulo da nossa cozinha literária!
Hoje servimos:
• rotina nova com gosto de cansaço,
• jantar de quarta com molho da mamma,
• queda dramática na escada (entrada da casa),
• Eduardo reaparecendo como ingrediente surpresa,
• conversa atravessada com vinho tinto,
• músicas novas temperadas com ciúme antigo,
• e uma massagem que passou do ponto… sem passar.
Esperamos que esse prato tenha deixado você mastigando devagar
e desconfiando dos temperos.
🍕 Pergunta da Pizzaria:
👉 Isso foi só uma massagem…
ou um prato que não devia estar no cardápio?
👉 Quem está jogando mais: Natalie ou Eduardo?
Conta pra gente nos comentários ⤵️
A casa agradece —
e o molho continua fervendo. 🍝🔥