A Assessoria de Marte
Priscila dormiu três horas, sonhou com um drone pedindo nota fiscal e acordou com o celular vibrando embaixo do travesseiro. A editora queria a matéria até o fim do dia, o gravador queria transformar Ícaro em notícia internacional, e a dignidade dela queria férias remuneradas em um município sem CEO. A mensagem dele continuava na tela. Não transcreva essa parte. Ainda. Priscila respondeu perguntando se a assessoria de imprensa de Marte aceitava Pix ou só mineral raro, e Ícaro levou quatro minutos para mandar um áudio. A voz vinha baixa, com cachorro latindo ao fundo e alguém gritando que o pão tinha chegado. Ele disse que Marte era uma simplificação ofensiva, que o sistema solar tinha péssimo marketing e que ela precisava voltar ao morro antes que o gravador tentasse denunciar os dois sozinho.
Ela voltou porque era profissional, curiosa e claramente incapaz de preservar a própria paz diante de um homem bonito com roteiro ruim de ficção científica. No mototáxi, subindo o Morro do Cruzeiro, Priscila viu a laje da LajeLink antes de ver Ícaro. A faixa continuava torta, a caixa d'água continuava azul, e duas crianças apontavam para o céu tentando descobrir onde ficava a empresa matriz do presidente executivo. Ícaro a esperava na porta da padaria da Dona Cida, de camisa polo azul, sandália limpa e uma pasta transparente cheia de papéis. Parecia um fundador a caminho de uma rodada de investimento feita com pão na chapa. Quando Priscila desceu, ele tentou sorrir. Ela levantou o gravador desligado e avisou que qualquer frase em idioma cósmico seria cobrada por minuto.
A padaria tinha três mesas, uma vitrine de sonho, um ventilador preso por fita isolante e um quadro escrito promoção de café com queijo. Ícaro escolheu a mesa do canto, longe da tomada, o que Priscila achou suspeito por motivos que jamais imaginou ter na vida adulta. Ele abriu a pasta e revelou a tentativa mais triste de controle de crise que ela já vira. Havia um organograma da LajeLink, uma lista de palavras proibidas e um desenho feito à caneta em que um boneco de terno apontava para um disco voador riscado. Na parte superior, ele escrevera plano de comunicação para evento de origem não municipal. Priscila apoiou o cotovelo na mesa e perguntou se aquilo era confissão, pedido de namoro ou palestra para síndico. Ícaro respondeu que era alinhamento estratégico, porque confissão dava cadeia e pedido de namoro exigia outra camisa.
Ele começou pelo básico, que de básico não tinha nada. Disse que não era exatamente de Marte, nem exatamente ilegal, nem exatamente humano segundo critérios de laboratório, embora pagasse boleto, tomasse café e tivesse medo sincero de reunião com contador. Priscila ouviu com o rosto sério por pura falta de opção. Ícaro explicou que chegara ainda criança, criado por Dona Cida depois de uma queda no antigo lixão de aparelhos eletrônicos, e que aprendera cedo a fingir defeito em vez de milagre. Quando ficava nervoso, objetos leves obedeciam mal. Quando se apaixonava, aparelhos gravavam o que deviam esconder. Priscila largou a caneta. Ícaro percebeu o erro da frase tarde demais e tentou corrigir dizendo que paixão, naquele contexto, era uma variável energética. Ela bebeu café frio e disse que variável energética tinha cara de homem fugindo de assunto.
A conversa piorou quando Santiago Bittencourt entrou na padaria com dois assessores, tênis branco caro e sorriso de quem chama comunidade de oportunidade. Ele procurava Ícaro para comprar parte da LajeLink, levar a operação para um aplicativo de verdade e transformar os moradores em base de aquisição. Dona Cida, atrás do balcão, errou o preço do pão de propósito. Ícaro levantou com a pasta na mão e ficou educado demais, o que em empreendedor falido equivalia a vontade de jogar alguém pela janela. Priscila viu o rosto dele mudar. O homem da laje, do drone parado no ar e da piada ruim sobre Marte, sumiu por alguns segundos. No lugar ficou alguém muito antigo dentro de um corpo jovem, alguém que conhecia compra, captura e vitrine. Santiago ofereceu dinheiro, escritório, mentoria e uma foto com fundo de tijolinho falso. Ícaro respondeu que a LajeLink não estava à venda.
Santiago riu da forma errada, olhando a padaria, a faixa torta lá fora e Priscila com o gravador desligado. Disse que todo fundador pobre dizia isso antes de descobrir valuation. A palavra caiu feia na mesa. O ventilador parou. A vitrine de sonho acendeu sozinha. A máquina de cartão imprimiu um papel sem compra, apenas com uma sequência de números e sinais que Priscila reconheceu do áudio da noite anterior. Ícaro fechou os olhos por um segundo, tentando conter a bagunça elétrica que denunciava seu humor. Dona Cida bateu no balcão e mandou todo mundo parar de assustar o fermento. Priscila pegou o papel da máquina de cartão e enfiou na bolsa antes que Santiago reparasse. Ícaro olhou para ela, surpreso. Ela respondeu com a expressão mais profissional que conseguiu, embora a mão tremesse um pouco. Jornalismo investigativo, aparentemente, também servia para ocultar alienígena mal treinado.
Depois que Santiago foi embora prometendo voltar com proposta formal, Ícaro ficou parado na calçada da padaria, olhando o movimento da rua e respirando devagar. Priscila saiu ao lado dele e devolveu a pasta transparente, agora amassada pela própria ansiedade dele. O sol batia na laje, as crianças gritavam perto da escada, e Dona Cida discutia com a máquina de cartão porque o papel estranho gastara bobina. Ícaro disse que ela podia publicar tudo e acabar com o problema antes do almoço. Priscila perguntou qual problema. Ele apontou para si, para a padaria, para a antena torta no alto. Ela guardou o gravador na mochila e respondeu que problema bom rende série, contrato e dor de cabeça. Ícaro sorriu pela primeira vez no dia. O celular dela vibrou no mesmo instante. Era uma mensagem sem número. Entregue o forasteiro ou o morro apaga de cima para baixo.