15 - Nos limites de Poseidon
Toda mulher em missão de conquista precisa de bons planos. Acordei cheia deles. Plano número um: marquinha de biquíni.
— Vamos, Ingrid, por favor. Preciso muito de uma praia, estou quase transparente, com essa cara de concurseira. — implorei ao telefone para que a minha amiga fizesse a parte dela nessa amizade de anos.
— É porque eu tinha marcado de correr com o Nekinho, pirua.
— Chama ele também. Vocês correm enquanto eu pego um bronze, depois a gente fica de papo na areia.
— Tá bom, vou ver se ele topa.
— Tá. Praia do Forte. Meia hora.
— Te ligo quando estiver chegando.
Telefone desligado, bolsa pronta. Caprichei no protetor de alta absorção e passei óleo nas áreas estratégicas. Sou banquela, sem esse equilíbrio viro um pimentão antes do primeiro mergulho.
— Onde vai assim toda animadinha? — Babi disparou ao me ver descer os degraus.
— Praia!
— Nossa! No dia do meu aniversário e nem me chama? — fez beicinho. — Quanta ingratidão depois de toda a minha ajuda.
— Tudo bem! — girei os olhos. — Você pode vir, sua velhinha. Agora juízo, hein! Você não é mais uma criança.
Animada, mostrou-me a língua.
— Meus parabéns. Quais são os planos pros dezoito anos?
— Não sei, vou deixar acontecer. Mas se quiser me pagar um sanduíche com o seu novo emprego, agora que você é uma mulher de negócios não vou negar.
Dei um beijo na sua testa e esperei enquanto ela se arrumava. A demora rendeu duas ligações de Ingrid: ela e Nekinho esperavam na areia. Minha irmã surgiu com um fio dental digno de um tapa-sexo.
— Indecente! — Mirei-a com descaso. — Demorou tanto para vestir só isso?
Sorriu como se recebesse um elogio. Passou um vestidinho amarelo pela cabeça, jogou os cabelos e seguiu pelo portão saltitante. Eu a observei de longe enquanto me ajeitava: biquíni vermelho, sainha branca rodada, blusa da Guess falsificada de Itaipava. A bolsa da Chanel, presente do Thiago, era a única peça verdadeira. Rabo de cavalo. Muito mais comportada do que a piriguete da minha irmã.
Na praia do Forte, o vento das dunas nos recebeu quente e salgado, jogando areia fina nas pernas. Babi nem ligou, deixou que o vestido subisse de uma vez. Eu tive meu momento Marilyn Monroe, segurei o que tinha que segurar. Éramos tão diferentes que quem olhasse jamais acreditaria que tivemos a mesma educação.
Na areia, avistamos Ingrid instalada em uma barraca espaçosa; Nekinho petiscava um churrasquinho com uma lata de cerveja na mão.
— Chegamos! — Babi anunciou, já pulando no pescoço de Ingrid para os dois beijinhos em suas bochechas.
— Finalmente, já até jantei aqui — Nekinho brincou oferecendo o churrasquinho.
Balancei a cabeça negando e agradeci gentilmente. Depois de cumprimentar os dois, esticamos as cangas na areia. O lugar entre as duas era estratégico para a fofoca. Ingrid me cutucou; minha irmã nem tivera tempo de sossegar o facho ao meu lado. A danada encontrara um peguete e estava numa conversa melosa à frente.
— Ela não perde tempo — Ingrid comentou.
Dei de ombros. Babi exalava um charme natural, se relacionava com todo mundo sem esforço. O vento brincava nos seus cabelos enquanto o rapaz perdia o prumo, os olhos brilhavam com a imagem dela.
— Então, me conte! Você começa na segunda? — minha amiga incentivou com um tapinha no ombro me encorajando.
— Sim! — Virando de bruços para bronzear primeiro as minhas costas.
— E lá é legal?
— Parece um ambiente agradável.
— Como ficarão os seus horários de academia?
— Vou precisar adiantar, realmente. Não sei se vou ter disposição para me manter saudável.
— Para com isso, claro que vai. Nos próximos meses eu não vou conseguir mudar de horário. A loja está em ritmo de campanha. Estou saindo morta de lá. Mas prometo me organizar.
— Não se preocupe. Vou obrigar a minha irmã a ir comigo.
— Ih! Não se iluda com essa furona. É melhor arrumar uma amiga no seu trabalho novo. Já conheceu alguém lá?
— Gosto da Diana e do Don Juan — expliquei, adicionando aspas com as mãos. — O advogado. Aquele que fez a minha entrevista. E ela foi quem agilizou minha documentação, são muito educados e prestativos.
— Maravilha. E esse Juan? É bonito?
— Qual é, mulé! — Nekinho levantou as mãos em reprovação escutando por tabela a nossa conversa.
— Não é pra mim, amor, é pra Natalie. Eu estou satisfeita com você. Eu te amo, tchuquinho. — Se aproximou dele e ficaram fazendo aqueles carinhos de nariz e falando com voz de criança um com o outro. Não suporto casais que regridem à infância quando estão juntos, mas esses dois até que são bonitinhos.
— Já vi que Natalie não é boa influência pra você. Vamos correr, que é melhor. — Nekinho implicou, e eu fiz uma careta em resposta. Devolveu girando os olhos e puxou Ingrid pelos braços para uma corrida na areia.
— Não pense que você vai conseguir tirar a minha amiga de mim! — Levantei o dedo em riste. Deu um sorrisinho de canto, como se soubesse de algo que eu desconhecia.
Sozinha, a minha cabeça encontrou descanso na canga enquanto as ondas ditavam o ritmo do mundo. O sol pesava sobre a pele, dissipando qualquer pressa. Fazia muito tempo que não me sentia relaxada assim.
O tempo passou até que o sol sumiu sobre a sombra de uma nuvem. Ao virar, o horizonte foi substituído pelo vulto de Eduardo: em pé, sem camisa, fone de ouvido, suado. Movia a cabeça fazendo que sim, olhos arregalados, mordendo o lábio inferior.
— Isso tudo é pra mim? — questionou se abaixando. Sem ser convidado, sentou confortavelmente na canga da minha irmã.
— O mundo não gira em torno de você — ajeitei os óculos escuros.
Quem ele pensava que era? A rainha da Inglaterra?
— Estou começando a achar que você está me perseguindo. — Me acusou, fazendo com que eu acabasse respondendo com uma gargalhada alta, digna de adolescente quando quer se exibir. — Por qual outro motivo você colocaria esse biquíni na frente da minha casa? — continuou.
Foi inocência minha. Ao ligar para Ingrid, nem passou pela minha cabeça a proximidade com o prédio dele.
— Se você estava me espiando do seu apartamento, sinal de que quem me persegue é você. — retruquei, e ele me devolveu balançando a cabeça num sorriso fofo exibindo aquela covinha. Tirou os óculos escuros enquanto olhava para o mar, ignorando minha contestação completamente.
— Toma conta pra mim. — Depositou o celular, o fone, os óculos e a bermuda na canga da minha irmã, exibindo uma sunga boxer branca. Correu para o mar e eu o acompanhei com os olhos, me deliciando. Dessa vez ele que me deixou babando — justo, dado o show de ontem.
O canto da minha boca subiu sozinho de pensar que ele podia ter feito de propósito e que estávamos agora em um joguinho de conquista. Minha irmã voltou e sentou ao meu lado.
— Eu fico aqui olhando as coisas, vai lá! — apontou Eduardo com a cabeça. Ao longe, no mar, ele nadava com braçadas largas, íntimo das ondas, tão íntimo do mar quanto Poseidon.
— Ele vai achar que eu estou me oferecendo. — Balancei a cabeça em negativa.
Quem ela pensa que eu sou, afinal?
— Se ofereça, boba! Para quem já comeu o bolo, vocês estão fazendo uma novela para lamber a colher, hein.
— É complicado, Babi, eu quero provocar, mas não tenho certeza de como ele me quer. Ele ainda está casado com a Camila, e eu não tenho sina para amante.
— Ele nem mora com ela.
— Mas dorme com ela.
— Você não sabe se ele ainda dorme com ela. Eu acho que ele não faz mais nada com ela.
Eduardo parou de nadar e ficou apenas parado olhando para o horizonte, deixando a onda o levar, me fornecendo uma visão sensacional das suas costas.
— Vai, Natalie. Esquece ela.
Eu sabia que não podia simplesmente esquecer ela do jeito que as coisas eram no mundinho da Bárbara, mas também não conseguia ficar mais ali parada assistindo ele no mar e querendo estar perto, nem que fosse só para conversar como a gente sempre fez.
Os princípios pesavam menos que o magnetismo daquelas braçadas no mar. Lancei um último olhar para a areia, onde a lógica de Babi parecia fazer um sentido perigoso, e dei o primeiro passo. Levantei deixando minha irmã para trás e caminhei. A areia quente queimava a sola do pé; perto da água, ficou úmida e mais pesada, afundando de leve a cada passo.
A espuma chegava fria nos pés. Respirei fundo e entrei. Nadei na direção de Eduardo furando algumas ondas. A água batia na cintura; a praia afundava devagar. Parei onde cobria da barriga para baixo, costas e braços à mostra.
Aproximei-me em silêncio; ele mantinha os olhos no horizonte. Fiquei em pé ao seu lado, olhando para o mesmo lugar. O mar aberto não tinha nada de novo, mas parecia mais fácil do que olhar para ele.
— Adoro essa vista. — Anunciei a minha chegada.
Seu corpo virou para mim, os lábios se estenderam num cumprimento mudo. Afundou na água e molhou a cabeça. Na volta à superfície sacudiu de um lado para o outro jogando toda a água do seu rosto e do cabelo como um comercial de perfume masculino.
— E então… — Arrisquei uma conversa que descontraísse para não ficar com cara de pateta.
Ele afundou pouco, deixando só a cabeça e os ombros por cima da lâmina d’água.
— Cadê a Camila? — soltei pateticamente, me amaldiçoando pela estupidez.
Por que diabos eu estava falando dela?
— Viajando. — Respondeu fazendo o sorriso desaparecer do seu rosto. — Volta amanhã.
— Tem show hoje? — Mudei de assunto antes de me afogar no próprio embaraço.
— Tenho. Por quê? Quer ir comigo?
— Ir com você?
— Não é para isso que você está perguntando da Camila?
— Não, claro que não.
— Então por que você quer saber dela? — indagou.
Não seria estúpida de dizer o que estava pensando. Também não sabia como era possível que isso não tivesse passado pela cabeça dele.
— Educação. — Rebati desanimada, afundando na água.
A onda me carregou para o fundo. Vi Eduardo afundar à frente. Entre o turvo da água e o ardor do sal, ele se aproximou e tentou falar sob a superfície. Ouvi um barulho indecifrável da sua boca ao encher de água enquanto se divertia. Subi, respirei fundo, sem conseguir manter mais a apneia.
— O que você falou? — perguntei.
— Só pode ser ouvido debaixo d’água.
— Eu não entendi nada.
Eduardo puxou o ar e afundou de novo. Resolvi imitar. Nossos olhos se encontraram e ele tentou falar novamente, dessa vez pausando três vezes. Ouvi um “glob glub glaabo”. Subimos novamente, e dessa vez eu não consegui me controlar. Fiquei rindo sem entender nada e sem saber direito por que estava rindo. Marotamente, juntou-se a mim, puxou devagar pelo meu braço fornecendo um abraço protetor de graça.
— Você é minha melhor amiga. Eu não quero te perder. — Sussurrou em meu ouvido.
O abraço, antes leve, tornou-se uma âncora. A mão dele pousada nas minhas costas dizia uma coisa; a frase que tinha acabado de sair da sua boca dizia outra. Ele havia dito que foi um erro, mas não significava que não queria — ficou óbvio no meu quarto o quanto queria. Isso tudo significava que não podia, mas principalmente que não ia tentar nada de novo além da nossa amizade de sempre.
— Onde é o show? — Tentei quebrar esse clima de enterro que eu mesma me joguei.
— No Rio. Fundição Progresso.
— Ahh, legal! — Fiz a minha melhor atuação de parecer animada com o breve futuro dele cheio de tietes cariocas. Acho que eu não conseguiria namorar alguém tão assediado.
— Um milhão pelos seus pensamentos. — Ele colocou os dedos no meu queixo e segurou, mexendo de um lado para o outro calmamente.
— Não é nada.
— Me fala.
— Não é nada.
— Você tem me escondido muitas coisas ultimamente. Me fala, por favor.
— Só estava pensando em como você é assediado.
— Ahh, elas são só minhas fãs.
— A Camila não se importa?
— Você se importa?
— Se eu fosse a sua namorada? Hipoteticamente?
— É! Hipoteticamente.
— Talvez.
A decepção escureceu o olhar dele. Terminou o passa e repassa ficando pensativo, se afastou e afundou novamente. Afundei na frente dele.
— Grrlob grlub grlab — Disse para ele deixando a água entrar na última sílaba e subi tossindo muito. Ele veio em seguida. Minha tentativa de falar debaixo d’água o agradou, o sorriso era imenso.
— Você estava tentando se afogar? — bateu de leve nas minhas costas.
— Estava tentando te dizer algo que só pode ser dito debaixo d’água — devolvi ainda sem ar.
— Você não sabe o que eu falei!
— Você não vai me contar?
Sorriu.
— Eu disse “almoça comigo?” — Me olhou se divertindo. — E se você repetiu, é porque você me chamou para almoçar. Eu aceito!
🍕 AMIZADE GRATINADA COM GOSTO DE MENTIRA 🍕
Obrigada por devorar mais um capítulo direto do forno emocional da nossa história!
O prato de hoje veio com areia nos pés e sal na ferida:
🍽️ Menu Especial
🔸Entrada: biquíni vermelho, óleo nas áreas estratégicas e praia escolhida sem perceber que ficava na frente do prédio dele.
🔸Prato principal: Eduardo aparecendo sem camisa, sem convite e sem o menor sinal de culpa.
🔸Acompanhamento: Babi empurrando a irmã pro mar com a lógica de quem nunca sofreu consequência nenhuma.
🔸Sobremesa: abraço no mar que prometia tudo — e “você é minha melhor amiga” que entregou nada.
🔸Digestivo: almoço marcado com uma frase que ele inventou que ela disse. Espertinho.
E tudo isso servido com aquela pitada clássica da Pizzaria Azzulari: areia, crush e amizade que já não cabe mais no mesmo cardápio.
🍕 Pergunta do Chef para você:
👉 Camila volta amanhã. Alguém curioso aí pra esse retorno?
Comenta aí! A pizzaria agradece — e a Natalie também, porque ela vai precisar juntar as moedinhas pra esse almoço. 🍕🌊