10 - Um Novo Trampo
Naquela noite Eduardo saiu do meu quarto com um sorrisinho lavado na cara. Me desejou boa noite com um beijo na testa e me segurei para não mandá-lo pastar. Contive raiva e frustração no terceiro banho do dia, gelado para apagar o efeito daquele cretino.
Na manhã seguinte, meu celular tocou antes mesmo de eu conseguir terminar o café.
— Natalie Azzulari? — perguntou uma voz feminina, firme e profissional.
— Sou eu.
— Aqui é Laura Novais, do setor de Recursos Humanos da Van der Barthon.
Engoli o pão na hora errada e passei os três segundos seguintes tentando não morrer antes de saber o que queriam.
— Ah… oi! Desculpa, engasguei.
— O senhor Juan revisou seu currículo e decidiu dar prosseguimento ao processo seletivo. Podemos marcar sua admissão para hoje, às duas da tarde?
Senhor Juan…
Don Juan.
O homem que tinha transformado minha entrevista em um desastre histórico agora aprovou a minha contratação.
— Claro! — respondi, rápido. — Quero dizer… sim, às duas está ótimo.
Desliguei e encarei meu reflexo na porta da geladeira como se ela fosse um espelho mágico.
— Você vai trabalhar nisso. Vai fazer dar certo. Você consegue!
Duas horas depois, eu parecia uma executiva que definitivamente não tinha caído na sedução do melhor amigo no dia anterior: blusa de seda, saia verde de cintura alta, salto médio e acessórios escolhidos com cuidado. Até passei perfume.
Laura era elegante, objetiva e tinha um sorriso que não entregava nada.
— Então, Natalie, vamos falar da sua experiência profissional…
Falamos. De tudo. Processos, números, metas, rotinas. Quando ela mencionou o salário, quase sorri como uma criança ganhando brinquedo novo no Natal.
— Você começará como analista de operações. Os três primeiros meses serão de treinamento e integração. Início na próxima segunda-feira.
Eu apertei as mãos no colo para não levantar e abraçá-la.
— Perfeito.
Quando saí da sala, já passava das quatro da tarde. A parte chata veio depois: documentos, exames, cópias, assinaturas. Foi aí que conheci Diana, uma garota de rabo de cavalo alto, com a expressão cansada de tantas carreiras já inauguradas naquela baia.
Ela digitava algo no computador sobre a minha admissão, volta e meia pedia um documento específico. Ficamos nessa por algumas horas, entre o sistema travando e ela redigindo informações pertinentes sobre meu histórico profissional. Tirando uma foto do meu rosto atualizada com a pequena webcam do seu computador e criando o meu crachá.
— Está liberada, Natalie. — disse, carimbando a última folha.
— Obrigada, Diana. Foi um prazer.
— Igualmente. — Ela sorriu, depois hesitou. — Hm… Natalie?
— Sim?
— O pessoal vai sair para um happy hour ali no restaurante da frente. Quer ir com a gente?
Olhei o relógio.
18h52.
Às oito, eu tinha o filme marcado na casa do Eduardo.
O mesmo Eduardo que tinha estragado meu dia anterior com maestria.
Imaginei ele rindo do controle que exerceu sobre mim ontem. O que ele queria com aquilo?
Minha mão apertou a alça da bolsa.
— Sim — respondi, antes que a sensatez pudesse intervir. — Eu adoraria.
Se ele podia se divertir as minhas custas, eu também podia.
Saí da empresa com Diana e mais um casal de amigos dela. Viramos na esquina do corpo de bombeiros e atravessamos até o restaurante. Bonito, com largas vidraças. Nunca fui lá, e olha que Cabo Frio é um ovo.
O pessoal da empresa bebia e brindava. Não conhecia ninguém, mas Diana me apresentou.
— Natalie é a prova de que também dou chance a bons currículos. — Dr. Juan levantou o copo do canto da mesa. Todos brindaram.
— Minha entrevista foi tão ruim assim, senhor?
— Péssima! — Balançou a cabeça sorrindo.
— Sente-se! — Acompanhei Diana até uma cadeira próxima. — Estou brincando, Natalie.
Sorri.
— O perigo hoje foi Teresa fechando contrato com a chefa! — Um rapaz falou.
— Achei que ela fosse me comer viva. — Teresa respondeu passando as mãos pelos cabelos.
— Ela anda irritada ultimamente, acho que é falta de ó… — O jovem fez um símbolo erótico com a língua dentro da boca e todos riram.
— Soube que ela amarrou um gostosão, mas ele não costuma ficar lá. — Diana acrescentou. — Deve estar faltando assistência mesmo.
— O que está achando da empresa? — Don Juan me perguntou desviando o rumo da conversa. Um homem ético, não parecia confortável enquanto falavam mal da colega de trabalho dele.
— Estou gostando. Terei oportunidade de conhecer melhor semana que vem, senhor.
— Não, não. Me chame de Juan, por favor. Esse negócio de senhor me faz sentir velho.
— Me desculpe, é costume difícil de largar. Chamo todos os meus chefes assim.
— Mas não sou seu chefe. Não temos relação no trabalho, só estive envolvido na sua admissão. Agora você pertence a outra gerência.
— Sendo assim, tudo bem. Juan. — Ele sorriu satisfeito.
Brindamos, me enturmei, soube das fofocas, dos horários do cafezinho e da vida da tal chefa. Quando olhei a hora eram vinte para as dez. Meu celular tinha trinta ligações do Eduardo.
Achei que já estava na hora de encerrar essa noite. Me despedi dos novos amigos e fui até onde estacionei o carro da mamma.
— Quer carona? — Don Juan alcançou meus passos.
— Obrigada, mas estou de carro.
— Te acompanho, então. — Andou comigo até lá, nos despedimos e fechou a porta quando entrei. Um perfeito lord.
— Até! — Acenou.
Dei toquinhos na buzina e saí.
Dirigi os seis minutos até o prédio do Eduardo sem rádio. Quando preciso de silêncio pra pensar, geralmente é porque a conclusão que estou chegando é uma que eu não quero admitir em voz alta.
Parei em frente ao portão. O carro ficou no ponto morto por um tempo que não soube medir.
Vai embora, Natalie.
Os olhares dele ontem no meu quarto, vieram na minha memória e o meu pé foi para fora do carro em direção a portaria sem que eu pudesse impedir.
— Boa noite, Celso. Ele está em casa?
— Boa noite, senhorita Natalie. Tá sim.
— Sozinho? Acompanhado?
— Sozinho, senhorita.
— Uffa! — Desabafei. O porteiro me deu um sorriso constrangido.
Ao chegar na porta do apartamento ouvi um barulho lá dentro. Algo bateu na porta minutos depois de eu ter tocado a campainha. Dei um pulo para trás. O olho mágico escureceu.
— Merda! — Sussurrou atrás da porta.
— Abre logo! Te ouvi daqui.
Eduardo abriu uma fresta. Estava com camisa surrada, imunda de salgadinho, um bafo de cerveja explosivo. Empurrei a porta com o ombro e o homem do outro lado despencou no chão como uma árvore derrubada.
Um metro e oitenta de músculo e péssimas decisões de vida, Eduardo encarava o teto, imóvel, certo de ter desvendado um mistério vital sobre o universo, a vida e tudo mais.
A sala era uma obra de arte do caos. Latas de cerveja formando constelações no tapete. Três garrafas de whisky em diferentes estágios de quase vazio — uma delas ao lado de um copo limpo, que me pareceu a única escolha sóbria da noite.
— Você bebeu isso tudo sozinho?
— Ô Nafalie. — Ele tentou apontar o dedo na minha direção, mas o dedo foi para outro lugar. — Focê qué vá páqueta se mevedendo na miafida.
— Cristalino.
Peguei o telefone e liguei para o Nekinho e o Pedro. Enquanto esperava, deixei Eduardo no chão onde estava e comecei a catar as latas. Ele me observava com um olho semicerrado.
— Tô bem — anunciou, sem que ninguém tivesse perguntado.
— Hmm…
— Tô ótimo.
— Para de falar.
Ele parou. Depois ergueu o polegar.
Dez minutos. Os dois chegaram sem fazer perguntas, que é o perfil de amigo acostumado a uma situação dessas. Avaliaram a cena com aquela calma por já terem visto coisa pior, e ergueram Eduardo enquanto eu atacava a cozinha. A pia chegou a um patamar inacreditável. Lavei, organizei, coloquei a água do café no fogo.
— Natalie. — Pedro apareceu na porta segurando um saquinho com dois dedos. — Tem maconha no quarto dele.
Parei de mexer no saco do café.
— Joga fora.
— Tá falando sério?
— Pedro. — Virei. — Você acha que estou fazendo cara de quem não está falando sério?
Ele deu um passo para trás, avaliou minha expressão, e foi para a sala sem mais comentários. Nekinho passou pelo corredor sem me olhar nos olhos, o que foi sábio da parte dele. Pegou uma toalha de banho na área de serviço e depois eu só pude ouvir uns resmungos indefinidos de Eduardo lutando pra não entrar no banheiro.
Fui arrumar o quarto quando ele já não estava mais lá. A bagunça tinha uma lógica própria, do tipo que só faz sentido depois do quarto whisky. Passei a mão pelo edredom, endireitei o travesseiro, recolhi a roupa do chão — aquele tipo de movimento mecânico que o corpo faz quando a cabeça está ocupada demais pra dar outra ordem.
Não queria pensar na maconha. Então pensei em outras coisas: na posição da almofada, no fio de carregador enrolado na perna da cama, nos dois filmes que ele tinha deixado na mesa.
Parei.
Peguei as caixas. O Melhor Amigo da Noiva e Amizade Colorida. Os dois que eu amo. Fiquei parada segurando por um segundo, e devolvi sem conseguir nomear o que estava sentindo. Coloquei de volta na mesa deixando o quarto para trás assim que eu ouvi a água desligar.
No corredor, fechei os meus olhos e respirei fundo pra recuperar o meu equilíbrio emocional. Não queria acreditar que ele havia mentido para mim quando disse que estava limpo. Pedro passou por mim como um furacão em direção a sala. Nekinho devia estar encostando ele na cama quando a voz deles chegou até os meus ouvidos.
— Ela está puta?
Virei de volta para a porta do quarto entreaberta.
— Cara… — Nekinho hesitou — Falou torto com o Pedro por causa da sua maconha. Tá com a cara fechadona do tipo que tá a ponto de explodir. Se prepara.
— Não tenho maconha. Dá onde você tirou isso?
— Pedro achou nas suas coisas.
— Não é minha! — Uma pausa longa. — Juro.
— Se entende com ela então, grandão.
— Foda isso, irmão. Minha cabeça dói pra cacete. Não tô afim de aturar esporro da Natalie depois do bolo que ela me deu.
— Cê quer que eu faça o quê? Arraste a mulher daqui pelos cabelos? Tô fora, irmão. A mulher é tua, você que lide com a fera.
— Minha… — Eduardo repetiu, num tom de deboche. — Pfff, uma ova. Fiz um circo aqui pra ela, cara. Até porra de luz de velas comprei.
— Sério? Tomou coragem?
— Só tava tentando fazer uma coisa legal pra gente se curtir.
— Você perde tempo demais, grandão.
Fiquei parada assimilando. Sem saber exatamente o que ele queria dizer.
— O que você tá fazendo aí, Natalie? — Pedro falou atrás de mim.
Fechei os olhos.
Filho da mãe.
Nekinho apareceu na porta e me olhou de cima a baixo; trazia no rosto a expressão de uma piada velha finalmente entendida. Balançou a cabeça devagar e fez um estalo com a boca.
— Vambora, Pedro. Não quero estar aqui pra próxima guerra.
— Qual guerra? — Pedro olhou para mim, para o quarto, para Eduardo.
— Anda. — Nekinho já estava na sala.
Ouvi a porta bater. O apartamento ficou quieto de um jeito que pesava.
Eduardo me encarou da cama com o rosto ainda um pouco vermelho, os braços cruzados, a postura de alguém que estava sóbrio o suficiente para estar com raiva e bêbado o suficiente para não esconder.
— O que você está fazendo aqui?
— Não consegui chegar na hora que você marcou.
O movimento lento da cabeça denunciava a dificuldade em aceitar o que acabara de ouvir.
— Foi um engarrafamento de duas horas? Alguém roubou seu celular?
Entrei no quarto e me joguei na cama ao lado dele, pegando o controle antes que ele pudesse reagir.
— Cala a boca. Vamos ver o filme. — Liguei o DVD. — Qual você quer ver primeiro?
— Não quero ver porcaria nenhuma. — Levantou da cama sem olhar pra mim. — Dá o fora.
Deu a volta pela TV, desligou o aparelho. Caminhou em direção à porta com aquela passada grande que ele usava quando queria deixar claro que o assunto estava encerrado.
Depois de tudo — o lixo, a cozinha, o banho, o café que ainda estava quente na xícara que ele não tinha tocado — esse foi o agradecimento.
Levantei rápido e cheguei à porta antes dele.
Ah, não! Ele não vai me tratar assim.
Eduardo parou. Olhou para mim, depois para o espaço ao meu lado, calculando se passava. Dei um passo pro lado impedindo.
— Qual foi? — Levantou os braços e os deixou cair.
— Vim ver o filme. — Falei pausadamente, aceitando que o álcool ainda nublava a sua capacidade de compreensão. — Vamos ver o filme.
— Quando você vai entender que tô puto com você? Some daqui, Natalie.
— Não vou! — gritei.
Coloquei a mão no peito dele e empurrei de volta pra cama. Foi um erro de cálculo. Eduardo e os seus noventa quilos de músculo, contrariado — não se moveu. Olhou para baixo com uma expressão que misturava irritação com algo que não soube nomear, segurou meu pulso com a mão grande e me empurrou de volta sem cuidado e com firmeza, quase passando por cima de mim.
O baque foi seco na parede do corredor. Não doeu.
Ele não soltou. Envolveu minha cintura com os dois braços, me prendendo ali, e encaixou a coxa entre as minhas com o peso natural de alguém que não estava pensando no que estava fazendo — ou estava pensando demais.
O rosto dele ficou perto. Perto demais para manter qualquer argumento organizado na cabeça.
Meus batimentos aceleraram. As mãos suavam. Tentei lembrar por que estava com raiva e não consegui recuperar o fio.
Minhas mãos foram parar na nuca dele sem que eu tivesse dado ordem nenhuma. Os dedos abriram caminho pelo cabelo, sentindo o peso e a textura, e ele não recuou.
Não havia mais bafo de cerveja. Cheirava sabonete, pasta de dente e o perfume que eu conhecia bem demais para fingir indiferença. O peito dele subia e descia num ritmo que estava acelerando, e eu sentia isso porque estava colada nele e não havia como não sentir.
Havia desejo na sua expressão. Claro, aberto, sem o esforço e ele não tentava esconder. Tentei guardar aquela imagem antes que qualquer um de nós fizesse algo que a apagasse.
Vi cada pelo da barba por fazer, a pele bronzeada pelo sol do fim de semana, as maçãs do rosto que ficavam mais marcadas quando ele cerrava o maxilar assim. Os dentes brancos atrás da boca entreaberta.
O hálito fresco era uma provocação sem intenção — ou com intenção, e eu não tinha mais condições de distinguir uma coisa da outra.
🍕 RECADO DO CHEF – PRATO DO DIA: PROMOÇÃO, BEBIDA E FILME QUE NÃO COMEÇOU 🍕
Obrigada por devorar mais um capítulo da nossa cozinha literária!
Hoje o forno preparou:
• ligação inesperada do RH,
• emprego novo servido quente,
• happy hour de estreia com colegas desconhecidos,
• trinta chamadas perdidas como acompanhamento,
• visita fora de hora,
• amigo bêbado em estado crítico,
• faxina emocional em apartamento alheio,
• dois filmes escolhidos… e nenhum assistido.
Tudo servido no meio da bagunça,
entre orgulho profissional
e confusão sentimental.
🍕 Pergunta da Pizzaria:
👉 Natalie devia ter ido embora…
ou fez certo em ficar?
👉 Esse encontro era filme…
ou outra coisa disfarçada?
Conta pra gente nos comentários ⤵️
A casa agradece —
e o DVD continua pausado.
Deixa o seu voto pra manter a casa em pleno funcionamento. 🍿🍕