13 - Uma dose de confiança, por favor!
Coloquei o vestido da Bárbara. Ajeitei o tecido, olhei pro espelho, olhei de novo. Ela estava certa. Onde eu estava com a cabeça de me sentir uma infeliz derrotada?
Não era mulher de ficar chorando por homem nenhum. Os únicos capazes de me arrancar lágrima na vida tinham sido o Eduardo e o meu irmão. Fora isso jamais me tinha entregado pra nenhum idiota. Fiquei pensando nisso enquanto passava o batom: a mão firme, o traço limpo, exatamente como eu queria.
O espelho devolvia a força e a imagem que eu precisava.
Hora de levantar a cabeça. Se o Eduardo preferia a senhorita barriga negativa, tudo bem. Eu ia engolir o resultado — mas cada vez que me olhasse ia pensar: “E se?”
Soltei o ar. Dessa vez iria armada. Chega de autopiedade, a noite dos meus sonhos tinha acontecido. Ficar triste pra quê?
Soltei os cabelos, coloquei o salto. O perfume foi por último, no rosto, no pescoço, no ar em volta. Uma última olhada no espelho e desci.
A pizzaria ainda estava fechada, mas a equipe já estava a todo gás. Mamma estava na bancada quando entrei.
— Hm… está bonita — observou.
— Obrigada — disse. Opinião de mãe não valia nada, mas se a mamma tinha reparado, alguma coisa estava funcionando.
Fui direto pro caixa. Trocos separados, máquinas carregadas, tudo no lugar de sempre. As pessoas foram chegando e o ambiente foi enchendo.
O boliche era sempre o primeiro a ter movimento. Muitos jovens gostavam do combo diversão e comida no mesmo lugar.
Os meninos chegavam entre sete e oito da noite, porque o show começava às nove. Eu sabia disso de cor. Continuei no caixa, os dedos no trabalho, os olhos na porta de vez em quando.
— Que bundão hein branquinha! — Babi passou por trás de mim batendo na minha bunda. Apenas pisquei pra ela.
— Seu vestido está curto demais!
— E o seu está transparente demais. — Ela piscou de volta.
Tudo bem. Não pude negar.
Mal podia esperar pra ver a cara do Eduardo. Continuei registrando os clientes, separando troco, fingindo que era só mais uma noite qualquer.
Quando o movimento deu uma trégua, fui até o bar do boliche ajudar o Jonas.
— Precisa de uma mão aí? — falei, me apoiando na mesa do bar.
— Nossa! Tem um encontro hoje? — ele me perguntou. Joguei meus cabelos para o lado e sorri.
— Por que? Gostou?
— Quem é o cara de sorte?
Dei uma risada me apoiando no balcão, tirando meus pés do chão.
— Ninguém, isso é coisa da Babi para me desencalhar.
— Se seu pai não me demitir por isso, pode colocar o meu nome na fila.
Ri. Ele voltou pros copos, pegou um, começou a secar com o pano dobrado no ombro, o sorriso ainda no canto da boca.
Jonas tinha trinta e cinco anos, moreno e alto, só pegava maior de quarenta. Namorada na casa dos cinquenta, planos de casamento — o flerte era só o jeito dele de passar o tempo atrás do balcão.
Babi chegou por trás de mim e bateu de novo na minha bunda. Se apoiou no balcão do bar ao meu lado.
— Isso devassa! Empina mais, que eles chegaram.
— Como assim eles… — falei com a intenção de me virar, sem conseguir, porque ela puxou meu braço pra frente de novo.
— Natalie, eles estão babando na sua bunda. Dá aquela empinadinha de novo.
Fiz o teatro pedido. Me apoiei no balcão, fingi uma conversa com a Bárbara, levantei os pés. Uma parte minha achava ridículo. A outra queria saber se estava funcionando.
Jonas apareceu na minha frente, pano no ombro, sobrancelha levantada.
— Pra qual dos três?
— O Eduardo! — a matraca da minha irmã me entregou antes de eu piscar.
— Shiiii!! Cala a boca! — Virei pra ela, mas o estrago estava feito. Jonas já sorria malicioso no canto da boca.
— Um a zero, pra você Natalie. O cara tá vidrado. — disse, secando o copo.
O ego agradeceu. O resto de mim tentou não demonstrar. Virei devagar, do jeito que se vira num comercial de shampoo.
— Cachorra! — Babi encheu a boca pra dizer. — Tá ele, o Luiz e o Pedro de boca aberta.
Sorri para ela e virei na direção deles. Meu irmão e Nekinho carregavam equipamento, totalmente alheios, enquanto os outros três tinham os olhos em mim. Dei uma piscadinha, eles sorriram de volta, sem fazer ideia pra quem foi. Eduardo até corou.
Que fofo!
Os olhares vinham colados nas minhas costas até o balcão. Fingi que não sabia, registrando cliente, separando troco, fazendo tudo com aquela atenção exagerada de uma pessoa muito ocupada pra notar que estava sendo olhada. Tinha algo quase prazeroso nisso, no fingimento, no controle. Durou até o Caio aparecer no meu campo de visão, a mandíbula fechada, os passos compridos.
Sabia o que vinha.
— É assim que você trabalha? — esbravejou, se aproximando.
— Sim, é! Se tiver algum problema que guarde para você. — joguei de uma vez. Que mania chata.
— Você está ridícula, não está vendo que está todo mundo olhando para a sua bunda!
Olhando. Exatamente o plano. Mas explicar isso pro Caio seria perda de tempo.
— Por que você está fiscalizando quem olha para a minha bunda? Não tem mais o que fazer? Esse vestido é bem longo, Caio, não serei acusada de atentado ao pudor, não precisa se preocupar.
— Adianta o vestido ser longo se marca todo o seu corpo?
Sorri.
— Meu amado irmãozinho. Passei cinco anos da minha vida me vestindo como eu queria bem longe de você. Não sou santa! Não sou virgem! Se eu quero mostrar meu corpo é problema meu. Vai cuidar da sua mulher e me deixa em paz.
— Papai já te viu assim? — perguntou, me fazendo revirar os olhos.
— Já! Inclusive disse que eu estou linda. Some daqui!
— Eu não tenho mais paciência nem pra você nem para a Bárbara, pra mim já deu! — Ele saiu sacudindo as mãos, irritado. Como se alguém tivesse pedido a ajuda dele pra algum tipo de proteção.
Alinhei os trocos pela terceira vez. O Caio tinha sumido, mas a discussão ainda ocupava espaço no balcão. Duas clientes chegaram. Sorri, registrei, dei os cartões de comanda delas. Normal.
O Luiz apareceu em seguida. Fingi estar ocupada até ele se apoiar.
— Natalie!
Levantei os olhos na direção dele fingindo surpresa.
— Você está muito gostosa. Como vou te dar carona se aqui já é a sua casa?
Caí na gargalhada. Ele aproveitou e segurou minha mão.
— Então você só me dá carona com segundas intenções? — Caiu o olhar no meu decote, umedeceu os lábios, em transe, afirmando com a cabeça.
— Segundas, terceiras, quartas, quintas. Esse vestido é indecente, quero te carregar pra trás do palco.
— Se comporte Luiz! — impus os limites que faltavam. Ele caminhou devagar para a entrada da cozinha.
— Naquele dia fui com a camisa errada, hoje vim com a calça errada. Já está apertado já. — falou, puxando a calça na altura da pélvis. Um show digno de censura.
— Me respeita, hein! — levantei o meu dedo em riste. — Se não vou mandar meu irmão te dar uma surra.
— Eu quero que você me dê uma surra! Gostosa! — disse, entrando por fim com uma piscadinha de olho pra mim.
Ri depois que ele sumiu. Que papo brega.
A pizzaria foi enchendo e o barulho foi crescendo. Em algum momento a banda subiu no palco, porque havia um homem a poucos metros arrumando pedestal e eu não estava pensando nele sem camisa. Não estava. Olhei pro relógio. Oito e quarenta. Faltava pouco pro show começar e eu não estava pensando na voz dele sussurrando no meu ouvido e nem nos sons que ele fez quando a gente fazia…
— Como estão as coisas? — Mamma chegou por trás de mim.
— Tudo certo e calmo. — pressionei os lábios com força.
O que estava havendo com a minha cabeça?
— Ótimo! Quer descansar um pouco? Seu pai não precisa de mim lá na cozinha. Vai se divertir, dançar um pouco. Liberei sua irmã também, hoje ela está muito chata, está assustando os clientes.
— Não me incomodo de ficar.
— Ah meu bem! Eu não nasci ontem. Você não se arrumou assim para ficar escondida atrás de um balcão.
Ela sabia. Dei-lhe um beijo estalado na bochecha e fui para o bar.
— Jonas! Um “Sexy on the Beach”!
— Se for um convite, eu topo. Vamos agora!
— Não banca o engraçadinho, senão eu te deduro para sua Susana, hein!
Ele riu e começou a fazer o drink.
— Não sabe brincar não desce para o play! — mostrou a língua.
— Ooi devassa! — Minha irmã se aproximou. — Também te liberaram é?
Levantei as mãos para o alto fazendo um “u-uhull”.
Os meninos começam a tocar e as pessoas saíram das mesas e se aproximam do palco. Em pouco tempo a frente estava cheia de mulheres babando, enquanto no bar estava cheio de homens bebendo. Eduardo abriu com uma música agitada e todo mundo se animou. Fiquei no banquinho ao lado da minha irmã, só balançando a cabeça no ritmo.
Eles tocaram mais quatro músicas. Quando fizeram uma pausa, Luiz pulou do palco e veio na minha direção.
— Vamos fazer algo novo hoje! — falou, exaltado e um pouco suado. — Cada um vai escolher uma fã para dançar no palco. — completou rápido, recuperando o fôlego. — Eu sei que você não gosta de exibição em público e não se sente bem subindo no palco. Mas gostaria que dançasse comigo.
Todo aquele povo me olhando no palco, de novo. Hesitei.
— Por favor Natalie! — ele insistiu.
— Ela vai! — Minha irmã respondeu por mim, me empurrando dois passos para a frente com uma batida nas costas.
— Babi!!!
A cretina chegou no meu ouvido e cochichou:
— Eduardo está te olhando! Deve estar louco de curiosidade em saber o que você tanto fala com o Luiz. Vai sua boba!
Virei o rosto de leve. Eduardo bebia água e olhava pra mim. Nossos olhares se cruzaram e meu corpo vacilou. Mantive o olhar firme. Ele foi o primeiro a quebrar — virou para falar alguma coisa com o Nekinho, ignorando a tensão daquilo, o primeiro contato desde aquela manhã.
— Eu danço. — respondi para o Luiz. Ele falou “gostosa” só mexendo os lábios e se afastou em direção ao palco.
Assim que voltaram todos, a música recomeçou. Meu irmão interrompeu com a bateria e puxou a piri-Fabi para dançar no meio do palco, os outros tocando em volta. Depois dele, Pedro escolheu uma fã — a menina ficou alucinada. Nekinho também escolheu uma fã; Ingrid não estava. Eduardo foi atrás de uma ruiva, que subiu no palco como se tivesse nojo. Por fim, chegou a vez do Luiz.
Era impossível não achar graça. Luiz não apontou nem chamou como os outros. Pulou do palco, estendeu a mão e curvou o corpo em reverência.
— Dança comigo, milady!
Coloquei minha mão na dele. Fãs resmungaram em volta — ótimo, o meu fim estava próximo.
— Vou te ensinar como não temer o palco. — ele sussurrou no meu ouvido conforme subimos.
Os olhos vidrados do Eduardo estavam em cima de mim. Baixei a cabeça para esconder o sorriso. A banda continuou com a música, Luiz pegou na minha cintura e me colou em seu corpo.
— Feche os olhos — disse, ao afastar o meu cabelo da orelha.
Fechei e acompanhei a dança em seu ritmo. Fomos até a música terminar. Abri os olhos um pouco tonta. Ganhei um sorriso dele e a mão estendida. Me ajudou a descer do palco e só se afastou quando a Bárbara já estava ali.
— A cara do Eduardo foi impagável! — ela veio correndo na minha direção. — Ele deu até uma desafinada. Você viu?
Não. Eu não tinha visto.
A noite foi passando sem que eu percebesse. Ficamos até o fim, a casa começando a esvaziar. Quando estávamos fechando, voltei pro caixa para ajudar mamma. Aquela aparição no palco tinha virado lembrança boba.
— Está tudo bem com você e o Eduardo, filha?
— Sim, por quê?
— Estou achando vocês estranhos, só isso.
Disse isso se afastando, foi para a cozinha ajudar meu pai. Minha mãe tinha disso: jogava a isca e saía de fininho.
Continuei fechando o caixa sem prestar atenção nas pessoas em volta. Não ouvi passos, não senti nada. A voz dele me tirou do trabalho mecânico.
— Oi! — A covinha apareceu num sorriso leve.
— Oi! — disse, aturdida. Ele estava tão lindo, mesmo suado.
— Seu medo de palco passou?
— A-hm… Luiz me ensinou uma técnica. — passei a mão no cabelo disfarçando.
— Por falar nele, tem alguma coisa — ele mexeu os dedos indicando o Luiz e eu — rolando entre você?
— Somos amigos.
— Como nós éramos?
— Éramos? — o encarei surpresa.
— Natalie, você dormiu comigo ontem e hoje está dando em cima dele?
Pisquei meus olhos. Inacreditável!
— Como é que é? — apoiei minhas mãos nos quadris.
— Só queria entender por que você está dando uma de Maria palheta.
— Eduardo, você está me ofendendo! — Contornei o balcão, para o lado de fora.
— Cara, você viu como ficou transparente o seu vestido na luz do palco? Tá rolando um bolão se você estava com ou sem calcinha. — desabafou, indignado.
— Jura? E o que você apostou? — retruquei.
— Eu estou falando sério, Natalie! E o Luiz falou que ia se empenhar para descobrir, então se é isso que você queria… Chama logo o Pedro para um ménage e você já dorme com todos nós!
Minha raiva foi tamanha que acabei estalando a minha mão em cheio na cara dele. O barulho ecoou por toda a pizzaria. Os olhos de todos os funcionários se voltaram para nós.
Eduardo ainda com o rosto virado, colocou a mão na face.
Não me movi. Levantei o dedo em riste.
— Não ouse me ofender! Promíscuo aqui é você, que já perdeu a conta de quantas mulheres dormiu.
Dei as costas, alcancei o corredor interno que dava na minha casa e fui embora.
Sem olhar para trás.
🍕 RECADO DO CHEF – PRATO DO DIA: VINGANÇA SERVIDA COM SALTO ALTO 🍕
Obrigada por devorar mais um capítulo da nossa cozinha literária!
Hoje o forno caprichou e serviu:
espelho devolvendo força no lugar de lágrimas,
vestido emprestado fazendo mais estrago que planejado,
irmão fiscalizando bunda alheia como se isso fosse trabalho remunerado,
Luiz com a calça apertada e zero pudor em admitir,
Jonas flertando no modo “profissional mas comprometido”,
palco, dança e Eduardo desafinando por culpa própria,
e um tapa que ecoou na pizzaria inteira — junto com anos de paciência acumulada.
Tudo servido quente, com salto alto, batom no lugar e coluna ereta.
Porque às vezes a melhor resposta não é um argumento. É o barulho da mão na cara de quem merecia há muito tempo.
🍕 Pergunta da Pizzaria:
👉 O Eduardo mereceu o tapa… ou mereceu dois?
👉 Natalie foi longe demais… ou finalmente foi longe o suficiente?
Conta pra gente nos comentários ⤵️
A casa agradece — e o Eduardo vai precisar de gelo. 🍕🧊