A Audiência do Vínculo Me apaixonei pelo CEO pobre do Morro: E descobri que ele era alienígena · Capítulo 5 de 12
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A Audiência do Vínculo

A frase vínculo humano aceito ficou brilhando nas telas da LajeLink com uma solenidade ofensiva, porque nenhum aparelho do morro tinha direito de anunciar vida amorosa alheia antes de conversa particular. Priscila soltou a peça ovalada quase no mesmo instante em que percebeu que não conseguia soltá-la de verdade. O objeto parecia grudado à palma por um calor leve, educado, insistente, igual visita que dizia já vou indo e continuava sentada. Ícaro estendeu as mãos, aflito, pediu que ela respirasse, e isso só piorou, pois o rosto dele de perto fazia qualquer ordem simples soar íntima demais. Dona Cida empurrou Santiago para longe com a frigideira e decretou que ninguém ali tinha autorização moral para morrer, casar, vender empresa ou ser abduzido sem jantar primeiro. A máquina de coleta girou o visor para ela, processou a fala, e respondeu que alimentação prévia poderia aumentar eficiência emocional do protocolo.

O protocolo veio logo depois, projetado no ar em letras azuis que pareciam feitas por cartório sem senso de humor. Havia suspensão temporária da coleta, abertura de disputa afetiva, prazo de avaliação até a meia-noite e necessidade de comprovação pública de vínculo. Priscila perguntou qual era exatamente o conceito de comprovação pública, já preparada para discutir critérios, fonte normativa e competência territorial. A máquina informou que aceitaria depoimentos, sinais biológicos, memórias compartilhadas e demonstração de escolha livre diante de risco. Binho levantou a mão para saber se curtida em foto antiga contava. Seu Arlindo pediu inclusão de testemunho técnico, pois acompanhara Ícaro desde o primeiro cabo de internet puxado pelo beco. Tainá avisou que qualquer audiência sem cadeira decente era nulidade. Dona Cida mandou buscar as cadeiras da igreja, e em menos de dez minutos a laje parecia pronta para julgamento, quermesse e velório empresarial ao mesmo tempo.

Santiago tentou assumir a palavra com uma segurança que dependia de ninguém conhecer o homem de perto. Disse que a senhorita Priscila, profissional de narrativa comercial, poderia ter manipulado a situação para valorizar a biografia de Ícaro e fabricar um romance de alto engajamento. A acusação teria sido absurda se não atingisse um nervo inconveniente. Priscila trabalhava justamente inventando CEOs desejáveis para leitoras cansadas de planilha, criando encontros, tropeços, frases perigosas e beijos que resolviam problemas com menos burocracia que a vida real. Ela poderia transformar Ícaro em produto em duas semanas, com capa boa, título comprável e chamada apelativa. O problema era que, quando olhava para ele, o recurso fácil perdia graça. Ícaro não cabia no molde do bilionário secreto. Ele discutia preço de modem usado, chamava Dona Cida de tia sem perceber, e ficava vermelho quando ela encostava em sua mão por acidente.

A máquina pediu o primeiro depoimento. Dona Cida tomou a frente, claro, porque nenhuma entidade de metal mandaria na ordem emocional daquele endereço. Contou que encontrara Ícaro pequeno, sujo de fuligem, segurando um pedaço de circuito e chorando sem saber pedir colo em português. Contou que ele aprendeu a falar vendo novela repetida, que desmontava ventilador para entender vento, que chorou escondido quando a primeira cliente da LajeLink pagou com moedas guardadas em pote de maionese. Priscila ouviu cada detalhe com uma atenção que lhe deu raiva de si mesma. Ela queria manter distância profissional, só que distância profissional exigia uma sala neutra, uma pauta definida e um homem menos bonito tentando salvar a vizinhança de uma repatriação extraterrestre. Ícaro olhava para o chão durante o depoimento, constrangido por ser amado em voz alta diante de gente demais.

Quando chegou a vez de Priscila, Santiago sorriu com gosto. Ela deu um passo à frente ainda presa à peça ovalada e encarou a máquina, os vizinhos, o céu e a própria covardia. Disse que conhecia Ícaro havia pouco tempo, tempo curto demais para promessa séria e longo o bastante para desconfiar de qualquer mundo que desejasse levá-lo embora. Contou que ele tinha mentido mal, omitido pior, conduzido uma empresa em cima de uma laje com organização de feira e ambição de ministro da tecnologia. Contou que, mesmo assustado, ele pensara primeiro nas casas que ficariam sem internet, nas crianças com aula remota, nas vendas de Dona Cida por aplicativo, no mototáxi de Tainá que dependia do grupo de mensagens. Ela podia vender uma história sobre ele, sim. Só que ali, naquela laje, diante de uma máquina cobradora de origem duvidosa, preferia ficar sem livro a transformar a vida dele em mercadoria de Santiago.

A peça ovalada reagiu ao depoimento dela com uma luz que subiu pelo braço até o ombro e fez Priscila soltar um palavrão baixo, prontamente censurado por Dona Cida devido à presença de menores e equipamentos desconhecidos. Ícaro se aproximou, perguntou se doía, e ela respondeu que o orgulho doía bem mais. A máquina registrou elevação cardíaca dupla, proximidade voluntária e irritação compatível com desejo reprimido. Binho quase caiu da cadeira. Tainá pediu para a máquina repetir, alegando falha de áudio, e meia laje riu com uma alegria nervosa. Ícaro ficou tão vermelho que o letreiro da LajeLink reiniciou. Priscila apontou para a máquina e afirmou que qualquer relatório sobre desejo reprimido precisaria de revisão humana. A máquina informou que revisão humana poderia ser solicitada por beijo de confirmação. Dona Cida largou a frigideira na mesa e declarou que aquilo já estava virando pouca vergonha interplanetária.

Santiago percebeu que perdia terreno e atacou pelo único lugar que julgava dominar. Apresentou outra pasta, citou cláusulas de confidencialidade, investimento estrangeiro, proteção de ativos e uma suposta autorização de emergência assinada por alguém em Brasília com nome ilegível. Disse que, se Ícaro permanecesse no morro, a presença do núcleo seria tratada como risco público, e todos poderiam perder acesso, casas, negócios e tranquilidade. O silêncio que veio depois não teve nada de teatral. Era silêncio de gente fazendo conta de aluguel. Ícaro mudou de expressão. Priscila viu o instante exato em que ele se dispôs a ceder, aquele segundo em que amor por um lugar vira vontade de sair dele para poupar os outros. Ela quis sacudi-lo. Antes que falasse, a máquina projetou novo aviso no ar. Oferta humana externa detectada. Possível transferência de custódia. Avaliação afetiva comprometida por chantagem patrimonial.

Priscila avançou na direção de Santiago com a peça ovalada brilhando na mão e uma calma que assustou até Dona Cida. Perguntou se ele tinha noção do azar estatístico de tentar chantagear uma ghostwriter especializada em homens ricos com vocabulário de contrato, pois ela conhecia aquela pose, aquelas pausas e aquele perfume de impunidade desde o primeiro briefing ruim da carreira. Santiago mandou que ela se afastasse. A máquina perguntou se aquilo era uma manifestação de escolha livre diante de risco. Priscila respondeu que era, e que sua escolha livre começava por não permitir que um almofadinha comprasse a origem de um homem e a necessidade de um bairro na mesma pasta de couro. Ícaro chamou o nome dela, baixo demais para virar cena pública. Ela olhou para ele, enfim sem piada pronta, e a laje inteira pareceu caber no espaço entre os dois. Quando a peça ovalada abriu uma nova projeção, o aviso mudou de cor. Vínculo em fase crítica. Prova final requerida antes da meia-noite.

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