Guarda Compartilhada Me apaixonei pelo CEO pobre do Morro: E descobri que ele era alienígena · Capítulo 10 de 12
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Guarda Compartilhada

Priscila falou guarda compartilhada em voz alta e se arrependeu da escolha jurídica no mesmo segundo, porque a expressão abriu uma discussão paralela entre Dona Cida, Seu Arlindo e Tainá sobre pensão, visitação e quem ficaria com os roteadores nos fins de semana. A Junta de Retorno, suspensa no céu branco, pediu esclarecimento técnico. Naira soltou um som que poderia ser riso, falha de transmissão ou vergonha materna. Ícaro olhou para Priscila com aquele espanto perigoso de homem que descobre uma porta no lugar onde só via parede. Ela explicou depressa, antes que alguém transformasse a ideia em churrasco. Se o núcleo já tinha uso comunitário consolidado e se Ícaro era o operador vivo da adaptação terrestre, a solução não precisava ser recolher ou abandonar. Podia ser reconhecer dupla custódia, o povo dele mantendo acesso remoto à memória, e o morro mantendo o direito de usar a tecnologia que salvara por décadas.

A máquina menor processou a proposta com tanto esforço que seu visor exibiu três quadrados girando, imagem ofensivamente parecida com internet lenta. Binho comentou que aquilo era prova de que até alienígena precisava da LajeLink. A Junta respondeu que guarda compartilhada de herdeiro e núcleo em planeta sem tratado era irregular. Priscila perguntou se havia proibição expressa. A luz branca ficou muda. Quem trabalha com contrato aprende a respeitar silêncios desse tipo. Ela avançou, ainda segurando a placa com Ícaro, e pediu que Naira traduzisse exatamente, sem suavizar por medo de parecer barraqueira interplanetária. Naira traduziu. A Junta informou que inexistia proibição, apenas ausência de precedente. Dona Cida ergueu a frigideira num gesto solene e declarou que toda tradição começou num dia em que alguém sem paciência cansou de regra frouxa.

Santiago tentou recuperar relevância dizendo que qualquer acordo daquele porte exigiria representante terrestre qualificado, auditoria, capital privado e confidencialidade. A cadeira dobrável de Seu Arlindo se mexeu meio centímetro na direção dele, lembrando que a comunidade possuía método próprio de compliance. Priscila pediu à máquina menor que registrasse a intervenção como tentativa recorrente de captura econômica. A máquina aceitou. Santiago empalideceu ao perceber que, pela primeira vez, um sistema sem amizade no conselho anotava suas frases sem pedir patrocínio. Ícaro, que até então permanecera calado demais, perguntou à Junta o que aconteceria com sua memória se aceitasse a proposta. A resposta veio dura. A memória completa ficaria particionada, liberada aos poucos, desde que o núcleo permanecesse estável e a comunidade não explorasse a tecnologia para expansão predatória.

A palavra predatória fez todos olharem para Santiago. Ele ergueu as mãos, ofendido por um consenso tão rápido. Priscila ignorou. Perguntou que tipo de compromisso a Junta exigiria. A luz branca projetou termos no ar, longos, frios, cheios de categorias que nem Naira traduziu com boa vontade. Havia cláusulas sobre sigilo de origem, restrição de armamento, proteção de rotas, limitação de sinal e responsabilidade do operador. Ícaro respirou fundo. O acordo colocaria sobre ele a obrigação de manter o núcleo vivo, a rede funcionando e a ponte com Aster aberta, tudo isso sem vender a alma para investidor de pasta bonita. Ele perguntou se poderia recusar. A Junta respondeu que sim. Priscila o olhou sem tentar conduzir. Essa era a parte difícil do amor que ainda nem tinha nome. Defender sem empurrar. Ficar perto sem algemar.

Ícaro pediu alguns minutos. A Junta ofereceu noventa segundos, mantendo coerência com sua fama de repartição sem café. Dona Cida xingou baixo e abriu uma sacola de pães que ninguém sabia de onde surgira. O morro comeu em pé, diante de uma nave invisível, porque ameaça cósmica nenhuma impedia carboidrato de circular. Ícaro levou Priscila para a lateral do salão, onde uma imagem antiga de festa junina descascava na parede. Disse que, se aceitasse, a vida dela seria engolida pelo segredo dele. Ela respondeu que a vida dela já era engolida por prazo, briefing ruim e personagem masculino sem sal, então pelo menos aquele segredo tinha iluminação melhor. Ele tentou sorrir, mas o medo continuou ali, honesto. Perguntou se ela ficaria caso as memórias dele o transformassem em alguém diferente. Priscila disse que não prometia ficar para qualquer versão dele. Prometia conhecer a próxima antes de fugir.

A resposta mexeu com Ícaro de um jeito visível. Ele aproximou a mão do rosto dela, parou no meio do caminho e perguntou se podia. Priscila, que minutos antes enfrentara autoridade alienígena com vocabulário de audiência, sentiu a própria coragem tropeçar numa pergunta simples. Disse que podia. O toque dele foi breve, a ponta dos dedos no maxilar dela, cuidadoso demais para um mundo desabando ao redor. A máquina menor registrou contato consentido e emoção bilateral de alta relevância. Dona Cida gritou lá da frente que relatório nenhum precisava narrar intimidade de ninguém. Priscila riu contra a própria vontade, e Ícaro riu junto. O beijo veio depois, sem plateia organizada, embora a plateia inteira estivesse presente. Foi rápido, interrompido por um estouro no céu branco, porém bastou para a placa esquentar nas mãos dos dois e para Naira declarar que a negociação ganhara força biológica indiscutível.

A Junta aceitou abrir minuta de custódia híbrida, o que seria uma vitória se a palavra minuta não tivesse feito Priscila lembrar de todos os clientes incapazes de aprovar primeira versão. O acordo exigia assinatura do operador, validação do vínculo humano e testemunho comunitário. Binho perguntou se podia assinar com arroba. A máquina respondeu que identidade social informal poderia ser anexada. Seu Arlindo já queria carimbo. Tainá ofereceu capacete para servir de apoio. Dona Cida exigiu cláusula de alimentação, descanso e direito de visita materna, incluindo para mãe luminosa, desde que Naira respeitasse horário de almoço. Naira aceitou, com dignidade surpreendente. Ícaro assinou primeiro, tocando a placa. Priscila assinou depois, não como dona de nada, e sim como testemunha de que o homem diante dela escolhera ficar sem abandonar a parte de si que vinha de longe.

Santiago esperou até o brilho do acordo envolver a sala para agir. Talvez acreditasse que ninguém prestava atenção nele durante momentos históricos, erro comum de vilão com autoestima acima da média. Tirou do bolso um segundo fragmento, menor, arrancado da placa quando a segurara no salão, e pressionou contra o próprio celular. A luz branca falhou. A máquina menor virou o visor para ele com uma lentidão ameaçadora. Santiago sorriu, agora sem charme, e disse que nenhum acordo teria valor se os dados do núcleo já estivessem sendo transmitidos para compradores externos. O celular dele começou a emitir um sinal agudo. A Junta interrompeu a minuta. Naira gritou o nome de Ícaro. A rede do morro caiu inteira, de uma vez, sem degrau, sem aviso, sem piedade. No escuro repentino, Priscila sentiu a mão de Ícaro procurar a sua e ouviu Santiago correr.

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