12 - É difícil acordar para a realidade
Abri os olhos. A cama estava vazia.
Meu corpo pesava, as pálpebras resistiam, mas levantei. Puxei o lençol e enrolei no corpo antes de sair pelo corredor.
A voz veio antes de eu chegar à sala.
— Não, cara. Ela está lá no quarto… — falava com alguém no telefone.
Parei no corredor. O chão frio beijava os meus pés. Não me movi.
— Eu sei. Não quero isso. É foda. — Uma pausa. — Não sei o que estava pensando. Não devia ter feito isso.
Encostei o ombro na parede. O lençol escorregou um pouco e eu segurei, sem olhar para baixo.
— O que eu faço? — O som de passos, depois nada. — Cara, estou tão ferrado. Estou começando a achar que foi um erro. Não quero perdê-la.
Foi o suficiente. Voltei para o quarto.
Sentei na beira da cama e fiquei olhando para o chão sem ver nada, as mãos no colo, o lençol ainda enrolado no corpo. A luz que entrava pela janela era quente, daquelas de uma bela manhã de um dia de praia. O lençol ainda estava morno onde eu dormi. Onde nós havíamos dormido. O peito pesado e a certeza de que eu havia ficado quando devia ter ido embora.
Como fui burra.
De me deixar levar. De deixar isso acontecer.
Eduardo havia tentado encerrar pelo menos três vezes durante a noite. Pediu que eu fosse embora, com palavras diretas, e eu escolhi não entender cada uma delas. Agora tudo se encaixava.
Ele era casado. Parecia estar com medo de perder a Camila caso ela descobrisse. Concluindo que não valia a pena ter estado comigo.
O casamento deles está longe de ser normal. Isso não me exime de nada — eu sabia, quis mesmo assim. Coloquei as mãos na cabeça sentindo um peso. Nem por um segundo hesitei. Fui para a cama com um homem casado sem piscar.
O que foi que eu me tornei?
Alguém incapaz de pesar as consequências por causa de uma noite.
Respirei fundo. Não adiantou. Senti o controle escorregando e não tinha como segurar. Melhor ir embora.
Vesti-me. Juntei as coisas. Quando cheguei na sala, ele estava sentado no sofá encarando o celular. As minhas mãos tremiam.
— Ammm… Dudu… rmm, quero dizer, Eduardo — falei com a minha voz falhando, forcei um sorriso — Eu vou… indo — apontei o polegar para a porta tentando parecer casual. Era esse tipo de relacionamento que ele estava acostumado, não é?
Nunca tinha sido boa nisso, mas estava se tornando um hábito. Não queria ouvir a explicação, então resolvi fingir que nada tinha acontecido. Que era tudo bem, que eu também estava acostumada a uma noite quente na casa de um conhecido.
O olhar dele fixo no meu rosto — espantado ou decepcionado, não sabia dizer. Devia ser coisa da minha cabeça. Aliviado, provavelmente.
— A-Ahh! — Ele soou estranho — É que… eu fiz um café pra gente, — passou as mãos pelos cabelos, desviou o olhar — pensei que pudesse estar com fome.
Isso me pegou de surpresa. A minha fome era de matar, e o choro querendo vir junto. Uma sensação horrível. Não aguentava ficar mais um segundo ali.
— Você tem algum compromisso — balançou a cabeça confuso, escolhendo as palavras — hm, urgente? — Torceu os lábios para o lado daquele jeito conquistador.
Meu estômago me entregou com um barulho vergonhoso. Fiquei muda, desesperada — querendo correr dali e ao mesmo tempo não sair nunca.
— Que tipo de pessoa eu seria se deixasse você sair da minha casa com fome? — Eduardo segurou em minha mão, pegou minha bolsa, jogou no sofá e me guiou para a cozinha.
Paralisei assim que entrei porque me deparei com uma mesa de café da manhã digna de hotel: ovos, pães, waffles, frios, geleias, manteiga, café, leite, iogurte, cereal, suco, frutas.
— Uau! — Exclamei sem querer.
Senti que sorria atrás de mim.
— Sente-se.
Comemos em silêncio, nos olhando vez ou outra, cada um tratando o outro com o cuidado de quem não sabe o que fazer com o que tem na frente. Precisava reconhecer, ele caprichou na mesa. Para adiar a conversa difícil, talvez?
O garfo bateu no prato mais vezes do que eu queria. Mastigava devagar, olhava para a comida, olhava para ele, desviava. Ele fazia o mesmo. Havia algo quase cômico nisso, dois adultos fingindo que o silêncio era confortável.
Peguei o copo de suco só para ter algo para fazer com as mãos. Bebi devagar, pousei com cuidado, endireitei o guardanapo no colo. Qualquer coisa menos olhar para ele por tempo demais e deixar escapar alguma das perguntas que ficavam enfileiradas na garganta sem direito de sair.Suspirei.
— Eu preciso mesmo ir… — falei decidida depois de um tempo, saciada, engoli tudo bem rápido para não prolongar mais essa tortura. Não queria que parecesse fuga, mas era exatamente isso.
Não houveram objeções, assentiu devagar, dobrou o guardanapo e se levantou me indicando o caminho.
— Te acompanho.
Fui na frente inquieta, disfarçando ao máximo. Peguei minha bolsa no automático e coloquei no ombro. Guiei os meus pés para a porta, a mão apertando a alça.
Os olhos dele pesavam nas minhas costas e eu fingia não sentir. Não sabia como me despedir, foram os passos mais longos da minha vida.
Passou o braço na minha frente, a mão na maçaneta, e virou o rosto para me encarar de perto.
— Amm… Obrigado. Você sabe…, por ter vindo, e arrumado tudo, — ele apontou para a casa — e por ter ficado.
Forcei um sorriso, e balancei a cabeça cumprimentando como se não fosse nada demais do que dois amigos fariam normalmente um pelo outro em casos de necessidade.
Aí que patético, Natalie. Não tem como parecer mais ridícula?
Virei e fui na direção do elevador. Os passos saíram mais rápidos do que eu queria, desacelerei para não parecer desespero, acelerei de novo porque ficar devagar era pior. Quando cheguei ao botão, dei dois toques, só dois, e tirei o dedo. Coloquei a mão na alça da bolsa de novo. Algo precisava segurar a tremedeira.
Ele ainda estava na porta. Cada vez que nossos olhos se cruzavam eu conseguia um sorriso.
Que climão!
— Natalie… — A voz saiu baixa, parou no meio. Ele passou a língua nos lábios, olhou para o lado, voltou para mim. — Eu não sei como dizer isso… — Continuou — mas…
— Tudo bem… — cortei antes que terminasse.
Não precisava ouvir.
— Nada disso aconteceu, ninguém vai ficar sabendo. — finalizei. Já sabia o roteiro: discrição, segredo, a Camila não pode descobrir. Poupei nós dois.
Ele franziu o cenho. Desviou os olhos de mim e encarou o chão por um tempo.
— É… — Engoliu devagar, a língua passando pelos dentes com a boca fechada. — É melhor assim.
Fiz que sim com a cabeça.
O maxilar estava travado. O choro na garganta, segurado com tudo que eu tinha. Olhei para o painel do elevador, para os números que não mudavam rápido o suficiente, para qualquer coisa menos para ele. Cada segundo que passava era um segundo a mais que eu precisava manter o sorriso no lugar, a postura, a ficção de que estava tudo bem e eu era o tipo de pessoa para quem essas coisas não importavam.
O elevador apitou.
O som foi um alívio. Me joguei para dentro quando as portas abriram, de costas para Eduardo antes mesmo de ele poder abrir a boca. Apertei o botão do térreo com o dedo e recuei até a parede do fundo, os olhos fixos nas portas enquanto fechavam, devagar demais, até que o corredor desapareceu e sobrou só o reflexo distorcido do meu próprio rosto no metal.
Encostei no canto e me encolhi para o chão, os joelhos no peito, a bolsa caída do lado. Deixei o choro sair sem tentar controlar, sem me importar se alguém apertasse o botão de algum andar no meio do caminho.
Ninguém apertou, ou apertou e eu não percebi. Nem sei se passei por alguém no trajeto do elevador até a rua, da rua até a minha casa. Em algum momento estava no quarto, na cama, sozinha com o teto e o silêncio. Era o que precisava e era a última coisa que eu queria.
Chorei por tudo. Pelo que foi maravilhoso e pelo que não ia se repetir. Pelo que senti e pela proximidade que já era distância. Pelos planos que não deram certo e pelos que deram certo demais, que chegaram longe demais para doer tão fundo quando terminam.
Só queria voltar. Me jogar nos braços dele, deitar na cama de novo, fingir que havia mais páginas. Queria o começo de alguma coisa. Não o único capítulo.
Dormi. Acordei com a tarde pesando no corpo, a luz errada, aquela claridade de horas perdidas que desorientava antes mesmo de lembrar por que eu estava deitada no meio do dia.
Fiquei de olhos abertos olhando para o teto por um tempo sem contar. Depois fechei de novo. Não adiantou.
A porta abriu sem ninguém bater.
— Mamma precisa de você na pizzaria hoje. — Babi falou do vão da porta, a voz prática, sem margem para negociação. — Tem show dos meninos sempre enche.
Coloquei o travesseiro na cabeça, não estava preparada para encará-lo já.
— Tudo bem!
— Organiza as coisas lá no caixa antes da seis, tá?
— Está bom, Babi.
Uma pausa.
— Você está bem?
— Não!
— O que aconteceu?
— Nada.
Devia estar um lixo aos olhos da minha irmã. Porque a Babi só sentava assim quando a situação era mesmo séria.
— Como assim nada?
— Só não estou bem, me deixa em paz.
Ela ficou.
— É o Eduardo? — arriscou, e eu não sabia como pôde acertar em cheio.
— É!
— Ahh Natalie. — A voz saiu mole, daquele jeito doce dela. — Vocês são amigos a tanto tempo, se dão tão bem. Vocês vão se entender.
— Dessa vez foi diferente.
— Diferente por quê? — Cruzou os braços, inclinando um pouco o corpo na minha direção. — Vocês brigam toda hora, eu me lembro antigamente quando ele se drogava, você enchia o saco dele pra caramba. Tinha dias em que explodia, mas sempre voltava com o rabinho entre as pernas. Sabia que você era a única preocupada de verdade, a única cuidando pra ele não se destruir.
— É diferente porque dessa vez nós não brigamos. — Sentei na cama para desabafar.
— Melhor ainda, não vê?
— Eu dormi com ele. — Direta ao ponto para que ela entendesse o meu drama.
— Ohh! — me encarou surpresa — Desde quando você gosta dele? Ou vocês estavam bêbados e… — Fez um círculo com os dedos.
— Eu não estava bêbada e ele estava se recuperando — fiz um barulho com a boca deixando o ar sair dos meus pulmões — Gosto dele desde sempre.
— Desde sempre? Sempre, sempre?
— Sempre.
Ela se mexia na cama desconfortável.
— Não sabia, sempre achei que o tratava como o Caio.
Era só o que me faltava. Minha própria irmã achava que eu o tratava como irmão. Joguei-me novamente na cama, desistindo de tudo.
— Entendi, só preciso de um tempo para assimilar — falou soando confusa.
— Esquece! Deixa pra lá. — Falei cobrindo minha cabeça com o travesseiro de novo.
— Não, se acalma. Vamos pensar… — ela remexia no lugar ao meu lado — Sempre achei que ele fosse apaixonado por você. Nunca que você também era.
— Ele não é apaixonado por mim — falei com a voz abafada pelo travesseiro.
— Natalie! Por favor, né! O cara ficou numa fossa profunda desde que você foi pra São Paulo, chorava que nem um bebê de saudades. Várias vezes foi atrás de você e voltou miserável porque você estava saindo feliz e contente com algum carinha lá. O Dudu não conseguia mais escrever, e agora que você voltou… Consegue. Fala sério! Isso não te diz nada?
Levantei num pinote.
— Quê?
Ela apenas balançou a cabeça confirmando. Não tinha como isso ser verdade. E mesmo que fosse…
— Ele é casado!
— Você sabe que esse casamento é só de fachada.
— Não sei não, até onde eu sei a Camila comparece com ele com vontade.
— Você está sendo ridícula e com ciúmes.
— Eu não estou com ciúmes.
Ela franziu a testa e arregalou os olhos.
— Tem certeza? — Pergunto com medo, a dúvida me consumiu. Queria muito acreditar em tudo o que ela disse.
— Se arrume bem hoje, para deixá-lo com vontade de mais uma noite. Tenho um vestido perfeito.
— Seus vestidos não cabem em mim.
— Esse cabe. Vem. — Ela me puxa para o seu quarto rosa estilo Barbie, com cheiro daqueles perfumes doces enjoativos.
Mostrou um vestido longo, malha levinha escorregando entre os dedos, o mais perfeito verde abusando do decote nas costas e na frente.
— Veste!
— Não é muito meu estilo, Babi. Eu vou parecer desesperada. Muito aberto aqui e… — Movimento as mãos na altura dos seios.
— Não importa o que as pessoas vão pensar! O que importa é que ele deixa com corpão violão, e peitão. Ele vai ficar louco querendo te comer de novo. Você é uma mulher incrível, não tem nada demais em usar os seus atributos para chamar atenção do cara que você gosta.
Não consegui segurar o riso, só mesmo minha irmã para me alegrar assim.
🍕 RECADO DO CHEF – PRATO DO DIA: RESSACA EMOCIONAL COM CAFÉ DA MANHÃ 🍕
Obrigada por devorar mais um capítulo da nossa cozinha literária!
Hoje o forno esfriou… mas o estrago já estava feito.
Servimos:
• uma manhã silenciosa depois de uma noite barulhenta,
• conversa pela metade (ouvida sem querer),
• decisão tomada antes da explicação,
• fuga disfarçada de maturidade,
• café da manhã digno de hotel cinco estrelas,
• e duas pessoas fingindo que sabem exatamente o que estão fazendo.
Tudo montado com cuidado demais…
pra esconder o desconforto.
🍕 Porque às vezes não é a briga que quebra tudo —
é quando ninguém briga.
Natalie escolhe não ouvir.
Eduardo escolhe não impedir.
E assim nasce aquele clássico:
“foi melhor assim”…
que ninguém acredita de verdade.
🍕 Pergunta da Pizzaria:
👉 Foi orgulho… ou autoproteção?
👉 Se ela tivesse ficado mais cinco minutos,
a história mudava… ou só piorava?
Conta pra gente nos comentários ⤵️
A casa agradece —
e hoje o problema não foi o calor… foi o silêncio. 🍕