O CEO da Terra
O primeiro amanhecer depois da quase abdução chegou ao Cruzeiro com cheiro de café, pão requentado e cabo desencapado que alguém prometeu consertar ainda naquela semana. A Junta de Retorno tinha fechado a luz branca antes do sol nascer, deixando no céu apenas uma claridade comum e uma sensação coletiva de que o bairro merecia desconto na próxima conta. Ícaro passou a madrugada no subsolo da antiga lan house, sentado diante do núcleo restaurado, ouvindo Naira explicar memórias em porções pequenas, feito mãe que tenta contar vinte e sete anos de ausência sem derrubar tudo de uma vez na mesa. Priscila ficou com ele até a voz falhar de cansaço, sem tomar o lugar de ninguém, sem pedir promessa heroica, apenas entregando café quando ele esquecia que corpos terrestres funcionavam pior sem manutenção básica. Dona Cida desceu três vezes para fiscalizar ambos e, na quarta, trouxe cobertor, porque raiva materna também sabia dobrar roupa.
Santiago Bittencourt terminou a noite sentado numa cadeira de plástico na padaria, escoltado por Tainá, Seu Arlindo, duas mães de aluno prejudicado pelo apagão e a máquina menor, que descobrira certo gosto por ata comunitária. Ele tentou alegar sequestro, depois mal-entendido, depois parceria estratégica mal comunicada. Cada versão recebeu uma anotação. Binho conseguiu recuperar parte da gravação, incluindo o roubo do fragmento, a tentativa de transmissão e o momento em que a luz deixou o cabelo de Santiago em estado de denúncia pública. Priscila redigiu um relato objetivo para encaminhamento jurídico, com anexos, testemunhas e nenhuma frase bonita. Disse que beleza demais em documento de crime ajudava culpado a parecer personagem complexo. Dona Cida assinou como responsável moral da ocorrência. A máquina menor carimbou com um feixe azul no rodapé, e o papel cheirou a plástico queimado por meia hora.
A LajeLink reabriu dois dias depois, oficialmente sob nova natureza comunitária, embora ninguém concordasse sobre o nome. Cooperativa parecia sério demais, startup parecia convite para outro Santiago, empresa familiar provocava briga sobre quem era parente de quem. Ícaro propôs manter LajeLink e acrescentar no contrato interno uma cláusula simples, todo lucro extraordinário voltaria para a rede, para formação técnica dos moradores e para um fundo de emergência contra visitas espaciais não agendadas. Seu Arlindo exigiu o cargo de conselheiro de extensão e tomada. Tainá pediu prioridade para instalar internet em ponto de mototáxi. Binho queria ser diretor de audiovisual, cargo recusado até que ele aprendesse a filmar para frente. Dona Cida aceitou ficar no conselho desde que reunião terminasse antes do almoço. Naira, pelo núcleo, perguntou se havia espaço para representante materna remota. Dona Cida disse que sim, desde que ela não opinasse em receita de bolo.
Ícaro mudou pouco por fora e muito nos detalhes. Continuava usando camisa comum, consertando roteador com ferramenta emprestada e discutindo preço de cabo com fornecedor que achava que alienígena devia pagar à vista. Porém agora parava às vezes no meio de uma frase, ouvindo memórias chegarem em gotas. Lembrava de uma canção sem tradução, de uma janela oval olhando um planeta violeta, de Naira prendendo uma pulseira em seu braço pequeno antes da queda. Nessas horas, Priscila evitava preencher silêncio com conforto rápido. Aprendera que algumas descobertas precisavam de cadeira, água e tempo. Ela o acompanhava quando era chamada e se afastava quando percebia que a lembrança pedia espaço. O vínculo, depois de tanta exposição pública indecente, começava a ganhar uma forma privada, feita de mensagens curtas, caminhadas pela laje e discussões sobre o limite aceitável de interferência alienígena em eletrodomésticos.
Priscila também mudou de trabalho antes de admitir em voz alta. Recusou dois projetos de CEO bilionário com trauma fabricado e aceitou escrever uma série anônima sobre bairros que inventavam tecnologia sem pedir benção a prédio espelhado. Não contou a história de Ícaro. Contou ao redor dela, protegendo nomes, rotas, máquinas e mães luminosas. O editor reclamou que faltava um grande homem poderoso. Ela respondeu que havia várias mulheres com frigideira, uma mototáxi com timing militar, um aposentado especialista em gambiarra e um empresário ridículo sendo responsabilizado, o que lhe parecia material superior. À noite, escrevia na padaria depois do fechamento, porque Dona Cida dizia que escritora sozinha romantizava tristeza e esquecia de comer. Ícaro aparecia para buscar café, ficava na mesa do canto e fingia revisar relatório enquanto lia cada expressão no rosto dela.
Trinta ciclos terrestres depois, a revisão da Junta aconteceu numa terça-feira chuvosa, por falta de respeito cósmico ao calendário da comunidade. A luz branca apareceu menor, educada, quase constrangida. A máquina menor, já apelidada de Dona Protocola por Binho, abriu a reunião na laje da LajeLink com presença de moradores, Naira, Priscila e Ícaro. A Junta informou que a custódia híbrida seguia irregular, porém funcional, categoria que o morro recebeu como elogio. O núcleo permanecia estável, a rede atendia mais casas, nenhum armamento fora desenvolvido, nenhuma frota de investidores pousara no Cruzeiro, e Santiago respondia a processos suficientes para ocupar agenda de advogado ambicioso. A Junta autorizou renovação do acordo por tempo ampliado, com direito a visitas remotas de Naira e liberação gradual de memória. Dona Cida perguntou se gradual significava sem acordar menino de madrugada. A Junta registrou preferência alimentar e horário local.
Depois da reunião, a laje esvaziou aos poucos. Binho desceu reclamando que audiência alienígena sem explosão perdia engajamento, Tainá levou Dona Cida para comprar gás, Seu Arlindo ficou medindo um cabo que ninguém pediu, e Naira se despediu de Ícaro com uma serenidade que ainda doía. Disse que ele tinha duas casas e que nenhuma casa decente exigia renúncia total da outra. Ícaro ouviu em silêncio, os olhos úmidos, a mão de Priscila perto da sua sem tomar posse. Quando a conexão fechou, ele respirou fundo e perguntou se ela pretendia colocar aquilo em algum livro. Priscila disse que talvez um dia escrevesse um romance cômico tão absurdo que ninguém acreditaria. Ele perguntou se o protagonista seria bonito. Ela olhou para a camisa amassada, o cabelo desalinhado e a expressão ansiosa dele. Disse que seria funcional, o que para um CEO pobre do morro já era elogio íntimo.
O beijo que ficou adiado desde a noite da Junta veio sem máquina narrando, sem vizinho opinando e sem luz branca interferindo. Ainda assim, não foi totalmente privado, porque no Cruzeiro privacidade era uma negociação com janelas, varais e gente que dizia que só estava passando. Priscila aceitou a imperfeição. Ícaro beijou devagar, com a cautela de quem tinha aprendido que escolha valia mais quando podia ser recusada. Ela correspondeu sem pressa, segurando a gola da camisa dele com menos delicadeza do que pretendia. De algum lugar abaixo, Dona Cida gritou que namoro na laje precisava respeitar horário de jantar. Os dois riram juntos, testa contra testa, e Priscila pensou que talvez romance bom fosse isso, não o homem poderoso resolvendo tudo, e sim duas pessoas tentando continuar depois que a parte impossível já tinha acontecido.
Meses depois, a placa na entrada da LajeLink foi trocada. O letreiro novo dizia LajeLink Tecnologia Comunitária, com letras pintadas por uma sobrinha de Dona Ivone e revisão ortográfica de Priscila. Abaixo, menor, alguém acrescentou CEO da Terra em tinta azul. Ícaro reclamou durante três dias. Ninguém removeu. A empresa cresceu sem sair da laje, aceitando técnicos jovens do próprio morro, recusando propostas suspeitas e mantendo uma sala trancada sob a antiga lan house onde Naira conversava aos domingos. Priscila terminou seu livro anônimo numa tarde de chuva, sentada ao lado de Ícaro, enquanto ele brigava com um roteador que respondia em idioma de Aster. Quando escreveu a última frase, não anunciou nada. Só fechou o notebook, encostou o ombro no dele e olhou para o morro aceso. Ícaro perguntou se o final era feliz. Priscila respondeu que era provisório, que dava menos azar. Ele concordou. Finais provisórios, no Cruzeiro, tinham a vantagem de deixar a luz ligada para o próximo capítulo da vida.