O Sequestro da Placa Me apaixonei pelo CEO pobre do Morro: E descobri que ele era alienígena · Capítulo 8 de 12
Obra Menu

O Sequestro da Placa

A primeira luz do morro apagou na casa de Dona Ivone, que reagiu com um grito tão específico que todo mundo soube que a geladeira dela estava cheia de frango comprado em promoção. Depois apagou a barbearia do Naldo, a mercearia do Clebão, a janela de uma manicure que ainda atendia uma cliente com a mão dentro da cabine de secagem. A notícia subiu e desceu viela com velocidade maior que qualquer plano racional. Santiago guardou a placa metálica dentro do paletó e tentou sair da antiga lan house com a elegância de quem imaginava que degrau vermelho, vizinho bravo e sogra luminosa eram detalhes contornáveis. Priscila não esperou Ícaro decidir qual parte da tragédia merecia prioridade. Passou por ele, subiu a escada quase correndo e gritou que quem tivesse moto, lanterna ou vontade de processar rico safado devia acompanhar.

Tainá foi a primeira a alcançar a rua, já montada na moto antes de terminar a própria frase. Binho veio atrás com o celular erguido, prometendo transmissão ao vivo e esquecendo que a internet do bairro morria justamente por causa da perseguição. Dona Cida apareceu com a frigideira debaixo do braço, porque arma branca dava problema e utensílio doméstico tinha álibi. Ícaro subiu por último, ainda com o rosto dividido entre a voz de Naira no subsolo e a urgência concreta das casas escurecendo. Priscila viu essa divisão e não tentou resolver por ele. Só apontou para Santiago, que descia a rua com os homens de colete abrindo passagem sem talento para lidar com gente em chinelo, e disse que a parte da mãe dele continuaria no lugar se o morro sobrevivesse até a próxima conversa. Ícaro assentiu. A peça ovalada em sua mão respondeu com um brilho curto, quase obediente.

A perseguição pelo Cruzeiro teria sido dramática em outro bairro. Ali virou uma assembleia em movimento. Cada esquina acrescentava alguém, um homem com extensão enrolada no braço, uma adolescente segurando duas lanternas, uma senhora avisando que Santiago devia dinheiro moral desde que chamou a padaria de ponto comercial subutilizado. O empresário tentou entrar num carro preto estacionado perto da praça, porém Seu Arlindo já estava no capô discutindo com o motorista sobre licenciamento, rota de fuga e vergonha na cara. Santiago recuou, perdeu a paciência pela primeira vez e mostrou a placa metálica. As lâmpadas da praça piscaram, a fonte velha soltou água barrenta, e a caixa de som de um bar anunciou sozinha uma promoção de cerveja de três meses antes. Binho disse que aquilo era prova definitiva de crime contra o entretenimento local.

Priscila chegou perto o bastante para Santiago ouvir sua respiração. Ele tentou negociar com ela em voz baixa, oferecendo dinheiro, controle editorial, um apartamento sem infiltração e distância daquele caos. Disse que Ícaro jamais seria simples, que a vida ao lado dele envolveria risco, exposição, laboratório, talvez governo, talvez coisa pior. Priscila pensou no próprio apartamento silencioso, nas noites escrevendo romance de gente rica enquanto comia biscoito em cima do teclado, nas pautas onde CEO sempre chegava limpo, treinado, com carro importado e frase pronta. Olhou para Ícaro descendo a rua com a camisa suada, Dona Cida atrás dele ameaçando uma multinacional com frigideira, e sentiu uma certeza incômoda. Simplicidade nunca estivera no contrato. Ela disse a Santiago que apartamento sem infiltração era tentador, porém ele continuava sendo o vazamento principal da cena.

Santiago correu para dentro do antigo salão paroquial, fechado desde uma reforma que acabara junto com o dinheiro do bingo. O lugar tinha palco baixo, cadeiras empilhadas e um quadro de avisos com cartazes de quermesse antiga. Ícaro entrou logo depois de Priscila e parou quando a peça ovalada esquentou. O componente roubado reagia ao salão. Naira falou pelo objeto, a voz falhando, e explicou que ali ficava um dos pontos de ancoragem do núcleo, disfarçado havia anos entre instalação elétrica ruim e promessa de conserto. Santiago ouviu isso e sorriu de novo. Se a placa controlava ancoragem, a posse dele ganhava valor. Ícaro pediu que ele devolvesse, sem bravata, sem discurso, apenas com um cansaço que fez Priscila desejar quebrar alguma coisa cara. Santiago respondeu que devolveria quando a LajeLink fosse transferida, o núcleo mapeado e a história assinada por quem soubesse lucrar.

A máquina de coleta apareceu na porta do salão, grande demais para entrar sem derrubar batente, e informou que a degradação passara de fase aceitável para fase constrangedora. Dona Cida perguntou se constrangedora era termo técnico ou opinião pessoal. A máquina disse que ambos. Enquanto a discussão acontecia, Priscila reparou num detalhe que Santiago ignorava. A placa na mão dele brilhava cada vez que Ícaro se aproximava, porém também tremia quando ela falava. O vínculo, aquela palavra intrometida que as telas tinham jogado na cara de todos, talvez não servisse só para impedir coleta. Ela deu um passo para o palco e começou a narrar em voz alta, usando o tom que empregava quando precisava vender uma cena absurda para editor cético. Contou que Santiago, acuado por moradores, segurava uma tecnologia que não entendia e fingia domínio por medo de parecer pequeno diante de uma comunidade que nunca compraria.

A placa vibrou tanto que Santiago quase a deixou cair. Priscila continuou, agora com os olhos presos nos dele. Disse que homens como ele chamavam roubo de aquisição, ameaça de governança, covardia de estratégia, e que talvez o universo inteiro só precisasse de alguém capaz de traduzir a pose para português claro. Ícaro entendeu primeiro. Aproximou-se do palco e contou outra parte, falando da casa de Dona Ivone, da barbearia, da manicure, dos boletos pagos com internet de madrugada, das crianças fazendo trabalho escolar no celular da mãe. A peça ovalada brilhou. Naira entrou na narrativa com frases curtas, incomodada por depender de improviso humano, e descreveu a queda, o menino salvo, a decisão de dormir no núcleo até a rota abrir. O salão acendeu em azul. Cada voz parecia puxar o componente para fora da mão de Santiago, não por força física, e sim por recusar a versão dele dos fatos.

Santiago tentou gritar, porém a caixa de som do salão ligou sozinha e devolveu apenas um chiado elegante. A placa escapou dos dedos dele, flutuou no meio da sala e parou entre Priscila e Ícaro. A máquina informou que disputa narrativa fora aceita como instrumento emergencial de custódia, frase tão ridícula que até ela pareceu arrependida. Priscila estendeu a mão. Ícaro segurou seu pulso com delicadeza, pedindo autorização pelo olhar antes de tocar. Ela assentiu. Os dois pegaram a placa juntos, e o salão inteiro tremeu de leve. Lá fora, uma sequência de luzes voltou pelas casas, uma a uma, subindo o morro em ordem inversa ao apagão. A comemoração começou antes da vitória estar completa. Santiago, encurralado entre Dona Cida e Tainá, recebeu da máquina um novo aviso. Interferência humana hostil registrada. Custódia terrestre contestada. Encaminhamento para responsabilização comunitária iniciado.

O alívio durou pouco. Naira falou pela peça com a voz mais fraca. A ancoragem tinha sido restaurada, porém o núcleo despertara por completo, e isso atraíra uma segunda rota de coleta, antiga, automática, sem paciência para audiência de laje ou argumentos de ghostwriter. Ícaro fechou os olhos por um segundo. Quando os abriu, Priscila reconheceu a decisão antes que ele falasse. Ele pretendia descer sozinho, negociar com a mãe, com a máquina, com qualquer sistema disposto a trocar sua presença pela segurança do morro. Ela segurou a placa junto dele e disse que, se ele repetisse a mania de virar sacrifício ambulante, ela escreveria o pior CEO da história inspirado nele. Dona Cida chegou ofegante e declarou que ninguém desceria para lugar nenhum sem comer. Foi nesse instante que o céu acima do Cruzeiro se abriu numa luz branca, muito maior que a primeira, e uma voz desconhecida anunciou que o herdeiro seria recolhido com ou sem consentimento local.

1/1
Menu

Fazer anotação