A Segunda Coleta
A luz branca abriu o céu do Cruzeiro sem pedir licença a antena, nuvem ou santo de capela. Era maior que a primeira, fria demais para parecer milagre, organizada demais para ser pane elétrica e baixa o bastante para fazer metade dos moradores abaixar a cabeça mesmo sem saber se aquilo ajudava. A voz desconhecida repetiu que o herdeiro seria recolhido com ou sem consentimento local, e a frase espalhou pela rua uma indignação prática. Dona Cida ergueu a frigideira, Tainá acelerou a moto parada por puro protesto, Seu Arlindo começou a explicar que sem consentimento local até obra de calçada dava embargo, e Binho tentou filmar a luz branca com uma câmera que insistia em focar no próprio nariz. Ícaro ficou imóvel diante do salão paroquial, segurando a placa ao lado de Priscila, e pela primeira vez desde a queda do componente pareceu pequeno dentro da própria história.
Priscila percebeu a mudança nele antes dos outros. Ícaro olhava para o alto com a expressão de quem reconhecia uma autoridade antiga, anterior a Dona Cida, anterior ao CNPJ, anterior até ao nome que usava para assinar boleto. A peça ovalada esquentou entre os dois e Naira falou com dificuldade, dizendo que aquela segunda coleta pertencia à Junta de Retorno, sistema automático criado para recuperar membros perdidos da linha Aster depois de conflitos comerciais. Priscila perguntou por que toda instituição do universo parecia inventada para tirar gente de casa. Naira respondeu que civilizações avançadas também tinham péssimas reuniões. A observação quase arrancou uma risada de Ícaro, quase, porque a luz branca desceu mais um pouco e apagou o letreiro da barbearia, a caixa do mercado e três celulares ao mesmo tempo.
Santiago, encurralado perto do salão, tentou aproveitar a chegada da nova autoridade. Endireitou o paletó, limpou a poeira da manga e anunciou que representava interesses terrestres capazes de mediar a transferência do ativo biológico. A luz branca respondeu com uma rajada curta que fez o cabelo dele levantar em todas as direções. Tainá comentou que finalmente o penteado combinava com o caráter. A máquina de coleta menor, aquela que já parecia funcionária cansada, informou que a Junta de Retorno não reconhecia representantes comerciais humanos com histórico de interferência hostil. Dona Cida gostou tanto da frase que pediu para repetir mais alto. Santiago perdeu o resto da elegância e tentou sair pela lateral, mas Binho e Seu Arlindo fecharam caminho com uma cadeira dobrável e uma extensão, instrumentos modestos, porém usados com convicção suficiente para parecerem oficiais.
A Junta projetou no ar uma sequência de símbolos que Naira traduziu com pausas doloridas. Ícaro pertencia a uma família técnica, responsável por núcleos de adaptação em planetas instáveis, e sua permanência prolongada na Terra criara um desvio de protocolo. O núcleo do Cruzeiro havia se misturado à rede local, aos roteadores, aos cadastros de cliente, às conversas de vizinho, até aos pedidos de pão pelo aplicativo. Para a Junta, aquilo era contaminação. Para o morro, era terça-feira com problema maior. Priscila ouviu a palavra contaminação e sentiu a raiva encontrar direção. Perguntou se a Junta chamava de contaminação toda vez que uma tecnologia finalmente servia a alguém sem cobrar pacote premium. Naira demorou a traduzir, talvez por diplomacia materna, talvez por orgulho discreto. A resposta veio seca. Uso emocional de infraestrutura não alterava posse original.
Ícaro deu um passo à frente. Disse que iria se a Junta garantisse a permanência da rede, a segurança de Dona Cida, a devolução de energia às casas e a responsabilização de Santiago. Priscila fechou os olhos por um instante, porque ali estava ele de novo, tentando transformar a própria ausência em solução. Antes que ela falasse, Dona Cida agarrou a gola da camisa dele por trás com uma precisão treinada em anos de feira e disse que filho nenhum dela negociava sumiço enquanto a mãe estava viva, fosse mãe de padaria ou mãe de lâmpada azul. Naira, pela peça ovalada, declarou concordância parcial com a humana de frigideira. A Junta ignorou ambas e abriu uma coluna de luz sobre Ícaro. O chão do salão tremeu. A placa entre ele e Priscila vibrou tanto que os dedos dos dois se encostaram com força.
A máquina menor pediu escolha imediata do vínculo humano, termo que, naquele ponto, já tinha perdido qualquer chance de soar discreto. Priscila perguntou que escolha. O visor explicou que ela poderia liberar a coleta, mantendo integridade física do herdeiro, ou contestá-la em instância pública, assumindo risco compartilhado de apagão total até julgamento. Tainá perguntou quanto tempo durava julgamento alienígena. A máquina informou que variava entre quatro segundos e nove gerações. Dona Cida proibiu a segunda opção por falta de almoço planejado. Priscila olhou para Ícaro. Ele balançou a cabeça, pedindo que ela não assumisse risco nenhum por ele. Aquele pedido teve o efeito contrário. Ela subiu no palco baixo do salão paroquial, ainda com poeira no sapato e cabelo fora do lugar, e pediu a atenção de todo mundo que devia mensalidade, favor, fofoca ou gratidão à LajeLink.
O morro respondeu como morro. Gente saiu de janela, porta, beco, escada, transmissão falha e áudio atrasado. Priscila falou sem enfeite. Disse que a Junta queria recolher Ícaro porque via nele um objeto fora do depósito correto, enquanto Santiago queria vendê-lo porque via nele uma empresa ainda sem dono bastante predatório. Disse que ambos erravam pela mesma razão. Ícaro não era ativo, desvio, produto, anomalia, caso de marketing ou herdeiro em atraso. Era o homem que consertara a internet de Dona Ivone antes de ela conseguir falar com o neto, o sujeito que aceitara pagamento em bolo quando faltou dinheiro, o idiota que tentava se sacrificar a cada dez minutos e precisava de supervisão afetiva. A plateia riu, Ícaro abaixou a cabeça, e a luz branca oscilou, incapaz de catalogar humilhação carinhosa.
A contestação pública começou sem formulário. Cada morador falou de uma necessidade concreta, a venda feita pelo celular, a consulta marcada, o curso visto de madrugada, a ligação para parente longe, a criança que estudava pela tela rachada. Naira acrescentou sua parte, dizendo que proteção verdadeira não era recolher o filho para o lugar de origem quando ele encontrara outra forma de pertencer. A máquina menor registrou depoimentos, falhas de protocolo, uso comunitário e vínculo afetivo ampliado. Santiago tentou chamar aquilo de manipulação sentimental de massa, mas a cadeira dobrável de Seu Arlindo encostou na canela dele e encerrou a contribuição. A luz branca intensificou, e a Junta declarou que aceitaria uma última prova. Se Ícaro escolhesse ficar, perderia acesso à memória completa de Aster por tempo indeterminado. Se partisse, o núcleo seria removido e a rede morreria antes do amanhecer.
Dessa vez Priscila não falou por ele. Nem Dona Cida. Nem Naira. Ícaro ficou no centro do salão, cercado por luz, poeira, vizinhos e uma mulher que ele mal conhecia tempo suficiente para desejar conhecer melhor. Olhou para o alto e disse que queria a memória, claro que queria, porque ninguém era tão nobre a ponto de não querer a própria mãe por inteiro. Depois olhou para a rua, para os celulares levantados, para Dona Cida prendendo choro com braveza, para Priscila segurando a placa sem tentar puxá-lo, e disse que também queria ficar. A Junta informou que duas vontades incompatíveis exigiam corte. Ícaro respondeu que então o problema era da Junta, pois a Terra ensinara a ele o hábito de parcelar impossibilidades. A peça ovalada brilhou, Naira riu pela primeira vez, e Priscila percebeu que talvez existisse uma brecha. Se o sistema aceitava uso comunitário, talvez pudesse aceitar guarda compartilhada.