16 - É tudo culpa do pós-sexo! (PARTE I) Tudo Acaba em Pizza · Capítulo 20 de 21
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16 - É tudo culpa do pós-sexo! (PARTE I)

Eduardo virava uma caixinha de surpresas. Esse relacionamento sem nome me deixava confusa. Sorri e aceitei que ele tinha acabado de se convidar para almoçar comigo, ou melhor: ele me fez convidá-lo sem eu perceber. Confesso, queria passar mais tempo ao seu lado, só não queria parecer oferecida. Ele estava acostumado com gente disputando sua atenção, e entrar nesse jogo de conquista me deixava em dúvida se valia arriscar nossa amizade para ser mais uma no meio de tantas

— Tudo bem! — cortei os meus pensamentos ainda incerta — Vou levar a Babi no Mc Donald's, se quiser pode vir. — Carreguei minha irmãzinha mala para uma posição valiosa de vela. Ela ia me odiar por isso, fazer o quê? É para isso que servem as irmãs. Ainda não estava pronta para aquela conversa direta do pós-sexo com o homem casado, só de pensar a náusea tomava conta do meu corpo.

— Ótimo! Você paga, Rainha Marguerita! Já que agora está empregada. — Saiu falando a passos lentos no ritmo das ondas de volta para a areia. Cerrei os olhos com o seu jeito ríspido. Não lembrava de ter contado sobre o emprego. Talvez fosse por isso que tinha dito sentir que eu escondia coisas dele. — Temos que comemorar seu emprego. — Olhou para trás e sorriu, não sabia se estava zangado ou não.

A primeira suspeita da minha lista era a mamma, ela passava muito tempo com Eduardo e não conseguia prender a língua dentro da boca quando se tratava da minha vida particular.

Estou começando uma teoria do pós-sexo com um amigo. Antes, vocês se comunicam só com o olhar, a intimidade é grande, e nada do que ele faz ou fala magoa de verdade, porque tudo vira brincadeira. Agressões são permitidas dentro da amizade, contanto que ninguém acabe no hospital. Toques, abraços, sorrisos e até palavrões cabem nesse acordo. Depois do sexo, tudo fica estranho. Aquela mente que antes eu decifrava sem esforço agora parece distante, como se eu tivesse perdido a chave. Fica mais intenso, porque agora eu sei o que aconteceu e quero mais. Parece que deixamos de ser amigos pra virar dois jogadores na mesma mesa. Ou é coisa da minha cabeça.

Não, não pode ser.

Ele está jogando também, tem que estar.

Por qual outro motivo iria no meu quarto falar aquilo daquele jeito?

A Babi está certa, nós dormimos juntos, já comemos o bolo, porque tanto caso para lamber a colher?

No final essa situação toda se resume na falta de coragem. Não tenho coragem de chegar nele e mandar um"Pede o divórcio que você agora é meu!".

E se foi só um sexo casual? Coisa do momento?

Ele é assim com todo mundo, por que seria diferente comigo?

Argh!

Fiquei esse tempo no mar tentando entender, logo desisti. Virei e avistei a areia. O folgado estava sentado na minha canga, conversando com minha irmã, Ingrid e Nekinho, que tinham voltado da corrida. O sorriso era largo no momento em que eu nadava de volta pra costa. De longe, ele dava um cascudo na minha irmã. Brincavam como crianças sob os protestos da Ingrid, que tentava protegê-la, enquanto as gargalhadas de Nekinho incentivavam a bagunça.

O impacto da onda turvou minha visão e perdi o chão dos pés. Engoli água no instante em que o corpo bateu contra o fundo. A cabeça girava de tontura, a areia arranhava minhas pernas, até que uma mão segurou a minha com força e puxou-me de volta à superfície. Gargalhadas ecoavam por todos os lados. Cuspi dois litros de água quando me sentaram no chão e ajeitaram meu biquíni.

Ai, meu Deus! Que mico!

— Não acredito que você tomou um caixote com essa idade! — Eduardo mirava preocupado ajoelhado na minha frente. Minha irmã, do seu lado, com uma mão na boca escondendo o risinho, e a outra arrumando o meu biquíni.

Cretina, a gargalhada tinha sido dela!

— Você está bem, pirua? — Ingrid perguntou preocupada, o susto ainda meio disfarçado num risinho.

— Vai lá Natalie! — disse Nekinho com o celular na mão. — Faz de novo que agora eu vou filmar!

Se eu não estivesse tão tonta, descia minha mão nele agora mesmo. Levei a mão à cabeça. Eduardo, ao me ver girando os olhos, pegou-me no colo outra vez, carregou-me até a canga, onde deitei até as forças voltarem.

Um gosto horrível de água e areia na boca. Meu cabelo então nem queria olhar, devia estar areia pura. Pior que eu tinha idealizado sair da água que nem aquelas modelos fotográficas, lançando os cabelos fazendo o sol iluminar como se fosse um anjo. Mas como eu era patética demais, ao invés de impressionar, tomei um caixote.

Levantei devagar. Ingrid e Nekinho correram para a água, mas Eduardo e minha irmã ficaram ao meu lado, com o mesmo sorriso sacana estampado no rosto.

— Pode parando os dois! Seus idiotas! Não vou pagar comida para ninguém se ficarem me sacaneando. — A vergonha da minha situação era aparente, não tinha dúvidas que havia ficado de pernas para o ar que nem uma desengonçada.

Ambos viraram o rosto para o mar, até admirei o esforço que estavam fazendo para não gargalhar na minha cara. Bárbara quase que cuspiu de tanto que prendia a gargalhada.

Dois idiotas! Que raiva!

A praia perdeu a graça. O silêncio caiu entre a gente e, para completar, minha irmã, amiga da onça, me deixou sozinha com ele e foi pro mar com a Ingrid.

Só queria enfiar a cabeça na areia e não sair mais.

— Não foi a primeira vez. — disse quebrando o silêncio. — Não precisa ficar assim, lembra quando fomos para Noronha?

As lembranças da viagem do colégio voltaram todas de uma vez, minha vista se perdida no horizonte. Assustada com aquela informação da minha vida que ele jamais deveria ter obtido, foquei em seu rosto. Sabia que não era o meu primeiro caixote naquele dia, mas não sabia que ele tinha visto o primeiro que eu tomei na vida. Bati com a mão na testa.

— Você viu aquilo?

— Eu ia te chamar para jogar sinuca. — Balançou os ombros descontraído, como se não tivesse sido nada de importante.

— Por que você nunca me falou disso?

— Achei que você fosse me contar. — Ficou sério e me encarou direto. — Por que você não me contou?

Minha vergonha era tremenda. Eu estava com a Ingrid e mais duas amigas na praia, pegando sol e aproveitando aquele resto de tarde. Fui pra água, mas quase não tinha gente ao redor, o sol já se punha e não era época de férias. A praia costumava ficar calma, mas uma onda apareceu do nada e me levou junto. Parecia que esse tipo de coisa só acontecia comigo, só pra me deixar patética. Achei que só as meninas e alguns desconhecidos tinham visto.

— Por que eu iria te contar algo tão vergonhoso assim?

— Pensei que você me contasse tudo. Eu te contava tudo.

— Não contava, não! Homens nunca contam tudo.

— Eu contava. — A mandíbula travou. — Depois desse dia passei a segurar um pouco mais a língua. — Virou a atenção pro mar, aborrecido.

Pera aí! Ele estava assim porque eu não tinha contado que tomei um caixote na nossa adolescência? Que ridículo.

— Só porque eu não te contei de um acontecimento constrangedor e cômico? Você acha que eu queria que você risse assim de mim?

— Já rimos juntos de tantas outras coisas. Isso é só mais uma coisa idiota.

— Eu sei, eu só não queria. — dei de ombros.

No fundo, sempre quis que Eduardo me visse como alguém interessante. Na adolescência, eu me fazia de madura perto dele, achando que era isso que homens procuravam numa mulher. Ele e meu irmão viviam comentando sobre atrizes e cantoras famosas, mulheres mais velhas e mais vividas.

— Você está sendo infantil. — torceu a boca, descrente.

— Eu era infantil! — Levantei e comecei a arrumar as minhas coisas. — Quero ir embora, você vai almoçar com a gente?

— Sim. Quer passar lá em casa para tirar a areia?

— Pode ser. — disse, em seguida percebi minha irmã na água com o peguete dela e senti que ela estava aprontando. Não conseguia acreditar de início. Eles se moviam em um ritmo muito incriminador. Ela não seria capaz de fazer algo impróprio, seria? Logo em uma praia repleta de crianças e famílias?

Fiz sinal e chamei pela Bárbara, que, completamente alheia à existência de outras pessoas na praia, demorou uns cinco minutos para por fim me notar. Acenei, indicando que já estava de saída. Minha irmã, cabeça oca, confirmou com um aceno, levantando a mão para pedir mais cinco minutos. Quando os cinco minutos acabaram, saiu da água e veio em minha direção com um bico e uma carinha triste.

— O que você estava fazendo? — indaguei constrangida, e com medo da resposta.

— Nada — se fez de dissimulada, a satisfação escapando pelo canto da boca. O garoto continuava na água, sinal de que ele ainda ia demorar pra sair.

— Bárbara! Tem crianças nessa praia. Como você tem coragem de se comportar assim?

— Você está indo embora? — pegou sua bolsa e começou a organizar as coisas, respirei fundo para não voar nela e puxá-la pelos cabelos.

Irresponsável! Dissimulada! Podia ser presa!

— Minha vontade é de te largar em casa e contar para a mamãe.

— Ahh Natalie! Não banca a virgem comigo agora, não. — Ela começou falando alto, e eu já me envergonhava das pessoas à minha volta que estavam olhando aquele barraco. Eduardo fez um barulho pela boca, flagrei ele engasgando do meu lado.

— Cala tua boca! — Apontei o dedo para ele não começar a palhaçada da gozação, porque não era hora para isso.

Tentava ser uma irmã mais velha, enquanto ele usava meus momentos e sábias palavras de aconselhamento para ficar de gracinhas. Eduardo levantou a mão em rendição, com aquele ar de deboche que nunca saía do rosto dele. Parecia até que estava sempre marcado e sempre ligado para me fazer enlouquecer e sentir mais vontade de atacá-lo. Era uma afronta!

Foco!

— Você podia ir para a cadeia por conta disso! Quantas vezes você já fez isso? — Voltei para onde era mais necessária na educação e formação de personalidade da minha própria irmã. — Meu Deus, é desse jeito que você está se comportando? Não me impressiona o Caio estar todo cheio de tiques de proteção. Sufocando até a mim com aquela possessão incômoda.

— Com quem eu fodo ou deixo de fuder não é da sua conta nem do Caio. — Babi se aproximou de mim abaixando a voz, quase sussurrando em tom de ameaça. — Você me deixou aqui sozinha. Esse tempo todo, nem se importou como eu estava ou o que eu estava fazendo. A sua única preocupação era sua vidinha em São Paulo e seus estudos. Não me venha bancar uma de irmã agora. — bufou — Volte para os seus namoradinhos, para seus livros de merda e para os seus problemas de universitária de cidade grande.

Deu as costas para mim. Eu estava chocada demais para reagir. Mantive a minha boca aberta e a observei voltar a recolher a sua canga do chão guardando-a na bolsa ao mesmo tempo continuava a falar:

— Agora eu tenho uma vida. E você não tem direito nenhum de vir pagar com sermões. Você não estava aqui quando eu precisei da minha irmã, da minha melhor amiga. Só se importava com o que estava vivendo lá e deixou a todos nós para trás como se não fossemosnadaalém de seu passado, telefonemas dos finais de semana, e presença obrigatória nos feriados.

A voz dela embargou, a dor evidente, antes de dizer:

— Você não sabenadada minha vida. Não sabenadado que eu já vivi, nem do que eu tive que passar. Então faz o seguinte: volte pro seu mundinho dos sonhos perfeito e para de me encher o saco.

🍕 CAIXOTE NA PRAIA COM MOLHO DE MÁGOA GUARDADA 🍕

Obrigada por devorar mais um capítulo direto da cozinha (e da beira-mar) da Pizzaria Azzulari!

🍽️ Menu Especial

🔸Entrada: Eduardo cobrando o almoço, tempero: ciúme disfarçado de economia. Porque ninguém lembra emprego de amigo por acaso.

🔸Prato principal: um caixote homérico conquistou a platéia, com Nekinho pedindo replay pra filmar — vergonha alheia rende mais visualização que qualquer prato do cardápio.

🔸Acompanhamento: Eduardo guardando o primeiro tombo dela desde Noronha só pra descobrir, anos depois, que o problema nunca foi o tombo; foi ela não ter contado pra ele.

🔸Salada extra: Bárbara flagrada aos beijos manda a irmã mais velha "não bancar a virgem" — papel invertido servido frio, a caçula dando lição de moral em quem devia dar.

🔸Digestivo: a bomba da Babi não veio do nada — vinha fervendo em fogo baixo esse tempo todo por trás de cada piada, e estourou bem na hora em que Natalie tentou ser irmã mais velha.

Esperamos que esse prato tenha te deixado tirando areia do ouvido e um nó na garganta no fim.

🍕 Pergunta da Pizzaria:

👉 O que será que Babi viveu que precisava tanto da irmã no passado?

Conta pra gente nos comentários ⤵️

A casa segue aberta — mas hoje o forno esfriou no fim do capítulo. 🍕

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